quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Fingindo-se de morto, por Fábio Alves

O Estado de S. Paulo

O melhor que o Copom tem a fazer hoje é divulgar comunicado enxuto, sem dar margem a polêmicas

A principal missão do Banco Central ao fim da reunião de hoje do Copom será evitar causar – a todo custo – os ruídos da última decisão, quando os argumentos para justificar o corte da taxa Selic pegaram os analistas de surpresa e suscitaram até questionamentos à sua credibilidade. Agora, o melhor é o Copom se fingir de morto e soltar um comunicado enxuto, sem dar margem a polêmicas.

Em junho, o Copom postergou o horizonte relevante da política monetária do quarto trimestre de 2027 para o primeiro trimestre de 2028, no qual a sua projeção de inflação (de 3,2%) permitia uma redução de juros. Esse movimento foi criticado por enfraquecer o horizonte relevante como uma ferramenta importante na ancoragem de expectativas. No quarto trimestre de 2027, a projeção de inflação do Copom, de 3,7%, não endossava o corte. O BC até tentou minimizar as críticas, dizendo que a decisão foi para evitar um “sobe e desce” da Selic, mas o mercado viu isso como um gol de mão.

De lá para cá, os ventos sopraram a favor do Copom: os últimos índices de inflação vieram abaixo das estimativas dos analistas, com um alívio nos preços dos alimentos; o preço do petróleo recuou em relação aos picos observados na guerra do Irã; e o dólar segue praticamente no mesmo patamar da decisão de junho.

Sem falar que, nesta reunião de agosto, o horizonte relevante passou a ser, de fato, o primeiro trimestre de 2028, quando a projeção de inflação do Copom pode até cair levemente.

Mas ainda: para a decisão de hoje, a esmagadora maioria dos investidores aposta no corte de 0,25 ponto porcentual dos juros, para 14%. Desta vez, o Copom tem a bênção do mercado para reduzir mais os juros. Aliás, o comunicado que acompanhará a decisão poderá até deixar a porta aberta para um corte adicional de 0,25 ponto na reunião seguinte, de setembro, uma vez que as próximas duas leituras de inflação devem vir bastante favoráveis, embora por motivos sazonais ou temporários. O mercado prevê uma alta de 0,2% do IPCA de julho e uma deflação de 0,15% para agosto, quando o bônus de Itaipu reduzirá a conta de luz.

Se o Copom seguir esse roteiro, o mercado não o punirá por isso, em razão do ambiente favorável no curtíssimo prazo. Mas seria isso prudente? As projeções de inflação do mercado em 2027 (de 4,22%) e em 2028 (de 3,80%) seguem pressionadas. Ou seja, a escolha do Copom é cortar juros com a expectativa inflacionária em alta para um horizonte relevante. Nada disso inspira um compromisso firme em trazer a inflação à meta de 3% ao longo do tempo.

 

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