quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Reflexão do dia – Prof. Raimundo Santos

“A novidade de agora não são apenas as políticas sociais assistencialistas, mas também os apelos populistas, sobremaneira verbalizados pelo Presidente da República. Cada vez mais eficazes no nosso imaginário, eles também cumprem função dissolvente em instituições (Congresso, partidos, associativismo). Essa nova discursividade presidencial também corrói valores igualmente fundamentais ao Estado democrático de direito, como, por exemplo, a formação da opinião pública mediante asseverações desencontradas e particularmente a reiterada minimização da questão ética nas atitudes e falas do Presidente.”

(Raimundo Santos. "O sentido da esquerda na atual circunstância", texto da coletânea O centenário de Caio Prado Jr., FAP, no prelo.)

Merval Pereira :: Democracia direta

DEU EM O GLOBO

Uma mudança fundamental na elaboração do Programa Nacional de Direitos Humanos, que o diferencia dos demais divulgados anteriormente, é que, desta vez, o protagonismo ficou com diversas instâncias de representação da sociedade reunidas em infinidades de conselhos e conferências realizadas pelo Brasil afora. O processo é o mesmo utilizado no governo anterior para auscultar a chamada "sociedade civil", mas o que antes não passava de sugestões, desta vez, ganhou caráter terminativo, sem que nenhum setor do governo tenha feito uma filtragem das "decisões".

Esse é um procedimento recorrente no governo Lula na tentativa de ultrapassagem do Congresso, com a criação de diversas instâncias de negociação em que os sindicatos e as ONGs decidem o que o governo vai enviar para uma aprovação quase formal dos deputados e senadores, que passariam a ter um papel meramente simbólico, e são contemplados em troca com quinhões do orçamento e outras benesses governamentais.

A tese de que a democracia representativa já não é suficiente para refletir os verdadeiros anseios populares está por trás desse sistema decisório, e também da defesa da "democracia participativa" ou "direta", preferida por setores influentes do governo e mais uma vez incluída entre as propostas no plano de direitos humanos.

É claro que democracia não depende apenas do voto direto, também não das consultas populares, mas da criação de um ambiente onde os direitos individuais estejam protegidos e acima da vontade do poderoso da ocasião, seja o guarda da esquina ou o presidente da República.

A democracia representativa está em crise no mundo todo, e a democracia direta surge aqui na América do Sul como uma solução manipuladora de esquerda.

Em diversos textos, o atual ministro da Justiça, Tarso Genro, aborda o que considera ser a falência da democracia representativa, e defende a organização de um novo Estado com "outras formas de participação direta", surgindo daí a defesa de "instituições conselhistas".

Entre esses, ele cita especificamente o controle dos meios de comunicação através de "conselhos de Estado". O ministro acha que o que chama de " ritualismo democrático-formal" é uma das causas da decadência do modelo representativo atual.

Também o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, hoje ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo, defende que as camadas mais excluídas da sociedade participem efetivamente das decisões governamentais "através de referendos e plebiscitos".

Ele considera que as eleições nas democracias representativas sofrem grande influência econômica, o que, na sua opinião, "dificulta a participação das camadas excluídas da população, provocando grandes tensões sociais".

A questão é que a transformação dessas diversas representações da "sociedade civil" em instâncias decisórias para políticas do governo faz com que apenas os setores mais mobilizados da sociedade surjam como os grandes protagonistas dos tais conselhos, tornando suas decisões representativas não da maioria da sociedade, mas de sua parte mais politicamente ativa.

Seriam interesses fragmentados que ganhariam uma dimensão majoritária que não têm na realidade. Também as chamadas "consultas diretas", como referendos e plebiscitos, correm o risco de ter resultados distorcidos, refletindo mais a influência de lobbies e grupos bem financiados do que realmente a vontade majoritária de uma população.

O cientista político Bolívar Lamounier considera que a possibilidade de manipulação é inerente ao instrumento, "pois a autoridade incumbida de propor os quesitos pode ficar muito aquém da neutralidade".

É por isso que o Congresso, eleito através do voto nacional, deve ser a última instância. A definição de políticas públicas fora da arena congressual não é uma decisão democrática.

Quando o governo negocia com sindicatos o aumento do salário mínimo, por exemplo, e manda ao Congresso uma proposta consensual, consegue impor sua vontade aos parlamentares, que não têm força para discutir um acordo já fechado diretamente entre o governo e os sindicatos.

Mas quando o assunto afeta os interesses da própria base congressual do governo, aí o sistema apresenta suas falhas. O governo tem uma maioria heterogênea que nada tem de ideológica. É mais uma barreira a que problemas políticos alcancem o governo do que um grupo político unido em torno de um programa. Seria uma maioria "anti-impeachment" montada após a crise do mensalão em 2005.

Estudo do cientista político Gustavo Venturi, citado em recente artigo do ex-porta-voz de Lula André Singer sobre o fenômeno do "lulismo", mostra que a tendência para a direita do eleitorado de menor escolaridade, associada à renda - já registrada na eleição de 1989 - continuava presente quase duas décadas depois, na eleição de em 2006.

Enquanto os eleitores de escolaridade superior dividiam-se por igual entre os campos da esquerda (31%), do centro (32%) e da direita (31%), entre os que frequentaram até a quarta série do ensino fundamental, a direita tinha 44% de preferência, mais do que o triplo de adesão que tinha a esquerda (16%) e o centro (15%).

Assim como a sociedade brasileira, a maioria do Congresso não é de esquerda, o que inviabiliza a aprovação de um programa tão amplo e baseado em ideologia como o apresentado.


Tive a honra de fazer parte do júri do GLOBO que concedeu o Prêmio Faz a Diferença a Dona Zilda Arns em 2003. Morreu como viveu, ajudando os mais necessitados.

O nome correto do historiador italiano autor do livro "O queijo e os vermes" citado na coluna de ontem é Carlo Ginzburg.

Dora Kramer:: A estaca da barraca

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente Luiz Inácio da Silva aproveitou ato administrativo do programa habitacional Minha Casa, Minha Vida para dar um aviso geral aos navegantes em seu discurso de estreia no ano eleitoral: não será mais o "Lulinha paz e amor" porque não é candidato.

Depois de confessar que a face amena de 2002 foi uma construção feita ao molde da necessidade da eleição, Lula não informou quem exatamente será durante a campanha de 2010, embora tenha dado uma pista ao informar que está preparado "como capoeirista" para enfrentar os adversários.

Por esse critério, depreende-se que vá sobrar pernada.

Mas mais que isso não se entende a respeito do que fala o presidente. Alude a um cenário de guerra de extermínio quando diz que identifica sinais de que a oposição não terá "discursos programáticos" e que, portanto, distribuirá "chutes do peito para cima".

Em quem, nele ou na candidata Dilma Rousseff Lula parece esperar que seja o alvo, mas até pelo receio de fazer um enfrentamento pesado com presidente popular como ele não parece ser essa a intenção dos oponentes.

Avançando para além dos "sinais" de agressão presumida, Lula diz estar "convicto do que vai acontecer neste país no processo eleitoral".

A curiosidade sobre o que "vai acontecer neste país" é aguçada pelo acréscimo que faz o presidente à sua previsão. Segundo ele, haja o que houver nada vai fazer com que perca "um milímetro" do seu bom senso e "desvie o País do caminho em que estamos hoje".

Estaria o presidente se referindo ao caminho democrático? Nesse caso, suas garantias soam como temeridade, pois admitem como raciocínio hipotético a possibilidade de que algo justifique o "desvio" que, apenas por obra de seu "bom senso", será evitado.

"Vocês estão vendo", continuou ele para a plateia, "mais ou menos o perfil do discurso que vai ocorrer, o tipo de agressão, o tipo de insinuação."

Como o presidente joga com a ambiguidade, não fala sobre o que sustenta suas convicções, não diz quais são elas nem explicita quais os sinais de preparativos para "chutes no peito", é de se supor que fale das críticas que são feitas a ele, ao seu governo, à candidata oficial, ao PT, a condutas e a procedimentos erráticos como a edição de um decreto que é um verdadeiro monumento em matéria de abertura de frentes de conflitos.

Por seu discurso inaugural de 2010, o presidente Lula pretende criminalizar o contraditório.

Além de preventivamente transferir ao oponente a responsabilidade da iniciativa que ele mesmo tomou ao vislumbrar sinais de agressão no horizonte e, no lugar de rechaçar a violência, avisar que o "Lulinha paz e amor" era só um figurino passageiro que deu frutos e se acabou.

Olho no lance

Em meados do ano passado, logo que se começou a falar no nome do presidente da Câmara, Michel Temer, para vice de Dilma Rousseff, a cúpula do PMDB dizia que só havia uma possibilidade de se alterar a escolha: se o PSDB fosse de Serra/Aécio e o governo precisasse de Hélio Costa para marcar a presença de Minas Gerais na chapa.

Agora os pemedebistas mais ligados ao Planalto começam a considerar aquela solução, mesmo Hélio Costa sendo o líder nas pesquisas para governador.

Certamente não é porque o PMDB esteja interessado em deixar o espaço aberto para quem venha ser o candidato do PT de Minas.

Mas talvez seja porque identificam chance de Aécio Neves vir a formar dupla com José Serra deixando a vaga ao Senado para o atual ministro das Comunicações tentar a renovação de seu mandato que é exercido pelo suplente Wellington Salgado.

Donos do jogo

Os deputados responsáveis pela montagem das investigações de faz de conta na Câmara Distrital de Brasília, para impedir o julgamento dos pedidos de impeachment contra o governador José Roberto Arruda e evitar a punição dos parlamentares envolvidos, não são ovelhas desgarradas.

Pertencem a partidos: DEM, PSDB, PPS, para citar as legendas de oposição que no Congresso reclamam que são impedidas pela maioria governista de cumprir seu papel de fiscalização.

Considerando que pela lei, reforçada na interpretação recente do Supremo Tribunal Federal, os partidos são os donos dos mandatos, cabe a eles a responsabilidade sobre os atos dos deputados a eles filiados.

Mas nenhuma das direções dos três partidos deu nem foi cobrada a dar palavra a respeito do que pensam da armação ou sobre como - e se - pretendem orientar os respectivos representantes a atuar fora da pauta da farsa.

Missão cumprida

Síntese da solidariedade, Zilda Arns morreu como viveu, trabalhando ao lado de quem precisa. Uma artimanha trágica, mas significativa, do destino.

Marina aprova Gabeira, mas alerta para impasse

DEU EM O GLOBO

Senadora afirma que decisão final ficará apenas para fevereiro: "A questão é que não tenha ambiguidade"

Cássio Bruno

A senadora e pré-candidata à Presidência Marina Silva (PV-AC) disse ontem ser favorável à intenção do deputado federal Fernando Gabeira de disputar o governo do Rio. Mas, segundo ela, o partido ainda precisa discutir o fato de Gabeira ter dois palanques no estado - o dela e o do governador de São Paulo, José Serra (PSDB) - já que o deputado deverá disputar a sucessão fluminense pela coligação PSDB/DEM/PPS/PV.

- Todos (os integrantes do PV) são favoráveis à candidatura de Gabeira. Agora, caberá debater como vamos viabilizar isso. A questão prioritária é que não tenha uma ambiguidade para não entrar em contradição com o projeto nacional do partido. Só vamos decidir depois do carnaval - afirmou a senadora.

Cesar Maia discute com Serra palanque do Rio

Marina lembrou que foi o próprio Gabeira quem decidiu, inicialmente, retirar a pré-candidatura ao governo do Rio, justamente para evitar subir nos dois palanques durante o primeiro turno das eleições de outubro:

- Era uma tese que já estava pronta. O Gabeira tinha uma coligação (partidária) em curso. E o partido está avaliando. O Gabeira é a liderança mais forte que temos. É a nossa maior estrela. Tem um impacto político.

O presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, sinalizou que o acordo com o PV caminha bem:
- O assunto está avançando com o PV.

Ontem, o ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM), pré-candidato ao Senado, conversou com o governador José Serra. Por e-mail, Cesar explicou que, na opinião do tucano, Gabeira conseguirá resolver o impasse dos palanques com dirigentes do PV:

- Foi (uma conversa) pelo telefone e sobre o positivo da decisão (da pré-candidatura) do Gabeira. O Serra acha que a experiência dele resolverá tudo.

O chefe de fiscalização do Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ), Luiz Fernando Santa Brígida, confirmou que a lei eleitoral permite a candidatos fazerem campanha em dois ou mais palanques:

- A verticalização acabou. Formalmente, não há problemas. O que pode acontecer é o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) baixar uma resolução antes das eleições, determinando o contrário.

Gabeira vai tirar votos de Cabral, avalia Garotinho

Gabeira disse que, a partir de agora, discutirá alternativas para resolver o impasse no PV: - Queremos saber (com integrantes do partido) quais são as demandas e de que forma poderemos encontrar uma solução para o caso.

Uma das soluções apontadas pela coligação que apoia Gabeira é que o deputado dê o palanque para Marina no primeiro turno e a Serra, no segundo. O deputado é contra:

- Daria a entender que o segundo turno já estaria decidido - descartou Gabeira.

Apesar de insistir em dizer que não é pré-candidato ao governo, o ex-governador Anthony Garotinho (PR) comemorou a intenção de Gabeira de voltar à disputa. Antigos aliados, Garotinho e Cabral são da base aliada da chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), pré-candidata à Presidência.

- Eu acho ótimo. Quanto mais candidatos melhor. O Gabeira tiraria votos do Cabral na Região Metropolitana - avaliou Garotinho.

Procurado, Cabral não quis falar sobre eleições.

Serra entra em campo para consolidar palanque no Rio

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Tucano articula coligação em torno da candidatura de Gabeira ao governo

Christiane Samarco de Brasília, Alfredo Junqueira e Luciana Nunes Leal do Rio

APOIO - Em visita ao Rio, Serra recompôs relação com Cesar Maia

O governador de São Paulo e candidato tucano à Presidência, José Serra, entrou em campo para ajudar os dirigentes do PSDB a consolidar um palanque forte no Rio. De passagem pela capital carioca para prestigiar o lançamento de uma publicação da Unesp, Serra fez questão de telefonar ao ex-prefeito Cesar Maia (DEM) para recompor a relação pessoal entre os dois. Antes disso, o governador paulista já havia procurado o deputado e pré-candidato do PV ao governo fluminense, Fernando Gabeira.

Na conversa com Maia, Serra deixou claro seu empenho pessoal em favor da montagem de um "chapão" em torno de Gabeira no Rio, em que Maia teria vaga garantida para disputar o Senado.
A cúpula do PSDB já vinha trabalhando desde a virada do ano para fechar uma coligação ampla, incluindo PPS, PV e DEM. Com o sinal verde de Serra, dirigentes tucanos trabalharam para obter o aval da candidata do PV à Presidência, a senadora Marina Silva (AC), e assim finalizar a montagem da coligação.

"Trocamos ideias sobre como a decisão do Gabeira recompunha o quadro eleitoral do Rio", explicou Maia, via e-mail. Para ele, a mudança de posição de Gabeira, que tinha anunciado a intenção de concorrer ao Senado e depois de disputar a reeleição para a Câmara, pode ser explicada pela compreensão de Marina Silva sobre o quadro eleitoral no Rio. "Coerentemente, (Gabeira) se alinhou com a candidatura de Marina até que ela entendesse bem o quadro do Rio e liberasse a formação que se tinha antes dela ser candidata", afirmou o líder do DEM.

CAUDILHOS

Maia e Serra não se falavam desde novembro passado, quando o ex-prefeito chamou Serra de "personalista" e chegou a dizer que ele lembrava "os piores caudilhos", por se recusar a tratar da candidatura presidencial.

O ex-deputado tucano Márcio Fortes, um dos interlocutores tucanos mais frequentes de Gabeira, disse que a intenção é formar uma chapa encabeçada pelo deputado do PV, com um tucano candidato a vice-governador. A aliança incluiria ainda o DEM e o PPS na disputa pelas duas vagas do Senado.

O presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), disse ontem que Gabeira sempre foi "a primeira alternativa" do PSDB na disputa pelo governo e que os partidos os aliados chegarão a um acordo sobre a campanha presidencial. "Avaliamos que não há problema", disse Guerra, referindo-se ao fato de a candidatura oposicionista ter dois candidatos à presidência, com Marina apoiada por Gabeira e Serra ao lado do PSDB, do DEM e do PPS.

Marina também lembrou ontem a aliança PV-PSDB na disputa pela prefeitura do Rio em 2008. "Os partidos reconhecem Gabeira como uma liderança inconteste no Rio. O importante é não haver ambiguidade no projeto nacional do PV. A construção está sendo trabalhada, não há solução mágica para o problema", afirmou a senadora.

Aliança PSDB-PV por Gabeira no RJ esbarra em "série de nós"

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Verdes recusam apoio à candidatura ao Senado do ex-prefeito Cesar Maia, do DEM

Acomodação de Serra e Marina num só palanque e resistência de deputados da sigla são outros empecilhos para formalizar a coligação

Catia Seabra
Da Reportagem Local

Apesar da aprovação da pré-candidata do PV à Presidência, Marina Silva (AC), e da torcida do governador de São Paulo, José Serra, o PSDB tem ainda que desatar um emaranhado de nós para a consolidação do palanque de Fernando Gabeira (PV) ao governo do Rio.

A avaliação é do próprio Gabeira: "Há uma série de nós pelo caminho", admitiu.

Além de uma delicada engenharia para acomodação de Serra e Marina num só palanque, um dos imbróglios está na difícil relação entre o presidente estadual do PV, Alfredo Sirkis, e o ex-prefeito e candidato ao Senado, Cesar Maia (DEM).

"O PV não tem como apoiar a candidatura de Cesar Maia", avisa Sirkis, defendendo que cada um dos partidos da coligação -PSDB, DEM, PPS e PV- lance candidato ao Senado.

Maia diz desconhecer por que Sirkis -seu "secretário por dez anos"- impõe restrições.

"Mas é natural que no inicio de negociações os partidos se posicionem em seus limites para avançar", afirmou Maia, que, na terça, conversou com Serra pelo telefone. "Estávamos ambos satisfeitos pela decisão dele [Gabeira]", relatou.

Outro foco de discórdia será a edição de chapa de deputados. O PV resiste à coligação. Mas o PSDB alega que os verdes seriam únicos beneficiários do tempo concedido a Gabeira.

"Vamos usar nosso tempo para repetir "vote em Gabeira, 43". Então, o PV se coligar obedece à lógica justa e racional", disse o tucano Otávio Leite.

Assunto da conversa entre Maia e Serra, outro desafio da coligação é convencer Denise Frossard (PPS) a assumir papel ativo na campanha.

Lembrando a eleição do ex-governador Jorge Vianna (PT) -eleito no Acre graças à aliança entre PT e PSDB- a pré-candidata do PV à Presidência disse que a candidatura de Gabeira é uma das principais apostas do PV, mas alertou para a necessidade de não se fragilizar um projeto nacional.

"É uma construção delicada. É possível fazer um arranjo em que haja autonomia?", perguntou Marina.

Para verdes, PSDB e PV terão de sentar agora para fixar critérios de distribuição de tempo e de material de campanha. Para tucanos, o ideal seria postergar o debate para depois da oficialização da aliança.

Gabeira deve fechar acordo com o PSDB

DEU NO VALOR ECONÔMICO

Ana Paula Grabois e Heloisa Magalhães, de São Paulo e do Rio

Depois de desistir da disputa pelo governo do Estado do Rio, o deputado federal Fernando Gabeira (PV) voltou atrás e agora vê "perspectivas boas" para a candidatura. Nos últimos dias, uma tropa do PSDB esteve no Rio para convencê-lo a disputar o cargo e, assim, dar palanque no Rio ao presidenciável José Serra, governador de São Paulo. "Estamos encaminhando um acordo, o entendimento vai depender das condições para que todos se sintam confortáveis", disse o deputado. O desafio para sua candidatura deslanchar é conjugar o apoio a Marina Silva, pré-candidata a presidente do PV, e a Serra. Gabeira desistira anteriormente porque teria pouca chance de vencer o pleito com apenas 30 segundos de propaganda eleitoral enfrentado o favorito, Sérgio Cabral (PMDB), que tentará a reeleição. Se a coligação for fechada, Gabeira ficará com tempo de TV de 5 minutos a 6 minutos.

"Nossa ideia é fechar ª o acordo] até o carnaval", afirmou Gabeira.

O presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, é mais otimista e prevê que a coligação será alinhavada até a próxima semana. Guerra, um dos principais articuladores da aliança, diz que a candidatura do deputado do PV é "muito importante para Serra e para o Rio ter um candidato em quem votar", mas ressalta que a coligação trata da eleição estadual, sem causar problema jurídicos. O PSDB deve ter candidato no Rio a senador, mas o nome ainda não foi escolhido.

Nos últimos dias, vários integrantes do PSDB conversaram com Gabeira, como os deputados federais Luiz Paulo Vellozo Lucas (ES) e Jutahy Magalhães Júnior (BA). Do PSDB fluminense, o deputado estadual Luiz Paulo Correa da Rocha e a vereadora Andrea Gouvêa Vieira conversaram com Gabeira. A avaliação que saiu das conversas é de que Gabeira tem chances de vencer Cabral, favorito nas pesquisas eleitorais e apoiado pela pré-candidata do PT, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Em 2008, Gabeira foi ao segundo turno da eleição para prefeito do Rio e perdeu por pequena diferença de votos para Eduardo Paes (PMDB). Na época, o deputado já contava com a aliança tucana.

Gabeira já havia até desistido de concorrer ao Senado e tentaria a reeleição como deputado federal. A avaliação era de que poderia não conseguir votação suficiente para uma das duas vagas no Senado diante dos nomes que devem disputar no Estado. Já anunciaram a intenção de concorrer ao Senado o senador Marcelo Crivella (PRB), o deputado estadual Jorge Picciani (PMDB) e o ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM). O PT ainda vai escolher entre a ex-senadora Benedita da Silva e o prefeito de Nova Iguaçu (RJ), Lindberg Farias.

Cesar Maia disse que conversou por telefone com o governador José Serra na noite de terça-feira. Serra esteve no Rio para o lançamento de um livro da Unesp. Maia contou que os dois conversaram sobre a decisão de Gabeira de realmente concorrer ao governo do Rio, o que vai compor o quadro eleitoral no Estado. Para Maia, a revisão da decisão de Gabeira faz sentido, pois inicialmente o deputado, "coerentemente, alinhou-se com a candidatura Marina até que ela entendesse bem o quadro do Rio e liberasse a formação que se tinha antes dela ser candidata". O momento, disse ele, é de "arrumação da chapa". Maia, porém, enfrenta resistências por parte do PV do Rio. "Não há nenhuma hipótese do PV apoiar Cesar Maia", disse o vereador Alfredo Sirkis, presidente do PV do Rio.

Planalto recua e altera texto que irritou militares

DEU EM O GLOBO

Para contornar a insatisfação dos militares, o presidente Lula editou novo decreto mudando o texto sobre a Comissão da Verdade. Saem termos como "repressão política" e "apuração de violações". Mas ficam outros pontos polêmicos, que desagradaram à Igreja e aos ruralistas.
Lula tentou minimizar a crise.

Lula cede a pressão e muda plano

AMPLO E POLÊMICO

Presidente edita novo decreto sobre direitos humanos retirando expressões que irritaram militares

Chico de Gois e Luiza Damé

Depois de uma reunião com os ministros da Defesa, Nelson Jobim, e da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou ontem um novo decreto para acabar com a polêmica entre seus dois auxiliares e os comandantes militares sobre o decreto que instituiu o Programa Nacional de Direitos Humanos. O governo editou novo decreto estabelecendo regras para o projeto de lei que será elaborado criando a Comissão Nacional da Verdade. E a redação do novo decreto suprime o principal ponto de atrito com os militares.

Na versão de dezembro do decreto, está escrito que a comissão seria criada para "promover a apuração e o esclarecimento público" das violações de direitos humanos praticadas pela "repressão política". Já o novo texto estabelece que a comissão "vai examinar" as violações de direitos humanos ocorridas durante o regime militar.

Ou seja, no decreto assinado ontem por Lula desapareceu a expressão "repressão política" e não se fala em apurar, mas apenas examinar o que ocorreu durante a ditadura. Por enquanto, Lula resolveu manter os outros pontos do decreto anterior do Programa de Direitos Humanos, que prevê a aprovação de 27 novas leis e trata de assuntos polêmicos, como união entre homossexuais e descriminalização do aborto.

À noite, Lula minimizou as críticas ao programa, especialmente da Igreja, e as divergências entre os ministros Jobim, Vannuchi, Reinhold Stephanes (Agricultura) e Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário). Para Lula, a posição da Igreja contra o aborto não impede que a sociedade se manifeste:

- Eu conheço o comportamento da Igreja sobre aborto há muito tempo. Vocês conhecem o meu comportamento sobre aborto há muito tempo. O fato de eu ter posição... Não cabe a mim proibir que a sociedade se manifeste tendo posição contrária. São as posições antagônicas que permitem construir o caminho do meio.

Nelson Jobim se diz satisfeito

Segundo Lula, agora um grupo de trabalho vai formalizar o projeto que será enviado ao Congresso, e a palavra final será dos parlamentares. Ele disse que as divergências entre Jobim e Vannuchi foram resolvidas.

- Não tinha problema. Quem criou o problema... Está resolvido. O problema nem deixou de existir nem era tão grave. As pessoas imaginaram que a República ia cair por causa da divergência - disse Lula, negando que os comandantes militares tenham pedido demissão. - Enquanto eu estava de férias, carregando isopor, vocês escreveram isso.

O texto atende à reivindicação de Jobim, que deixou a reunião dizendo-se satisfeito com o teor do novo documento. Vannuchi saiu sem falar com a imprensa. O grupo de trabalho criado para elaborar o anteprojeto de lei que institui a Comissão Nacional da Verdade terá até abril para apresentar os resultados a Lula. O grupo terá seis pessoas e a presidência será de um funcionário indicado pela Casa Civil.

O texto deixa claro, ainda, que será respeitada a Lei de Anistia. O artigo 5 diz que o anteprojeto estabelecerá que a Comissão da Verdade poderá realizar atividades como "colaborar com todas as instâncias do poder público para a apuração de violações de direitos humanos, observadas as disposições da Lei 6.683/79" (Lei da Anistia).

Jobim disse que a solução agradou:

- Da minha parte, está resolvido.

A presidente da Confederação Nacional da Agricultura, senadora Kátia Abreu, afirmou que as mudanças feitas pelo governo "devem ser recebidas com reserva e atenção". Para ela, discutir a Comissão da Verdade não é suficiente para esgotar as polêmicas: "Todas as outras declarações de intenções contidas no programa permanecem. Foram mantidas ameaças às instituições democráticas, ao estado de direito e à liberdade de expressão".

Lula abranda Comissão da Verdade

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente Lula mexeu ontem no texto do Programa Nacional de Direitos Humanos, para abrandar a Comissão da Verdade. Outros pontos polêmicos, como o controle da mídia e o aborto, permanecem inalterados.

Sob pressão dos militares, Lula abranda a Comissão da Verdade

Outros pontos polêmicos do plano como mídia, aborto e questão agrária, alvos de protestos, não foram mexidos

Leonencio Nossa

BRASÍLIA - Pressionado pelos militares, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou ontem a primeira ação concreta para esvaziar o Programa Nacional de Direitos Humanos. Por decreto, mesmo instrumento usado para lançar o plano, ele abrandou os objetivos da Comissão da Verdade - criada para investigar crimes da ditadura - retirando o trecho que previa o exame de delitos da "repressão política".
Embora tenha indicado que deve fazer outras alterações, mais especificamente nos itens que preveem controle social da mídia, descriminação do aborto e mudança nas regras para desocupações de áreas invadidas, Lula ainda não mudou esses três pontos sensíveis. Além da repercussão negativa, o plano gerou uma onda de protestos que reuniu ruralistas, Igreja Católica e ministros do próprio governo, como o titular da Agricultura, Reinhold Stephanes.
A revisão do item relacionado à Comissão da Verdade era defendida pelo ministro Nelson Jobim (Defesa) - que ameaçou pedir demissão junto com os três comandantes das Forças Armadas em dezembro - e por entidades que reúnem militares da reserva que atuaram na repressão política durante o regime militar, incluindo duas centenas de citados nas listas de torturadores elaboradas por grupos de direitos humanos.
Foi uma derrota para o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria dos Direitos Humanos, na queda de braço com Jobim pela manutenção do plano, que previa o exame de "violações de direitos humanos praticadas no contexto da repressão política".
Vannuchi já vinha sofrendo pressão de parentes de mortos na ditadura e de grupos de combate à tortura por ter incluído, no decreto de dezembro, a expressão "reconciliação nacional", que não estava no projeto original aprovado em 2008 pela Conferência Nacional de Direitos Humanos.
O texto assinado ontem dá mais força a essa expressão.O decreto de ontem foi definido em encontro de Lula com Vannuchi e Jobim, no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília. O titular de Direitos Humanos deixou a reunião sem falar. O ministro da Defesa se limitou a dizer que, de sua parte, estava tudo "resolvido".
A retirada da palavra "repressão política" não traz prejuízos para instalação da Comissão da Verdade, dizem assessores do governo. Mas, na guerra de simbologias, travada desde o início da distensão política por militares e parentes dos mortos, venceram mais uma vez os que negam a repressão política, avaliam esses mesmos assessores.
A Comissão da Verdade será formada por representantes do Arquivo Nacional, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, da Comissão de Mortos e Desaparecidos e do grupo de trabalho da Defesa que faz buscas na região do Araguaia (TO).
MAIS MUDANÇAS
O abrandamento do Programa Nacional de Direitos Humanos - em sua terceira versão - só está no começo. O tom definido pelo presidente para a política nacional de direitos humanos deverá ser bem menos incisivo que o decreto, publicado no último dia 22. A orientação de Lula é para que a mudança seja feita de forma discreta, nos projetos de lei previstos para ser enviados ao Congresso.
O único ponto em que o presidente não cedeu às pressões dos militares é o que prevê a identificação pública dos locais utilizados para torturar participantes da resistência à ditadura.
Pelo decreto, os centros de violação dos direitos humanos, em estruturas militares ou civis, devem se tornar públicos.

Programa continua com ilegalidades, dizem críticos

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Controle da mídia, aborto e conflito agrário estão entre pontos polêmicos

Adriana Fernandes, Luiz Alberto Weber

BRASÍLIA - O recuo do Planalto para reverter o descontentamento dos militares com o Programa Nacional de Direitos Humanos não acaba com a crise, pois se restringiu a um dos 518 itens do documento, que tratou de temas tão diversos como controle da mídia, aborto e conflito agrário.

O consultor jurídico da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Rodolfo Machado Moura, lamentou ontem que a Presidência tenha mantido "ilegalidades" do texto original. "A interferência nos meios de comunicação, o monitoramento, está tudo lá ainda", disse. O plano prevê "instituir critérios editoriais para criar um ranking de veículos de comunicação comprometidos com os princípios de direitos humanos, assim como dos que cometem violações", além de propor mudanças na concessão de rádios e TVs.

Na mesma linha, a senadora e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Kátia Abreu (DEM-TO), veiculou nota dizendo que foram mantidas as ameaças à democracia da primeira versão. A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) deve divulgar nota amanhã com sua avaliação do programa. A Igreja é contra a aprovação do aborto ? "considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos", como diz o plano ?, a união civil de homossexuais e o que considera "intolerância" contra símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União.

Na Esplanada, um dos principais críticos do decreto, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, vai levar a Lula um levantamento técnico com os principais pontos de preocupação do setor agrícola em relação ao documento.

TRANSGÊNICOS

Embora o texto tenha sido endossado pelo secretário executivo José Gerardo Fontelles, o Ministério da Agricultura quer a revisão não só da parte que trata de invasão de terras e reintegração de posse, mas da diretriz que determina a garantia da aplicação do "princípio da precaução" no uso de transgênicos.

O uso desse princípio pressupõe que determinada ação não ocorra se houver dúvida de que possa ocorrer dano à saúde e ao meio ambiente. Na análise técnica preparada pela Agricultura, essa restrição funciona na prática como uma barreira ao uso de transgênicos, matéria "já vencida". A avaliação é de que essa nova diretriz constitui um retrocesso e se sobrepõe ao trabalho da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).

O estudo técnico também aponta como extremamente preocupante para a economia a parte do programa que condena as monoculturas, especialmente a de soja. Assessores do ministério ressaltam que 70% do plantio de soja é feito por produtores médios e pequenos.

O ministério avalia, ainda, como inconstitucional e um "perigo jurídico" a proposta de institucionalizar, por meio de projeto de lei, a utilização da mediação como ato inicial das demandas de conflitos agrários e urbanos, priorizando a realização de audiência coletiva com os envolvidos. A mediação, como o previsto no decreto, seria uma medida preliminar à avaliação da concessão de liminares para reintegração de posse.

Janio de Freitas:: Lula e a sua verdade

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O novo decreto do presidente é o ato mais grave do seu governo; e o mais denunciador dele próprio

Mais do que ceder à exigência militar contra o Programa Nacional de Direitos Humanos, o novo decreto de Lula permite evitar por tempo incalculável o que falta saber e fazer sobre os crimes da ditadura. E, como complemento, abre a possibilidade de que opositores do regime sejam outra vez investigados, com eventuais desdobramentos.

A percepção deste sentido do decreto não requer leitura atenta de mais do que três trechos do seu espichado texto.

O primeiro deles está já no início do decreto: "Fica criado o grupo de trabalho para elaborar anteprojeto que institua a Comissão Nacional da Verdade (...) para examinar as violações de direitos humanos praticadas no período fixado no art. 8º do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias da Constituição, a fim de efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional".

O período cuja investigação tem sido reivindicada é o da ditadura, o que está claro no próprio decreto anterior de Lula ao se referir a levantamentos da "repressão política". Sob a aparência indiferente, no novo decreto, de "período fixado no art. 8º" do ADCT, o período da ditadura e a sua repressão tornam-se frações de um tempo vasto e de ocorrências inumeráveis. O disfarce da remissão às Disposições Transitórias esconde este novo período:
(...) "de 18 de setembro de 1946 até a data da promulgação da Constituição" atual.

À Comissão Nacional da Verdade de Lula cabe investigar 42 anos de violações de direitos humanos no Brasil. Sequer é de repressão política só, mas de direitos humanos em geral.

Nem em um século a tarefa seria executada por um contingente de pesquisadores.

Lá para as tantas, o propósito do novo decreto se trai, ao pretender disfarce de mais seriedade e, com isso, enveredar por tema que não lhe compete, seria do anteprojeto futuro.

Está no art. 6º: "O anteprojeto de lei estabelecerá que a Comissão Nacional da Verdade apresentará, anualmente, relatório circunstanciado" (...). "Anualmente": uma sequência de anos indeterminada, sem motivo ou possibilidade de estimativa, antes vista com a certeza de que entrará pelos tempos.

Não faltou a Lula entregar o que jamais fora cogitado de ceder aos militares: igualar os opositores da ditadura aos torturadores, assassinos e autores de desaparecimentos. Sempre com artimanhas malandras, esta assim posto no art.5º do decreto, que autoriza a comissão a "realizar as seguintes atividades": "V - identificar e tornar públicas as estruturas utilizadas para a prática de violações de direitos humanos, suas ramificações nos aparelhos de Estado, e em outras instâncias da sociedade".

A identificação reivindicada pela verdade não é a de estruturas, mas de autorias e responsabilidades correlatas. Na repressão da ditadura, e não nos direitos humanos em geral. A sordidez maior, porém, vem no fim: "em outras instâncias da sociedade". Que instâncias podem ser, senão movimentos, partidos, imprensa, entidades profissionais, entidades estudantis?

Cabem na expressão indefinida as "instâncias" capazes de incluir todos os opositores. E torná-los objeto de investigação, com seus desdobramentos, a partir de informações dadas à comissão, como prevê o decreto. Informações, por exemplo, procedentes de militares quando considerem necessária uma represália ou um recuo da comissão.

O novo decreto de Lula é o ato mais grave do seu governo. E o mais denunciador dele próprio.

Lula recua em texto de direitos humanos

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Lula edita novo decreto para encerrar crise com militares

Pressionado por Jobim, presidente retirou a expressão "repressão política" do texto

Outros pontos polêmicos do 3º Programa Nacional de Direitos Humanos foram mantidos, como o que trata de legalização do aborto

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Pressionado pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, e pelos comandantes militares, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou ontem decreto criando grupo de trabalho interministerial que vai elaborar projeto de lei da comissão da verdade sobre a ditadura militar (1964-1985) sem mencionar a expressão "repressão política".

Sem alterar o polêmico decreto que instituiu o Programa Nacional de Direitos Humanos, alvo de críticas também da igreja, da mídia e de ruralistas, o novo decreto visa encerrar a mais recente crise militar.

A expressão "repressão política" remetia à apuração dos excessos cometidos pelos agentes do Estado, como os torturadores. Sem ela, o alvo da comissão da verdade fica genérico, sem especificar quem e que lado -se os torturadores, se a esquerda armada ou se ambos- será investigado pela comissão, conforme solução antecipada pela Folha na segunda-feira.

O anteprojeto de lei deve ser encaminhado ao Congresso em abril, mas o grupo de trabalho poderá ter seu prazo prorrogado, prevê o decreto a ser publicado hoje no "Diário Oficial".

A solução para a crise militar saiu de uma reunião entre os ministros Nelson Jobim (Defesa) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos), na noite de anteontem, e foi levada ontem de manhã a Lula, que acatou e assinou na hora o novo decreto.

"Da minha parte está tudo resolvido", disse Jobim. Tanto Vannuchi como os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica haviam ameaçado pedir demissão se não houvesse acordo. A solução puramente semântica foi suficiente para acalmar os ânimos.

Na reunião de ontem, Lula nem sequer falou de outros temas polêmicos do Programa Nacional de Direitos Humanos. Embora ele não concorde em apoiar a descriminalização do aborto nos termos previstos pelo decreto de dezembro, esse e outros dispositivos foram mantidos intactos. Por ora, não há definição sobre mudanças no decreto de 22/12. A maioria das ações não é autoaplicável.

Jobim se concentrou em resolver a questão da comissão da verdade. Os militares julgam que o decreto original criava uma comissão unilateral, para investigar só um dos lados, deixando de fora a apuração de crimes da esquerda armada.

O novo decreto mantém a previsão de identificar "as estruturas utilizadas para a prática de violações dos direitos humanos", mas não fala nada sobre a possibilidade de retirada de nomes de responsáveis por violações de direitos humanos em logradouros públicos. Jobim argumentou com Vannuchi que isso poderia levar a situação até ridículas, como a da destruição de fotos de militares como Castello Branco e Costa e Silva na galeria oficial de ex-presidentes.
(Eliane Cantanhêde, Simone Iglesias e Marta Salomon)

O decreto da incompetência - Editorial

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Acuado pela ampla reação contrária ao Programa Nacional dos Direitos Humanos criticado até por ministros, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu recuar para evitar custos políticos maiores, mas procurou poupar a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua candidata à Presidência da República. Ela é, no entanto, pelo menos tão responsável quanto o secretário de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, pelo embaraço causado ao presidente. De certo modo, sua responsabilidade é maior, porque cabe à Casa Civil a avaliação final de qualquer projeto encaminhado ao chefe do governo. Segundo informação daquela Pasta, só os aspectos legais do programa foram analisados. Isso equivale à confissão de uma falha. É função do gabinete civil não só a "verificação prévia da constitucionalidade e da legalidade dos atos presidenciais", mas também a "análise do mérito, da oportunidade e da compatibilidade das propostas, inclusive das matérias em tramitação no Congresso Nacional, com as diretrizes governamentais". Não é preciso pesquisar a legislação para descobrir esses dados. Tudo isso está nas páginas da Casa Civil, facilmente acessíveis pelo site do Palácio do Planalto.

Não tem sentido, em termos administrativos, lançar sobre o secretário Paulo Vannuchi toda a responsabilidade pela desastrosa publicação do decreto sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos. O secretário fez um péssimo trabalho em todos os sentidos ? muito ruim como projeto para o País e politicamente custoso para o governo ?, mas o texto foi submetido a uma instância intermediária, antes de chegar ao chefe de governo. O presidente alegou ter assinado sem ler. Não explicou se o fez por aversão à leitura, mas, de toda forma, deve ter confiado no trabalho de seus auxiliares. Se confiou, errou.

Com esse escorregão, a ministra Dilma Rousseff demonstrou de forma irrefutável seu despreparo para mais um cargo federal. Já havia mostrado sua inépcia ao chefiar o Ministério de Minas e Energia, onde sua gestão foi abaixo de inexpressiva. Chamada para a Casa Civil, foi desde o início poupada, pelo presidente, de toda a responsabilidade pela articulação política. Foi-lhe atribuída a gerência dos investimentos federais e, em 2007, o presidente Lula entregou-lhe a coordenação do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Mais que isso, ele a nomeou "mãe do PAC". Mais uma vez a ministra demonstrou sua inépcia gerencial, desmentindo novamente sua injustificável fama de executiva.

No ano passado ? o de melhor desempenho na execução das obras ? o Tesouro desembolsou apenas 65% do valor previsto no orçamento para o programa. Além disso, pouco mais de metade do total desembolsado correspondeu a restos a pagar. Mas o presidente Lula ainda não está saciado. Persistente, decidiu proporcionar à ministra Dilma Rousseff a oportunidade invejável de exibir sua inépcia no posto mais alto da administração nacional, a Presidência da República. Se Lula tiver sucesso, terá contribuído de forma notável para a revisão do Peter Principle, divulgado em 1969 pelo professor Lawrence Johnston Peter: "Numa hierarquia, todo funcionário tende a subir até seu nível de incompetência." Na formulação revista, ampliada e já comprovada em parte, a ascensão pode continuar por níveis de incompetência cada vez mais altos e mais perigosos para a organização ? ou, neste caso, para o País.

Não se sabe se Lula conseguirá transferir para sua candidata prestígio suficiente para permitir sua eleição. Neste momento, ele está empenhado em transferir-lhe um de seus atributos mais invejáveis, semelhante à propriedade principal das panelas teflon. Graças a essa propriedade, nenhum escândalo grudou em sua figura e nenhum erro importante maculou sua imagem, pelo menos perante uma grande parcela dos cidadãos. Ao isentar a chefe da Casa Civil de responsabilidade pelo desastroso decreto, Lula procura transformá-la numa candidata igualmente imune a prejuízos de imagem. Na terça-feira, por exemplo, ele a conduziu ao primeiro grande evento eleitoral de 2010, em Brasília, perante uma plateia de prefeitos, governadores e parlamentares. A cerimônia teve até beija-mão, protagonizado pelo presidente do Congresso, senador José Sarney. Foram liberados na ocasião R$ 3 bilhões para prefeituras, destinados ao programa de habitação popular. Um grande investimento, sem dúvida pelo menos na candidatura oficial.

Frei encosta em Piñera e acirra campanha no Chile

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Pesquisa dá 50,9% a Sebastián Piñera e 49,1% a Eduardo Frei a 4 dias do 2º turno

Marco Enríquez-Ominami, que ficou em terceiro no 1º turno, anuncia apoio ao ex-presidente Frei e pode abalar reta final do pleito

Thiago Guimarães
Enviado Especial a Santiago

A quatro dias do segundo turno, a eleição presidencial no Chile se acirrou ontem, com uma pesquisa que apontou empate técnico entre o governista Eduardo Frei e o opositor Sebastián Piñera e o anúncio de apoio a Frei por Marco Enríquez-Ominami, terceiro colocado no primeiro turno.
Projeção do Centro de Estudos Mori indicou vitória de Piñera com 50,9% dos votos, contra 49,1% de Frei. A pesquisa ouviu 1.200 pessoas de 1 a 9 de janeiro e usa perguntas adicionais para interpretar a opção daqueles que não respondem.

"Frei encurtou a distância a Piñera, que, contudo, tem uma vantagem com mais chances de se manter do que de se anular", diz o estudo, que tem margem de erro de três pontos.

Em que pese o favoritismo de Piñera, um moderado de direita que venceu o primeiro turno com 44% dos votos e lidera as pesquisas desde então, a candidatura do ex-presidente Frei (1994-1999) ganhou alento ontem com a declaração de voto de Ominami, o deputado dissidente do governo que competiu como independente e conseguiu 20% dos votos.Sem citar o nome de Frei -se referiu apenas ao "candidato de 29% dos chilenos", votação do ex-presidente no primeiro turno-, Ominami disse ter optado por "contribuir para que a direita não impeça a marcha do Chile rumo ao futuro".

Ominami, 36, foi a grande surpresa da eleição chilena. Impedido de participar das primárias presidenciais da Concertação -a coalizão de centro-esquerda que governa o país há 20 anos-, deixou a aliança e se lançou como independente. No segundo turno, seu 1,39 milhão de votos se tornou o principal alvo de Piñera e Frei.

O deputado construiu sua candidatura com fortes críticas às cúpulas partidárias -pediu a renúncia dos líderes da Concertação para apoiar Frei.

Na última semana de 2009, dois presidentes de sócios menores da aliança deixaram os cargos, mas os chefes dos partidos maiores -Socialista e Democracia Cristã, de Frei- se mantiveram. As saídas, contudo, repercutiram negativamente na campanha de Frei.

A disputa do segundo turno viu os candidatos incorporarem colaboradores e promessas de campanha de Ominami. Foi Frei, contudo, por meio do governo Michelle Bachelet, quem deu a cartada decisiva: enviou ao Congresso, em caráter de urgência, projetos-chave do programa de Ominami, como o do voto voluntário e o do registro eleitoral automático.

Aprovada por 80% da população, mas sem conseguir transferir sua popularidade a Frei, Bachelet reforçou o discurso eleitoral nos últimos dias. "Uma candidatura escutou ao povo no primeiro turno e somou apoios, como o de Ominami", disse.

"Os últimos fatos agudizam o acirramento da eleição, mas a ajuda de Ominami chegou tarde", disse à Folha o analista político Ascanio Cavallo.

Segundo a pesquisa Mori, o eleitorado de Ominami se divide da seguinte forma no segundo turno: 44% por Frei, 20% para Piñera, 21% votam nulo ou branco e 15% não sabem ou não responderam.

O QUE PENSA A MÍDIA

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Eliane Cantanhêde:: O Nobel da Paz brasileiro

DEU NA FOLHA DE S, PAULO

Zilda Arns foi o que todas nós, ou muitas de nós, gostaríamos de ser ou de ter sido: uma mulher de infinita dedicação às suas crianças, à sua gente, ao seu país e ao seu mundo.

Ela morreu como viveu: chacoalhando em desconfortáveis jipes militares, aos 75 anos, numa guerra contra a pobreza, a sujeira, a ignorância. A favor da vida. Morreu para que tantos outros vivessem no pequeno Haiti, o mais miserável país da América Latina, quase um encrave da África pobre na região.

Médica, especializada em educação física e pediatria, coordenadora da Pastoral da Criança da CNBB, Zilda foi indicada três vezes pelo Brasil para o Prêmio Nobel da Paz. Merecia, e seria uma honra para cada um de nós. Mas ela não era só brasileira, era do mundo.

Suas soluções simples, baratas e enormemente eficazes cruzaram fronteiras e foram salvar vidas em 15, 20 países pobres da América Latina e da África. Coisas assim como lavar as mãos, tomar banho, aproveitar os alimentos até o último detalhe. Quem não leu sobre macerar cascas de ovos para adicionar cálcio à alimentação de pobres? Quem não sabe da mistura caseira para salvar crianças de desnutrição e desidratação?

Sua história e seus ideais se confundem com os de um ícone mundial, que foi Madre Tereza de Calcutá. Mas Zilda não era freira, não usava hábito e dedicou sua vida à vida alheia, mantendo-se bonita, vaidosa, imensamente feminina. Não interpretou um papel. Era apenas ela mesma em ação.

Se Zilda Arns tivesse morrido de uma doença qualquer, de um acidente qualquer, mesmo assim sua morte teria imensa repercussão e geraria uma tristeza nacional. Quis o destino, ou a sua saga, que ela morresse no Haiti, num terremoto.

Torna-se, portanto, uma personagem única, cercado por símbolos e exemplos que deixam marcas, rastros. Zilda, definitivamente, não passou pela vida em vão.

Miriam Leitão:: Orgulho e dor

DEU EM O GLOBO

Metade dos haitianos tem menos de 18 anos. São crianças. A médica Zilda Arns dedicou sua vida às crianças. Salvou incontáveis vidas no Brasil, espalhava seu trabalho pelo mundo, morreu no país que mais precisava de ajuda. O Haiti é o país mais pobre do Ocidente, diz o Banco Mundial. Sobre essa extrema privação é que aconteceu a devastação de um terremoto histórico

O Brasil tem tido sabedoria, estratégia, autoridade na condução dos trabalhos da missão da ONU no Haiti. Com sabedoria, estratégia e solidariedade, Zilda Arns construiu uma rede poderosa de voluntários que se espalhou pelo Brasil salvando vidas.

Quando a missão brasileira chegou ao Haiti, em 2004, a maior preocupação da ONU era com as gangues formadas por ex-integrantes das forças armadas haitianas que haviam sido extintas em 1994. E foi nesse ponto que os militares brasileiros começaram a trabalhar, segundo me contou ontem o general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, primeiro comandante da Missão da ONU: — Nosso primeiro trabalho foi neutralizar os ex-militares, fomos prendendo, dissuadindo, desarmando e dissolvendo os grupos.

Depois, foi preciso mostrar coragem.

— Nós entrávamos nas áreas de conflito, numa cidade quase completamente favelizada que é Porto Príncipe, mas saíamos logo depois.

Os integrantes das gangues diziam que nós tínhamos medo deles, e assim evitavam que a comunidade cooperasse conosco.

Decidimos ocupar a primeira grande favela, Belair, que ficava perto do Palácio Presidencial — esse que acaba de ruir. Isso mostrou aos bandidos que não tínhamos medo e fortaleceu nossa relação com a população.

Depois, fomos para Cité Soleil — conta.

Mas tudo mudou mesmo quando chegou a companhia de engenharia do Exércio e começou o trabalho de reconstrução de hospitais, escolas, casas.

— Não era esse o nosso trabalho, mas diante da carência de tudo, fomos ganhando a confiança da população assim, construindo, fazendo poço artesiano, refazendo o destruído — diz o general.

A médica Zilda Arns foi chamada pelo irmão, na época cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, porque ele tinha tido uma ideia: — Zilda, você não quer pensar como a Igreja poderia ensinar às mães a preparar o soro caseiro? Porque se elas tomassem soro, não morreriam com diarreia.

Então eu pensei: quero multiplicar a informação — me disse doutora Zilda numa entrevista.

Ela foi organizando um método para essa multiplicação de informações: treinando voluntárias, educando as mães, organizando grupos, montando rede. As informações que foram sendo multiplicadas eram sobre como preparar o soro caseiro, como e por que manter o aleitamento materno, como preparar a mistura que fortalecia as crianças.

O Brasil, nesse período, por ações de voluntários como Zilda Arns, e atuação governamental, derrubou fortemente a mortalidade infantil. Mesmo assim, as estatísticas mostram que o trabalho que ela estruturou, a partir daquela conversa com Dom Paulo em 1982, fez diferença.

Hoje, a mortalidade infantil brasileira é de 22 em cada 1.000 crianças nascidas vivas. Nas áreas onde a Pastoral da Criança atua, é de 11 por mil. E o espantoso é que a Pastoral atua justamente nas áreas mais pobres do país.

O Haiti tem números terríveis.

Basta olhar esse gráfico para ver. Metade do país é de analfabetos, 80% dos haitianos são pobres, destes, 50% estão em estado de pobreza absoluta.

Só 30% de luz elétrica, só 20% das casas têm água encanada.

O país já foi vítima da mais sangrenta das ditaduras de Papa Doc cuja polícia matou 30 mil pessoas.

É atingido por inundações, como a de 2004, em Gonaives, que deixou mais de dois mil mortos, ou os furacões de 2008.

O que mostra a presença dos brasileiros no Haiti, e a vida de Zilda Arns, é que a tragédia social não é invencível.

Com método, objetivos e solidariedade, ela pode ser derrotada. Hoje é um desses momentos em que os sentimentos se misturam.

Orgulho dos brasileiros que morreram levando paz e solidariedade a um país devastado, e dor pelo sofrimento humano que está diante de nós.

André Rio e Spok Frevo Orquestra - Chuva de sombrinhas

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Reflexão do dia - Caludio Salm

“A abertura abrupta no início da década de 90 levou a fortes e rápidas transformações estruturais, especialmente na indústria. Surgiu pela primeira vez entre nós, como um grave problema, o desemprego aberto. Foi nessa época que ganhou força a ideia do crescimento sem emprego, justamente por causa da rápida modernização da indústria. As grandes transformações tecnológicas, a matança de pequenas empresas, a racionalização, tudo isso durou até os anos 90. Findo esse processo, as coisas se arrumaram e o crescimento voltou a ser altamente promotor do emprego. É impressionante a correlação entre crescimento e geração de emprego dos anos 2000 para cá. O crescimento recente voltou a gerar empregos para os segmentos pouco qualificados, o que foi mais importante do que o Bolsa Família para explicar a melhora da distribuição de renda”.


(Cláudio Salm, economista, em entrevista na Folha de S. Paulo, segunda-feira)

Merval Pereira :: Verdades

DEU EM O GLOBO

A constituição de uma Comissão Nacional da Verdade para apurar os crimes cometidos durante o período de regime militar vem em momento histórico equivocado e envolta em uma embalagem de cunho ideológico que impede liminarmente que se chegue à verdade. O professor de História Contemporânea da UFRJ Francisco Carlos Teixeira acha que a providência é muito tardia e torna muito mais difícil e menos justificável do ponto de vista político a realização da tarefa

Segundo ele, se tivesse sido feita logo depois da redemocratização em 1985, ou talvez na Constituinte de 1988, iria provocar reações contrárias, mas estávamos no processo de reconstituição das instituições brasileiras.

Agora, para Teixeira, as instituições brasileiras estão funcionando muito bem, e nesse momento essa providência não tem mais sentido.

Ele lembra que comissão desse tipo na Argentina foi coordenada pelo escritor Ernesto Sábato, e o da África do Sul pelo bispo Desmond Tutu, militantes de um peso intelectual totalmente diferenciado, o que colocava as comissões acima da partidarização do processo.

“Foram feitas no calor da hora, no momento da refundação das instituições, e por pessoas que tinham autoridade moral reconhecida pela sociedade”.

Luigi Pareyson, um dos maiores filósofos italianos do século XX, professor de Gianni Vatimo e Umberto Eco, em seu livro “Verdade e interpretação”, mostra como a busca da verdade é afetada pela ideologia, uma instrumentalização do pensamento.

Ele trata nesse contexto de duas características do mundo moderno, o praxismo, uma ação política desvinculada da verdade, e o tecnicismo, outra variação do uso da razão que não utiliza a verdade.

Para Pareyson, a verdade é a origem do pensamento, e não o objeto, e seu “conceito de interpretação” tornouse importante na filosofia pela separação entre o “pensamento expressivo”, que ficaria limitado à História, e o “pensamento revelativo”, que se aproxima da verdade.

Uma comissão formada com o objetivo de investigar as violações dos direitos humanos no contexto da “repressão política” nos anos de ditadura militar não perderá sua ideologia fundamental devido ao uso da palavra “conflitos” no lugar de “repressão”, como propõe o presidente Lula aos ministros militares que protestaram.

Segundo o professor de filosofia da Uerj e presidente da Academia Brasileira de Filosofia, João Ricardo Moderno, se existe uma “busca interessada da verdade”, já se está distorcendo o resultado final, que vai encontrar aquilo que estava buscando. Quem age assim “não está interessado minimamente em buscar a verdade, mas em forçar uma situação para que coincida com seu pensamento”.

O professor Francisco Carlos Teixeira, como historiador, considera que o fundamental para se expor a verdade é abrir os arquivos do regime militar, sem se importar com o fato de que esses arquivos, na maior parte das vezes, revelam-se “uma porcaria”.

“São informações de segunda ou terceira pessoas, baseadas em fofocas, sem interesse histórico”. Ele lembra o historiador Carlos Ginsburgo, que escreveu o livro “O queijo e os vermes”, sobre a Inquisição, que dizia que quem usar fontes da Inquisição vai acabar comprovando a existência de bruxas.

“Se usar as fontes da repressão, vai acabar comprovando que comunistas comiam criancinhas”, ironiza Teixeira.

Mesmo assim, ele considera que a abertura de todos os arquivos, embora não vá redundar em “atos de direito”, servirá para que se possa conhecer a História do país. “Anistia não é esquecimento, mas perdão dos atos cometidos”.

Ele admite que existe dificuldade cultural no Brasil com relação a arquivos, que não tem a ver apenas com os do regime militar: “É uma mania brasileira, tanto que o Itamaraty até hoje cria problemas com os arquivos da Guerra do Paraguai. Há um sigilismo na mentalidade da sociedade brasileira que vem da tradição ibérica de arquivo como alguma coisa perigosa e comprometedora”.

Teixeira sabe do que está falando. Ele foi o redator do artigo da Constituição de 1988 que criou o “habeas datas”, porque era, na ocasião, diretor do Conselho Nacional de Arquivos do Brasil e permitiu o acesso aos arquivos da ditadura em repartições públicas.

Guarda até hoje uma carta de Ulysses Guimarães em que ele dizia que aquele seria “o meu artigo” por causa exatamente do acesso livre do cidadão à informação.

Francisco Carlos Teixeira lembra que a abertura dos arquivos tem como contrapartida a necessidade de todos assumirem as responsabilidades, “inclusive a esquerda, porque muitos desses depoimentos, mesmo que conseguidos através de torturas, são altamente comprometedores”.

Ele não vê razão para que as Forças Armadas resistam à revelação de fatos da época da ditadura militar, pois “não há hoje nas Forças Armadas ninguém que tenha tido comprometimento com o que aconteceu”.

Ao mesmo tempo, Francisco Carlos Teixeira faz questão de frisar que o regime ditatorial deveria ser classificado como regime “civil-militar”, porque foi apoiado pelos civis, “e essa comissão deveria ter sido instituída naquele momento para revelar a participação de todos e de qualquer um, principalmente em crimes como a tortura, prática injustificável e imperdoável”.

Mas a tortura, diz Teixeira, não pode ser atribuída a instituições: “Tortura não é responsabilidade da instituição, mas de pessoas. Houve militares que se recusaram a participar, e civis que a aceitaram e praticaram”.

Fernando De Barros e Silva: Lula e o populismo

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

SÃO PAULO - O lulismo é uma nova forma de populismo? E quais relações ele teria com o getulismo?

Na sua definição mais geral, o populismo se caracteriza pela existência de um líder carismático que estabelece um vínculo direto com as massas, cuja identidade passa a depender da relação com o "pai" em que se espelha e reconhece.

Trata-se, nas palavras de Norberto Bobbio, de um movimento conservador, no qual a sociedade dividida em classes dá lugar à noção de um "povo" indivisível. Seu inimigo é o "antipovo", cujo conteúdo é historicamente variável -elites imperialistas, oligarquias nacionais, grupos com ideologias estranhas ao povo (como o comunismo) etc.

No artigo "Raízes Sociais e Ideológicas do Lulismo", comentado aqui ontem, o cientista político André Singer diz, já nas suas conclusões, que a ideia de um conflito entre "um Estado popular e elites antipovo" poderá "cair como luva para o próximo período". Ou seja, a disputa eleitoral de 2010 pode ser pautada pela gramática do populismo.

Conforme Singer mostra, ao unir em seu governo defesa da ordem econômica e promoção social, Lula articulou em torno de si a massa desorganizada de baixa renda, que passou a existir como ator político por meio da sua liderança. Ou seja, o lulismo deixou a direita órfã do povão. E Lula deu um nó no enredo que a esquerda lhe havia preparado.

Os "descamisados", aqueles setores "menos esclarecidos e mais desfavorecidos" que o petista identificou como responsáveis por sua derrota para Collor em 1989, passaram a formar a base social do lulismo.

Leonel Brizola, filho do getulismo e velho crítico do PT -que para ele representava a elite sindical dos trabalhadores, a igreja progressista e as classes médias intelectualizadas, mas era incapaz de alcançar as massas-, talvez se admirasse com destino popular do "sapo barbudo".

A liderança de Lula reúne traços inegáveis do populismo, sem que isso fragilize as instituições. É difícil imaginar um governo de comunhão nacional além da sua figura.

Dora Kramer :: À imagem e semelhança

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Da corrupção filmada com deputado enfiando dinheiro nas meias até a entrega da investigação a investigados, suspeitos e amigos dos acusados, passando pela concessão do perdão do governador flagrado na partilha aos seus "agressores", tudo é exagerado ? ao molde das más comédias ? no caso do esquema de distribuição de propinas descoberto pela Polícia Federal no governo de Brasília.

Descontada a exacerbação do descaramento, nada diferencia a condução do caso na Câmara Distrital da capital da República da prática no Congresso Nacional de manipular toda e qualquer investigação que ameace o Poder do lado interno ou externo da Casa.

Em Brasília, passado o susto com o impacto provocado pelas imagens entregues à polícia pelo delator e operador do esquema, o cinismo voltou a imperar, resultando na montagem de uma empulhação destinada a permitir que, do governador aos deputados, todos cumpram em paz seus mandados até o último dia.

Foram criadas três instâncias de proteção. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar as "irregularidades" do governo em que presidente e relator são ex-secretários do governo, o vice-presidente é um aliado e apenas um dos integrantes não faz parte da base de sustentação de José Roberto Arruda.

Na Comissão de Constituição e Justiça, encarregada de admitir ou não a tramitação dos pedidos de impeachment contra o governador, foi eleito um novo presidente: Geraldo Naves, amigo assumido do governador Arruda e do vice, Paulo Octávio, aos quais teve oportunidade de visitar várias vezes desde o início do escândalo, a fim de emprestar solidariedade.

Na comissão especial que examinará os pedidos de impeachment caso eles passem pelo crivo da CCJ, a maioria também é governista.

Segundo a deputada Eliana Pedrosa, ex-secretária do governo, nada disso impõe às investigações qualquer "viés" pró-Arruda. De acordo com ela é incorreto falar em "governistas" já que o governador está sem partido.

De fato, depois de sair do DEM ? partido de Eliana, por sinal ?, o governador ficou sem legenda partidária, mas continuou de posse do governo. E, com ele, da maioria dos 17 entre os 24 deputados distritais que, se tudo o mais der errado, vão votar o destino do governador no plenário.

Todo esse arcabouço de desfaçatez presidido por quem? Pelo deputado que enfiou dinheiro nas meias, Leonardo Prudente, presidente da Câmara Distrital, de volta ao cargo depois de breve licença.

E para quem ainda sente dificuldade em ligar o nome desse jogo à pessoa do Congresso Nacional, o presidente da CPI do Arruda, Alírio Neto, esclarece comparando a "sua"comissão à CPI da Petrobrás: "No Congresso, a presidência da CPI ficou com o governo, não vejo dificuldade nenhuma."

De fato, só se vislumbram facilidades. Para o governador e os dez deputados distritais envolvidos no escândalo. Entre eles, Eurides Brito, filmada literalmente embolsando dinheiro, mas com seu assento mantido intacto na Comissão de Constituição e Justiça.

Isolada, a líder do PT, Érica Kokay, analisa o quadro: "Tudo indica que há uma articulação do governador para que o processo de crime de responsabilidade seja arquivado."

Noves fora a ingenuidade simulada, a deputada sabe muito bem do que fala, pois o exemplo lhe é partidariamente familiar.

Coreografias

Se é verdade mesmo que o presidente Lula seis dias antes da assinatura do decreto orientou o secretário nacional de Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, a retirar do texto sobre a Comissão da Verdade a referência a punição aos torturadores, alguém enganou alguém.

Lula teria sido alertado do equívoco pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, no dia 15 de dezembro. Quando o decreto saiu no Diário Oficial com o texto inalterado, Jobim e os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, apresentaram seus pedidos de demissão, mas recuaram em seguida.

Como o secretário não foi admoestado pelo ato de quebra de confiança, o mais provável é que Lula não tenha pedido modificação alguma. Até porque, se pediu, o normal teria sido verificar se havia sido atendido.

Obviamente o raciocínio não escapa ao tirocínio da cúpula da Defesa, o que faz do ato da demissão coletiva um balé.

Quem cala

Quando parlamentares e dirigentes do PSDB se manifestam em clima de campanha e de candidatura presidencial definida, não contrariam como rezam algumas interpretações o governador de São Paulo, José Serra.

Apenas cumprem o com ele combinado: enquanto o partido fala, o candidato cala.

Prolixo

O Programa Nacional de Direitos Humanos contempla 521 medidas. Mais que o dobro da Constituição com seus 250 artigos, já considerados excessivos.

Gabeira considera disputar governo do RJ aliado ao PSDB

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Coligação, avalizada por Marina Silva e que reunirá ainda DEM e PPS, é crucial para garantir palanque a José Serra

Operação assegura mais tempo na televisão para a campanha do deputado, autorizado a defender a pré-candidata do PV

Catia Seabra

Da Reportagem Local


Apontado como o candidato ideal do governador José Serra (PSDB) ao governo do Rio de Janeiro, o deputado federal Fernando Gabeira (PV) admitiu ontem a possibilidade de entrar na disputa estadual.

Em reunião com tucanos do Estado, Gabeira condicionou sua candidatura à consolidação de uma aliança entre PSDB e PV do Rio. "Se todos se sentirem confortáveis, eu topo", disse o deputado à Folha.

A operação conta com o aval da pré-candidata do PV, Marina Silva (AC). Grife da sigla, Gabeira ameaçava desistir até do Senado se o partido insistisse no lançamento de uma chapa "puro-sangue" no Estado.

A candidatura de Gabeira é crucial para Serra por oferecer um palanque forte ao PSDB no Rio de Janeiro, terceiro maior colégio eleitoral do país.

Em conversas com o PV, o PSDB concordou que Gabeira defenda o nome de Marina na TV.

Sozinho, o PV tem direito a 1 minuto e 20 por dia no horário eleitoral. A coligação garantirá 8 minutos diários, incluindo a candidatura do ex-prefeito Cesar Maia para o Senado.

Presidente estadual do PV do Rio, o vereador Alfredo Sirkis afirma que a aliança - que reunirá também DEM e PPS - abre caminho para "uma campanha competitiva no Rio".

Segundo Gabeira, a decisão deverá ser oficializada depois do Carnaval. O arremate dependerá da costura de detalhes com o comando do PV. O partido chegou a defender candidaturas isoladas nos principais Estados. Mas, diante do risco de Gabeira de desistir até da corrida ao Senado, Marina acenou com a possibilidade de exceções na semana passada.

"No Acre, por exemplo, não teremos nem candidato próprio", admitiu Marina.

Gabeira se reuniu com o comando do PSDB do Rio no sábado, um dia depois de conversar com o presidente nacional do partido, Sérgio Guerra (PE), e com o ex-deputado Márcio Fortes. Na conversa, eles alegaram que Gabeira tem chances de ir ao segundo turno.

Mas, segundo tucanos, mesmo derrotado, Gabeira pode ser recompensado caso o PSDB chegue à Presidência. Cogita-se que ele poderia ocupar, por exemplo, a Embaixada do Brasil na França.

Outro pré-candidato, o ex-governador Anthony Garotinho (PR) já disse a interlocutores que torcia pela candidatura de Gabeira por forçar um segundo turno no Estado.

Gabeira admite concorrer no Rio, mas cobra alianças

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Deputado diz que candidatura depende de entendimento entre PV e PSDB

Marcelo Auler

RIO - Em conversa no fim de semana com o presidente regional do PSDB, deputado estadual Luiz Paulo Correa da Rocha, o deputado Fernando Gabeira (PV) admitiu sair candidato ao governo do Rio, desde que o comando nacional tucano entre em contato com o PV e com a campanha presidencial da senadora Marina Silva (AC). Ele finalmente aceitou representar esse "campo político", caso "exista a possibilidade de uma coligação em que todos estejam confortáveis". Ontem, porém, ele garantiu que "ainda não houve esse entendimento".

O acordo, diz Gabeira, dependerá mais de Marina e a direção nacional do PV avaliarem que a sua candidatura interessa. "Há três partidos - DEM, PSDB e PPS - se dispondo a apoiar minha candidatura. Se o PV considerar que é um caminho, que eu possa sair candidato com este apoio, eu concordo."

Mesmo apoiando um mesmo candidato no Estado, esses partidos vão se separar na campanha presidencial: os verdes lançarão Marina e os outros estarão com o tucano José Serra. Gabeira explicou que não pode sair candidato contando apenas com o apoio do PV, que lhe garantiria, no máximo, 30 segundos de televisão. "Com esses partidos todos teremos uns cinco minutos e poderemos fazer um trabalho mais competitivo, mais qualificado", disse.

Após a conversa do fim de semana, ele aguarda uma definição. "Vai haver uma série de encontros dos dirigentes dos partidos, notadamente do PSDB e PV. A própria Marina será consultada." O deputado estima, porém, que o resultado das conversas só aparecerá em fevereiro. "A definição, para um lado ou outro, demorará alguns dias. Todos estão trabalhando com a véspera do carnaval como ponto de referência", adiantou.

Em 2008, Gabeira disputou o segundo turno da eleição para a Prefeitura do Rio e perdeu para Eduardo Paes (PMDB) por uma diferença de 55 mil votos. Paes obteve 50,83% dos votos válidos, ante 49,17% de Gabeira.

Por esse resultado, ele vem sendo considerado fortíssimo candidato ao Senado. Se concorrer ao governo - o que abrirá no Rio palanques fortes para Marina e Serra -, no entanto, Gabeira vai enfrentar o atual governador, Sérgio Cabral (PMDB), que as pesquisas apontam com ótimas chances de reeleição.

O deputado nega que esteja fazendo essa troca pensando em futuros cargos em um possível governo tucano. No final de semana, circulou a informação de que ele, caso não se eleja, pode ser nomeado embaixador do Brasil na França. "Eu não faço nenhuma exigência em torno desta candidatura e também não quero sair do Brasil."


Gabeira agora diz que pode disputar governo

DEU EM O GLOBO

Deputado articula com tucanos palanque para Serra, mas afirma que decisão final será de Marina

Cássio Bruno

Depois de rejeitar a hipótese de subir em dois palanques de candidatos à Presidência no estado — o do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e o da senadora Marina Silva (PV-AC) —, o deputado federal Fernando Gabeira (PV) voltou ontem a cogitar a possibilidade de concorrer em outubro com o atual governador Sérgio Cabral (PMDB), que tentará a reeleição, e com o ex-governador Anthony Garotinho (PR), ambos da base aliada da chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff (PT). O processo de convencimento ocorreu após conversas com PSDB e PPS no fim de semana.

Gabeira, agora, aguarda apenas uma decisão de Marina para oficializar o acordo com a coligação, composta também pelo DEM.

— O clima no PSDB e no PPS é o seguinte: não tem outra alternativa (de oposição a Cabral) a não ser a minha candidatura.

As chances são grandes.

Eu teria de cinco a seis minutos de propaganda. Por ironia, só dependo do PV e da Marina — disse Gabeira.

No encontro da cúpula do PSDB realizado anteontem em São Paulo, o presidente nacional do partido, Sérgio Guerra, afirmara que, em sua avaliação, as situações mais complicadas estariam no Rio de Janeiro, Ceará e no Amazonas. Integrantes do PV fluminense e de partidos da coligação já falam na précandidatura de Gabeira ao governo do estado.

— Existe a possibilidade.

Ele é o nome do PV. Mas o processo demanda negociação e decisão da Marina. Pode ser que a coisa evolua. Vamos aguardar — afirmou o presidente do diretório regional do PV, vereador Alfredo Sirkis, que chegou a lançar sua précandidatura ao governo. — Foi apenas um freio de arrumação.

Uma formação defensiva.

A situação era confusa. Fiz isso para o Gabeira não ficar exposto — justificou Sirkis.

“Era a única solução que tínhamos”, diz Rodrigo Maia A vereadora Aspásia Camargo (PV) seguiu o mesmo tom: — Gabeira é nosso candidato natural. Agora, temos um quadro significativo de oposição.

Procurada, Marina Silva não retornou as ligações.

O presidente nacional do DEM, deputado federal Rodrigo Maia, comemorou: — Será uma aliança vitoriosa.

Era a única solução que tínhamos: Gabeira e (o ex-prefeito) Cesar Maia (pré-candidato ao Senado) num mesmo palanque. São perfis de votos diferentes, que vão se somar.

Por e-mail, Cesar Maia também mostrou-se otimista: — Marina vai crescer muito no Rio. E no segundo turno teremos o Gabeira em sinergia com o Serra.

O presidente do diretório regional do PSDB, Luiz Paulo Corrêa da Rocha, pediu cautela: — É um momento embrionário.

Ainda é cedo.

O vaivém de Gabeira começou quando ele descartou seu nome ao governo para não ser obrigado a subir nos palanques de Marina e Serra ao mesmo tempo. Em agosto do ano passado, o deputado declarou: — Não sabemos como é que fica, é a engenharia mais difícil até agora: Dona Flor e seus dois maridos.

A partir daí, Gabeira voltou suas atenções para o Senado.

Mas também abriu mão ao saber que teria pouco tempo de propaganda no rádio e na televisão.

Por fim, admitiu até concorrer novamente à Câmara.

Crítica a política econômica descontenta Serra

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra (PE), provocou desconforto entre os adeptos da candidatura do governador paulista José Serra à Presidência ao sinalizar mudanças na política econômica em caso de uma vitória tucana.

Num momento em que autoridades do governo Lula investem no discurso de que a vitória da oposição representa risco à estabilidade, Guerra defendeu, em entrevista à revista "Veja", mudanças nas políticas de juros, câmbio e metas de inflação.

Segundo tucanos, não há intenção de mudança na macroeconomia e, se mal interpretada, a declaração causará insegurança no mercado, parte dele resistente ao nome de Serra.

Orientado a exaltar a estabilidade da economia como uma obra do PSDB e a propor a continuidade da política macroeconômica, Guerra acabou se dizendo "mais à esquerda que o PT": "Não estamos de acordo com a taxa de juros que está aí, com o câmbio que está aí".

Em discursos, o próprio Serra tem apontado a política monetária/cambial, a carga tributária e a inovação tecnológica como "questões cruciais".

Em outubro, durante evento na CNI (Confederação Nacional da Indústria), ele criticou a política cambial e chamou de "maligno" o deficit comercial "baseado na distorção de preços relativos da nossa moeda". Crítico das taxas de juros, ele pregou mudanças na carga tributária: "Esse [o câmbio] é um desafio muito grande, junto com o [desafio] tributário".

Segundo tucanos, essa não é uma sinalização de mudanças abruptas, mas de dosagem. E, pela delicadeza do tema, Guerra não deveria ter sido destacado para falar sobre o assunto, mas um especialista.

Trapalhadas inconstitucionais :: Ricardo Vélez Rodríguez

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Chegando à última etapa do segundo mandato, parece que o presidente se desatrela da linha que pautou a sua ação até agora, à luz do documento de 2002 intitulado Carta ao Povo Brasileiro, para enveredar pela linha fixada pelo texto em que o PT vazava, inicialmente, as suas propostas eleitorais, a Carta de Olinda. Saudades da pureza ideológica ou malandragem para testar até onde a opinião pública no Brasil é contrária às propostas marxistizantes? O tempo dirá. Por enquanto, quero dizer seis coisas a respeito do Decreto nº 7.037, de 21 de dezembro de 2009, que estabelece o "Programa Nacional de Direitos Humanos".

1) É uma bobagem achar que Lula "não sabia de nada". Já conhecemos essa saída macunaímica, alegada, também, nos casos do "mensalão", dos "aloprados", dos "cartões corporativos", etc. Não vamos, outra vez, fazer o papel de bobos da corte que podem ser ludibriados na sua boa-fé. Bobagem tem limite. O presidente tem de ser responsabilizado pelo que assinou.

2) O que Lula assinou no malfadado decreto constitui uma tentativa de golpe de Estado, que deita por terra a Constituição. Gravíssimo. Isso daria ensejo, seguindo o rigor da lei, ao estabelecimento de um processo de impeachment.

3) À luz da denominada "Diretriz 1: Interação democrática entre Estado e sociedade civil como instrumento de fortalecimento da democracia participativa", o decreto estabelece praticamente uma ditadura chefiada pelo Executivo e intermediada pelos denominados "movimentos sociais", deixando de fora o Legislativo (substituído pela consulta plebiscitária) e a própria Justiça (anulada pelos "tribunais populares"). Esse seria o passo anterior para uma escancarada "ditadura do proletariado", nos moldes defendidos pelos comunistas. A revisão da Lei da Anistia ocorrerá, certamente, por conta desses "tribunais populares", no contexto de uma verdadeira aberração jurídica, como muito bem destacou, em artigo recente, eminente jurista gaúcho.

O papel atribuído aos sindicatos e aos tais movimentos é hegemônico, segundo o texto do decreto, como se essas organizações fossem as únicas responsáveis pelas mudanças que consolidaram o exercício da democracia no Brasil, desde o fim do regime militar até os dias de hoje. Para a petralhada, a única versão de democracia que vale é a que Benjamin Constant de Rebecque chamava de "democracia dos antigos", a exercitada na praça pública mediante plebiscito. Os constitucionalistas do PT desconhecem a democracia representativa das nações modernas. Ora, sem ela não há democracia. Daí a necessidade de aperfeiçoar, não de achincalhar o Congresso, como Lula e os petistas fazem.

Lembrando os textos da vulgata marxista que circulam nas universidades e nos sindicatos, o decreto afirma: "Os movimentos populares e sindicatos foram, no caso brasileiro, os principais promotores da mudança e da ruptura política em diversas épocas e contextos históricos. (...) Durante a etapa de elaboração da Constituição Cidadã de 1988, esses segmentos atuaram de forma especialmente articulada, afirmando-se como um dos pilares da democracia e influenciando diretamente os rumos do País. (...) Nos anos 1990, desempenharam papel fundamental na resistência a todas as orientações do neoliberalismo de flexibilização dos direitos sociais (...). Nesse mesmo período, multiplicaram-se pelo País experiências de gestão estadual e municipal em que lideranças desses movimentos, em larga escala, passaram a desempenhar funções de gestores públicos."

Não é dita nenhuma palavra acerca do importante papel que o Congresso teve na elaboração da Carta de 1988. Tampouco é lembrado o trabalho do Legislativo, bem como da Justiça em geral, no intuito de regulamentar os artigos da mencionada Constituição e de resolver os conflitos surgidos ao ensejo da sua aplicação. Ora, houve governabilidade, ao longo de todos estes anos, porque Congresso e magistrados deram uma contribuição de grande valor para o funcionamento das instituições.

4) O decreto praticamente anula o direito de propriedade privada, em especial o agronegócio. Tiro no pé de quem financia a beneficência oficial com o superávit das exportações. As questões relativas a conflitos de terra que levem a invasões devem ser analisadas por "tribunais populares", cujas decisões são prioritárias, de forma semelhante a como o presidente Evo Morales acaba de propor na Bolívia e analogamente a como o chavismo equaciona os problemas de posse da terra e das empresas particulares.

5) É estruturada uma rígida rede de controle da informação, bem como de domínio do Estado sobre o sistema educacional, à luz da denominada "Diretriz 3: Integração e ampliação dos sistemas de informações em Direitos Humanos e construção de mecanismos de avaliação e monitoramento de sua efetivação". Graças a esse dispositivo, só será veiculado pela mídia e ensinado nas escolas e universidades o que interessar aos donos do poder. Estamos passando do patrimonialismo ao totalitarismo! Lula segue fiel ao Foro de São Paulo, criado por ele, por Fidel, pelas Farc e outras organizações comunistas para dar sobrevida, na América Latina, ao cadáver insepulto do comunismo, que caiu por terra no final dos anos 80 do século passado, mas que teima em viver, nos dias atuais, ecotoplasmaticamente encarnado no movimento bolivariano do coronel Hugo Chávez, que, infelizmente, traça a pauta para o constitucionalismo petista, como se vê pelo teor do mostrengo que estamos apreciando.

6) Ponto positivo: já conhecemos, pelo menos, o programa de Dilma Rousseff, resumido nesse decreto.

Ricardo Vélez Rodríguez é coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas da Universidade Federal de Juiz de Fora

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Jornal do Commercio (PE)

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Diário do Nordeste (CE)

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Planalto quer retirar aval a megadecreto

DEU EM O GLOBO

Sob pressão, o Planalto já estuda alterar o Programa Nacional de Direitos Humanos para esvaziar todas as propostas criticadas por militares, Igreja e outros setores.

Neste caso, Lula reeditará o decreto para que o programa deixe de ter o aval do governo.


Governo planeja esvaziar decreto

Ideia é reeditar texto de forma que o Planalto não se comprometa com as propostas

Gerson Camarotti e Cristiane Jungblut, BRASÍLIA

Para encerrar de vez com a polêmica sobre o Programa Nacional de Direitos Humanos, o Planalto estuda fazer uma pequena alteração no texto do decreto, mas que teria o poder de esvaziar o peso de todas as propostas que vêm sendo criticadas pelos mais variados setores. Lula planeja reeditar o decreto mudando o texto para que todas as medidas do programa deixem de ter o aval do governo. No novo texto, o decreto diria apenas que o presidente da República divulga a conclusão da Conferência de Direitos Humanos.

Ou seja, o governo deixaria de se comprometer com todas as propostas, e passaria a dizer que o texto é resultado de uma conferência.

Mas a proposta ainda não é consenso no governo e não foi bem recebida pelos petistas: — Um recuo deste tamanho seria um desgaste para o governo — comentou o líder do PT, deputado Cândido Vaccarezza (SP).

Após a decisão de recuar da defesa do aborto, o Planalto também deve retirar do texto o apoio ao projeto que estabelece a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Será uma forma de reduzir a forte reação da Igreja Católica.

O governo ainda estuda a possibilidade de excluir a proposta de impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos da União.

Ontem, o ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, interrompeu suas férias e retornou a Brasília. No início da noite, foi chamado para reunião na Presidência. O ministro da Defesa, Nelson Jobim, também foi convocado.

Os dois iriam acertar as mudanças para atender os militares. Lula não participou, mas marcou uma reunião com os dois para hoje, às 9h. As Forças Armadas não aprovam trecho que prevê a investigação de crimes cometidos por torturadores durante a ditadura.

O governo acha que é preciso encerrar a polêmica em torno do texto este mês, para evitar que o tema tome conta do Congresso em fevereiro. Segundo um assessor de Lula, criou-se uma polêmica desnecessária e agora é preciso diminuir os pontos de atrito. A prioridade do governo é pacificar a relação com Igreja e militares.

Embate com Igreja irrita o Planalto

Em relação ao embate com a Igreja, Lula acha que houve erro de avaliação do governo e não esconde sua contrariedade.

Argumenta que o Planalto não pode ter uma posição em defesa do aborto e da união civil de homossexuais.

Um assessor lembrou que quando a ex-deputada Marta Suplicy (PT-SP) apresentou esse projeto de lei, em 1996, a bancada petista ficou sem posição, pois havia rejeição à proposta de setores católicos dentro do PT.

Sobre os símbolos religiosos, apesar da defesa de Lula de um estado laico, o governo acha que o assunto deveria ter sido ignorado no texto do programa, pois criou um atrito desnecessário.

Ontem, em conversas reservadas, o arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, disse estar indignado com a posição do governo, e usou o argumento de que o Cristo Redentor é um símbolo do Brasil em todo o mundo.

Lula não deve recuar em relação à mídia. O texto defende a criação de “critérios de acompanhamento editorial a fim de criar um ranking nacional de veículos de comunicação comprometidos” com os direitos humanos. O governo deve sinalizar que não vai tratar o tema como prioritário. O mesmo deve ocorrer em relação ao setor agrário. A avaliação no Palácio é de que, independentemente da polêmica, os líderes da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) já fazem oposição ao governo. O programa propõe tornar obrigatória a presença de juiz ou representante do Ministério Público antes da desocupação de terras invadidas.

No Congresso, a ordem é não priorizar o debate do programa.