O Globo
Depois de negligenciar denúncias de desvios
no INSS, presidente vê desdobramentos das investigações atingirem filho e
assessor mais próximo
A proximidade do início para valer da
campanha eleitoral interrompeu a calmaria que vinha reinando no quartel-general
de Lula. O fantasma da corrupção, que já havia reaparecido com o caso Master,
ganhou contornos mais assustadores com a entrada do assessor mais próximo ao
presidente nas investigações.
Marco Aurélio Santana Ribeiro, que nunca viu problema em ser conhecido nacionalmente pela alcunha de Marcola, recebeu dinheiro de uma lobista que vem a ser amiga próxima de Lulinha, o filho do presidente conhecido de outros carnavais e casos rumorosos. A explicação dada por ele diante da eclosão do assunto — de que Lula e seu entorno já tinham conhecimento há alguns meses — é um clássico em casos do tipo: ele afirmou ter contraído um empréstimo junto a Roberta Luchsinger, a amiga de Lulinha, e pagado depois, tudo sem contrato.
Por que um servidor graduado recorre a um
arranjo informal com uma personagem que já transitava por órgãos públicos em
busca de acesso e de fechar negócios com o governo, ninguém explicou até aqui.
É incrível que, depois de casos como mensalão, aloprados e petrolão, ainda que
a Lava-Jato tenha sido desmontada depois, ninguém tenha se preocupado
minimamente em criar um cordão sanitário no entorno mais próximo ao presidente
no terceiro mandato de Lula.
Na campanha, Lula ensaiou o reconhecimento
público de que algumas práticas de seus mandatos anteriores foram reprováveis e
prometeu uma transparência que nunca chegou a entregar depois de vencer a
eleição, mesmo em questões prosaicas, como o acesso a dados relativos a gastos
dos palácios ou à agenda de autoridades.
A revogação da prática de sigilos abusivos
adotados por Jair Bolsonaro em seus quatro anos também ficou na prancheta das
promessas, e não foram poucas as vezes em que a gestão petista recorreu ao
mesmo expediente que o Lula candidato rechaçava com veemência.
É impossível não detectar arrogância na
maneira como o presidente e seu entorno mais próximo negligenciaram as
denúncias de desvio de recursos no INSS, algo que obviamente tem alto poder
corrosivo numa campanha eleitoral, dada a facilidade com que todas as faixas do
eleitorado compreendem do que se trata algo tão grave como desvio de recursos
de aposentadorias e pensões.
Se esse esquema envolve um filho do
presidente, também ele já notório pela desenvoltura com que fez negócios com
empresas com interesses no governo nos mandatos anteriores do pai, seria um
motivo a mais para tomar providências internas.
Quando isso vai além, e esse ecossistema de
lobby não só consegue acesso, como dá dinheiro ao braço direito do presidente,
qual a providência? Tirá-lo do Planalto, mas não para afastá-lo ao menos
preventivamente de toda e qualquer proximidade com Lula. Marcola ganhou assento
na coordenação da campanha, o que não o tira do olho do furacão ao menos até
que suas relações com Roberta sejam total e devidamente esclarecidas.
Com as novas revelações do caso do INSS e sua
bifurcação em outros inquéritos, com extensão ainda desconhecida, Lula pode
perder a vantagem obtida pelas sucessivas crises que abalaram a campanha de
Flávio Bolsonaro desde que veio à tona seu pedido de milhões de dólares a
Daniel Vorcaro, o controlador do Banco Master, para bancar a cinebiografia do
pai.
O favoritismo recuperado nas pesquisas e
outro fator secundário, mas revelador da pororoca de problemas dos Bolsonaros,
a percepção no mercado e no setor produtivo de que o filho do ex-presidente era
instável e foco permanente de confusão, se dissipam com a volta do entendimento
de que o PT vira e mexe se vê às voltas com casos em que há sinais de
corrupção.
Esse tema se soma, assim, àqueles que já se
mostram centrais na campanha de 2026, como a crescente intromissão do governo
norte-americano no pleito brasileiro. Com a nova agressão de Donald Trump, na
forma da cassação do visto da embaixadora brasileira em Washington, o Planalto
tentará virar a página do caso Lulinha-Marcola e martelar apenas na tecla da
defesa da soberania nacional.
Fica mais difícil, ainda mais diante de uma
máxima muito conhecida em Brasília em momentos como este: é impossível prever
os próximos capítulos de casos com muitos braços que estão nas mãos de órgãos
como a Polícia Federal e o Ministério Público, sob o comando de um STF cada vez
mais dividido politicamente.

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