sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Reflexão do dia – Noberto Bobbio

“Uma segunda estratégia é a que parte da constatação de que existem muitos Marx e de que, à distância de mais de um século, não dá para salvar a todos eles nem para jogá-los todos fora. É a estratégia que eu chamaria de “dissociação”. Há um Marx economista, um Marx historiador, um Marx sociólogo, um Marx filósofo. Estas diversas faces do mesmo e único personagem servem à estratégia da recuperação mediante a dissociação. Marx morreu como filósofo? Pode-se dizer o mesmo do Marx economista? E assim por diante. Marx foi até agora o crítico mais radical do capitalismo. O capitalismo venceu sua batalha contra a primeira tentativa de organizar um sistema social fundado não na economia de mercado mas na economia de comando. Mas a vitória do capitalismo é definitiva?”


(Noberto Bobbio, no livro “Nem com Marx, nem contra Marx”, pág. 304 , Editora UNESP, São Paulo, 2006)

Merval Pereira:: Décadas

DEU EM O GLOBO

Se não houver alterações substanciais na política econômica, o próximo governo vai marcar 20 anos da implantação de um projeto econômico a partir do Plano Real, com um círculo virtuoso de medidas que permitem a continuidade no controle da inflação, a busca do equilíbrio fiscal, melhor distribuição de renda e redução gradativa da desigualdade. Tudo alcançado com a alternância no poder de dois grupos políticos adversários entre si, embora com pontos comuns suficientes para tocar um projeto de Estado, mais do que de um governo específico.

A de 2010 será também a primeira eleição em vinte anos que não terá na cédula o nome de Lula e, embora ele queira participar mais diretamente, transformando-a em um plebiscito sobre seu governo, seria bom, como disse a senadora Marina Silva, que o debate fosse sobre o futuro do projeto de país, e não sobre o passado , que Lula representará dentro em pouco, e que Fernando Henrique já representa.

Não é por acaso que, de tempos em tempos, aparecem grupos políticos fazendo planos de ficar no poder por 20 anos.

Além do grupo de Collor, que tinha esse projeto por razões que nada tinham a ver com a política, também o PSDB e o PT assumiram informalmente essa meta, na tentativa de cumprir um ciclo de desenvolvimento.

O falecido ministro das Comunicações Sergio Mota, o trator do PSDB, comandou o projeto de reeleição com o objetivo de o partido permanecer no governo além dos dois mandatos do Fernando Henrique.

E o PT também planejou uma permanência no poder estendida para além dos dois mandatos de Lula, projeto que começou a ser planejado quando José Dirceu chefiava a Casa Civil, e foi abortado em termos partidários com a crise do mensalão e a gradativa mudança do petismo para o lulismo.

A mesma lógica que leva à tese do plebiscito, que é diferente da polarização entre as duas forças partidárias que comandam a política nacional também há 20 anos, faz com que alguns pensem ser possível, e quase natural, que um presidente tão popular como Lula volte a disputar a Presidência em 2014, mesmo que a sua candidata se eleja em 2010

Se Lula vier a querer voltar à disputa eleitoral, o que considero discutível e mesmo improvável, seria ingenuidade imaginar que ele pudesse decidir com tanta antecedência o destino de um eventual governo de Dilma Rousseff.

O caráter personalista do “lulismo” será superado pela própria eleição, mesmo que a candidata oficial dependa mais dele do que de suas próprias pernas para vencê-la.

Segundo Maquiavel, os “príncipes novos” podem chegar ao poder por força própria, quando o mais difícil é conquistar o poder vencendo a resistência do antigo ocupante, ou alheia.

No primeiro caso, uma vez chegando lá, já não restam rivais à vista. Lula chegou ao poder em 2002 a bordo de um projeto político do PT, vencendo a resistência do adversário imediato, o PSDB, que ficara no poder por oito anos com Fernando Henrique, que o derrotara duas vezes seguidas no primeiro turno.

Mas quando o príncipe novo chega ao poder por força alheia, adverte Maquiavel, “é outro que derrota o antigo ocupante, para oferecer o principado (governo) a quem considera seu protegido e que se transforma, de certa forma, em seu dependente”.

Chegando ao poder, só resta ao príncipe novo se livrar do seu protetor. No nosso caso, Dilma vencedora da sucessão presidencial deverá a Lula a vitória e se tornaria sua dependente caso aceitasse dar seu lugar a ele na eleição de 2014, abdicando da possibilidade de se reeleger.

Na história recente, temos o exemplo do general João Figueiredo, o ultimo dos militares-presidentes, posto na Presidência por uma manobra política do general Golbery do Couto e Silva com o presidente Ernesto Geisel, que pensavam poder controla-lo.

Quando deixou o governo, derrotado pelos novos aliados de Figueiredo, Golbery comentava que qualquer um que subisse a rampa do Planalto com aqueles soldados batendo continência, ao chegar ao topo, já estaria convencido de que estava ali por méritos próprios e que não devia nada a ninguém.

É muito difícil, quase impossível, imaginar o que será um eventual governo da ministra Dilma Rousseff. Inclusive por seu temperamento, não aceitará facilmente tutelas se investida do cargo.

Mas, ao mesmo tempo, por sua inexperiência política, ela terá que depender do apoio do PT, embora não tenha nenhuma liderança dentro do partido e só tenha vingado como candidata oficial graças ao empenho do presidente Lula.

Ou então continuar contando com Lula para a intermediação partidária, o que pouco provável que aconteça, a não ser que aceite ser uma fantoche do ex-presidente. E o PT aceite continuar tendo um papel secundário diante de Lula. Sem contar que o PMDB aumentará suas exigências à medida que ficar claro que a governabilidade depende dele.

Entre os cenários possíveis, uma crise de comando político pode afetar a governabilidade de uma administração sem apoio partidário.

No caso do PSDB, também é difícil imaginar uma convivência pacífica entre o governador José Serra eleito presidente e o governador Aécio Neves tornado o coordenador da área social do governo.

E é mais difícil ainda imaginar que possa dar certo um plano que prevê oito anos para Serra e mais oito para Aécio. Sem falar na probabilidade grande de o PT e os chamados “movimentos sociais” quererem emparedar o governo tucano, provocando também crises institucionais.

Tanto o PSDB quanto o PT fazem programações de longo prazo sem contar com os imprevistos, como se fossem os únicos protagonistas da história política brasileira.

O eleitor pode querer mudar essa história.

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Feliz Ano Novo a todos. A coluna volta a ser publicada na primeira semana de janeiro.

Serra tem palanque de candidato na Baixada

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Uma semana depois de Aécio Neves ter anunciado sua desistência de disputar a candidatura do PSDB à Presidência, o governador José Serra foi recebido ontem em palanque na Baixada Santista como virtual candidato à sucessão do presidente Lula.

O deputado Beto Mansur (PP) e o prefeito de Santos, João Paulo Tavares Papa (PMDB), saudaram Serra em discurso como "a melhor opção para cuidar dos destinos do País".
Em entrevista à imprensa, contudo, o governador negou-se a falar de eleições e repetiu que não antecipará a campanha.

Alberto Carlos Almeida:: A estratégia da oposição em 2010 - II

DEU NO VALOR ECONÔMICO (23/12/2009)

Não imaginei que fosse escrever sobre o mesmo tema do último artigo. Isso se tornou inevitável depois do resultado eleitoral do primeiro turno das eleições chilenas. Alexis de Tocqueville, o grande pensador francês do século XIX, um dos pais fundadores da sociologia e da antropologia, escreveu, entre várias importantes obras, duas que se destacaram sobremaneira: "O Antigo Regime e a Revolução", análise profunda das causas e consequências da Revolução Francesa, e, a mais famosa de todas, "A Democracia na América", estudo igualmente profundo sobre a grande novidade social e política que representavam os Estados Unidos.

Surpreendentemente, a princípio, é saber que "A Democracia na América", ou ao menos todo o seu arcabouço analítico, já tinha sido escrita antes de Tocqueville viajar e conhecer os Estados Unidos. O leitor poderá se perguntar: como é possível alguém escrever sobre um país sem antes conhecê-lo? Em 1831, Tocqueville, ao lado de Gustave de Beaumont, percorreu os Estados Unidos durante nove meses com o objetivo de conhecer o sistema penitenciário do país para que essa experiência fosse utilizada na sua França querida (http://www.tocqueville.org/). "A Democracia na América" está recheada de observações, fatos, evidências empíricas, catalogadas por Tocqueville durante essa viagem.

Porém, toda a parte analítica e teórica de seu monumental trabalho já estava escrita antes de Tocqueville colocar os pés no Novo Mundo. Afinal, repetimos a pergunta, como isso foi possível?

Tocqueville considera que há dois princípios que regem as relações sociais: o aristocrático e o democrático. Em sociedades aristocráticas as pessoas se consideram diferentes em tudo; ao contrário, nas sociedades democráticas as pessoas se veem como iguais. A França era aristocrática e os Estados Unidos eram democráticos.

Em países aristocráticos os pronomes de tratamento variam conforme o status social das pessoas. Alguns são chamados de doutores, outros de senhores e a ralé é tratada por um simples você. Em sociedades democráticas há somente um pronome de tratamento para todos. Em sociedades aristocráticas os homens são independentes e as mulheres em tudo, ou quase tudo, dependem dos homens. O oposto ocorre nas sociedades democráticas.

Baseado nesse princípio básico Tocqueville mostrou como era a educação das mulheres na América em comparação com a França. De fato, a mulher puritana é mais independente do que a francesa católica, o flerte é diferente, o uso dos pronomes de tratamento é diferente, os monumentos públicos, as estátuas, são diferentes. Tocqueville tinha em mãos um princípio básico e mostrou que ele funcionava para entender as relações sociais na América. Ele não precisou ir aos Estados Unidos para saber como provavelmente funcionava a vida diária daquele país baseada na igualdade e em relações sociais democráticas. Mas precisou ir lá para rechear com fatos o seu brilhante livro.

O que isso tem a ver com o meu último artigo e as eleições chilenas?

Há duas semanas escrevi que a estratégia da oposição, no Brasil de 2010, teria de adotar um discurso de continuidade ao que vem dando certo no atual governo. O que o candidato de oposição fez no Chile? Exatamente isso. Sebastián Piñera, oposicionista, fez uma campanha eleitoral governista. Não precisei ir ao Chile para saber que ele colocou na televisão fotos suas ao lado da presidente Michelle Bachelet. Não precisei ir ao Chile para saber que ele prometeu ampliar os programas sociais do governo ao qual foi o candidato de oposição. Para obter essas informações bastou-me ler os jornais brasileiros. Muitos observadores de eleições que foram ao Chile, sem o devido instrumental analítico, viram tudo na eleição, menos o que realmente interessava para o sucesso eleitoral de Piñera.

Não adianta, portanto, você coletar fatos empíricos se não for capaz de separar o que importa do que não importa. O que importa em uma eleição presidencial na qual o governo tem um índice muito elevado de aprovação? Resposta: disputar o legado do governo. Mesmo se você for o candidato de oposição. Entre as promessas de Piñera consta a ampliação da licença-maternidade de três para seis meses. Convenhamos que se trata de uma proposta estatista para um candidato de direita que se opõe a uma aliança governista de esquerda.

Qual é o objetivo de Piñera ao fazer essa proposta? Mostrar que ele, apesar de ser um bilionário, se importa, e muito, com a vida das pessoas comuns. Mostrar que ele, apesar de ter sido o candidato derrotado por Michelle na última eleição presidencial, compartilha com ela muitas de suas visões de mundo e políticas públicas. Mostrar que ele tem o social como prioridade. O Piñera oposicionista do Chile propõe duplicar o tempo da licença-maternidade.

Há algumas semanas, sugeria que a nossa oposição deveria defender duplicar o valor do Bolsa Família. Argumentei que no Brasil há um fator atenuante: foi a atual oposição, quando era governo, quem elaborou e deu início a esse programa. Piñera nem isso tem, não foi ele que instituiu a licença-maternidade no Chile.

Alguns oposicionistas andam interpretando o resultado do primeiro turno no Chile como um sinal de que um presidente muito popular, no caso Michelle Bachelet com seus 80% de aprovação, não consegue transferir votos para o candidato de sua aliança, Eduardo Frei, ao menos o suficiente para que ele chegue em primeiro no primeiro turno.

Essa interpretação não é incompatível com a minha análise. Sim, uma presidente bem avaliada poderá perder as eleições. Eu apostaria que Frei será derrotado no segundo turno por Piñera. Se isso realmente ocorrer, a principal causa terá sido a estratégia acertada de Piñera ao se posicionar como um candidato governista. O grande problema é se essa interpretação da eleição no Chile, a de que um governo bem avaliado não elege necessariamente o sucessor, levar ao corolário de que a oposição não precisa se preocupar com isso no Brasil porque o Brasil será o Chile amanhã.

O que importa, portanto, é saber por que Michelle não fez que Frei tivesse um desempenho eleitoral melhor no penúltimo domingo. Isso ou porque Piñera se posicionou como um candidato de governo ou porque não é imediata a transferência de votos de um governo bem avaliado para o seu candidato? De fato, a transferência não é imediata. Eu diria que ela, a princípio, não existe. Franklin Delano Roosevelt afirmou que quando apoiava um candidato ele transferia apenas um voto para o candidato apoiado, o seu voto. Ninguém vota em um candidato simplesmente porque o líder ou o presidente popular pediu.

Se alguém idolatra Lula e Lula pedir para votar em Dilma Rousseff, isso não necessariamente ocorrerá. Esse eleitor vai perguntar a Lula o seguinte: o que eu ganho votando na candidata em quem o senhor me pede para votar? Lula provavelmente vai responder: ela dará continuidade ao que vem sendo feito de bom pelo meu governo. Aí começa o processo daquilo que é chamado, erroneamente, no meu entender, de transferência de votos.

Parte de nosso eleitorado acha que José Serra é quem mais tem condições de dar continuidade ao governo Lula. Desses eleitores, 89% declaram ter a intenção de votar em Serra, 5% em Dilma e 7% branco, nulo ou não responderam a essa pergunta. Por outro lado, daqueles que consideram que Dilma é quem mais tem condições de dar continuidade ao governo Lula, 68% declaram a intenção de votar em Dilma, 18% em Serra e 14% branco, nulo ou não responderam. Para o bom entendedor meia palavra basta. O dado é claro: o voto está fortemente correlacionado com a percepção do eleitor acerca de quem tem mais condições de dar continuidade às coisas que vêm sendo bem avaliadas no governo Lula.

Façamos o exercício intelectual de imaginar essa mesma pergunta aplicada em uma pesquisa realizada hoje no Chile. Qual seria o resultado mais provável? Muito possivelmente algo parecido com o resultado para o Brasil. Michelle e Lula são bem avaliados. Reza a cartilha da aversão ao risco que o eleitorado, quando gosta de um governo, quer ficar com aquele que o mantenha e o melhore. No Chile, embora pareça paradoxal, quem mais tem condições de dar continuidade ao governo é o candidato de oposição. Vale repetir: meia palavra basta.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" (Record).

Congresso Revisor :: José Genoino

DEU EM O GLOBO

A crise política tem que ser resolvida pela política. As sucessivas crises em nosso sistema político-eleitoral demandam uma profunda reforma, sob risco de enfraquecimento da democracia e do princípio de que todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente. Não é possível que a atividade política continue a ser vista como uma sucessão de escândalos. Tampouco pode se tornar prisioneira da técnica e da judicialização.

O caminho para a superação desse quadro é a transformação do Parlamento eleito em 2010 em Congresso revisor. Ao longo de 2011, seria feita a revisão constitucional centrada nos artigos da Constituição restritos à organização dos poderes e ao sistema político e eleitoral.

O Congresso se reuniria em sessões conjuntas, com matérias aprovadas nas duas Casas, respeitando o quórum de três quintos para a decisão de cada uma, debatendo e votando em conjunto.

Na campanha de 2010 debateríamos a reforma política com a população e submeteríamos as mudanças a um referendo nas eleições municipais de 2012, para que valessem nas eleições de 2014. Dá-se assim à população a perspectiva de debater e depois referendar uma reforma política institucional que dê ao país condições de governabilidade, de aprofundamento da democracia, de transparência e de confiança do eleitor nas instituições políticas. Os candidatos terão de deixar claros seus pontos de vista sobre a reforma, sem vinculá-los aos interesses dos mandatos.

Após 24 anos de consolidação da democracia, passa da hora de se redesenhar o sistema político institucional brasileiro, com base nas premissas da democratização na relação com o eleitor, na funcionalidade das instituições e na relação entre o dinheiro e a política. É preciso redefinir o papel da Câmara e do Senado, mudar o sistema eleitoral, instituir o financiamento público de campanha etc. Sem rupturas, poder-se-á oxigenar o debilitado sistema político e eleitoral. Temos de aprofundar a relação e o funcionamento dos três poderes, e aumentar a participação popular em iniciativas de leis. A permanecer a situação, o Legislativo, em todos os níveis, continuará desacreditado, enfraquecendo a democracia

Mauro Santayana:: As convenções do calendário

DEU NO JORNAL DO BRASIL

A convenção do calendário nos adverte de que demos mais uma volta em torno do sol, é costume fazer do ano a vir pequena e temporária utopia. Por mais pessoal que seja, nos limites das próprias aspirações, sabemos que não a edificaremos sem a contribuição dos outros. Não há ser que possa viver absolutamente só. Para ganhar na loteria, esse sonho de alforria econômica e social, é preciso que outros apostem. É assim com tudo: o êxito das nossas empresas, a paz familiar, a alegria do reconhecimento alheio de nossas possíveis virtudes. E não é preciso falar nos sentimentos da amizade e do amor. Indivíduo é aquele quenãopode ser dividido por outro, mas que pode e deve dividir-se, para multiplicar-se em seus atos e em seus sentimentos. Ele se faz a partir dos outros, e sua inteligência, quaisquer que sejam os limites dos próprios atos e do conhecimento adquirido, irá influir sobre as pessoas com as quais conviva ou possa comunicar-se.

É raro pensar nessas coisas óbvias, exatamente porque são tão óbvias.

De forma quase natural aproveitamos estes dias de renovação da esperança para a confraternização. É o retorno à utopia maior, a da paz.

Quando passarem estas horas, voltaremos à guerra de todos contra todos, ou de quase todos contra todos, porque felizmente há quem resista, quem mantenha na alma a chama da solidariedade.

Em magnífico estudo sobre a filosofia do Iluminismo, Ernst Cassirer recorre ao verbete redigido por Rousseau na Éncyclopédie para definir a Economia Política: “Resumamos, em quatro palavras, o pacto social dos dois estados. Você tem necessidade de mim, porque sou rico e você é pobre; façamos então um acordo entre nós: eu permitirei que você tenha a honra de me servir, sob a condição de que você me dê o pouco que lhe resta, pelo trabalho de comandá-lo”. Cassirer observa que, de acordo com Rousseau, a forma de contrato que tem dominado a sociedade até hoje pode implicar uma obrigação jurídica, mas se encontra nas antípodas de todo laço moral autêntico.

Rousseau retorna ao ideal grego republicano. A ordem social só pode ser construída na liberdade. São os homens, no exercício pleno de sua vontade, que devem estabelecer as leis, e essas leis obedecem a duas fontes de legitimidade, a de sua origem e a de seu fim. Elas não podem, a menos que percam a natureza essencial, violar o fundamento da igualdade na construção da ordem. No pensamento grego, a inteligência ética é que deve fixar os limites entre a liberdade individual e a liberdade coletiva, republicana (política, segundo o étimo).

Essa consciência ética só pode ser adquirida mediante a razão.

Falta ainda um pensador vigoroso que se detenha a redigir tratado completo sobre a natureza das utopias. Há, e muitos, estudos sobre uma ou outra elaboração utópica, de Platão a James Hilton (com sua ficção sobre Xangrilá), isso sem falar na obra clássica de More. A partir do princípio de que cada um de nós é construtor de utopias – mesmo aqueles que desprezam planejá-las, mas as edificam na esperança, como Epimeteu, o irmão dissidente de Prometeu é de se constatar que a esperança é atributo inseparável do espírito humano. Há a esperança de realização individual, que move a sociedade de produção e consumo, exacerbada a partir da tecnologia do desperdício. E há a esperança da realização coletiva. Dois têm sido os caminhos em busca da realização coletiva. Um é o da política, da disseminação das idéias, de que o Evangelho é belo e insubstituível exemplo. Outro, o da força. Quando a situação se torna insuportável para os oprimidos, eles costumam rebelar-se da forma que podem, usando o direito reconhecido pelos humanistas de todos os tempos.

A mais simbólica das rebeliões sociais, a de Espartaco contra o Estado Romano, foi liquidada por Crasso e Pompeu, com a crucificação de seis mil escravos ao longo da Via Appia – 72 anos antes de Cristo. No início, o grande gladiador queria apenas que os escravos pudessem escapar do jugo e refugiar-se em seus países de origem. Mas seus comandados queriam mais, queriam o poder para construir uma sociedade igualitária – e por isso foram massacrados.

Mas as utopias são necessárias. Ao tentar realizá-las, as sociedades avançam. Assim foi possível abolir a escravidão, universalizar-se o ensino, melhorar o nível de vida e da saúde para grande parte da humanidade. Antes que o homem faça, é necessário que sonhe.

Aécio lidera e Arruda despenca no ranking

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Aécio Neves (PSDB) é o mais popular entre os dez governadores avaliados pelo Datafolha, em pesquisa feita entre os dias 14 e 18 deste mês. Ele obteve nota média de 7,5. O mineiro já liderava o ranking na sondagem feita em março, quando alcançou 75% de aprovação e nota 7,6.

José Serra, de São Paulo, subiu da quinta para a quarta posição no ranking. A nota média do tucano é 6,6.

Os que tiveram a pior avaliação foram José Roberto Arruda (sem partido-DF), na nona posição, e Yeda Crusius (PSDB-RS), que se manteve em décimo.

Aécio é líder no ranking de governadores; Arruda é o 9º

Mensalão do DEM faz governador do DF despencar da sexta para a penúltima posição

Serra, Luiz Henrique e Cabral têm melhora em avaliação; Yeda segue última colocada, e 50% consideram governo da tucana ruim ou péssimo


Malu Delgado
Da Reportagem Local

O mineiro Aécio Neves (PSDB) é o mais popular do ranking de dez governadores avaliados pelo Datafolha, em pesquisa realizada entre os dias 14 e 18 deste mês. O governador, que no dia 17 anunciou a decisão de retirar seu nome da disputa presidencial, obteve nota média de 7,5 numa escala de 0 a 10. Entre os moradores de Minas entrevistados na sondagem, 73% consideram o governo de Aécio ótimo ou bom, ante 19% que o avaliam como regular e 6% que acham péssima ou ruim sua administração.

O mineiro já liderava o ranking na sondagem anterior, feita em março deste ano, quando obteve 75% de aprovação e nota média 7,6. A alta popularidade de Aécio em Minas, segundo maior colégio eleitoral do país, explica a intenção de parte do PSDB de convencê-lo a disputar a eleição de 2010 como vice-presidente, com o governador José Serra (PSDB), numa chapa "puro-sangue".

Os dois governadores com pior avaliação são José Roberto Arruda (sem partido-DF), na nona posição, e Yeda Crusius (PSDB-RS), que se manteve no décimo lugar. Ambos tiveram os nomes envolvidos em recentes escândalos de corrupção nos Estados que governam.Arruda sofreu o desgaste político mais visível. Apontado como o protagonista de escândalo que supostamente arrecadava propinas de empresas que tinham contratos com o governo do Distrito Federal -esquema batizado de mensalão do DEM-, Arruda caiu da sexta posição na sondagem feita em março para a nona.

A nota média obtida pelo governador, que se desfiliou do DEM no dia 10 para evitar ser expulso, foi 4,8. Em março, ele obteve 6,4. Hoje, 40% acham o governo de Arruda ótimo ou bom, enquanto 22% o consideram regular e 37% acham a administração ruim ou péssima.Antes do escândalo, Arruda era apontado como uma das estrelas do DEM com chances reais de ser reeleito. Sem partido, ele não poderá disputar a eleição de 2010 ao governo.

Ascensão e queda

Com o nome consolidado para disputar a Presidência da República pelo PSDB, o governador de São Paulo, José Serra, subiu da quinta para a quarta posição. A nota média obtida pelo tucano é 6,6, a mesma da sondagem feita em março. A avaliação do governo, porém, melhorou: 55% consideram a administração tucana ótima ou boa, 32% dizem que é regular, e 11% que é ruim ou péssima.

Também estão mais bem avaliados os governadores peemedebistas de Santa Catarina, Luiz Henrique, passando da oitava para a quinta colocação, e do Rio, Sérgio Cabral, que foi do nono para oitavo lugar. Já o peemedebista Roberto Requião, do Paraná, caiu da quarta para a sétima posição.

Embora os tucanos possam comemorar as boas posições de Aécio e Serra, a governadora Yeda Crusius, última colocada, é o pesadelo do PSDB.

Com nota média de 3,9, 50% dos entrevistados consideram o atual governo do Rio Grande do Sul péssimo ou ruim. Somente 12% acham o governo Yeda ótimo ou bom, e para 37% a administração da governadora é regular.

Relatório da CPI da Corrupção, instaurada na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul para apurar denúncias de irregularidades na administração de Yeda, isenta a governadora de participação em atos ilícitos. A Polícia Federal investiga suposto esquema de fraudes em contratos do governo do Rio Grande do Sul.

Nordeste

Os governadores de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e do Ceará, Cid Gomes (PSB), permanecem bem avaliados e ocupam, respectivamente, a segunda e terceira colocação no ranking do Datafolha. Ambos são os pré-candidatos favoritos nos respectivos Estados até o momento e disputarão a reeleição em 2010.

Antes sétimo colocado, o governador da Bahia, Jaques Wagner (PT), subiu uma posição. Sua nota média passou de 6,4 em março para 6,5.

O QUE PENSA A MÍDIA

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Governo gasta R$ 697 milhões para pagar diárias em viagens

DEU EM O GLOBO

Ministro que mais recebeu foi Edson Santos, da Igualdade Racial

O governo gastou este ano R$ 697.075.119,98 só com o pagamento de diárias para ministros e servidores públicos em viagens nacionais e internacionais, segundo levantamento oficial que ainda não inclui as despesas de dezembro. Os 36 ministros receberam, no total, R$ 924.376,45, sendo que o que mais gastou foi Edson Santos, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Ele ganhou R$ 67.192,39. Nelson Jobim, da Defesa, ficou em segundo, com R$ 60.584,53. Os gastos com diárias este ano são quase 30% maiores do que o total do ano passado, mas o pagamento da ajuda de custo para viagens nacionais só começou em julho deste ano, depois do escândalo investigado pela CPI do Cartão Corporativo, que derrubou a antecessora de Edson Santos, Matilde Ribeiro. Até então, o governo só pagava diárias para viagens ao exterior. O ministro que menos recebeu foi Alfredo Nascimento, dos Transportes.

Mais de meio bilhão com diárias

Governo federal gastou R$ 697 milhões este ano, um aumento de 30% sobre 2008

Luiza Damé BRASÍLIA

O governo federal pagou este ano mais de meio bilhão de reais em diárias para ministros e servidores púbicos em viagens nacionais e internacionais. De um total de R$ 697.075.119,98 de diárias pagas por órgãos da administração direta e indireta, 36 ministros receberam R$ 924.376,45. A maior parte, mais de R$ 687 milhões, foi distribuída entre cerca de 200 mil funcionários públicos em todo o país. O valor gasto com diárias em 2009 é quase 30% (29,5%) maior do que o total do ano passado, R$ 538.294.084,42.O ministro da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Edson Santos, foi o que mais recebeu diárias, com R$ 67.192,39, seguido pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, com R$ 60.584,53.

Em julho deste ano, o governo federal instituiu o pagamento de diárias nacionais para os ministros, entre R$ 458 a R$ 581, para cobrir despesas com alimentação, hotel e locomoção nas viagens pelo país. Até então, eles recebiam somente nas viagens internacionais, entre US$ 200 a US$ 300, por dia.

No mesmo ato, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foram reajustadas as diárias dos servidores públicos do governo federal, com base na inflação acumulada desde 2003. A menor diária passou de R$ 85 para R$ 178, e a maior de R$ 106 para R$ 224. O impacto da correção e das diárias nacionais para ministros foi calculado pelo Ministério do Planejamento em R$ 100 milhões neste ano.

Para 2010 foram reservados mais R$ 200 milhões para pagamento de diárias, já que os ministros vão receber as nacionais o ano inteiro, e o reajuste terá impacto em 12 meses.

Média de R$ 3,5 mil por funcionário

Os dados estão disponíveis no Portal da Transparência, vinculado à Controladoria Geral da União (CGU), e se referem aos 11 primeiros meses de 2009. Os gastos de dezembro serão incluídos por volta do dia 15 de janeiro de 2010 no Portal. O total levantado pelo GLOBO foi pago a cerca de 200 mil pessoas dos mais variados órgãos — ministérios, Forças Armadas, universidades federais, delegacias, gerências e unidades regionais, escolas técnicas e agrotécnicas federais, agências reguladoras, fundações e empresas públicas — o que dá uma média de R$ 3.500 por funcionário ao ano.

A assessoria de imprensa da Seppir, do ministro Edson Santos, disse, em resposta ao GLOBO, que ao longo deste ano a secretaria coordenou a 2aConferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, que foi precedida de etapas nos 26 estados e no Distrito Federal, além dos encontros municipais. E o ministro participou de muitos deles.

O ministro também teve atuação na revisão da Conferência das Nações Unidas contra o Racismo, igualmente precedida de rodas regionais na América Latina e Caribe, sob a liderança do Brasil. Esse processo se encerrou com uma conferência em Genebra.

Segundo a assessoria, a Seppir não tem representação nos estados, o que obriga o ministro a fazer pessoalmente a articulação das políticas com os estados e municípios, justificando as viagens pelo país. “A Seppir não é um órgão finalístico, não executa programas ou obras.

Sua missão é elaborar as políticas de promoção da igualdade racial, articular sua execução por meio dos órgãos de governo nas três esferas, monitorar e avaliar a aplicação das mesmas”, informa a assessoria, que completa: “Para tanto, é necessário fortalecer os compromissos assumidos com os governos estaduais e municipais. O que torna a presença do ministro necessária em diversas ocasiões”.

A assessoria do Ministério da Defesa disse que o grande número de viagens realizadas por Jobim se deve à “natureza do cargo de ministro da Defesa e ao momento especial pelo qual passa o Ministério”. Para a assessoria, “deve, portanto, ser considerado natural se esse montante estiver acima da média de outros ministérios, que possuam outras características”.

Segundo a Defesa, além de constantes visitas do ministro a unidades militares das três forças, em todos os estados, e a indústrias do setor, houve ainda intenso envolvimento em negociações internacionais.

Entre elas, reuniões do Conselho de Defesa Sul-Americano, visita a indústrias de defesa estrangeiras e visitas diplomáticas à África.

A assessoria da Defesa argumentou que, no primeiro semestre, os ministros com viagens concentradas no território nacional não deverão ter computado o recebimento de diárias, que só foram criadas para uso no Brasil em julho.

No entanto, nesse período o ministro da Defesa já tinha realizado 19 viagens internacionais.

Dos 37 ministros, só o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, não tem as diárias expostas no Portal da Transparência. O BC tem um sistema próprio, mas ainda não disponibiliza na sua página os gastos com diárias. Lá consta: “No momento, esta entidade ainda não divulga as informações de diárias e passagens”.

No total referente aos ministros, foram desconsideradas as diárias pagas a Luís Eduardo Adams (Advocacia Geral da União), Alexandre Padilha (Relações Institucionais) e Samuel Pinheiro Guimarães (Assuntos Estratégicos) no período em que eles exerciam outras funções no governo federal. Os três ministros que deixaram o governo este ano — Mangabeira Unger, José Múcio Monteiro e José Antônio Toffoli — receberam, juntos, R$ 23.859,04 de diárias em 2009.

Denúncias em série que chegaram a derrubar uma ministra

DEU EM O GLOBO

O pagamento de diárias para os ministros de Estado nas viagens nacionais foi instituído em julho deste ano, seguindo recomendação da CPI Mista do Cartão Corporativo, que investigou, no início de 2008, denúncias de desvios no uso desse mecanismo por servidores do governo federal, incluindo autoridades do primeiro escalão.

Com a volta das diárias nacionais — que existiam até o início dos anos 90, mas foram extintas —, os ministros não podem mais usar os cartões para pagar despesas de alimentação, hotel e locomoção nas viagens pelo país.

Até então, esses gastos nas viagens nacionais eram bancados pelos suprimentos de fundos — dinheiro reservado para gastos não previstos — ou por cartão corporativo.

A CPI instalada no Congresso foi motivada por denúncias de que os gastos com o cartão corporativo em 2007 dobraram em relação ao ano anterior. O escândalo do cartão corporativo derrubou a então ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Matilde Ribeiro, em fevereiro de 2008. Matilde gastou, em 2007, R$ 171 mil no cartão corporativo, sendo R$ 110 mil com o aluguel de carros e mais de R$ 5 mil em restaurantes.

O então deputado federal Edson Santos (PT-RJ), o que mais recebeu diárias este ano, substituiu Matilde.

Ao pedir demissão do cargo diante das pressões, Matilde Ribeiro disse ter cometido um erro administrativo no uso do cartão, mas alegou que foi orientada a proceder assim.

Mas o que mais pesou contra a então ministra foram as compras realizadas por ela em um free shop, num total de R$ 461,16, e pagas com o cartão do governo. Naquela época, ela disse ter usado o cartão corporativo por engano e devolveu o dinheiro para os cofres públicos.

O ministro da Pesca, Altemir Gregolin, também teve despesas com cartão corporativo investigadas pela CPI. Gregolin usou o cartão para pagar almoços em churrascarias para comitivas internacionais. Um jantar custou de R$ 500 e foi oferecido a uma comitiva de representantes do governo chinês em visita ao país. Ele também gastou R$ 70 em uma choperia. O ministro devolveu o dinheiro.

O caso do ministro do Esporte, Orlando Silva, tornou-se folclórico. Ele usou o cartão corporativo para pagar uma conta de R$ 8,30 em uma tapiocaria de Brasília. Também devolveu o valor. Neste ano, Orlando Silva recebeu R$ 27.209,71 de diárias, segundo dados do Portal da Transparência (www.portaltransparência.gov.br).

CHARGE

Jornal do Commercio (PE)

Luiz Carlos Mendonça:: Economia brasileira: riscos para 2010

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O que pode estragar esse cenário de forte crescimento? Certamente, erros de política econômica pelo governo

Que diferença entre as expectativas que temos hoje para a economia e o mesmo sentimento nos últimos dias de 2008. "Água para o vinho", para usar uma expressão popular que se perdeu no tempo.

Um ano atrás, vivia-se a sensação de que a economia mundial mergulhava em um vazio assustador após a quebra do banco Lehman Brothers. Profetas do Apocalipse ocupavam as paginas principais dos maiores jornais do mundo com profecias aterradoras. Os terríveis dias, meses e anos da Depressão dos anos 30 do século passado eram lembrados na mídia diariamente.
No Brasil, esses mesmos receios eram divididos por empresários, jornalistas, banqueiros e trabalhadores. Sabemos hoje que apenas os consumidores, principalmente os de renda mais baixa, não foram dominados por esse baixo astral em dimensão global. As estatísticas sobre o consumo nos piores dias da crise são claras nesse sentido.

Mas, em uma sociedade moderna, é a sua superestrutura que formata o comportamento da mídia. E a mídia adora explorar um momento de pânico coletivo para aumentar a demanda por seus serviços. Por isso, o sentimento de desespero no Brasil parecia ser geral, quando se lia os principais jornais e revistas.

Durante os primeiros três meses de 2009, o cenário econômico continuou a se deteriorar. A esperança trazida por um novo presidente na maior economia do mundo e epicentro da crise durou poucas semanas. As Bolsas de Valores, termômetro eficiente do sentimento coletivo, chegaram, no mundo todo, ao fundo do poço nas primeiras semanas de março. O índice S&P da Bolsa de Nova York chegou a 666,80 nesses dias -que os investidores certamente gostariam de esquecer. Uma queda de mais de 55 % em relação ao que prevalecia ao se encerrar 2007.

Mas as ações decisivas de governos e bancos centrais -seguindo as lições da Grande Depressão- conseguiram reverter, pouco a pouco, essa sensação de vazio. O pânico foi cedendo lugar a um pessimismo mais racional, o que permitiu que parte do mundo chamado emergente voltasse a crescer de forma sustentada. Com isso chegamos, neste final de ano, a um cenário mais construtivo para 2010 em um grupo importante de economias. O Brasil, junto com a China, é um dos exemplos mais representativos desse universo. Como o comportamento do consumidor brasileiro fugiu à regra geral do pânico, a normalização das expectativas ocorreu de forma mais rápida e consistente entre nós.

Alguns indicadores econômicos já estão em níveis superiores ao que prevalecia antes de setembro do ano passado. O número de empregados com carteira assinada, a massa de salários e mesmo o volume de crédito ao consumo são alguns exemplos relevantes dessa realidade extraordinária.

Como resultado, o crescimento a taxas bastante elevadas deve voltar em 2010. Como resposta ao vigor dos gastos dos brasileiros, os empresários certamente retomarão os investimentos em setores ligados à dinâmica interna. Apenas nos setores mais voltados à exportação de bens industriais deve permanecer uma atividade menos intensa.

O que pode estragar esse cenário de forte crescimento nos próximos anos? Certamente, erros de política econômica por parte do governo. Em recente entrevista, o ministro da Fazenda nos dá uma boa pista sobre a elevada probabilidade de isso ocorrer. Suas palavras foram de "hubris" pura. Ou, como diz minha neta Gabriela: "Ele está se achando..."

Luiz Carlos Mendonça de Barros, 66, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Miriam Leitão:: Balanço externo

DEU EM O GLOBO

A corrente de comércio brasileira deve fechar 2009 com queda de US$ 90 bilhões. De janeiro a novembro, deixamos de exportar 24% em relação a 2008 e importamos 27% a menos. Parte da queda das importações é puxada pelos bens de capital, que são sinônimos de investimento. Eles caíram 18%. E em 2010 a corrente de comércio não voltará ao nível anterior à crise

O ano de 2009 é o primeiro desde 2003 com redução na corrente de comércio (veja no gráfico). É o ano em que trocamos de principal parceiro comercial: entrou a China, saíram os EUA. Para os americanos, deixamos de exportar 44% entre janeiro a novembro, na comparação com 2008.

Deixamos de vender produtos manufaturados, de maior valor agregado, como aviões (-69%); partes de motores e geradores (-40,40%), calçados de borracha (-30,98%). A exportação do principal produto, petróleo, caiu 44,39%. Como a queda das importações foi menor (-21,2%), o Brasil ficou deficitário no comércio com os EUA. Isso não acontecia desde 1999.

A China hoje, sozinha, representa mais para as exportações brasileiras do que África, Oriente Médio e Europa Oriental juntas. Ela compra 13,6% de tudo que vendemos para o exterior. De janeiro a novembro, exportamos para os chineses 21,6% a mais do que no mesmo período de 2008, saltando de US$ 15,9 bilhões para US$ 18,8 bi. Para o presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, a hegemonia chinesa como principal parceiro do país aconteceu “ao sabor das ondas”, e não por conta de políticas de comércio bilateral entre os países. Isso porque os chineses compram principalmente matérias-primas, como minério de ferro e soja.

— Todo o mundo sabe que o Brasil é grande produtor de minério de ferro, soja, carne de frango e celulose. Então o Brasil não precisou fazer esforço e foi beneficiado pelo apetite voraz da economia chinesa, que precisou estimular o mercado interno para combater a crise — disse.

A queda das importações foi geral. O Brasil comprou menos de todos os blocos econômicos, o que é resultado natural de uma economia que não cresceu. O que preocupa, nesse caso, é que deixamos de fazer investimentos, comprometendo a sustentação do crescimento futuro. A redução de compras de bens de capital foi de 17,9%. As quedas foram generalizadas: partes e peças para agricultura (-46,3%); máquinas e ferramentas (34,2%); partes e peças para indústria (-29,5%); máquinas e aparelhos de escritório e serviço científico (-22,0%); ferramentas (-20,5%); acessórios de maquinaria industrial (-16,2%); maquinaria industrial (-11,5%); equipamento móvel de transporte (-7,6%).

Essas importações vão fazer falta em 2010, quando o país voltará a crescer fortemente.

Para 2010, Castro estima que a corrente de comércio subirá de US$ 281 bilhões para US$ 328 bi. Ou seja, ainda ficaremos bem abaixo do resultado de 2008, quando exportamos e vendemos para o exterior um total de US$ 371 bilhões. As exportações devem crescer 11%, enquanto as importações devem subir 23%. Ele estima que o saldo do balança será positivo em US$ 12 bilhões, praticamente a metade do que ocorrerá este ano.

— Corrente de comércio menor significa menos atividade econômica, menos emprego.

E mais uma vez nossas exportações estarão focadas em commodities. Isso é ruim porque dependeremos da cotação de preços que são negociados em bolsa e que podem estar inflados por conta dos juros baixos no mundo.

Esse é um dos receios para o ano que vem. Com a retirada dos estímulos econômicos pelos países ricos, que acontecerá em algum momento de 2010, os preços das principais commoditities devem sofrer uma correção e isso terá impacto sobre as exportações brasileiras.

Além disso, explica Castro, três de nossos principais produtos têm cenários incertos: aço, minério de ferro e soja.

— Há excedente de mais de 350 milhões de toneladas de aço no mundo e isso se reflete nos preços do minério de ferro. Em relação à soja, há supersafras nos Estados Unidos, Brasil, e Argentina, os três maiores produtores.

Ele considera que há outra ameaça, referendada pelo Congresso e que terá o apoio do presidente Lula: a entrada da Venezuela de Hugo Chávez no Mercosul. Isso tornará mais difícil o estabelecimento de relações comerciais bilaterais do Brasil. Alguém duvida de que Chávez usará seu poder de veto para impedir acordos entre Brasil e EUA?

Bom dia - Trio Madeira Brasil - Rock In Rio Lisboa 2004

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Reflexão do dia - Carlos Drummond de Andrade - FELIZ NATAL


Este Natal

Carlos Drummond de Andrade

— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava­os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.

— De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.

De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre”.Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.

O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vende­dor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.

O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.

Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.

E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.

Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.

Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.


(14-12-1966)

(Texto extraído do livro "Caminhos de João Brandão", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1970, pág. 84.)

Merval Pereira:: Erros novos e antigos

DEU EM O GLOBO

O PSDB só não cometeu até agora os mesmos erros de 2006 porque Aécio Neves não é Geraldo Alckmin, e isso é um elogio a Aécio. E, do outro lado, está Dilma e não Lula, o que é uma vantagem para a oposição.

Mas está cometendo erros novos. O então governador de São Paulo insistiu em sua candidatura sem que tivesse qualquer indicação objetiva de que poderia ser melhor candidato que José Serra, que até fevereiro liderava todas as pesquisas de opinião.

Aécio, ao contrário, retirou-se da disputa para se tornar protagonista da decisão tucana

Assim como Aécio agora, naquela ocasião Alckmin diziase em melhores condições para atrair apoios fora do PSDB, e chegou a pedir prévias para a escolha.

Também ele dizia que já fora escolhido como o preferido pelas bancadas da Câmara e do Senado, e trabalhava as direções regionais do partido e os governadores.

Como agora, a cúpula do partido gostaria que não fosse preciso chegar a essa confrontação para definir o candidato.

No início de fevereiro, pesquisas já mostravam a recuperação de Lula, mas Serra ainda vencia no segundo turno, embora a diferença entre os dois estivesse se reduzindo àquela altura.

Havia também o cálculo sobre a atuação dos dois candidatos nos principais colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas, dominados, como hoje, pelos tucanos.

Tanto Serra quanto Alckmin venciam Lula com facilidade em São Paulo, de acordo com as pesquisas de opinião da época.

Mas Alckmin demonstrava maior capacidade de somar votos do que Serra: recebia 2,5 vezes mais votos que Lula, enquanto Serra recebia 1,9 vezes.

A penetração de Alckmin em Minas também seria maior que a de Serra, além do que, ele contava com a simpatia de Aécio, registravam os jornais da época.

A cúpula do partido achava, no entanto, difícil abrir mão de um candidato que se mostrava competitivo para apoiar um outro que tinha apenas potencial de crescimento, e àquela altura perdia feio de Lula.

Como hoje, no entanto, o prefeito de São Paulo, José Serra, pedia tempo para se decidir e queria levar a escolha até março, prazo final da legislação eleitoral.

A diferença fundamental entre Aécio Neves e Geraldo Alckmin é que o governador mineiro, ao anunciar sua desistência da pré-candidatura, fez um movimento estratégico que o colocou como protagonista político da definição tucana, e não como o provocador de uma divisão partidária.

Enquanto Geraldo Alckmin aparentemente venceu a disputa com Serra em 2006, mas, na verdade, foi levado a se candidatar para perder para Lula quando Serra sentiu que não tinha condições de vencer, Aécio deixou o atual governador de São Paulo sozinho na raia com sua indefinição, praticamente obrigando-o a assumir a candidatura que queria manter em suspenso até março.

Assim como Lula encerrou o ano de 2005 praticamente derrotado e em dois meses mostrou uma recuperação que parecia impossível, também a candidatura de Dilma pode se firmar, a se confirmar as previsões do diretor do Datafolha, Mauro Paulino.

Segundo ele, há 15% dos pesquisados que ainda não sabem que ela é a candidata de Lula, mas que se dispõem a votar em quem ele mandar.

Seria justamente a diferença que hoje favorece Serra, a ser coberta por esse eleitorado, prioritariamente de baixa renda e baixa escolaridade, que votaria cegamente na candidata de Lula.

Seria exagero sem base acreditar que Dilma tivesse essa capacidade de superação em tão pouco tempo, e tudo indica que até março a vantagem de Serra será mantida nas pesquisas, o que só dificultará sua decisão.

Embora à frente, o governador de São Paulo terá que conviver com essa possibilidade de haver um grupo de eleitores que seguirão o que Lula disser, o que colocaria Dilma potencialmente empatada com ele em algum momento da disputa.

É claro que se se decidir mesmo a disputar a eleição, a partir de março Serra assumirá a campanha em termos nacionais e agirá para neutralizar esse grupo de eleitores, e para ampliar sua aceitação, que tem uma estabilidade admirável desde o segundo turno de 2002, entre 35% e 40% do eleitorado.

O que deixa o governador Aécio Neves como fiel da balança para uma decisão tucana é que seu peso político em Minas e em outras regiões do país como o Rio pode não ser suficiente para colocá-lo na liderança das pesquisas, mas é grande o bastante para definir uma eleição nacional.

O plano de entregar a ele como candidato a vice a coordenação da parte social de um futuro governo parece mais consistente do que a promessa de acabar com a reeleição.

Aprovar uma mudança das regras depois que o jogo foi jogado não é razoável, e o que seria possível Serra fazer se eleito presidente é aprovar o fim da reeleição e aceitar ficar apenas um mandato de quatro anos, o que não parece verossímil.

Para aumentar o mandato presidencial para cinco anos, com o fim da reeleição, seria preciso uma mobilização no Congresso ainda no primeiro semestre do próximo ano, o que soa difícil, pois a base governamental tem a maioria e não atuaria para facilitar a vida da oposição.

Uma possibilidade seria Aécio aceitar a vice-presidência, e a dupla tucana começar a promover negociações entre os partidos da base governista para aprovar o projeto, engrossando a base de apoio à candidatura tucana com partidos como o PP, o PTB, o PDT e parcela do PMDB.

Seria uma reviravolta completa na sucessão presidencial.

Mas arriscada para o governador mineiro, pois não há garantias de que a mudança seja aprovada.

De qualquer maneira, como advertiu o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, as negociações para atrair Aécio para a chapa tucana terão que ser feitas mais discretamente.

Caso contrário, o PSDB corre o risco de sair delas com a imagem de divisão que até agora foi evitada pela habilidade do governador de Minas.

Feliz Natal a todos

Dora Kramer:: Fator de risco

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Há um grupo de pessoas influentes que circulam na indústria, no comércio, no mercado financeiro, o mundo chamado genericamente de "negócios", muitas delas integrantes do governo Fernando Henrique Cardoso. Umas por um tempo, outras durante todo o tempo.

Nem todas mantiveram com José Serra uma relação amistosa, até porque algumas eram alvos da crítica permanente por parte do então ministro do Planejamento e depois da Saúde.

Entre elas vigora um pensamento: José Serra é um homem público de preparo inequívoco para presidir a República e, a despeito das divergências, preferem vê-lo eleito à continuidade por intermédio de Dilma Rousseff.

Aqui, até mais por razões de ordem institucional, a fim de que a alternância preserve a diversidade partidária impondo obstáculos a projetos de hegemonia que asfixia o exercício do contraditório, reduz os espaços de oposição e consolida Lula como o líder carismático catalisador da política mesmo formalmente fora do poder.

Não concordam com a declaração do presidente Luiz Inácio da Silva de que a ministra Dilma representa a garantia da estabilidade na economia. Está fresco ainda na memória aquele momento em 2005 em que a chefe da Casa Civil "detonou" a proposta de se estabelecer em lei um limite para os gastos públicos.

Dentro do governo, além do ministro Antonio Palocci e da equipe da Fazenda, considerada de qualidade superior à atual, a sugestão contava com o apoio de Paulo Bernardo (Planejamento) e, segundo consta, com a simpatia - depois não confirmada - do presidente Lula.

De fora, ex-comandantes da Economia como Delfim Netto, Pedro Malan e Maílson da Nóbrega também deram seu aval. Dilma explodiu a iniciativa qualificada por ela de "rudimentar".

É um fato citado para acentuar as preocupações com a estabilidade frente à despreocupação com o aumento dos gastos públicos.

Muito bem. Apesar de tudo isso, esse grupo de pessoas influentes acha que Serra em algum momento, de preferência sem demora, deve se pronunciar sobre suas ideias na área. Admite que o governador resista e até aceita a alegação de que suas posições são muito bem conhecidas por quem transita por esse lado da vida.

Apoia a estratégia do governador paulista de não assumir desde já a candidatura, diz que ele está fazendo (pela primeira vez) tudo certo na política. Mas enxerga um nó na economia, um setor em que o silêncio só favorece o adversário.

No caso, o governo que pela voz do presidente da República explora e tenta ampliar a real desconfiança que existe em relação às posições de Serra. Tido como intervencionista.

Mas Lula não vai por aí, até porque o discurso da candidata oficial é assumidamente estatizante. Ele envereda pelo rumo do risco à estabilidade do País que representaria outro candidato que não o do atual governo.

Procura carimbar o oponente como um fator de instabilidade. Na realidade fria, uma ironia, já que foi no governo anterior que se instituiu o Plano Real, a noção de estabilidade da moeda, o fim da inflação e o conceito de responsabilidade fiscal.

O PT bateu-se contra essa política, só a adotou quando percebeu que era o caminho para ganhar a eleição e com ela prosseguiu porque sem ela não estaria até hoje no governo.

Falar e fazer

Na teoria soou sensata a reclamação do presidente Lula de que o PT troca muito de candidatos em São Paulo, dificultando a identificação de uma liderança junto ao eleitorado.

Na prática, soou incoerente. Uma vez que na condição de comandante supremo do partido Lula influiu em todas as escolhas e ao longo de sua trajetória sempre se notabilizou por não propiciar a emergência de figuras de muito destaque no PT.

Incentivou o rodízio e, no tocante à Presidência, não deixou prosperar as postulações de correligionários: Tarso Genro, Eduardo Suplicy e Cristovam Buarque, para citar os mais conhecidos.

Lula adotou a receita para si, mas não deixou que fosse aplicada a outrem.

Porta-vozes

Marta Suplicy, ao dizer que Ciro Gomes não tinha "nada a ver" com São Paulo e Aloizio Mercadante, ao apontar que o deputado pegou "o pau-de-arara" na direção errada quando mudou de Pindamonhangaba (SP) para o Ceará, foram obrigados a se desmentir.

Entretanto, vocalizam exatamente o que se escuta em rodas paulistanas "de raiz".

Senhor da razão

O governador Aécio Neves saiu do páreo da Presidência para não ficar refém do calendário de José Serra.

O presidente do PSDB interditou o debate público sobre a chapa puro-sangue a fim de que o partido não ficasse agora a reboque de uma decisão de Aécio.

Pausa

Feliz Natal e até o ano novo.

Clóvis Rossi:: 2010 já tem um vencedor

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

São Paulo - E o vencedor é um tal de Partido do Movimento Democrático Brasileiro, nome simpático para designar pouco mais que nada em termos ideológicos, políticos ou programáticos.

O PMDB nacional já tem um pré-acordo com as candidaturas Luiz Inácio Lula da Silva/Dilma Rousseff (a segunda só existe graças ao primeiro). O PMDB de São Paulo já tem um pré-acordo com a candidatura José Serra.

Se bobearem, o PMDB do Acre faz um pré-acordo com Marina Silva e o PMDB do Ceará com o irmão de Ciro Gomes, o governador Cid também Gomes, já que, segundo Aloizio Mercadante, o próprio Ciro tomou o "pau de arara" no sentido contrário, aliás duas vezes.

Não bastassem essas apólices de seguro, o PMDB lidera a corrida eleitoral em dois dos três Estados mais relevantes da pátria amada (Rio de Janeiro e Minas Gerais).

É natural, em se tratando de uma federação de caciques regionais, que o PMDB mais uma vez faça grandes bancadas no Congresso, talvez a maior, como muitas vezes ocorreu. O voto para deputados (estaduais e federais) é puxado muito mais por lideranças estaduais, de que dá prova o fato de que nem Fernando Henrique Cardoso nem Luiz Inácio Lula da Silva conseguiram bancadas para seus partidos suficientes para governar só com elas ou com uma aliança que dispensasse o PMDB.

É sempre bom lembrar que foram do PMDB ou por ele passaram todos os presidentes do período democrático, exceto Lula, que, no entanto, fez do que FHC chamava de "partido ônibus" o seu aliado preferencial: José Sarney, que teve FHC como líder, primeiro, e crítico impiedoso, depois, que namorou, mas não casou com Fernando Collor, o maior inimigo de Sarney, que teve em Itamar Franco o vice, primeiro, e o adversário, depois.

A patética ciranda em torno do PMDB continua em 2010, 11, 12...

O QUE PENSA A MÍDIA

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Ricardo Vélez Rodríguez :: Kant e a república dos nossos sonhos

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A onda de cinismo e corrupção a que temos assistido ao longo dos últimos anos deixa transparecer uma coisa: estamos longe do ideal republicano que, na tradição liberal, encontrou em Immanuel Kant (1724-1804) um dos seus mais importantes formuladores. Direi, na parte final deste comentário, em que pontos o Brasil, em particular, e a América Latina, de um modo geral, se afastaram do ideal republicano apresentado pelo filósofo alemão. Primeiro, destacarei alguns dos seus conceitos básicos.

Immanuel Kant defendia a organização livre dos Estados como fundamento para a paz. Uma estrutura política, para ser sadia, pensava o mestre alemão, deveria se alicerçar no respeito à pessoa humana e ao seu mais prezado direito, a liberdade. Só a constituição do Estado como república garantiria essas duas exigências. Nem o despotismo de um nem o de vários poderiam ser aceitos, pois a vontade pública é, neles, utilizada como se fosse a vontade particular do governante. Nas formas despóticas de organização política, o governo trata o povo como se fosse a sua propriedade.

A Constituição republicana, segundo Kant, é aquela que se encontra estabelecida de conformidade com os seguintes três princípios:

Da liberdade dos membros de uma sociedade enquanto indivíduos;

da dependência de todos em relação a uma única legislação comum, enquanto súditos;

e de conformidade com a lei da igualdade de todos os súditos, enquanto cidadãos.

Essa forma de governo é a única que decorre da ideia do contrato imaginário e sobre a qual se devem fundar as normas jurídicas de um povo.

A Constituição republicana, ainda segundo o mestre alemão, além de ter nascido na pura fonte do conceito do direito, tem a vista posta na paz perpétua. Se o consentimento dos cidadãos é necessário para decidir se deve haver guerra ou não, nada é mais natural que eles pensem muito antes de começar um jogo tão maligno.

Para Kant, são essenciais à forma republicana de governo a representação e a separação entre os poderes Legislativo e Executivo. Duas formas de governo tornam impossível a república: o despotismo de um (tirania) e o de todos (democracia da vontade geral). Nessas duas formas de governo é a mesma pessoa que legisla e que executa a lei. Quanto mais reduzido for o número de pessoas do poder estatal e quanto maior for a representação das mesmas, tanto mais aberta estará a Constituição à possibilidade do republicanismo.

Ao longo da última década a maior parte dos países latino-americanos enveredou pelo duvidoso caminho dos "populismos constitucionais", que visam a instaurar regimes que se autoperpetuam com a bênção das suas respectivas sociedades, conduzidas ardilosamente pelos mandatários de plantão a fazer reformas plebiscitárias que garantam a hegemonia dos donos do poder, sem que haja a mínima possibilidade de alternância do mesmo e com a destruição das instituições republicanas - como o funcionamento da oposição, a preservação e o aperfeiçoamento do governo representativo e a liberdade de imprensa.

As estruturas políticas surgidas dessas reformas partiram para a ignorância em relação à pessoa humana e ao seu direito mais prezado - a liberdade -, como está ocorrendo na Venezuela, na Bolívia e na Nicarágua.

O centro motor dessa maré montante é o regime venezuelano, que estendeu os seus tentáculos sobre os quatro cantos da América Latina, financiando com os abundantes petrodólares o maluco modelo da "revolução bolivariana", que tem servido de inspiração para as mudanças que se apresentam aqui e acolá.

A Venezuela de Hugo Chávez transformou-se em foco irradiador da instabilidade regional, em decorrência da louca corrida armamentista desatada pelo truculento coronel. Ele é, atualmente, sem dúvida nenhuma, quem pauta a agenda política do nosso continente.

O Brasil terminou refém desse modelo, notadamente no que tange à escolha dos rumos da política externa, voltada para um populismo esdrúxulo que acaba sacrificando os interesses do nosso país nas fantasias terceiro-mundistas que levaram Lula a prestigiar o presidente iraniano num momento em que ele é seriamente questionado por ignorar as políticas antinucleares assinadas pelas Nações Unidas.

De Lula, de Chávez e dos demais líderes populistas latino-americanos poder-se-ia dizer o que Kant criticava como despotismo de um só ou de alguns, que utiliza a vontade pública como se fosse a vontade particular do governante e do seu séquito de bajuladores. Os vários chefes populistas latino-americanos se unificam nesta negativa caracterização: tratam o povo como se fosse a sua propriedade.

As Constituições republicanas e as práticas políticas que começam a pipocar na América Latina como fruto das "revoluções bolivarianas" em andamento estão sendo estabelecidas de acordo com três antiprincípios que reforçam a velha tradição patrimonialista de gerir o Estado como propriedade particular do governante e que se contrapõem diametralmente aos princípios republicanos apregoados por Kant.

Chávez e companhia partiram, nas suas reformas constitucionais "bolivarianas", da negação da liberdade dos membros da sociedade enquanto indivíduos; da não dependência de todos em relação a uma única legislação comum, enquanto súditos (pois os governantes de plantão não estão submetidos, nem os seus colaboradores, à lei vigente para todos); e de conformidade com a lei da desigualdade de todos os súditos, enquanto cidadãos (temos cidadãos de primeira, de segunda ou de terceira, dependendo da sua proximidade da esfera dos donos do poder).

Ricardo Vélez Rodríguez é coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Demétrio Magnoli :: O inimigo americano

DEU EM O GLOBO

Não é falsa, mas gera pouca luz a tese predominante sobre as motivações originais da política externa do governo Lula. Essa tese assegura que a política externa inaugurada na primeira posse de Lula foi concebida como uma compensação "de esquerda" à política econômica ortodoxa capitaneada por Antonio Palocci e Henrique Meirelles.

As coisas são mais complicadas. Numa ponta, a substituição de Palocci por Guido Mantega introduziu uma ambivalência na política econômica, que agora combina um núcleo ortodoxo com iniciativas orientadas pelo programa do capitalismo de Estado. Na outra, a política externa sofreu uma inflexão sutil, que acentua suas inclinações antiamericanas. A crise em Honduras, a visita do iraniano Mahmoud Ahmadinejad e a aprovação parlamentar do ingresso da Venezuela no Mercosul delineiam os contornos de um novo cenário.

Na montagem de seu primeiro governo, Lula entregou nove décimos da política econômica aos liberais ortodoxos, deixando apenas o feudo do BNDES ao grupo nacionalista ligado a Carlos Lessa, que teve vida curta. A política externa, em contraste, foi dividida equitativamente entre os ultranacionalistas, representados pelo secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, e a corrente majoritária petista inspirada pelo castrismo e personificada no assessor presidencial Marco Aurélio Garcia. O ministro Celso Amorim, um mestre da maleabilidade política, da dissimulação e do equívoco, ficou encarregado de administrar a coalizão de interesses, que só é estranha na superfície.

A ponte entre as visões de mundo dos dois grupos é constituída pelo antiamericanismo. A esquerda bafejada pelo castrismo norteia-se por uma caricatura da teoria do imperialismo que substitui o sistema de relações da economia mundial pelo "império americano". Os ultranacionalistas, cujas referências históricas formam um panteão que conecta Getúlio Vargas a Ernesto Geisel num mesmo "projeto nacional", encaram os EUA como a fonte principal dos valores odiosos de democracia política e liberdade econômica. Uma política externa consistente, mesmo se abominável, pode emanar de tal coalizão.

Lula, hoje todos sabem, não é uma rainha da Inglaterra. Ele arquitetou seu governo como um caleidoscópio de grupos de interesses, mas nunca renunciou ao exercício do comando efetivo. Amorim qualificou-o como o "Nosso Guia", lançando mão de um panegírico ridículo para produzir uma asserção verdadeira. O presidente, um provinciano incorrigível, jamais nutriu interesse pela política internacional, interpretando a política externa essencialmente como um instrumento para a edificação de sua imagem de estadista. No primeiro mandato, com essa finalidade, o "guia" definiu como meta prioritária a ascensão do Brasil à condição de membro permanente do Conselho de Segurança (CS) da ONU.

Lula cultivou uma relação pessoal com George W. Bush e o Brasil atendeu a um pedido expresso da Casa Branca para liderar a missão da ONU no Haiti, oferecendo uma solução à crise aberta por um gesto aventureiro dos neoconservadores americanos. O Itamaraty cuidou de amenizar a crítica brasileira à geopolítica de Bush no Oriente Médio e de não fazer nenhuma menção significativa aos escândalos de direitos humanos em Abu Ghraib e Guantánamo. O presidente e o ministro Amorim alimentavam a esperança de retribuição, na forma do apoio de Washington ao ingresso definitivo do País no CS. Mas, previsivelmente, os EUA decidiram não imolar sua política para a ONU no altar da obsessão do Brasil.

No segundo mandato, em virtude do fracasso daquela pleiteação, Lula afrouxou as rédeas que cerceavam o impulso antiamericanista da coalizão de política externa. A virulência desse impulso não diminuiu, mas cresceu, com a troca de comando na Casa Branca. O aparente paradoxo decorre de um temor fundamentado: enquanto as diretrizes de Bush serviam como contraponto ideal para as manifestações de apreço do Brasil a tiranos de diversos matizes, as de Obama tendem a restaurar a credibilidade dos valores políticos defendidos pelos EUA.

A alardeada "química pessoal" entre Lula e Bush deu lugar a uma crescente hostilidade retórica contra os EUA, expressa no tom arrogante das críticas à cessão do uso das bases militares colombianas, e a gestos antes impensáveis: a conversão da embaixada hondurenha em tribuna para Manuel Zelaya, o apoio explícito à duvidosa reeleição de Ahmadinejad e a proclamação de confiança no suposto caráter pacífico do programa nuclear iraniano. Nesse curso, pouco antes da visita de Arturo Valenzuela, novo secretário-assistente para as Américas, Marco Aurélio Garcia manifestou publicamente a "decepção" brasileira com a política de Obama para a América Latina - uma iniciativa que desafia as convenções da diplomacia entre países amigos.

O ato mais recente na escalada triunfante do antiamericanismo foi a admissão pelo Senado do ingresso da Venezuela no Mercosul, uma decisão de amplas repercussões, derivada de intensa pressão do Executivo sobre a sua base parlamentar. A presença de Hugo Chávez implicará a "morte" do Mercosul original, como anunciou certa vez o próprio venezuelano, e sua conversão numa plataforma de denúncia permanente do "império". Não é, obviamente, um cenário ideal para a parceria entre EUA e Brasil com a qual contava Obama na hora em que anunciou as grandes linhas de sua política latino-americana.

Política externa é a expressão internacional dos valores e dos interesses da sociedade nacional. Não é a esfera adequada para a veiculação de doutrinas partidárias ou de correntes ideológicas minoritárias. É o campo da unidade, não da confrontação interna. No primeiro mandato de Lula, a política externa brasileira oscilou no interior dos limites de uma tradição. No segundo, ela viola essa tradição, transformando-se aos poucos num pátio de folguedos de ideólogos irresponsáveis.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em geografia humana pela USP.

Lula repete Dilma e alerta para risco de estagnação se governo perder eleição

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Da Reportagem Local

Sem citar nome dos potenciais candidatos à Presidência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou ontem, de forma velada, para o risco de estagnação de conquistas sociais caso a oposição vença as eleições do ano que vem.

O presidente disse que não se sabe o que acontecerá no Brasil, em referência a uma eventual vitória da oposição.

Ao discursar para moradores de rua e catadores de lixo, Lula recomendou pressa, por exemplo, no levantamento de prédios públicos que possam ser destinados aos sem-teto.

"A gente tem que se dedicar, porque não sabemos o que pode acontecer no país", disse.

Numa despedida, Lula acenou com a promessa de abrir os cofres -com a ampliação até do Programa Minha casa, Minha vida -em 2010.

"Vocês têm que aproveitar esse momento, que falta um ano. Por favor, não tenham medo do peso da caneta. Vamos fazer um levantamento, um pente fino das nossas necessidades, para colocar no papel, para ver se a gente, em um espaço mais curto possível, pode atender", disse Lula.

"É preciso que tudo aquilo que a gente não conseguiu fazer a gente deixasse preparado ou para começar já no ano que vem, ou para ser aprovado no PAC que vai ser feito, de 2011 a 2015", insistiu.

Também sem mencionar o nome de Dilma Rousseff, Lula apontou a ministra da Casa Civil, pré-candidata do PT, como promessa de continuidade. Segundo ele, se eleita, Dilma estará ao seu lado, em 2010, fazendo novas promessas ao movimento.

"Quando eu vier aqui, em dezembro do ano que vem, já tem outra pessoa eleita, já sou rei posto [morto], e rei posto [morto] não pode mais fazer promessa. Ou faço agora, que posso cumprir, ou não dá para fazer depois. De qualquer forma, se for quem penso que vai ser, podemos trazer junto aqui, para fazer promessas", disse Lula.

E em seguida, ressalvou: "Mas vocês já estão tão organizados que quem entrar aí vai ter que respeitar".

Na véspera, Dilma afirmou que sua derrota representaria um retrocesso para o país.

Ao determinar rapidez para elaboração de lista de prédios, Lula receitou 15 dias de férias para a secretária Nacional de Patrimônio da União, Alexandra Reschke. "Porque o ano que vem será pauleira".

Após o evento, em que anunciou a compra de 25 imóveis do INSS para atendimento de população de baixa renda, Lula se reuniu com o ministro Guido Mantega e o empresário Abílio Diniz (Grupo Pão de Açúcar).

Miriam Leitão:: Dentro dos números

DEU EM O GLOBO

Para que aconteça o cenário do Banco Central , de um PIB ligeiramente positivo em 2009, de 0,2%, é preciso que o PIB tenha dado um salto muito acima das previsões neste quarto trimestre. Pelos cálculos do economista Armando Castelar, um salto de 4,5%. Isso daria um crescimento anualizado de 20%.Se houver essa alta forte, o carregamento estatístico para o ano que vem será de 4,3%.

O Banco Central divulgou esta semana, no seu relatório de inflação, que o país ficará no positivo este ano 0,2% e que em 2010 crescerá 5,8%. O ano que vem vai ser realmente de crescimento forte, em parte por um efeito estatístico — a comparação com uma base fraca —, em parte por crescimento mesmo.

Mas esses números do BC destoam um pouco.

Até o último relatório, o BC registrava uma previsão de 0,8% de crescimento em 2009.

Irrealista diante dos indicadores parciais, mas mais coincidente com a aposta do Ministério da Fazenda, que no ano inteiro sustentou que o país teria crescimento de 1% este ano.

O terceiro trimestre foi uma decepção. O ministro Guido Mantega sustentou que o crescimento seria de 2%, e ele foi de 1,3%. Abaixo do desempenho da economia que é o epicentro da crise: os Estados Unidos, depois de duas revisões para baixo, divulgaram esta semana que tiveram crescimento de 2,2% no terceiro trimestre. Com desempenho abaixo do previsto nesse período, ficou mais difícil para o Brasil terminar 2009 com resultado positivo.

O BC saiu à francesa do seu número de 0,8%, dizendo que ele será 0,2%.

Mas, dado que o país está com uma queda acumulada de 1% nos últimos 12 meses terminados em setembro, para se chegar a um resultado de 0,2% em 2009, o crescimento do último trimestre do ano — que está acabando, mas cujo número só sai no ano que vem — terá que ser muito forte. Castelar calcula que será necessário um salto ornamental de cerca de 4,5% de crescimento do quarto trimestre sobre o terceiro. Se forem retirados os fatores sazonais, e o número for anualizado, daria um ritmo de 20%. Totalmente improvável.

Se ocorrer esse cenário de abrupta elevação do ritmo do crescimento no último trimestre, o carregamento estatístico do ano que vem será mais forte. O cálculo do PIB é a comparação da média de um ano contra a média do ano anterior. Como 2009 começou mal e foi melhorando, ele é uma reta que sobe. Imagine que o país fique sem acelerar mais em 2010.

Só a comparação da média do ano que vem contra a média deste ano já dará um resultado de crescimento. Isso é que se chama carry over, o carregamento estatístico. Se o PIB der esse salto no quarto trimestre, o efeito estatístico será maior. Pelo cenário do BC, Armando Castelar calcula que o carregamento será de 4,3%. Ou seja, dos 5,8% do crescimento previsto pelo Banco Central, 4,3% seria apenas desse efeito.

Os analistas estão prevendo para 2010 um crescimento acima de 5%. Há até bancos falando em números perto de 6%. Isso porque a economia vai entrar em 2010 acelerando, depois de ter subido no fim de 2009. Haverá efeito estatístico e crescimento de fato. A dúvida é só como se chegará a esse resultado: se com um forte crescimento agora no fim de 2009 e um carregamento estatístico maior, ou se com um número menor e mais crescimento no ano que vem. Se por acaso, o ano fechar em -0,3%, o efeito estatístico será de 2,5%.

O terceiro trimestre foi frustrante porque se esperava mais, confiando que quando o ministro Mantega falou em 2% sabia o que dizia. Dois dias depois, saiu 1,3%. O terceiro trimestre foi impactado negativamente pelo baixo desempenho da agricultura. O investimento e o consumo cresceram, mas houve queda das exportações e aumento das importações, o que significa que essa demanda foi atendida pelo produto importado.

Isso vai se aprofundar no ano que vem, na opinião de Castelar, produzindo um déficit em transações correntes do Brasil. Houve também no terceiro trimestre uma redução forte de estoques, o que significa que parte da demanda foi atendida com a venda do que já estava produzido. Isso indica uma boa notícia: a de que terá que ser produzido mais para repor estoques.

— O que vai acontecer com o déficit em transações correntes não é preocupante em si, o que preocupará será a dinâmica da entrada desse novo cenário de resultados negativos nas contas externas — diz Castelar.

Para o ano que vem, há muitas incertezas no mundo, diz o economista: — A Grécia já teve rebaixamento da sua avaliação de risco, a Espanha pode ter o mesmo rebaixamento.

A Inglaterra está enfrentando também uma deterioração das contas públicas grande. Os governos socorreram as empresas e bancos endividados, estatizando a dívida privada, fato semelhante ao que nos aconteceu no começo da década de 1980, na crise da dívida. Essa é uma herança que eles terão que resolver.

Ainda pesará sobre o ano de 2010 a grande dúvida: quando serão retirados os estímulos excessivos concedidos pela maioria das economias? Aqui, a dúvida é como o governo vai se comportar, em ano eleitoral, na área fiscal. Em 2009, o governo brasileiro aumentou muito o gasto em despesas que não poderá comprimir.

Se continuar aumentando essas mesmas despesas, a era Lula pode deixar uma herança pesada para o próximo governante.

Morte na Colômbia causa comoção

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

ONU diz que assassinato de governador é "crime de guerra"

Ruth Costas com AP

Diversos países, ONGs e organizações internacionais repudiaram ontem o assassinato atribuído às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) do governador Luis Francisco Cuéllar, do Departamento (Estado) de Caquetá. O crime foi condenado por Brasil, EUA, União Europeia, Organização dos Estados Americanos (OEA) e ONU. "Para o direito internacional humanitário, tomar reféns é crime de guerra e a morte do governador confere extrema gravidade à prática recorrente dessa infração por esse grupo guerrilheiro", diz o comunicado da ONU em Bogotá, que exorta as Farc a soltar seus reféns.

"Esta atrocidade e barbárie merece o rechaço da comunidade internacional, que apoia os esforços para a paz da Colômbia", disse o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza. Também se pronunciaram as ONGs Anistia Internacional e a Human Rights Watch.

Para o cientista político Pedro Medellín, a estratégia da guerrilha é contraditória. "Ela continua a reivindicar apoio internacional para seu projeto de ser reconhecida como um grupo beligerante, mas parece não entender que degolar um governador simplesmente para demonstrar força não é uma boa estratégia para conseguir isso", disse Medellín ao Estado.

Em entrevista ao jornal colombiano El Tiempo, Alfredo Rangel, da Fundação Segurança e Democracia, disse que o governo pode ter subestimado os resultados de sua política de segurança. "Eles baixaram a guarda por excesso de confiança", disse Rangel. Nos Departamentos de Caquetá, Nariño e Meta, as operações de segurança foram reduzidas em 30%.

Os analistas destacam a capacidade, comprovada historicamente, de as Farc se recuperarem após derrotas. O próprio movimento que deu origem à guerrilha nasceu em 1964, quando o Exército desmantelou um assentamento de camponeses e guerrilheiros na localidade de Marquetália.

Nos anos 80, novo golpe. Os guerrilheiros aderiram ao processo de paz do presidente Belisario Betancur (1982-1986) e formaram o partido União Patriótica. Nos anos seguintes, 3 mil políticos do grupo foram mortos por paramilitares.

Hoje, a capacidade de recuperação, segundo Medellín, deve-se à vantagem estratégica oferecida pela geografia da Colômbia e aos recursos do narcotráfico.

Graziela e Gilvan:Exilados voltam e passam o Natal explicando por que voltaram sem passaportes

DEU NO JORNAL DO BRASIL
26/12/1978