Valor Econômico
Para dirigentes partidários governistas e de
oposição, há grandes chances de vingar o projeto bolsonarista de conquistar
mais da metade das cadeiras
A revelação de que o ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) recebeu repasses da lobista que está no centro do escândalo do INSS deu ao senador Flávio Bolsonaro a oportunidade de se reposicionar na disputa presidencial. O pré-candidato do PL reagiu e, horas depois de dizer que batalharia até o dia 15 para atrair o Centrão para a sua chapa, comunicou que anteciparia a definição de quem ocupará a sua Vice para esta quarta-feira (5). O vai e vem sobre o preenchimento da vaga já vinha, nos bastidores, antecipando alguns movimentos da disputa que ocorrerá em fevereiro pela presidência do Senado nos próximos dois anos.
A notícia envolvendo Marco Aurélio Santana
Ribeiro, o Marcola, não é nada trivial. É importante dizer que o ex-chefe de
gabinete de Lula sustenta ter tomado um empréstimo particular com a empresária
Roberta Luchsinger, que é amiga do filho do presidente, supostamente uma
operação legal, que inclusive já teria sido quitada. Mas o fato é que a notícia
deu novo fôlego à oposição e fragiliza um comitê petista que já vinha tendo
expostas algumas fraturas: a ala à qual pertence Marcola e o grupo da Bahia
travavam uma disputa pelos rumos e recursos na área de comunicação da campanha,
uma briga sobre a qual o presidente estava ciente há semanas.
Os desdobramentos do caso ainda são incertos,
assim como os efeitos da notícia nas próximas pesquisas de intenção de voto.
Mas a decisão de Flávio antecipar a divulgação sobre sua vaga de vice mostra
que, na oposição, o caso é visto como um possível ponto de inflexão capaz de
retirar a campanha da postura defensiva à qual estava submetida desde o
episódio “Dark Horse”. Também foram grandes as turbulências na condução da
estratégia de comunicação.
A prioridade de Flávio Bolsonaro sempre foi
tentar usar a Vice para ampliar seu tempo de propaganda de rádio e televisão,
além de reduzir sua rejeição junto ao eleitorado feminino. Tarefa
reconhecidamente complexa. Segundo recente pesquisa Datafolha, por exemplo, 50%
das entrevistadas disseram que votarão no presidente Lula em um eventual
segundo turno, ante 40% decididas a votar no senador. Ainda de acordo com o
levantamento, 50% das mulheres disseram que não votariam no filho do
ex-presidente Jair Bolsonaro de jeito nenhum no primeiro turno, enquanto 44% têm
a mesma postura em relação ao petista.
Dentro do PL, os nomes de mulheres que
chegaram a ser cotados ampliaram a divisão existente entre a ex-primeira-dama
Michelle Bolsonaro e a ala mais radical do bolsonarismo representada pelo
ex-deputado Eduardo Bolsonaro. Quando finalmente procurou a senadora Tereza
Cristina (PP-MS) para o posto, ela acabou não recebendo o aval do seu partido.
Mas, na prática, ela já tinha conseguido efetivar o movimento, que pode lhe
render frutos no tabuleiro do Senado em um futuro próximo.
Mesmo antes de ser procurada por Flávio para
tratar da Vice, Tereza já vinha dando sinalizações públicas de que estava
decidida a buscar a presidência do Senado no próximo biênio. A senadora nunca
escondeu o objetivo de ser a primeira mulher a presidir o Congresso.
Para dirigentes partidários governistas e de
oposição, há grandes chances de vingar o projeto bolsonarista de conquistar
mais da metade das cadeiras do Senado e, com isto, eleger o próximo presidente
da Casa. Esse plano prevê a vitória, em cada uma das 27 unidades da federação,
de pelo menos um candidato do próprio PL ou de um aliado fiel ao ex-presidente
Jair Bolsonaro, que esteja filiado a outro partido. Somados aos senadores em
meio de mandato, estes dariam à oposição os 41 votos necessários para indicar o
próximo chefe do Poder Legislativo.
Ao colocar-se à disposição de Flávio mesmo à
revelia do PP, Tereza Cristina se posiciona como uma aliada de confiança. Para
os partidos de centro, como o PSD, diante do inevitável, sua eleição seria mais
palatável do que a de um “bolsonarista raiz”.
Este nome poderia ser, aliás, o do senador
Rogério Marinho (PL-RN). Coordenador da campanha de Flávio e secretário-geral
do PL, o parlamentar também recebeu a missão de melhorar a pontuação do aliado
no Nordeste. Por outro lado, enfrentaria resistência dos senadores que
pretendem unir forças para prevenir iniciativas que alcancem os atuais
ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Nas legendas à esquerda, quem se coloca como
possível postulante é a ex-ministra Simone Tebet. Pré-candidata pelo PSB de São
Paulo, ela pretende voltar ao Senado e, em caso de reeleição do presidente
Lula, poderia viabilizar o seu plano de disputar novamente o comando da Casa ou
retornar à Esplanada dos Ministérios com mais força política.
Em 2021, ainda pelo MDB do Mato Grosso do
Sul, Tebet foi a primeira mulher concorrer ao posto. Abandonada pelo partido,
ainda assim recebeu 21 votos.
O atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre
(União-AP), está informado que sua permanência na cadeira no próximo biênio não
é tratada como o cenário preferencial tanto pelo governo quanto pela oposição.
Mas está decidido a batalhar para ficar, com os instrumentos que possui durante
o tempo de mandato que lhe resta. A expectativa é que sua estratégia possa
começar a ganhar formar a partir da próxima semana, com o retorno dos trabalhos
do Congresso após um recesso prolongado.

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