Folha de S. Paulo
Novo poder do Congresso explica apenas em
parte solidão partidária do candidato do PL
Parlamento-centrão começa a institucionalizar
novo modo de saque extrativista do Estado
O isolamento partidário de Flávio
Bolsonaro (PL) em parte confirma a
impressão de que a perda de poder do governo federal para o Congresso diminui a
relevância de alianças firmes com presidentes para o objetivo de dominar
dinheiros do Estado. É isso, mas não só. Vai além da eleição, é outra história.
O Congresso-centrão institucionaliza um outro
modo de extração de recursos estatais, em parte concatenada com crimes
diversos, corrupção entre eles. Emendas são parte disso. De modo legal ou
ilegal, servem para valorizar o capital político e o capital privado de
políticos (e de associados).
Note-se também o caso Vorcaro, o mais
explícito dos sintomas pornopolíticos do favorecimento empresarial extrativista
no Parlamento e de associação da política com fundos da finança bandida. É
ingenuidade chamar o aumento do poder do Congresso de "semiparlamentarismo",
mesmo de modo provisório.
Quanto à eleição, o mais importante, se diz do centrão ao direitão, é fazer bancadas grandes de modo a ter mais controle sobre emendas, fundos partidários e eleitorais e sobre poucos cargos ainda rendosos (em termos de dinheiro e prestígio) ou que facilitam negócios com empresas e finança.
Quase tão óbvias são as explicações do motivo
de o apoio a
Flávio Bolsonaro ameaçar a eleição de bancadas grandes. Há, por
exemplo, o risco de mais vexames eleitoralmente daninhos do candidato do PL.
Não se sabe também como o eleitorado vai reagir a Bolsonaro filho, que não foi
testado em eleição nacional.
De resto, não há
indício seguro de que Flávio Bolsonaro vá ganhar, ainda mais com margem folgada —mais
risco para o benefício ora mais limitado oferecido pelo Executivo. Em um
segundo turno, quando candidatos parlamentares já tiverem resolvido a vida,
Bolsonaro filho terá de pedinchar apoios, de qualquer modo.
O candidato do PL também ameaça acordos
regionais (mais lulistas ao norte, mais bolsonaristas ao sul do país), embora o
desalinhamento entre candidaturas a presidente e arranjos locais esteja longe
de ser novidade. Além do mais, como dizem deputados do centrão ao direitão,
Flávio não transfere votos como o fez Jair Bolsonaro nas eleições de
2016 a 2022. Bolsonaro filho também não serve para reforçar candidaturas porque
não é governo, não tem recursos da máquina à mão, como o pai em 2022. De resto, não
teria organização e habilidade para fazer acordos políticos.
O PL de Jair Bolsonaro se aliou oficialmente
a PP e a Republicanos em 2022. No segundo turno, a direita quase inteira
(centrão inclusive) o apoiou, embora a aliança do governo Bolsonaro com o
centrão tivesse sido tumultuada e de má vontade (o objetivo mesmo era algum
golpe).
Em vez do padrão vigente de 1994 a
2014, não houve
vontade mesmo do centrão mais centrista de embarcar em Lula 3 (houve
adesões pessoais). Um eleitorado mais dividido, quase metade antiesquerdista,
antipetista ou antilulista, dificultou barganhas em um Congresso direitista. Os
mesmos motivos do isolamento de Flávio Bolsonaro também pesaram, além do
desprezo de Lula 3 pela "frente ampla".
O isolamento partidário de Flávio e de Lula tem um tanto de circunstancial, pois, inclusive o fato de Lula e Bolsonaros criarem "polarizações". Mas parece acontecer mudança na política institucional, um sistema em mutação que ainda não entendemos direito, um sistema que é também um empecilho para reformas profundas (de "esquerda" ou de "direita").
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