sexta-feira, 8 de julho de 2022

Luiz Werneck Vianna*: O que ainda nos falta

Sem maiores incidentes, contrariando as previsões, aliás bem fundamentadas, a sucessão presidencial no dia 2 de julho, data mais celebrada no calendário cívico da Bahia recebeu seu batismo de fogo diante da presença dos principais candidatos. As candidaturas Lula-Alkmin, Ciro Gomes e Tereza Tebet participaram do cortejo multidinário com que os baianos festejam esse dia, a de Bolsonaro, num trajeto particular feito numa motociata, sua forma favorita de comunicação com o grande público. Mais uma vez, como há pouco na Avenida Paulista, a manifestação se revestiu de uma forma plebiscitária em favor da candidatura Lula-Alkmin em que o primeiro proferiu um discurso.

Tudo contado, a festa terminou em paz, não se ouviu a explosão de uma única bomba que empanasse seu brilho, marca registrada que os inimigos da democratização do país, como nos idos da década de 1980, deixam em seus rastros. Resultado surpreendente diante das manifestações quase diárias com que Bolsonaro alardeia suas pretensões de tumultuar o processo eleitoral e que exige interpretação. Ao longo da sua experiência, no curso do seu mandato presidencial, os estrategistas que o orientam compreenderam que seu estilo importado do fascismo italiano afetava apenas uma minoria de adeptos, vendo crescer contra ele um forte movimento de rejeição.

Vera Magalhães: STF isolado e ampla adesão à tese golpista

O Globo

Minha recente viagem a Brasília para a periódica medição de temperatura e conversa olho no olho com autoridades dos três Poderes, sem a mediação do WhatsApp e do telefone, me fez voltar com a constatação de que as teses golpistas de Jair Bolsonaro conseguiram adesão de amplos espectros do governo, para muito além da ponta mais visível dos militares.

O presidente conseguiu incutir em apoiadores na Esplanada dos Ministérios e no Congresso a versão segundo a qual o Supremo Tribunal Federal (STF) o impede de governar ou exorbita de suas atribuições.

Mesmo políticos que publicamente se colocam como opositores do presidente partilham, em privado, essa avaliação a respeito da atuação dos ministros, o que leva a que, hoje, o Judiciário seja uma ilha isolada na Praça dos Três Poderes. E seus integrantes se percebem dessa maneira.

Ministros dizem, em privado, que terão de “escolher as brigas” de agora em diante, numa clara demonstração de que se sentem acuados graças à ininterrupta campanha de difamação promovida pelo presidente da República, que já tem novos capítulos programados para o próximo dia 31 e para o 7 de Setembro, quando o Bicentenário da Independência será transformado em movimento de ostentação militar e pressão sobre as instituições democráticas.

Eliane Cantanhêde: PEC é o 'golpe de misericórdia'

O Estado de S. Paulo.

Única ‘emergência’ de Planalto, Congresso e Defesa: salvar a reeleição de Bolsonaro

Os adversários e os que têm pavor da reeleição do presidente Jair Bolsonaro, vermelhos, azuis ou roxos, insistem no mesmo erro de 2018: menosprezar suas chances. Basta olhar as fotos, a milícia digital, a omissão da PGR, a ação da AGU, os decretos, as votações do Congresso e a montanha de dinheiro que ele vai torrar (ou está torrando) na compra de votos para concluir que a eleição não está decidida. É temerário contar só com a rejeição, altíssima.

Na previsão palaciana, Bolsonaro ultrapassaria o ex-presidente Lula em junho, julho, mas ele estacionou nas pesquisas e só teve más notícias: expectativa de vitória de Lula em primeiro turno, assassinato de Dom e Bruno, prisão de Milton Ribeiro, CPI do MEC, Petrobras, escândalo da CEF. E a inflação inclemente...

Bateu o desespero e, se Bolsonaro jamais deixou de ser candidato e virou presidente, o Planalto se transformou definitivamente em comitê de campanha, botando para quebrar e com um novo prazo para “virar o jogo”: agosto. A “reunião ministerial” de terça-feira não foi para discutir as mazelas do País, mas um freio de arrumação na campanha.

Fernando Gabeira: O país kamikaze

O Estado de S. Paulo

O piloto na 2.ª Guerra Mundial morria só; nossos kamizazes buscam a própria salvação colocando o Brasil em risco.

A chamada PEC Kamikaze, que pode aumentar os gastos públicos em até R$ 50 bilhões, mostra que a elite brasileira não se importa com o que acontecerá com o seu país, desde que se mantenha no poder. Num só movimento, a proposta atropela o equilíbrio fiscal, a Constituição e a legislação que rege as eleições.

O desequilíbrio fiscal foi o argumento usado pelo senador José Serra para apresentar o único voto contra a emenda. Ele lembrou que o Senado descobriu só agora que há milhões de famintos no Brasil. De fato, se houvesse sensibilidade, o tema do combate à fome teria sido desenvolvido há muito tempo, sem grandes transtornos ao equilíbrio fiscal. De repente, nas vésperas das eleições, há um estalo que coincide, de um lado, com a péssima situação de Bolsonaro nas pesquisas e, também, com o medo da oposição de se colocar contra um projeto tão ostensivamente demagógico.

O argumento de que há uma alta no preço do petróleo e de que isso justifica uma decretação de estado de emergência é ridículo. Talvez no Equador, onde houve manifestações nacionais contra o aumento da gasolina, isso tivesse algum sentido. Ainda assim, não seria a resposta adequada.

Simon Schwartzman*: O Último dos Tucanos

O Estado de S. Paulo

Tomara que, no futuro, possa haver uma convergência virtuosa de novos líderes e uma nova geração de políticos.

José Serra entra para a história como o único senador que votou contra o estupro da Constituição e do teto orçamentário perpetrado pelo Congresso. É o último da geração de políticos tucanos que lutaram contra a ditadura militar, saíram do antigo MDB para criar o PSDB quando o partido foi dominado pela política corrupta de Orestes Quércia, conseguiram deter a inflação e reorganizar a economia do País, dando início às políticas sociais, e entregaram o governo de forma civilizada em 2002, quando Lula ganhou as eleições.

Espero que a “PEC Kamikaze” não seja suficiente para manter no poder o bando fascista de Bolsonaro, mas Lula não ajuda. Como os antigos reis Bourbons, ele nada esquece e nada aprende. Seu comentário sobre a PEC foi que, no seu governo, os orçamentos seriam aprovados com a “participação da sociedade”, como se quatro mandatos presidenciais não bastassem para saber que não é assim que orçamentos federais são aprovados e administrados. Sobre os preços dos combustíveis, Lula defendeu a reestatização da Petrobras, que seus governos levaram quase à falência. Antes, havia falado contra os políticos “sem alma” que só se preocupam com o teto de gastos e o equilíbrio orçamentário, e não com as necessidades do povo sofredor. Como se só ao “mercado” interessasse ter uma economia vigorosa e estável, capaz de criar empregos e pagar bons salários, e que os recursos públicos sejam destinados a investimentos e políticas sociais de qualidade, e não aos bolsos dos políticos e das corporações com mais capacidade de pressão.

Luiz Carlos Azedo: Centrão de olho no circuito Elizabeth Arden

Correio Braziliense

Por muito pouco, o ex-presidente do Senado Davi Alcolumbre não aprovou uma emenda constitucional para que senadores e deputados pudessem ocupar o posto de embaixador sem abrir mão do mandato

Florence Nightingale Graham nasceu no último dia de 1881, em Woodbridge, no Canadá, sendo criada pelo pai e pelos irmãos após a morte da mãe, quando tinha 6 anos. Enfermeira de formação, começou a produzir cremes para tratamento de queimaduras e logo transformou sua cozinha num laboratório, onde passou a criar hidratantes e cremes nutritivos, em busca da pele perfeita. Mudou-se aos 30 anos para Nova York, casou-se com um químico e, em 1910, abriu sua primeira loja na Quinta Avenida. Dez anos depois, produzia uma linha de mais de 100 produtos, mudou seu nome para Elizabeth Arden, inspirada num poema de Alfred Tennyson, e se tornou a maior produtora de cosméticos do mundo.

No Rio de Janeiro, o Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores de 1899 a 1970, graças ao Barão do Rio Branco, mais ou menos nesse período, já abrigava um corpo diplomático respeitado internacionalmente, cuja formação começou no Império e que fora educado para defender os interesses do Estado brasileiro. Após a Segunda Guerra Mundial, com a criação da Organização das Nações Unidas, as embaixadas de Nova York, Londres e Paris passaram a ser os postos diplomáticos mais cobiçados.

Bernardo Mello Franco: E se Boris fosse brasileiro?

O Globo

Num país que cultua as tradições e a pompa da monarquia, Boris Johnson despontou como novidade irresistível na política. Carismático e irreverente, o britânico quebrou todos os protocolos como prefeito de Londres. Tornou-se uma atração à parte nas Olimpíadas de 2012, quando disputou os holofotes com os atletas e a realeza.

Numa de suas peripécias, Boris saltou de uma tirolesa para celebrar o primeiro ouro do Reino Unido. Atrapalhado, perdeu velocidade e ficou pendurado na corda a seis metros do chão. A cena provocou risadas e turbinou sua popularidade. “Se qualquer outro político no mundo ficasse preso numa tirolesa, seria um desastre. Para Boris, é um triunfo absoluto...”, resignou-se o então primeiro-ministro David Cameron.

Quatro anos depois, Boris usaria o referendo do Brexit para dar um salto mais ambicioso. Oportunista, pegou carona na campanha pela saída da União Europeia, uma solução simples e errada para remediar os problemas do Reino Unido. Com a vitória da causa, sua chegada ao topo passou a ser uma questão de tempo.

Flávia Oliveira: Sete a um é pouco para a derrota da política social

O Globo

Parlamentares aprovam distribuição de caminhão de dinheiro sem freio

Pode ter sido revival do trauma pela eliminação da seleção brasileira da Copa de 1982, quatro décadas neste julho — só quem viveu sabe. Talvez uma versão brasiliense da água batizada supostamente servida a um jogador canarinho no Mundial de 1990, na Itália. A proximidade das férias, digo recesso parlamentar, é outra hipótese. Ou a dopamina liberada pela senha do orçamento secreto. É certo que só alguma causa externa explica a pane que fez do Congresso Nacional, especialmente do Senado, o festival de bolas fora e gols contra a Constituição Federal, a legislação eleitoral, a responsabilidade fiscal, a política social. Beira o escárnio o que as excelências cometeram nos dez últimos dias. Sete a um é pouco.

Começou com a aprovação constrangedora, por acachapante, da PEC Kamikaze ou da Pedalada Eleitoral, como tão bem batizou o pesquisador João Marcelo Borges, na Casa presidida por Rodrigo Pacheco, há uma semana. Foram 72 votos a 1 em primeiro turno, 67 a 1 em segundo — coube a José Serra a solitária dissonância. Remetido à Câmara, o pacotaço que anaboliza com R$ 41,2 bilhões o projeto de reeleição de Jair Bolsonaro também passou batido. Não bastasse, ontem, o Senado ratificou o aval dado pelos deputados à Medida Provisória em que o presidente da República autoriza a concessão de crédito consignado aos beneficiários do Auxílio Brasil.

Rogério Furquim Werneck: O que Lula ainda não entendeu

O Globo

Ex-presidente se irrita com qualquer menção às restrições fiscais que teria de enfrentar

Em entrevista a uma emissora de rádio, na semana passada, Lula externou com todas as letras quão irritado já está com o pouco que tem ouvido em seus parcos contatos com representantes de instituições financeiras.

Em meio a uma torrente de diatribes demagógicas, declarou que “essa gente só fala de teto de gasto e política fiscal.” “Eles não falam em política social, em distribuição de renda e distribuição de riqueza.” (Folha de S.Paulo, 2/7)

A irritação deixa claro que Lula ainda não entendeu — ou finge não entender — a real natureza do problema central que terá de enfrentar, caso seja eleito presidente: administrar uma saída ordenada do enredado entalo fiscal em que está metido o país, para conseguir, aos poucos, abrir espaço no Orçamento para atender programas de política pública desassistidos.

Bruno Boghossian: Dos quartéis à campanha

Folha de S. Paulo

Na prática, dobradinha de Bolsonaro com Forças Armadas para emparedar TSE é abuso de poder

Jair Bolsonaro pôs na mesa as cartas de sua campanha durante uma reunião na terça-feira (5). O objetivo do presidente era pedir que sua equipe fizesse propaganda do governo para aumentar as chances de reeleição, mas ele gastou metade das quatro horas de conversa para reforçar suspeitas falsas sobre a votação. Na sala, além de ministros, estavam integrantes da cúpula das Forças Armadas, que ficaram em silêncio.

Já seria difícil explicar a participação de chefes militares num encontro convocado para melhorar o desempenho eleitoral de um político. Mas é impossível justificar a presença deles numa reunião em que a máquina do governo fabrica pretextos para tumultuar a votação.

Reinaldo Azevedo: Bolsonaro dá o golpe da ilegalidade

Folha de S. Paulo

Nem todo voto no 'Mito' é fascistoide, mas todo fascistoide vota no 'Mito'

Tivéssemos tradição na literatura surrealista —há bons autores, não uma escola—, seria a hora de lançar mãos à obra. Jair Bolsonaro, sob a sombra do seu "esquema militar" e ameaçando arregimentar outros arruaceiros como ele próprio, decidiu jogar o governo, o sistema político e as eleições na mais escancarada ilegalidade. Há um golpe em curso, que não depende dos soldados de Paulo Sérgio Nogueira, ministro da Defesa. Seu palco de operações é o Congresso Nacional, e o general atende pelo nome de Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, que apelidei, em razão de suas artimanhas carnívoras, não da má vontade do escriba, de Tiranolira Rex.

A PEC que impôs o teto da alíquota de ICMS para combustíveis, energia, telecomunicação e transporte público é ilegal. Fere o pacto federativo, além de determinar perda permanente de receita para estados e municípios. Definir produtos ou serviços como essenciais para violar a Constituição é patranha amadora. Mas triunfou. Tiranolira tem as emendas do relator. E elas lhe facultam, em companhia de Bolsonaro, o comando do governo mais corrupto da história.

Vinicius Torres Freire: Brasil, ressaca depois do estelionato

Folha de S. Paulo

Sem os anabolizantes eleitorais de Bolsonaro, tombo da economia na real vai ser maior

O consumo e o emprego no segundo trimestre andaram quase no mesmo ritmo do início do ano, segundo indicadores e medidas de grandes bancos que tentam antecipar as medidas bem mais amplas e "oficiais", as do IBGE. Não dá para dizer grande coisa do PIB, que depende muito de números de investimento e comércio exterior. Mas, em termos de temperatura econômica "nas ruas", a situação não mudou grande coisa.

Na economia do dia a dia e de percepções de curto prazo, que interessam mais à política, esses indicadores de instituições financeiras sugerem que não teria havido impacto negativo na situação eleitoral de Jair Bolsonaro _ao contrário.

Por ora, as previsões de PIB no vermelho (tamanho da economia encolhendo) no terceiro trimestre também ainda não parecem à vista. Podem ser ainda mais adiadas, graças às reduções de impostos e aos aumentos de gastos, como o aumento do Auxílio Brasil e outros previstos na PEC "dos Bilhões", "Kamikaze" ou o nome que se dê.

José de Souza Martins*: Tempo de águas turvas

Valor Econômico / Eu & Fim de Semana

Já se difundiu na sociedade inteira a pergunta “haverá golpe?” ou, para os conformistas, “vai ter golpe”

Desde a posse do presidente da República, ele próprio e membros de seu governo, com alguma frequência, agitam as águas da política brasileira para turvá-las e nelas pescar de modo politicamente impróprio.

Por trás desses procedimentos está uma compreensão do processo político que não é deles, nem têm eles demonstrado ter o discernimento que lhes permita saber o que estão fazendo. Embora gostem do que fazem. Sabem de uma coisa: foram eficazes as manipulações extraeleitorais das eleições de 2018, a falsa defesa dos costumes, o falso fortalecimento da segurança. Candidatos evangélicos e candidatos fardados foram beneficiados por essas máscaras ideológicas.

Tudo foi e tem sido instrumento de uma cultura de suspeição que torna fácil, na campanha eleitoral, manipular consciências e colocar entre parênteses a consciência crítica e democrática do eleitor para induzi-lo a votar em quem normalmente não votaria. Desde a ruinzinha cinematografia americana da Guerra Fria, o mundo por ela influenciado tem sido induzido a temer fantasmas ideológicos para eleger quem supostamente os combate.

Em dias passados, a colunista Malu Gaspar divulgou no jornal “O Globo” que o general Braga Netto, candidato provável a vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro, em encontro com empresários da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, teria dito que não haverá eleição se não for feita a auditoria dos votos defendida pelo mandatário da República. Foi ouvido em silêncio. A assessoria de imprensa do general esclareceu que não houve ameaça e que a fala foi tirada de contexto.

Claudia Safatle: O novo olhar do mercado para Lula

Valor Econômico

Lula indicou que pretende, caso seja eleito, pisar no acelerador fiscal e no freio monetário

A mensagem básica que o mercado financeiro está passando para Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto favorito nas pesquisas eleitorais, é diferente da que foi em 2002. “Trata-se de uma mensagem de expectativas, e não de pânico, como foi em 2002, quando se temia que o governo do PT fosse fazer uma auditoria da dívida externa, com a consequente suspensão dos pagamentos”, ressaltou Mário Toros, sócio-fundador da Ibiúna Investimentos e diretor do Banco Central durante o governo Lula.

Ao longo da campanha, Lula indicou que pretende, caso seja eleito, pisar no acelerador fiscal e no freio monetário. Ou seja, sua politica será de ampliar o gasto público e, para conter as pressões inflacionárias, usará da taxa de juros (Selic). Essa foi a combinação que predominou por praticamente todo o seu mandato, a exceção de 2003, quando fez um ajuste fiscal pra ninguém botar defeito.

Nessa linha, o mercado aponta uma taxa de juros real de 6% para os próximos anos. Isso para um país que carrega um endividamento interno de cerca de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) é um caminho perigoso. Significa que apenas para manter a dívida estável como proporção do produto seria necessário um ajuste de quase 5% do PIB todos os anos. A combinação de um superávit primário nas contas do setor público com um crescimento econômico é que daria conta desse ajuste.

Armando Castelar Pinheiro*: Ascensão e queda do neoliberalismo

Valor Econômico

Uma evidência da decadência da ordem neoliberal é o crescente apoio à redução da globalização

Concluí a leitura do novo livro de Gary Gerstle, The Rise and Fall of the Neoliberal Order (Oxford University Press, 2022). O livro é interessante, traçando um histórico das ideologias que comandaram as políticas públicas, em especial a econômica, nas últimas oito décadas.

A história começa com o New Deal, as políticas orquestradas pelo governo democrata de Franklin Delano Roosevelt (FDR), nos EUA, em resposta à Grande Depressão dos anos 1920-30. As políticas de estímulo fiscal inspiradas em J. M. Keynes são o elemento mais conhecido do New Deal, mas não o único. Houve também o surgimento de inúmeras agências reguladoras, do sistema de seguridade social e um aumento da intervenção do Estado na economia.

O adjetivo liberal, como as políticas eram chamadas, refletia sua preocupação com o social, coordenada pelo Estado. Gerstle explora, em especial, o papel dos sindicatos, bastante fortalecidos por FDR, o que permitiu aos trabalhadores pressionarem por maiores salários e melhores condições de trabalho.

O autor atribui a tolerância dos empresários a esse ganho de poder econômico e político dos sindicatos ao papel que essas políticas exerceram em reduzir a atração do comunismo soviético, visto como o grande inimigo que unia os americanos de diferentes inclinações ideológicas. Esse raciocínio foi tão influente, que até presidentes republicanos como Eisenhower e Nixon ajudaram a fortalecer essas políticas nos anos 1950 e 1970.

Humberto Saccomandi: Argentina segue presa ao seu feitiço do tempo

Valor Econômico

Argentina vive nova crise econômica, e cenário futuro é ruim. Como no filme “Feitiço do Tempo”, país parece condenado a repetir erros do passado

A Argentina está em crise novamente. A inflação neste ano pode chegar (ou até superar) 80%. O dólar disparou e há fuga de capital. O governo limitou importações e gastos no exterior para conter a queda das reservas internacionais. Cresce o risco de um novo calote da dívida pública. Há racionamento de diesel em quase todo o país. A troca da equipe econômica nesta semana gerou ainda mais incertezas. E não há sinais de melhora à vista, ao menos até as eleições do ano que vem. Até lá, o governo vai empurrar com a barriga e deve acelerar o gasto público, com fins eleitorais, o que agravará a situação.

Tratar da Argentina é como ouvir um disco riscado. O país parece condenado a viver no dia da marmota, como naquele filme (“Feitiço do Tempo”) em que o personagem fica preso numa armadilha temporal que o faz reviver sempre o mesmo dia. É um ciclo contínuo de repetir erros do passado, de expectativa e desilusão. Quando o cenário externo favorece, como no início deste século, o ciclo de expectativa é mais longo. Quando joga contra, como agora com pandemia e guerra, a desilusão toma conta.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

País decente não tem fome

O Estado de S. Paulo

ONU recoloca Brasil no vergonhoso ‘mapa da fome’, do qual só sairemos quando a sociedade considerar inaceitáveis a obscena desigualdade social e o desenvolvimento econômico medíocre

O Brasil voltou de vez ao mapa da fome e nada indica que se livrará dessa vergonhosa marca tão cedo. Dados do relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2022, divulgado por cinco agências da Organização das Nações Unidas (ONU), apontam que 15,4 milhões de pessoas estavam sob insegurança alimentar grave no País entre 2019 e 2021, um contingente que representa hoje 7,3% de toda a população – são 3,9 milhões a mais do que o contingente observado entre 2014 e 2016, época em que o índice não chegava a 2%. Números que muitas vezes parecem frios ganham outra dimensão quando traduzidos em exemplos mais claros: 15,4 milhões de brasileiros não sabem se comerão um prato de comida ao longo do dia de hoje.

A essas pessoas, o presidente Jair Bolsonaro nunca ofereceu nada, nem mesmo uma palavra de solidariedade. Sem qualquer planejamento nem foco nos mais necessitados, o governo distribuiu benefícios de forma indiscriminada a todos que conseguissem passar pelos parcos e confusos controles de acesso do Auxílio Emergencial. Agora, observando que seus índices de aprovação atingiram o pico na vigência do programa, o Executivo dobrou a aposta no Auxílio Brasil, repleto de falhas graves apontadas por todos os especialistas em políticas sociais. Principal adversário de Bolsonaro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem falado em retomar o Bolsa Família, que, embora seja melhor que seu malfadado sucessor, tampouco foi capaz de solucionar a miséria nacional.

Poesia | Bertold Brecht: É preciso agir

 

Música | Joyce Cândido e João Bosco: Rancho da Goiabada (João Bosco e Aldir Blanc)

 

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Merval Pereira: Ciência e eleições

O Globo

Amanhã é o Dia Nacional da Ciência e, para comemorar, o Instituto Serrapilheira, primeiro instituto privado de apoio à ciência e à divulgação científica no Brasil, e a Maranta, agência de inteligência política para sustentabilidade, repetem uma ação exitosa acontecida em julho de 2020, quando 60 espaços na imprensa, entre eles esta coluna, abordaram a pauta do processo científico. A iniciativa foi parte da campanha #CientistaTrabalhando, que buscava explicar como a ciência funciona, tendo como contexto a pandemia de Covid-19.

Desta vez, retomam o tema, agora com a ciência no contexto das eleições, com o objetivo de mostrar que ela tem papel fundamental no desenvolvimento do país — atravessa política, economia, educação, saúde, meio ambiente e cultura — e que, por isso, deve ter lugar de destaque no debate eleitoral. Fui ouvir o físico Luiz Davidovich, ex-presidente da Academia Brasileira de Ciências, que se mostrou otimista com os progressos da ciência:

Malu Gaspar: É a eleição, estúpido!

O Globo

Muitas coisas em Brasília são insondáveis para o cidadão comum, aquele que pega ônibus, paga boletos, compara preços no supermercado e nunca entrou num prédio projetado por Oscar Niemeyer. As decisões tomadas pelo Congresso recentemente, por exemplo. Em menos de 48 horas os aliados de Jair Bolsonaro aprovaram, com a ajuda da oposição, a autorização para o governo gastar quase R$ 41 bilhões em um pacote extra de benefícios sociais a menos de três meses da eleição. 

A medida cria uma exceção à Lei Eleitoral que impede o governante de turno de usar a máquina pública para distribuir dinheiro ou comprar votos, levando vantagem sobre os concorrentes. É o "estado de emergência" que permite a Bolsonaro aumentar sem empecilhos o valor do Auxílio Brasil e do auxílio gás, além de distribuir vales para caminhoneiros autônomos e taxistas.

A proposta foi bombardeada por técnicos do Senado, do Tribunal de Contas da União e de organizações sociais pelo temor de que destrua as contas públicas e gere mais inflação, aumentando o peso da crise sobre os bolsos dos brasileiros, em vez de aliviá-lo. 

Ninguém discute a necessidade de ampliar a rede de proteção social para a massa que está passando fome e é jogada na miséria pela carestia. Mas todo mundo sabe que o governo poderia cortar outras despesas para ampliar os benefícios sociais sem ter que quebrar as contas públicas. Poderia, também, ter implementado essas medidas de forma planejada, nos últimos meses, sem ferir a lei eleitoral. Afinal, a crise não começou na semana passada. Se o governo achou que seria tranquilo derrubar uma das leis mais importantes para nossa democracia, foi porque apostou que ninguém na oposição teria coragem de se opor a algo que "ajuda os mais pobres" às vésperas da eleição.

Luiz Carlos Azedo: A insensatez e o efeito manada

Correio Braziliense

A insegurança jurídica provocada por emendas à Constituição casuísticas, aprovadas à toque de caixa, ampliam o cenário de incertezas em relação à estabilidade da própria moeda, o real.

A Marcha da Insensatez, da historiadora Barbara Tuchman, que venceu o prêmio Pulitzer por duas vezes, trata de situações nas quais seus protagonistas contrariaram seus próprios interesses, nos casos da Guerra de Tróia, da Reforma Protestante, da Independência dos Estados Unidos e da Guerra do Vietnã. Nesses episódios, as lideranças políticas mais poderosas tomaram decisões catastróficas. Por isso, o livro é um clássico da política.

Tuchman descreve a desastrosa atuação dos papas do fim do século XV e início do XVI, a arrogância da aristocracia inglesa frente às colônias americanas e, por fim, a cegueira da elite político-militar dos EUA na Guerra do Vietnã. O mundanismo — o enriquecimento do alto clero — dividiu a Igreja e embalou a Reforma de Lutero e Calvino. A inflexibilidade e a cobiça da aristocracia inglesa resultaram na perda de suas Colônias na América do Norte. A Guerra do Vietnã levou os Estados Unidos a uma de suas mais profundas e longas crises políticas.

No Brasil, estamos vivendo um momento parecido. Estão em xeque nossa ordem democrática e a institucionalidade da economia. Ulysses Guimarães, o grande patrono da nossa Constituição Cidadã, quando alguém se queixava do Congresso, costumava dizer que a safra de parlamentares seguinte seria pior. Sua pilhéria virou uma maldição, porque o grau de deterioração das práticas políticas no Congresso só aumenta.

William Waack: Engolido pelos fatos

O Estado de S. Paulo

A PEC do Desespero de Bolsonaro está ajudando Lula, visto como o que melhor garantiria benefícios

Não há surpresa alguma na PEC do Desespero. Comprar votos é o que sempre fez a política como ela é. Vergonha na cara não existe nesse tipo de política (nem gratidão). É um traço aparentemente imutável da nossa cultura, goste-se ou não.

A questão é saber se a compra de votos vai funcionar. O universo de eleitores que vivem com renda familiar (atenção, familiar) de até 2 salários mínimos – o alvo da PEC do Desespero – é estimado em 60 milhões de pessoas. Esse número equivale à soma de colégios eleitorais como São Paulo, Minas e Bahia.

É a formidável massa de eleitores da categoria “mais pobres” (40% do total). Nesse enorme segmento a vantagem de Lula sobre Bolsonaro tem sido ampla, constante e, ao que tudo indica, consolidada. Em outras palavras, com a PEC do Desespero a estratégia de Bolsonaro consiste em atacar seu adversário onde ele é mais forte.

Adriana Fernandes: Velho novo Bolsa Família

O Estado de S. Paulo.

Os problemas são novos e maiores e não serão resolvidos com soluções velhas e eleitoreiras

A campanha da chapa Lula-Alckmin incluiu no programa de governo a volta do Bolsa Família num modelo “turbinado”, mas a proposta não encontra consenso nem mesmo entre os pesquisadores e os gestores da área social ligados aos partidos que apoiam a candidatura.

Alertas têm sido disparados para a coordenação do programa, que prometeu a volta do Bolsa com mais famílias e manutenção do piso de R$ 600 do Auxílio Brasil. Numa lógica de que recuperar o legado do ex-presidente Lula, que criou o programa há quase 20 anos, seria suficiente.

Para os críticos da proposta, não basta retornar ao modelo do antigo programa num cenário que hoje é muito diferente, após o impacto da pandemia e do choque de alta dos preços com a guerra na Ucrânia sobre a população mais pobre. O Bolsa Família tinha problemas e filas. Não seria nem mesmo solução do ponto de vista eleitoral.

Roberto Macedo*: Mais e graves pecados fiscais e eleitorais

O Estado de S. Paulo

PEC do ‘estado de emergência’ descumpre mandamentos de uma adequada política fiscal e de regras eleitorais sem privilégio.

Tendo como pretexto o forte aumento do preço dos combustíveis, o desgoverno Bolsonaro se excedeu imaginando um “estado de emergência” com sua Proposta de Emenda Constitucional (PEC) recém-aprovada no Senado, com apenas um voto em contrário, do senador José Serra, que honrou o seu mandato.

Entre outros gastos, ela contempla ampliação do Auxílio Brasil, aumento do vale-gás e bolsa-caminhoneiro e para motoristas de taxi. Quando eu escrevia este texto, essa PEC estava na Câmara dos Deputados e a previsão é de que ali será também aprovada por larga margem, pois a dita oposição não quer ir contra um pacote de benesses na proximidade de eleições, ainda que muito defeituoso, populista, oportunista e favorável ao seu adversário. Segundo o jornal O Globo de 1/7/2022, “parlamentares fizeram duras críticas, mas não tiveram coragem de figurar em lista contra a proposta que aumenta verbas públicas para programas sociais, mesmo dando vantagem eleitoral ao presidente”.

Maria Hermínia Tavares*: Muito além do balcão

Folha de S. Paulo

Graves, as denúncias não são o pior se fez contra a educação pública sob Bolsonaro

Salvo reviravolta improvável, ficou para as calendas a CPI para apurar as acusações de malfeitos que nocautearam o então ministro da Educação Milton Ribeiro e seguem ameaçando respingar no amigo presidente. São denúncias pesadas de montagem de um balcão de negócios com recursos do FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação) operado por dois pastores evangélicos, contumazes frequentadores do Palácio do Planalto.

O fundo é o braço financeiro-executivo do MEC, responsável pelas principais ações e programas federais para a educação básica e, secundariamente, para o ensino profissional e superior. Dali saem os reais que pagam alimentação e transporte, livros didáticos e bibliotecas, informatização do ensino e projetos especiais de melhoria da infraestrutura física ou pedagógica das escolas públicas do país.

Bruno Boghossian: Um consórcio contra a CPI do MEC

Folha de S. Paulo

Senadores pretendiam usar comissão para mergulhar no orçamento do FNDE, abastecido por parlamentares

O acordo para adiar a CPI do MEC não protege só a campanha de Jair Bolsonaro. A investigação do esquema operado por pastores no ministério abriria uma janela para apurar também o destino de bilhões de reais direcionados por parlamentares.

Senadores que articularam a coleta de assinaturas da CPI pretendiam usar a comissão para mergulhar no orçamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação. Os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura são suspeitos de cobrar propina para intermediar repasses do órgão para prefeituras, mas a investigação poderia chegar mais longe.

Desde 2020, deputados e senadores indicaram mais de R$ 2 bilhões para ações do FNDE nos municípios. Os políticos pediram dinheiro para a construção de creches, a reforma de escolas, a compra de carteiras e outros programas.

Maria Cristina Fernandes: Bolsonaro em viés de alta

Valor Econômico

Presidente montou armadilha para tomar base social do PT

A aprovação, pelo Congresso, da PEC do desespero, dará ao presidente Jair Bolsonaro um volume mensal de recursos (R$ 12 bilhões), em valores nominais, quatro vezes maior do que aquele despendido pelo Bolsa Família (R$ 2,9 bilhões). O PT não vai mais poder se agarrar ao passado. Para estancar o avanço do bolsonarismo sobre sua base social, patente na pesquisa Quaest, terá que mostrar como ir além.

Isso acontece num momento em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva começa a se aproximar do empresariado. Dele vem a cobrança por um discurso centrista que restabeleça responsabilidade fiscal e mantenha deprimidos os custos do trabalho que, na crise, têm permitido a sobrevivência de empresas. A armadilha do erário escancarado colocou Lula numa encruzilhada. E não é sobre o número de turnos da eleição. É sobre a determinação do presidente em vencê-la.

Com a PEC, Bolsonaro jogou em todas as posições. Emparedou o Judiciário e sua defesa do devido processo eleitoral, impediu o protagonismo da oposição em propor que as mudanças ultrapassassem 2022, e, finalmente, abriu uma avenida para ter o reconhecimento eleitoral dos beneficiados.

Cristiano Romero: Quem perde mais com mudança do ICMS?

Valor Econômico

Plataforma da FGV sobre municípios é projeto inédito

Onde você vive, leitor desta coluna? No país chamado Brasil ou no município de São Paulo, capital do Estado de mesmo nome, ou no Rio, ex-capital federal, conhecida no passado como “Cidade Maravilhosa”, ou na “nova” capital, Brasília, ou no Recife, em Salvador, Belo Horizonte ou em Porto Alegre? Ora, brasileiros, todos (213,3 milhões de pessoas em 2021, segundo estimativa do IBGE) residimos em 5.570 municípios.

A distribuição da população pelos municípios revela chagas criadas - e jamais enfrentadas - pelo acelerado processo de industrialização, e consequente urbanização desenfreado, iniciado na década de 1950. Do total da população brasileira, 31,6 milhões (14,8%) residem em 3.770 municípios (67,7% das cidades) com até 20 mil habitantes; 123 milhões (57,7% da população) moram em 326 municípios (5,8% do total) com mais de 100 mil habitantes.

O governo central de qualquer país cuida de questões como inflação, educação, saúde, segurança em relação a ameaças externas, entre outras. Portanto, se Brasília não cuida bem da macroeconomia do país e a inflação escala, não há brasileiro - com exceção dos “suspeitos de sempre, os ricos, beneficiários ainda hoje por mecanismos de indexação e proteção contra a perda de valor da moeda - que não sinta os efeitos deletérios do aumento generalizado de preços. Não há prefeito criativo, bem intencionado e competente que consiga fazer uma gestão efetivamente boa para a maioria da população em cenários de crise macroeconômica.

Insegurança alimentar afeta mais de 61 milhões no Brasil, indica ONU

Casos de insegurança alimentar grave cresceram 3,9 milhões de 2014 a 2016 para 2019 e 2021, totalizando 15,4 milhões

Agência O Globo / Valor Econômico

A fome aumentou no Brasil e no mundo em meio às crises sanitária e econômica. É o que aponta o novo relatório “O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2022”, divulgado ontem por cinco agências da ONU. O número de pessoas atingidas pela fome subiu para 828 milhões em 2021, um aumento de cerca 150 milhões desde o início da pandemia.

No Brasil, 61,3 milhões convivem com algum tipo de insegurança alimentar. Desse total, 15,4 milhões estiveram sob insegurança alimentar grave entre 2019 e 2021, um aumento de 3,9 milhões ante o período de 2014 a 2016.

O relatório é uma produção conjunta da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) com o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Fida), Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP) e Organização Mundial da Saúde (OMS). A prevalência de insegurança alimentar moderada ou grave no Brasil em relação à população aumentou de 37,5 milhões de pessoas (18,3%) de 2014 a 2016, para 61,3 milhões (28,9%) de 2019 a 2021. O quadro global também é sombrio. Depois de permanecer relativamente inalterada desde 2015, a proporção de pessoas afetadas pela fome saltou em 2020 e continuou a subir em 2021, chegando a 9,8% da população mundial (8% em 2019 e 9,3% em 2020).

Mercedes Bustamante*: Ciência ajuda a entender mundo em transformação

O Globo

Próximas décadas revelarão o desconhecido

A partir do século XVI, o termo “terra incógnita” (terra desconhecida) passa a indicar nos mapas as regiões ainda não mapeadas ou documentadas. No século XIX, com os continentes explorados, o termo desaparece da cartografia. Hoje, reaparece quando cientistas querem abordar assuntos ou campos de pesquisa ainda inexplorados. Inúmeras pesquisas indicam que as próximas décadas serão marcadas pela entrada em novas terras desconhecidas, dada a convergência de profundas transformações sociais, econômicas, políticas e ambientais.

Conduzir o Brasil por tais transformações, reduzindo impactos e aproveitando oportunidades, só será viável com a retomada de planejamento e investimentos consequentes em ciência e educação. A ciência nos auxilia a compreender o mundo e suas dinâmicas; nos fornece esclarecimentos sobre a natureza, a humanidade, a sociedade, nossas construções físicas e de pensamento.

Os avanços científicos, no entanto, emergem de bases de conhecimento fundamental que resultam da contribuição de muitos ao longo de anos. Tais bases só podem ser construídas a partir de esforços continuados na preparação de profissionais capazes de se apoiar no conhecimento acumulado para ver mais longe. Sobre os ombros de gigantes, como na frase atribuída a Isaac Newton.

Conrado Hübner Mendes*: A ciência é um farol

Folha de S. Paulo

Nem todas as luzes foram apagadas na busca por novo projeto de país

Esta coluna foi produzida especialmente para a campanha #ciêncianaseleições". Neste mês de julho, pelo segundo ano, colunistas cedem seus espaços para abordar temas relacionados ao processo científico, em textos escritos por convidados ou por eles próprios.

Este espaço foi cedido pelo colunista Conrado Hübner Mendes, para as professoras Soraya Smaili (Unifesp) e Debora Foguel (UFRJ). Elas são pesquisadoras do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (Sou_Ciência).

No último dia 26 de junho, Gilberto Gil completou 80 anos e fomos nós que ganhamos um presente, seu artigo "Brilho da ciência e da cultura vai nos tirar da escuridão". Gil defende que cientistas e artistas comungam de fazeres comuns: desbravam o desconhecido, esquadrinham os mistérios do universo e da alma, imaginam mundos distintos e futuros possíveis. Ciência e cultura nos ajudam a enxergar e reencontrar nossa humanidade, ingredientes necessários para desenhar um novo projeto de país.

É nas universidades que as energias criativas da ciência, da arte e da cultura se encontram e se misturam num ambiente diverso e plural, gerador de ideias, forças e vidas. São essas instituições que teimam em persistir e resistir a esses tempos sombrios e a seus cavaleiros do apocalipse que pregam o descaso, o desmando, o desmonte.

Fernando Carvalho: Desafio LED - Me dá uma luz aí!

O pessoal do LED já premiou meia dúzia de cursinhos com R$200 mil para cada um (Vide o artigo: LED Lusco-fusco na Educação). Agora propõe um desafio para estudantes universitários para apresentarem "Soluções criativas para problemas educacionais vividos em escolas ou universidades". O prêmio é de R$ 300 mil. Vou apresentar aqui a solução para um problema vivido em escolas, universidades e na sociedade. Sou pernambucano como nosso Gilvan Cavalcanti e estudei o curso primário no Grupo Escolar Amaury de Medeiros no bairro de Afogados, no Recife.

Os alunos antes de entrar na escola se reuniam no pátio de entrada em formação militar (os baixinhos na frente). E o hino nacional seguido do hino de Pernambuco era cantado. E o hino de Pernambuco terminava com a estrofe "Pernambuco é imortal, é imortal". E nós, os meninos, acrescentamos "Parararará, tim bum". A Diretora da escola ficava puta e dizia que aquilo não existia no hino. Mas toda vez que cantávamos a estrofe final era ouvida porque os meninos maiores a cantavam entre os dentes. E a diretora de onde estava não tinha como policiar a boca de dezenas de meninos. 

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Desespero, improviso

Folha de S. Paulo

Bolsonaro tenta compensar em 90 dias o que sua inépcia produziu em 3 anos e meio

O presidente da República corre para tentar compensar em menos de 90 dias o que a sua incompetência produziu em três anos e meio de mandato. A energia com que agora cobra empenho de ministros pela reeleição contrasta com a indolência de suas longas folgas no litoral e o desleixo na escolha de prioridades e quadros para a gestão.

Os berros e os palavrões típicos de suas conversas entre quatro paredes não terão o condão milagroso de transformar a realidade de dezenas de milhões de cidadãos que irão às urnas em outubro preocupados sobretudo com a economia.

Ações, como a de despejar bilhões de reais em cortes de impostos e aumentos de gastos no curtíssimo prazo, poderão melhorar a competitividade do candidato Jair Bolsonaro (PL). Mas, como toda atitude desesperada, essa que leva a maioria do Congresso a alterar a Constituição como quem troca de roupa também implica custos.

Parte da conta será assumida pelos próximos mandatários e paga após as eleições pelo contribuinte e pelos que mais dependem de serviços públicos, pois as prestidigitações populistas são fugazes. Mas uma outra parcela do fardo já pesa nas costas de seus patrocinadores.