O Globo
Capítulo das finanças público-privadas da era
Trump compõe um dos retratos mais vergonhosos dos 250 anos de independência da
nação americana
Tem uma ponte no meio do caminho. No meio do
caminho entre Detroit, no estado americano de Michigan, e Windsor, na província
canadense de Ontário, tem uma ponte. Ou melhor, tem duas.
Uma delas está estalando de nova, aguardando inauguração. É a maior ponte estaiada da América do Norte, projetada para durar mais de cem anos. Tem 2,5km de comprimento, seis faixas para tráfego transfronteiriço, uma infraestrutura aduaneira ultramoderna e um caminho multiúso de 3,5m de largura, seguro e aprazível, para pedestres e ciclistas. Integralmente financiada pelo governo do Canadá (US$ 5 bilhões), terá pedágio com receita dividida entre o país vizinho e Michigan.
A segunda ponte também liga Detroit a Windsor
e fica a apenas 3km de distância da primeira. Vive congestionada. Tem idade
quase centenária (1929), volta e meia exige reparos, mas é por ela que ainda
passa 25% do volumoso comércio entre Estados Unidos e
Canadá. Foi comprada meio século atrás pela família Maroun, dona de um
bilionário império de logística e transporte na região. Para o clã continuar a
embolsar sozinho a receita do pedágio de mais de 10 mil caminhões e 4 mil
automóveis por dia, é de seu interesse adiar ao máximo a inauguração da nova
ponte binacional, marcada para este ano.
Em janeiro deste ano, a família fez uma
doação de US$ 1 milhão ao comitê de ação política, ou Super PAC, do presidente
Donald Trump, o Maga Inc. Em fevereiro, Matthew Maroun foi recebido em
Washington pelo secretário de Comércio, Howard Lutnick, que, por sua vez,
telefonou a Trump para relatar a conversa. Difícil não pensar em causa e
efeito: horas depois, Trump anunciava em rede social que o funcionamento da
nova ponte dependerá de acertos compensatórios. A equação custo-benefício leva
a marca registrada Trump: uma única família de bilionários-doadores atendida,
em detrimento da melhoria na vida de milhões de cidadãos anônimos.
O caso das pontes não consta do assombroso
relatório financeiro pessoal do presidente americano divulgado na semana
passada — nem deveria, por se tratar de contribuição política para um fundo de
campanha. Mas segue o mesmo modus operandi turvo embutido no documento de 927
páginas publicado, ironicamente, pelo Escritório de Ética Governamental. Ganhos
pessoais pantagruélicos com criptomoedas, negociações na Bolsa coincidentemente
acopladas a atos governamentais e presentes esquisitos como o Boeing 747-8 de US$
400 milhões doado pelo Catar compõem a
longa lista do faturamento de US$ 2,2 bilhões obtido por Trump desde que voltou
à Casa Branca.
É tudo junto e misturado. Tome-se o exemplo
do acordo entre Estados Unidos e Cazaquistão para explorar reservas de
tungstênio, metal necessário tanto para ogivas de mísseis como para chips de
computador. Trump envolveu-se pessoalmente nas negociações. O secretário
Lutnick trabalhou nos bastidores. Paralelamente, investidores ligados a uma
empresa que tem dois filhos do presidente como coproprietários adquiriram uma
participação de 20% em companhia vinculada ao projeto. Enquanto isso, a Cantor
Fitzgerald — empresa dirigida pelos filhos do próprio Lutnick — captava US$ 210
milhões para um parceiro do negócio e embolsava as taxas.
— Os pais definem a política, os filhos
lucram — denunciou o congressista democrata Mike Levin, da Califórnia.
As famílias Trump e Lutnick, juntas ou em
separado, mantêm vínculos financeiros com pelo menos 14 empresas ligadas a
acordos estratégicos de mineração que recebem polpudo financiamento federal.
Donald Jr. e Eric Trump também investem em fabricantes de drones que disputam
contratos com o Pentágono para guerras iniciadas pelo pai. O genro Jared
Kushner, por seu lado (“voluntário” sem cargo público), já amealhou US$ 6
bilhões em ativos de Arábia Saudita, Emirados
Árabes Unidos e Catar — justamente os países onde negocia acordos de
paz para o Oriente Médio em nome dos Estados Unidos.
O capítulo das finanças público-privadas da
era Trump compõe um dos retratos mais vergonhosos dos 250 anos de independência
da nação americana. Há ostentação no ganho espúrio, no gozo do presidente ao se
autodeclarar imune a conflitos de interesse. Democracia e corrupção não são
excludentes, ensina a História, mas nem os Estados Unidos mereciam ver a Casa
Branca transformada em máquina de fazer dinheiro.
Ou melhor, merecem sim, por terem reeleito —
ou permitirem que fosse reeleito — um réu condenado pela Justiça. Dentro de
três meses, teremos eleições no Brasil.

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