Folha de S. Paulo
Partido Missão se declara liberal, mas abraça
posições iliberais
Credulidade da Faria Lima em relação à sigla
é inquietante
Sempre que vejo "Faria Lima" como sujeito de título noticioso que não seja sobre trânsito, fico desconfiado. Utilizar o nome da avenida paulistana como metonímia para "mercado financeiro" é arriscado, entre outras razões porque o tal de mercado não é uno. Reúne desde operadores de day trade até operários que investem o dinheiro de seus fundos de pensão, sem mencionar a viúva aposentada e eventuais clones de Daniel Vorcaro.
Mesmo ciente da diversidade e dos limites da
figura de linguagem, fiquei preocupado ao ler reportagens sugerindo
que a "Faria Lima" está se enamorando da candidatura
presidencial de Renan Santos,
do partido
Missão, que me parece ainda menos confiável do que o Mounjaro
paraguaio. Algum descompasso entre o ideário de uma sigla e suas propostas
concretas é sempre esperado, mas, no caso do Missão, as incongruências foram
esticadas até o ponto de colapso da identidade.
O problema de base é que o partido, no artigo
1º, § 2 de seu estatuto, afirma ter "caráter liberal" (e é
provavelmente isso que encantou a "Faria Lima"), mas não há muito
como conciliar o beabá da cartilha liberal com o que a sigla defende. O modelo
de segurança pública que eles propõem flerta abertamente com as ideias e
práticas de Nayib Bukele.
Só que não há meio de confundir o regime salvadorenho com uma democracia
liberal. Aquilo é um Estado autoritário que pratica violações sistemáticas a
direitos humanos.
Ainda que restrinjamos o liberalismo do
Missão ao plano econômico —o que já configuraria transgressão às visões mais
holísticas de liberalismo—, fica difícil pacificar a doutrina clássica com a
defesa do nacionalismo e até com um certo desenvolvimentismo. Nada disso
deveria surpreender muito, considerando que o embrião do Missão, o
movimento MBL,
ganhou visibilidade tentando censurar uma apresentação artística.
O que me inquieta no flerte da "Faria
Lima" com o Missão é pensar que meus modestos investimentos podem estar
nas mãos de gente que cai muito facilmente em contos do vigário.
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