Valor Econômico
Disputa interna no PT e nas corporações sobre um quarto mandato arrisca minar as chances de Lula obtê-lo
A perspectiva de futuro anunciada pela
postulação do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está mais
clara nas disputas internas desencadeadas no governo e no PT do que nas
propostas protocoladas no TSE.
Quatro vezes maior que aquele apresentado em
2022, o programa é mais uma prestação de contas do que foi feito neste mandato
do que um plano de voo para o seguinte. Nenhum candidato faz programa de
governo para anunciar desvinculação de gastos mas a promessa de ampliação no
alcance e escopo das políticas públicas não é acompanhada dos meios para
viabilizá-las no Orçamento da União.
É possível que se queira fazer parte disso retomando um naco dos R$ 50 bilhões em emendas parlamentares, citadas quatro vezes no programa, mas o insucesso deste intento até aqui recomenda ceticismo. Decantadas reformas, como a administrativa e do Judiciário, não merecem uma única menção. Pela profusão (11 menções) com que a IA é citada, deve haver expectativas, mas sua incorporação à gestão pública produz eficiência, não milagres.
É mais fácil encontrar a expectativa de
futuro da campanha petista no afã com o qual os colaboradores do presidente se
arvoram a mostrar serviço - das escolhas que envolveram o lançamento da
campanha, neste domingo, à disputa interna em torno do controle das investigações
sobre o filho de Lula e seu ex-chefe de gabinete. Prestado o serviço, espera-se
a retribuição futura no quarto mandato. Para isso, porém, é preciso que Lula
vença esta eleição, meta comprometida por esta disputa interna.
Há quem o faça com alguma eficiência. Ao
desmontar os indicadores do governador Tarcísio de Freitas na segurança e na
educação no debate do domingo, o ex-ministro Fernando Haddad não ficou mais
perto do Palácio do Bandeirantes, mas está na rota para encurtar a diferença de
votos em desfavor de Lula em São Paulo - nas contas do PT estaria em 1,3 milhão
de votos, metade do registrado em 2022.
O mote do lançamento da campanha vai no
sentido inverso. Do clipe que mostra a saga do filho de 7 anos de dona Lindu
desde Garanhuns a São Paulo até a definição do estádio da Vila Euclides para o
evento de lançamento, as escolhas têm nome - culto ao passadismo - e sobrenome:
para agradar o candidato. Esta não é a campanha de 2022, quando Lula voltou ao
poder depois de vinte anos e desconhecido de muitos eleitores. A campanha é -
ou deveria ser - sobre futuro, o ovo com o qual o PT conta sem que a galinha o
tenha posto na urna.
Pode ser que, no dia seguinte, findo o prazo
de registro, o PT comece a derreter o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), contra quem,
até as paredes do PL sabem, há muito mais munição. Um sinal de que todos já
esperam isso foi dado pelo candidato do PSD, que anunciou convite a Lincoln
Gakiya para a Segurança.
Ronaldo Caiado pretende avançar sobre Flávio
Bolsonaro surfando no destemor do promotor do MPSP no combate ao crime
organizado e na denúncia contra seus aliados na cúpula da PM. Gakyia, porém, é
a favor das câmeras corporais nos uniformes policiais e o candidato do PSD,
contra. Não se pronunciou sobre o convite.
O risco de o ovo petista sequer ser chocado é
a galinha morrer antes. Na rodada deste domingo da pesquisa qualitativa com
eleitores independentes reunidos pelo Instituto Democracia em Xeque, há um
receio em relação ao quanto o malfeito no inquérito do INSS se acercou de Lula,
mas o presidente ainda goza de confiança pela garantia de autonomia da PF. Há
até mesmo a compreensão de que as operações policiais reduzem seu ritmo durante
uma campanha para não desequilibrar a disputa.
O que não está no radar do eleitor é o limite
ao qual a disputa interna em torno deste inquérito pode levar. A fotografia da
disputa é a rinha de galo entre o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei
Rodrigues, e o ministro relator do caso do INSS, André Mendonça. Cada um deles
tem um ponto. A auxiliares, o DG tem se queixado de que o ministro requisita
provas decorrentes das quebras de sigilo com indexação, ou seja, com o roteiro
do que pode vir a encontrar, facilitando a busca de provas para uma acusação,
expediente proibido.
No gabinete do ministro, porém, prevalece a
percepção de que os delegados o têm deixado no escuro porque pediram a quebra
de sigilo da lobista Roberta Luchsinger, amiga do filho de Lula, em dezembro e,
até o momento, não apresentaram os indícios colhidos no seu celular. Três delegados
e um perito foram trocados no inquérito. Não há atos “de ofício”, ou seja, de
iniciativa do ministro, no caso. Todas as quebras e operações foram pedidas
pela PF e autorizadas por Mendonça. É o que se ouve no seu gabinete.
Rodrigues e Mendonça, porém, têm um problema
comum que custam a enxergar, talvez por falta de um mediador para esta disputa.
Tanto um quanto o outro são cobrados pelos vazamentos das operações do INSS e
do Master. A PF como, de resto, Brasília quase inteira, já mira uma repactuação
com o futuro governo - de prebendas e prerrogativas. Quanto mais informações
sensíveis tiverem em mãos, mais poder terão nesta tarefa. Veem um DG a caminho
de deixar a PF e um ministro cercado por togados que se veem menos ameaçados em
seus mandatos pela futura composição do Senado. Desta concentração de poder vêm
vazamentos que poderão ter impacto na reta final sobre o voto dos indecisos. É
esta a zoada que está a apoquentar a galinha e a ameaçar o ovo.

Um comentário:
Não entendi: "Esta não é a campanha de 2022, quando Lula voltou ao poder depois de vinte anos e desconhecido de muitos eleitores."
Lula governou de 2003 até 2010.
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