E como esta se tornou linha auxiliar da extrema-direita
Há um incômodo silencioso que percorre os eventos da
centro-direita brasileira quando um nome da extrema-direita surge nas conversas
de bastidor. Não é repulsa, é apenas um leve constrangimento. No dia a dia,
esse doce constrangimento se dissolve em abraços, palcos compartilhados e uma
sintonia de alvos que torna irrelevante qualquer diferença programática
alegada. A terceira via, esse projeto político que em tese se apresentaria como
alternativa tanto à esquerda quanto à direita irascível, tornou-se na prática
linha auxiliar da extrema-direita.
O fenômeno não é brasileiro, mas aqui adquiriu contornos bem particulares. Na Europa, a dinâmica se deu principalmente por absorção programática; aqui, a terceira via optou por uma estratégia de fragmentação aparente: muitas candidaturas, os mesmos palcos, um único adversário real. O que está em curso não é uma disputa entre projetos de país. É uma divisão tática de trabalho político cujo efeito principal é deslocar, gradual e inexoravelmente, os limites do aceitável.
Esta análise examina os mecanismos pelos quais a terceira via opera como dispositivo de normalização da extrema-direita. Não se trata de negar a existência de liberais democratas sinceros. Trata-se de observar que seu comportamento político concreto, independentemente das intenções declaradas, produz efeitos objetivos de legitimação do radicalismo autoritário.
O Caso Brasileiro: A fragmentação como método
Desde 2018, a terceira via brasileira encontrou sua vocação: ser
tudo aquilo que a extrema-direita não pode dizer em público. Enquanto o
radicalismo vocaliza o que há de mais brutal no inconsciente das massas, a
terceira via traduz esses impulsos para a linguagem dos editoriais, dos
congressos empresariais, dos debates televisionados. Um mesmo conteúdo, a
deslegitimação do adversário, a rejeição a qualquer projeto redistributivo, a
hostilidade ao Estado como arena de disputa democrática, transita entre o grito
e a análise técnica sem que a substância se altere.
No noticiário brasileiro, "terceira via" virou rótulo
frouxo, aplicado a qualquer candidatura de partido de centrão, da mais tímida à
mais próxima do bolsonarismo declarado. Esta análise usa o termo em sentido
mais estrito. Não como etiqueta de imprensa, mas como categoria funcional: o
papel que uma candidatura efetivamente desempenha na normalização do
radicalismo, independentemente do nome que carrega. Uma candidatura pode
ostentar o rótulo sem cumprir função alguma de escada; outra pode recusá-lo e
cumpri-la à risca. O que importa, para os fins deste texto, não é o rótulo. É a
função.
O que torna o caso brasileiro especialmente revelador é a
desenvoltura com que essa chamada terceira via administra suas contradições.
Quando questionada sobre a companhia que mantém, a resposta é sempre
coreografada: minimizar o aliado incômodo como exagero retórico, relativizar a
ameaça citando exemplos descontextualizados da esquerda, ou justificar a
aliança como pragmatismo político, ou a abjeta defesa do chamado “mal menor”. A
objeção mais sofisticada que essa coreografia produz merece ser enfrentada de
frente, não descartada de passagem. Dizem seus arautos que é preciso opor à
esquerda um projeto de poder capaz de vencer eleições, e que pureza ideológica
não vence pleitos. O argumento seria respeitável se a história não tivesse já
respondido a ele. Cada vez que a moderação apostou nessa coalizão ampla para
vencer com o que se tem, ela não venceu a extrema-direita; foi vencida por ela.
Realismo que sistematicamente perde não é realismo, é uma simples rendição com
sotaque técnico.
A estratégia da fragmentação opera em frentes simultâneas e ganha
nitidez quando se olha para nomes concretos da corrida presidencial de 2026 em
vez de categorias abstratas. Romeu Zema ocupa o nicho do liberalismo econômico,
construído sobre dois mandatos em Minas Gerais e um discurso anticorrupção
dirigido quase inteiramente contra o PT. O mesmo Zema, porém, já anunciou que
concederia indulto a Jair Bolsonaro e aos condenados pelos atos de 8 de
janeiro, já defendeu o impeachment de ministros do STF e evita, com cuidado
calculado, qualquer crítica a Flávio Bolsonaro, seu concorrente à direita.
Ronaldo Caiado ocupa o nicho do conservadorismo de gestão, o discurso do
agronegócio pragmático e de uma segurança pública forte, com a ambiguidade
necessária para não afastar o eleitor urbano nem o rural já radicalizado e
logicamente sem críticas relevantes ao candidato do PL. Augusto Cury testa o
rótulo mais explícito de terceira via, a promessa de despolarização. Ela foi
lançada com a presença simbólica do governador Tarcísio de Freitas. Ele mesmo é
lançado com a presença simbólica do governador Tarcísio de Freitas, ele mesmo
um nome que cresceu na onda do bolsonarismo, do agronegócio e do empresariado
liberal, sem jamais precisar escolher um campo. Renan Santos, fundador do
Movimento Brasil Livre e um dos arquitetos do impeachment de Dilma Rousseff,
testa a narrativa mais agressiva, aquela que embaralha de vez as fronteiras
entre terceira via e radicalismo. Nenhum desses nomes precisa vencer a eleição
para cumprir a função da escada. Sua utilidade está em ocupar espaço,
normalizar vocabulário, fazer a manutenção do ambiente discursivo até que a
extrema-direita retome o protagonismo e, lógico, atingir um único alvo: a
candidatura do PT.
O efeito acumulado deste arranjo é um deslocamento imperceptível, mas constante. A cada nova etapa, o discurso da terceira via se parece mais com o da extrema-direita do ciclo anterior, enquanto a extrema-direita avança para territórios antes impensáveis e mais abjetos. O “centro” não se mantém; ele persegue a extrema-direita, ajudando-a a escalar e expandir seus próprios limites.
O padrão global: da moderação à absorção
O fenômeno não é invenção tropical. Na França, os Republicanos
passaram anos convencidos de que poderiam conter Marine Le Pen mantendo-a à
distância enquanto incorporavam seus temas: imigração como ameaça
civilizacional, identidade nacional como trincheira, o Estado de direito como
obstáculo. O resultado não foi a contenção do radicalismo, mas sua legitimação.
Quando um ex-presidente de centro-direita repete os mesmos diagnósticos da
extrema-direita, apenas com vocabulário mais polido, ele valida as premissas
dela. A presença de Le Pen no segundo turno em 2017 e em 2022 era, depois
disso, previsível.
Na Alemanha, o tabu do pós-guerra, jamais cooperar com a
extrema-direita, vem sendo corroído não por confronto direto, mas por
contaminação gradual. A CDU incorporou, em alguns estados, o vocabulário da AFD
sobre imigração e segurança, acreditando que poderia recuperar eleitores
oferecendo uma versão "responsável" do mesmo produto. O eleitor,
confrontado com a cópia e o original, tende a preferir o original. A AfD
cresceu. A CDU se fragmentou e diminuiu.
O caso americano é o mais didático por sua brutalidade. O Partido
Republicano tentou usar Trump como veículo em 2016 e terminou completamente
remodelado por ele. Paul Ryan e Mitch McConnell imaginaram que poderiam
domesticar o radicalismo oferecendo-lhe institucionalidade em troca de votos.
Em menos de uma década, foram devorados. Quem resistiu, como Romney, Cheney e
Kinzinger, acabou expulso. À direita dos EUA, descobriu tarde demais que não
estava usando a fera; era a escada dela.
A lição destes casos é brutal em sua simplicidade: a moderação que se propõe a conter o radicalismo, incorporando suas pautas, não o enfraquece. Ela constrói a estrada pela qual o extremismo de direita avança. Cada concessão discursiva, cada aliança pragmática, cada silêncio cúmplice diante do inaceitável não são gestos táticos. São degraus da escada.
A mecânica da escada
O processo pelo qual essa terceira via se torna linha auxiliar da
extrema-direita segue uma sequência que, uma vez identificada, torna-se
impossível de ignorar.
Começa pelo compartilhamento de ambientes. A direita tradicional
aparece nos mesmos eventos, divide os mesmos palcos, frequenta os mesmos
circuitos de financiamento que a extrema-direita. A simples presença conjunta
envia um sinal: as diferenças são de grau, não de natureza. Não é preciso
declarar aliança; basta estar junto. No Brasil, anos de aparições conjuntas em
fóruns empresariais, manifestações e eventos conservadores construíram, por
mera exposição repetida, a percepção de um campo político contínuo, e em pouco
tempo deixou de ser apenas uma percepção para virar um fato.
Uma vez normalizados, os temas da extrema-direita passam a definir
os termos do debate. A terceira via, que entrou no jogo acreditando que
definiria a pauta, descobre-se reagindo a ela. Já não propõe; responde. Já não
lidera; segue. O centro de gravidade do debate deslocou-se, e quem acreditava
empurrar a extrema-direita para o centro descobre que foi puxado para a margem.
No fim, resta apenas a irrelevância ou a canibalização. A terceira via enfrenta
um dilema final: ou se torna irrelevante, superada pela
"autenticidade" do radical que diz sem filtros o que ela apenas
insinua, ou se funde completamente a ele, abandonando qualquer pretensão de
diferença. Em ambos os casos, a escada cumpriu sua função. E agora já pode ser
recolhida.
Então por que essa terceira via insiste em ser escada? Três
fatores, nenhum deles acidental, explicam a recorrência deste padrão.
Há, antes de tudo, a convergência de interesses materiais.
Terceira via e extrema-direita defendem, no essencial, a mesma estrutura de
propriedade, a mesma hierarquia social, a mesma recusa à redistribuição. Suas
diferenças são estéticas e retóricas. Quando confrontadas com uma ameaça real a
esses fundamentos, como um governo de esquerda com projeto redistributivo, a
estética torna-se detalhe descartável.
Há também o que se poderia chamar de síndrome do domesticador: a
convicção, recorrente e sempre frustrada, de que a moderação pode domesticar o
radicalismo, oferecendo-lhe respeitabilidade em troca de contenção. A história
está pontuada de figuras que acreditaram nisso, de Hindenburg a Paul Ryan, e
terminaram engolidas. A extrema-direita não busca respeitabilidade como fim;
busca-a como meio. Uma vez obtida, avança.
E há, por fim, o fator mais profundo e menos confessável: o medo do popular. Para amplos setores dessa “terceira via”, a possibilidade de governos de esquerda com base popular, mesmo moderados e democráticos, é uma ameaça existencial que justifica qualquer aliança. Melhor o radicalismo autoritário que controla a multidão do que o socialismo que a organiza. Esta equação, raramente explicitada, é o verdadeiro programa político da terceira via contemporânea.
O ecossistema digital como acelerador
A transformação do ambiente comunicacional nas últimas duas
décadas criou condições para que este processo se acelerasse dramaticamente. As
plataformas digitais operam com algoritmos que recompensam o engajamento
emocional sobre a precisão factual, arquitetura sob medida para o discurso
radical. A extrema-direita, com seu talento para controvérsia e simplificação,
domina este ambiente com naturalidade.
O que merece exame mais detido é o papel específico que a terceira
via desempenha neste ecossistema. Não se trata apenas de desvantagem
competitiva. Trata-se de uma divisão de trabalho na qual a moderação funciona
como ponte entre o submundo digital e o debate público respeitável.
Observe-se o ciclo de vida de uma narrativa típica. Ela nasce em
grupos fechados de mensageria, onde circula sem qualquer filtro. Dali migra
para canais de extrema-direita em plataformas abertas, ganhando vocabulário
político. O passo seguinte é o crucial: algum veículo ou influenciador da
terceira via a recolhe, retira-lhe as arestas mais grotescas e a publica sob o
formato de "análise preocupada" ou "debate necessário". Foi
o que ocorreu com a tese do "ativismo judicial" como ameaça à
democracia, gestada em grupos bolsonaristas durante os inquéritos do STF, que
migrou para editoriais de veículos liberais até se tornar posição respeitável
em seminários de direito constitucional. A mesma trajetória pode ser traçada
nas narrativas sobre fraude eleitoral: o que em 2018 era delírio de grupos
radicalizados, em 2022 já frequentava colunas de análise política sob o
guarda-chuva do "aperfeiçoamento do sistema eleitoral".
As investigações sobre milícias digitais no Brasil, conduzidas
pela Polícia Federal e examinadas pelo Supremo Tribunal Federal ao longo dos
últimos anos, expuseram algo que deveria constranger a terceira via. A
separação nítida entre "direita moderada" e "direita
radical", que o debate público insiste em preservar, não resiste ao exame
de quem financia o quê. Círculos empresariais que patrocinam candidaturas de
centro-direita reaparecem, com frequência incômoda, entre os apoiadores de
estruturas de desinformação bolsonaristas. Não há dois projetos com fronteiras
claras. Há um ecossistema de poder com divisão de tarefas.
O resultado desta arquitetura é uma contaminação assimétrica. A extrema-direita fornece o conteúdo bruto; a terceira via fornece o selo de respeitabilidade. Ambas ganham: a primeira, acesso a públicos que jamais consumiriam seu conteúdo diretamente; a segunda, relevância algorítmica e conexão com bases mobilizadas. Quem perde é a possibilidade de um debate público assentado em premissas compartilhadas de realidade.
O que a terceira via torna possível
As consequências desta dinâmica vão muito além do xadrez eleitoral
de curto prazo.
Primeiro, o estreitamento do debate público. Quando a terceira via
e a extrema-direita competem entre si para ver quem ocupa o território mais à
direita, temas que afetam a vida concreta da maioria, salários, moradia,
transporte, saúde, desaparecem da agenda. O debate político torna-se uma
sucessão de pânicos morais e controvérsias identitárias que mobilizam afetos,
mas não oferecem soluções.
Depois, a erosão institucional. A retórica antiinstitucional,
quando repetida por figuras "respeitáveis" em versão moderada, prepara
o terreno para ataques mais frontais. Questionar a confiabilidade das urnas em
linguagem técnica é a versão palatável do que a extrema-direita fará em
linguagem de motim. Uma vez rompido o consenso de que instituições são o
terreno comum do jogo democrático, a escalada é questão de tempo.
E, ao final da cadeia, a normalização da violência política. Há uma linha que conecta a retórica de “combate ao inimigo”, mesmo proferida em ambientes elegantes, à violência política que eventualmente irrompe nas ruas. A terceira via acredita que pode acender o fósforo retórico sem se responsabilizar pelo incêndio. A crença é conveniente. A realidade é implacável.
Como seria uma terceira via verdadeira?
Reconhecer o padrão é o primeiro passo. Mas é preciso ir além e perguntar
que condições permitiriam à terceira via existir como força democrática
autônoma, e não como linha auxiliar do radicalismo.
O requisito mínimo são cordões sanitários efetivos. A experiência
belga e francesa demonstra que o compromisso de jamais formar coalizões com a
extrema-direita, mantido com consistência ao longo de décadas, impede a
normalização. Não se trata de sectarismo, mas de estabelecer que há linhas que,
uma vez cruzadas, excluem o transgressor do jogo democrático. A terceira via,
que não estabelece esta linha, está, na prática, negociando os termos de sua
própria irrelevância.
O segundo requisito é a autonomia programática real. Uma terceira
via que se define primariamente pelo que combate, e não pelo que propõe, já é
linha auxiliar. É preciso construir agenda própria, que vá além da gestão
competente do status quo e ofereça respostas às ansiedades que alimentam o
radicalismo, insegurança econômica, desamparo social, crise de pertencimento,
sem recorrer a bodes expiatórios.
O terceiro é a honestidade sobre os próprios aliados. A terceira
via precisa decidir se está disposta a perder eleitores e financiadores que
flertam com o autoritarismo. Enquanto a defesa da democracia estiver
condicionada à conveniência eleitoral, ela não é defesa. É marketing. Defender
a democracia custa caro; é da natureza dela que seus defensores paguem esse
preço.
A terceira via brasileira, e, de modo mais amplo, a centro-direita
liberal que se apresenta como alternativa civilizada, enfrenta uma escolha que
definirá seu lugar na história. Pode persistir no papel de escada, oferecendo
respeitabilidade a um projeto que despreza as regras do jogo democrático, ou
pode romper com a cumplicidade tácita e construir-se como força autônoma.
A aposta atual, usar a extrema-direita como instrumento para
derrotar a esquerda e depois contê-la, fracassou em todos os lugares onde foi
tentada, inclusive aqui no Brasil. A extrema-direita não é instrumento de
ninguém; ela que instrumentaliza. É um projeto de poder que usa seus aliados
táticos com o mesmo desprezo que reserva a seus inimigos declarados. Cada
degrau da escada acredita-se estratégico. Ao final, todos servem à mesma
ascensão.
A história não pede juramentos. Pede que, na hora exata em que a fera pedir carona, alguém tenha a coragem de fechar a porta. Portanto, votar nessa chamada terceira via é a mesmíssima coisa que votar na extrema-direita, e quem o faz sabe exatamente o que está fazendo e, sem dúvidas, todos sabem com quem estarão no segundo turno das eleições.
*Cláudio Carraly, advogado, ex-secretário executivo de Direitos Humanos de Pernambuco.

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