Folha de S. Paulo
Ao entregar palco ao argentino, candidato
agradou aos convertidos e pode ter afastado eleitores de que precisa
Convidado do PL proclamou a liberdade no
Brasil e voltou ao seu país para policiar mensagens de torcedores
Talvez Flávio
Bolsonaro ainda não tenha calculado o tamanho do erro cometido na
largada de sua campanha. Para devolver à base bolsonarista o prazer de
ouvir Lula e Alexandre
de Moraes sendo xingados, trouxe a São Paulo Javier Milei,
entregou-lhe o palco da convenção do PL e deixou que o argentino fizesse o
serviço.
Milei
chamou o presidente da República de ladrão e presidiário e tratou um
ministro do Supremo como "lixo careca". A plateia vibrou. Resta saber
quem, além dela, foi conquistado.
A eleição presidencial tem tudo para ser um campeonato de rejeição, vencido não pelo candidato mais amado, mas por quem provocar menos aversão. Flávio e Lula lideram a lista daqueles em quem os eleitores afirmam que não votariam de jeito nenhum.
Numa disputa assim, a tarefa não é
entusiasmar quem já lhe pertence, mas deixar de assustar quem ainda poderia
aceitá-lo. Ou, dito de maneira mais crua, trata-se de diminuir o contingente
dos que tapam o nariz para votar em alguém de que não gostam apenas porque têm
verdadeiro horror ao seu concorrente.
Foi justamente nesse terreno que Flávio
resolveu pisar com os dois pés. Para o núcleo duro do bolsonarismo,
Milei ofereceu uma noite de catarse. Depois de anos de cautelas jurídicas e
discursos defensivos, alguém voltou a um grande palco da direita para
esculhambar Lula e Moraes com a desinibição dos velhos tempos.
O problema é que a base que se divertiu já
estava com Flávio. Os votos de que ele precisa estão entre os que podem até não
ter simpatia por Lula nem confiança no Supremo, mas consideram, no mínimo, de
mau gosto que um presidente argentino venha ao país insultar autoridades
brasileiras durante o lançamento de uma candidatura. Um patriota
como Flávio devia entender mais de nacionalismo.
Parte desse eleitorado censura Lula, com
razão, quando ele indica e apoia favoritos em eleições alheias. Não é fácil
convencê-lo de que a intromissão deixa de ser imprópria quando o visitante é de
direita, o candidato favorecido é Bolsonaro e
os insultos agradam à plateia.
E, convenhamos, não é um bom momento para um
candidato presidencial brasileiro ser visto de mãos dadas com Milei. Flávio não
trouxe apenas o histrionismo do argentino, mas o personagem inteiro, com suas
crises, sua rejeição e suas contradições.
Poucos dias depois de proclamar a liberdade
em São Paulo, o líder que transformou em marca registrada e em assinatura
institucional o grito de guerra "viva
la libertad, carajo" assinou um decreto que autoriza o Estado
argentino a impedir a entrada ou cancelar a residência de estrangeiros que
dirijam "mensagens de ódio" contra argentinos por causa de sua
nacionalidade, incitem violência ou ultrajem símbolos nacionais. Trata-se,
claro, do velho "discurso de ódio" da esquerda, com outra roupa.
O contexto torna o destinatário político
pouco misterioso: os brasileiros são um alvo. Depois da Copa, deu-se, de fato,
o "cancelamento" internacional da Argentina nas redes sociais. Ele
começou com a exibição do mau
comportamento dos jogadores da seleção e do racismo
da torcida, mas acabou contaminando a imagem do próprio país.
Nas cordas diante da opinião pública, Milei
se aproveitou da ressaca nacional com a derrota da seleção para aderir à tese
de uma conspiração geopolítica dirigida contra a Argentina, que teria os
brasileiros como protagonistas.
Declarou que "o lugar de onde vieram
mais ataques foi o Brasil" e acusou os governos do Brasil e do México e o
Partido Democrata americano de financiarem uma campanha mundial contra seu
país. Nada foi demonstrado, mas pouco importa.
Então veio o decreto —e vimos o mais
libertário dos líderes mundiais da extrema direita contradizer o núcleo do que
propagava. Num texto digno dos identitários progressistas, a identidade
coletiva nacional é declarada vítima de mensagens de ódio e o braço forte do
Estado é convocado a policiar posts.
O presidente que atravessa fronteiras para
insultar chefes de Estado ergue uma fronteira contra estrangeiros que insultem
seu país ou o acusem de racismo. ¿Y dónde quedó la libertad, carajo?
Flávio imaginou que Milei lhe emprestaria
ousadia, projeção internacional e a energia transgressora de que o bolsonarismo
tem saudade. Pode ter importado, junto com isso, a indisposição dos brasileiros
com quem vem de fora insultar suas autoridades e a contradição de um libertário
que, incapaz de suportar as gozações após a derrota no campo e nas redes,
recorre ao braço forte do Estado para punir torcedores. Não parece uma largada
muito auspiciosa.

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