terça-feira, 30 de junho de 2026

Lógica do 2º prejudica lulismo na disputa pelo Senado, por César Felício

Valor Econômico

Segundo Carlos Melo, esquerda se fragiliza por não ter ampliado alianças nos Estados

A falta de amplitude do palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode prejudicar seus aliados na corrida para o Senado, especialmente nos Estados em que o bolsonarismo lançou nomes fortes, na visão do cientista político Carlos Melo, do Insper. O arco formal de alianças em defesa da reeleição de Lula está restrito a partidos de esquerda ou centro-esquerda. Pontualmente há acordos com partidos mais ao centro ou à direita no espectro político.

O Senado renova duas vagas por Estado neste ano. Os eleitos são os dois melhores votados, independentemente se estão ou não na mesma coligação; e o eleitor vota em dois nomes. O desafio que um candidato ao Senado precisa superar para ser eleito é ser capaz de atrair o chamado “segundo voto”. Já houve muitos casos em que um nome forte, mas polarizador, ficou de fora por não ser preferencialmente a segunda opção.

Segundo Melo, esta pode ser a situação das candidaturas lulistas no Rio Grande do Sul e em São Paulo. “São nomes respeitáveis, com alto recall, mas não estão dentro de uma aliança ampla”, afirmou.

No Rio Grande do Sul, a ex-deputada Manuela D’Ávila (Psol) lidera a maioria dos levantamentos locais e seu parceiro de chapa, o deputado Paulo Pimenta (PT), aparece um pouco atrás, mas de maneira competitiva. Em São Paulo, devem disputar o Senado pela coligação lulista as ex-ministras Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), ambas com chances de vitória de acordo com pesquisas.

“Em outras eleições Simone e Marina concorreram com mais transversalidade, mas nas atuais circunstâncias terão dificuldade de ultrapassar o perímetro da esquerda”, disse Melo. Simone Tebet foi candidata à Presidência em 2022 e Marina concorreu ao cargo em 2010, 2014 e 2018.

O obstáculo maior para as duas, ou uma das duas, ser eleita, na visão de Melo, é a consistência da principal chapa da direita, que deve ser formada pelo ex-secretário de Segurança Guilherme Derrite (PP) e pelo presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do Prado (PL).

“Derrite sai forte na região metropolitana da capital, pelo discurso de segurança pública, área em que a esquerda é tradicionalmente frágil. E André do Prado deve sair forte no interior, por ser capaz de acionar a máquina de prefeitos”, comenta. Ainda pesa contra Marina e Simone o fato de nenhuma das duas ter raízes no Estado. A primeira foi senadora pelo Acre por dois mandatos e a segunda, pelo Mato Grosso do Sul, por um mandato.

Segundo Melo, a polarização estadual entre o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro Fernando Haddad (PT) tende a fazer com que para o Senado os eleitores façam um voto casado, sem espaço para a captação do segundo voto pela chapa adversária. O que, na visão dele, pode quebrar o favoritismo de Prado e Derrite é a divisão da direita. Se o Novo mantiver a candidatura ao Senado do deputado Ricardo Salles ficará mais difícil para o conservadorismo conseguir o primeiro e o segundo posto na eleição paulista, avalia.

No caso do Rio Grande do Sul, o cenário é menos polarizado. Além dos candidatos alinhados a Lula e Flávio Bolsonaro, o MDB deve lançar candidato ao governo estadual e ao Senado. Para a cadeira do Legislativo o nome mais mencionado é o do ex-governador Germano Rigotto, que pode crescer como segundo voto tanto pelo lado da esquerda como da direita. Estão no palanque de Flávio como candidatos ao Senado os deputados Marcel Van Hattem (Novo) e Ubiratan Sanderson (PL).

Segundo Melo, “a força da direita para o Senado não vem simplesmente da opção bolsonarista de privilegiar este ano esta eleição, mas de um caldo de cultura que começou em 2018”. Ele lembra que senadores daquela safra chegaram ao Senado defendendo uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Judiciário e o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A pressão pela chamada “CPI da Toga” foi esvaziada em 2019 por iniciativa do próprio bolsonarismo, em uma articulação na qual Flávio Bolsonaro foi um dos protagonistas. À época, o senador se defendia na Justiça da acusação de ter participado de um esquema de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O caso terminou arquivado por anulação de provas.

De acordo com Melo, “a esquerda entrou tardiamente no assunto, quando percebeu que não poderia ficar à mercê do Centrão”. Apesar da observação do cientista político, o lulismo se apoia em pré-candidatos ao Senado de partidos do Centrão em diversos Estados. Há espaço até mesmo para o União Brasil, no Pará, onde o partido deve lançar o ex-ministro Celso Sabino. Essa situação é mais comum, contudo, nos Estados em que Lula é claramente favorito para ficar à frente de Flávio no primeiro turno.

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