Folha de S. Paulo
A grande mídia tem medo de ser chamada de
esquerdista
Não é mais questão de saber que direitista
está envolvido, mas de saber qual não está
Como teria sido uma boa cobertura de mídia
sobre o escândalo Master?
A resposta óbvia é: teria mostrado a absoluta
predominância de direitistas entre os envolvidos. Por qualquer critério que se
queira adotar: o número de envolvidos, o total de dinheiro desviado para o
Master por cada lado, o total de dinheiro recebido do Master por cada lado, a
importância dos envolvidos dentro de seu próprio campo, o quanto cada lado de
fato fez para salvar o Master.
E teria deixado claro: esses são os dados até
agora. Se outros dados aparecerem, revisaremos nosso diagnóstico.
Não foi isso que aconteceu.
Prevaleceu a tese constrangedora de que, se
tem gente dos dois lados, o escândalo afeta os dois lados do mesmo jeito; como
se no petrolão não
houvesse gente de direita. Mais recentemente, ouvi que a predominância de
direitistas no escândalo se explica pela predominância de direitistas na
política brasileira. Isso só seria relevante se Vorcaro tivesse recrutado seus
cúmplices por sorteio.
Vejam bem, não estou pedindo que se aplique à
direita o tratamento dado ao PT em 2015-2016, que já antecipava a onda
autoritária de 2018. Não acho que os partidos de direita devam ser tratados
como organizações criminosas, ou que devam perder seus registros. Não acho que
os direitistas devam apanhar no meio da rua se estiverem ostentando os símbolos
de seus movimentos. Não acho que se deva isolar os crimes da direita no Banco Master do
histórico de promiscuidade entre público e privado que marca a história
brasileira.
Mas o padrão evidente nos dados deveria ter
sido enunciado de maneira clara, em primeira página, em editorial, nos jornais
televisivos da noite, com destaque.
Em 2015, só eu devo ter publicado quatro ou
cinco textos sobre "o futuro da esquerda depois do petrolão". Onde
estão os textos sobre o futuro da direita depois do Master? Todo político de
direita deveria ter que se manifestar, a cada entrevista que desse, sobre o
envolvimento de seu movimento no caso Master, como acontecia com os petistas
durante o petrolão.
Sobretudo, deveríamos fazer a pergunta: o
atual ciclo direitista da política brasileira começou com o petrolão, onde
surgiu a narrativa de que o PT era mais corrupto que a direita. Como fica o
jogo agora que o Master destroçou essa hipótese?
Afinal, já não é mais questão de saber
quantos direitistas relevantes estão envolvidos com o Master, mas sim de saber
qual deles não está.
Os grandes grupos de mídia parecem temer a
pecha de esquerdistas dada pelos bolsonaristas nos últimos anos. A
"acusação" –qual o problema se fosse verdade?– nunca teve base na
realidade. Mas há uma parcela da população ideologicamente doente e
super-representada entre quem paga por notícia.
Parte desse público pode ter voltado para a
grande imprensa quando a história do Master parecia ser só sobre o STF. Talvez
fossem embora se informados que o escândalo do Xandão era com eles.
A decisão de repetir, sem base nos dados, que
"o Master não tem ideologia" pode custar caro à democracia. Seja pelo
descrédito que gera sobre a imprensa entre os progressistas, seja por ajudar na
possível eleição de um movimento golpista, seja por dificultar que os ciclos
políticos se alternem naturalmente conforme cada lado acumula sua parcela de
culpas.

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