segunda-feira, 21 de maio de 2012

Euro: com o povo ou sem o povo?:: Luiz Carlos Mendonça de Barros

Uma das coisas que aprendi foi entender a diferença entre pensar a economia de um país com o povo e sem ele. Esta é uma das fontes mais importantes das falhas analíticas em tempos de crise, como vive hoje a chamada zona do euro. Digo isso ao leitor do Valor por experiência própria e não apenas por avaliar erros de terceiros. A crise na Europa é um caso clássico desse conflito quando o povo, via eleições, entra na equação da economia. Certamente por isso, ela está sendo tão longa e dramática e a definição de um caminho de saída, tão difícil.

Uma das características mais importantes da experiência do euro foi a construção de um sistema monetário simples em sua lógica - o câmbio fixo - e que parecia fazer sentido nos momentos eufóricos de sua criação em 1999. O câmbio fixo pode assumir várias formas, fracas ou fortes. As mais fortes são: o chamado Currency Board - quando uma moeda é lastreada em ouro ou em outra moeda com credibilidade - e a união monetária. Nesta, há um compromisso legal e, em tese, irrevogável, de partilha de uma mesma moeda e a adoção de uma política monetária comum, via um Banco Central único.

A união monetária sob o euro iniciou-se com a fixação da paridade entre as moedas nacionais em termos do ECU (a unidade cambial europeia), e que em seguida foi convertida no euro, na razão de 1 para 1. As taxas de conversão para o ECU foram fixadas a partir de estudos e recomendações da Comissão Europeia e, em tese, refletiam o poder de compra relativo entre as moedas naquele momento. Por exemplo, quando o euro foi criado o marco alemão valia nos mercados de câmbio o equivalente a 1,96 por ECU, o franco francês 6,56 e a lira italiana 1.936. No caso da Grécia, cuja paridade foi fixada dois anos depois, a relação era de 340,75 dracmas por ECU.

Não vejo outra saída para a Europa, se não um redesenho da região, com a redução do numero de países.

Nos anos que se seguiram, cada uma dessas economias trilhou seus caminhos junto com seus povos, mas a relação com o euro não mudou. Se a moeda alemã ainda existisse hoje, operadores do mercado avaliam que sua paridade com o dólar deveria estar próxima a 80 centavos de marco. Para os alemães, seria uma valorização de quase 40% em relação ao patamar atual do euro.

Como seria a eficiente e forte economia alemã com uma taxa de câmbio a 80 centavos por dólar americano? Como sobreviveria sua indústria, que tem nas exportações sua grande fonte de vigor e eficiência? Essas observações permitem avaliar o enorme benefício que o euro, com sua banda de países de economia mais fracas, representa para os países de economias mais fortes como Alemanha, Holanda e, por que não, a França.

O outro lado da mesma moeda é o impacto que o euro, com sua parcela importante do marco alemão, têm sobre a economia grega. Certamente o valor implícito da dracma no mercado de hoje seria pelo menos equivalente à potencial valorização do marco alemão, com o sinal trocado. Sendo isso verdade, o "euro grego" ou o "novo dracma", se existisse, deveria valer hoje algo como duas unidades por dólar.

Esse é o maior problema associado à moeda única e que foi levantado por vários técnicos e políticos quando da criação do euro. Trata-se, na sua essência econômica, de um problema de competitividade e de desequilíbrio no balanço de pagamentos dos membros mais fracos. Na sua vertente política, esse problema se transforma em conflitos redistributivos e qualidade de vida ao longo do tempo. A longa história do chamado padrão ouro e dos regimes de câmbio fixo é riquíssima em exemplos de como eles tendem a acabar mal. O que estamos vendo hoje na Europa é certamente um caso limite, dada a complexidade das diferenças das economias e nações envolvidas.

Nas eleições na Grécia em junho dificilmente esse tipo de argumento será utilizado pela sua complexidade e dificuldade de ser explicitado, mas do ponto de vista econômico ele é real e conhecido por muitos. Certamente as mensagens políticas na campanha eleitoral vão ser mais simples e dramáticas por razões óbvias e o essencial será deixado de lado.

Pessoalmente não vejo outra saída, para a Europa, senão um redesenho da zona do euro, com a redução do número de países que o adotam como sua moeda nacional. Para os outros, um processo organizado de saída, com um programa complexo e abrangente de transição, precisa ser enfrentado. Afinal existem países na Europa que pertencem ao projeto político e mantêm suas moedas nacionais como a Suécia por exemplo.

Não me perguntem como fazer essa separação, pois não me sinto preparado para responder essa questão. Mas com tempo e uma decisão política clara não tenho duvidas que a Europa encontrará os mecanismos para que a correção de rumo funcione e devolva à região um clima de normalidade econômica, política e social. Talvez esse passo definitivo na Europa não possa ser tomado agora pois os mercados estão à beira de um ataque de nervos e ainda não existe sequer um consenso entre as lideranças europeias de que este é o único caminho viável.

Com o tempo os europeus vão se convencer que as lições de outras experiências e o drama dos últimos anos em seus próprios domínios não permite outra solução.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Economia criativa:: Aécio Neves

Eventos de porte que têm como base a economia criativa florescem país afora. Amanhã o Fashion Rio abre suas portas, antecipando-se, em duas semanas, ao São Paulo Fashion Week. Há pouco foi encerrado o Minas Trend Preview.

São exemplos do crescimento exponencial de uma atividade econômica que, sem perder o fio de sua origem, a de um artesanato nascido de talentos criativos, expandiu-se como negócio amplo e relevante, gerador de milhares de empregos qualificados e de alto valor agregado.

Há algum tempo os potenciais dessa nova economia vêm ganhando a respeitabilidade do mercado.

A crise de 2008 apressou o debate, ao solapar as bases da economia tradicional e expor a fragilidade de segmentos econômicos antes tidos como inabaláveis.

Ao se reacomodarem, pós-crise, pôde-se observar que essas inovadoras áreas produtivas, até então desprezadas na hierarquia da economia tradicional, dispõem de fôlego e vitalidade surpreendentes.

O que elas têm em comum é o insumo da liberdade, da cooperação e da criatividade. Estão mais para software do que para hardware.

A moda, a informática, a comunicação, a música, o cinema, a arte e o design pontuam nesse campo. Reivindicam, no começo de século 21, com justiça, um protagonismo que antes lhes fora negado, sempre no incômodo papel de figurantes à reboque das locomotivas da velha economia.

Estatísticas da Unctad, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, indicam que, nos primeiros anos da década, os bens e serviços criativos cresceram no mundo a uma taxa surpreendente, quando comparada à manufatura convencional. São números pré-crise. Tendem a crescer ainda mais.

O turismo é outro exemplo. Tanto na França, primeiro destino do mundo, quanto na Espanha, a atividade está entre as que lideram os setores que produzem a riqueza nacional. O Brasil ainda não descobriu esse potencial.

Às vésperas de grandes eventos internacionais, somos reconhecidos pelo Fórum Econômico Mundial como o 1º país em recursos naturais, o 23º em recursos culturais, mas ainda o 114º em políticas e regulamentações de apoio ao setor.

A economia criativa encontra no Brasil a hora e a vez para crescer e nortear os rumos da diferenciação do nosso modelo de desenvolvimento. Pode -e deve- contribuir para a busca de novos modelos de produção e consumo e, consequentemente, para um país e um planeta mais sustentável.

O desafio central dos governos é garantir as condições necessárias para que o novo continue a florescer. O desenvolvimento requer a invenção do futuro, dizia Celso Furtado. E a invenção do futuro exige ética e criatividade.

Aécio Neves é senador (PSDB-MG)

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Cotas raciais - quem ganha, quem perde? :: José Goldemberg

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu recentemente, por unanimidade, que a introdução de cotas raciais no acesso às universidades públicas federais não viola a Constituição da República, seguindo a linha adotada nos Estados Unidos há algumas décadas de introduzir "ações afirmativas" para corrigir injustiças feitas no passado. A decisão flexibiliza a ideia básica de que todos são iguais perante a lei, um dos grandes objetivos da Revolução Francesa.

Ela se origina na visão de que é preciso aceitar a "responsabilidade histórica" dos malefícios causados pela escravidão e compensar, em parte, as vítimas e seus descendentes. A mesma ideia permeia negociações entre países, entre ex-colônias e as nações industrializadas, na área comercial e até nas negociações sobre o clima.

Sucede que, de modo geral, "compensar" povos ou grupos sociais por violências, discriminações e até crimes cometidos no passado raramente ocorreu ao longo da História. Um bom exemplo é o verdadeiro "holocausto" resultante da destruição dos Impérios Inca e Asteca, na América Latina, ou até da destruição de Cartago pelos romanos, que nunca foram objeto de compensações. Se o fossem, a Espanha deveria estar compensando até hoje o que Hernán Cortez fez ao conquistar o México e destruir o Império Asteca.

É perfeitamente aceitável e desejável que grupos discriminados, excluídos ou perseguidos devam ser objeto de tratamento especial pelos setores mais privilegiados da sociedade e do próprio Estado, por meio de assistência social, educação, saúde e criação de oportunidades. Contudo, simplificar a gravidade dos problemas econômicos e sociais que afligem parte da população brasileira, sobretudo os descendentes de escravos, estabelecendo cotas raciais para acesso às universidades públicas do País, parece-nos injustificado e contraprodutivo, porque revela uma falta de compreensão completa do papel que essas instituições de ensino representam.

Universidades públicas e gratuitas atendem apenas a um terço dos estudantes que fazem curso superior no Brasil, que é uma rota importantíssima para a progressão social e o sucesso profissional. As demais universidades são pagas, o que prejudica a parte mais pobre da população estudantil. Essa é uma distorção evidente do sistema universitário do País. Mas o custo do ensino superior é tão elevado que apenas países ricos como a França, a Suécia ou a Alemanha podem oferecer ensino superior gratuito para todos. Não é o nosso caso. Essa é a razão por que existem vestibulares nas universidades públicas, onde a seleção era feita exclusivamente pelo mérito até recentemente.

A decisão recente do Supremo Tribunal Federal deixa de reconhecer o mérito como único critério para admissão em universidades públicas. E abre caminho para a adoção de outras cotas, além das raciais, talvez, no futuro.

Acontece que o sistema universitário tem sérios problemas de qualidade e desempenho, como bem o demonstra o resultado dos exames da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) - garantia da qualidade dos profissionais dessa área -, que reprova sistematicamente a maioria dos que se submetem a ele, o mesmo ocorrendo com os exames na área médica.
Órgãos do governo como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Ministério da Educação, ou o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, têm feito esforços para melhorar o desempenho das universidades brasileiras por meio de complexos processos de avaliação, que têm ajudado, mas não se mostraram suficientes.

Esses são mecanismos externos às universidades. Na grande maioria delas, os esforços internos são precários em razão da falta de critérios e de empenho do Ministério da Educação, que escolhe os reitores, alguns dos quais, como os da Universidade de Brasília, iniciaram o processo de criação de cotas raciais como se esse fosse o principal problema das universidades e do ensino superior no Brasil.

O populismo que domina muitas dessas universidades, há décadas, é a principal razão do baixo desempenho das universidades brasileiras na classificação mundial. Somente a Universidade de São Paulo (USP) conseguiu colocar-se entre as melhores 50 nesse ranking.

O problema urgente das universidades brasileiras é, portanto, melhorar de nível, e não resolver problemas de discriminação racial ou corrigir "responsabilidades históricas", que só poderão ser solucionadas por meio do progresso econômico e educacional básico.

O governo federal parece ter tomado consciência desse problema ao lançar o programa Ciência sem Fronteiras, que se propõe a enviar ao exterior, anualmente, milhares de estudantes universitários, imitando o que o Japão fez no século 19 ou a China no século 20 e foi a base da modernização e do rápido progresso desses países.

Daí o desapontamento com a decisão da Suprema Corte não só por ter sido unânime, mas também por não ter sido objeto de uma tomada de posição de muitos intelectuais formadores de opinião, exceto notáveis exceções, como Eunice R. Durham, Simon Schwartzman, Demétrio Magnoli e poucos outros que se manifestaram sobre a inconveniência da decisão.

O único aspecto positivo na decisão do Supremo Tribunal Federal foi o de que simplesmente aceitou a constitucionalidade das cotas raciais, cabendo aos reitores, em cada universidade, adotá-las e implementá-las.

Há aqui uma oportunidade para que os professores mais esclarecidos assumam a liderança e se esforcem para manter elevado o nível de suas universidades sem descuidar de tornar o acesso pelo mérito mais democrático, e sem a adoção de cotas raciais, como algumas universidades estaduais de São Paulo estão fazendo.

José Goldemberg, professor emérito da USP

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Crise alimenta cenários de PIB mais fraco

Sergio Lamucci

SÃO PAULO - Com a deterioração crescente da economia internacional nas últimas semanas, começam a ganhar importância os cenários alternativos para a economia brasileira neste ano, contemplando os efeitos negativos de um quadro de ruptura na Europa. A LCA Consultores, que tradicionalmente opera com mais de um conjunto de projeções, estima um PIB de 2,6% no quadro básico, e de 1,2% no adverso.

Já a MB Associados trabalha com um crescimento de 2,5% no cenário em que a Grécia não sai da zona do euro, mas montou um em que o Produto Interno Bruto (PIB) pode encolher 1% caso os gregos deixem a união monetária. Se a intensidade do impacto da piora externa sobre a economia brasileira divide os analistas, há um consenso de que o investimento, pelo lado da demanda, e a indústria, pelo lado da oferta, vão sofrer mais.

A LCA atribui 25% de probabilidade ao cenário adverso, percentual que, na visão de Fernando Sampaio, sócio-diretor da consultoria, pode aumentar, dado o crescimento das incertezas em relação à situação da Europa. Se concretizado esse quadro, o investimento teria queda no ano, encolhendo 1,2%, enquanto a produção industrial recuaria 0,5%. Ele acha improvável, porém, uma retração do PIB neste ano, mesmo em caso de saída da Grécia da zona do euro.

"A política econômica ainda tem cartuchos para estimular a atividade", diz Sampaio. Para ele, se a situação externa piorar muito mais, atingindo duramente a atividade econômica doméstica, é possível apelar para cortes ainda mais fortes dos juros, redução dos compulsórios e relaxamento adicional das medidas macroprudenciais (de controle do crédito). Depois do arsenal monetário, o governo também poderia promover algum um afrouxamento da política fiscal, com aumento de gastos, e uma atuação mais agressiva do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O câmbio mais desvalorizado, por sua vez, pode dar alguma ajuda à indústria, contribuindo para deter a perda de mercado para os importados, acredita ele.

No cenário base, em que a economia internacional não desanda, a LCA espera que o PIB cresça 2,6% neste ano, puxado especialmente pelo consumo das famílias, que avançaria 4,1%. Mesmo no quadro adverso, com alta do PIB de 1,2%, o consumo das famílias ainda registraria uma expansão razoável, de 3,4%. O impacto do aumento de 14% do salário mínimo e o mercado de trabalho aquecido impulsionam esse componente da demanda, ainda que o alto endividamento de muitas famílias seja um entrave a um avanço mais forte.

Já o economista-chefe da MB, Sérgio Vale, é mais pessimista. Na semana passada, ele reduziu a estimativa de crescimento para 2012 de 3% para 2,5%, por causa da deterioração recente do quadro da Europa. Nessa hipótese, ele considera uma situação política complicada na zona do euro, mas não uma ruptura. A Grécia ainda ficaria na união monetária. "No entanto, apenas a nova rodada de mudança de percepção em relação a Europa já é suficiente para mudar a trajetória de crescimento de curto prazo para baixo", diz ele, que considera 2,5% um teto para a expansão do PIB em 2012.

No primeiro trimestre, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que tenta antecipar o comportamento do PIB, cresceu apenas 0,15% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal. Indicadores econômicos de abril tampouco sugerem uma reação expressiva da economia. Ao lado do cenário externo complicado, isso contribuiu para que muitas instituições reduzissem abaixo de 3% as suas estimativas para o PIB neste ano.

Vale traça um quadro muito negativo para a indústria, que já foi muito mal no primeiro trimestre. Na sexta-feira, ele reduziu a previsão para a produção industrial neste ano de um já magro 1,2% para um tombo de 2,2%, no cenário que não contempla ruptura da zona do euro. Para ele, a piora acentuada do quadro externo em maio pode provocar quedas adicionais da produção neste mês e no próximo, "pelo menos".

Vale também está pessimista em relação ao investimento. Prevê, por enquanto, uma alta neste ano de apenas 0,1%, mas já vê como mais provável uma queda. Se o cenário de ruptura na Europa se precipitar e a Grécia deixar a moeda comum, as coisas podem ficar bem piores, diz ele. Há o risco grande de contágio para outros países da periferia da zona do euro, elevando ainda mais a incerteza global.

Por aqui, o PIB poderia cair até 1% neste ano, com a possibilidade de a produção industrial recuar algo como 10%, acredita Vale. Nesse cenário, o investimento poderia cair 15% ou mais. Com uma deterioração forte do cenário externo, os já ressabiados empresários se tornariam ainda mais cautelosos, engavetando projetos de ampliação e modernização da capacidade produtiva.

A Tendências Consultoria revisou neste mês a estimativa de crescimento deste ano de 3,2% para 2,5%, projeção idêntica à do cenário pessimista definido em março, que tinha como uma das premissas uma ruptura na zona do euro apenas em 2013.

O economista Juan Jensen, da Tendências, diz que, quando for revisto no mês que vem, o quadro adverso certamente apontará uma expansão mais modesta da atividade neste ano. Como Sampaio, Jensen acha improvável um PIB negativo em 2012, ainda que a situação europeia piore significativamente. Em caso de o cenário externo degringolar, o investimento seria bastante afetado, diz ele, acreditando também que o consumo das famílias não sairia ileso.

O economista Aurélio Bicalho, do Itaú Unibanco, por sua vez, revisou a sua projeção para o PIB de 2012 para baixo, mas ainda acredita num crescimento superior a 3% - a estimativa caiu de 3,5% para 3,1%. A atividade econômica nos primeiros meses do ano mostrou que a retomada tem sido lenta, mas ele acredita numa recuperação mais forte no segundo semestre. A massa salarial cresce com força, por causa do novo salário mínimo e do desemprego baixo, impulsionando as vendas nos supermercados, e a confiança do consumidor está em níveis elevados, diz Bicalho. Os efeitos defasados da queda dos juros e o aumento dos gastos públicos também devem incentivar a economia na segunda metade do ano, acredita ele.

O Itaú Unibanco ainda não elaborou um cenário alternativo, levando em conta uma deterioração mais forte da economia internacional, mas pode fazê-lo em breve, de acordo com Bicalho. Para o primeiro trimestre, ele projeta crescimento de 0,7% em relação ao trimestre anterior, feito o ajuste sazonal, acima do 0,5% projetado pela LCA, MB e Tendências.

Apesar de o IBC-Br ser considerado um bom termômetro para a tendência do PIB, ele costuma mostrar alguma diferença em relação ao resultado divulgado pelo IBGE, o que ajuda a entender por que as consultorias não alinham automaticamente as suas estimativas ao número do IBC-Br.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

BNDES vai ganhar R$ 10 bi para linhas de crédito

O Tesouro vai liberar R$ 10 bilhões para reforçar as linhas de financiamento do BNDES. Os recursos fazem parte do esforço para irrigar o mercado e acelerar a expansão da atividade. O governo também prepara novas medidas de estímulo ao crédito que podem ser anunciadas ainda esta semana.

Tesouro vai liberar mais R$ 10 bilhões para reforçar linhas de crédito do BNDES

Renata Veríssimo

BRASÍLIA - O Tesouro vai liberar R$ 10 bilhões para reforçar as linhas de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os recursos fazem parte do esforço para irrigar o mercado com crédito e acelerar a expansão da atividade, que teve baixo desempenho no primeiro quadrimestre deste ano.

O governo também prepara novas medidas de estímulo ao crédito, que podem ser anunciadas nesta semana. "O governo quer animar a economia para acelerar o crescimento", disse uma fonte.

No cardápio, reduções de taxas de juros nos empréstimos para a habitação oferecidos pela Caixa Econômica Federal e medidas para destravar o crédito para a aquisição de automóveis.

Entre elas, a liberação de parte dos depósitos compulsórios que as instituições financeiras são obrigadas a deixar no Banco Central, o barateamento do custo do dinheiro, a ampliação do número de prestações e a redução do valor da entrada.

Uma fonte do governo informou que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, acertou na semana passada com o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, o início do repasse dos R$ 45 bilhões anunciados entre as medidas da segunda fase do Plano Brasil Maior. O banco receberá R$ 10 bilhões em junho e outros R$ 10 bilhões no segundo semestre. A avaliação é de que o BNDES não precisará, este ano, de todo o montante anunciado. O restante ficará para 2013.

Mais recursos. Mantega decidiu anunciar um valor maior do que a necessidade estimada para o BNDES em 2012 para sinalizar que o governo não deixará faltar recursos para o setor produtivo. Foi justamente para emitir esse recado ao mercado, que o valor inicialmente trabalhado foi ampliado de R$ 30 bilhões para R$ 45 bilhões. As linhas operadas com recursos do Tesouro têm taxas de juros subsidiadas e são destinadas a capital de giro e investimentos das empresas.

Para o setor da construção civil, a Fazenda negocia com a Caixa a redução das taxas de juros das linhas de financiamento habitacional operadas com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Além disso, a pedido da Associação das Indústrias de Material de Construção (Abramat), tenta destravar o crédito para pessoas físicas comprarem material de construção até R$ 20 mil. Essa linha tem R$ 1 bilhão do FGTS, mas não deslanchou.

Também há preocupação em acelerar o crédito para habitação do programa Minha Casa Minha Vida. A presidente Dilma Rousseff já anunciou que a meta do programa passará de 2 milhões para 2,4 milhões de unidades até 2014.

Outra preocupação do governo é com o setor automotivo. As empresas estão com estoques elevados e o governo teme demissões. A equipe econômica tem mantido reuniões com representantes do setor e dos bancos para destravar o crédito, que secou com a alta da inadimplência. Mantega já determinou que Caixa e Banco do Brasil ofereçam mais empréstimos para a compra de veículos.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Imagens do Nordeste: Joaquim Cardoso

Sobre o capim orvalhado
Por baixo das mangabeiras
Há rastros de luz macia:
Por aqui passaram luas,
Pousaram aves bravias.

Idílio de amor perdido,
Encanto de moça nua
Na água triste da camboa;
Em junhos do meu Nordeste
Fantasma que me povoa.

Asa e flor do azul profundo,
Primazia do mar alto,
Vela branca predileta;
Na transparência do dia
És a flâmula discreta.

És a lâmina ligeira
Cortando a lã dos cordeiros,
Ferindo os ramos dourados;
– Chama intrépida e minguante
nos ares maravilhados.

E enquanto o sol vai descendo
O vento recolhe as nuvens
E o vento desfaz a lã;
Vela branca desvairada,
Mariposa da manhã.

Velho calor de Dezembro,
Chuva das águas primeiras
Feliz batendo nas telhas;
Verão de frutas maduras,
Verão de mangas vermelhas.

A minha casa amarela
Tinha seis janelas verdes
Do lado do sol nascente;
Janelas sobre a esperança
Paisagem, profundamente.

Abri as leves comportas
E as águas duras fundiram;
Num sopro de maresia
Viveiros se derramaram
Em noites de pescaria.

Camarupim, Mamanguape,
Persinunga, Pirapama,
Serinhaém, Jaboatão;
Cruzando barras de rios
Me perdi na solidão.

Me afastei sobre a planície
Das várzeas crepusculares;
Vi nuvens em torvelinho,
Estrelas de encruzilhadas
Nos rumos do meu caminho.

Salinas de Santo Amaro,
Ondas de terra salgada,
Revoltas, na escuridão,
De silêncio e de naufrágio
Cobrindo a tantos no chão.

Terra crescida, plantada
De muita recordação.

domingo, 20 de maio de 2012

OPINIÃO DO DIA – Eduardo Graeff: CPI e exemplo

O PSDB precisa resolver: ou defende claramente o governador [Marconi Perillo], ou admite claramente que não tem condições de defendê-lo. Para fazer uma coisa ou outra, a direção do PSDB precisa ouvir o governador formalmente, examinar os fatos pertinentes e se pronunciar: ele é uma vítima inocente? Ou de algum modo, por ação ou omissão, tem culpa pela ingerência de Carlos Cachoeira no governo de Goiás? Juízo que é político, e não técnico-jurídico. A questão é se as ações e/ou omissões do governador são compatíveis com o que o PSDB entende por bom governo. Se alguém teme o que o governador tem a dizer, como afirmou o líder do PSDB no Senado, mais uma razão para que seu partido tome a iniciativa de ouvir - e tornar público - o que ele tem a dizer. Assim ficará claro que nem o PSDB nem o governador temem coisa alguma. Se a turma da Delta retarda o momento de ouvir os governadores na CPI, a direção do PSDB não precisa esperar sentada, deixando o governador Perillo irritado. Pode convidá-lo para se explicar na comissão de ética do partido. É o mínimo que devem ao governador, ao partido e, vale lembrar, aos seus eleitores.

Eduardo Graeff, E-agora, 19 de maio de 2012.

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Novo golpe em aposentados frauda o crédito consignado
Presidente do BC: país está 200% preparado

FOLHA DE S. PAULO
Custo sobe e corrói lucro de empresas brasileiras
Comissão da Verdade: Dois personagens à procura de uma história
Matriz da Delta no Rio pagou empresa de fachada, diz PF
Parece marte, mas é Minas

O ESTADO DE S. PAULO
Governo quer cortar ICMS para baratear telefone
Delta pode perder R$ 1,2 bi em contratos com a União
Brasil já sente efeitos da desaceleração da China

CORREIO BRAZILIENSE
Maioria dos deputados é contra 14º e 15º salários
Mais brasileiros são barrados na Espanha
2020, o ano em que ficaremos à pé

ESTADO DE MINAS
Vidas secas
Bicheiro tinha o poder de um chefão mafioso

ZERO HORA (RS)
Casamento gay sai das gavetas
No limiar da Ditadura

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
O poder sem segredos
Dividido, PT vai às urnas escolher candidato

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

A implosão de uma empreteira

Acusada de irregularidades e pagamento de propina, a construtora Delta, uma das maiores do país, agoniza. Nos bastidores, seu dono ameaça revelar segredos que comprometeriam políticos e outras grandes empreiteiras

Otávio Cabral e Daniel Pereira

É absolutamente previsível a explosão que pode emergir de uma apuração minuciosa envolvendo as relações de uma grande construtora, no caso a Delta Construções, e seus laços financeiros com políticos influentes. A empreiteira assumiu o posto de líder entre as fornecedoras da União depois de contratar como consultor o deputado cassado José Dirceu, petista que responde a processo no Supremo Tribunal Federal (STF) no papel de "chefe da organização criminosa" do mensalão. Além disso, consolidou-se como a principal parceira do Ministério dos Transportes na esteira de uma amizade entre seu controlador, Fernando Cavendish, e o deputado Valdemar Costa Neto, réu no mesmo processo do mensalão e mandachuva do PR, partido que comandou um esquema de cobrança de propina que floresceu na gestão Lula e só foi desmantelado no ano passado pela presidente Dilma Rousseff. A empreiteira de Cavendish é dona da maior fatia das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e tem contratos avaliados em cerca de 4 bilhões de reais com 23 dos 27 governos estaduais. Todo esse império começou a ruir desde que a Delta foi pilhada no epicentro do escândalo envolvendo o contraventor Carlos Cachoeira. Se os segredos de Cachoeira são dinamite pura, os de Cavendish equivalem a uma bomba atômica. Fala, Cavendish!

Na semana passada, a CPI do Cachoeira aprovou a convocação de 51 pessoas e 36 quebras de sigilo bancário, fiscal e telefônico. Os números foram festejados pela cúpula da comissão como prova inconteste da disposição dos parlamentares para investigar os tentáculos da máfia da jogatina nos partidos políticos, na seara das empreiteiras e na administração pública. Sob essas dezenas de votações, no entanto, esconde-se a operação patrocinada pelo ex-presidente Lula e alguns políticos para impedir que a bomba atômica de Cavendish seja detonada. A estratégia é enaltecer as convocações e quebras de sigilo relativas a empresas e personagens já fartamente investigados pela Polícia Federal. Assim fica mais fácil despistar as manobras para evitar que Cavendish conte tudo — mas tudo mesmo — o que sabe sobre como obter obras públicas pagando propinas a pessoas com poder de decisão nos governos. Investigar a Delta, aliás, foi considerada a tarefa prioritária pelos próprios delegados da Polícia Federal que prestaram depoimento à CPI. Eles disseram que desvendar os mecanismos subterrâneos de concessão de obras públicas no Brasil seria o maior legado da CPI. Fala, Cavendish!

Deflagradas pela Polícia Federal, as operações Vegas e Monte Carlo revelaram o envolvimento do contraventor Carlos Cachoeira com políticos como o senador Demóstenes Torres (ex-DEM) e Cláudio Abreu, ex-diretor da Delta na Região Centro-Oeste. Entre outras atividades, o trio agia para abrir os cofres dos governos estaduais e federal à empresa. Para tanto, ofereceria propina em troca de contratos. A PF colheu indícios desse tipo de oferta criminosa, por exemplo, em Goiás e no Distrito Federal. Foi com base nessa delimitação geográfica que os petistas defenderam uma investigação sobre a atuação da empreiteira apenas na Região Centro-Oeste — tese que saiu vitoriosa na semana passada. "Não há conversa gravada do Cachoeira com o Fernando Cavendish. A CPI não pode se transformar numa casa de espetáculo", bradou o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP). "A generalização beira a uma devassa", reforçou Paulo Teixeira (PT-SP). Os petistas cumpriram à risca as ordens dadas por Lula um dia antes, quando ele esteve em Brasília para a cerimônia de instalação da Comissão da Verdade. A ordem foi calar Cavendish. Mas o correto é o contrário. Fala, Cavendish!

O ex-presidente sabe do potencial de dano ao PT e a seus aliados caso Fernando Cavendish conte como a sua Delta conseguia seus contratos de obras e, em troca, pagava políticos. Numa conversa gravada com ex-sócios, Cavendish os incentivou a cortar caminho para o sucesso comprando políticos. Na tabela da corrupção da Delta, um senador, por exemplo, custaria 6 milhões de reais. A Delta tem obras contratadas por governadores pertencentes aos maiores partidos do país — PT, PSDB e PMDB. Será que essa onipresença da Delta explica as razões pelas quais a CPI decidiu não chamar para depor os governadores Agnelo Queiroz (PT-DF), Marconi Perillo (PSDB-GO) e Sérgio Cabral (PMDB-RJ)? O deputado Vaccarezza deu a resposta. "A relação do PMDB com o PT vai azedar na CPI. Mas não se preocupe, você é nosso e nós somos teu", escreveu em idioma parecido com o português o deputado Vaccarezza numa mensagem de celular destinada ao governador Sérgio Cabral. Captada pelas câmeras de televisão do SBT, a mensagem revela de forma inequívoca o grande arranjo para calar o dono da Delta, amigo íntimo de Cabral. Portanto, é bom repetir a palavra de ordem que pode salvar a CPI do fracasso. Fala, Cavendish!

Nos bastidores, Cavendish tem falado. E muito. Ele usou interlocutores de sua confiança para divulgar suas mensagens. Uma delas foi endereçada aos políticos. Seus soldados espalharam a versão de que a empreiteira destinou cerca de 100 milhões de reais nos últimos anos para o financiamento de campanhas eleitorais — e que o dinheiro, obviamente, percorreu o bom e velho escaninho dos "recursos não contabilizados". Uma informação preciosa dessas deveria excitar o ânimo investigativo da CPI do Cachoeira. Os mensageiros de Cavendish também procuraram solidariedade na iniciativa privada. A arma foi ressaltar que o caixa dois da Delta, que serviu para financiar campanhas, segue um modelo idêntico ao de outras empreiteiras, inclusive usando os mesmos parceiros para forjar serviços e notas fiscais frias. A mensagem é: se atingida de morte, a Delta reagiria alvejando gente graúda. Como o navio nazista Bismarck, a Delta afundaria atirando. Faria, assim, um bem enorme ao interesse coletivo, mas seria mortal aos interesses privados. Os mensageiros de Cavendish têm espalhado que a mesma empresa fornecedora de notas frias da qual sua construtora se servia abastecia outras duas grandes empreiteiras. São essas ameaças, somadas à coloração suprapartidária dos contratos firmados, que azeitam a blindagem da Delta. Como saber se Cavendish está apenas blefando em uma clássica operação de controle de danos? Levando-o à CPI. Fala, Cavendish!

Desde a eclosão do escândalo, a Delta foi forçada a deixar as obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), encomendadas pela Petrobras, e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), sob responsabilidade do Ministério dos Transportes. A polêmica sobre o destino da empreiteira pôs a presidente e o antecessor em rota de colisão pela segunda vez em menos de dois meses. Lula patrocinou a criação da CPI do Cachoeira ao considerá-la uma oportunidade de desqualificar instituições que descobriram, divulgaram e investigaram o esquema do mensalão, como a imprensa, o Ministério Público, o Judiciário e a oposição. Logo após a abertura da CPI, Fernando Cavendish passou a negociar a empresa com o grupo J&F, cujos donos eram parceiros preferenciais do governo Lula. A venda foi orquestrada pelo ex-presidente. O papel de Henrique Meirelles, presidente do Banco Central nos oito anos de mandato do petista e atual CEO do J&F, na manobra ainda não está claro. Meirelles não comenta, mas sabe-se que ele, desde os tempos de BC, não assina nada que não tenha a chancela de seus advogados particulares.

O J&F tem 35% de suas ações nas mãos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Mais que isso. Tomou emprestados mais de 6 bilhões de reais no banco. É, portanto, uma empresa semiestatal. Por meio de assessores, a presidente Dilma Rousseff deixou claro que seu governo não apoia a encampação da Delta pelo grupo J&F. A contrariedade de Dilma foi explicitada pela decisão das estatais de tirar a Delta de obras do Dnit e da Petrobras. Dilma determinou à Controladoria-Geral da União (CGU) que declare a empreiteira inidônea e, portanto, proibida de fechar contratos com a União. "O governo fará tudo o que estiver a seu alcance para esse negócio não sair", diz um auxiliar da presidente. Quem conhece Fernando Cavendish mais de perto garante que ele nem de longe vestiria o traje de homem-bomba. Mas como ter certeza de que tem potencial explosivo ou apenas quer minimizar os ataques a ele e a sua empresa? Levando-o à CPI. Vamos lá, coragem. Fala, Cavendish!

FONTE: VEJA, 23/5/2012

Jogo de interesses influencia rumo da CPI

Deputados, senadores e partidos formam alianças inusitadas para levar questões particulares a investigação ou barrá-las

Chico de Góis, Paulo Celso Pereira

BRASÍLIA. As duas primeiras semanas da CPMI que apura as ligações do contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com parlamentares, governos e iniciativa privada foram marcadas por bate-boca, atuações solitárias, defecções nas bancadas e alianças improváveis. Só que boa parte desses fatos nada tem a ver com a investigação. Apesar de publicamente todos os parlamentares dizerem que estão focados no objeto da CPMI, o que se percebe é uma disputa pela defesa de interesses particulares.

Nesse sentido, está a aliança, inimaginável em outros tempos, do senador Fernando Collor (PTB-AL) com os petistas Cândido Vaccarezza (SP), Paulo Teixeira (SP) e Humberto Costa (PE) para expor aos holofotes da CPMI o jornalista Policarpo Jr., da revista "Veja". Collor e petistas vislumbram a possibilidade de desgaste da publicação que teve papel importante no impeachment do primeiro presidente eleito pelo voto direto após a ditadura e na crise do mensalão.

Collor, ao mesmo tempo, é o alvo predileto de outros integrantes da CPMI. Caso do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), que faz questão de expor, em cada reunião, suas divergências com o ex-presidente da República, e do senador Pedro Taques (PDT-MT), que gosta de citar artigos do Código Penal, da Constituição ou de qualquer outra legislação para contradizer o colega de Senado.

Até mesmo um correligionário de Collor expressou divergência com ele. O deputado Sílvio Costa (PTB-PE), que tem se notabilizado por falar alto, bater na mesa e querer ganhar no grito as discussões com o presidente da CPMI, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), chegou a pedir, na quinta-feira passada, que Collor deixasse de ressentimentos e se reconciliasse com o Brasil. Conseguiu o silêncio do ex-presidente da República, que usualmente rebateria com agressividade.

As votações também têm revelado alianças informais marcantes. Os representantes do PDT, por exemplo, têm se posicionado junto aos oposicionistas do DEM e do PSOL defendendo a mais ampla apuração das denúncias. Os tucanos, antes parceiros inseparáveis do DEM e sempre à frente de denúncias de corrupção, agora se mostram relutantes, defendendo as investigações, mas recuando quando o tema é o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), candidato a dar explicações sobre seu relacionamento com Cachoeira.

Escancarada pela troca de mensagens entre o deputado Cândido Vaccarezza e o governador do Rio, Sérgio Cabral, na última quinta-feira, a aliança entre o PT e o PMDB quer livrar o governador de dar explicações sobre sua amizade com o ex-presidente da Delta Fernando Cavendish e também impedir as investigações sobre a construtora, responsável por diversas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Diante de tantos interesses em jogo, uma frase do deputado Silvio Costa, com sua teatralidade, talvez represente bem o que pode ser o fim da CPMI:

- Eu acho que vamos chegar muito longe, mas longe da investigação. É a lonjura a que vamos chegar.

FONTE: O GLOBO

Maioria dos contratos da Delta expira em 2012

Mais de dois terços dos termos assinados com os ministérios dos Transportes e da Integração terminam até dezembro

Roberto Maltchik

BRASÍLIA . Ameaçada de ficar impedida por até cinco anos de fazer novos negócios com qualquer órgão público, a Delta Construções tem mais de dois terços de seus 83 contratos com o governo federal previstos para encerrar até o fim do ano. Ao todo, os termos que encerram em 2012 - a maior parte voltada à conservação e manutenção de rodovias - representam R$ 2,45 bilhões, 68% de todo o dinheiro que a construtora contabiliza nas licitações que continuam vigentes em dois ministérios: Transportes e Integração Nacional. Com quase 30 mil funcionários, a Delta cresceu e se mantém exclusivamente com dinheiro público.

A carteira de contratos da Delta com o governo federal foi o principal atrativo para a J&F, holding do Grupo JBS, que tem o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles no Conselho Consultivo, assumir a empresa, numa polêmica operação investigada pelo Ministério Público Federal. Não é à toa que os novos controladores anunciam que vão jogar pesado para impedir a rescisão de contratos e também evitar a declaração de inidoneidade, fundamentada nas provas recolhidas pela Polícia Federal em operação que identificou corrupção e tráfico de influência da Delta para tocar obras rodoviárias no Ceará. Um novo processo deve ser movido por causa da Operação Monte Carlo, que revelou a ligação da empresa com o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Ao todo, 58 contratos têm prazo de encerramento previsto até o fim de 2012. Os demais expiram entre 2013 e 2015, e seus valores somados alcançam R$ 1,17 bilhão. Entre os contratos vigentes da Delta, seis foram firmados no Ceará, dos quais quatro com o antigo superintendente do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), afastado depois da Operação Mão Dupla. São os contratos que, teoricamente, oferecem o maior risco de rompimento unilateral, alerta um ministro do Tribunal de Contas da União (TCU).

O principal contrato vigente da Delta, da Transposição do Rio São Francisco, também foi assinado no Ceará com o Ministério da Integração Nacional, em 2008, com o valor total de R$ 265,3 milhões. Neste caso, a empreiteira integra o Consórcio Nordestino, que dispensou entre 800 e mil trabalhadores na última semana. A nova direção da empresa se limitou a informar que não comenta decisões da gestão anterior. Internamente, os novos controladores avaliam que a empresa cresceu de forma desordenada e com um modelo de gestão incompatível com o seu volume de negócios.

Para ministro do TCU, contratos são de risco

Um membro da Corte de Contas ouvido pelo GLOBO explicou que a rescisão unilateral de todos os contratos da Delta é uma possibilidade remota. Ele prevê que o governo pesará o risco das ações judiciais que poderão ser movidas pela Delta contra a União, e o prejuízo que tais rescisões podem gerar aos cofres públicos. Porém, segundo o ministro do TCU, onde ficar comprovado dolo da empresa, a rescisão é iminente. O mesmo ocorrerá se forem identificadas obras com abandono do canteiro ou gravíssimos atrasos de execução. Para ele, os contratos da Delta são considerados de "elevado risco".

- O governo também poderá alegar razões de interesse público, o que está expresso na Lei de Licitações. Porém, esse é um argumento subjetivo, arriscado. Não é uma decisão simples. É possível que o governo entre com alguns processos de rescisão unilateral, que, ao longo do tempo, podem virar acordos amigáveis - explica.

FONTE: O GLOBO

J&F tenta ganhar tempo e provoca tensão na CGU

Atraso na defesa retarda processo sobre idoneidade

BRASÍLIA. Nos últimos dias, a J&F quis ganhar tempo para apresentar sua defesa no processo de inidoneidade da Delta, o que provocou tensão com a Controladoria-Geral da União (CGU). Os advogados da empresa sustentam que a CGU errou um dígito no CNPJ da Delta ao publicar a notificação no Diário Oficial da União. O governo reconhece que houve um erro, mas antes da notificação, e assegura que o fato não teria tido nenhuma influência sobre o prazo, previsto inicialmente para encerrar na semana passada.

A CGU argumenta que a J&F pediu 25 dias para apresentar sua defesa, em vez dos dez previstos em lei. Ganhou cinco dias adicionais, e deve apresentar os argumentos até terça-feira. Para o órgão, se a J&F diz que o prazo foi dilatado em função do erro de dígito do CNPJ, está agindo de má-fé.

A Delta Construções não se pronuncia sobre os argumentos que poderá utilizar em sua defesa. Porém, especialistas ouvidos pelo GLOBO asseguram que a troca do modelo de governança e o afastamento dos ex-diretores estarão elencados.

Paralelamente ao processo, os contratos estão sendo minuciosamente auditados no Ministério dos Transportes e na CGU. A J&F também audita todos os contratos. O governo ainda desenha todos os cenários para impedir a paralisação de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), caso a Delta seja afastada do canteiro de obras.

FONTE: O GLOBO

Delta pode perder R$ 1,2 bi em contratos com a União

Sob ameaça de ficar impedida de celebrar novos contratos com a União, a Delta Construções, investigada pela CPI do Cachoeira, também pode perder R$ 1,2 bilhão a receber de contratos em andamento, informa Marta Salomon. O valor equivale a parcela não paga de obras federais programadas para sair do papel até dezembro de 2015. A contabilidade foi feita pelo Estado com base em dados da Controladoria-Geral da União. A Delta mantém 108 contratos de obras com a União.

Investigada na CPI, Delta pode perder R$ 1,2 bilhão em contratos com União

Empresa está no epicentro do escândalo

Marta Salomon

BRASÍLIA - Ameaçada de ficar impedida de celebrar novos contratos com a União, a Delta Construções, investigada pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira, também pode perder R$ 1,2 bilhão a receber de contratos em andamento. O valor equivale a parcela não paga de obras federais programadas para sair do papel até dezembro de 2015.

A contabilidade foi feita pelo Estado a partir de dados fornecidos pela Controladoria-Geral da União (CGU). Ao todo, a empreiteira que liderou o ranking de pagamentos do governo a empresas durante três anos - de 2009 a 2011 - mantém 108 contratos de obras com a União, a maioria deles com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), vinculado ao Ministério dos Transportes.

A suspensão de contratos depende de análise caso a caso, feita pelos ministérios envolvidos, em parceria com a CGU. Atrasos nas obras ou eventuais irregularidades são os principais critérios dessa análise.

Auditoria. Questionada sobre a continuidade das obras, a Delta informou que só se manifestará sobre os contratos celebrados sob o comando de Fernando Cavendish depois da conclusão de uma auditoria na empresa, cujo controle foi transferido à J&F Participações S.A., holding à qual pertence o frigorífico JBS.

O mais caro dos contratos em andamento da Delta com a União trata das obras de um dos trechos da transposição do Rio São Francisco, em Mauriti (CE). Fechado em 2008, o contrato com a Delta e duas outras empresas do Consórcio Nordestino foi prorrogado até agosto deste ano.

Do total de R$ 265,4 milhões do contrato, R$ 152,9 milhões foram pagos, mas menos da metade do trabalho foi concluída.

Relatório da CGU aponta problemas de execução, acompanhamento e gerenciamento desse trecho da transposição do São Francisco. "Foram verificadas ainda medições indevidas de serviços e baixa execução dos contratos em relação ao cronograma previsto, além de alterações significativas de contratos", diz a Controladoria.

Há vários contratos de construção e manutenção de rodovias com valores acima de R$ 100 milhões ainda em andamento. É o caso de três contratos com validade até 2013: dois lotes de duplicação e restauração da BR-101 e a adequação da BR-060, em Goiás. Nessas obras, a Delta trabalha em consórcio com as construtoras Queiroz Galvão, JM e CBEMI. O contrato da Delta com o prazo de conclusão mais distante - dezembro de 2015 - é a recuperação da BR-174, no Amazonas.

Irregularidades. Esses últimos contratos com a Delta não aparecem na lista dos 80 negócios fechados com a empreiteira sob fiscalização da CGU. O R$ 1,2 bilhão que a Delta ainda teria a receber em contratos em andamento com a União não inclui pagamentos retidos por irregularidades, como os R$ 10,3 milhões de pagamentos bloqueados no contrato de R$ 85,7 milhões para a reforma do terminal remoto de passageiros de Cumbica, em São Paulo.

O bloqueio foi determinado pelo órgão de controle interno da Presidência da República. A obra teve a dispensa de licitação contestada pela Justiça e pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Construído às pressas, o terminal remoto ainda opera abaixo da capacidade, numa situação bem distante do caos aéreo previsto pela Infraero para contratar a Delta sem licitação.

Irregularidades como o superfaturamento e a má qualidade de obras provocaram a retenção de pagamentos de R$ 44,2 milhões pelo Ministério dos Transportes, que tampouco foram incluídos no total de R$ 1,2 bilhão de contratos em andamento ainda não desembolsados pela União.

A empreiteira já teve rescindido neste mês pela Petrobrás contratos de R$ 843,5 milhões para obras no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj). A Petrobrás alegou "baixo desempenho" da empreiteira.

Antes disso, a Delta havia anunciado a saída do consórcio responsável pela reforma do Maracanã, obra da Copa orçada em mais de R$ 800 milhões. Mais recentemente, a Delta deixou as obras da Ferrovia Oeste-Leste, que integra a carteira de projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Matriz da Delta no Rio pagou empresa de fachada, diz PF

Laudo da PF revela que a sede nacional da Delta enviou dinheiro a empresas de fachada investigadas pela polícia. O dado fragiliza o argumento da CPI do Cachoeira para limitar a apuração sobre a empresa à filial do Centro-Oeste. A Delta diz que a central só processa os pagamentos.

Laudo da PF fragiliza defesa da Delta em CPI

Dinheiro enviado a Cachoeira saiu da matriz da empreiteira, diz perícia

Documento enfraquece argumento de setores da CPI que não querem investigar operações da sede da empresa no Rio

Fernando Rodrigues, Rubens Valente

BRASÍLIA - Laudo da Polícia Federal revela que a empreiteira Delta enviou dinheiro a partir de agências bancárias no Rio a empresas de fachada no Centro-Oeste. Os pagamentos foram feitos via contas com o CNPJ nacional da Delta.

Isso fragiliza o argumento da CPI do Cachoeira para limitar a investigação sobre a Delta ao Centro-Oeste e mostra que a empresa não permitia operações financeiras sem o conhecimento da matriz.

Para o relator da CPI, deputado Odair Cunha (PT-MG), "não há indícios para a quebra ampla, geral e irrestrita [de sigilos] da Delta e do [seu dono] Fernando Cavendish".

Se a CPI quebrar o sigilo da empresa só em Goiás ou Brasília, não devem aparecer as operações com laranjas que, segundo o inquérito, alimentavam o grupo de Cachoeira.

Uma das empresas que a PF diz ser de fachada é a Pantoja Construções e Transportes, que recebeu R$ 26,2 milhões da Delta. O dinheiro saiu de contas em agências na av. Rio Branco e rua da Assembleia, no Rio, a 300 metros da sede da empreiteira.

Em abril, Fernando Cavendish, da Delta, disse que sua empresa "rodou nesses dois anos, 2010 e 2011, R$ 5 bilhões". Como "tem 46 mil fornecedores, esse dinheiro nesse universo é imperceptível".

O advogado da Delta, José Luis Oliveira Lima, diz que a empresa no Rio "recebe os relatórios dos responsáveis regionais". Com eles, "a central do Rio apenas processa os pagamentos para todo o Brasil".

Ocorre que a Delta tem CNPJ para o Centro-Oeste para liquidar gastos localmente. Nos pagamentos a empresas de fachada, o dinheiro era enviado por meio do CNPJ nacional e das contas no Rio. Segundo a PF, as quantias eram repassadas para o esquema de Cachoeira.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

STF 'fura' prazos para votar mensalão

Ministros previam julgamento do caso para o primeiro semestre, mas o ministro Lewandowski, revisor do processo, deve entregar seu voto no fim de junho

Felipe Recondo

BRASÍLIA - Mantido nas prateleiras e gabinetes do Supremo Tribunal Federal (STF) há quase sete anos, o processo do mensalão "furou" todos os prazos estimados pelos ministros da Corte e, agora, produzirá um efeito que muitos queriam evitar: a combinação de seu julgamento com eleição.

A agenda do julgamento depende do ministro Ricardo Lewandowski, revisor do processo. Somente quando ele terminar o voto, a ação estará pronta para ser julgada. O ministro começou nessa semana a escrever seu voto com a ajuda de dez assessores. Concluirá o trabalho em meados de junho, como adiantou o Estado, o que permitirá o julgamento em agosto, às vésperas do início da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV - no dia 21 de agosto.

Reservadamente, ministros fizeram cronogramas próprios para saber quando e por quanto tempo o processo seria julgado. Em todos os cálculos, as chances de julgamento no primeiro semestre se esgotou. Pelos cálculos do relator da ação, ministro Joaquim Barbosa, haveria tempo suficiente para concluí-lo no primeiro semestre se Lewandowski liberasse seu voto até a semana passada, o que não ocorreu.

O presidente do STF, Carlos Ayres Britto, queria marcar o julgamento para o início de junho. As sessões se estenderiam pela até julho. Mas o plano encontrou resistências. Joaquim Barbosa, por exemplo, avisou que está de passagem comprada para o início de julho. O ministro Marco Aurélio, que enfatiza que o mensalão é um processo como outro qualquer, também tem compromissos oficiais em julho.

Organização. Os ministros devem começar a definir, em sessão administrativa, as datas e a organização do julgamento. Ayres Britto cogitou fazer sessões diárias e seguidas para julgar o processo. Isso agilizaria o julgamento e viabilizaria a participação do ministro Cezar Peluso, que se aposenta até o final de agosto. Ministros afirmaram não ser possível suspender as sessões de turmas, que ocorrem às terças-feiras.

Ayres Britto, então, sugeriu levar as sessões de turma para segunda-feira. Assim, o plenário teria terça, quarta e quinta-feira para julgar o mensalão. Os ministros teriam a sexta-feira para tocar outros processos. Novas resistências.

Cumulativamente, Britto também cogitou fazer sessões durante o dia inteiro. Novamente os ministros contestaram o cronograma. Joaquim Barbosa afirmou não ter condições físicas para suportar essa rotina. E que depois de um julgamento pesado os ministros ficam cansados e não suportariam isso todo dia. As sessões ocorreriam então apenas em dois dias da semana - quarta e quinta-feira.

Apesar das discordâncias, Ayres Britto vai submeter aos demais ministros a organização do julgamento em sessão administrativa nesta terça-feira.

Caso chegou ao Supremo em 2005

O caso do mensalão chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF) em julho de 2005 e é considerado um dos processos mais complexos que já passaram pela Corte, com mais de 50 mil páginas relatando o maior escândalo do governo Lula. Em 2007, o Supremo aceitou a denúncia contra os 40 réus propostas pelo Ministério Público Federal. Posteriormente, esse número caiu para 38, pois foram excluídos do inquérito o ex-secretário do PT Silvio Pereira, que fez um acordo com o Ministério Público, e o deputado José Janene, que morreu.

Ao longo dos anos, um sem-número de recursos movidos pelos diversos réus foram postergando o julgamento. Foi somente em dezembro de 2011 que o ministro Joaquim Barbosa concluiu o relatório do caso. O texto ficou com 122 páginas e foi encaminhado para a revisão do ministro Ricardo Lewandowski. A entrega do voto de Lewandowski é o último passo para o julgamento começar. Já se passaram quase sete anos.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Indústria fraca atrasa retomada do crescimento

Economistas afirmam que custos de mão de obra seguem elevados

Efeito positivo da alta do dólar sobre a indústria poderá ter resultado apenas em 2013, diz especialista

Mariana Carneiro

SÃO PAULO - Projeções de analistas do mercado financeiro indicam que o governo conseguirá neste ano elevar a cotação do dólar, como vem pleiteando a indústria, e baixará a taxa de juros a piso inédito.

Ainda assim, o resultado será crescimento modesto, com chance de ser menor do que o do ano passado. O principal entrave é a indústria. Mesmo com dólar valorizado, o setor enfrenta dificuldades e retarda a retomada.

O desempenho fraco no primeiro trimestre levou economistas a projetarem um crescimento de 3,2% em 2012, próximo ao do ano passado (2,7%), o que foi considerado pouco pelo próprio governo.

Tendências e LCA já preveem expansão ainda menor: 2,5% e 2,6%. Na sexta, após divulgação da prévia do PIB (Produto Interno Bruto) do primeiro trimestre, as revisões continuaram.

Estudo dos economistas Zeina Latif e Marcelo Gazzano mostra que a crise na indústria vai além de câmbio e juros. Está ligada ao custo da mão de obra, que continua a subir apesar da atividade fraca, e mina a competitividade.

"Desconfio que teremos uma decepção com a indústria", diz Zeina Latif.

A economista lembra que países como Chile e México também tiveram suas moedas valorizadas frente ao dólar, mas a indústria não parou. Isso indica, diz Latif, que o problema não é só o câmbio.

"O custo da mão de obra está numa trajetória ascendente desde 2010 e coincide com a estagnação da indústria e o aumento dos importados", afirma a economista.

Salário

No primeiro trimestre, a média do custo da mão de obra, calculado pelo BC, ficou 8,7% acima da média do mesmo período de 2011. Resultado dos aumentos salariais puxados pelo reajuste do salário mínimo (14%).

"A indústria não consegue repassar o aumento de custos. Tenho dúvidas se essa desvalorização do real compensará a perda", diz Latif.

Professor da UFRJ e assessor da diretoria de planejamento do BNDES, Francisco Eduardo Pires de Souza observa que o dólar subiu cerca de 20% desde o piso do ano passado, e se permanecer ao redor de R$ 2 pode reduzir os custos do setor em reais.

Ele diz que a competitividade aumenta por três meios: salários menores, ganho de produtividade com inovação ou câmbio desvalorizado.

Mesmo sem os dois primeiros, a desvalorização do real tem impacto. Mas sem resposta imediata. "Não será antes do segundo semestre e talvez só no ano que vem", diz.

Além da demora natural em refazer negócios, muitas indústrias passaram a ser importadoras de insumos e sofrerão aumentos de custos antes de trocar de fornecedor.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dividido, PT vai às urnas escolher candidato

Petistas definem, hoje, entre o prefeito João da Costa e o deputado Maurício Rands, o nome do partido na eleição do Recife. Clima hostil dominou campanha.

PT define seu destino

Disputa interna. Após dois meses de uma guerra fratricida, legenda escolhe entre João da Costa e Maurício Rands seu candidato à PCR

Bruna Serra

Com ares de primeiro turno da eleição municipal de outubro, o Partido dos Trabalhadores realiza hoje a sua prévia partidária, de onde sairá o candidato à Prefeitura do Recife. Após 60 dias de campanha, alguns bate-bocas e muitas alfinetadas, o militante chega ao dia D temendo pelo futuro da legenda no comando político da capital pernambucana. O clima tenso entre os dois pré-candidatos, o prefeito João da Costa e o secretário estadual de Governo, Maurício Rands, contaminou a organização do pleito. A Executiva municipal petista transformou-se em praça de guerra, onde qualquer reunião para definir os detalhes da votação travestiu-se de disputa visceral.

Entre as 33 mil pessoas que hoje integram o quadro de filiados do PT no Recife, aproximadamente 24 mil estão aptas a votar neste domingo. Após perder o prazo para solicitação das urnas eletrônicas junto ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE), a Executiva municipal, responsável pela organização, chegou a cogitar a contratação de uma empresa privada que implementasse votação. Depois de muito diálogo, os dirigentes conseguiram as 71 urnas que estarão distribuídas em 13 locais de votação, com destaque para as zonas no bairro de Ibura, de Casa Amarela e Santo Amaro, que concentram o maior número de eleitores militantes.

Por tratar-se de um domingo, o tribunal não pôde oferecer a mão de obra necessária para a fiscalização. Sendo assim, o partido foi obrigado a contratar mão de obra de uma empresa de tecnologia da informação, que treinou 160 mesários para fiscalizar a votação. Dois grupos designados pela equipe de cada pré-candidato trabalhará na fiscalização do pleito, ponto que, em se tratando de PT, certamente gerará confusão. Apesar do ambiente entre os militantes ser de provocação, o estatuto do partido permite que seja realizada propaganda boca de urna.

Acordo

João da Costa e Maurício Rands votarão logo pela manhã, mas como o local de votação dos dois é o mesmo, a Escola Estadual Divino Espírito Santo, na Caxangá, um acordo de cavalheiros foi estabelecido para evitar o encontro. O senador Humberto Costa e o ex-prefeito João Paulo também compartilham o mesmo local de votação. Por volta das 9 horas, irão à Escola Estadual Sizenando da Silveira para votar.

Assim como acontece nas eleições gerais, o fechamento das urnas está marcado para as 17 horas. A expectativa dos candidatos é de que em no máximo uma hora o resultado possa ser anunciado na sede da Executiva estadual. O prefeito aguardará a contagem dos votos na sede da Executiva municipal, junto com as lideranças que o apoiam. Já Rands assistirá a apuração no diretório estadual, ao lado do senador Humberto Costa. O deputado João Paulo não estará presente, pois viaja no final da tarde para África do Sul, em missão do Congresso Nacional.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Apoiadores protagonizam eleição em SP

PT enfrenta a "lulodependência" e PSDB tenta driblar rejeição de Kassab, seu maior aliado

Fernando Gallo, Bruno Boghossian

Dois cabos eleitorais de estaturas políticas distintas estão prestes a entrar em cena na disputa pela Prefeitura de São Paulo. A 40 dias do início da campanha, o PT prepara terreno para o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Fernando Haddad, um candidato praticamente desconhecido. No campo do PSDB, José Serra pretende apresentar como trunfo projetos lançados pelo prefeito Gilberto Kassab (PSD), mas enfrentará o desafio de driblar o alto índice de rejeição de seu aliado.

Com Haddad congelado no patamar de 3% das intenções de voto, a cúpula da campanha petista depende de Lula para impulsioná-lo, com base em pesquisas que mostram que o ex-presidente pode mobilizar quase metade do eleitorado a favor de seu apadrinhado. Lula seria o principal cabo eleitoral petista em São Paulo, uma vez que a presidente Dilma Rousseff ainda hesita em fazer demonstrações significativas de apoio ao pré-candidato.

No PSDB, Serra levará ao palanque um cabo eleitoral que tem como trunfo uma carteira de projetos vultosos e um orçamento de R$ 38 bilhões, mas que é desaprovado por 58% dos paulistanos. Kassab ainda traz na bagagem o peso do escândalo que envolve um diretor da secretaria municipal de Habitação, suspeito de enriquecimento ilícito.

Em cena. Lula entrou em campo na última sexta-feira, após um longo período de convalescência do câncer. Sua entrada em cena expôs a dependência que o PT de São Paulo tem do ex-presidente e a transição de geração que o partido vive na capital, sem grandes líderes que possam suprir suas eventuais ausências.

Sete meses transcorridos desde o diagnóstico da doença, em que não pôde se dedicar 100% à campanha de seu apadrinhado, Lula retoma as atividades sem que nenhum líder tenha emergido durante o tratamento para tomar as rédeas da pré-campanha. O próprio Haddad, sem capital político próprio, não tomava decisões importantes, como a definição da coordenação de campanha, sem consultar seu mentor.

O PT espera que a volta do ex-presidente, liberado pelos médicos para agendas mais intensas, turbine a campanha de Haddad não apenas do ponto de vista midiático, atraindo a atenção do eleitorado, mas também sob o prisma das costuras políticas - fechando as alianças que darão sustentação à campanha petista e elevarão o tempo de TV e rádio do PT nas eleições.

Especialistas ouvidos pelo Estado apontam as razões da "lulodependência" vivida pelo PT paulistano: o abatimento da velha guarda do PT paulista pelo escândalo do mensalão sem que o partido tivesse conseguido formar novos líderes em São Paulo, o alto cacife político somado ao estilo personalista e centralizador de Lula, e o consentimento dos petistas à liderança extrema do ex-presidente.

"O Lula centripetou tanto o partido e sua liderança que ele desestimulou a formação de novas lideranças", diz José Álvaro Moysés, professor de Ciência Política da USP. "O outro lado é que o partido permitiu isso. Ele impôs a candidatura da Dilma, todo mundo aceitou. Com Haddad, a mesma coisa. Um partido que reage assim não tem como criar outras lideranças."

Carlos Melo, do Insper, vê na crise do mensalão uma parte importante da "lulodependência" petista. "Essa geração que hoje está com 60 anos ou mais foi atingida pelo mensalão. Depois do Lula, viriam José Dirceu e José Genoino. Você tem uma lacuna", diz. "Ninguém tem a dimensão do Lula e ninguém se mobiliza para ter."

Peso. Pré-candidato apoiado pelo atual prefeito, Serra quer levar para a propaganda eleitoral obras e projetos inaugurados por Kassab - com destaque para aqueles iniciados no período em que o tucano estava na Prefeitura.

A equipe de campanha ainda não definiu a estratégia para apresentar a relação entre Serra e Kassab na TV, mas descarta afastar as imagens dos dois. "O Kassab continuou a gestão do Serra e foi reeleito com esse peso", afirma um tucano.

Em atos de campanha, os petistas usam a expressão "Serra-Kassab" para tentar colar no pré-candidato a rejeição do prefeito. Os tucanos ensaiam uma resposta: indicam que, neste segundo mandato, Kassab trocou boa parte da equipe que Serra havia deixado na Prefeitura.

Apesar do alto índice de rejeição de Kassab, Serra ainda consegue conquistar apoio entre os críticos do prefeito. Pretendem votar em Serra 20% dos eleitores ouvidos pelo Ibope que avaliam a gestão de Kassab como ruim ou péssima. Entre os paulistanos que rejeitam o governador Geraldo Alckmin (PSDB), apenas 6% declaram apoio a Serra.

Kassab ainda enfrenta o noticiário negativo envolvendo Hussain Aref Saab, que era responsável pela aprovação de obras imobiliárias na Prefeitura. Os tucanos reagem com o argumento de que o prefeito afastou exemplarmente o funcionário.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Legista da ditadura promete revelações na comissão

Acusado de falsificar laudos, Harry Shibata diz que sabia das torturas, mas nunca viu vestígios delas nos cadáveres

Tatiana Farah

DIREITO À HISTÓRIA

SÃO PAULO. Ex-diretor do Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo nos anos 70, o legista Harry Shibata diz que tem revelações a fazer para a Comissão da Verdade, que apura os crimes da ditadura. Aos 85 anos, vivendo recluso em uma casa de dois pavimentos e piscina no Alto de Pinheiros, Shibata nega a maior acusação que pesa contra ele, a de falsificar laudos e atestados de óbitos para esconder torturas e mortes no regime militar.

O legista assinou a autópsia do jornalista Vladimir Herzog, o Vlado, que morreu sob tortura, mas teve sua morte divulgada como suicídio. É acusado de ter falsificado outros inúmeros laudos. Assinou o laudo de Sonia Maria de Moraes Angel Jones, que, depois de torturada, teve seus seios arrancados e foi estuprada com um cassetete. A versão do legista foi de morte em tiroteio.

Shibata é processado pelo Ministério Público Federal por ocultação de cadáveres por causa do encontro de ossadas de presos políticos no cemitério clandestino de Perus, em São Paulo. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, ele confirma que assinou o laudo de Herzog, mas nega ter visto o corpo.

- Eu não fiz a autopsia porque o segundo perito não participa. É praxe. Ele lê o laudo, conversa com quem fez o exame. Se ele estiver de acordo, assina. Eu não assinei como suicídio. O laudo dizia que ele morreu de asfixia por enforcamento. No caso do Vlado, ele morreu de asfixia mecânica por enforcamento. Se enforcaram ou não enforcaram, se é suicídio, homicídio ou acidente, não é função do legista. Isso é o inquérito que vai dizer.

Apesar de garantir que não viu o corpo de Vlado, o legista afirma que tem segredos para contar à comissão e à viúva de Vlado, Clarice Herzog, que mora a 300 metros de sua casa. Perguntado se faria uma revelação, respondeu:

- Se for chamado, sim. Eu não quero que você publique uma coisa antes que a Comissão da Verdade saiba. Para você, é um furo, para eles é um "atrapalho". Eu não sei o que eles vão procurar realmente.

Embora negue ter visto cenas ou vestígios de tortura nos presos políticos, Shibata diz que ela existe "em qualquer lugar do mundo":

- Eu não acredito que não exista polícia que não faça tortura - disse ele, que não descarta o método como forma de investigação: - Olha, se você tiver que pensar em termos de combater estuprador, assassino, a maldade, uma certa forma assim, cruel, eu não sei.

Shibata diz que nunca fez um laudo falso:

- Absolutamente. Nunca. Imagina. Eu tenho um juramento comigo mesmo. Eu sou espiritualmente muito doutrinado. E Jesus foi sempre quem pregou a verdade: "em verdade, em verdade, vos digo"- afirmou, dizendo que vai ter de "corrigir a mídia": - É tudo mentira.

O legista mais famoso da ditadura militar diz que nunca viu uma cadeira do dragão, usada nas torturas com eletrochoques.

- Como é a cadeira do dragão? Você tem ideia? Eu nunca vi - disse ele, concluindo, depois que a reportagem falou sobre os choques elétricos: - Ah, toma choque? É tipo cadeira elétrica, então? Se você está dizendo isso de cadeira do dragão, de choque... Choque não deixa vestígio.

Apesar de dizer que "honestamente falando" nunca encontrou vestígio de tortura, o legista confirma:

- Eu sabia que havia tortura, mas não entro no mérito.

Shibata nega que o IML tenha recebido orientação de não descrever o estado geral dos corpos autopsiados, ignorando marcas de tortura:

- Nunca houve essa intervenção. O que a polícia sempre pedia é que a gente tinha de receber a requisição policial, o pedido de autopsia. Se você tem um hematoma, se descreve o hematoma. Se ele caiu, se apanhou, não é função nossa.

Se depender de Harry Shibata, a localização dos desaparecidos na ditadura militar continuará uma incógnita.

- O que acontece muita vezes é que quem pratica esses atos, os pratica muito bem e a gente nunca vai saber. Desaparecido é desaparecido. Onde está, não sei. Especular a respeito de como foi feito o desaparecimento é difícil, né? Se o cara foi enterrado com o nome falso, acontece muitas vezes - disse ele, respondendo sobre as ossadas de Perus: - O problema não tem nada a ver comigo, nem com o IML. A função de enterro é do cemitério.

O legista afirma não ter conhecido a presidente Dilma durante o regime militar porque não acompanha política.

- Eu acredito que ela esteja fazendo uma boa gestão. Eu votei no Serra. Não conhecia a Dilma. Nunca ouvi falar dela nos anos 70. Sou meio apolítico. Quando Carlos Marighella morreu, eu que fiz a autopsia. Não sabia quem era. Ele morreu metralhado. Eu só soube depois, quando pediram para fazer o laudo imediato, porque havia pressa, a polícia pediu urgência no laudo.

Shibata conta que, por ordem do delegado-geral de Polícia, Celso Teles, não fez a autopsia no corpo do delegado Sérgio Paranhos Fleury, um dos maiores símbolos da repressão, supostamente morto ao cair de seu barco em Ilhabela, em 1979. Segundo afirma o delegado capixaba Cláudio Guerra no livro "Memórias de uma Guerra Suja", Fleury foi morto pelos próprios militares e o acidente foi forjado:

- O delegado-geral (Celso Teles) disse: "Olha, não precisa fazer autopsia". Estava tudo errado. Quando é morte violenta teria de ser chamado um legista. Mas chamaram um médico comum. A lei diz que onde não há médico-legista, o laudo deverá ser feito por dois médicos. Eu acho que é fantasiosa (a tese de assassinato), mas existe a suspeita porque não foi feita a devida autopsia.

FONTE: O GLOBO

'Quero é saber quem assassinou o Vlado'

Para viúva de Herzog, que não descarta encontro com legista, Shibata pode explicar o que aconteceu

Tatiana Farah

SÃO PAULO. A caminho do escritório, Clarice Herzog passa todos os dias na Rua Zapara, Alto de Pinheiros, em São Paulo, onde mora Harry Shibata. Não sabia que apenas 300 metros a separavam do homem que pode ajudar a elucidar a morte de Vladimir Herzog, o Vlado, até que o Levante Popular da Juventude promoveu um "esculacho" na porta do legista, em abril.

- Eu nem sabia que Shibata continuava vivo. Eu vi os cartazes nos postes da minha rua com a foto dele. Só então me dei conta. É o passado presente - disse Clarice, por telefone ao GLOBO.

A viúva de Herzog participou na semana passada da cerimônia de posse da Comissão da Verdade, em Brasília:

- Não adianta esperar que a comissão traga alívio para a mágoa, a dor e a perda. O que eu quero é saber quem assassinou o Vlado.

Para Clarice, Shibata tem a resposta. O legista deu a entender que sabe muito:

- Se a Clarice viesse aqui conversar comigo, eu a receberia com todo o prazer. Para ela, eu poderia até contar tudo o que eu realmente sei. Eu falaria com ela por uma questão de solidariedade.

Consultada pelo GLOBO, Clarice não descartou a visita ao legista.

- Mas eu ainda tenho de refletir sobre isso. Não sei se eu teria coragem de ir até lá.

Para ela, já foi doloroso descobrir quem era seu vizinho:

- Foi constrangedor. Ainda hoje, quando passo na rua dele para ir ao trabalho, eu lembro.

Não seria mesmo fácil esquecer. Shibata limpou as pichações deixadas pelo Levante no muro de sua casa, mas não conseguiu apagar o que foi escrito pelos jovens na calçada: "Suicídio?"

Vladimir Herzog morreu em 25 de outubro de 1975, nos porões do DOI-Codi, em São Paulo. A versão oficial dava conta de que ele havia se enforcado na cela. Recentemente, o fotógrafo Silvaldo Leung Vieira, que trabalhava para a polícia paulista nos anos 70, admitiu à "Folha de S. Paulo" que a foto de Vladimir Herzog, morto em sua cela, foi uma fraude.

A apuração da morte de Vladimir Herzog é cobrada do Brasil pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA). No dia 30 de maio vence o primeiro prazo para que o governo se pronuncie sobre o caso. Esta semana, em entrevista exclusiva ao GLOBO, o ex-chefe da Operação Bandeirantes (Oban) Maurício Lopes Lima falou sobre Herzog:

- Eu acho que aconteceu o que não devia acontecer em hipótese nenhuma. Tirar a vida de uma pessoa, assim, não sei como foi... por suicídio ou o que foi, não é uma coisa certa - disse ele, que afirma ter deixado a Oban antes da prisão de Herzog. 

FONTE: O GLOBO