quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Lulinha é problema para Lula? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Investigações sobre filho do presidente, mesmo que avancem, não devem mudar muito panorama das pesquisas eleitorais

Revelação de conexão entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro não fez candidatura murchar, como deveria ocorrer em mundo racional

As investigações da PF contra Lulinha estão avançando. O Lulão deve se preocupar com isso? Um pouco. Seria obviamente preferível iniciar o período oficial de campanha sem carregar um filho contra o qual pesam suspeitas, mas é improvável que o cerco policial, mesmo que revele coisas mais concretas do que o que apareceu até aqui, mude muito o panorama eleitoral.

A melhor prova disso é Flávio Bolsonaro. O bolsonarismo saltou da insignificância para o Palácio do Planalto em 2018 como um movimento de reação à corrupção envolvendo o PT e outros partidos. Num mundo minimamente racional, a revelação de que o sucessor do capitão reformado e postulante à Presidência pediu e recebeu dezenas de milhões de reais de Daniel Vorcaro, a figura que hoje representa a quintessência da corrupção, faria sua candidatura murchar como um suflê fracassado. O que vimos, porém, é que o escândalo Dark Horse lhe custou num primeiro momento só quatro pontos percentuais no Datafolha.

E isso nos leva à polarização afetiva. Um dos vieses cognitivos responsáveis por esse fenômeno é a aversão a perdas. O eleitor tem tamanho pavor de ver o candidato que mais rejeita triunfar que aceita qualquer coisa daquele que identifica como alternativa com maior chance de derrotar o desafeto. Acaba funcionando como um amplo habeas corpus preventivo, que opera no sentido inverso ao da responsabilização política, um elemento valioso para a democracia.

E a responsabilização política não é a única vítima. Outro efeito daninho a que estamos assistindo é que os postulantes principais, acomodando-se ao papel de "eu sou aquele que vai evitar o mal maior", se sentem desobrigados de apresentar planos de governo. Nem Lula nem Flávio dirão claramente como pretendem enfrentar a encrenca fiscal em que o país se enredou.

O próprio sistema eleitoral sai chamuscado. Adotamos os dois turnos justamente para dar ao eleitor a oportunidade de votar "a favor" de alguém no primeiro escrutínio e guardar a rejeição para o segundo.

 

 

 

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