domingo, 7 de abril de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Antes ímã para imigração, Brasil virou terra de emigrantes

O Globo

Comunidade brasileira no exterior já soma 4,5 milhões. Fuga de cérebros é prejudicial ao desenvolvimento

Conhecido como terra de oportunidades acolhedora para imigrantes, o Brasil tem se transformado em país de emigrantes. A comunidade brasileira no exterior soma 4,5 milhões, sem contar aqueles em situação ilegal. Mais da metade desses brasileiros que vivem no exterior, ou 2,6 milhões, emigrou na década de 2012 a 2022, um período de crises, com destaque para a debacle econômica e política da gestão Dilma Rousseff. As estatísticas de emigração são especialmente elevadas entre 2013 e 2020, segundo a série de reportagens que o GLOBO tem dedicado ao tema.

Em 2013, o consumo das famílias brasileiro registrou o décimo ano de crescimento consecutivo, mas a cada ano inferior ao anterior. A partir daí, vieram a recessão e o aperto que estimularam a busca por novas oportunidades fora do país. “As pessoas que haviam ascendido socialmente e formado uma nova classe média passaram a ter dificuldades para manter a posição conquistada”, afirma o sociólogo Rogério Baptistini, da Universidade Mackenzie.

É a perda da esperança numa vida melhor que leva sobretudo os mais jovens a pensar em emigrar. Uma pesquisa do Datafolha feita em 2022 com jovens em 12 capitais brasileiras constatou que 76% tinham “muita” ou “alguma” vontade de sair do Brasil. Quanto mais novos, maior o desejo de emigrar. Sem base para um crescimento econômico sustentado, capaz de gerar empregos e renda para que a população realize seus projetos de vida, o Brasil perdeu a imagem, cultivada durante muito tempo, de “país do futuro”. O resultado é que, na última década, o número de brasileiros no exterior aumentou 47%, enquanto a população vivendo dentro das fronteiras cresceu apenas 6,5%.

Marcos Augusto Gonçalves - Ziraldo usou humor como arma contra a ditadura no Pasquim

Folha de S. Paulo

Cartunista e autor de 'O Menino Maluquinho' foi um dos fundadores do semanário, que se tornou marco no jornalismo

Um homem que se escora com um braço numa parede, que é a própria margem do desenho, está perpassado por um facão –ou uma espada– que lhe foi cravada nas costas e vazou pelo seu tórax. Com uma expressão dolorida e de certa forma estóica, o personagem explica para quem o observa: "Só dói quando eu rio".

A charge icônica de Ziraldo Alves Pinto, publicada no semanário O Pasquim, é uma dolorosa metáfora de uma época. Expressa não apenas a opressão política promovida pela ditadura militar como também a situação existencial daquele tempo, o modo como a atmosfera sufocante se materializava no corpo e no ânimo –ou no desânimo– de quem tentava sobreviver ao cerco que se impunha às liberdades.

Tratando-se de um chargista, que dedicou grande parte de sua obra ao humor, o cartum se revestia de significados também autobiográficos. Como situar o riso, essa reação tão humana, num contexto que seria, na realidade, de chorar?

A aparente contradição, com toda sua dimensão trágica, foi enfrentada pelo artista e explorada de maneira surpreendente e brilhante pelo grupo de chargistas do Pasquim, que reunia, entre outros, craques como Jaguar, Fortuna, Henfil, Claudius e Millôr Fernandes.

Ignácio de Loyola Brandão - Nunca esquecer 64

O Estado de S. Paulo

Jornalistas estavam desaparecidos. Vlado, que trabalhara na ‘UH’, nunca mais voltou. Foi morto

Para Clarice Herzog

Dia 31 de março de 1964. Ao chegar ao jornal Última Hora, dei com a porta de ferro baixada. Pequena abertura me deixou entrar. Duas da tarde, redação superlotada e silenciosa. Soubemos que o general Mourão, à frente das tropas, descia para o Rio de Janeiro, aguardando a adesão de Amaury Kruel, chefe do Exército em São Paulo. UH era pró-Jango Goulart, herdeiro de Getúlio. Havia dias o noticiário nos deixava inquietos. A polícia viria nos empastelar. Nessa tarde, o que nos atemorizava era a informação de que o Comando de Caça aos Comunistas, armado, deixara o Mackenzie e descia rumo ao Anhangabaú, onde estávamos. Diretores pediram que as mulheres saíssem, UH tinha muitas jornalistas, colunistas, diagramadoras, telefonistas. Sabíamos que o encontro poderia ser violento. Nenhuma arredou pé. A grega Alik Kostakis, poderosa colunista social, com sua voz rouca, dizia: “Pensar que vamos morrer aos pés do convento de São Bento é ironia”. Soubemos que o CCC desviou na Praça Ramos de Azevedo e foi atazanar os estudantes de Direito da São Francisco. Mas ficou a tensão. Até que, 6 da tarde, um batalhão da Força Pública, hoje PM, invadiu o jornal, quebrou teletipos, telefones, máquinas de escrever, rasgou jornais e livros, estourou armários, prendeu alguns. Naquela noite, fui ao Gigetto, onde se reunia a classe artística. A certa altura, Maurício Loureiro Gama e o repórter Tico-Tico (conhecido como um dedo-duro), jornalistas da Tupi, abriram a porta gritando: “Vencemos o comunismo!”.

Muniz Sodré - Longe vá, temor servil

Folha de S. Paulo

O silêncio como desculpa para não melindrar casta melindrosa é tentativa inequívoca de lavagem da história do golpe militar

Nenhuma organização criminosa subsiste hoje sem lavagem de dinheiro. E todo sistema de poder político precisa lavar a sua história das origens criminosas, assim como da eventual trilha corruptiva na estabilização de um Estado. Seja qual for sua natureza. O Vaticano tenta há muito tempo lavar a Igreja do sangue derramado no escravismo, na queima inquisitorial de milhões de mulheres e nos holocaustos de conquista, do mesmo modo que as antigas potências coloniais, fazendo penitências. Ética hipócrita do arrependimento.

Na memória dos 60 anos do golpe cívico-militar de 64 pesam sobre a consciência coletiva frases de síntese como a do general ao presidente militar: "As coisas estão melhorando depois que começamos a matar". Impossível de esquecer, uma dívida do Estado à Nação jamais paga. Por isso, o silêncio como desculpa para não melindrar uma casta melindrosa é tentativa inequívoca de lavagem da história. Na galega, sem arrependimento, corroborada pela apatia da Comissão dos Mortos e Desaparecidos, já a caminho do que antigamente se chamava obra de Santa Engrácia: começa, não termina. Há nesse remancho laivos do "temor servil" que Evaristo da Veiga incrustou na letra do Hino da Independência, musicado por D. Pedro 1º. O temor de agora é o da honesta mediação entre passado e presente.

Míriam Leitão – Economia e a popularidade

O Globo

A conexão não está tão clara, mas se a inflação estivesse alta, seria fator de queda de aprovação

O governo se perde no emaranhado dele mesmo, numa gestão que tem muitos pontos positivos e muitos ruídos desnecessários. Na economia, a administração surpreendeu os céticos, mas trava uma batalha por dia, sem união do governo em torno do projeto que está entregando ao país a inflação baixa e algum crescimento. Há uma impressão errada de que a economia não está trazendo popularidade. Experimentasse o governo uma política que levasse à alta de inflação, para ver no que isso resultaria. O mundo está com uma conjuntura muito específica, com o adiamento sucessivo do início da queda dos juros americanos. Num cenário assim, há menos tolerância de investidores com os erros nos países emergentes, como essa bagunça em torno da Petrobras.

Bruno Boghossian - Lula sentiu uma encrenca

Folha de S. Paulo

Agitação na Petrobras e inquietação com ministros marcam urgência precoce que acomete o petista

Quando um marqueteiro se integra ao estafe palaciano, é sinal de que o presidente sentiu uma pontada de encrenca. Na política, esse especialista costuma ser comparado a um médico. Fora da época de campanha, pode-se procurá-lo para fazer exames de rotina, talvez a cada seis meses. Ele só precisa ficar de prontidão quando a situação aperta.

Nas últimas semanas, Sidônio Palmeira esteve em pelo menos duas reuniões com Lula. O marqueteiro da campanha petista em 2022 virou um conselheiro do presidente. Além disso, passou a dar orientações para ministérios estratégicos e foi escalado para melhorar a imagem da gestão de Nísia Trindade (Saúde).

Bernardo Mello Franco - Lula no púlpito

O Globo

“Vocês acreditam em Deus? Vocês acreditam em milagre?”

As duas perguntas poderiam abrir a pregação de um pastor. Na quinta-feira, abriram o discurso do presidente da República.

Lula foi a Arcoverde, no interior de Pernambuco, inaugurar uma elevatória de água. Diante da plateia sertaneja, descreveu a transposição do São Francisco como uma obra divina.

“Então, qual foi o primeiro milagre? O primeiro milagre é a gente estar vivendo o que a gente está vivendo hoje aqui”, afirmou.

O presidente recordou a infância no agreste, quando buscava água num açude barrento. Lembrou doenças causadas pela falta de saneamento, como a esquistossomose. Criticou a demora para a canalização do rio, prometida desde o Império.

“Esse é um milagre que aconteceu com um cara que viveu a seca”, disse. Em seguida, ele definiu sua própria eleição como um “ato de fé” dos brasileiros. “Isso só pode ser feito porque Deus existe. O homem lá de cima falou: ‘Eu vou ajudar o nordestino através de um nordestino’. E cá estou eu”, empolgou-se.

Merval Pereira - STF na gangorra

O Globo

O verdadeiro papel do STF é o de Suprema Corte, e não o de tribunal criminal de primeiro grau

A preocupação com a prescrição dos crimes sempre foi tema central do Supremo Tribunal Federal (STF), tanto que em seis anos está mudando pela segunda vez seus critérios sobre o foro privilegiado para tapar supostas brechas na legislação. Tamanho cuidado, no entanto, leva a que os juízes de nossa mais alta Corte de Justiça andem em círculos, e voltem à origem do problema, sem resolvê-lo.

Historicamente, o entendimento do Supremo sobre o que se chama tecnicamente de “foro por prerrogativa de função” era ampliativo, para abarcar todas as autoridades incluídas na Constituição Federal, ainda que o crime tivesse sido praticado antes da investidura no cargo e que não guardasse qualquer relação com o seu exercício. Foi esse entendimento ampliado do instrumento que provocou, em 2018, a mudança restritiva, proposta pelo ministro Luis Roberto Barroso.

Celso Rocha de Barros - Dez anos da Lava Jato

Folha de S. Paulo

Brasil lidou muito mal com revelações da operação

Operação Lava Jato está fazendo dez anos em 2024. Nada na política brasileira desse período pode ser entendido sem referência a ela.

Hoje é claro que o impeachment de Dilma Rousseff foi feito para parar as investigações da Lava Jato, que já começavam a chegar na direita. A opinião pública parece ter percebido a manobra: em 2018, ao invés de votar nos partidos que fizeram o impeachment, votaram no fascista Jair Bolsonaro. No fim, foi Bolsonaro, com a ajuda de seu procurador-geral Augusto Aras, quem matou a Lava Jato. O sistema político pagou Jair pelo serviço não o impichando após o assassinato em massa da pandemia.

Vinicius Torres Freire - BBB 24 da Petrobras

Folha de S. Paulo

Após quase um terço do mandato, governo não tem política para a estatal, petróleo e energia

Os assuntos mais importantes da Petrobras são política de preços, pesquisa e plano de investimento —quanto vai para petróleocombustíveis fósseis ou energia renovável. A petroleira é a única estatal, talvez a única empresa do país, que se possa chamar de "estratégica", como a esquerda gosta de dizer até de barraca de dogão.

Mais importante é a política nacional de petróleo e energia. Isto é, saber quanto mais petróleo se vai explorar e quais as alternativas econômicas que preservem a segurança do abastecimento de energia. Ou saber o que se vai fazer de impostos, dividendos e outros dinheiros petrolíferos. Por ora, tais receitas mal ajudam a cobrir as despesas do governo muito deficitário. Como seria possível, então, que a exploração de petróleo ajudasse a bancar pesquisa e desenvolvimento de energias renováveis? O que se pode fazer a respeito?

Elio Gaspari - Em Pindorama, a corrupção ganha

O Globo

Em janeiro passado, a Transparência Internacional divulgou que o Brasil havia perdido dez posições no Índice de Percepção da Corrupção, caindo para o 104º lugar, atrás de Uruguai, Chile, Cuba e Argentina numa lista de 180 países. Na origem da desclassificação, entre outros fatores, estava o desmanche da Operação Lava-Jato.

Dias depois, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Procuradoria-Geral da República investigasse as atividades da Transparência nas negociações de acordos de leniência firmados com o Ministério Público. (Existia um ofício da PGR, de 2020, tratando do assunto, sem ter encontrado anormalidades.) Se um ministro do STF quer que se investigue, é melhor que haja investigação e que, no menor tempo possível, seu resultado seja conhecido.

Numa malvadeza dos deuses, passados dois meses dessa saia-justa, a multinacional Trafigura aceitou pagar US$ 127 milhões ao governo americano por conta dos propinodutos mantidos entre 2003 e 2014 em inúmeros países, inclusive no Brasil.

Eliane Cantanhêde – Fé em que?

O Estado de S. Paulo

Petrobras: o que vem aí, passado ou futuro, liberdade ou intervencionismo?

O presidente Lula chamou Jean Paul Prates nesta segunda-feira para uma “conversa definitiva”, como exigia o próprio Prates, mas ele já é considerado passado. O que interessa, e não só ao mercado, é o futuro da Petrobras e o que ele desvenda sobre a política econômica e sobre o governo daqui em diante. Afinal, Lula quer continuar a olhar para trás, ou vai aproveitar a troca na principal empresa do País para olhar para frente?

O fim do PSDB é melancólico, constrangedor. E o que projetar para o PT, seu antagonista durante décadas, até o bólido bolsonarista atropelar os dois? 

Lourival Sant’Anna - Desordem global desafia lideranças

O Estado de S. Paulo

Com Maduro voltando à carga contra a Guiana, liderança do Brasil na região se perdeu

Os desafios que a crescente desordem internacional impõem à liderança dos EUA – ou de qualquer país que tente exercê-la – se apresentaram de forma condensada na última semana: a violência desenfreada de Israel na Faixa de Gaza, a vulnerabilidade da Ucrânia frente à Rússia, de Taiwan frente à China e da Guiana frente à Venezuela.

O presidente Joe Biden comunicou ao premiê Binyamin Netanyahu que sua política em relação a Gaza depende da adoção de medidas por parte de Israel para frear a punição coletiva de civis. Traduzindo: o governo americano pode suspender a ajuda militar anual de US$ 3,8 bilhões se Israel continuar atacando alvos civis e bloqueando entrada de ajuda humanitária.

Luiz Carlos Azedo - O Mito da Caverna e a degradação das nossas cidades

Correio Braziliense

É preciso romper o círculo vicioso de degradação urbana, com políticas disruptivas e audaciosas. Periferias e favelas estão sendo tomadas pelo crime organizado

A partir de hoje, a pré-campanha das eleições municipais está na rua. Após mais um troca-troca de legendas, encerrado ontem, com o fim do prazo de filiação partidária, em todas as cidades do país armam-se as candidaturas a prefeito e vereador, com seus respectivos apoiadores. É um movimento pautado pela grande circulação de recursos financeiros, seja de fundos eleitorais, seja de caixa dois proveniente do desvio de recursos públicos, cuja origem, em parte, são contratos de fornecedores e as emendas ao Orçamento da União. Candidaturas nascem e desaparecem num passe de mágica, no grande balcão de negócios em que se transformou esse momento da pré-campanha.

É um mundo de sombras, como na alegoria da caverna de Platão, descrito no clássico dos clássicos da política: A república. Nele, o filósofo grego discute o papel do conhecimento, da linguagem e da educação no Estado ideal. Na caverna, resumidamente, prisioneiros estão acorrentados e veem sombras bruxuleantes projetadas pela luz de uma fogueira. São homens, animais e plantas imaginárias. Um dos prisioneiros, porém, se livra das correntes e percorre a caverna. Descobre que as imagens não são reais, mas de estátuas cujas silhuetas eram projetadas pela fogueira. E que passara a vida inteira julgando sombras e ilusões.

Sérgio Magalhães* - Mais cidade, menos violência

O Globo

O Estado absteve-se de prover infraestrutura e serviços públicos. Áreas significativas tornaram-se invisíveis ao poder público – mas visíveis ao “poder paralelo”

Depois de décadas de fracasso de políticas de segurança pública, tratada como tarefa policial, é inegável que o tema, amplo, complexo, não aceita apenas respostas setoriais.

Em recente artigo no GLOBO, Fernando Gabeira aborda a dominação territorial bandida no Rio de Janeiro e, premonitoriamente, os vínculos milicianos e do tráfico com a política. E admite: “não há esperança de que as eleições resolvam o problema”. Buscando uma saída, sugere que o tema “seja posto à mesa do ministro Haddad, para convencê-lo de que a insegurança inibe novos investimentos e expulsa os existentes”.

No mesmo jornal, Miguel de Almeida, ao tratar metrópoles acossadas pela violência, São Paulo e Rio, considera que do “banal lero-lero” político polarizado só “sobressaem descaso e despreparo diante de uma realidade áspera e cada vez mais desumana”.

Uma lágrima: morreu Ziraldo

Uma lágrima. Faleceu Ziraldo (1932-2024). Um intelectual, democrata. Combateu a ditadura militar e foi preso várias vezes, nos tempos de chumbo. 

Poesia | Mãos Dadas, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Carminho e Chico Buarque - Carolina

 

sábado, 6 de abril de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Alta no crédito deve ser encarada com cautela

O Globo

Brasil não alcançará crescimento sustentado com base no consumo, mas no investimento e no equilíbrio fiscal

A alta no crédito ao consumidor vem sendo apresentada como uma das notícias econômicas positivas do primeiro trimestre. A concessão de empréstimos para comprar bens cresceu 18% no período de 12 meses encerrados em fevereiro, maior patamar dos últimos cinco anos. Embora haja bons motivos para comemorar o feito, o governo deveria tomar cuidado para não chegar a conclusões erradas. Em administrações anteriores do PT, acreditou-se que bastava irrigar a economia com dinheiro barato para fazer o PIB crescer. O que se viu foi uma expansão insustentável. Se não aprender com os erros do passado, o governo arrisca cair na mesma armadilha.

O recente salto no crédito tem múltiplas causas. Com a queda da inflação e dos juros, os consumidores hoje pagam menos pelos empréstimos. O desemprego em queda, a renda em alta e o programa Desenrola permitiram que sustassem velhas dívidas e pudessem contrair novas. Quatro em dez brasileiros dizem estar dispostos a ampliar gastos com bens como móveis ou eletrodomésticos nos próximos 12 meses, segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Os efeitos deverão se fazer sentir mais no segundo semestre. Esse é um dos fatores que têm elevado as previsões de crescimento da economia para 2024. Analistas ouvidos pelo Banco Central preveem hoje um PIB 1,9% maior neste ano (há quatro semanas, a previsão era 1,8%).

Oscar Vilhena Vieira - Jurisprudência flutuante

Folha de S. Paulo

Num ambiente polarizado, disputa entre Congresso e Supremo não é ingênua

No Estado de Direito, os réus não escolhem os juízes que irão julgá-los, nem os juízes podem escolher os réus que irão julgar. Para evitar privilégios e arbitrariedades, o "juiz natural" deve estar previamente estabelecido pela Constituição ou pela lei.

Na última semana, assistimos a um novo episódio da interminável batalha dos Poderes, agora em torno da definição do chamado foro por prerrogativa de função. A extrema direita, implicada na tentativa de golpe, resgatou uma antiga PEC com o objetivo de esvaziar a competência do Supremo Tribunal Federal para julgar os membros do Parlamento.

Na trincheira oposta, ministros do Supremo aproveitaram o julgamento de um habeas corpus em favor de um senador acusado da prática de rachadinha para revisitar uma decisão tomada pelo Supremo, em 2018, que estabelecia critérios para o exercício da jurisdição especial por parte do tribunal.

Alvaro Costa e Silva - O espetáculo da morte estúpida

Folha de S. Paulo

No Brasil, morre-se de calçada, poste e selfie

"Viver é muito perigoso." É o mote repetido insistentemente no monólogo de Riobaldo no "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa. Não deixa de ser uma tirada à conselheiro Acácio, como notou Nelson Rodrigues, mas revela uma realidade inescapável. "São demais os perigos desta vida", confirmou Vinicius de Moraes no "Soneto do Corifeu". Conselhos desnecessários para quem habita qualquer canto do Brasil.

Não é só a guerra entre bandido e polícia que mata gente inocente. Estão aí, soltas, as pedras portuguesas. Apesar da beleza, elas são conhecidas entre os cariocas como pedras assassinas. Desapareceram os mestres calceteiros, que consertavam com perícia as ondas do calçadão de Copacabana ou uma simples passagem. O poeta Hermínio Bello de Carvalho, que acaba de completar 89 anos, levou um tombo em Botafogo, feriu a vista, lesionou a coluna e está no estaleiro.

Pablo Ortellado - A convicção que cega

O Globo

Está mais do que na hora de baixar a fervura e lembrar que, do outro lado, também existem pessoas de boa-fé. Essa intolerância toda não apenas fratura o país, também nos deixa cegos e surdos

Na véspera da Páscoa, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) publicou uma imagem no perfil do grupo no Instagram. Nela, Jesus aparece crucificado enquanto três soldados romanos olham para a cruz e comentam: “Bandido bom é bandido morto”. A publicação gerou uma ruidosa controvérsia na internet, com a direita acusando o MTST de chamar Jesus de bandido. O conflito de interpretação na base da celeuma lembra outra controvérsia, no auge da pandemia, quando bolsonaristas criticando o passaporte vacinal foram acusados de promover o nazismo.

Logo depois da publicação do MTST, o senador Ciro Nogueira, do PP, disse numa rede social que o MTST comparava Jesus “com um ‘bandido’”. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou que Boulos “prega intolerância religiosa no dia mais triste da tradição cristã”. A deputada Carla Zambelli, que o MTST “vilipendia a fé cristã”. O pastor Silas Malafaia, que a esquerda “odeia o cristianismo”. E o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, chamou a imagem de “sacrilégio”. Uma enxurrada de comentários de cidadãos de direita nas mídias sociais foi na mesma linha.

Eduardo Affonso - Pequena revolução copernicana

O Globo

Passou da hora de a questão política deixar de ser posta em termos de esquerda x direita, e mudar o eixo para democracia x autoritarismo

O maior estrago do 8 de Janeiro não foi nas obras de arte (uma centena delas, perdidas para sempre) ou nas vidraças da Praça dos Três Poderes, mas na crença de que, escaldados por 21 anos de ditadura, estaríamos vacinados contra a sedução do autoritarismo. Não estamos e — humanos, demasiadamente humanos que somos — talvez nunca venhamos a estar.

Apesar das provas incontestáveis de que a democracia produz mais desenvolvimento (“O PIB de longo prazo aumenta cerca de 20-25% nos 25 anos seguintes a uma democratização”, concluiu o economista Daron Acemoglu em 2019), continuamos fascinados pelo mito do bom tirano, do outsider que varrerá o lixo da política tradicional e nos conduzirá, por decreto, a pastos mais verdejantes. Ignoramos o que a História está rouca de contar e, como cantou Lupicínio, insistimos em ir ao inferno à procura de luz.

Carlos Alberto Sardenberg - O crime é global

O Globo

Nos EUA, a Trafigura confessa suborno, pede desculpas e paga multa. Por aqui, grandes empresas ‘desconfessam’ e ganham cancelamento de multas

O presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná, Sigurd Bengtsson, ainda tentou: não estamos julgando a Lava-Jato, disse na abertura do processo de cassação de Sergio Moro. Se é assim, o relator do caso, desembargador Luciano Carrasco Falavinha Souza, concluiu, em longo e detalhado voto, que as denúncias de abuso de poder econômico eleitoral, fato determinado, estão muito perto do ridículo. Absolveu Moro, mantendo, pois, o mandato de um senador eleito por quase 2 milhões de votos.

O segundo desembargador a votar, José Rodrigo Sade, recém-empossado e indicado por Lula, aceitou as denúncias apresentadas pelo PL de Bolsonaro e pelo PT de Lula e condenou Moro. Entendeu que o senador gastou dinheiro de maneira irregular em suas campanhas e pré-campanhas.

Fora do ambiente estrito dos tribunais, todo mundo sabe que o caso é de vingança. O que, além disso, poderia unir bolsonaristas e petistas? Algum princípio político? Ético? Uma tese jurídica defendida ao mesmo tempo pelo advogado Guilherme Ruiz Neto, representando o PL, e pelo grupo petista Prerrogativas?

Mauro Vieira* - As boas notícias que vêm da Ásia

O Globo

Em 2023, o Brasil exportou US$ 2,1 bilhões para Bangladesh, cifra que se aproxima das vendas para a França

O crescimento destacado do comércio exterior brasileiro nas primeiras duas décadas do século XXI, que levou as exportações de US$ 58,2 bilhões em 2001 para US$ 339,7 bilhões em 2023, tem múltiplas dimensões e não pode ser explicado apenas pelas obviedades mais conhecidas. Entre elas estão o desempenho invejável de setores exportadores, como o agronegócio e o mineral, e o crescimento expressivo da participação da China como parceiro comercial do país, com compras de US$ 104 bilhões, pouco menos de um terço do total exportado. Outros dados ajudam a explicar o fenômeno.

Em período histórico que coincide com o recrudescimento do protecionismo comercial dos países desenvolvidos, com a estagnação de negociações de acordos de livre-comércio, com o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC) e do multilateralismo comercial, outras oportunidades vêm sendo bem aproveitadas pelos agentes econômicos brasileiros.

Miguel Reale Júnior* - Olhar o futuro

O Estado de S. Paulo

Nada melhor para comemorar os 80 anos do que se preocupar com o futuro, com evidente prepotência, sem dúvida, mas que me faz sentir vivo como se tivesse 20

Este mês completo 80 anos. É inevitável olhar para trás e indagar do que me arrepender, pois deveria ter dito sim quando disse não, e vice-versa. Mas lembro o ensinamento do poeta Miguel Torga: cadáver é o que não fui. Então, é melhor enterrá-lo.

Saudades brotam de familiares e amigos que se foram nesta longa estrada. Todavia, o caminho para superar a dor das ausências é olhar o futuro. Para minha alegria, ex-alunos e colegas resolveram ter esta data natalícia como oportunidade para pensar questões atuais. Promovem, portanto, na minha cara Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, nos dias 25 e 26 deste mês, debate para analisar quais medidas tomar em face do avanço do crime organizado e da inefetividade da Lei de Execução Penal, editada há 40 anos, de cuja elaboração participei.

Eduardo Leite* - Rigor e evidências contra o crime

O Estado de S. Paulo

Assim como enfrentar a criminalidade exige atuação em múltiplas frentes, debate sobre o aperfeiçoamento da legislação penal proposto pelo Cosud precisa superar julgamentos precipitados

Muitas vezes açodado, o debate público é marcado, entre outras distorções, por um fenômeno que o psicólogo e economista Daniel Kahneman, vencedor do Nobel de Ciências Econômicas, chamou de “ilusão de compreensão”. O processo de fazer julgamentos precipitados sobre questões complexas com base em impressões superficiais. Essa ilusão deturpa a realidade e leva, invariavelmente, à incompreensão, sobretudo em temas delicados como a segurança pública.

As propostas de aperfeiçoamento legislativo elaboradas pelo Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud) para fortalecer o combate à criminalidade foram alvo de críticas, a meu ver, alimentadas por esta pressa descrita por Kahneman. As medidas foram tratadas como se fossem reação populista e isolada à “suposta” legislação penal branda. O “superficial” encobriu o “complexo”, porque, na visão dos governadores, nenhuma ação isolada irá resolver o problema, assim como nenhum governador pretende solucionar questões locais com apenas uma medida.

José Eduardo Agualusa - Para onde vai Israel?

O Globo

A crueldade dos dirigentes israelenses (muitos dos quais defendem a expulsão dos palestinos de Gaza) horroriza o mundo e larga parte das comunidades judaicas fora de Israel

O chef espanhol José Andrés, fundador da World Central Kitchen (WCK), especializada em distribuir ajuda alimentar a vítimas de conflitos armados, acusou o Exército israelense de ter assassinado deliberadamente sete funcionários da organização. Segundo Andrés, o atual governo de Israel trava uma guerra contra a Humanidade.

Andrés não é a única pessoa a pensar assim. Um pouco por todo o mundo cresce a percepção de que Israel está em vias de se transformar num estado terrorista.

Nos últimos dias, além do assassinato dos funcionários da WCK, Israel atacou a embaixada iraniana em Damasco, causando 11 mortes. Por outro lado, em mais uma manobra que confirma a deriva totalitária em curso, o Knesset, parlamento israelense, aprovou legislação que visa a silenciar a Al-Jazeera e outros canais noticiosos internacionais críticos do regime. Tudo isto enquanto prossegue a matança em Gaza.

Demétrio Magnoli - Hobbes passeia em Gaza

Folha de S. Paulo

Governo israelense estabeleceu equivalência entre civis palestinos e o Hamas

Naquele 10 de outubro, dia do sangue, do sequestro e do estupro, Israel ganhou a oportunidade de livrar a si mesmo da ignomínia da ocupação sem fim e, ao mesmo tempo, de libertar os palestinos da maldição do Hamas. No lugar disso, Netanyahu, o rei devasso de Israel, escolheu a perversidade. Hobbes passeia em Gaza.

"Israel está em guerra com o Hamas, não com a população de Gaza", afirmou o general Herzi Halevi, desculpando-se em nome das forças armadas que comanda pelo bombardeio contra um comboio humanitário da WCK (World Central Kitchen). Não é verdade: o padrão de violações das leis de guerra prova que o governo israelense estabeleceu uma equivalência entre os civis palestinos e o Hamas. Na prática, tudo que se move no diminuto território é visto como alvo legítimo.

José Pastore* - A inteligência artificial e o seu emprego

Correio Braziliense

A IA destrói e cria oportunidades de trabalho. Por isso, o mais importante é saber em que medida os seres humanos serão capazes de executar os nascentes trabalhos modernos

As notícias sobre o impacto destrutivo da inteligência artificial (IA) no emprego são cada vez mais alarmantes. "Perguntado", o ChatGPT-4 indicou cerca de 80 profissões que estariam com os dias contados. Fisioterapeutas, engenheiros civis e controladores de tráfego aéreo teriam uma sobrevida de 60 meses. Meteorologistas, gestores de energia e educadores físicos, 48 meses. Farmacêuticos, corretores de imóveis e contadores, 36 meses. Agentes de viagem, 12 meses. Atendentes de telemarketing, seis meses. Para aquele Chat, algumas profissões já teriam morrido — tradutor, redator e revisor de textos.

Marcus Pestana* - Alguma coisa está fora da ordem

“Alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”, disse o poeta baiano. Ao se lançar um olhar sobre o mundo contemporâneo, neste início de Século XXI, é inevitável que venha à tona um sentimento de estranhamento e temor. A esperança de que uma boa governança global compartilhada, a partir da quebra de fronteiras nacionais rígidas, geraria um mundo melhor, parece uma utopia cada vez mais distante.  

Benjamin Netanyahu dobra a aposta, namora com o perigo extremo, expõe Israel a riscos imprevisíveis, numa escalada insana, ao bombardear o consulado do Irã em Damasco, na Síria. Não bastando a guerra  sangrenta na Faixa de Gaza em resposta às atrocidades terroristas do Hamas no 7 de outubro, o governo israelense aguça a instabilidade na região ao atacar um terceiro país no território de um quarto. É difícil enxergar qualquer traço de racionalidade na decisão irresponsável do primeiro-ministro Netanyahu.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - McCkloskey e o Valor-Trabalho

CartaCapital

Suspeita-se que a leitura de ‘O Capital’ provocaria apagões na cachola liberal-positivista da economista

Imagino que o leitor de ­CartaCapital, em sua busca de opiniões divergentes, se entregue à contemplação de matérias e artigos dos jornais brasileiros e forâneos.

Em minha diária peregrinação na busca de concepções e opiniões que divergem das minhas, deparei-me com o artigo de Deirdre McCkloskey. Em poucas linhas, a professora emérita da Universidade de Illinois cuida de desacreditar a Teoria do Valor-Trabalho de Karl Marx:

“Na década de 1870, os economistas de repente perceberam por que a teoria do trabalho está totalmente errada. A economia e as opções econômicas são sempre sobre decisões atuais que causam resultados futuros. Não têm a ver com a história. Você não pode ‘decidir’ sobre o passado. Os custos fixos já foram gastos. Economia tem a ver com o que você deve fazer a seguir. Portanto, a teoria do valor correta é o ‘produto marginal’, isto é, o produto futuro que obtemos de um pouquinho mais de trabalho, capital e terra. Os insumos já gastos não entram na conta. Marx morreu em 1883, depois da ‘Revolução Marginal’. Mas ele não reconheceu isso, deixando seus devotos seguidores no escuro, até hoje”.

Poesia | Pra viver um grande amor, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Mariana Aydar e Mestrinho - Boy Lixo

 

sexta-feira, 5 de abril de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Extensão do foro especial visa a evitar prescrições

O Globo

Voto de Gilmar remedeia brecha aberta quando Corte restringiu a prerrogativa dos ocupantes de cargos públicos

O Brasil não é o único país a prever que ocupantes de altos cargos — como presidentes, governadores, ministros, deputados, senadores, prefeitos ou generais — sejam julgados apenas por Cortes superiores. A distinção, chamada foro especial, tem razão de ser. É do interesse público resguardar o exercício dessas funções. Sem o foro, ministros de Estado estariam suscetíveis a inúmeras ações iniciadas em diferentes pontos do Brasil. Deputados e senadores seriam alvos fáceis de opositores políticos em variadas instâncias da Justiça. Foi para evitar o uso político dos tribunais que se concedeu a tais cargos a prerrogativa de ser julgados apenas por juízes das altas Cortes.

Por muito tempo, o foro especial foi no Brasil sinônimo de privilégio, em razão do pouco apetite das Cortes superiores por punir os poderosos. Mas isso começou a mudar a partir do escândalo do mensalão. A profusão de processos gerada pelos casos de corrupção, em particular na Operação Lava-Jato, sobrecarregou o Supremo Tribunal Federal (STF), fato que contribuiu para que, em 2018, os ministros restringissem o foro especial a crimes relacionados ao cargo público e cometidos em seu exercício.

Fernando Abrucio* - Brasil precisa atualizar seu projeto nacional

Valor Econômico

Um caminho que tem forte efeito agregador e transformador é apostar na construção de uma governança federativa com maior amplitude, pactuação e efetividade

Diante dos novos desafios e oportunidades trazidos pelo século XXI, o Brasil precisa atualizar seu projeto nacional. Muitos pensam que essa é uma tarefa a ser realizada exclusivamente pelo presidente eleito e seus auxiliares insulados nos ministérios em Brasília. Tal modelo ainda imagina, idilicamente, um governante que tenha a seu lado “uma elite ilustrada, que pense no país e no longo prazo e não sucumba aos interesses mais imediatos”. Trata-se de uma concepção irrealista, pouco democrática e incapaz de perceber a complexidade dos problemas e da produção das soluções. Em lugar dessa visão, o melhor é pensar a nação por meio de uma governança colaborativa.

Colaboração não significa a ausência de conflitos. Ao contrário, é privilegiar a construção de arenas de debate e decisão que lidem com a diversidade de posições e definam os caminhos mais consensuais possíveis, estimulando a cooperação dos atores por meio de incentivos e projeção de ganhos aos participantes. Num país complexo como o Brasil, essa estrada não é fácil de pavimentar. Porém, as alternativas contrárias são piores: um modelo centralizador e hierárquico tem poucas chances de ter apoio e ser implementado homogeneamente em todo o território nacional, ao passo que a fragmentação das ações, com cada um correndo para o seu lado ou procurando vetar os demais, evitará que o país construa um projeto para o século XXI.

José de Souza Martins* - Fé no golpe continua

Valor Econômico

Nos depoimentos divulgados do processo de 8 de janeiro, vários são de evangélicos que alegam ter ido a Brasília e participado da invasão dos palácios do Executivo, do Legislativo e do Judiciário para orar pelo Brasil, de joelho

No processo dos surpreendidos nos atos delinquentes da intentona política de 8 de janeiro de 2023, a variedade de tipos vai se tornando clara. Da multidão, as evidências indicam que essa variedade ganha perfil na mentalidade dos envolvidos de uma cultura de baixa classe média que tem componentes bem nítidos. Um deles, o componente religioso, sobretudo fundamentalista e pentecostal, do medo ao inferno e satanás.

Não é de agora que a mobilização popular se dá na cultura de medo e do pavor à modernidade e, aqui, na problemática modernização dos costumes. Os democratas prestariam um grande serviço à democracia se em sua militância levassem em conta a importância do diálogo respeitoso com a cultura anacrônica e tradicionalista dos simples. Que é, na verdade, repositório de valores sociais populares e insurgentes, socialmente criativos, em vez de desprezá-los e abandoná-los à voracidade de poder da classe média reacionária.

Convém ler Gramsci e Henri Lefebvre para compreender esse Brasil misterioso, um país do avesso.

Flávia Oliveira - Inventário incompleto

O Globo

Tudo remeteu à ditadura na semana da efeméride nefasta dos 60 anos do golpe militar que depôs o então presidente João Goulart. Quase dois meses depois de fugirem da unidade federal, até então, de segurança máxima, Deibson Cabral Nascimento e Rogério da Silva Mendonça foram presos ontem por PF e PRF na BR-222, em Marabá (PA), a 1.600 quilômetros de Mossoró (RN), de onde escaparam em pleno carnaval. A demora na captura e a distância percorrida não deixam dúvida de que os dois criminosos receberam ajuda da facção que integram, o Comando Vermelho. A organização nasceu nos anos 1970 nos porões do regime, que juntou detentos comuns e presos políticos no extinto presídio da Ilha Grande, em Angra dos Reis (RJ).

Foi impossível não revisitar as décadas de arbítrio por esses dias. Na terça-feira, a Comissão de Anistia, ligada ao Ministério dos Direitos Humanos, pediu perdão aos indígenas crenaque (MG) e guarani-caiouá (MS) pelas atrocidades cometidas pelo Estado. A presidente Eneá de Stutz e Almeida se ajoelhou diante da matriarca Djanira Krenak e do cacique Tito Vilhalva, ancião da etnia guarani-caiouá. A Comissão Nacional da Verdade, encerrada em 2014, contabilizou 8.350 indígenas mortos ou desaparecidos durante o regime.

Ruy Castro - À direita da extrema direita

Folha de S. Paulo

Salazar, Mussolini, Hitler, Trump, Bolsonaro -todos tinham um homem para pensar por eles

Em 1932, um jornalista português, António Ferro, 37 anos, conseguiu o que era dado como impossível: entrevistar o quase inatingível António de Oliveira Salazar, todo-poderoso de um governo que se definia como ditadura. Ferro teve com Salazar longas conversas, reunidas num livro de 300 páginas com o pensamento do ditador de Portugal.

Como foram essas conversas? A bordo de carros em movimento, à mesa de jantar, em torno de "fumegantes caldos verdes" e em passeios a pé por estradas, às vezes "à beira do anoitecer" ou sob "uma chuva miudinha e enervante". As perguntas de Ferro eram curtas, como sói, mas as respostas de Salazar eram caudalosas e demoradas, de páginas e páginas.