segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Fim de moratória da soja representa retrocesso ambiental

Por O Globo

Decisão do STF validou as leis estaduais que, na prática, sepultam pacto para reduzir o desmatamento

Foi frustrante a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que julgou válidas leis dos estados de Mato Grosso e Rondônia contrárias à moratória da soja, o acordo que veta a compra de safras colhidas em áreas desmatadas da Amazônia a partir de julho de 2008. A legislação dos dois estados por onde se expande a fronteira agrícola proíbe a concessão de benefícios fiscais a empresas participantes de pactos privados que criam restrições à produção agropecuária — e é apontada como responsável por esvaziar a moratória.

A decisão do STF foi contraditória. De um lado, a Corte afirmou que a moratória da soja, que vinha sendo questionada em diversas ações, é constitucional. Os ministros determinaram que juízes e autoridades de todo o país, inclusive do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), encerrem todas as ações decorrentes da moratória. Mas reconhecer a legitimidade a esta altura significa pouco ou nada, uma vez que o pacto, firmado em 2006, não existe mais. Nenhuma empresa quer mais participar do acordo por temer perder benefícios fiscais nos estados.

Assista ao discurso de Lula no evento de lançamento de sua campanha presidencial

 

Petista usa comparação com Bolsonaro para responder por futuro, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Campanha do PT coloca como estratégia central a comparação de indicadores das gestões Lula e Bolsonaro para desconstruir Flávio

A cobrança por sinalizações de futuro sobre a campanha do PT deverá vir por meio de comparações entre as entregas do atual governo e aquele que o antecedeu. Foi isso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou, ao lançar sua campanha no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), no domingo (16), num tom de quem se cansa com a cobrança: “Eu vou dizer pra vocês o que é pensar no futuro”.

Saiu, então, comparando indicadores da redução da evasão escolar do ensino médio, enumerando indicadores que, na redução da evasão escolar no ensino médio, inflação, desemprego, geração de postos de trabalho, investimentos públicos, crédito para a indústria e crescimento da economia.

É por aí que a demanda da militância por desconstrução da candidatura de seu principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deve vir. Quando dirigentes petistas falam em “tocar o terror” na campanha do PL, é o apelo, junto ao eleitor, contra a volta ao passado, que enfatizam. A ausência de menções a escândalos como o Master sugere que a desconstrução virá mais da comparação do que pela exploração da corrupção.

A eleição será decidida pelos endividados, por Bruno Carazza

Valor Econômico

Candidatos precisam apresentar propostas para 50% da população que está com nome sujo na praça

Entre vários números preocupantes da economia brasileira, um deles é dramático: o país tem 83,9 milhões de pessoas negativadas no Serasa. Isso significa 51% dos CPFs ativos atualmente. E, à exceção dos menores de 18 anos e dos maiores de 70, a maioria desses endividados vai votar em outubro. São eles que decidirão quem subirá a rampa do Palácio do Planalto em 5 de janeiro de 2027.

Nas eleições americanas de 1992, o consultor político James Carville deu um conselho ao jovem democrata Bill Clinton, que desafiava George H. Bush em sua tentativa de reeleição: “É a economia, estúpido”.

A mensagem, escrita em letras garrafais num cartaz pregado na parede do comitê de campanha em Little Rock, Arkansas, lembrava ao candidato que ele deveria sempre destacar os efeitos da recessão sobre a população durante entrevistas e debates. A tática deu certo. Clinton derrotou Bush e desde então o mote vem sendo repetido a cada pleito, em qualquer lugar do mundo.

Para Rubio, América Latina é o quintal dos EUA, por Demétrio Magnoli

O Globo

O alinhamento dos novos líderes da região à Casa Branca isola regionalmente o Brasil

‘A Doutrina Monroe moldou a política externa dos Estados Unidos por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado.’ A legenda do vídeo divulgado há uma semana pelo Departamento de Estado incorre num erro histórico e escolhe uma palavra-chave ausente da doutrina original. Assinala, porém, em meio à desordem estratégica do governo Trump, uma nítida prioridade.

O presidente James Monroe delineou o conceito no discurso do Estado da União do final de 1823. A doutrina ganhou uma versão imperial com o Corolário Roosevelt (1904). Finalmente, tornou-se secundária com a Doutrina Truman (1947), que “moldou” a estratégia dos Estados Unidos do Pós-Guerra, baseando-a na aliança com a Europa Ocidental. O vídeo erra de propósito: na hora em que Trump abandona o compromisso com a proteção da Europa, inventa-se uma narrativa em que desaparece a Guerra Fria.

'Sósia' de Alexandre de Moraes circula entre vips em comício de Flávio Bolsonaro, por Bernardo Mello Franco

O Globo

De toga e fraldão, candidato a deputado posou para selfies em área reservada de comício do PL em Copacabana

Um 'sósia' de Alexandre de Moraes chamou a atenção no comício que abriu a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro neste domingo, no Rio.

De gravata e toga semelhante à dos ministros do Supremo, Julio Sergio Carneiro Marques, o Julinho Dborais, circulou na área reservada do ato do PL em Copacabana.

Foi assediado por bolsonaristas, posou para selfies e puxou assunto com figurões da direita como o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio.

Julinho é candidato a deputado federal pelo Partido Novo. Usa um lema inusitado: "Não vote em ladrão, vote no doidão".

Filantropia brasileira enfrenta desafio, por Preto Zezé

O Globo

Quando o recurso chega à ponta, vem preso a rubricas que não pagam gestão nem quem mantém a luz acesa

Participei, na quarta-feira passada, em São Paulo, de um encontro do Think Tank do Bem, a convite de Elie Horn e Aron Zylberman. Desde 2024, o grupo estimula empresários a doar, iniciativa louvável num país com tamanha concentração de renda. Saí de lá com uma inquietação: todo mundo falava de financiamento e quase ninguém falava de território.

Quando falo em território, muita gente entende endereço, pedaço de chão, mancha no mapa. Não é disso que falo. Território é inteligência. É gente que administra crise todo dia sem ter feito curso de gestão, resolve conflito sem chamar mediador, pega o estigma e devolve carisma, trabalha na escassez e, ainda assim, produz abundância, com um saber que não veio dos bancos da universidade e resolve, no cotidiano, o que a teoria não resolveu. Governança territorial é essa inteligência viva dirigindo o que se faz naquele lugar.

O STF fora da lei, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O jornalismo que as democracias protegem é aquele das notícias que incomodam os poderosos, do setor público ou privado

“Jornalismo é imprimir aquilo que alguém não quer ver impresso. Tudo o mais é relações públicas.”

É preciso atualizar a frase conhecida nas redações. O jornalismo foi muito além do jornal impresso. Mas a prática continua a mesma: apurar e publicar informações. É verdade que há notícias boas, de que todo mundo quer saber. Por exemplo: a chegada ao mercado das injeções emagrecedoras. Nesses casos, quase não é preciso apurar. O dono dos medicamentos quer divulgá-los, e o público espera ansioso. Publicar isso é quase “relações públicas”.

O jornalismo que as democracias protegem — pelo qual o público mais se interessa — é outro, aquele das notícias que incomodam os poderosos, sejam do setor público ou do privado. Ou ainda de uma junção das duas esferas, como o uso de dinheiro público para lucro privado.

Centrão sendo Centrão, por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

Não escolher um lado é estratégia para continuar relevante depois da eleição

A decisão da União Progressista e do Republicanos de permanecerem neutros na eleição presidencial – e em boa parte das disputas estaduais – parece confirmar uma velha máxima da política brasileira: Centrão sendo Centrão. Mas por que o Centrão se comporta assim? A explicação usual aponta para pragmatismo, fisiologismo ou falta de identidade programática. Há, porém, uma interpretação menos normativa. Em presidencialismos multipartidários, partidos podem seguir duas trajetórias distintas para conquistar poder.

A primeira é majoritária: lançar um candidato competitivo à Presidência e tentar controlar diretamente o Executivo. É uma estratégia de alto risco e alto retorno. Quem vence fica com o maior prêmio. Quem perde pode passar quatro anos amargando a oposição. É a estratégia historicamente seguida por partidos como PT e, durante muitos anos, PSDB. Mais recentemente, o PL passou a ocupar esse espaço à direita.

Mar de lama ou instituições funcionando? Por Marcus André Melo

Folha de S. Paulo

Cada operação da PF conta duas histórias: a da expansão do crime organizado e a da resistência das instituições

Tensões entre direção da Polícia Federal e o relator do escândalo do INSS no STF são reveladoras

A profusão de operações policiais no país produz simultaneamente uma crise de confiança e uma demonstração de capacidade institucional. Quanto mais o sistema de controle funciona, mais corrupção se torna visível; quanto mais corrupção se torna visível, mais a sociedade pode concluir que o sistema inteiro está apodrecido.

Família deveria ser sinônimo de acolhimento, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

Novela escancara toxicidade e ódio quando o assunto é orientação sexual ou identidade de gênero

Teledramaturgia tem o condão de reforçar ou de questionar hábitos e valores tidos como tradicionais

Parei de acompanhar telenovelas há décadas, mas confesso que às vezes me entrego ao impulso de deixar a mente divagar diante da TV enquanto a tela exibe um folhetim. Foi assim que um dia desses assisti a uma cena sobre preconceito, sexualidade e autoaceitação na novela "Quem Ama Cuida".

Observando a angústia e a insegurança suportadas por um dos personagens diante da intolerância do avô, me peguei refletindo sobre o quanto a família, que deveria ser um espaço seguro e de acolhimento, muitas vezes é tóxica e impregnada de ódio quando o assunto é orientação sexual ou identidade de gênero em desacordo com o padrão cis-heteronormativo.

O crime nos trinques, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Nossos bandidos são hoje mais ricos do que os mais famosos gângsteres americanos

Por que então não se vestem de acordo e continuam parecendo pés-de-chinelo?

De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha.

Via negociada, Frente Ampla e projeto de nação, por Ivan Alves Filho

Diante do perigo fascista, em ascensão na Itália no início dos anos 20 do século passado, o fundador do Estado soviético, Vladimir Lenin, lançou, no quadro da Internacional Comunista fundada em 1919, a chamada Frente Única. Por intermédio dela, ele propôs uma aliança com a social-democracia europeia.   

Para isso, não hesitou em criticar posturas que considerava "esquerdistas" ou irresponsáveis entre alguns setores se reivindicando do marxismo na Alemanha, por exemplo. A crítica não era tanto dirigida ao Partido Comunista recém-formado, mas a grupos que dele se afastaram, recusando-se a participar do Parlamento e dos sindicatos controlados pelos social-democratas.

Em todo caso, o entendimento com a social-democracia era muito difícil. Houve a traição durante a Guerra, a qual custou 15 milhões de mortos, sem aludir aos feridos e mutilados. Além do que, os social-democratas assassinaram Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht. Mesmo assim, Lenin lançou a sua proposta.

Poesia | Mensagem à poesia, de Vinícius de Moraes, - por Paulo Autran

 

Música | Roberta Sá canta no Altas Horas - Mais Alguém