terça-feira, 18 de junho de 2013

No alvo, os palácios - Eliane Cantanhêde

As vaias à presidente Dilma Rousseff na estreia do Brasil na Copa das Confederações têm de ser relativizadas. Além de o público do estádio Mané Garrincha não representar a maioria do eleitorado brasileiro, a verdade é que, mais cedo ou mais tarde, todo governante é vaiado. Nem o popularíssimo Lula escapou --aliás, em circunstâncias semelhantes, no Pan de 2007.

Mais preocupante para Dilma é o contexto em que ocorrem as vaias. Inflação e juros sobem, popularidade cai. O pibinho frustra, a insegurança aumenta. Dólar dispara, Bolsas caem. Base aliada inflada, mais problemas para o Planalto. E o principal: os protestos populares ganharam o país e são mostrados ao mundo.

É óbvio que R$ 0,20 a mais nas passagens em São Paulo não seria suficiente para botar o povo nas ruas do país, em multidões cada vez maiores, com imagens impressionantes. Esse foi apenas o detonador, o gatilho de manifestações de grupos distintos e de motivações difusas.

Também é certo que o alvo não é Dilma Rousseff, ou, pelo menos, só o governo Dilma Rousseff. São muitos os motivos de irritação, são muitos os alvos. E eles estão nos palácios.

Os palácios dos governos estaduais, como o de Geraldo Alckmin, tucano, os das prefeituras, como a de Fernando Haddad, petista. E os de todos os níveis do Legislativo e do Judiciário. A previsão do ministro Dias Toffoli de que o julgamento do mensalão possa durar mais dois anos pode ter sido até uma pitada a mais nesse tempero, nesse caldeirão.

Com o pretexto ora do aumento das passagens, ora dos gastos milionários com estádios da Copa, o fato é que as redes sociais mostram sua força também aqui e os brasileiros estão dando um recado. Que Dilma releve as vaias restritas, mas saiba ouvir os gritos disseminados. E, como ela, governadores, prefeitos, parlamentares e magistrados.

A fantasia de que o país está um paraíso, uma maravilha, acabou. A verdade dói, mas ajuda a melhorar.

Fonte: Folha de S. Paulo

Caravela do PSDB parte em clima junino - Raymundo Costa

Num momento de desconforto para o governo, o PSDB abre hoje, na Câmara dos Deputados, uma exposição comemorativa de seus 25 anos de fundação, 19 anos do Plano Real e 82 anos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Na sequência, o senador Aécio Neves dá a partida nas viagens que pretende fazer aos Estados na condição de pré-candidato do PSDB a presidente da República, em 2014.

Como previsto, Aécio começará o périplo pelo Nordeste, região fundamental nos planos de reeleição da presidente Dilma Rousseff. O cenário das festas juninas de Caruaru (PE) e Campina Grande (PB) servem de pano de fundo da tentativa do senador mineiro para consolidar, de uma vez por todas, sua indicação pelo PSDB. A festa de hoje é importante para o plano de voo de Aécio, mas também parece fora de foco olhada pelo visor das ruas tomadas pelas manifestações de ontem.

Uma coisa era dado como certa no PSDB, antes da ocupação das ruas: o centro da campanha de Aécio, vencidas etapas preliminares, não deveria ser o PT. Após três derrotas sucessivas, o PSDB parecia compenetrado de que, para vencer as eleições, teria que tirar votos do eleitorado que está do outro lado. Enquanto isso, seria vantagem para o tucano, que precisa se tornar mais e mais conhecido, terçar armas com a presidente da República, como ocorre quando os dois se utilizam do Velho do Restelo, personagem de Camões símbolo do pessimismo, para criticar as atitudes de PT e PSDB quando na oposição.

Aécio aposta em campanha capaz de ampliar eleitorado

Mas Aécio, tão perplexo quanto aparentemente o governo que combate, não resistiu à tentação de surfar na onda. "Os protestos devem ser compreendidos antes de rotulados", escreveu o candidato em sua página no Facebook. "Vivemos num mundo novo e as redes sociais permitem um inédito compartilhamento de ideias e sentimentos".

O tucano escorregou ao tentar sentar no banco do carona dos manifestantes: "É nítida a existência de um forte sentimento de insatisfação, especialmente entre os jovens, e que, ainda que de forma difusa, ganha as ruas e precisa ser respeitado".

Segundo Aécio Neves, "são brasileiros de diversas partes do país se mobilizando, entre outras questões, contra o aumento de passagens, contra a baixa qualidade dos serviços públicos, de transporte, de saúde e de educação, contra os desvios éticos na política e contra a pressão exercida pelo aumento do custo de vida", escreveu. "São brasileiros que enviam um recado à sociedade, em especial, aos governantes, e que precisam ser escutados".

Ao se solidarizar com os manifestantes, Aécio desviou do plano de voo original. Hoje, além de Fernando Henrique Cardoso, cuja história de governo Aécio se diz empenhado em resgatar, o anfitrião aguarda a presença de José Serra e seus aliados no partido. É fundamental para o pré-candidato demonstrar que pode ser o ponto de convergência partidária. As pesquisas de opinião divulgadas mais recentemente ajudaram o senador nesta empreitada - na pesquisa CNT/MDA, Aécio já apareceu à frente de Marina Silva (Rede Sustentabilidade). E entre os eleitores que conhecem os eventuais candidatos, o segundo turno já aparece em perspectiva.

Aécio quer alcançar rapidamente o patamar do PSDB em eleições passadas. Com 14% medidos pelo Datafolha, o senador está mais ou menos com o que tinha Geraldo Alckmin em junho de 2005, quando o cenário da candidatura do PSDB ainda não estava tão nítido como agora (outros nomes como os de Serra e de FHC eram sondados pelos institutos de opinião também). A expectativa de poder é combustível para a candidatura do PSDB.

Aparentemente, o desempenho de Aécio é normal e o programa partidário na televisão não serviu para turbinar sua candidatura, embora seja muito comemorado na direção partidária. Hoje começam as inserções do PSDB de São Paulo no rádio e na televisão, com a participação de Aécio Neves defendendo a criticada política de segurança pública do governador do Estado, Geraldo Alckmin.

Aécio precisa "fechar" logo o PSDB, para dar curso às conversas com os outros partidos. Nesse sentido, as últimas pesquisas foram um elixir para o presidente do PSDB, ao mostrar queda da popularidade da presidente Dilma Rousseff e o crescimento das intenções de votos no tucano.

Na incursão ao Nordeste, Aécio deve almoçar com o governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos. No momento, os dois estão aliados na tese segundo a qual as três candidaturas em oposição à presidente Dilma Rousseff (Aécio, Eduardo e Marina) aumentam as chances de segundo turno.

Aliado à esta altura, o governador Eduardo Campos também é uma ameaça para Aécio. Na última semana, diante da investida do PSB sobre Márcio Lacerda, para a montagem de um palanque para Eduardo em Minas, o tucano convidou o prefeito de Belo Horizonte para se filiar ao PSDB.

Desatar o nó da sucessão de Antonio Anastasia no governo de Minas Gerais é um desafio que melhor seria para Aécio adiar, enquanto se consolida dentro do eleitorado do PSDB, mas que insiste em mostrar sua urgência: o sucesso de sua candidatura a presidente pode alavancar qualquer nome à sucessão estadual. Lógica que vale também para Dilma e o provável candidato do PT em Minas Gerais, o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior).

Antes de ir ao interior de São Paulo, outra prioridade do pré-candidato junto com a viagem ao Nordeste, Aécio fará outra escala junina: a convite do prefeito de Manaus, Artur Virgílio, vai à festa do boi de Parintins (AM).

O; PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva esperam para ver o que o vice-governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando de Souza, o Pezão, tem para mostrar e só então liberar a candidatura do senador Lindbergh Farias a governador do Rio. Lindberg deve hibernar até o ponto, segundo se avalia no PT, em que ficar claro que a candidatura do PMDB não decolou.

Fonte: Valor Econômico

PPS adia até agosto criação de nova sigla de oposição

Anunciada em abril, montagem da MD (Mobilização Democrática) está parada

Possibilidade de que Congresso aprove lei que inibe os novos partidos é um dos motivos para o recuo

Daniela Lima

SÃO PAULO - Em meio à insegurança jurídica em torno das normas que valerão para a criação de partidos no Brasil, líderes do PPS assumiram que irão adiar pelo menos até agosto a criação da MD (Mobilização Democrática), partido que nasceria a partir de uma fusão com o PMN.

A fundação da nova sigla foi anunciada em abril e, em seguida, formalizada em cartório. Na ocasião, os idealizadores da legenda calcularam que ela pudesse atrair até 30 deputados (hoje, somados, PPS e PMN têm 13 deputados federais) que viessem a engrossar as fileiras de uma "terceira via" na eleição presidencial de 2014.

De lá para cá, no entanto, as mobilizações em torno da formalização da MD arrefeceram e seus entusiastas passaram a ser mais econômicos nas previsões de adesões.

Ainda assim, a direção do PPS nega que a tese da fusão tenha perdido força no partido. "Nossa decisão está mantida. Não houve nenhum recuo", afirma o deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP).

Dois fatores contribuíram para o adiamento da formalização da MD: a tramitação de um projeto de lei no Congresso que inibe a criação de partidos e o questionamento, feito por opositores da fusão, se uma legenda nascida da junção de duas siglas que já existem pode ser considerada como "nova".

Hoje, a legislação permite a migração de políticos para novos partidos sem risco de cassação do mandato por infidelidade partidária desde que a mudança ocorra até 30 dias após a formalização da criação da sigla no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

A intenção dos que afirmam que a MD não pode ser considerada uma nova sigla por nascer de uma fusão --tese alimentada principalmente por caciques do PSD e do DEM-- é colocar em suspeição a validade da janela na lei da fidelidade partidária para aqueles que queiram trocar seus partidos pela agremiação.

A insegurança sobre esses dois temas fez com que os articuladores da MD paralisassem seu processo de formalização. "Estamos aguardando o posicionamento dos ministros do TSE sobre o nosso entendimento de que uma fusão dá origem a um partido novo", disse Jardim.

Segundo ele, o PPS calcula que a resposta da Justiça saia até agosto. "A lei nos dá 30 dias para novas filiações. Vamos abrir o prazo no momento mais favorável."

Além dos empecilhos jurídicos, as articulações políticas também desaceleraram os idealizadores da MD. Havia expectativa de que o ex-governador José Serra, convidado a ir para a nova sigla, anunciasse posição até maio, o que não ocorreu. Hoje no PSDB, Serra poderia atrair aliados do tucanato para a nova sigla.

Havia ainda uma expectativa de que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), atuasse para atrair apoios à MD --a sigla surgiu com a inclinação de apoiá-lo--, caso seja candidato à Presidência, em 2014. Mas, por quase todo o mês passado, Campos, que vinha num ritmo forte de articulação política, submergiu.

Fonte: Folha de S. Paulo

Atritos regionais ameaçam aliança PT-PMDB

Estados com tendência antipetista terão mais peso em convenção peemedebista em 2014

Felipe Bächtold

PORTO ALEGRE - Estremecida por atritos no Congresso, a relação PT-PMDB enfrentará outro obstáculo para ser renovada na eleição presidencial de 2014: o peso desproporcional de alguns Estados na convenção peemedebista que definirá o rumo do partido.

Pelo estatuto da sigla, a quantidade de delegados de cada Estado nas convenções depende do desempenho na eleição anterior para a Câmara. Isso dá grande força interna a diretórios situados fora do centro político nacional.

Seis dos sete Estados com mais peso na convenção estão com situação indefinida ou têm tendência antipetista.

O Rio de Janeiro, onde o PT ensaia candidatura própria e rompimento com o governador Sérgio Cabral (PMDB), responde por 10% dos 739 votos da convenção nacional do PMDB de 2014.

Santa Catarina terá 32 delegados na votação peemedebista, mais do que o dobro de São Paulo, Estado do fiador da aliança, Michel Temer, vice-presidente da República.

Disputas regionais podem levar grupos inteiros de delegados a votar contra a reedição da aliança na sucessão presidencial.

O presidente do PMDB da Bahia, Geddel Vieira Lima, diz que a decisão passa obrigatoriamente por uma solução de atritos. Mas afirma que ainda falta tempo até junho de 2014, data da votação que definirá o rumo da sigla.

Geddel, rompido com o PT baiano há quase cinco anos, pretende ser candidato ao governo contra o grupo do governador Jaques Wagner (PT).

Em alguns Estados, a falta de afinidade entre PMDB e PT também pode ser um complicador. No Rio Grande do Sul, também no grupo dos diretórios "fortes" na convenção, os dois partidos são rivais históricos. O PMDB local apoia o PSDB em eleições presidenciais desde a década de 90.

O PMDB do Paraná também tem uma ala simpática aos tucanos e vive em clima conflagrado, com a dissolução de dezenas de diretórios municipais pela direção estadual em junho. A medida foi vista no partido como ofensiva do grupo próximo ao governador tucano Beto Richa.

Também há dificuldades de entendimento no Nordeste, como no Ceará, em Pernambuco e no Maranhão.

Sem alternativa

Um contrapeso para o PT pode ser a força do PMDB de Minas no diretório nacional. O Estado é o segundo com mais delegados, atrás apenas do Rio, e a relação ganhou fôlego com a indicação, em março, do peemedebista mineiro Antônio Andrade para o Ministério da Agricultura.

Integrante da Executiva nacional do PMDB, o deputado federal Mauro Mariani (SC) diz que, mesmo com as rusgas nos Estados, ainda não há movimento dentro do partido de defesa de outra candidatura que não seja a de Dilma Rousseff.

Fonte: Folha de S. Paulo

Protesto é resposta à tecnocracia, diz o filósofo da Unicamp e do Cebrap Marcos Nobre

Por: Cristian Klein

SÃO PAULO - Entusiasmado com os protestos que eclodiram nas últimas semanas e tiveram seu auge ontem, o filósofo da Unicamp e do Cebrap Marcos Nobre afirma que as manifestações populares são a prova que esperava desde 2009 para sustentar seu argumento de que alguma resposta haveria de ter à geleia geral do sistema político que ele denomina de pemedebismo. Para Nobre, os protestos representam uma recusa de a sociedade aceitar a blindagem do sistema político que represa o avanço de forças de transformação cuja origem vem desde meados da década de 1980, com a Constituinte. Em sua opinião, o PT, que era o depositário da energia dessas transformações, passou por um processo de tecnocratização, afastando-se e frustrando as expectativas de movimentos históricos. O marco teria ocorrido em 2009 quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu em defesa do então presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), no escândalo dos atos secretos, afirmando não se tratar de um cidadão comum. Lula teria convencido parte da sociedade de que um pacto com o atraso era necessário e que este era o ritmo máximo de diminuição da desigualdade e de aprofundamento da democracia que se poderia atingir.

A seguir, os principais trechos da entrevista ao Valor:

Valor: Qual é o significado destas manifestações?

Marcos Nobre: Esse movimento é justamente um movimento antipemedebista, contra esse fechamento em si mesmo do sistema, essa blindagem contra as energias vitais, democráticas da sociedade. E é um sinal de que a democracia brasileira está viva, está atuante. E que esse pretenso consenso de como se deve caminhar, sobre o ritmo e a velocidade da diminuição da desigualdade e do aprofundamento da democracia, não é um consenso. Toda a abertura inicial do governo Lula à participação, à deliberação, pouco a pouco foi se fechando numa nova maneira tecnocrática de gestão. Isso tem muito a ver com a ida do [marqueteiro] João Santana, que deu uma organização publicitária ao governo, e a própria escolha da Dilma como candidata.

Valor: Quais são as consequências?

Nobre: Das duas uma: ou o sistema político se abre e se reforma radicalmente ou vamos ter cada vez mais a oposição de um sistema político que roda em falso, fechado nele mesmo, e uma sociedade que vai protestar contra essa democracia de baixo teor democrático.

Valor: Mas o sistema brasileiro, com modelo de votação proporcional e nominal, não é plural, fragmentado e bem menos fechado que outros que tem lógica bipartidária e sistema de lista fechada?

Nobre: O brasileiro é tão fechado quanto. Tem outro modo de operar. Temos o presidencialismo de coalizão - que é outra expressão que acho lamentável, porque o que acontece no Brasil é um condomínio pemedebista, muito diferente de uma coalizão de partidos. Essa cultura política do pemedebismo é muito mais impenetrável ainda que a de sistemas como Espanha ou França. Esse sistema é impermeável porque ele é dotado de uma cultura política, de um modo de funcionamento feito para excluir, para travar mudanças profundas. Ele é construído dessa maneira. Por isso, essas forças de contestação são forçadas a se voltar contra o próprio sistema político. Não tem alternativa dentro do sistema tal como ele funciona hoje. Pensando em um partido determinado, por onde esse protesto poderia entrar?

Valor: O PSOL surgiu como opção à esquerda do PT. Mas para conquistar a primeira prefeitura de capital (Macapá) teve apoio da direita. No Brasil, ocorreria o oposto do previsto pelo cientista político Giovanni Sartori, em vez da contaminação dos partidos grandes pela ideologia dos pequenos, estes é que imitam o pragmatismo dos grandes?

Nobre: O caso de Macapá é exatamente o exemplo que eu ia dar. Acontece que Sartori está escrevendo no pós-Maio de 1968. Isso faz uma diferença bárbara. Porque Maio de 68 resultou numa mudança radical de cultura política nas democracias avançadas. O Estado de bem-estar social, na formulação que estava na época, transformava as pessoas em clientes, em objetos de política pública. E o trade-off era mais ou menos o seguinte: a sua pensão e os seus remédios estão ali direitinho, você vai receber em dia, ao mesmo tempo você é tornado um cidadão passivo. Então, todos os movimentos estavam querendo dizer: eu não sou um cliente, eu sou cidadão. E um cidadão participa da democracia na rua. Sem isso, não teríamos essa visão de democracia que temos hoje, que não se restringe ao regime político. Democracia não é regime político. É uma forma de vida, é cultura política, não é um regime político. Sartori escreve quando já existe essa mudança, os movimentos sociais já estão todos ali. É diferente da nossa situação. Experimentamos blindagem neoliberal, que veio até a crise de 2008, que é a blindagem que os movimentos da Europa querem romper. O neoliberalismo no Brasil tem elemento diferente, que é o pemedebismo.

Valor: O que marca o pemedebismo?

Nobre: Não tem um sistema organizado em oposição e situação. É um sistema em que todo mundo está dentro do governo. E que oposição e situação se organizam dentro do próprio governo. Ninguém está fora dele. A oposição formal, ou virtual, a única coisa que faz é esperar a economia dar errado para ver se o poder cai no colo dela. E não aposta justamente nisso em que apostam os movimentos. O [governador de São Paulo Geraldo] Alckmin está tão atônito quanto o [prefeito Fernando] Haddad. Porque para eles a economia determina tudo. Acontece que a economia não determina tudo. Em Maio 1968, se estava no auge, no pico de distribuição de renda, pró-salários. Estamos num momento em que a economia não está resplandecendo, mas o desemprego está baixo, a renda continua aumentando um pouco, e é quando explodem as coisas.

Valor: Não é um protesto sobre os 20 centavos?

Nobre: Também. Mas eles recorreram à Constituição para fundamentar a reivindicação do Movimento Passe Livre. Basta uma pessoa andar em qualquer transporte público, em qualquer cidade brasileira, para ficar horrorizado. O protesto é sobre isso. Mas não é por acaso que ele canalizou todas as forças de insatisfação.

Valor: E por que a área de transporte levou a essa mobilização?

Nobre: A insatisfação pode começar num bandejão de uma universidade e virar Maio de 1968. O estopim é imprevisível. É a vitalidade da democracia. Representa o susto da ordem.

Valor: Em que medida os protestos refletem a contradição de camadas da população que ganharam poder de consumo mas que continuam a receber serviços públicos de baixa qualidade?

Nobre: É um fator, desde que não seja o fator. Porque de novo aí as pessoas vão tentar explicar tudo pela economia. Diminuir a desigualdade é avançar a democracia, só que você não pode fazer uma troca de menos desigualdade, mas eu aceito ficar com o mesmo grau de liberdade. As duas coisas têm que vir juntas.

Valor: A causa não seria a perda do controle das ruas pelo PT?

Nobre: Primeiro, sou contra essa ideia de cooptação simplesmente. Houve um convencimento durante o governo Lula da parte organizada da sociedade - sindicatos, ONGs, associações de lutas por direitos. Nenhum partido controla um movimento social autêntico. Outra metáfora que eu detesto é a da fadiga de material. Estamos falando de política e não de construção civil. Não tem nada a ver com o governo estar há muito tempo no poder. Trata-se da maneira pela qual se mantém no poder. É o processo de tecnocratização.

Valor: É um movimento de classe média?

Nobre: Não. Esse é outro dos muitos mitos que envolvem os protestos. É um mito que eles pertencem à classe média alta, às redes sociais ou que expressariam um fenômeno natural de inconformismo da juventude.

Valor: Que relação há entre os protestos no Brasil e no exterior?

Nobre: Vamos distinguir o que é Primavera Árabe do que é Turquia e Brasil. Não se pode confundir protestos em geral numa democracia e protestos em ditaduras.

Fonte: Valor Econômico

"PASSE LIVRE" VALE MAIS - Arnaldo Jabor

"Eu sou um cão imperialista; eu sou o verme dos arrozais"! - assim começava a autocrítica de um alto dirigente chinês, creio que Peng Dehuai, por ousar criticar a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, que exterminou milhares de inocentes.

Talvez eu seja mesmo um "cão imperialista" porque, outro dia, eu errei. Sim. Errei na avaliação do primeiro dia das manifestações contra o aumento das passagens em SP. Falei na TV sobre o que me pareceu um bando de irresponsáveis pequenos burgueses fazendo provocações por 20 centavos. Era muito mais que isso, apesar de parecer assim. Pois eu, "lacaio da direita fascista", fiz um erro de avaliação.

Este movimento que começou outro dia tinha toda a cara de anarquismo inútil. E (quem acredita?), critiquei-o porque temia que tanta energia fosse gasta em bobagens, quando há graves problemas a enfrentar no Brasil. Eu falei em "ausência de causas", em "revolta sem rumo".

Mas, a partir de quinta-feira, com a violência maior da polícia, ficou claro que o movimento expressava uma inquietação que tardara muito no país pois, logo que eu comecei a escrever em 1992 (quando muitos manifestantes estavam nascendo), faltava o retorno de algo como os "caras pintadas" - os jovens derrubaram um presidente.

Mas, não falo por justificar-me. Erros se explicam mas não se justificam, como diziam no serviço militar. Portanto, errei.

Mas agora peço atenção (e uma pausa nos esculachos contra mim) aos jovens que me leem, para algumas linhas sobre este fenômeno que surgiu nas redes sociais e em milhares de "sacos cheios" por tanta paralisia política no Brasil e no mundo.

Hoje eu acho que o movimento Passe Livre expandiu-se como uma força política original, até mais rica do que os "caras pintadas", justamente porque não tem um rumo, um objetivo certo a priori. Assim, começaram vários fatos novos em países árabes, na Europa e USA. E volto a dizer que essa ausência de rumos é muito dinâmica e mutante. Como cantou Cazuza: "As ideias não correspondem mais aos fatos", que são hoje muito mais complexos do que as interpretações que eram disponíveis, entre progressistas e reacionários.

Como bem escreveu Carlos Diegues: "O movimento é importante porque talvez o mundo tenha perdido a esperança em mudanças radicais. Talvez porque a "revolução" tenha perdido prestígio para a mobilidade social. Talvez por não nos sentirmos mais representados por nenhuma força política (...) os jovens do Movimento Passe Livre trazem agora para Rio de Janeiro e São Paulo e outros estados esse novo estilo de contestação, típico do século XXI - uma contestação pontual, sem propriamente projeto de nação ou de sociedade." É isso.

Não vivemos diante de "acontecimentos", mas só de incertezas, de "não acontecimentos". Na mídia, só vemos narrativas de fracassos, de impunidades, de "quase vitórias", de derrotas diante do Mal, do bruto e do escroto.

O mundo está em crise de representatividade. Essa perplexidade provoca a busca de novos procedimentos, de novas ideologias, de uma análise mais cética diante de velhas certezas. E toda essa energia tem de ser canalizada para melhorar as condições de vida do Brasil, desde o desprezo com que se tratam os passageiros pobres de ônibus, passando pelo escândalo ecológico, passando pela velhice do Código Penal do país que legitima a corrupção institucionalizada. O importante nessas novas manifestações é que elas (graças a Deus) não querem explicar a complexidade do mundo com umas poucas causas onde se trancam os fatos.

Eu sei, eu sei que é difícil escapar do "ideologismo; sei que a ideia de complexidade é vista como "frescura" e que macho mesmo é simplista, radical, totalizante. Mas, no mundo atual, a inovação está no parcial, no pensamento indutivo, em descobrir o Mal entranhado em aparências de Bem.

Sei também que é muito encantador uma luta mais genérica, a "insustentável leveza do ser revolucionário", que cria figuras como os "militantes imaginários" que analisei outro dia. Estes jovens saíram da condição de torcedores por um time ou um partido e estão militando concretamente. O perigo é serem esvaziados, como foi Occupy Wall Street.

É fundamental que o Passe Livre se amplie e persiga objetivos concretos.

Tudo esta parado no país e essa oportunidade não pode ser perdida. De um fato pequeno pode sair muita coisa, muito crime pode estar escondido atrás de uma bobagem. Os fatos concretos são valiosos. Exemplo: não basta lutar genericamente contra a corrupção. Há que se deter em fatos singulares e exemplares, como a terrível ameaça da PEC 37 que será votada daqui a uma semana e que acaba na prática com o Ministério Público, que pode reverter as punições do "mensalão," pode acabar até com o processo da morte de Celso Daniel; fatos concretos como a posse do Feliciano ou o extraordinário Renan em suas duas horas de presidente da República. Se não houver "núcleos" duros dos fatos, dos acontecimentos presentes e prováveis, as denúncias caem no vazio abstrato tão ibérico e tão do agrado dos corruptos e demagogos.

Por isso, permito-me sugerir alguns alvos bons:

Descobrir e denunciar por que a Petrobras comprou uma refinaria por 1 bilhão de dólares em Pasadena, Texas, se ela só vale 100 milhões? Por quê?

Por que a Ferrovia Norte Sul, que está sendo feita desde a era Sarney, ainda quer mais 100 milhões para mais um trechinho. Saibam que na época, há 27 anos, a "Folha de S. Paulo" fez uma denúncia genial: botou na página de classificados um anúncio discreto onde estava o resultado da concorrência dois dias antes de abrirem as propostas. Claro que a concorrência era malhada. Foi um escândalo mas continuou até hoje, comandada pela Valec, de onde o ex-diretor Juquinha, indescritível afilhado do Sarney, supostamente teria tascado 100 milhões.

Por que as obras do Rio São Francisco estão secas?

Por que obras públicas custam o dobro dos orçamentos?

Por que a inflação está voltando? Por que a infraestrutura do país está destruída?

Por quê?

Fonte: Segundo Caderno / O Globo

BEETHOVEN - Symphony No. 5 - Leonard Bernstein

Também já fui brasileiro – Carlos Drummond de Andrade

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

OPINIÃO DO DIA – Rubens Bueno: a vaia

"As pessoas estão percebendo que o governo tem mais marketing do que ação de políticas (públicas). O que a população sente, ela leva para as urnas.

Rubens Bueno, deputado federal(PR) e líder do PPS/MD na Câmara. In “Vaias a Dilma fazem Planalto mudar estratégia”, Correio Braziliense, 17/6/2013

Manchetes de alguns dos principais jornais

O GLOBO
Apenas 10% dos presos estudam
O Brasil e o mundo de olho em São Paulo
A força das mulheres cariocas
Vício corporativo

FOLHA DE S. PAULO
Governo de SP pede e terá reunião com manifestantes hoje
Dilma cortou discurso após receber vaias de torcedores
Ministro fez uso eleitoral de atos em SP, diz líder tucano

O ESTADO DE S. PAULO
Dilma prepara 20º pacote, agora para mineração
Protesto ganha apoio e governo descarta Choque
Governo vai anunciar pacote para mineração
Senado amplia máquina de divulgação
Dilma deve ter participação discreta na final

VALOR ECONÔMICO
Fuga da bolsa faz Vale cair à menor cotação desde 1999
Royalties de mineração vão render R$ 4,2 bi
Não há limite para alta de juros, diz Tombini
Para a Pimco, Brasil não apresenta risco

BRASIL ECONÔMICO
O que trava o país é a infraestrutura"
O que pesa nas passagens de ônibus
Estudo mostra que Brasil é o quinto país mais atrativo para o setor de vestuário

ESTADO DE MINAS
Tribunal suspende licitações de R$ 1,2 bi

O TEMPO (MG)
Polícia do Rio usa bombas e spray de pimenta para conter manifestação
Manifestantes prometem protesto em BH e manual de orientação é divulgado
Juros mais altos tornam Tesouro mais atrativo
Dilma não se intimida com vaias e promete estar na final da Copa das Confederações

CORREIO BRAZILIENSE
Onda de protestos leva governos à negociação
Vaias a Dilma fazem Planalto mudar estratégia
Habitação: Casa própria mais longe da classe C

GAZETA DO POVO (PR)
Inflação alta faz com que as famílias cortem gastos e adiem compras
Problemático e eficiente, Balotelli decide para Azurra
Professores não recebem piso em 40% das cidades
Novos protestos estão marcados para hoje
Turquia terá greve contra o governo

ZERO HORA (RS)
Vaias à presidente - Planalto abafa; oposição vê sintoma de desgaste
Nove são indiciados por adoções suspeitas
Fundo de garantia: Perdas de R$ 127 bi para o assalariado

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Entre o show e as críticas
Rio tem outro dia de protesto violento

O Que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Vaias à presidente - Planalto abafa; oposição vê sintoma de desgaste

Tradição no tratamento de autoridades em eventos esportivos, hostilidade contra Dilma ganhou força pelo ambiente de protestos nas ruas e arenas da Copa das Confederações.

Insatisfação refletida em protestos e vaias

Nos últimos cinco dias, o país foi tomado por manifestações nas ruas e em frente a estádios de futebol. A vaia à presidente Dilma Rousseff no jogo entre Brasil e Japão, no sábado, trouxe um ingrediente novo a esse cenário de descontentamento.

Os gritos de gol, na largada da Copa das Confederações, vieram acompanhados por ruídos de natureza nada festiva: palavras de ordem, estouros de bomba e vaias à presidente Dilma Rousseff na abertura do evento.

A ruidosa sonoplastia política tem origem em manifestações com públicos e propósitos diferentes, mas, segundo especialistas, refletem um sentimento de insatisfação nacional e tendem a reforçar umas às outras.

Estádios de futebol costumam ser ambientes cruéis para pernas-de-pau, mas também para líderes políticos. Assim foi na inauguração do Maracanã, na década de 1950, ou quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva compareceu ao mesmo local para a abertura dos Jogos Pan-Americanos, em 2007. Os apupos foram tão intensos que o petista desistiu de anunciar ao microfone o início das competições. As vaias enfrentadas por Dilma na tarde de sábado, porém, somam-se a uma série de protestos que vêm sacudindo o país.

Antes dos gritos contra a presidente, a música emitida pelos alto-falantes no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, já havia sido intensificada em alguns decibéis para abafar os estouros das bombas utilizadas pela polícia para controlar quem protestava do lado de fora contra os bilhões de reais aplicados para o país receber as competições da Fifa. Ontem, no entorno do Maracanã, novo confronto envolveu manifestantes contrários aos gastos e em defesa da redução nas tarifas de ônibus. Nas semanas anteriores, grupos se reuniram nas ruas das principais capitais do país para exigir passagens mais baratas e, mais recentemente, condenar a repressão policial em manifestações públicas.

Por que, então, protestava quem estava do lado de dentro do Mané Garrincha, e qual a relação com a recente onda de inconformidade que tomou as ruas de várias cidades? Para a cientista política e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Maria Izabel Noll é preciso lembrar que o público no interior do estádio pagou centenas de reais pelos ingressos e representa um estrato social mais abastado, com prioridades específicas.

– Essa classe média consolidada não teve ganhos tão significativos com a estabilidade econômica. Já tinha casa própria, carro. A vaia deixa claro que há uma insatisfação no ar – avalia Maria Izabel.

Inconformidade inclui várias bandeiras

Essa insatisfação inclui o desconforto com a corrupção, a ameaça da inflação, carências em saúde, educação e segurança pública, além da elevada carga tributária brasileira – tema bastante caro para as classes média e alta. Embora os protestos de dentro e de fora do estádio tenham diferenças, para Maria Izabel todos traduzem inconformidade popular e tendem a se reforçar mutuamente em um ambiente geral de contestação.

– Como há um descontentamento genérico em relação aos governos, não só ao governo Dilma, há um processo de retroalimentação entre esses protestos todos – analisa.

Para o cientista político e diretor do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais (InPro), Benedito Tadeu César, os apupos a Dilma não devem ser superdimensionados.

– Lula também foi vaiado, e a aprovação da presidente ainda é superior à de Lula e à de FH nos mesmos períodos de governo. Há sempre uma parcela de descontentes – pondera o cientista político.

Para César, a insatisfação popular explica os fenômenos verificados dentro e fora dos estádios, mas o grau de descontentamento nas ruas é maior do que o vislumbrado no Mané Garrincha na tarde de sábado.

– As pessoas estão lá no estádio para um evento esportivo, não para ficar homenageando político. Em relação aos protestos nas capitais, são deflagrados por um somatório de coisas, como a inflação e o comportamento das polícias militares – avalia.

Os próximos dias deverão mostrar o que seguirá soando mais alto no país: os gritos de gol, as bombas ou as palavras de ordem.

Fonte: Zero Hora (RS)

Planalto minimiza vaia a Dilma; aliados fazem alerta

Episódio aconteceu menos de uma semana após Datafolha detectar queda de popularidade da presidente

BRASÍLIA - Interlocutores da presidente Dilma Rousseff e líderes da base aliada minimizaram ontem a sequência de vaias que a mandatária levou sábado na abertura da Copa das Confederações, no Estádio Nacional Mané Garrincha, na capital federal.

Apesar de o episódio ter ocorrido menos de uma semana após a pesquisa Datafolha apontar uma queda de oito pontos percentuais na popularidade da presidente, integrantes do Palácio do Planalto defendem que o episódio não representa a real percepção da população brasileira sobre ela. Eles ressaltam que a ampla maioria da população ainda avalia positivamente o governo federal.

- Não estamos dando a esse episódio o tamanho que os jornais estão dando. As pessoas que estavam ali não queriam ouvir discurso, teriam vaiado qualquer um. A popularidade dela (de Dilma) é a maior entre as de todos os presidentes da República. Ela saiu de uma situação excelente para uma ótima. Isso não nos preocupa - disse um interlocutor da presidente, que preferiu não se identificar.

Lula foi vaiado no Pan

Na base aliada, apesar da avaliação uníssona de que o episódio não reflete o "sentimento geral do país", o líder do PT na Câmara, deputado José Guimarães (CE), considera que o protesto tem relação com as recentes manifestações contra o aumento das passagens de ônibus que tomaram as ruas de várias capitais brasileiras. Guimarães destacou que vaias a políticos em estádios são comuns, lembrando o episódio com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos Jogos Pan-Americanos de 2007, mas acredita que a repressão violenta aos protestos na última semana pode ter piorado a situação.

- Claro que a gente tem de estar sempre avaliando conjuntura, mas isso (as vaias) é um sentimento pontual, não é assunto para a gente criar qualquer movimento para responder - justificou o petista, que estava no estádio. - Nossa preocupação é botar o país para funcionar. Agora, o país vive neste momento um clima, um processo aguçado de convivência democrática, e isso está dentro dessa onda de mobilização que está havendo em relação às passagens e aos gastos da Copa das Confederações. Qualquer político que fosse anunciado ontem no estádio receberia vaias.

De acordo com o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), o cenário era especialmente delicado para a presidente, já que sua popularidade é maior entre as classes mais pobres, enquanto a capital federal apresenta a maior renda per capita do país. Para o peemedebista, o dever do governo agora é trabalhar para reduzir a inflação - considerada a principal responsável pela queda na avaliação nas pesquisas.

- Acho que tem um movimento acontecendo, sim, não resta dúvida. Agora, qual o tamanho e a extensão desse movimento, ainda não se sabe. O governo tem que governar. Não há o que fazer. É perceptível que estamos tendo um movimento de reação à inflação. O que o governo tem de fazer é trabalhar para combatê-la - defendeu Cunha.

Fonte: O Globo

Vaias a Dilma fazem Planalto mudar estratégia

A repercussão negativa dos apupos de torcedores Leva o governo a tomar cuidado com a exposição da presidente e a rever as prioridades. Políticos e especialistas divergem sobre o impacto da hostilidade.

Cautela na avaliação das vaias

Reação da torcida reflete, em parte, a insatisfação de uma parcela da população, mas não garante trunfos para 2014

"Para quem vaiou, o governo não demonstra bom desempenho. Mas é cedo para falar em eleições"
Ricardo Caldas, cientista político

"Não vejo significado político especial, mas ninguém deve fazer discurso em estádio de futebol"
Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), senador

As vaias no Mané Garrincha à presidente Dilma Rousseff inflaram ainda mais o discurso oposicionista. Do lado governista, o episódio foi encarado com cautela e como indicador de que é preciso tomar cuidado para evitar tropeços nas urnas daqui a um ano. Na oposição e entre cientistas políticos, a maioria das análises também vai no caminho da prudência, mas há quem tire conclusões definitivas sobre o nível de insatisfação com o governo e suas consequências em 2014.

"Esse fato específico tem que ser analisado com dimensão especial. Ele mostra que, realmente, os erros do governo passaram a ser percebidos pela população. Foi um sinal de reprovação. Com os problemas se avolumando, a inflação e o risco de redução da taxa de emprego, o resultado será explosivo", previu o líder do DEM na Câmara dos Deputados, Ronaldo Caiado (GO), para quem a disputa presidencial vai ao segundo turno em 2014, com "chances reais" de Dilma perder.

Em tom similar, o líder do MD na Câmara, Rubens Bueno (PR), disse acreditar que o que ocorreu no último sábado reflete sentimentos de insatisfação e indignação. "As pessoas estão percebendo que o governo tem mais marketing do que ação de políticas (públicas). O que a população sente, ela leva para as urnas", avaliou Bueno, que também aposta em um desgaste da candidata do PT até 2014.

Mais ponderado, o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), preferiu seguir a linha rodriguiana. Um dia após o constrangimento de Dilma na abertura da Copa das Confederações, o tucano relembrou episódio da adolescência, quando, ao distribuir panfletos com críticas à ditadura em um estádio de futebol, foi recebido com chuva de pipoca e gritos de "Cai fora, comuna". "Como disse Nelson Rodrigues, em campo se vaia até minuto de silêncio. Não vejo significado político especial nem relação com 2014. Nós políticos não estamos com esta bola toda. A lição que se tira é que ninguém deve fazer discurso em estádio de futebol", brincou.

Também adepto da escola do jornalista e escritor brasileiro, o cientista político do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) de São Paulo Carlos Mello defende que é preciso relativizar as vaias a Dilma. "O governo passa por um mau momento, isso é inegável. Houve uma queda na popularidade de Dilma, que ainda é alta, e uma semana de protestos. Eu não diria que a vaia pode significar qualquer tipo de indicador da chancela dela em 2014. A única conclusão objetiva que se tira disso é que é tradição das torcidas de futebol vaiar representantes, em particular quando estão em mau momento", disse.

Cientista político da Universidade de Brasília (UnB), Ricardo Caldas entende as vaias como reflexo da frustração de expectativas da sociedade. Mas pondera a respeito de possíveis conclusões sobre 2014. "A inflação está voltando, o prometido crescimento econômico não vem, a produção industrial caiu e a taxa de desemprego, que se mantém boa, vai piorar em algum momento. Para quem vaiou, o governo não está demonstrando um bom desempenho. Mas ainda é cedo para se falar nas eleições", disse.

Fonte: Correio Braziliense

Dilma deve ter participação discreta na final

Depois das vaias que recebeu na abertura da Copa das Confederações, Dilma Rousseff deverá ter participação mais discreta na final da competição no Maracanã.

Dilma será discreta no Maracanã

Assessoria do Palácio do Planalto confirma que a presidente vai ao Maracanã na final da Copa das Confederações

A vaia recebida no Estádio Mané Garrincha, em Brasília antes da partida entre Brasil e Japão, não afastará a presidente Dilma Rousseff da final da Copa das Confederações, no Maracanã, no dia 30 de junho. A assessoria do Palácio do Planalto confirmou ontem que ela estará 00 Rio para acompanhar a decisão. Aliados e integrantes do governo avaliam que Dilma não deveria aceitar eventual convite para discurso ou até pedir para não aparecer 110 telão para evitar novos apupos. A manifestação do público foi avaliada por petistas e assessores como um ato desvinculado de motivações políticas. "É um jeito moleque do torcedor brasileiro. Qualquer político que fosse ao estádio e anunciassem o nome seria recebido da mesma forma, resumiu o líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE), A previsão já era de a presidente comparecer a apenas dois jogos, a abertura e a final Ela não deverá estar presente nesta semana nas partidas do Brasil em Fortaleza, na quarta-feira, e em Salvador, no sábado, nem nas semifinais. Dilma fará, inclusive, uma viagem ao Japão na próxima semana e chegará de volta ao País já 110 dia da decisão do torneio no Maracanã.

A vaia deverá apenas fazer com que o governo brasileiro aumente a preocupação com o protocolo. Aliados da presidente defendem que seja evitada nova situação que a exponha a manifestações negativas. “Estádio não é ambiente para discurso, é um público arredio a político e acostumado a vaiar porque já faz isso com os times”, observa o deputado Vicente Cândido (PT-SP), dirigente da Federação Paulista de Futebol

A intenção dos aliados é solicitar à Fifa que a presença seja tratada de forma discreta. Além de evitar o microfone, anúncios da presença e imagens dela no telão não deveriam ser mostradas, na visão de pessoas próximas a Dilma. O líder do PT na Câmara, porém, acredita não ser necessária tanta preocupação, não devemos perder o sono, foi algo contra a política em geral, não contra ela, avalia Guimarães.

O ex-capitão da seleção brasileira e hoje membro do Comitê Técnico da Fifa, Gafa, admite que a vaia que a presidente Dilma Rousseff recebeu “não repercutiu muito bem”, mas alertou que essa era aa voz do povo brasileiro”.

Em coletiva de imprensa, Gafa respondeu a uma questão do Estado sobre a situação vivida por Dilma 110 sábado, “Ela é a presidente do Brasil, é a autoridade máxima, que sem sombra de dúvida impõe respeito”, disse. "Mas é o povo brasileiro e não dá para conter a todos. É uma situação desagradável, é uma situação ruim e não repercutiu muito bem. Mas é a voz do povo brasileiro", declarou.

Durante a vaia, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, deu uma bronca na torcida, pedindo que o público respeitasse a presidente e que adotasse uma posição de “fair-play”. O cartola foi ignorado. A assessoria de imprensa da Fifa questionada sobre o motivo pelo qual Blatter teria dado a bronca na torcida, se recusou a fazer comentários.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Onda de protestos leva governos à negociação

A escalada de manifestações contra os aumentos das tarifas de ônibus e contra os gastos com a Copa do Mundo teve mais um capítulo violento ontem. Cerca de 300 pessoas foram contidas pela polícia com bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e tiros de bala de borracha, antes do jogo México e Itália, no Maracanã, no Rio de Janeiro.

Governos municipais, estaduais e o federal abrem a semana em busca de uma solução negociada para a crise. O ministro Gilberto Carvalho recebe, hoje, no Planalto, representantes dos grupos que participaram do movimento de sábado no Mané Garrincha. Em São Paulo, o governador, Geraldo Alckmin, aceitou dialogar. Os atos ganharam a solidariedade de brasileiros em Dublin, na Irlanda.

Negociação para evitar confrontos

Autoridades em São Paulo e em Brasília convocam reunião com os organizadores a fim de enfrentar a onda de passeatas e garantir atos pacíficos, sem prejudicar a população

Julia Chaib

A onda de protestos que começou há duas semanas em São Paulo, contra o aumento das tarifas de transporte público, se estendeu agora ao calendário de jogos da Copa das Confederações. Além da manifestação que ocorreu em Brasília, na estreia da Seleção Brasileira na competição, ontem foi a vez do Rio de Janeiro, no jogo da Itália contra o México. Ao atrelar os atos ao evento internacional, o movimento, que avançou por, pelo menos, 10 municípios e que já tem adesão de brasileiros em outros países, ganha ainda mais visibilidade. Pelo menos 30 cidades no Brasil e no exterior têm protestos marcados para esta semana. Para evitar que haja descontrole e uso da força policial, autoridades em São Paulo e em Brasília querem negociar com os participantes.

O objetivo é garantir que os protestos sejam de fato pacíficos, com a prévia definição dos trajetos, para evitar danos e prejuízos à população. Hoje, haverá protesto em São Paulo — o quinto pela redução das tarifas de transporte na capital — para o qual 180 mil pessoas haviam confirmado presença pelo Facebook até a noite de ontem. A Secretaria de Segurança Pública do Estado se encontra pela manhã com membros do movimento pela manhã para garantir que seja pacífico. Na capital federal, o secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, também tem reunião marcada para hoje com manifestantes (leia mais na página 27).

"Queremos que os participantes exerçam o direito de manifestar. A Polícia Militar tem condições de planejar com algumas horas de antecedência a melhor forma de reduzir o encontro com o restante da população e de proteger os manifestantes. O fundamental é definirmos um trajeto que será percorrido. Com isso, faremos um bloqueio de rua, de modo que a população não saia prejudicada", disse o secretário de Segurança Pública, Fernando Grella. Amanhã, a prefeitura de São Paulo fará uma reunião para discutir a questão do transporte público. O último protesto na capital paulista, na quinta-feira passada, foi marcado por violência policial e atos de vandalismo de alguns participantes. Dezenas de pessoas ficaram feridas e mais de 200 foram detidas.

Atos de apoio aos movimentos brasileiros aconteceram ontem em duas cidades estrangeiras, Dublin, na Irlanda, e em Berlim, na Alemanha. Em Porto Velho (RO), centenas de pessoas também fizeram passeata que disseram ser "a favor da democracia".

Em Dublin, na Irlanda, brasileiros fizeram ato de solidariedade

Maracanã

A exemplo da manifestação que ocorreu no sábado, em Brasília, nos arredores do Estádio Mané Garrincha, no Rio, a área próxima ao Maracanã, foi palco de protesto ontem. Para conter os cerca de 800 manifestantes que queriam se aproximar dos portões de entrada, a polícia lançou bombas de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e tiros de bala de borracha contra o grupo. O ato no Rio começou pouco antes do início do jogo entre México e Itália, às 16h. Os manifestantes pediam a redução da tarifa da passagem de ônibus e criticavam os excessos de gastos com a competição.

O embate ocorreu na saída da estação de metrô São Cristóvão, a cerca de um quilômetro do Maracanã, onde cerca de 50 mil pagantes entravam para ver o jogo. Uma equipe da Força Nacional se uniu à tropa de choque para impedir que o grupo chegasse muito perto do estádio. Com a reação da polícia, os manifestantes foram em direção ao Parque Quinta da Boa Vista, que fica próximo à estação do metrô. Pais e crianças que estavam no local também foram atingidos pelo gás lacrimogêneo e pelo spray de pimenta, sem contar o pânico pelo qual passaram. Pelo menos cinco pessoas foram detidas.

O grupo foi disperso depois de uma negociação com a polícia, por volta das 17h. Os participantes relataram que ela foi bastante violenta. Quando terminou a partida, perto das 18h, porém, manifestantes voltaram a se aproximar do estádio. A PM formou um cordão para não deixar que eles chegassem perto da arena e atrapalhassem a saída das pessoas. Antes do início do jogo, vários torcedores tiveram de cobrir o rosto para evitar os efeitos das bombas de gás lacrimogêneo. A manifestação cessou de vez por volta das 19h.

Exterior

Na capital irlandesa, Dublin, cerca de 2 mil pessoas, número estimado pela polícia local, compareceram à manifestação pacífica pela manhã. Na Alemanha, em Berlim, cerca de 400 brasileiros participaram do ato contra o aumento de tarifas de transporte público e contra excessos da polícia brasileira. "Na sexta de manhã, depois da truculência da noite de quinta em São Paulo, a gente resolveu fazer a nossa parte por aqui também, para chamar a atenção da mídia internacional e dar apoio aos que estão apanhando no Brasil", disse uma das organizadoras do evento. Nenhum confronto ocorreu nas duas situações. Hoje, devem ocorrer protestos em outras 13 cidades brasileiras e em mais duas no exterior. Ao longo da semana, outras manifestações também estão sendo organizadas.

Fonte: Correio Braziliense

As manifestações populares: atacar os verdadeiros problemas da Nação ¬- Alberto Goldman

Para explicar os primeiros resultados do movimento é preciso constatar que algo mais está acontecendo. Vou chamar de movimento tectônico, como se fossem placas nas profundezas da sociedade, que se movimentam e produzem pequenos terremotos e vulcões, no caso manifestações quase espontâneas. É prova de que existe um descontentamento na alma profunda do povo que só se explica pelos anos e anos de desrespeito aos princípios republicanos de justiça e de democracia, pela corrupção e pela impunidade que permeiam a vida pública, agravado pela situação econômica que começa a mostrar que nem tudo é tão róseo quanto o governo propagandeia.

Tudo isso vem à tona. Parece fora de dúvida que após a euforia dos últimos anos começa a haver a percepção de que se vivia um momento de fantasia. É positivo o fato das pessoas verem que foram ludibriadas por uma propaganda enganosa que lhes prometia o paraíso terreno, pela eternidade, sob o argumento de que “nunca antes nesse país” se fizera algo de bom para o povo.

Como não se enfrentam grupos organizados, mas um sentimento difuso de indignação e revolta, é preciso que as ações policiais tenham o cuidado de buscar apenas aqueles que usam da violência em suas manifestações, sob pena de se atingir cidadãos inocentes que sequer participam dos atos ou são simples participantes entusiasmados com a perspectiva de modificar alguma situação que lhes causa descontentamento e repúdio.

E, o mais importante, é preciso dirigir esse potencial de vontade popular para atacar os verdadeiros problemas da Nação.

Alberto Goldman, vice-presidente nacional do PSDB, In Blog do Goldman

O Brasil e o mundo de olho em São Paulo

Protestos contra o aumento das tarifas de ônibus estão marcados para hoje em quatro capitais. Em São Paulo, desta vez, o governo promete não usar a Tropa de Choque. Atos de apoio aconteceram ontem na Europa e nos EUA.

Nova onda de protesto

Polícia de São Paulo quer negociar trajeto e manifestantes resistem ; Rio, Minas e DF terão atos

SÃO PAULO - Manifestantes e policiais estarão hoje, mais uma vez, frente a frente em São Paulo e em pelo menos outras três capitais do país - Rio, Brasília e Belo Horizonte. A quinta jornada de protestos contra o aumento das passagens na capital paulista, anunciada pelos organizadores como a maior até aqui, terá inicio no fim da tarde, no Largo do Batata, em Pinheiros. O governo estadual, preocupado com as consequências, abriu negociações, mas os líderes do Movimento Passe Livre (MPL) não aceitam discutir com as autoridades o percurso do protesto. O secretário de Segurança Pública, Fernando Grella, garantiu que a polícia não usará a Tropa de Choque da PM, nem gás lacrimogêneo e tiros de bala de borracha.

O movimento espera a participação de 20 mil pessoas. Nas redes sociais, quase 190 mil haviam confirmado presença. Algumas sugeriam o uso de escudos e capacetes para se defender da polícia. Mas o governo, depois do desgaste sofrido pela atuação violenta da polícia nos últimos protestos, está agora agindo com cautela. O objetivo da reunião prevista para hoje com o MPL, explicou Grella, é permitir que a Polícia Militar possa planejar com antecedência a melhor forma de minimizar os transtornos à cidade. Na quinta-feira passada, foi o descumprimento de um acordo feito entre líderes do grupo e a PM sobre o percurso que provocou o confronto.

- O fundamental é definirmos o trajeto. É a melhor maneira de reduzir o incômodo para o restante da população e de proteger os próprios manifestantes. Com isso, faremos um ordenamento do trânsito, com bloqueio de ruas e adjacências - afirmou.

Mas os organizadores relutam em negociar o percurso:

- Estamos abertos ao diálogo, mas acreditamos que os manifestantes são os responsáveis por definir o trajeto. O papel da PM é garantir a liberdade do povo de se manifestar, e nós vamos ocupar vias importantes da cidade, sobretudo porque devemos reunir cerca de 20 mil pessoas - disse Mayara Vivian, integrante da linha de frente do MPL.

Para reunir o maior número de manifestantes em São Paulo, os organizadores contam com a adesão de entidades ligadas à Central Sindical e Popular-Conlutas. No perfil do movimento no Facebook, pessoas defendiam o direito de levar vinagre, usado para reduzir os efeitos do gás lacrimogêneo. O secretário de Segurança, contudo, garantiu que o produto não será necessário diante da expectativa de uma passeata pacífica, sem a Tropa de Choque. O número de policiais que estarão nas ruas para acompanhar o protesto não foi divulgado.

- Não vai precisar de vinagre porque não vai ter bomba - disse Grella.

Por precaução, a estação do metrô Pinheiros, ponto de partida da passeata, ontem já estava cercada por tapumes. A concessionária informou que o objetivo é "proteger o patrimônio público e resguardar a segurança de seus usuários". Ontem, jovens se reuniram para Praça Roosevelt para confeccionar cartazes.

Protesto na estreia de BH na Copa

Manifestações menores, em solidariedade ao ato de São Paulo, deverão ocorrer em mais três cidades. Em Brasília, o grupo pretende se reunir em frente ao Museu Nacional, na Esplanada, às 16h, e seguir para o Congresso. No Rio, o ato começará na Candelária, partindo provavelmente pela Avenida Rio Branco em direção à Cinelândia. Em Belo Horizonte, a mobilização acontecerá no dia da estreia da capital mineira na Copa das Confederações. A concentração está marcada para as 13h na Igreja São Francisco de Assis, próxima do Mineirão.

Os mineiros vão protestar apesar de uma proibição judicial. Na última quinta-feira, liminar do desembargador Carlos Augusto de Barros Levenhagen, do Tribunal de Justiça, a pedido do governo estadual, proibiu qualquer tipo de manifestação no estado durante o evento esportivo.

Fonte: O Globo

Declarações do ministro foram oportunistas, diz líder do PSDB

Catia Seabra

BRASÍLIA - O líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), acusa o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo de "ultrajante e constrangedor oportunismo" ao, na sua opinião, explorar "com sofreguidão eleitoral" a crise provocada pelo aumento das passagens em São Paulo.

Na quinta, Cardozo disse o governo estava "à disposição" para cooperar "no que for necessário" na contenção dos protestos. Na sexta, condenou a "extrema violência policial" em São Paulo.

Oferta de ajuda

Cardozo mostra que não sabe discernir entre a função institucional e sua sofreguidão eleitoral de candidato a governador. Seu primeiro movimento foi de colocar-se à disposição do governo diante das câmeras. Ninguém oferece ajuda pela imprensa. Se quisesse ajudar a sério, teria telefonado para o governador. (...) Por que não se colocou também à disposição do Rio Grande do Sul, do Distrito Federal e de Estados do Nordeste? A solicitude dele é seletiva (...) porque ele é candidato ao governo e o Estado tem um governador do PSDB.

Cadáver do índio

Ele (Cardozo) está politizando e partidarizando esse assunto, coisa que não fizemos nos episódios em que houve violência, legítima ou não, da Polícia Federal. Não fomos colocar no colo dele o cadáver do índio que morreu na reintegração de posse da fazenda Buriti (o terena Oziel Gabriel, morto em 30 de maio em Sidrolândia, Mato Grosso do Sul).

Decoro e recato

Cardozo se vale do cargo em benefício eleitoral. Faz isso com oportunismo evidente e constrangedor. Ministro da Justiça deve se comportar com mais circunspecção, mais recato, mais decoro. É um oportunismo ultrajante. Quando ele quer usar o chapéu de ministro, colabora de forma eficaz, como na criação da agência de atuação integrada. O mal é quando se deixa arrastar pela sofreguidão eleitoral.

Fernando Haddad

Alckmin não chamou manifestação de rua, o PSDB não saiu quebrando ônibus e atacando policiais. Não fizemos nada para desgastar Haddad. Quem se desgastou foi ele mesmo, que ficou durante muito tempo em silêncio e depois deu declarações contraditórias. Vai para lá e para cá. Quando o PT dirige o foco das manifestações contra a atuação da polícia, tenta fazer com que as pessoas esqueçam que quem deu o aumento do ônibus foi o Haddad.

Se o ministro da Justiça não procurou o governador para oferecer ajuda, seguramente se concertou com o comando do PT e combinaram uma ação para tentar transformar esse num movimento contra a ação da polícia.

Geraldo Alckmin

O que governador (Alckmin) disse é o que todos nós sabemos: que o Brasil, na gestão PT, se transformou no maior consumidor de crack e no segundo maior mercado de cocaína do mundo, e que isso é responsabilidade do governo federal. É óbvio.

Excessos da polícia

Houve excessos na ação da polícia. O próprio secretário de segurança instaurou uma sindicância. A polícia de São Paulo é a mais bem preparada do Brasil. No entanto, comete excessos e para isso tem uma corregedoria. Mas Cardozo decreta que houve excessos da polícia sem se dirigir a quem está investigando, que é o secretário de Segurança.

Bala de borracha

O governo precisa fazer uma revisão de seu protocolo de ação, se possível banir as balas de borracha nessas circunstâncias. Mas a polícia não pode ficar de braço cruzado quando determinado grupo, qualquer que seja sua motivação, prejudica o direito dos demais.

PT

O PT participou disso no passado. Talvez agora tenham tirado o pé. Mas entrada do ministro no assunto é uma tentativa de surfar na onda dos protestos e proteger o Haddad.

Aécio Neves

[A participação do senador Aécio Neves (MG) no programa estadual do PSDB, na qual acusa o governo federal de omissão no combate à violência] não é oportunismo eleitoral. Estamos dizendo isso há muito tempo. Essa omissão se traduz em números, em corte de recursos e na falta de verbas, de pessoal, delegacias.

Fonte: Folha de S. Paulo

E eles saíram do Facebook - Ricardo Noblat

“Temos a melhor policia do Brasil”- Geraldo Alckmin, governador de S. Paulo

O que distingue a época em que eu corria dos PMs montados a cavalo nas ruas centrais do Recife desta, quando escrevo sobre os jovens vítimas da violência da PM de São Paulo, é que há 45 anos vivíamos sob o tacão da ditadura militar inaugurada em março de 1964 e só concluída formalmente em março de 1985. De resto, agora como antes, o que os jovens tentam fazer é somente política. E nada mais.

AQUELES OBRIGADOS a conviver com a ditadura eram chamados pelas autoridades de subversivos, comunistas e, mais tarde, terroristas. Assim também eram apresentados pela imprensa em geral. Enfrentavam a repressão com paus e pedras e derrubavam cavalarianos com bolas de gude. Até dezembro de 1968 apenas apanhavam e eram presos por pouco tempo. Dali para a frente passaram a ser torturados e mortos.

MUITOS ERAM "filhos órfãos de pais vivos — quem sabe... Mortos, talvez... Órfãos do talvez e do quem sabe"! Ou "viúvas de maridos vivos, talvez; ou mortos, quem sabe? Viúvas do quem sabe e do talvez" como denunciou o cearense Alencar Furtado, líder do PMDB na Câmara dos Deputados, em discurso que lhe custou o mandato, cassado em junho de 1977 pelo presidente-general Ernesto Geisel.

UM OBJETIVO unificava as diversas tendências e organizações que atraíam os jovens: a luta pela liberdade. Quando a ditadura tirou a máscara e exibiu sua carranca medonha, os jovens se dividiram entre duas formas de combatê-la: pela via legal do prudente exercício cotidiano da política e pela via armada. Quando a ditadura chegou ao fim, os que ainda eram jovens foram terminar seus estudos e cuidar da vida.

O AMBIENTE ESTUDANTIL, as entidades juvenis que restaram e os partidos que passaram a atuar livremente depois da redemocratização do país foram incapazes de seduzir as gerações que sucederam àquelas sacrificadas ou brutalizadas pela ditadura de 64. Quem se encarregou de fazê-lo foi a sociedade de consumo com todas as suas formidáveis invenções. Os jovens só se animaram a sair às ruas para derrubar Collor e eleger Lula.

AS REDES SOCIAIS começaram a funcionar como seu ponto de encontro e sua tribuna. O manifesto eletrônico tomou o lugar dos antigos abaixo-assinados. Nunca se produziu tanto manifesto como nos últimos dez anos. Basta colar ali o nome previamente digitado e sair para a balada. Ainda é assim. Talvez ainda seja assim por muito tempo. Talvez esteja deixando de ser assim. É cedo para saber. E, no entanto...

NO PERÍODO de apenas uma semana, alguns milhares de jovens marcharam pelas ruas de uma dezena de cidades protestando contra o aumento das passagens de ônibus, os milionários gastos públicos com a Copa do Mundo e o Estatuto do Nascituro. O epicentro dos protestos foi a capital de São Paulo. Ali, esta noite promete novos confrontos entre o novo e o velho, o aprendiz e o sabe-tudo.

POUCO IMPORTA que os jovens disparem suas exigências em todas as direções sem priorizar nenhuma, que careçam de líderes com os quais se possa dialogar e que acolham em seu meio uma minoria de baderneiros e de vândalos. Desde quando foi diferente no passado? Somente a experiência ensina. E não há porque imaginar que os jovens de hoje não aprenderão.

POR MAIS LEGÍTIMO que seja, o poder existe para ser contestado. Senão for pode virar tirania. A natureza do poder é conservadora. A natureza da rebeldia é destrutiva. O progresso social e humanístico é filho do confronto entre a rebeldia e o poder.

Fonte: O Globo

Rio tem outro dia de protesto violento

Manifestantes são agredidos no Rio

Assim como ocorreu em São Paulo, Polícia Militar carioca reprimiu com bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha multidão que protestava no Maracanã

RIO - A Polícia Militar atacou com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo e balas de borracha as cerca de 3 mil pessoas que protestavam nas imediações do Maracanã, no Rio, antes e durante o jogo entre México e Itália. A manifestação, que era pacífica, transformou-se em um tumulto que afetou até mesmo torcedores. Os participantes do protesto foram contidos a 700 metros da entrada principal. Eles bradavam contra os gastos para a Copa do Mundo, a corrupção, a má administração pública e a má qualidade do transporte público, inspirados na onda de levantes iniciada em São Paulo.A névoa enfumaçada que se formou no entorno do Maracanã fez com que centenas de pessoas passassem mal, com crises de tosse, lágrimas nos olhos e dificuldades para respirar. Asmática, uma jovem manifestante teve que ser socorrida pelos colegas. Até policiais reclamavam dos efeitos dos explosivos.

Os manifestantes começaram a se concentrar às 14h na estação de metrô São Cristóvão, uma das três que dão acesso ao estádio. Pouco antes das 15h, tentaram subir o viaduto Oduvaldo Cozzi, que dá acesso ao portão da estátua do Bellini. Eles foram impedidos pela PM, que só permitia a passagem de pessoas com ingressos ou credenciais para o jogo. O grupo tentou seguir pela vizinha Rua General Canabarro, mas foi mais uma vez barrado. Às 15h20, o Batalhão de Choque da PM apareceu, com profissionais da Força Nacional de Segurança na retaguarda. Foi quando um policial borrifou spray de pimenta na nuca de um manifestante. Em seguida, os PMs do Choque começaram a lançar as bombas.

Manifestantes, jornalistas e torcedores correram, na tentativa de se proteger. A manifestação se dispersou momentaneamente. O torcedor Dejair Freitas, 28 anos, saiu da estação no momento em que os manifestantes foram atacados pela PM. "Uma das bombas quase me atingiu. Foi por muito pouco. Ela caiu ao meu lado, mas ainda assim veja como estou", disse, apontando para os olhos vermelhos e lacrimejantes.

Na sequência dos acontecimentos, cerca de 500 manifestantes reagruparam-se, sentando no asfalto, no acesso à Quinta da Boavista. Eles cantavam o Hino Nacional quando foram novamente atacados pela PM, que atiraram mais bombas.

Os policiais alegaram que precisavam desocupar a via pública, parcialmente interditada pelos manifestantes. Na confusão, a estação do metrô foi fechada. Os insurgentes foram acuados pela PM, que não deixou ninguém sair do local.

A PM contabilizou oito manifestantes detidos para averiguação de antecedentes. Eles foram levados para a 18ª Delegacia, na Praça da Bandeira. A polícia não revelou o saldo de feridos.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Apertem os cintos - Valdo Cruz

Se a semana passada foi ruim para a presidente Dilma, com queda de popularidade, dólar em alta e vaias, esta pode reservar notícias piores na economia.

Amanhã e depois, o FED (banco central americano) pode fazer a tensão no mercado cambial subir ainda mais. Seu presidente, Ben Bernanke, dirá se e quando vai retirar os estímulos à economia americana.

Dependendo do que ele falar, vai aumentar a revoada de dólares dos países emergentes, Brasil incluído, para os Estados Unidos. Aí está o maior risco para a presidente.

Hoje, apesar da piora nos números da economia brasileira, explorada pela oposição, a petista tem razão em dizer que o Brasil não está uma tragédia, vai até, de certa forma, bem. O suficiente para mantê-la bem na foto. Por enquanto.

Afinal, o próprio governo reconhece que, como mostrou a última pesquisa Datafolha, a inflação é um dado-chave para Dilma se manter favorita na eleição presidencial.

Neste momento, quando a equipe econômica aposta no seu recuo, um dólar mais valorizado irá exercer pressão de alta sobre os preços e jogar contra o Planalto. Aí, o Banco Central terá de subir os juros bem mais do que o previsto.

Poderia até não pegar tão pesado, mas dependeria de uma mãozinha do Ministério da Fazenda, com um aperto maior na política fiscal. Mas isso, pelo visto, não virá, além do já prometido: cumprir um superávit primário de 2,3% do PIB.

O fato é que o governo segue, neste momento, confiante no seu receituário bastante desbalanceado. BC subindo juros sem grande ajuda na área fiscal. Planalto lançando programas para elevar o crédito quando o BC tenta contê-lo. É um para cá e outro bem para lá.

Enfim, as previsões indicam riscos de turbulências no ar. Recomenda-se apertar os cintos. Caso contrário, as vaias vindas "da classe média alta" no estádio de Brasília podem se alastrar para outros setores.

Fonte: Folha de S. Paulo

A falência dos políticos - José Roberto Toledo

Balas de chumbo e borracha tomaram o lugar da política na resolução de conflitos entre o Estado e segmentos da sociedade:, no Brasil. índios, manifestantes e jornalistas acabaram do lado errado dos canos das armas da polícia - enquanto autoridades se escudavam atrás de microfones na segurança de seus gabinetes»

A inapetência das lideranças políticas brasileiras não distingue partidos, Nem prefeito, nem governador, nem sequer um vereador deu a cara nas cenas de conflito para tentar mediar impasses. Passaram a responsabilidade para policiais. Deu no que deu.

Se os políticos profissionais se escalam para assistir jogo da seleçãoe, quiçá, vaiar os colegas mas evitam as esquinas onde seus eleitores aspiram gás lacrimogêneo, cabe perguntar: eles servem a quem?

O apagão de lideranças no Brasil é mais contundente do que os cassetetes da PM paulista. Não é coincidência que o movimento que pretende parar as maiores cidades do país se declare “horizontal, autônomo, independente e apartidário? A ausência de um líder tradicional parece confundir políticos e policiais.

Um comandante da PM de Brasília reclamou da falta de interlocutor à altura de sua patente do outro lado o lado dos manifestantes anti-Gopa que ele dispersou abalas e bombas. Os políticos também parecem aturdidos com a falta de hierarquia dos manifestantes.

Não há “cabeças” com quem barganhar, a quem cooptar nem para cortar. O apagão de lideranças no ‘ Brasil é mais contundente do que os cassetetes da PM.

Essa é, porém, a maior característica da pós-política. Organização em rede, voluntária, heterogênea e sem estrutura de comando. Só não confunda ausência de líderes com falta de liderança. É bagunça organizada. Começa no dia e hora marcados em locais previamente combinados.

No sumiço dos políticos, nota-se um cálculo marqueteiro de qual lado ficar para mais faturar? O prefeito Fernando Haddad (PT) ainda está calculando. Já o governador Geraldo Alckmin (PSDB) achou que seria do lado da repressão. Tudo caminhava para ele se consagrar como quem pôs ordem na casa, até a crise tomar um atalho.

Na narrativa preponderante, a manifestação contra o aumento do ônibus metrô começou como uma curiosidade, virou um estorvo, evoluiu para baderna e tinha tudo para acabar com a glória da repressão policial na quinta-feira passada. No palco escolhido, a esquina da Consolação com Maria Antonia, havia espaço suficiente para acomodar helicópteros de todas as emissoras de televisão.

Mas aí a sede de vingança da tropa falou mais alto vingança pelo quase linchamento de um policial na manifestação anterior. O pelotão de choque começou a batalha atirando para onde estava virado. Bombardeou posto de gasolina, carro, idoso, apartamento.

Multidão dispersada, começou a caçada aleatória a transeuntes. Por ai falta de mira ou intenção, os policias acertaram 15 jornalistas. A narrativa muda quando o narrador vira parte da história. De vítima, a polícia virou algoz. E Alckmin teve que ouvir lição de moral ao vivo num programa televisivo,

Não que o governador não possa sair dessa ainda mais favorito ã reeleição, No interior paulista, quem não gasta quatro horas diárias para ir e voltar do trabalho em ônibus cada vez mais lotados talvez simpatize com sua posição a favor da ordem.

Já na capital, a pesquisa Datafolha, feita a quente, mostrou uma cidade dividida. “A molecada está certa”, resumiu um passageiro. Ele explica os 55% de apoio às manifestações: se o serviço é mim e só piora, aumento d a passagem é tapa 11a cara do usuário. As depredações e os engarrafamentos engordam os 40% que são contra.

Unanimidade, só a do vinagre. Sua posse, mesmo podendo levar à prisão, virou item de primeira necessidade.

E o único alívio contra a lacrimejante atmosfera paulistana. Vinagre é o novo tomate.

Fonte: O Estado de S. Paulo