sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A força e a fraqueza do status quo brasileiro, por Fernando Luiz Abrucio

Valor Econômico

É preciso discutir o dilema imposto pela necessidade de reformas em um ambiente em que muitos com poder resistem às mudanças

Um grande dilema vai marcar o início do próximo quadriênio (2027-2030). De um lado, o país precisará fazer reformas econômicas, administrativas e político-institucionais para não entrar numa grave crise, o que inviabilizaria o mandato do novo presidente num momento de incerteza internacional e aumento da desconfiança do eleitorado. Por outro, os atores que representam o status quo atual tendem a continuar fortes, especialmente os congressistas sob a hegemonia do Centrão, e mesmo o Judiciário, que tem perdido popularidade, ainda tem muita capacidade de resistir à mudança.

O enfrentamento desse dilema é a questão mais importante após a eleição, mas já deveria ser discutido desde já, pois a sociedade precisa saber dessa dificuldade política e dos custos de não resolvê-la. Ainda mais porque os principais presidenciáveis pouco falam da realidade que enfrentarão no ano que vem, seja a das políticas públicas, seja a da complexa governabilidade.

A herança das políticas públicas de Lula III tem coisas boas e ruins. A política ambiental foi retomada depois da hecatombe bolsonarista. O sucateamento do SUS realizado pelo governo anterior foi estancado, com algumas novidades, como o uso inteligente da telemedicina como instrumento para combater as desigualdades territoriais. O MEC voltou a ter protagonismo, com diversos avanços importantes, com destaque para a política federativa de colaboração com os estados e municípios na alfabetização, com impacto no desempenho escolar já no presente quadriênio.

Outras medidas positivas poderiam ser destacadas, realçando que o principal mérito governamental foi reconstruir parcelas do Estado que tinham sido destruídas pelo bolsonarismo - algo que poderá se repetir no próximo quadriênio. Mas a fórmula lulista de governo já não tem a efetividade dos dois primeiros mandatos de Lula. O mundo e o Brasil mudaram, e há novos desafios, que exigem agendas e estratégias renovadas.

Três exemplos podem ilustrar esse desgaste na fórmula lulista de governar. O primeiro é a incapacidade de gerar um novo ciclo de desenvolvimento para além do modelo baseado na ampliação da renda e, sobretudo, do crédito. O país tem de construir mais riquezas aumentando a produtividade e o investimento. Não se trata mais, como na ditadura militar, de reclamar da falta de combate às desigualdades, porque o lulismo efetivamente levou adiante o modelo da Constituição de 1988 e teve uma herança bendita de FHC para criar várias políticas redistributivas de recursos e de oportunidades, um dos seus maiores méritos. Só que se o crescimento se tornar insustentável nos planos fiscal e monetário, já não há mais coelho na cartola que empurre por mais anos o ajuste institucional das contas públicas.

Em segundo lugar, novas agendas e atores surgiram nos últimos anos, de modo que o mundo das políticas públicas se tornou mais complexo. Parte dos grupos emergentes são, inclusive, derivados do sucesso da fórmula lulista de governar, e é preciso readequar as políticas públicas para esse novo cenário. Tão relevante quanto dialogar, entender e descobrir novas soluções para os novos atores é incorporar uma lista de temas que não eram centrais no lulismo. O apoio às mulheres da classe C que vivem nos eixos metropolitanos vai exigir um arsenal de políticas sociais diferentes. Mais importante ainda, a política de segurança pública tem de ganhar maior centralidade na ordem de prioridades lulista.

Aliás, um erro fatal foi não ter criado, desde o início do mandato, um ministério específico para essa questão, o que evitaria a narrativa de que a esquerda acredita que o problema da violência é apenas uma questão social. Isso já não é verdade faz algum tempo e nem a direita tem sido efetiva no assunto - basta ver o fracasso da política de segurança do governador Tarcísio de Freitas, com a explosão de feminicídios e dos roubos ou furtos de celulares. Entretanto, mesmo tendo ao final do governo proposto legislações importantes como a lei Antifacção e a PEC do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), a demora em colocar a temática em maior evidência custou credibilidade eleitoral ao presidente Lula.

Fechando a lista de exemplos, o lulismo não tem sido capaz de renovar boa parte de suas lideranças. É verdade que novos nomes com grande talento surgiram, como o governador do Piauí, Rafael Fonteles, e figuras do governo federal como Fernando Haddad e Camilo Santana foram bem-sucedidas em vários pontos reformistas e vão além da agenda passadista de boa parte do petismo.

Entretanto, a renovação precisa ser maior, incorporando novas lideranças sociais e se aproximando mais do povo. Cresci na periferia de São Paulo entre as décadas de 1970 e 1980, e na época as comunidades eclesiais de base estavam por toda parte. Vários dos políticos petistas que ascenderiam mais tarde ao poder estavam constantemente, como dizia Mário Covas, sujando o pé no barro - e hoje estão muito distantes de uma boa parte das camadas populares. Isso para não falar da escassez de lideranças de centro-esquerda no mundo das redes sociais.

A dificuldade de ir além do modelo lulista dos dois primeiros mandatos também se deveu ao novo cenário político. Nele, estiveram presentes uma oposição forte e com uma estratégia contra as instituições, um Congresso revigorado nos poderes, mas não nas responsabilidades, além de um sistema de Justiça que teve fraturas no meio do caminho entre seu papel central na defesa da democracia e o corporativismo de suas lideranças e da magistratura, algo que está sendo rechaçado pela sociedade. Ao conturbado cenário interno somou-se a desordem e perseguição externa provocada pelo governo Trump, que nos atingiu com o tarifaço e com a ameaça de intervir na eleição presidencial de 2026.

O cenário não será menos conturbado no próximo mandato presidencial. Aí voltamos ao dilema das necessidades imperiosas da mudança versus o poder do status quo. Em relação ao primeiro ponto, um ajuste fiscal e da estrutura de governança administrativa vai ser necessário logo no início do mandato. O ponto nevrálgico é que as dívidas dos cidadãos e do governo se tornaram insuportáveis, e com a Selic nas alturas o problema tende a se agravar muito rapidamente. Bom, então por que não se reduz numa tacada só a taxa de juros? Já se fez isso antes, e os resultados não foram, digamos, muito bons.

Na verdade, se o próximo presidente conseguir reformular o arcabouço fiscal para que ele seja crível por anos em sua tarefa de estancar o crescimento da dívida pública, por meio de reformas na lógica orçamentária, nos gastos com os penduricalhos da elite do setor público e na redução das renúncias tributárias, seria até possível recalibrar a meta de inflação, que de fato é irrealista para nossas condições. O casamento desses dois componentes seria positivo, mas depende antes de um projeto de longo prazo de reforma do Estado, que o torne sadio financeiramente e efetivo na provisão dos serviços públicos.

O problema está no descasamento da urgência da reforma com a defesa do status quo de quem é mais forte no sistema atual. Um exemplo diz tudo: a redução do número de concorrentes à Câmara Federal em 2026 em comparação ao passado recente. A oligarquização é hoje um traço marcante na seleção dos deputados federais. A soma de emendas parlamentares bilionárias e sem paralelo no mundo com os amplos recursos de campanha nas mãos dos partidos tem dificultado muito a renovação congressual. Ora, as reformas teriam que passar, em alguma medida, pela redução dos recursos que favorecem os que vão continuar com hegemonia em Brasília.

Há outros vencedores dos últimos anos que podem ser atingidos por reformas no próximo governo. O sistema de Justiça se fortaleceu, com alguns impactos positivos para salvaguardar a ordem constitucional, mas com efeitos negativos para o controle republicano de seus comportamentos e rendimentos. Também há os grupos lobistas que reforçaram seus interesses e seus laços com a elite dos congressistas. O caso do setor elétrico é paradigmático aqui, com poucos jogadores obtendo altos rendimentos em detrimento dos consumidores e da sustentabilidade do setor.

A questão é que se nada ou pouco for feito, a crise virá. O tamanho dela ainda é controverso, mas com certeza vai impactar vários atores sociais e a popularidade do novo presidente. A economia ficará pior do que neste ano, o que se junta a um cenário geopolítico bem difícil, além dos possíveis efeitos climáticos do El Niño. O quanto o status quo irá resistir à perda geral de bem-estar? Se a resiliência do atraso for o saldo líquido do jogo político, a crise do sistema político já será sentida fortemente nas eleições municipais de 2028, ou até antes, com o crescimento de outsiders, o que seria a antessala de um processo incontrolável de recomposição do poder.

Caso haja uma crise, o que é bem provável, o status quo precisará entregar os anéis para não perder os dedos. O que ainda não sabemos, e deveria ser discutido pragmaticamente pelos presidenciáveis e pela sociedade, é quantos anéis são necessários para construir um caminho mais seguro para o futuro do país.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas

Nenhum comentário: