O Estado de S. Paulo
Em meio aos meus sofrimentos, não abandonei a seara da paz, da harmonia e da esperança
É maravilhado, surpreso e assustado que,
pensante e andante, fui vestido por 90 anos no dia 29 do mês passado. Aliás,
fui distinguido com uma foto na primeira página e entrevista neste jornal no
qual escrevo desde 2001, o que tocou fundo o meu coração.
Aos 90, você não mais “faz”, “chega”, “completa” ou tem primaveras, pois são as primaveras que têm você. Viramos uma espécie de vivente além da conta, pois coisas velhas deveriam estar num porão, mas a vivência insiste em nos manter vivos. Ser um velho mantendo dentro de si um jovem e uma criança, um demônio e um anjo, um mortal e, quem sabe, o desejo amaldiçoado da imortalidade, é um paradoxo. Causa espanto e, nuns poucos, desolação. Na grande seara dos invejosos, chegar aos 90 falando, andando e pensando teimosamente feliz é, como dizia Tom Jobim, uma ofensa.
Sou e estou velho. Vivi enfrentando minhas
deficiências, dores e, no meio dos meus sofrimentos, não abandonei a seara da
paz, da harmonia e da esperança. Apesar de tudo, permaneci companheiro de mim
mesmo. Aprendi as chamadas “idades do homem” num tempo em que o gênero
masculino englobava o feminino. Havia infância, juventude, maturidade e
velhice. Abafava-se o nascimento para não terminar mencionando o que o nosso
progressismo e desencanto reprimem: a morte ou o fim. Esse inexorável destino que
o envelhecer trata muitas vezes como benefício, pois o velho corpo pode ser
mais pesado do que a alma por ele inventada.
O fato é que as imposições da vida escondem e
afugentam a inevitabilidade do fim. Esse fim que uma consciência onipresente e
desenhada para a vida é incapaz de imaginar. Exceto por meio das imagens
pastorais das crenças religiosas, muito embora essa morte seja experimentada
todas as noites, quando dormimos, como conceitua um imenso Manuel Bandeira.
Tenho plena consciência de que cheguei ao
término de um ciclo. Não é um fim, é uma fase. Na infância, almejamos a beleza
da juventude. Na juventude, experimentamos os becos das escolhas. Maduros,
inevitavelmente nos tornamos sérios, quadrados, controladores e, às vezes,
sectários. Velhos, temos a suprema felicidade de testemunhar as estradas da
vida que criamos. Conheci de perto a velhice casmurra do meu avô e o mais ou
menos soturno envelhecimento do meu amado pai. Agiota que sou – como quer o
paradoxo da vida –, mais velho que eles, entendo que há muitos estilos de viver
e de morrer. O remédio é o amor que nos alegra, nos completa, nos traz prazer e
tudo isso que compete de igual para igual com a morte.
P.S.: Ah! Antes que eu me esqueça: na velhice não há futuro ou retornos...

Nenhum comentário:
Postar um comentário