Valor Econômico
Segundo Carlos Melo, esquerda se fragiliza por não ter ampliado alianças nos Estados
A falta de amplitude do palanque do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode prejudicar seus aliados na
corrida para o Senado, especialmente nos Estados em que o bolsonarismo lançou
nomes fortes, na visão do cientista político Carlos Melo, do Insper. O arco
formal de alianças em defesa da reeleição de Lula está restrito a partidos de
esquerda ou centro-esquerda. Pontualmente há acordos com partidos mais ao
centro ou à direita no espectro político.
O Senado renova duas vagas por Estado neste ano. Os eleitos são os dois melhores votados, independentemente se estão ou não na mesma coligação; e o eleitor vota em dois nomes. O desafio que um candidato ao Senado precisa superar para ser eleito é ser capaz de atrair o chamado “segundo voto”. Já houve muitos casos em que um nome forte, mas polarizador, ficou de fora por não ser preferencialmente a segunda opção.
Segundo Melo, esta pode ser a situação das
candidaturas lulistas no Rio Grande do Sul e em São Paulo. “São nomes
respeitáveis, com alto recall, mas não estão dentro de uma aliança ampla”,
afirmou.
No Rio Grande do Sul, a ex-deputada Manuela
D’Ávila (Psol) lidera a maioria dos levantamentos locais e seu parceiro de
chapa, o deputado Paulo Pimenta (PT), aparece um pouco atrás, mas de maneira
competitiva. Em São Paulo, devem disputar o Senado pela coligação lulista as
ex-ministras Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), ambas com chances de
vitória de acordo com pesquisas.
“Em outras eleições Simone e Marina
concorreram com mais transversalidade, mas nas atuais circunstâncias terão
dificuldade de ultrapassar o perímetro da esquerda”, disse Melo. Simone Tebet
foi candidata à Presidência em 2022 e Marina concorreu ao cargo em 2010, 2014 e
2018.
O obstáculo maior para as duas, ou uma das
duas, ser eleita, na visão de Melo, é a consistência da principal chapa da
direita, que deve ser formada pelo ex-secretário de Segurança Guilherme Derrite
(PP) e pelo presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do Prado
(PL).
“Derrite sai forte na região metropolitana da
capital, pelo discurso de segurança pública, área em que a esquerda é
tradicionalmente frágil. E André do Prado deve sair forte no interior, por ser
capaz de acionar a máquina de prefeitos”, comenta. Ainda pesa contra Marina e
Simone o fato de nenhuma das duas ter raízes no Estado. A primeira foi senadora
pelo Acre por dois mandatos e a segunda, pelo Mato Grosso do Sul, por um
mandato.
Segundo Melo, a polarização estadual entre o
governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro
Fernando Haddad (PT) tende a fazer com que para o Senado os eleitores façam um
voto casado, sem espaço para a captação do segundo voto pela chapa adversária.
O que, na visão dele, pode quebrar o favoritismo de Prado e Derrite é a divisão
da direita. Se o Novo mantiver a candidatura ao Senado do deputado Ricardo
Salles ficará mais difícil para o conservadorismo conseguir o primeiro e o
segundo posto na eleição paulista, avalia.
No caso do Rio Grande do Sul, o cenário é
menos polarizado. Além dos candidatos alinhados a Lula e Flávio Bolsonaro, o
MDB deve lançar candidato ao governo estadual e ao Senado. Para a cadeira do
Legislativo o nome mais mencionado é o do ex-governador Germano Rigotto, que
pode crescer como segundo voto tanto pelo lado da esquerda como da direita.
Estão no palanque de Flávio como candidatos ao Senado os deputados Marcel Van
Hattem (Novo) e Ubiratan Sanderson (PL).
Segundo Melo, “a força da direita para o
Senado não vem simplesmente da opção bolsonarista de privilegiar este ano esta
eleição, mas de um caldo de cultura que começou em 2018”. Ele lembra que
senadores daquela safra chegaram ao Senado defendendo uma Comissão Parlamentar
de Inquérito (CPI) do Judiciário e o impeachment de ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF). A pressão pela chamada “CPI da Toga” foi esvaziada em
2019 por iniciativa do próprio bolsonarismo, em uma articulação na qual Flávio
Bolsonaro foi um dos protagonistas. À época, o senador se defendia na Justiça
da acusação de ter participado de um esquema de “rachadinha” na Assembleia
Legislativa do Rio de Janeiro. O caso terminou arquivado por anulação de
provas.
De acordo com Melo, “a esquerda entrou
tardiamente no assunto, quando percebeu que não poderia ficar à mercê do
Centrão”. Apesar da observação do cientista político, o lulismo se apoia em
pré-candidatos ao Senado de partidos do Centrão em diversos Estados. Há espaço
até mesmo para o União Brasil, no Pará, onde o partido deve lançar o ex-ministro
Celso Sabino. Essa situação é mais comum, contudo, nos Estados em que Lula é
claramente favorito para ficar à frente de Flávio no primeiro turno.

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