domingo, 4 de junho de 2023

Celso Rocha de Barros* - A culpa é de Junho de 2013?

Folha de S. Paulo

Centrão, a velha direita fisiológica, é o grande vencedor desses dez anos de contestação sistêmica

Nesta semana celebraremos dez anos do início das manifestações de Junho de 2013. Desde os protestos, a democracia brasileira passou por uma enorme crise, emendando Lava Jato, impeachment e Bolsonaro. Foi culpa de junho?

É bom deixar claro: o Movimento Passe Livre não obrigou Dilma Rousseff a bagunçar o orçamento para se eleger em 2014. Nenhum black bloc obrigou a direita a fazer o impeachment de 2016. As empreiteiras não pagavam as campanhas dos partidos em Cubocards. Moro Dallagnol não mutretaram o julgamento do Lula a pedido da militante Sininho. Não foi o Mídia Ninja que elegeu Bolsonaro.

Vinicius Torres Freire - Dar a mão para não perder o olho

Folha de S. Paulo

Lascado de primeiro teste no Congresso, governo não entende o país conservador

De repente, não mais do que repente, temos de acompanhar as tratativas do deputado federal Elmar Nascimento (União Brasil-BA) com Luiz Inácio Lula da Silva a respeito de como resgatar o governo do naufrágio no Congresso.

Nascimento é um visconde da Codevasf, escoadouro de emendas paroquiais, e homem de prestígio na corte de Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara. Lira é o premiê informal disso que chamemos de semiparlamentarismo de coabitação de Lula com o direitão do Congresso.

Como o clima entre Lula e Lira está ruim, Nascimento foi encarregado de discutir os termos de armistício desse conflito em que o governo saiu lascado. Quem sabe acerte uma aliança, com negociação de ministérios, entre outras demandas de Lira e pares.

Hélio Schwartsman - De volta ao impeachment

Folha de S. Paulo

Livro revisita a deposição de Dilma nos fazendo pensar de trás para a frente

Foi Søren Kierkegaard quem afirmou que a vida, embora seja vivida prospectivamente (um dia após o outro), só pode ser compreendida retrospectivamente, isto é, quando analisamos os eventos pregressos longe das emoções e à luz do que sabemos atualmente. Algo parecido vale para os acontecimentos históricos.

"Operação Impeachment", de Fernando Limongi, é uma obra que nos lança nesse exercício kierkegaardiano. Eu e a maioria dos leitores acompanhamos de perto os eventos que levaram ao afastamento de Dilma Rousseff. E essa foi uma experiência que vivemos prospectivamente. Algo bem diferente, e elucidativo, é revisitar esses acontecimentos conhecendo os resultados que produziram. Melhor ainda quando guiados por um autor do calibre de Limongi.

Luiz Carlos Azedo - O legado de Michel Temer que assombra o governo Lula

Correio Braziliense

Temer é reconhecido pelas elites do país como um bom presidente, devido às reformas que fez , assim como fora Itamar Franco. Desde que saiu do cargo, tem saudades do “Fora Temer!”

Na noite do dia primeiro de junho, quinta-feira, após a posse da nova direção da Associação Nacional dos Procuradores dos Estados e do Distrito Federal (Anape), o ex-presidente Michel Temer, um dos palestrantes e convidado de honra do presidente da entidade, Vicente Martins Prata Braga (CE), circulava entre autoridades e demais convidados “feliz como um pinto no lixo” — como diria o falecido cantor Jamelão, o maior “intérprete” do compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues.

Era um daqueles fugazes momentos de glamour e felicidade dos poderosos de Brasília, numa posse festiva à beira do Lago Paranoá, que começou com pompa e circunstância e acabou com todo mundo dançando. Temer fez uma palestra, participou da gravação de uma longa entrevista a alguns jornalistas e voltou para a festa. Circulou sorridente entre as mesas, tirou fotos com tietes, levou tapinha nas costas, reviveu o fascínio do poder sem a adrenalina que o “energizava” na Presidência da República.

Bruno Boghossian - A fatura da gastança de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Detalhes da fatura ampliam provas de abuso de poder econômico e motivos para tornar ex-presidente inelegível

Faltava um ano para a eleição quando Jair Bolsonaro prometeu um auxílio de R$ 400 por mês para os caminhoneiros. Era outubro de 2021, e o presidente via o preço dos combustíveis azedar o humor de um grupo importante de sua base política.

O plano sofreu resistências dentro do governo e ficou na geladeira. A equipe econômica e o centrão só embarcaram naquela gastança em julho de 2022, quando o cheiro de derrota nas urnas ficava mais forte. O desespero era tanto que o voucher foi turbinado para R$ 1.000.

Bolsonaro usou o caixa do governo como fundo de financiamento de campanha. O rombo que o ex-presidente deixou mostra que a ordem era despejar sem critério a maior quantidade possível de dinheiro com o carimbo do Palácio do Planalto nos meses que antecederam a eleição.

Muniz Sodré* - A mesoestrutura do crime

Folha de S. Paulo

Convém cuidar com urgência da guerra interna no país para evitar uma coalizão de criminosos no poder

Estarrecedor, mas sinistramente nacional: o Ministério Público do Rio revelou uma tentativa de coalizão entre políticos da Baixada Fluminense (municípios de Nova Iguaçu, Queimados, Seropédica e Mesquita) e integrantes de uma milícia, para se infiltrar nos poderes constituídos.

Isso já tem, aliás, um grau de realidade. Mas numa reunião pré-eleitoral secretamente gravada, um chefe miliciano expunha a meta abrangente de aliados no Executivo, no Legislativo, no Judiciário e no próprio Ministério Público. Um fuzil enfeitava a mesa, e circulava o vídeo em que ele, orgulhoso, exibia seis cabeças de jovens que tinha acabado de decapitar. O Estado Islâmico não faria melhor.

Merval Pereira – Narrativas

O Globo

Plataformas digitais terão que remunerar a imprensa profissional pelo uso indevido que fazem das notícias produzidas por equipes profissionais

O fato de o presidente Lula ter exortado o ditador Nicolas Maduro a fazer “sua própria narrativa” sobre a situação da Venezuela, negando os relatos de organismos internacionais que registram tragédias humanitárias com a fuga em massa de cidadãos para diversos países da América do Sul, especialmente o Brasil, em busca de liberdade e comida, mostra não apenas que a política externa do país está enviesada à esquerda mas, sobretudo, que a proposta do presidente é fruto do que se chama hoje de infocracia, governo da informação, onde a distinção entre ficção e realidade desaparece.

Quem trata desse tema com clareza, num pequeno grande livro justamente intitulado “Infocracia”, da Editora Vozes, é o filosofo coreano, radicado na Alemanha, Byung-Chul Han. Ele vai além da constatação de que as plataformas digitais empobrecem o debate político, tornando imaturos seus viciados, ou os impedindo de amadurecer. Ou que a política se submete às mídias de massa, o entretenimento determina a mediação de conteúdos políticos, deteriorando a racionalidade.

Míriam Leitão - Aliança dos povos e o vale dos isolados

O Globo

Documentários chegam para iluminar esse Dia do Meio Ambiente vivido sob o impacto do ataque da Câmara ao meio ambiente e aos indígenas

O xamã Davi Kopenawa está falando na Terra Indígena Yanomami e se dirige a uma mulher. “Maial, você está aqui com o seu povo. Esse é o seu povo”. Maial é Kayapó e não Yanomami. Davi fala a mesma coisa para Alessandra Korap e ela é Munduruku. Os três povos com enormes distâncias entre os seus territórios estão juntos agora. A impactante história dessa união e da tragédia do garimpo em seus territórios pode ser vista no documentário “Escute: a terra foi rasgada”, que será lançado hoje em São Paulo. “Há muitas pessoas ameaçadas no Vale do Javari”, diz Eliésio Marubo, ao lado do irmão Beto, no lançamento de outro documentário no Rio de Janeiro, “O vale dos isolados. O assassinato de Bruno e Dom”, feito pelos jornalistas Sônia Bridi e Paulo Zero, da Globoplay.

Bernardo Mello Franco - Um amigo no Supremo

O Globo

"Mexer na Suprema Corte para botar amigo é um retrocesso", disse presidente na campanha

Não é “prudente” nem “democrático” que um presidente queira ter amigos no Supremo Tribunal Federal. A afirmação foi feita por Lula, em debate no segundo turno da eleição presidencial.

“Tentar mexer na Suprema Corte para botar amigo, companheiro ou partidário é um atraso. É um retrocesso que a República brasileira já conhece muito bem”, disse o então candidato do PT. “Eu sou contra”, reforçou.

Sete meses depois, o presidente indicou seu advogado particular a uma cadeira no STF. Em março, ele havia deixado claro que a relação com Cristiano Zanin ia muito além do campo profissional. “É meu amigo, é meu companheiro”, informou, em entrevista à BandNews.

A contradição com o discurso de campanha não é o único problema da escolha. Ao indicar Zanin, Lula sinaliza que pretende ter um escudeiro no Supremo. Nos últimos anos, o ungido o defendeu nas esferas criminal, cível e eleitoral.

Elio Gaspari - Lula usa o varejo para casos do atacado

O Globo

O Congresso tem maioria conservadora, e o presidente vocaliza uma agenda que o afasta de um equilíbrio

Churrascos, verbas ou mesmo troca de ministros não resolverão as dificuldades do governo com o Congresso. Lula foi eleito com a escassa vantagem de 1,8 ponto percentual e tem uma base parlamentar instável, mas acredita que pode resolver problemas do atacado com soluções do varejo. O Congresso tem uma maioria conservadora pressionada por uma minoria radical, até troglodita. O presidente, contudo, vocaliza uma agenda que o afasta de um equilíbrio.

Um exemplo: durante a campanha eleitoral ele disse que “o agronegócio, sabe, que é fascista e direitista. (....) porque os empresários que têm um comércio com o exterior, que exportam para a Europa, para a China, não querem desmatar.” Coisas da campanha.

Em maio, quando o ministro da Agricultura foi desconvidado para a abertura do Agrishow de Ribeirão Preto, voltou a crer na ação de “fascistas”. Isso, levando o líder do MST na sua comitiva para a China.

Há grandes empresários do agro que o apoiaram. Essa retórica pode agradar ilustrados das cidades, mas para os empresários do campo, tornam-se um fator de isolamento. Quando um parlamentar ligado aos agricultores, reivindica uma verba, ele pode até vir a votar com o governo na terça-feira, mas na quinta atende de novo sua base.

Dorrit Harazim - Tiranete DeSantis

O Globo

Foi empunhando a bandeira da defesa dos “direitos dos pais” que a nova lei recorreu ao genérico “pornografia” para proibir uma edição ilustrada do clássico A Bela Adormecida

Illinois é o estado americano governado pelo empresário democrata J.B. Pritzker, cuja fortuna familiar, ancorada na antiga rede hoteleira Hyatt, abriga 11 bilionários. O ilustre sobrenome também honra o mais prestigioso prêmio mundial de arquitetura, criado pelo patriarca há quase 50 anos. Dias atrás pousou na mesa de Pritzker uma lei fácil de assinar, fossem outros os tempos. Só que nada mais é banal ou simples no inglório contexto atual de guerras culturais. Daí o texto a ser chancelado pelo governador adquirir ares quase revolucionários, quando enuncia, simplesmente, que é proibido proibir:

—Fica declarado ser política do estado incentivar e proteger a liberdade de bibliotecas e do sistema bibliotecário para a aquisição de materiais, sem ingerência externa; fornecer-lhes proteção contra tentativas de banir, remover ou restringir o acesso a livros e outros materiais.

Cacá Diegues - Como nasceu o Brasil

O Globo

O brasileiro foi descobrindo, com sofrimento e decepção, que esse passado de costumes ia sendo construído graças às narrações do presente

De vez em quando, a gente tem que deixar de lado certos conceitos consagrados e assumir o risco de buscar no desconhecido o que está na hora de encarar. O mundo do conhecimento, hoje dominado pelo digital e pela inteligência Artificial, filhos da Internet que já tem 50 anos de controle de nossas mentes, está sendo abalado por novas formas de pensar o mundo, novas ideias para entendermos melhor o que fazemos aqui. E sobretudo para onde vamos ou queremos ir.

Toda civilização conhecida, quer esteja decifrada ou não, possui valores mais ou menos organizados que nos ajudam a estabelecer critérios e limites para saber o que elas são ou foram. Não importa se já não são práticas sociais vigentes, se já não exista uma população que as represente com significância no mundo real. O que importa é que elas existam ou que tenham existido de modo concreto, deixando seus herdeiros de hoje a praticar, mesmo que não tenham consciência disso, o que foram suas práticas.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Rastros de ódio

Carta Capital

As rebeliões dos despossuídos são raros espasmos contra a baderna eterna dos dominantes

Acompanho com intensa curiosidade e muito interesse as preparações da CPI do MST. Ainda na semana passada, ouvi uma entrevista do presidente da Comissão, Coronel Zucco. Também segui as manifestações do relator, deputado Ricardo Salles, a Excelência que se especializou em instigar a passagem de boiadas. Na segunda-feira 29, na primeira agenda externa da CPI, os deputados cumpriram diligências na zona rural do Pontal do Paranapanema, no extremo oeste do estado de São Paulo.

A propósito de diligências, ocorreu-me relembrar a sucessão dos recentes casos de escravidão em áreas rurais de vários estados de Pindorama. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) resgatou 918 trabalhadores em condições semelhantes à de escravidão entre janeiro e 20 de março de 2023, alta de 124% em relação ao volume dos primeiros três meses de 2022.

Ao ler as declarações dos responsáveis por esses empreendimentos escravagistas, fui abalroado por uma desagradável sensação: os senhores escravocratas não tinham clareza a respeito de suas ações. Na verdade, as praticavam com a naturalidade que confirma a permanência do espírito escravagista nas camadas proprietárias da sociedade brasileira.

Cristovam Buarque* - Ainda é Lula

Blog do Noblat / Metrópole

Lula relega a esperança dos que votaram nele sonhando com a reunificação que a democracia permite entre discordantes

Ao trazer a Venezuela de volta, o presidente Lula demonstrou a importância de sua eleição. Seu antecessor cometeu o desatino de colocar as posições políticas pessoais na frente dos interesses do Brasil, praticamente rompendo relações com um país com o qual temos 2.199 quilômetros de fronteira. Lula retomou as relações com a Venezuela, mas também colocou suas posições políticas na frente, quando disse que as violações de direitos humanos e a quebra das instituições democráticas são apenas narrativas de opositores do governo venezuelano. Ao dizer isto, Lula ignorou aqueles que o apoiaram em 2022, mas discordam do comportamento político do governo Maduro ao desrespeitar as instituições democráticas.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Reforma do ensino médio precisa seguir adiante

O Globo

Suspensão temporária deve ser aproveitada para incorporar sugestões necessárias a seu aperfeiçoamento

Lançada por Medida Provisória ainda no governo Michel Temer, a reforma do ensino médio, que estipula escola em tempo integral e diversos percursos de formação para os alunos, foi suspensa pelo Ministério da Educação (MEC), sob o pretexto de reavaliar seu impacto. O erro mais grave seria revogá-la e retomar toda a discussão sobre o tema da estaca zero, apenas para agradar a grupos de interesse afetados, como os sindicatos de professores. A reforma é estratégica e, embora necessite de ajustes, precisa ser retomada com urgência. Contribuição essencial para isso vem de uma nota técnica do movimento Todos Pela Educação, elaborada com o auxílio de acadêmicos, secretários estaduais e profissionais do ensino médio.

No longo caminho para a melhoria do ensino público básico, ficou evidente que o ensino médio, com suas elevadas taxas de evasão, necessitava de uma reforma específica. Ela foi lançada em 2016 e convertida em lei no ano seguinte. O ensino foi ampliado de 800 horas para pelo menos mil horas anuais de aulas, com uma nova organização de currículo. Com o objetivo de aumentar o interesse pelo conteúdo, os percursos se tornaram flexíveis, com a oferta aos alunos de quatro áreas de conhecimento (matemáticas, linguagens, ciências da natureza e ciências humanas e sociais aplicadas). Ganhou destaque a opção pelo ensino técnico e profissional, e estabeleceram-se “itinerários formativos” para incentivar o estudo por meio de oficinas e projetos diversos, escolhidos com a participação dos alunos, com o fim de obter competências exigidas pelo mercado de trabalho.

Poesia | Fernando Pessoa - Grande são os Desertos

 

Música | Jackson do Pandeiro - Forró em Limoeiro ·

 

sábado, 3 de junho de 2023

Oscar Vilhena Vieira* - Os guardiões da floresta

Folha de S. Paulo

Supremo estará dando uma enorme contribuição para a contenção do desmatamento se derrubar a tese do marco temporal

A tese do marco temporal, criada e patrocinada por setores predatórios do meio ambiente, que cobiçam explorar as terras indígenas, nada mais é do que uma tentativa inconstitucional de restringir os direitos dos povos indígenas à própria sobrevivência.

recente aprovação do PL 490, na Câmara dos Deputados, em nada muda a natureza inconstitucional da malfadada tese. Como já explicou o ministro Edson Fachin, em seu voto, os direitos originários dos povos indígenas compõem o rol das cláusulas pétreas da Constituição, não podendo ser abolidos, sequer por emenda constitucional. O movimento legislativo, portanto, é apenas uma estratégia para tentar constranger o Supremo, que reiniciará o julgamento do marco temporal na próxima semana.

George Gurgel de Oliveira* - Brasil, dia mundial do meio ambiente e os desafios para a sustentabilidade

Vivemos um processo de mundialização que foi transformando a humanidade nas suas relações entre si e com a própria natureza, impactando, como nunca antes na história, a biodiversidade planetária, colocando em risco a sobrevivência da própria humanidade.

No Brasil, o Governo Lula está desafiado a garantir e ampliar a democracia brasileira, em uma outra perspectiva frente à nossa difícil realidade política, econômica, social e ambiental e às mudanças em andamento no cenário internacional, onde a guerra Rússia-Ucrânia com a participação efetiva da OTAN e dos EUA, traduz a complexidade do mundo em que vivemos, com um maior protagonismo do mundo oriental, tendo a China como a expressão maior desse complexo cenário internacional.   

Os conflitos e as contradições econômicas, sociais e ambientais gerados ao longo da história da sociedade brasileira permanecem como resultado das relações predatórias e desiguais entre os diversos atores políticos, econômicos e sociais que ainda determinam o funcionamento da sociedade brasileira e as relações estabelecidas desta sociedade entre sí, com a sociedade mundial e a própria natureza.

Dora Kramer - Presidencialismo de colisão

Folha de S. Paulo

Cabe a Lula mostrar que não perdeu a argúcia para desarmar a arapuca no Congresso

O governo pode liberar emendas, pode distribuir quantos cargos tiver e fazer quantas reuniões quiser que nada disso será suficiente para resolver a situação periclitante ora em cartaz na área política.

Dias piores virão caso o presidente da República não pare um pouco de correr atrás de uma indicação ao Prêmio Nobel ou à Secretaria-Geral da ONU e trate de cuidar da casa. No caso, o Brasil; notadamente, a Casa de representação dos brasileiros.

Alvaro Costa e Silva - Lula e Lira no terceiro turno

Folha de S. Paulo

Cabo de guerra na Câmara expõe luta por poder e dinheiro

O revogaço, estratégia de Lula em seus primeiros dias na Presidência, parou na Foz do Amazonas.

A política de desfazer o tanto de errado que Bolsonaro fez ao longo de quatro anos ganhou maior visibilidade na segurança pública, com a suspensão de registros para caçadores, atiradores e colecionadores. O plano é elaborar uma nova regularização para o Estatuto do Desarmamento, promessa de campanha. Entre 2019 e 2022, a quantidade de armas de fogo em acervos particulares de civis e militares mais que dobrou, chegando a quase 3 milhões. Muitas dessas armas acabaram desviadas para mãos de traficantes e milicianos.

Pablo Ortellado - Os dois legados de junho de 2013

O Globo

Aquele período é, ao mesmo tempo, o sangue da nova política brasileira e um persistente enigma a ser decifrado

Durante o mês de junho, revisitarei na coluna os protestos de junho de 2013, esse mês que não parece terminar.

Dez anos depois, eles seguem nos assombrando e nos convocando a desvendá-los. Por um lado, é evidente que junho de 2013 é um marco temporal que claramente separa os 20 anos da Era FHC-Lula do agitado mundo das grandes manifestações de rua, da prisão de empresários e políticos e do populismo radical de direita. Por outro lado, a ligação entre os protestos de 2013 e tudo o que aconteceu depois não é direta, nem é simples.

Carlos Alberto Sardenberg - Um ‘Pibão’ desconfortável

O Globo

O agro está no rol dos adversários da esquerda dominante no governo Lula. Incluindo o presidente. Um baita equívoco

Em qualquer país, o governo, seja de direita ou de esquerda, comemora quando há crescimento do Produto Interno Bruto. Lógico. É tudo de bom — emprego, renda, oportunidades. Pois, nesta semana, o IBGE informou que o PIB brasileiro cresceu 1,9% no primeiro trimestre em relação ao período anterior, resultado expressivo e bem acima das expectativas. Tanto que os analistas elevaram a perspectiva de expansão neste ano para acima dos 2%, o dobro do que se calculava no início de 2023.

O governo e seus aliados não comemoraram. Em alguns setores, notou-se até mesmo um certo desconforto. Há um motivo técnico. O resultado do primeiro trimestre foi puxado pela agropecuária, com uma surpreendente e espantosa expansão de 21,6%, sempre na comparação com o último trimestre do ano passado.

Eduardo Affonso -Porchat não é uma ilha

O Globo

Porchat não errou, porque nunca defendeu humor racista ou que causasse dor. Mas isso não basta: agora o humor tem uma ‘função social’

A Ilha Porchat, no litoral paulista, ficou famosa pelos bailes de carnaval, apinhados de celebridades. Isso nos anos 80, quando, para que fosse considerada celebridade, a pessoa precisava ser razoavelmente conhecida.

Dois detalhes: os bailes eram no Ilha Porchat, no masculino. Não que a ilha, como muitos foliões, mudasse de gênero no carnaval: havia aí uma silepse — tratava-se do Clube Ilha Porchat. E ela não era, tecnicamente, uma ilha, mas um promontório. Só que, convenhamos, “Baile do Promontório Porchat” está longe de ter o mesmo charme.

Miguel Reale Júnior - A inconstitucional e vergonhosa anistia

O Estado de S. Paulo

A PEC 9/2023 perpetua a desigualdade de gênero e de cor e destrói o espírito das ações afirmativas endossadas constitucionalmente

A partir de 2009, alterações legislativas visaram a implementar maior participação das mulheres nos partidos políticos e no processo eleitoral. Essas ações afirmativas receberam apoio significativo do Judiciário, em decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Estabeleceu-se no artigo 44, V, da Lei dos Partidos (Lei n.º 9.096/95) que os recursos partidários serão aplicados, no mínimo, no porcentual de 5% na criação e manutenção de programas de promoção e difusão da participação política das mulheres. Por sua vez, conforme a Lei n.º 13.165 de 2015, determinou-se a reserva de no mínimo 5% e de no máximo 30% do montante do Fundo Partidário Eleitoral para aplicação nas campanhas de suas candidatas.

Bolívar Lamounier - Três vezes Brasil

O Estado de S. Paulo

O País hoje: uma mediocridade política só comparável, no passado, às ‘ditaduras estaduais’, uma recuperação econômica que parece se distanciar no horizonte e uma sociedade desordeira

A rigor, o título deste artigo deveria ser Relembrando Euclides da Cunha. O leitor com certeza sabe que o grande autor de Os Sertões foi também um notável ensaísta e, em particular, um exímio analista político.

Não vacilo em afirmar que seu Esboço de História Política, escrito no primeiro centenário da Independência, incluído no volume À Margem da História (reeditado pela Editora Lello em 1967), tem seu lugar assegurado entre os quatro ou cinco melhores textos brasileiros nessa área. Inventei outro título por uma razão muito simples: meu propósito não é resenhar Euclides, mas aproveitar o texto dele para reinterpretar e trazer o texto dele até o Brasil atual. Na primeira parte, apenas interpreto a linha-mestra do Esboço; na segunda e na terceira, exponho o que se passou desde 1891, superpondo o que veio à minha mente à medida que relia o original de Euclides.

O fio condutor da interpretação euclidiana parece-me ser este: “Somos o único caso histórico de uma nacionalidade feita por uma teoria política”. Complementado logo adiante por esta frase-manifesto: “Estávamos destinados a formar uma raça histórica, através de um longo curso de existência política autônoma. Violada a ordem natural dos fatos, a nossa integridade étnica teria de constituir-se e manter-se garantida pela evolução social. Condenávamos à civilização. Ou progredir ou desaparecer”.

João Gabriel de Lima - Banquete com os canibais

O Estado de S. Paulo

Partidos radicais que chegam a governos contribuem para a deterioração dos regimes de liberdade

O Partido Popular, de direita, foi o grande vitorioso nas eleições regionais espanholas que ocorreram no domingo, dia 28. Venceu na capital Madri e em redutos da esquerda, como Sevilha e Valência. O PP emerge, assim, como grande favorito nas eleições nacionais previstas para julho. Os espanhóis se perguntam: em caso de vitória, o PP irá se aliar ao Vox, o raivoso partido da direita radical espanhola, que também vem ganhando peso eleitoral?

Trata-se do dilema central da direita europeia, segundo escreveu Soledad Gallego-Díaz, ex-diretora do jornal El País. Ela lembra que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, nascida e criada na democracia cristã alemã, repudia qualquer acordo com extremistas. Conservadores como ela temem ser devorados por radicais – a italiana Giorgia Meloni e a francesa Marine Le Pen dizimaram a direita moderada em seus países. Em sua coluna, Gallego-Díaz cita um verso do cantor australiano Nick Cave: “Quem janta com canibais pode acabar comido”.

Fareed Zakaria - Um novo mundo antiamericano

O Estado de S. Paulo

Navegar nessa arena internacional será o grande desafio da diplomacia dos EUA

Acompanhando a eleição turca, fiquei impressionado ao escutar uma das mais graduadas autoridades do país, o ministro do Interior, Suleyman Soylu, discursando para a multidão de uma varanda. Exultante, ele prometeu que o presidente Recep Tayyip Erdogan “varrerá qualquer um que causar problemas” para a Turquia, “incluindo o Exército americano”.

Anteriormente, Soylu disse que indivíduos “perseguindo uma abordagem pró-EUA serão considerados traidores”. Tenha em mente que a Turquia é membro da Otan, com bases americanas, há 70 anos.

O próprio Erdogan usa com frequência e estridência a retórica anti-Ocidente. Uma semana antes do primeiro turno, ele tuitou que seu rival “não revelará o que prometeu para os terroristas matadores de bebês ou para os países ocidentais”.

Erdogan pode ser um dos representantes mais extremos dessa atitude, mas não está só. Conforme muitos comentaristas têm notado, a maior parte da população mundial não está alinhada com o Ocidente em sua luta contra a invasão da Ucrânia ordenada por Vladimir Putin. E a guerra em si apenas ressaltou um fenômeno mais amplo: os mais poderosos países em desenvolvimento estão cada vez mais anti-Ocidente e anti-EUA.

Divergência para 2026 trava federação PSDB e MDB

Bianca Gomes / O Globo

Partidos negociavam para as eleições de 2024, mas desistiram pela obrigatoriedade de estarem juntos em 2026; união favoreceria a candidatura de Ricardo Nunes para a prefeitura de São Paulo

MDB e o PSDB desistiram nesta sexta-feira de formar uma federação após constatarem que a inclusão do MDB na já existente federação entre PSDB e Cidadania obrigaria os três partidos a estarem juntos nas eleições presidenciais de 2026.

Hoje, no entanto, não há consenso para uma aliança daqui três anos. Enquanto o PSDB estuda lançar o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, à Presidência, o MDB, hoje, faz parte da base do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

Em entrevista ao GLOBO publicada na segunda-feira, Leite disse que as legendas consultariam o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre o tema, mas a decisão de abandonar a ideia veio antes mesmo de uma resposta da Corte.

Marcus Pestana* - Juiz de Fora, berço e laboratório do capitalismo brasileiro

Juiz de Fora, minha aldeia, completou 173 anos esta semana. Fernando Pessoa disse certa vez: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia...”. O Paraibuna é o rio da minha aldeia. “Manchester mineira”, “Atenas de Minas”, “O primeiro sorriso de Minas” (Manuel Bandeira), foi um dos berços da transição da sociedade agrária e escravista para o mundo urbano-industrial-assalariado no Brasil. Síntese da formação social brasileira, mescla da elite branca, moderna e empreendedora, com uma grande população negra, no início ainda escrava, temperada com uma pitada de influência dos imigrantes italianos, alemães e sírio-libaneses.

Juiz de Fora hospedou a primeira hidrelétrica da América Latina no final do século XIX. Até 1931, só havia uma estrada brasileira pavimentada, a União-Indústria, que ligava a capital, Rio de Janeiro, à Petrópolis e Juiz de Fora. As ferrovias dominavam. O boom da economia cafeeira, e não suas crises, gerou o excedente de capital para o nascimento pioneiro das indústrias têxteis, cervejeiras, metalúrgicas e da construção civil.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

PIB positivo não dá pretexto para complacência

O Globo

Análise de Lula sobre surpresa no resultado da economia está errada. É hora de trabalhar, não de festejar

Foi surpreendente o crescimento da economia brasileira no primeiro trimestre. O PIB subiu 4% em relação ao mesmo período do ano passado. A expansão se deveu sobretudo à agropecuária, cujo crescimento foi de 18,8%. Os serviços também registraram alta de 2,9%. Comparada aos três últimos meses de 2022, a economia cresceu 1,9%, acima de Estados Unidos (0,3%), México (1%) e perto da China (2,2%). Todos os dados divulgados pelo IBGE ficaram acima das previsões. O crescimento de 3,3% acumulado em 12 meses levou analistas a refazer as estimativas para 2023.

A projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) feita em abril era de 0,9%. No último levantamento do Banco Central (BC), a previsão era de 1,26%. Mesmo levando em conta que o ritmo deverá desacelerar nos próximos meses, não será surpresa se for revisada para mais de 2%. É pouco para o potencial do Brasil e muito abaixo do necessário para recuperar a renda de trabalhadores e a confiança dos empresários. Mas, diante das incertezas que ainda cercam a política econômica, é sem dúvida motivo para celebrar.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Verdade

 

Música | Roberta Sá - Sorriso Aberto

 

sexta-feira, 2 de junho de 2023

Vera Magalhães - Pacheco vai matar tudo no peito?

O Globo

Presidente do Senado topa correr com MP, engavetar marco temporal e votar Zanin para o STF, mas com qual expectativa?

Diante da humilhação pública imposta por Arthur Lira a Lula na votação da Medida Provisória da estrutura do governo, a rapidez e a facilidade com que a proposta tramitou no Senado transformou Rodrigo Pacheco numa espécie de salvador da pátria do governo.

Não foi só na votação da MP que Pacheco levou alívio a um governo que estava nas cordas na Casa vizinha. Ele também confirmou a expectativa de que o Projeto de Lei que estabelece o marco temporal para demarcação de terras indígenas não correrá no Senado como na Câmara. E listou outras propostas que retiravam direitos dos povos originários que não prosperaram com os senadores.

Por fim, tudo leva a crer que a indicação de Cristiano Zanin ao Supremo Tribunal Federal, enfim confirmada para surpresa de ninguém, será aprovada com agilidade e tranquilidade na Casa, sem o sufoco que Davi Alcolumbre impôs ao último nomeado para a Corte, André Mendonça.

O que explica a boa vontade de Pacheco com Lula, que destoa de maneira tão explícita do jogo bruto de Lira? E, principalmente: será possível esperar que o presidente do Senado mate no peito todas as bolas quadradas do governo?

Bernardo Mello Franco - Lira fabricou crise para manter governo como refém

O Globo

Chefão da Câmara alegou "insatisfação generalizada" e ameaçou implodir ministérios de Lula

Já era noite de quarta-feira quando Arthur Lira desceu do carro oficial na chapelaria do Congresso. A sessão havia sido aberta antes das dez da manhã, mas os deputados dependiam da chegada do chefão da Câmara.

Cercado por microfones, ele informou que havia uma “insatisfação generalizada” com o Planalto. Em seguida, ameaçou não votar a Medida Provisória que reestruturou o governo. “Não é uma matéria de vida ou morte para o país”, desdenhou.

Se a MP não fosse aprovada até ontem, a equipe de Lula seria dissolvida. Dezessete ministérios desapareceriam da noite para o dia. A Esplanada voltaria ao formato deixado por Jair Bolsonaro, que perdeu a eleição.

Pastas como Cultura e Povos Indígenas, prometidas na campanha, simplesmente deixariam de existir. “Se der certo, parabéns”, ironizou Lira, antes de dar as costas aos repórteres e entrar no elevador privativo.

O pupilo de Eduardo Cunha levou o clima de chantagem até o limite. Forçou o presidente a pedir arrego e abrir os cofres para o Centrão. Só na terça, o Planalto liberou R$ 1,7 bilhão em emendas parlamentares. Mesmo assim, suou frio até o fim da votação, que invadiu a madrugada de quinta-feira. “Foi doído, foi doloroso”, admitiria o líder do governo, José Guimarães.

Flávia Oliveira - Sob ataque, de novo

O Globo

Partidos e parlamentares vão precisar aprender que política se faz com diálogo, negociação e até barganha, nunca com ameaça, emparedamento e golpismo

Teve de um tudo na série de episódios que, pela segunda vez em um semestre, ameaçaram o funcionamento do governo eleito para livrar a democracia da extrema direita golpista. Articulação política capenga, coalizão inconsistente, Legislativo guloso, oposição articulada foram os ingredientes que, cozidos em fogo amigo, deram numa quarta-feira, 31 de maio, quase tão dramática quanto o domingo 8 de janeiro, de preocupante memória.

Não é exclusivo do Brasil o ambiente político polarizado, movido a solavancos. Mundo afora, candidatos ao Executivo vitoriosos nas urnas esbarram em parlamentares e opositores empenhados em impor à governabilidade testes de estresse permanentes. Aconteceu no Chile do presidente Gabriel Boric, na França de Emmanuel Macron, na Espanha de Pedro Sánchez. Nos Estados Unidos de Joe Biden, só anteontem presidente e Congresso fecharam o acordo para aumentar a dívida e livrar o setor público da paralisação por falta de recursos. Na Colômbia, Gustavo Petro despachou o gabinete construído em aliança e recompôs seu ministério com aliados de esquerda, em resposta à resistência de partidos da base a reformas propostas pelo Executivo.

Luiz Carlos Azedo - Governo Lula pode avançar na questão ambiental

Correio Braziliense

Lula não apresentou ainda um programa de transição para a economia verde, potencial existente no país; pelo contrário, ressaltou a subordinação da questão ambiental ao imediatismo econômico

Um dos pais da democracia norte-americana, Alexander Hamilton dizia: “A maior parte dos homens que subverteram a liberdade das repúblicas começaram sua carreira cortejando servilmente o povo; começaram como demagogos e terminaram como tiranos”. A frase emblemática frequenta a nossa crônica política desde os primórdios da República e serve de advertência toda vez que um governante coloca a questão democrática em segundo plano e flerta com um apelo às massas para alcançar seus objetivos. No caso brasileiro, desde a Proclamação da República, todos que enveredaram por esse caminho fracassam. O mais bem-sucedido, Getúlio Vargas, tirou a própria vida, no Palácio do Catete, em 1954, para não ser deposto.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, é o exemplo pronto e acabado do demagogo que virou ditador na América do Sul. A recepção que lhe foi dada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao relativizar as violações de direitos humanos e a falta de democracia no país vizinho, transformou-o em espelho do que poderia vir a ser o rumo político de Lula, não fosse o Brasil um país com instituições republicanas bem mais sólidas do que as da Venezuela. Lula não pode fazer o que quer, quando quer e como quer, as contingências o impedem.

Reinaldo Azevedo - Lula entre a vontade e o melhor possível

Folha de S. Paulo

Se tudo der errado, morremos todos: o asno, o rei e eu

Entendo, lendo isso e aquilo, que o governo Lula já acabou, afundado em irresoluções. E todos os desaires derivariam de atitudes erradas do presidente. Li há pouco um troço que sugere haver traços de senilidade nas suas atitudes. Espantoso, mas não surpreendente. Discordo, sim, e torço para estar certo, não por vaidade intelectual. É que, do contrário, não vislumbro um futuro muito alvissareiro para o país. Até porque, convenham, como num poema de Jacques Prévert, "o asno, o rei e eu/ Estaremos mortos amanhã".

"Os homens fazem a sua própria história rigorosamente como querem, segundo circunstâncias que são de sua escolha. O passado é irrelevante. As tradições de todas as gerações mortas fenecem com elas e, uma vez também defuntas, libertam o cérebro dos vivos". Uma ferramenta qualquer de inteligência artificial, fazendo jus à burrice natural destes tempos, poderia reescrever assim um trecho de "O 18 Brumário de Luís Bonaparte", de Karl Marx. Nesta minha primeira coluna de junho, nos 10 anos daquele 2013 do florescer dos porras-loucas, mal posso conter a tentação de fazer aqui o elogio da pura vontade contra as fronteiras do real. Tempos difíceis. Faço soar o alerta de ironia?