segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A PPP de Lula - Melchiades Filho

É ao mesmo tempo irônico e acintoso que a Agência Nacional de Águas seja colhida por um escândalo de distribuição de propinas enquanto o Nordeste enfrenta a pior seca em 50 anos.

Ou que a Agência Nacional de Transportes Aquaviários vire alvo de ridicularias justamente quando o Planalto retoca licitações e metas de desempenho para o setor portuário, um dos mais dramáticos gargalos de infraestrutura do país.

Ou que a Agência Nacional de Aviação Civil seja exposta como um cabidão de empregos no momento em que as companhias aéreas catapultam tarifas, extinguem linhas populares e demitem centenas de funcionários -e o governo redige os termos da concessão de dois aeroportos e completa a migração para a iniciativa privada de outros três.

Ou que fique patente a vulnerabilidade do MEC em pleno processo de aperfeiçoamento de cadastros e regulação universitária.

Ou, ainda, que a cúpula da Advocacia-Geral da União enfrente denúncias de corrupção logo quando era requisitada para sanar impasses de enorme impacto nacional, como a divisão dos royalties do petróleo.

A quadrilha desbaratada pela Polícia Federal impressiona, primeiro, pelos danos que causou e/ou pretendia causar ao erário. Uma única negociata no porto de Santos envolvia R$ 2 bilhões.

Impressiona, também, pelo apetite: além dos órgãos já citados, o grupo conseguiu se intrometer no Tribunal de Contas da União, na Secretaria do Patrimônio, no Banco do Brasil, na Brasilprev, nos Correios...

Mas impressiona, sobretudo, que toda essa rapinagem só tenha prosperado porque o governo se pôs de joelhos para atender o desejo de Lula. Rosemary Noronha virou chefe de gabinete apenas por (e para) privar da intimidade do presidente. É errado culpá-la sozinha pela mistura de agendas nessa lamentável parceria público-privada.

Fonte: Folha de S. Paulo

Depende do modo de ver - Wilson Figueiredo


Quando a presidente Dilma Rousseff olhava para o lado oposto, na  posse do novo presidente do Supremo Tribunal Federal, passou a impressão de constrangimento.  A foto se prestava ao conceito de “cara de paisagem”, mas não passava de alegoria sobre a interminável história de corrupção, que deixou de circular oralmente e passou aos cuidados dos meios de comunicação. É inesgotável o interesse da classe média pelo tema. De volta à cena, ninguém menos, nem mais, do que o ex-presidente e eterno candidato, enquanto houver sucessão presidencial à vista, Luiz Inácio Lula da Silva, que ainda não recuperou a voz depois de proclamar, com as mesmas palavras e pela segunda vez, sentir-se “apunhalado pelas costas”. Não se lembrou de que a história não se repete, nem tem à mão um José Dirceu para fazer  papéis ingratos.  

Aproveitando-se o modelo deixado por Machado de Assis, e sem pagar direito autoral, ao cabo de dois anos e dez mil e.mails, a Polícia Federal, prévia e devidamente  autorizada pela Justiça Federal, quebrou o sigilo de telefones e mensagens eletrônicas de 19 denunciados por corrupção (ativa e passiva), formação de quadrilha, tráfico de  influência, falsidade ideológica, violação de sigilo funcional, falsificação de documentos e outra praticas da moda, que  nada ficam devendo ao que se considera o novo modo republicano de se arrumar para o resto da vida.


Em São Paulo, onde as cifras são sempre robustas,  a Polícia Federal  peneirou dez mil e.mails. Num deles, ninguém menos  do que a chefe do gabinete da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Nóvoa de Noronha (podem chamá-la de Rose) exagerara em pedidos de favores pessoais ao diretor da repartição encarregada de lidar, em âmbito nacional,  com água que não seja benta e, para facilitar vidas e dificultar investigações, se apresenta com o nome  de ANA. Tem sido a mão na roda de uma nova categoria de servidores públicos em franca expansão.


Desde que o assunto regurgitou, a sede da Presidência da República em São Paulo ficou atônita, por algum razão que não está clara nem facilita interpretações além da própria investigação. Por enquanto. O gabinete paulista da Presidência da República ainda opera em nome do presidente anterior nos mais variados encontros de que se ocupa, pessoalmente, a própria Rose  que trabalha no passado sem desviar o olho do futuro.


Quem juntar uma coisa com outra, para entender melhor as  10 mil mensagens examinadas, vai ver que a representação da Presidência em São Paulo se considera a casa da sogra, sem ninguém saber o teor político da peça que, antes de estourar bilheterias, desmonta a sucessão presidencial prevista para 2014. Da qual, aliás, o eixo tem sido o ex-presidente Lula da Silva. Foi por acaso, mas no país em que o acaso tem razões que a razão ainda não decifra, é preciso respeitar o que  acontece por fora, inclusive, da lei.


A oposição se resigna à  função de contrapeso do governo para evitar o pior (como tal entendido o terceiro mandato, do qual o próprio Lula da Silva não abre mão) e a sucessão presidencial à vista ganha mais nitidez a partir de agora. Enquanto pesquisas já situam a presidente Dilma à frente da preferência popular, por indicação espontânea (e não induzida por uma pergunta), o eterno candidato que se ufana de reduzir a oposição a uma espécie de homenagem inócua à democracia, dela se serve como quem faz caridade.


A firmeza com que Dilma Rousseff agiu no episódio de São Paulo diz mais do que foi declarado pelos tartamudos da política brasileira.  E numa área de risco imponderável, pois não há antecedente para servir de referência a um governo, até aqui, bipolar. A incerteza é latente em relação ao que pode e o que não pode ultrapassar a limitada capacidade humana de deter os fatos. O terceiro mandato presidencial de Lula perde  o rumo e cede a precedência a Dilma Rousseff. As contradições, tudo indica, vão exercer sua função dialética e a eleição presidencial encerrará a etapa ou começará outra. Depende do modo de ver.   


Fonte: Jornal do Brasil

O modelo de intervenção do Estado: outra diferença – Marcus Pestana

As decisões que serão amadurecidas pela sociedade até as eleições de 2014 pressupõem que os principais atores na cena política ganhem nitidez e solidez. Principalmente PSDB e PT têm a obrigação de clarear suas posições sobre os principais temas que afetam a vida da população.

Uma questão central no mundo contemporâneo é o modelo de intervenção do Estado, seu papel e suas relações com a sociedade e o mercado.

O objetivo essencial da ação governamental é maximizar o bem-estar social, perseguindo o desenvolvimento, a estabilidade e a equidade social.

O PSDB sempre teve clareza absoluta, dentro de uma leitura contemporânea dos princípios social-democratas, da necessidade de um Estado forte, mas não inchado, onipresente e agigantado; de um Estado ágil e eficiente, regulador e articulador de parcerias; de um Estado moderno, presidido pelas diretrizes da profissionalização, do compromisso com metas e resultados e da meritocracia. Enfim, o Estado socialmente necessário, que prima pela qualidade nos serviços diretamente ofertados e pelo papel ativo na construção de parcerias com a iniciativa privada e com o terceiro setor para melhorar a vida das pessoas e do país.

Essa visão de Estado esteve presente no Plano Diretor da Reforma do Estado, nas privatizações, na quebra do monopólio do petróleo, na introdução da estabilidade dos contratos e dos marcos regulatórios. Foram esses os fundamentos do Choque de Gestão implantando em Minas Gerais sob a liderança de Aécio Neves e Antonio Anastasia.

Já o PT sempre foi confuso em termos políticos e teóricos na construção de sua concepção de Estado. A mistura de elementos do pragmatismo do sindicalismo do ABC com fragmentos da Teologia da Libertação, somados a um marxismo mal-elaborado de extrema esquerda, resultou na adesão total ao Estado máximo desenvolvimentista. Fora do Estado não haveria solução ou virtude. No poder, ao serem confrontados com a realidade, fizeram uma adesão insegura e envergonhada às Parcerias Público-Privadas e desencadearam a "estatização da sociedade civil" (UNE, CUT, ONGs, MST etc). 

A falta de uma visão moderna sobre Estado derivou num aparelhamento inédito do aparato estatal, numa partidarização sem precedentes dos órgãos governamentais, na instabilidade do ambiente regulatório e na fragilidade das estratégias de envolvimento de capitais privados na expansão necessária dos investimentos.

Corremos graves riscos. Estamos perdendo oportunidades. Estamos afugentando investidores. Setores essenciais, como energia e petróleo, patinam perigosamente. Em pleno século XXI, estamos construindo uma economia produtora de commodities, onde a demanda interna sustenta a criação de empregos de baixa qualidade e produtividade.

O PSDB se propõe a dar outro rumo e ritmo ao Brasil. Faz diferença, sim, para a vida da população a escolha entre visões tão diferenciadas sobre o papel do governo no processo de desenvolvimento da sociedade.

Marcus Pestana, deputado federal (PSDB-MG)

Fonte: Jornal O TEMPO (MG)

O capital do PT - José Roberto de Toledo

Em 2012, o PT tornou-se o maior partido do Brasil em votos recebidos, eleitorado a governar e dinheiro arrecadado. O partido completa 10 anos de governo federal - o maior tempo contínuo de um mesmo grupo político no poder em períodos de democracia plena. Conquistou a maior cidade do país. A presidente está no auge da popularidade e tem quase 80% de apoio no Congresso, em média. Os dois favoritos para 2014 são do PT.

Reserva moral do PSDB - nas palavras de José Serra -, Fernando Henrique Cardoso descreve sua melancolia com a política partidária e defende a necessidade de "bradar e mostrar indignação e revolta, ainda que pouco se consiga de prático". Quando a oposição está melancólica, a situação deveria estar exultante. Só que não.

O PT não sai das manchetes, mas por causa do outro lado da força. Condenada pelos ministros que pôs no Supremo Tribunal Federal, a cúpula que levou o partido ao sucesso vê-se na incômoda perspectiva de exercer o poder desde a cadeia. É um preço caro a pagar. Provavelmente caro demais.

As contradições entre o primeiro e o terceiro parágrafos alimentam a especulação: estará o PT no cume à beira do precipício? Ou desfruta a segurança de um espaçoso planalto?

No que depender das previsões das consultorias econômicas e dos "pundits" brasilienses, a derrocada é logo ali na frente. O problema é que se tem mais chance de êxito apostando num cara ou coroa do que acreditando nas projeções de especialistas. Melhor olhar para trás e tentar entender como chegamos aqui.

A estabilização econômica propiciou a emergência de um mercado interno grande e ativo. Aumentos reais do salário mínimo diminuíram a desigualdade de renda e deram lastro para a popularização do crédito. A redução das taxas de juros rompeu o dique financeiro e deixou o dinheiro irrigar a economia. Nada disso é monopólio petista, mas foi o PT que, por oportunidade ou competência, melhor faturou eleitoralmente o processo.

Partidarizar ideias que são patrimônio nacional as enfraquece. Mercado de consumo de massa, menos desequilíbrio entre capital e trabalho, e diminuição da desigualdade de renda são conceitos sempre vulneráveis à reação de quem só se beneficia do mercado de luxo exclusivista, do "rentismo" e do "apartheid" social.

Há cada vez mais desinibidas declarações de que o aumento do salário mínimo é o problema e não a solução, de que há crédito demais para os pobres, de que bom mesmo era quando se podia ir a Paris ou Nova York sem correr o risco de ouvir português na rua.

É coincidência que essa desinibição suceda as condenações pelo STF dos malfeitos petistas? Ou que esteja entremeada a notícias de Pajeros, propinas e patifarias de parasitas do poder que tiveram sua janela de oportunidade durante o mandato do PT?

O risco embutido nos desmandos é que após a condenação das pessoas venha a condenação das ideias que mantiveram seus correligionários no poder. Mesmo que essas ideias não lhes pertençam, nem que elas, por si, tenham qualquer coisa a ver com a corrupção de quem as defendeu eleitoralmente.

Para o grosso da população, mais importante do que quem comanda do barco é que o caminho percorrido desde 1994 não seja interrompido ou, pior, feito em marcha à ré.

Dinheiro e poder. O PT lucrou com o poder. O partido movimentou R$ 1 bilhão na campanha de 2012. Foi a legenda que mais cresceu em arrecadação desde 2008: R$ 362 milhões a mais. Sua fatia cresceu no bolo financeiro dos partidos e a isso corresponderam mais prefeituras e vereadores. PSDB e PMDB arrecadaram proporcionalmente menos e viram sua influência municipal murchar. Dinheiro é voto.

Nem tanto ao precipício, nem tanto ao planalto. O PT tornou-se o maior partido em votos e eleitorado a governar, mas eles são apenas 20% do Brasil. Sua arrecadação é recorde, mas não passou de 17% do total. A presidente tem 80% de apoio no Congresso, mas perde votações com frequência, porque sua base parlamentar é movediça e infiel. Não há poder absoluto nem eterno.

Popularidade e favoritismo a dois anos da eleição valem tanto quanto ser o campeão do primeiro turno em campeonato por pontos corridos: nada - o Atlético Mineiro que o diga.

Fonte: O Estado de S. Paulo

A esquerda e a corrupção - Renato Janine Ribeiro

Fora dos Estados Unidos poucos conhecem a história do político Huey Long, que mandou na Luisiana até ser assassinado, em circunstâncias misteriosas, em 1935. Foi acusado de corrupto e saudado como reformador social. Acabo de ler "Blood and Thunder", um romance policial cujo autor, Max Allan Collins, jura que ele foi corrupto. Mas vasculhei a literatura a respeito - e me chamou a atenção o quanto Long melhorou a vida de seu Estado e a dos mais pobres. A Luisiana, quando ele assume o governo estadual, em 1928, mal tem estradas (só 500 km com asfalto), pontes (três) e carece de alfabetizados (eram 75%, a menor taxa no país) e eleitores (1,7 milhão possíveis votantes não conseguiam registrar-se). Em quatro anos, os números saltam. Constrói 3,5 mil km de estradas asfaltadas e 111 pontes, alfabetiza gente e amplia o direito de voto.

Huey Long foi odiado pela elite do Estado, que dá os heróis do romance. Mas essa elite, à qual pertencia seu suposto assassino, não era admirável. Seus membros se achavam honestos e talvez até o fossem no sentido de não furtar, mas não viam problemas em oprimir os negros e em manter analfabetos os brancos pobres. (Qualquer semelhança com nossa República Velha não é mera coincidência). Assim, quando Long manda distribuir livros didáticos de graça, pelo menos uma prefeitura se recusa: não queria pobres alfabetizados, isto é, eleitores. Finalmente, a própria causa de seu assassinato tem a ver com o preconceito de cor, porque, se Carl Weiss matou Long, foi sentindo-se ofendido porque o ex-governador dizia que Weiss teria sangue negro.

Por que conto esta história? Porque ela faz pensar em vários conflitos atuais, na América do Sul. Temos líderes que, como Long, melhoram as condições de vida do povo. O fato não comporta discussão: em vários países cai a miséria. (Pode-se discutir, sim, quais serão as causas dessas mudanças. O fenômeno é internacional, então qual o mérito de cada governo nisso? Ou em que medida as causas mais recentes, como as políticas de Lula, terão sido decisivas? em que medida as mais remotas, como as de FHC? O que me parece indiscutível é que o fenômeno ocorreu sob governos de esquerda; mas, lembram alguns, bafejados pela conjuntura internacional). Agora, alguns desses governos foram acusados de práticas eticamente duvidosas. No Brasil, o julgamento do mensalão põe em cheque a conduta ética de líderes importantes do PT. Na Argentina, na Venezuela, no Paraguai, críticas mais severas foram dirigidas aos governos.

Haverá um link entre políticas de inclusão social, levadas a cabo com êxito por governos de esquerda, e a corrupção?

Por que se associa corrupção e esquerda?

Ou será este um "topos", um lugar-comum do discurso? A maior parte das pessoas acredita em algo que chamamos de "realidade". Mas com frequência a "realidade" é construída. Nós, humanos, que enxergamos em três dimensões, com dois olhos, mal podemos imaginar como o peixe, com olhos que não convergem, vê seu mundo. Nós, que vemos bem mas cheiramos pouco, mal imaginamos como um cão, de olfato apuradíssimo e visão mais limitada, constrói o mundo. Faço uma comparação. Se tivermos óculos - políticos, religiosos, econômicos - que nos tornem mais atentos a umas características do que a outras, destacaremos aquelas. Ora, é provável que pessoas com mais dinheiro considerem que políticas sociais, que por vezes tiram dinheiro deles para dar aos mais pobres, estejam próximas do furto. Um governante que me tribute muito me fará, possivelmente, sentir assaltado; daí, a chamá-lo de ladrão vai só um passo. A fronteira entre a realidade e o mito ou a projeção mental se dilui. Pensem no aborto: para uns, é crime odioso, imperdoável; para outros, um direito da mulher. Ou nas ações dos sem-terra - crime comum, para uns, movimento social, para outros. Ou citemos o professor Joaquim Falcão, que considera absurdo condenar pessoas por pirataria de músicas - porque isso implicaria prender ou multar quase todos os jovens do mundo (ver seu "Transgressões coletivizadas e justiça por amostragem", disponível na internet). Óculos são decisivos.

Não tenho como chegar a uma conclusão, e lamento. Mas em vários casos, como no mensalão, convergem o mito e a realidade. Não há como negar que dinheiro tenha sido desviado, imoralmente, no mensalão. Mas esse fato não se pode confundir com o mito, direitista, que aponta todo esquerdista como criminoso. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. E reprovar a invasão pelos americanos de vários países não quer dizer que os governantes destes últimos fossem gente de bem. Surpreendo-me que pessoas que se dizem de esquerda admirem o Hamas, Saddam Hussein ou o governo do Irã. Também elas acreditam em mitos.

Mas será que a exclusão social se faz, pelo menos inicialmente, usando meios que incluem a corrupção? Roma, no século final da República, é o terrível exemplo. Quando falha a inclusão social por meio da reforma agrária dos irmãos Gracos, sucede-se um período longo e turbulento de guerras civis, ao fim das quais triunfa quem melhor apela ao povo: Júlio César, que extingue a república e institui o poder de um só. Por outro lado, o comunismo é a grande exceção à corrupção dita "de esquerda". Dele, falarei em outra coluna. No fundo, a corrupção parece maior quando a inclusão social é promovida, não por uma revolução, mas de dentro, por uma fração minoritária da classe dominante que tem a inteligência de cooptar frações significativas das classes pobres. Quem lutar pela ética na política tem que sair do mito para entrar na história; tem que procurar entender esses fenômenos que, aqui, apenas assinalo.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Fonte: Valor Econômico

Carências Sociais - Aécio Neves

A "Síntese de Indicadores Sociais 2012" (SIS), publicada pelo IBGE, ajuda a entender o tamanho dos desafios do Brasil do nosso tempo. No estudo, um amplo conjunto de informações demonstra que a pobreza não pode continuar sendo definida apenas pelo valor da renda dos brasileiros, como a dimensionamos nos últimos anos e ainda hoje.

O país permanece com um quadro grave de carências diversas. Uma delas é o acesso aos serviços básicos de esgoto, coleta de lixo, iluminação elétrica e água tratada. Em 2011, a proporção de pessoas sem acesso aos serviços básicos era de 32%, ou seja, um em cada três brasileiros.

A população com atraso educacional é de 31%, e sem acesso à seguridade social, de 21%. Cerca de sete milhões de pessoas ainda vivem em domicílio precário. Nas regiões menos desenvolvidas, a situação piora muito: 65% dos moradores do Norte e 48% do Nordeste têm carência de serviços básicos.

Considerando-se todas as carências avaliadas, verificou-se que 58% dos brasileiros apresentaram ao menos uma delas.

O grande mérito dessa pesquisa é chamar a atenção para a pobreza sob a perspectiva dos direitos e garantias indispensáveis para o exercício da dignidade humana.

Dentre os fatores que melhoraram a renda na última década, a SIS 2012 coloca a expansão das ações de transferência direta para os mais pobres, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), cujas bases e início ocorreram sob a gestão reformadora do ex-presidente Fernando Henrique.

São iniciativas fundamentais na nossa realidade, mas está demonstrado que são insuficientes para fazer a travessia dos brasileiros para um novo patamar. Elas precisam ser mantidas e ampliadas, mas também somarem-se a outras políticas de Estado que enfrentem os problemas estruturais.

O estudo traz argumentos que apoiam as reflexões propostas pela oposição nos últimos anos: a pobreza precisa ser compreendida também na sua dimensão de privação de oportunidades, direitos e serviços.

O país precisa de políticas sociais que garantam à população atendida o direito de se emancipar. Não podemos nos contentar apenas com a perpetuação da tutela do Estado, que tem prevalecido no atual ciclo de governo. Em respeito a esses brasileiros, precisamos avançar além do processo de gestão diária da pobreza.

As informações do IBGE reforçam, portanto, àqueles que há muito tempo propõem novo dimensionamento, com o necessário realismo, do que precisa ser feito para superação da desigualdade e da pobreza.

Como se constata, a questão não se reduz ao mero enfrentamento político ou a peça de combate da oposição. É o Brasil real, que não frequenta a propaganda e o ufanismo oficial.

Aécio Neves, senador (PSDB-MG)

Fonte: Folha de S. Paulo

Senhores, está na hora, façam suas apostas - Marco Antonio Rocha

Pronto! Estamos mais uma vez no mês das apostas: Mega Sena, loteria do Natal, Mega da Virada, Super Quina. Todo mundo gosta dessas apostas. A maior de todas, no entanto, não distribui prêmios. Pelo menos, não diretamente. É a aposta sobre quanto vai crescer o PIB no ano que vem.

E é uma aposta mais séria do que muitos pensam. Para as empresas, sem dúvida. A empresa que acerta avança. A que erra se atrapalha toda. Para as pessoas físicas deveria ser séria também. Ainda não é. Mas vai se tornando...

O crescimento do PIB brasileiro neste ano foi um fracasso. Fala-se em cerca de 1,5%, apenas, mas há previsões de que no fechamento final do ano não passará de 1,2%. No ano passado, foi de 2,7%. Então, a evidência é de que o PIB, o Produto Interno Bruto, ou seja, a parte da economia brasileira que se consegue medir com alguma precisão, vem declinando. E, como essa parte da economia é a mais importante - a despeito das discussões nunca conclusivas sobre o tamanho da economia informal -, posso tentar imitar, sem nenhum talento, meu saudoso amigo e colega Joelmir Beting, dizendo que a economia brasileira vem "avançando firme na marcha à ré". O fato é que isso está levando o andar da carruagem do mandato da presidente Dilma a uma velocidade média, no que se refere ao desempenho econômico, muito inferior à que seu antecessor tanto festejou.

Então, a aposta que o mundo empresarial brasileiro faz neste momento se divide em duas partes: primeiro, saber se o avanço para baixo vai se reverter em avanço para o alto; e segundo, de quanto será o avanço para o alto, se acontecer, que é o que interessa a todos.

O governo, é claro, aposta em avanço para o alto e até já montou uma estratégia, pelo que se depreende de entrevistas do ministro Mantega, com o objetivo de, a partir do ano que vem, dar início a uma nova fase dinâmica, com, no mínimo, 4% de crescimento do PIB em 2013 e daí para cima. A própria presidente Dilma tem mencionado que o ideal seria um crescimento da ordem de 5% ao ano.

Então, no que tange à participação do governo no crescimento do PIB, seria apenas uma questão de adequar o quantum do investimento público (investimento mesmo, não dispêndios disfarçados de investimento) à meta desejada de crescimento. E realmente efetivá-los, o que não vem acontecendo e é parte do problema.

Alguma matemática pode ajudar essa política, pois, como se sabe, o crescimento da economia é proporcional ao da taxa de investimentos global, que, em boa parte, é medida pela FBCF, ou, Formação Bruta de Capital Fixo. A Fundação Getúlio Vargas e outras instituições encarregam-se dos complicados cálculos para se estimar a FBCF. Para nós, leigos, basta saber que, quanto maior esta, mais rápido o crescimento do PIB. Nas épocas em que essa taxa equivalia, no Brasil, a 23% ou 25% do PIB, este crescia entre 6% ou 7% ao ano, e podia até dobrar em dez anos.

Faz tempo que a FBCF está muito abaixo do que já esteve. Hoje em dia, não passa de 17% ou 19% do PIB, o que, em parte, explica por que o PIB anda crescendo pouco. Digo em parte porque ela não é toda a explicação. Num ano, por exemplo, pode haver um excepcional afluxo de recursos estrangeiros, então o PIB cresce mais, sem que tenha havido aumento interno excepcional da FBCF.

Interessante é o seguinte: parece que o que diminuiu mais, no Brasil, foi a parte do governo na FBCF. Ela já foi equivalente a 6% ou 7% do PIB. Ou seja, quando o Brasil investia 25%, o naco do governo era de uns 6%. Hoje em dia esse naco é muito pouco significativo. O que derruba o total da FBCF para os 19% do PIB já mencionados.

Essa informação os técnicos do governo precisariam apurar melhor porque, se estiver correta, mesmo que não inteiramente, levaria mais ou menos à seguinte conclusão: o setor privado, nacional e estrangeiro, continua investindo mais ou menos o que sempre investiu. O governo é que não. Portanto, pouco adiantam as exortações da presidente e de seus ministros para que os empresários invistam mais. O fundamental é que o governo volte a investir, com eficácia, na mesma proporção, ou maior, do que já fez.

Aí ficará mais fácil para os empresários de qualquer setor, principalmente os grandes - que são os mais detestados pelo petismo, em geral, e os mais suspeitos para o governo e boa parte da opinião pública -, apostarem: 1) num avanço para o alto do PIB; e 2) num crescimento de 4% ou mais, daqui para a frente.

Voltando ao início. O importante, e a coisa séria, nessa aposta é que, se eles acreditarem nisso, começarão a ajustar para cima, na mesma proporção, os orçamentos das suas empresas e a economia passa a rodar para a frente. O investimento estatal é de fato muito importante, como insistem os petistas. Desde que se realize de fato e rapidamente. O investimento privado gera mais empregos, maior e melhor disseminação de bem-estar. Desde a pizzaria e a farmácia da esquina até os sonhos do sr. Eike Batista. Precisa, porém, acreditar que haverá crescimento econômico e que a parte do governo nos investimentos acontecerá. E está um pouco difícil acreditar nas duas coisas.

Fonte: O Estado de S. Paulo

FHC é redescoberto pelo PSDB aos 81 e vira mentor da ‘renovação’ do ideário do tucanato

Josias de Souza

Em conversa com um deputado do PSDB mineiro, há quatro dias, Fernando Henrique Cardoso recordou, entre risos, uma frase que diz ter ouvido do líder socialista da Espanha Felipe González: ex-presidentes são como vasos chineses. Todo mundo acha lindo. Mas ninguém sabe onde colocar.

Desde que deixou a Presidência da República, em 2002, FHC vinha sendo tratado pelo seu partido como um vaso chinês. Ganhou o título honorífico de ‘presidente de honra’ do PSDB e foi enfiado no armário. Passou a flertar com a amargura. Foi atacado pela síndrome de que sua obra e seu valor não eram reconhecidos.

Após amargar três derrotas para o PT –quatro se for incluído o revés paulistano de 2012— o PSDB ‘redescobriu’ FHC. Aos 81 anos, o ‘vaso’ voltou à sala-de-estar do tucanato. Recebe agora um tratamento que costuma ser dispensado aos sábios da tribo. No seu caso, uma tribo à beira da acefalia.

FHC tornou-se o principal mentor da “renovação” do ideário tucano. Algo que o PSDB discute pelo menos desde 2006. Gira como parafuso espanado, sem sair do lugar. Numa fase em que se considera acima das contingências e mesquinhezas da vida, FHC se dispôs a supervisionar o processo de “realinhamento” da legenda.

Em reuniões separadas, conversou na semana passada com o presidenciável Aécio Neves e com o presidente do diretório do PSDB de Minas Gerais, deputado federal Marcus Pestana. Trocaram ideias sobre o que precisa ser feito em 2013 para que o tucanato chegue a 2014 de bico novo. Vai abaixo um resumo do conteúdo do ‘vaso’:

1. Pós-udenismo: FHC sustenta –e boa parte da legenda concorda— que o eleitor brasileiro já deu demonstrações de que não guia seu voto pelo debate ético. Avalia-se que o PSDB não pode abandonar a crítica às perversões administrativas e políticas que identifica no governo e no PT. Mas cometerá um erro se imaginar que o veneno renderá votos. Concluiu-se que o discurso de timbre udenista já não cola.

2. Pós-Real: enrolado na bandeira da estabilização da economia, FHC derrotou Lula um par de vezes. Hoje, acha que o Plano Real e suas consequências benfazejas viraram dados da realidade. O PSDB teria de propagar sonhos novos. Fácil de falar, difícil de fazer. Busca-se a “criatividade” no trato de problemas velhos –da insegurança pública ao déficit tecnológico na educação.

3. Juventude: um dos grandes desafios que o tucanato se auto-impôs é o de achegar-se ao eleitor jovem. Nesse esforço, FHC empina expressões como “tolerância cultural”. Algo que incluiria até a valorização do ‘rap’ e do ‘funk’. Defende a exploração das chamadas novas mídias. Prega, de resto, o rejuvenescimento do programa partidário, com a inclusão de temas como economia verde e mudança do padrão de consumo do brasileiro. Como há mais dúvidas do que certezas, FHC disse ao deputado Marcus Pestana que as lideranças do PSDB “precisam ouvir mais e falar menos”.

4. Método: no estágio atual, o PSDB discute o método de condução do debate interno. FHC gostou de uma prosposta feita por Marcus Pestana. Prevê a realização de um congresso. Seria dividido em três etapas –uma municipal, em março; uma estadual, em abril; e outra nacional, em maio. Para evitar a dispersão, o debate seria guiado por um texto-base. FHC se dispôs a supervisionar a elaboração da peça.

5. Comando: presidente do Instituto Teotônio Vilela, braço acadêmico do PSDB, o ex-senador Tasso Jereissati sugeriu a Aécio Neves que assumisse a presidência do partido no lugar de Sérgio Guerra, cujo mandato expira em maio. FHC tenta devolver o balão de ensaio ao solo. Acha que a “fulanização” prejudica o processo. Primeiro, o partido teria de reposicionar-se em cena, num movimento coletivo de afirmação. O nome do novo presidente do partido viria na sequência.

6. Alvo: o tucanato pretende ajustar sua alça de mira. Concluiu que desperdiça muita munição com Lula. Vai priorizar os ataques a Dilma Rousseff e à administração dela.

7. Multipolaridade: o PSDB já não se mostra tão incomodado com o assanhamento do neo-presidenciável Eduardo Campos (PSB). Num raciocínio endossado pelo próprio Aécio, FHC passou a achar que as chances da oposição em 2014 crescerão na proporção direta do aumento do número de candidatos. Nessa teoria, uma disputa que incluísse Aécio, Eduardo e, quem sabe, Marina Silva (sem partido) garantiria pelo menos a realização de um segundo turno.

Fonte: Blog de Josias

Gal Costa - Garota de Ipanema

À Noite dissolve os homens – Carlos Drummond de Andrade

A noite
desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança...
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo... O mundo não tem remédio...
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio...

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.

domingo, 2 de dezembro de 2012

OPINIÃO DO DIA – Fernando Henrique Cardoso: herança do tradicional

"Infelizmente, se há uma contribuição negativa que eu acho que o governo do presidente Lula trouxe, não foi na área econômica e muito menos na área social. Foi na cultura política."

Todo sistema democrático implica em um certo compartilhamento de poder, mas compartilhar poder não pode ser transformado apenas em barganha para cargos. Tem que ter um projeto, uma motivação. E aqui não está compartilhando poder, está acomodando pessoas num sistema de vantagens. Isso está errado."

"(Essa prática) Foi tradicional no Brasil, mas quem quer modernizar luta contra isso não consegue fazer completamente. Mas tem que lutar contra, não pode participar desse processo."

Fernando Henrique Cardoso, sociólogo e ex-presidente da República

Manchetes dos principais jornais do país

O GLOBO
Armadilhas para o futuro - Aposentadoria vai consumir 46% do PIB a partir de 2030
Gil e os ianques
Cerco à corrupção: A ascensão de Vieira e Rosemary
Liberdade ameaçada: Argentinos temem cerco à mídia
Mais cidades desenvolvidas no país

FOLHA DE S. PAULO
Fux levou seu currículo a Dirceu por vaga no STF
PF usou reunião anterior com Rosemary para planejar ação
Nível de demanda por maquinas é o pior da história

O ESTADO DE S. PAULO
Pajero de Rose pertencia ao esquema dos irmãos Vieira
Dilma quer agências sem relações de compadrio
De Versailles à Gaviões
Indústria de máquinas recuou ao nível de 2007
Polícia corre contra o tempo para salvar PMs
ANS julga 'taxa extra' para parto normal

CORREIO BRAZILIENSE
Estreia da Seleção no Mané terá gosto de final
O fiasco das agências reguladoras brasileiras
Pibinho é filho da crise global, diz diretor do Bradesco

ESTADO DE MINAS
Sujeira perigosa
Corrupção- Os filhos que diferenciam duas cidades

O TEMPO (MG)
Escândalos com indicados são `herança´ de Lula para Dilma
Crianças e adultos trocam de lugar na hora dos presentes
Famílias sofrem com a dor da perda e o silêncio da polícia

ZERO HORA (RS)
A assessora que envolveu o chefe
Ex-presidente do INSS é citado em investigação
Oposição aponta fragilidades de Dilma

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Luta cotra aids está perdendo força no Brasil
Lula, da euforia ao furacão Rosemary
Desenvolvimento ainda "esquece" saúde e educação
PT do Recife decide apoiar Geraldo Julio

O que pensa a mídia - Editoriais dos principais jornais do país

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

A sedução do poder

De onde vinha a influência de Rosemary de Noronha, a mulher que se apresentava como "namorada" de Lula – e, com isso, nomeada afilhados, interferia em órgãos do governo e recebia recompensas

Diego Escosteguy e Alberto Bombig

Uma triste passagem de bastão marcou a política brasileira na semana passada: saiu de cena um escândalo político; entrou outro. De um lado, o Supremo Tribunal Federal fez história ao definir as penas dos condenados do mensalão. Treze dos réus, incluindo o ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, vão para a cadeia em tempo integral - uma rara ocasião na história brasileira em que poderosos pagarão por seus crimes. De outro lado, uma nova personagem irrompeu na cena política nacional: Rosemary Nó-voa de Noronha, ou Rose. Falando em nome de um padrinho político poderoso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Rose trabalhou pela nomeação de vários afilhados no governo federal. Ao se dirigir a diretores de empresas estatais ou órgãos do governo, Rose frequentemente se apresentava como "namorada" do ex-presidente. Um dos afilhados de Rose, Paulo Vieira, foi preso pela Polícia Federal (PF) na Operação Porto Seguro, acusado de chefiar uma quadrilha que cobrava propinas de empresários, em troca de pareceres jurídicos favoráveis em Brasília - fosse no governo, nas agências reguladoras ou no Tribunal de Contas da União. Rubens Vieira, diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), irmão de Paulo e outro dos afilhados de Rose, também foi preso. Tão logo o caso veio a público, na sexta-feira dia 23 de novembro, Rose foi exonerada do cargo que exercia, como chefe do gabinete da Presidência em São Paulo.

Como foi possível que Rose, uma simples secretária do PT, acumulasse tanto poder e prestígio, a ponto de influenciar nos rumos do governo federal - e causar tamanho salseiro? "A investigação demonstra que o poder de Rose advinha da relação dela com Lula. Não há elementos, entretanto, de que o ex-presidente soubesse disso ou tivesse se beneficiado diretamente do esquema", afirma uma das principais autoridades que cuidaram do caso. "Lula cometeu o erro de deixar que essa secretária se valesse da íntima relação de ambos", afirma um amigo do casal Lula e Dona Marisa. "Deveria ter cortado esse caso há muito tempo." Os autos do processo, de que Época obteve uma cópia integral, e entrevistas com os principais envolvidos revelam que:

1) Lula, ainda presidente da República, prestou - mesmo que não soubesse disso -três favores à quadrilha. Por influência de Rose, indicou os irmãos Paulo Vieira e Rubens Vieira para a direção, respectivamente, da ANA e da Anac. Lula, chamado em e-mails de "chefão" ou "PR" por Rose, também deu um emprego no governo para a filha dela, Mirelle;

2) A quadrilha espalhou-se pelo coração do poder - e passou a fazer negócios. Os irmãos Vieira, aliados a altos advogados do PT que ocupavam cargos no governo, passaram a vender facilidades a empresários que dependiam de canetadas de Brasília;

3) Rose, gabando-se de sua relação com Lula, tinha influência no Banco do Brasil. Trabalhou pela escolha do atual presidente do BB, Aldemir Bendine, indicou diretores (um deles a pedido de Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT condenado no caso do mensalão), intermediou encontros de empresários com dirigentes do BB e obteve um contrato para a empresa de construção de seu marido;

4) Despesas do procurador federal Mauro Hauschild, do PT, ex-chefe de gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli e, depois, presidente do INSS, foram pagas pela quadrilha. É uma situação similar à do recém-demitido número dois da Advocacia-Geral da União (AGU), José Weber Holanda - que, segundo a PF, recebeu propina;

5) A PF, mesmo diante das evidências de que Rose era uma das líderes da quadrilha, optou por não investigá-la. Não pediu o monitoramento das comunicações de Rose e não quis detonar a Operação Porto Seguro no começo de setembro, quando a Justiça autorizara as batidas e prisões. Esperou até o fim das eleições municipais.

De acordo com o relato feito a Época por um alto executivo que trabalhou na Companhia das Docas do Porto de Santos (Codesp), Rose evocava sua relação com Lula para fazer indicações e interferir, segundo seus interesses, nos negócios da empresa. Nessas ocasiões, diz o executivo, Rose se apresentava como "namorada do Lula". "Ela jogava com essa informação, jogava com a fama", diz ele.

Uma história contada por ele ilustra o estilo de atuação de Rose. Em 2005, uma funcionária da Guarda Portuária passou a dizer na Codesp que fora indicada para o cargo porque era amiga da "namorada do Lula". O caso chegou ao conhecimento da direção do Porto de Santos. Um diretor repreendeu a funcionária e chegou a abrir uma sindicância para apurar o fato - e ela foi demitida. O executivo conta que, contrariada, Rose ligou para executivos para cobrar explicações e reafirmou o que a amiga havia dito: "Eu sou a namorada do Lula". Os executivos acharam que ela blefava. "No começo, a gente não sabia que ela era tão forte", diz um deles. No Porto, ela foi responsável pelas indicações de Paulo Vieira e do petista Danilo de Camargo, ligado ao grupo do ex-ministro José Dirceu no PT. Os dois passaram a atuar em parceria com Valdemar Costa Neto, o deputado pelo PR condenado à prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do mensalão, responsável por indicar o presidente da Codesp.

Um dos interesses desse grupo era perdoar uma parcela da dívida da empresa transportadora Libra com a Codesp. O valor da dívida era de R$ 120 milhões. O acordo foi fechado no Ministério dos Transportes, então controlado pelo grupo ligado a Costa Neto, e contou com o aval de Camargo, presidente do Conselho de Administração. O PT de Santos, liderado pela ex-prefeita Telma de Souza, ficou revoltado com os termos do acordo e resolveu cobrar explicações de Camargo. Novamente Rose entrou em ação para defender os interesses da Libra, do PR de Costa Neto e de Paulo Vieira. Na ocasião, diz o alto executivo, ela evocou novamente o nome de Lula. Nos telefonemas que dava aos petistas contrários ao perdão da dívida, afirma ele, Rosemary sempre mencionava o então presidente.

Rose tem 57 anos, começou jovem na militância política e sua turma, dentro do PT, é uma turma das antigas. Seus principais interlocutores no partido, além de Lula, são Paulo Frateschi, secretário de organização do PT, e os já mencionados Camargo e Dirceu. Rose trabalhou como assessora de Dirceu nos anos 1990. Acompanhou de perto sua ascensão à presidência do PT. No total, foram 12 anos de parceria. Foi no período em que trabalhava com Dirceu que Rose conheceu Lula. Em fevereiro de 2003, com Lula no Planalto, Rose se tornou assessora especial do gabinete regional da Presidência em São Paulo. Em 2005, tornou-se chefe da unidade. Seu poder no partido foi crescendo. Ela fazia triagem informal dos currículos de candidatos a cargos do segundo escalão. Nessa época, começou a exercer influência também no Banco do Brasil. Rose trabalhou, de acordo com políticos e executivos do setor bancário, pela indicação de Aldemir Bendine para a presidência do BB.

A proximidade com Bendine permitiu que Rose, em 2009, conseguisse um emprego para José Cláudio Noronha, seu ex-marido. Noronha ganhou a vaga de suplente no Conselho de Administração da Aliança Brasil Seguros, atual Brasilprev. De acordo com as investigações da PF, Paulo Vieira forjou um diploma de curso superior para que Noronha cumprisse uma exigência da Brasilprev e assumisse a vaga. Em agosto do ano passado, o mandato de Noronha foi renovado.

Rose era também próxima de Delúbio Soares, o ex-tesoureiro do PT condenado a oito anos e 11 meses de prisão no caso do mensalão. Os dois costumavam tomar café no Conjunto Nacional, centro comercial próximo ao prédio do gabinete da Presidência. A pedido de Delúbio, segundo executivos do BB, ela usou sua proximidade com Bendine para conseguir a nomeação de Édson Bíindchen para a superintendência do BB em Goiás, em setembro passado.

Rose circulava tão bem no BB que pairava acima das disputas fratricidas entre seus diretores. Era próxima também de Ricardo Flores, ex-vice-presidente de crédito e ex-presidente da Previ, o bilionário fundo de pensão dos funcionários do banco. Flores e Bendine travaram embates corporativos constantes e são considerados inimigos. Isso nunca impediu Rose de se sentir segura para pedir favores a ambos. Em 25 de março de 2009, Rose pediu a Flores que examinasse um pedido de empréstimo de cerca de R$ 48 milhões da empresa Formitex. Era um desejo de Paulo Vieira - na época, ele ainda não era diretor da ANA. "Gostaria que encaminhasse esses dados técnicos ao Dr. Ricardo (Flores) e, se possível, conseguisse uma agenda para o Dr. César Floriano", diz Paulo em e-mail para Rose que consta do inquérito policial.

Floriano era um dos empresários que bancavam a quadrilha. Em 17 de agosto de 2009, Rose encaminha outro e-mail a Paulo em que pergunta se "aquele assunto do Flores foi resolvido". Poucos minutos depois, Paulo responde: "As coisas com o Flores estão caminhando bem, ele tem sido muito legal e parece que vamos avançar bastante".

De acordo com a investigação da PF, além do emprego para o ex-marido, Rose usou seus contatos no BB para ajudar o atual, João Vasconcelos. Documentos apreendidos pela polícia na casa de Rose, em São Paulo, mostram que a construtora de Vasconcelos, a New Talent, obteve um contrato de R$ 1,1 milhão - sem licitação - com a Cobra Tecnologia, subsidiária do BB. Tratava-se de uma obra de adequação e reforma do novo centro de impressão da empresa em São Paulo. Mais uma vez, Rose recorreu a Paulo Vieira para forjar documentos. A Associação Educacional e Cultural Nossa Senhora Aparecida, mantenedora da faculdade de propriedade de Vieira em Cruzeiro, São Paulo, emitiu um falso atestado de capacidade técnica para a New Talent conseguir o contrato com a Cobra. Em maio de 2010, funcionários da Cobra encaminharam a Vasconcelos o contrato com a New Talent.

Rose queria mais. Noutras mensagens interceptadas pela polícia, em maio deste ano, ela se mostrou preocupada com a situação financeira da New Talent. Queixou-se de que Paulo não conseguia contratos para a empresa. Paulo responde que fará "das tripas coração" para conseguir. Diz que só poderá encaminhar o pedido "após os contratos de concessão, que ainda não foram assinados, tudo isso deve rolar no segundo semestre". Os investigadores suspeitam que Rose e Paulo discutiram possíveis contratos da New Talent com a empresa que venceu a licitação para administrar o Aeroporto de Viracopos, em Campinas. Na seqüência, Rose diz que Campinas não interessa "por ser longe", e completa: "Gostaria mesmo é de São Paulo" - uma referência à concessão do aeroporto de Guarulhos.

As pretensões só pareciam alcançáveis porque, usando o nome de Lula, Rose conseguiu colocar afilhados em cargos importantes no Estado brasileiro. Em janeiro de 2009, Paulo Vieira e Rubens Vieira começaram a articulação para ser nomeados na ANA e na Anac. Rubens escreveu a Rose no dia 20: "O presidente (Lula) indica e o Senado aprova. Eu preencho todos os requisitos para o cargo". Rose respondeu no dia seguinte pela manhã. "Oi Rubens, vou tentar falar com o PR na próxima terça-feira na sua vinda a São Paulo. Me envie seu currículo atualizado e os artigos que o Paulo falou. Se você estiver aqui em SP, posso te colocar no evento de terça-feira à tarde. Pelo menos vê se cumprimenta só para ele lembrar de vc, aí eu ataco. Bjokas. Rosemary."

Duas semanas depois, Paulo cuidava de duas indicações simultâneas: a do irmão, para a Anac, e sua própria, para a ANA. Em e-mail enviado no dia 25 de março, Paulo disse a Rose que um pedido dela a JD (de acordo com os investigadores, sigla para José Dirceu), "tratando a questão como de interesse seu", ganharia mais força. Entre os dias 28 e 29 de abril, os senadores Gim Argello (PTB-DF), Renan Calheiros (PMDB-AL) e o deputado Sandro Mabel (PR-GO) enviaram cartas ao Palácio do Planalto para reforçar a indicação de Paulo para a ANA. Os destinatários eram os então ministros Dilma Rousseff (Casa Civil) e José Múcio Monteiro (Relações Institucionais). Em 3 de agosto, Paulo cobrou Rose sobre a conversa com "JD". No dia seguinte, Rose disse que se encontraria com "JD". No dia 17 de agosto, ela disse a Paulo que estava "no pé do meu chefe sobre o seu caso". O "chefe" é Lula. No dia 9 de dezembro de 2009, com a assinatura do então presidente Lula, a mensagem com a indicação de Paulo Vieira para a ANA seguiu para o Senado.

A batalha pela nomeação de Paulo Vieira passou a envolver, a partir daí, petistas lotados na AGU. Um deles era o gaúcho Mauro Hauschild - até outubro passado, presidente do INSS, demitido a pretexto de ter deixado o trabalho de lado para fazer campanha eleitoral no Rio Grande do Sul. Em 2009, Hauschild era chefe de gabinete do hoje ministro do STF Dias Toffoli, o advogado petista que antecedeu Luís Adams na chefia da AGU. Hauschild enviou um emissário da AGU ao Senado para defender, diante do senador José Agripino Maia, a candidatura de Paulo a diretor da ANA. Usou o nome de Toffoli na aproximação. Agripino, porém, disse que votaria contra a indicação. Ela foi rejeitada em plenário em 16 de dezembro de 2009. Após a derrota, o senador Magno Malta (PR-ES) disse no plenário que Paulo perdera "não porque não é boa gente, nem preparado". "Ele é preparado, só que houve uma campanha porque ele foi colocado pelo presidente da República", afirmou Malta. No dia 18 de dezembro, Rose enviou um e-mail a Paulo e pediu a ele que juntasse tudo que saíra na imprensa sobre ele e a enviasse. "Quero MOSTRAR (assim, em letras garrafais) para o PR", afirmou. Em abril de 2010, Malta apresentou uma "questão de ordem". O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) acatou seus argumentos. Uma nova votação foi realizada, e Paulo foi aprovado. Sua nomeação foi publicada no Diário Oficial da União no dia 6 de maio de 2010. No dia 25 de maio, a mulher de Mauro Hauschild, Regiane, servidora da ANA, foi nomeada assessora especial de Paulo Vieira.

Além de, segundo as investigações, fazer tráfico de influência, Rose reinava sobre o escritório paulistano da Presidência. Conhecida por falar alto e muito, abusava de frases como "eu mando aqui" ou "vocês vão me obedecer". Era tolerada por todos. Mas sua maneira de agir incomodava. No início do governo Dilma, ministros tiveram dificuldades em usar carros oficiais em São Paulo, porque Rose não autorizava. Recentemente, ela tentou barrar a entrada do assessor de um ministro no gabinete da Presidência. Recuou quando o ministro ameaçou telefonar para Dilma.

Como a primeira-dama, Marisa Letícia, Dilma não gostava muito de Rose. Rose sabia disso e, sempre que Dilma ia ao gabinete paulista, tentava agradá-la servindo pães de queijo - uma iguaria capaz de amolecer o coração de mineiros como Dilma. Não adiantou. Assim que as notícias sobre o alcance da Operação Porto Seguro foram se acumulando, Dilma mandou demitir Rose. Era o final da manhã do sábado, dia 24. O ex-presidente Lula soube da demissão na hora do almoço, depois de chegar de uma longa viagem à índia, por um telefonema do ministro Gilberto Carvalho.

O ex-ministro José Dirceu nega qualquer envolvimento com o esquema. "Gratuitamente. Irresponsavelmente, como das outras vezes. As investigações ainda estão em curso e meu nome já é escandalosamente noticiado como relacionado ao caso", disse em nota. "Envolvem meu nome no noticiário com o maior estardalhaço, mas encerrados a "temporada" e o sucesso midiático do escândalo, silenciam quanto ao fato de nada ter se provado contra mim - pelo contrário, as investigações concluíram que não tive o menor envolvimento com o caso em pauta." Questionado sobre o fato de Rosemary de Noronha ter se apresentado como "namorada de Lula", Luiz Bueno, advogado dela, disse: "Se alguém afirmou tal fato, agradecemos sua identificação para que possamos imediatamente processá-lo por difamação".

O ex-presidente do INSS Hauschild afirmou em nota que a nomeação de sua mulher para a assessoria de Paulo Vieira se deu por "razões técnicas" e que "se encontrou poucas vezes" com Rosemary Noronha. Hauschild afirma que R$ 5.800 recebidos de Paulo Vieira eram de um empréstimo. Disse ainda que, na semana passada, pediu sua desfiliação do PT.

Por meio de sua assessoria, o presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, afirmou que entre ele e Rose "existiram relações de cordialidade protocolar". Ele nega que Rose tenha influenciado sua nomeação para a presidência do banco. Disse, ainda, que a nomeação de José Cláudio Noronha para a Brasilprev ocorreu por decisão de diretoria colegiada e que o Banco do Brasil solicitou a substituição dele da suplência do Conselho de Administração da Brasilprev. O presidente da Brasilprev, Ricardo Flores, afirmou, por meio de sua assessoria, manter com Rose apenas "contato institucional" e "não manter relacionamento com Paulo Vieira". Flores disse também não ter participado de decisão nenhuma sobre a viabilidade de eventuais empréstimos. Procurado pela reportagem de Época, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não respondeu às ligações.

Fonte: Revista Época

Uma mulher que sabe demais

Quem é e como agia a ex-secretária Rosemary Noronha, cuja intimidade com o ex-presidente Lula lhe rendeu prestígio e um cargo central no governo, que ela usava para bisbilhotar o poder, fazer nomeações e ajudar uma quadrilha especializada em vender pareceres falsos e empresários trambiqueiros. Lula, como sempre, não sabe de nada.

Otávio Cabral, Laura Diniz e Rodrigo Rangel

Quando passou a faixa presidencial a Dilma Rousseff, em 2011. Luiz Inácio Lula da Silva apresentou à sua sucessora o nome de quatro pessoas que ele não gostaria de ver desamparadas: sua secretária pessoal, o chefe da equipe de segurança, o curador do acervo do Palácio do Planalto (esse a pedido da ex-primeira-dama Marisa Letícia) e Rosemary Nóvoa de Noronha. Dos quatro. Rosemary era, de longe, quem mais tinha intimidade com o ex-presidente. Ex-bancária e ex-secretária por ele alçada à chefia do gabinete da Presidência da República em São Paulo em 2003. Rose chamava seu benfeitor de "chefe", mas volta e meia fazia questão de deixar escapar um "Luiz Inácio" diante de colegas e amigos. Nas 28 viagens internacionais que fez ao seu lado, como integrante da comitiva oficial, o acesso irrestrito ao superior incluía visitas à cabine privativa do Aerolula. de onde - conta um colaborador do governo - ela saía toda prosa. "O chefe agora vai descansar. Não quer ser incomodado." Chamada de "madame" pelos muitos desafetos que colecionou ao longo dos dois mandatos de Lula. Rose sempre teve prazer em exibir seu status de protegida do presidente. Em algum momento, decidiu também ganhar dinheiro com ele.

Até onde mostraram as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, não chegou a fazer fortuna. Rose, 57 anos, foi indiciada na Operação Porto Seguro, que terminou com a prisão de seis pessoas. Entre elas, estão os irmãos Paulo e Rubens Vieira, diretores da Agência Nacional de Águas (ANA) e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) respectivamente - já libertados. A julgar pelos e-mails e telefonemas interceptados pela PF, ambos chegaram ao cargo por influência de Rose, que pediu as nomeações diretamente a Lula. Ao contrário da ex-secretária - mas com a ajuda dela -. os irmãos não só fizeram fortuna como contribuíram para deixar mais ricos um número não conhecido de empresários trambiqueiros. Por encomenda deles, concluiu a PF, a dupla subornava funcionários públicos para que produzissem pareceres técnicos favoráveis aos seus "negócios". O papel de Rose era facilitar o acesso dos Vieira a políticos e funcionários de interesse da quadrilha. Para isso, ela invocava frequentemente os nomes de Lula, o "PR" (jargão usado no funcionalismo para se referir ao presidente da República), e de José Dirceu, o "JD".

Quando conheceu os dois, nos anos 90, Rose era uma morena de cabelos longos e contornos voluptuosos que, trabalhando como bancária, passou a frequentar o sindicato da categoria em São Paulo. Ex-colegas daquele tempo lembram que ela chegou a participar de plenárias e discussões partidárias, mas nunca se destacou como dirigente. Fazia mais sucesso nas festas que aconteciam nas quadras do sindicato, que ficava ao lado da sede nacional do PT, no centro da cidade. A afinidade entre a categoria e o partido contribuiu para que ela logo chamasse a atenção dos chefes petistas, como o então deputado José Dirceu, de quem se aproximou. Ele a contratou como secretária logo depois. Meses mais tarde, Rose começou a circular em torno de Lula, então candidato derrotado duas vezes em disputas à Presidência. A partir daí, embora oficialmente continuasse a trabalhar para Dirceu, passou a organizar a agenda de Lula e cuidar de suas contas. A proximidade entre os dois se aprofundou ao longo dos anos. Quando Lula chegou ao poder, criou um escritório para a Presidência da República em São Paulo, na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta, e Rose foi imediatamente encaixada na lista de funcionários. Foi ela a responsável pela reforma do escritório e sua decoração, que inclui um grande mural do petista chutando uma bola com a camisa do Corinthians e, sobre os sofás, almofadas revestidas com reproduções de fotos do ex-presidente. Logo após a reforma. Rose foi promovida a chefe do escritório, com salário de 11.000 reais.

A partir daí, a ex-secretária ascendeu a um novo patamar. Nas viagens internacionais a que Marisa não ia (contam amigos que a ex-primeira-dama não lhe dirige a palavra e a ignora em eventos públicos), era Rose que acompanhava Lula. Embora tenha feito 28 viagens com o ex-presidente, seu nome apareceu no Diário Oficial - como é de praxe entre os funcionários de sua categoria DAS - apenas em uma das primeiras, para Havana em 2003. Foi a única da comitiva a se hospedar na mesma ala de Lula. Nas demais vezes, seu nome foi incluído em uma lista de funcionários de segundo escalão que é enviada ao Itamaraty para homologação coletiva - e anônima - no Diário Oficial.

Foi o auge do prestígio de Rose, e ela se esbaldou nele. "Imagine uma pessoa que passou a vida pendurada no cheque especial e. de repente, recebe uma herança de um tio. Essa é a Rose", descreve um antigo amigo. Frequentemente, convidava-se para almoços com diretores do Banco do Brasil - o gabinete que ela chefiava ficava no mesmo prédio do banco. Nessas ocasiões, sempre sugeria restaurantes como o chique, e caro, Fasano. "Pedia camarão ou lagosta. E um vinho "caro", como gostava de falar. Os almoços nunca saíam por menos de 500 reais", diz um dirigente. Sabia usar informações que obtinha no escritório, onde também despachavam os ministros em viagem a São Paulo. Era comum vê-la servindo pessoalmente café e água nas reuniões com a presença de pessoas importantes. Também gostava de comentar sobre quem entrava e saía do prédio, movimentação que acompanhava de sua sala, equipada para monitorar o circuito interno de TV da segurança.

A sensação de poder foi fazendo com que ela, tida como geniosa, comprasse brigas com gente cada vez mais importante. No início do segundo mandato de Lula, Walfrido Mares Guia, então ministro das Relações Institucionais, comandou uma reunião com empresários no escritório de São Paulo. No final, pediu que a imprensa entrasse. Rose tentou impedir: "O chefe não gosta de jornalistas por aqui". Walfrido estrilou: "O chefe hoje aqui sou eu. Podem entrar os jornalistas". Os dois nunca mais se falaram. Outro com quem ela brigou foi o governador da Bahia, Jaques Wagner, que patrocinou a indicação de um técnico sem filiação ao PT para a diretoria do Banco do Brasil, quando Rose defendia um petista. Wagner levou a melhor. Meses depois, ao chegar ao escritório de São Paulo para uma reunião, ele foi interpelado por Rose: "Como você pode jogar contra o PT? Isso é uma traição ao partido". Wagner colocou-a em seu lugar: "A senhora me respeite, eu sou um governador de estado".

Rose continuou próxima de Lula depois que ele deixou o poder. É o que mostram conversas que ela teve com Paulo Vieira sobre a saúde do ex-presidente, que se recuperava do tratamento de câncer na laringe. " É, eu já falei para ele. Ele tem de parar de se expor em público enquanto aquela perna dele não ficar boa (...) Ele levou um tombo domingo dentro de casa (...) Não sei o que aquela Clara Ant fica fazendo, aquele Paulo Okamotto. que deixam o cara... Ele tá parecendo um velho caquético." Clara Ant põe ordem nas atividades profissionais de Lula e Okamotto é seu braço financeiro. Ambos se dedicam em tempo integral a Lula.

A queda de Rose começou a se desenhar em fevereiro do ano passado, quando Cyonil da Cunha Borges de Faria, à época analista do Tribunal de Contas da União, procurou a PF e o Ministério Publico Federal para dizer que havia recebido de Paulo Vieira uma oferta de 300.000 reais para alterar um parecer em benefício de uma empresa de Santos. A juíza Adriana Zanetti determinou a quebra dos sigilos de telefone e de e-mails de Paulo e seu irmão - e foi aí que Rose acabou flagrada. Embora não tenha tido o telefone nem a correspondência interceptados, o registro das conversas que manteve com os Vieira nos últimos anos mostrou que usava o cargo de chefe da Presidência em São Paulo para cuidar com desvelo de assuntos de seu próprio interesse. Em troca dos "favores" que prestava à quadrilha dos Vieira, a ex- secretária fazia toda sorte de exigência: ingressos para camarotes no Carnaval, cruzeiros no litoral paulista, pagamento de uma cirurgia no ouvido e de parcelas de um apartamento financiado.

A miudeza dos pedidos sugere que Rosemary Noronha era uma "petequeira, como são chamados os corruptos que operam na arraia-miúda. A protegida de Lula no, entanto, mexia com interesses graúdos. Além de indicar ocupantes para cargos de direção em agências reguladoras de cujas decisões dependem negócios bilionários, ela intermediava financiamentos em bancos públicos e facilitava reuniões de empresários com petistas de quatro estrelas para tratar de contratos vultosos no governo. É o caso de um encontro que marcou com Ricardo Flores, então diretor de crédito do Banco do Brasil, para que representantes de uma empresa com atuação no setor portuário pudessem pedir a ampliação do valor de um crédito junto à instituição. A empresa já possuía uma linha de crédito de 85 milhões de reais e pretendia obter mais 48 milhões. Em outra oportunidade, ainda no governo Lula, ela agendou com um alto dirigente da Secretaria de Comunicação da Presidência da República um encontro para que empresários pudessem propor a locação, para o governo, de placas de publicidade nos portos de Santos e do Rio de Janeiro. As portas que Rose conseguia abrir graças à intimidade com Lula também serviram para arrumar negócios para sua própria família. A empresa New Talent que a própria Rose ajudou a criar e que foi registrada no nome do genro dela, conseguiu sem licitação um contrato de 1,2 milhão de reais para "prestação de serviços" a uma subsidiária do Banco do Brasil.

Os Vieira tinham consciência da importância de Rose para os negócios, mas, como em toda quadrilha, tentavam reduzir o naco dela na partilha. "Não fale muitas informações sobre os processos da Bahia com a Rose, pois temos que abafar a "pedição" de dinheiro, pois a amiga é uma máquina de gastar", escreveu Paulo para Rubens ainda em 2009.

Mesmo quando recebeu a visita da PF em sua casa, na sexta-feira da semana retrasada. Rose manteve a empáfia. Aos policiais, disse: "Vou ligar para o chefe de vocês". Telefonou para o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que estava com o celular desligado. Procurou, então, José Dirceu, que disse nada poder fazer para ajudá-la. Lula estava num voo, vindo da Índia. Até agora, o padrinho de duas décadas de Rosemary Noronha, indiciada pela PF por corrupção passiva, tráfico de influência e falsidade ideológica, não veio a público comentar o episódio. Pelo contrário, em discurso feito na semana passada, pareceu desdenhar dele ao dizer que a imprensa "só dá más notícias e esconde as boas".

Embora o desbaratamento de uma quadrilha que usava de suas prerrogativas públicas para auferir vantagens não possa ser considerado uma má notícia é compreensível que a revelação do episódio desagrade a Lula. Ao contrário do que ocorre em outros países, no Brasil, a vida privada dos políticos nunca foi considerada assunto de interesse público. A forma como o ex-presidente distribui o seu afeto, portanto, é uma questão que só diz respeito a ele e seus familiares. A partir do momento, porém, que as conseqüências dessas escolhas transbordam para a esfera pública, ele não tem outra opção a não ser se explicar, talvez a única modalidade de comunicação na qual Lula não seja um mestre.

O último a saber da operação

A presidente Dilma Rousseff soube da Operação Porto Seguro pouco depois das 8 da manhã de sexta-feira por um telefonema de Luís Inácio Adams, advogado-geral da União. Adams havia sido acordado momentos antes por seu número 2, José Weber Holanda, um dos investigados. Dilma pediu para localizar o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, mas ele não atendia aos telefonemas. Já irritada, a presidente só conseguiu falar com o ministro duas horas depois, quando soube que ele não tinha conhecimento de nada.

A operação pegou Cardozo e o chefe da Polícia Federal, Leandro Daiello, de surpresa Já que foi feita pela superintendência da Polícia Federal de São Paulo, sem comunicação a Brasília. Três dias depois, Cardozo não conseguia dizer à chefe com segurança se havia ou não escutas telefônicas envolvendo Rosemary e o ex-presidente Lula, como chegou a ser noticiado. Só na manhã de terça-feira o ministro confirmou que não houve quebra de sigilo nas comunicações de Rose. Dilma fez duras criticas à atuação do ministro. Chegou a pensar em demiti-lo - desistiu por temer passara imagem de que não aceita que a PF investigue seu governo.

Por mais incômoda que possa ter sido para Lula e para setores do governo, a operação foi conduzida dentro das normas da PF. Uma mudança na estrutura da autarquia feita na gestão de Tarso Genro (2007- 2010) descentralizou as grandes operações. As superintendências regionais ganharam competência para promover ações sem avisar Brasília. Sob Márcio Thomaz Bastos (2003- 2007), os trabalhos eram centralizados. O então diretor do órgão, Paulo Lacerda, tinha um responsável pela inteligência e um pela atuação. As ações deviam ser autorizadas por um dos dois e sempre saíam de Brasília - o governo era avisado na véspera. De início, a descentralização foi considerada positiva. Mas ela veio acompanhada de uma restrição orçamentária que praticamente engessou a PF No governo, a Operação Porto Seguro foi interpretada como um "recado" da PF paulista, que não gosta do gaúcho Daiello (considerado um interventor e criticado pela rigidez com que comandou a superintendência paulista entre 2008 e 2010) nem de Cardozo (que deixou a segurança da Olimpíada e da Copa para as Forças Armadas). Questionado por emissários do governo, o superintendente da PF em São Paulo, Roberto Troncon, negou que a operação tenha tido motivação política.

Fonte: Revista Veja