sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais /Opiniões

PL que enfraquece desarmamento deve ser barrado

O Globo

Senado precisa rejeitar — ou presidente vetar — texto que permite a condenados comprar armas

Em mais um revés para o já combalido Estatuto do Desarmamento, a Câmara aprovou na quarta-feira um Projeto de Lei que permite a compra de armas por quem é investigado ou condenado por certos crimes, desde que o caso não tenha transitado em julgado. Na tentativa de tornar a proposta descabida mais aceitável, os deputados mantiveram a proibição para homicídios dolosos, crimes hediondos, contra a dignidade sexual, feminicídios, contra o patrimônio com emprego da violência ou contra vítimas sob medida protetiva. Mas isso não resolve. Acusados de crimes como corrupção, delitos cibernéticos e golpe de Estado poderão comprar armas normalmente.

Não é a única insensatez do texto, que reflete posições defendidas pela Frente Parlamentar de Segurança Pública, conhecida como bancada da bala. Ele abre prazo de um ano para regularizar armas consideradas ilegais desde o Estatuto do Desarmamento (o prazo oficial expirou em 31 de dezembro de 2008). Ainda acaba com a necessidade de declarar uma razão que justifique o pedido de registro e aumenta de três para cinco anos sua validade.

A agenda que não se pode adiar em 2025 - Fernando Abrucio

Valor Econômico

Garantir a democracia, avançar na redução da desigualdade, lidar de fato com a questão climática, reconstrução política e apoio ao multilateralismo e à multipolaridade

Depois de um ano dominado pelas eleições municipais, 2024 termina com várias urgências a resolver em Brasília. Em especial, a necessidade de se fazer um ajuste fiscal e, ao mesmo tempo, agradar aos congressistas com recursos de última hora das emendas, no que parece ser o Baile da Ilha Fiscal do século XXI, porque o STF vai apertar esse modelo daqui para diante. Neste afogadilho do curto prazo, seria interessante olhar para 2025 de outra forma, escolhendo as agendas que têm sido adiadas e cujos efeitos de longo prazo são fundamentais para o Brasil.

A lista de temas que precisam ser resolvidos e têm sido adiados nos últimos anos é extensa. O Brasil tem o dom da postergação, cujo exemplo mais paradigmático foi ter sido o último país ocidental a acabar com a escravidão - algo que traz consequências perversas até os dias atuais. Foram escolhidas aqui cinco agendas centrais que não podem ser deixadas para trás em 2025 e que serão essenciais para nosso futuro como nação.

A primeira se refere à questão democrática. Trata-se de um tema que exigirá afirmar o Estado de Direito e aperfeiçoar os mecanismos institucionais que lhe dão suporte. Mais do que mudanças de sistema de governo ou eleitoral, o que falta ao Brasil são leis que valham igualmente para todas as pessoas. Não é possível ter servidores públicos ganhando muito mais do que admite a legislação do teto salarial do setor público. Em 2025 não se pode adiar mais a meta de que ninguém pode ser maior do que a lei numa democracia.

José de Souza Martins - Dilemas do Estado laico

Valor Econômico

Decisão do STF traz à tona separação entre as funções propriamente religiosas dos símbolos de fé e sua simultânea função de símbolos das tradições culturais brasileiras

É velha pendência do Brasil republicano a relativa à questão do caráter não confessional do Estado. Ainda em esboço, vinha do Império, praticamente desde quando os ingleses foram patronos e credores da Independência do Brasil. A abertura comercial do país a eles teve uma implicação: a abertura religiosa para abrigar a fé estrangeira dos chamados acatólicos.

O Estado monárquico criou um nicho paralelo à religião oficial e do Estado. Eles poderiam celebrar sua fé em privado e em templos sem forma exterior de igreja. O arranjo funcionou bem até o 15 de novembro de 1889, quando o catolicismo deixou de ser a religião do Estado.

Coisa que também interessava à Igreja Católica, para que o clero deixasse de ser um clero de funcionários públicos, que do Estado recebia a côngrua, o seu salário. O catolicismo brasileiro optou por libertar-se do poder, uma tendência persistente no sentido justamente de construir um catolicismo socialmente enraizado, cristão. O oposto da atual voracidade de poder de evangélicos.

Congresso dá sinais de que votará o pacote fiscal - Andrea Jubé

Valor Econômico

Há dúvida se o governo conseguirá aprovar no Congresso, no prazo recorde de uma semana, os três projetos que compõem o pacote de contenção de gastos do Ministério da Fazenda. Mas quem circulou pelas duas Casas legislativas nos últimos dias testemunhou que, efetivamente, há esforços sendo feitos nesse sentido.

Por exemplo: na tarde chuvosa dessa quinta-feira (12), com a Câmara dos Deputados entregue às moscas, o líder do MDB, deputado Isnaldo Bulhões (AL), trabalhava em seu gabinete, debruçado sobre o telefone, contabilizando votos, e sobre o relatório do projeto de lei que altera as regras do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e do salário mínimo.

Ele deixou de viajar para sua base eleitoral, o município de Santana do Ipanema, em Alagoas, onde tinha um compromisso político, para ficar em Brasília, onde passará o fim de semana dedicado ao texto do relatório.

Dado mais revelador da pesquisa liderada por presidente é a amostra – Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Pesquisa verificou potencial de voto de dez nomes, no maior levantamento já feito pelo instituto

A notícia mais estratégica da pesquisa da Genial/Quaest divulgada na manhã desta quinta-feira (12) está no alto da primeira página, que, por tratar das especificações técnicas, poucos se dão ao trabalho de ler. A rodada entrevistou 8.598 pessoas em todo o país, com amostras mais substantivas em São Paulo, Minas, Bahia, Pernambuco, Goiás e Paraná. É um quórum extraordinário, que permite uma margem de erro de apenas um ponto percentual.

A Quaest nunca havia feito nada semelhante. Ao longo de toda a campanha eleitoral, o instituto trabalhou com amostras de até 2 mil questionários. É parte de um projeto que incluirá, ao longo do próximo ano, mais três pesquisas do gênero, que visam a ter um detalhamento maior em Estados de potenciais candidatos à Presidência.

A explicação, dada por Felipe Nunes, diretor do instituto, não impede que se constate também que o custo de uma pesquisa tão grande apenas se justifica se o contratante precisa posicionar suas fichas para a sucessão de 2026. Este não é o comportamento de um único banco, mas de todo o mercado financeiro na virada deste biênio.

Quando 0 a 0 é um bom placar - Vera Magalhães

O Globo

Lula lidera briga para 2026, e sua avaliação e a do governo terminam o ano pior que em 2023, mas estáveis em relação aos últimos meses

A última pesquisa Quaest de 2024 traz notícias para o governo Lula que podem parecer desanimadoras, mas que, diante de um ano bastante tumultuado, fazem lembrar aqueles jogo de futebol em que o placar de 0 a 0 é comemorado por um time que não vê a cor da bola nos 90 minutos de jogo.

Lula venceria qualquer dos nomes da direita num eventual segundo turno em 2026, inclusive Jair Bolsonaro, que está e muito provavelmente estará inelegível até lá. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, cujo nome também foi testado, também bateria Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado, ainda que por menor margem.

Do altar ao tribunal - Bernardo Mello Franco

O Globo

A Assembleia Legislativa do Ceará deve aprovar nesta sexta a indicação de Onélia Santana para o Tribunal de Contas do Estado. Às vésperas do Natal, a nova conselheira vai ganhar um presente às custas do contribuinte. Receberá salário de R$ 39,7 mil brutos, fora mordomias e penduricalhos.

Onélia é psicopedagoga com formação em Letras. Deve o cargo vitalício a outro atributo: casou-se com o ministro da Educação, Camilo Santana.

Governador por dois mandatos, o petista é o mandachuva da política no Ceará. Elegeu o sucessor e o futuro prefeito da capital. Agora estende sua influência sobre o TCE, responsável por fiscalizar as contas da turma.

Selic não para o clima – Flávia Oliveira

O Globo

Há intenção clara da autoridade monetária de frear a atividade econômica

Quando Donald Trump foi eleito novamente presidente dos Estados Unidos, ecoou mundo afora a pergunta sobre o futuro da agenda global de enfrentamento às mudanças climáticas. Da ministra brasileira do Meio Ambiente, Marina Silva, brotou análise pragmática. Ela disse que a realidade se impõe, na forma de inundações e seca severa em partes do Brasil; chuvarada no Saara; nevasca na África do Sul; furacões nos Estados Unidos.

— É possível construir muro para deter pessoas. Mas não há muro contra furação. Muro não controla a natureza — afirmou dias antes de embarcar para a COP29, em Baku (Azerbaijão).

Nesta semana, o IBGE reportou inflação oficial de 0,39% em novembro, o que elevou o acumulado em 12 meses para 4,87%, pelo segundo mês seguido acima do teto da meta (4,5%). O grupo Alimentação e Bebidas foi o que mais pesou no IPCA, representando 0,33 ponto percentual no resultado mensal. Carne bovina (+8,02%), café (+2,33%) e óleo de soja (+11%) dispararam, jogando para cima os gastos com alimentação no domicílio. São itens que fecham em alta há três meses consecutivos. E escalando.

Não há vácuo em política - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com Bolsonaro fora e Lula cada vez mais distante, a renovação em 2026 é uma realidade

Não adianta tampar o sol com a peneira: o presidente Lula é um homem forte e saudável para os seus 79 anos, mas não um político com energia e vitalidade suficientes para disputar um quarto mandato em 2026, o que faz ecoar, estridentemente, o alerta feito pelo uruguaio José Mujica, ídolo das esquerdas sul-americanas: “Lula não tem substituto. Essa é a desgraça do Brasil”.

Assim, Lula teve três boas notícias ontem: além da embolização ter sido “um sucesso”, segundo o dr. Roberto Kalil Filho, a pesquisa Quaest apurou que não apenas o próprio Lula, mas também o seu ministro da Fazenda, Fernando Haddad, venceriam todos os nomes já colocados como opções da direita, caso a eleição fosse hoje.

Banco Central, o chato da festa - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Quando era presidente do Fed (o banco central dos Estados Unidos), o implacável Paul Volcker avisava que o banco central era o chato da festa que baixava o som e retirava a bebida quando a animação estava no auge.

É essa função que o Banco Central do Brasil (BC) passou a exercer com mais energia nessa quarta-feira, quando aumentou os juros básicos (Selic) em 1 ponto porcentual e anunciou outras duas pauladas, de 1 ponto cada uma, em janeiro e em março.

Pois a festa seguia animada, com um crescimento do PIB da ordem de 3,5% neste ano, desemprego no seu nível mais baixo da história e vendas no varejo que acumulam alta de 4,9% até outubro, como aponta o IBGE.

Torniquete na sangria de dólar e inflação -Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Conter a hemorragia só com juros causa danos; tensão não passa sem acerto fiscal

Banco Central prometeu levar a taxa básica de juros, a Selic, a 14,25% até março. Afora grande milagre, a taxa ficaria nessa altura teratológica até maio, quando ocorre a terceira decisão a respeito de juros de 2025. Não é impossível que a Selic venha a ser ainda maior até lá, embora por enquanto o arrocho extra pareça improvável. Pode ser que vá a perto de 15%, a partir de maio.

O BC colocou um torniquete na sangria da inflação, em particular na pressão que o dólar faz na inflação. A coisa estava perto do descontrole. Se vai estancar a sangria, é a questão. Além do mais, torniquete por muito tempo causa problemas, necroses.

Tarcísio admite que PCC melhora índices - Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

A questão hoje é saber o grau e os resultados da crescente penetração das facções nas instituições da República

Entre dissimulações e reconhecimento de evidências incontornáveis, no furacão da crise da segurança pública em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas tratou com surpreendente desenvoltura um tema delicado: a presença do Primeiro Comando da Capital no estado e seus reflexos nas estatísticas relativas a mortes violentas.

"O crime organizado, no fim, está por trás de grande parte da violência no Brasil. Isso explica, às vezes, até a própria estatística aqui em São Paulo, que é uma estatística favorável, mas é favorável em função até da predominância ou da hegemonia de uma facção", afirmou o mandatário durante evento realizado no Instituto Brasileiro de Ensino, na semana passada.

Slogans caradura - Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se temos 'Beba com sabedoria', por que não 'Fume com sabedoria', 'Estupre com delicadeza' e 'Mate com carinho'?

Tenho falado aqui do "Beba com sabedoria", slogan que encerra os comerciais de certa bebida alcoólica, e de forma tão discreta que mal satisfaz sua função de cumprir a lei —a de alertar o consumidor para os riscos do produto que ele está ingerindo. É uma "recomendação" inócua, como a que a mãe dá bondosamente ao seu garoto que vai para a noite pela primeira vez: "Meu filho, seja sábio. Evite ir a lugares frequentados por traficantes de drogas mal-intencionados que irão tentá-lo com seus produtos ilegais e irresistíveis".

Os bundas-moles e o clubinho conservador - Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Discussão fecha ano em que comissão mais importante da Câmara foi um playground do atraso

No início do ano, a bancada bolsonarista recebeu as chaves do colegiado mais importante da Câmara. O grupo levou para a presidência da Comissão de Constituição e Justiça suas especialidades: desengavetou pautas ultraconservadoras, fez muito barulho político com poucos efeitos concretos, produziu conteúdo raivoso para as redes e atropelou a própria Constituição.

A extrema direita assumiu o controle da CCJ graças a um rodízio que favorece os maiores partidos da Casa. A escolha de Caroline de Toni (PL) para o posto se deu com o beneplácito do centrão de Arthur Lira (PP) e de uma ala do PL considerada menos radical. Todos sabiam que os bolsonaristas usariam a comissão como um playground do atraso.

O recado de Camunguelo aos aliados de Lula – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Sem Lula à frente das negociações com a própria base governista, as propostas do governo encalharam na Câmara, e a oposição aproveitou para aprovar sua própria agenda

O sambista e compositor Claudio Lopes dos Santos, mais conhecido como Cláudio Camunguelo, morreu aos 61 anos, vítima de complicações causadas por diabetes na véspera de Natal de 2007. Era uma segunda-feira, dia da semana em que normalmente passava na Travessa dos Poetas de Calçada, um beco de 60 metros que liga a rua Treze de Maio com a Senador Dantas, no centro do Rio de Janeiro, antes de rumar para o Samba do Trabalhador, no Renascença Clube, no Andaraí, reduto histórico do movimento negro do Rio de Janeiro.

Estivador por profissão, Camunguelo era excelente flautista e grande partideiro, além de excelente cantor e dançarino. Parceiro de Zeca Pagodinho em Sinuca de Bico e Amarguras, é o autor do antológico samba Meu Gurufim, que sempre cantava nas rodas de samba: "Eu vou fingir que morri/Pra ver quem vai chorar por mim/ E quem vai ficar gargalhando no meu gurufim/ Quem vai beber minha cachaça/ E tomar do meu café/ E quem vai ficar paquerando a minha mulher".

Assim caminha a humanidade - Aldo Paviani*

Correio Braziliense

Não havendo consenso, não haverá limites para a destruição, e, portanto, no tempo futuro, lutaremos, entre nós, pela mera necessidade de sobreviver

A percepção dos seres humanos sobre o tempo é variável. Para alguns, como escreveu o grande geógrafo e professor Milton Santos, há "tempos lentos e tempos longos". Com certeza, cada um de nós sabe avaliar o impacto do tempo e do que ele traz para nós mesmos e para aqueles que nos cercam. Além disso, fazemos avaliações diferentes sobre os desenvolvimentos da nossa espécie. Por exemplo, desde o início da guerra fria, vivemos em tempo de corrida armamentista, com a criação de armas cada vez mais potentes. 

Poesia | Organiza o Natal, de Carlos Drummond de Andrade - por Ivan Lima


 

Música | Roberta Sá - Mutirão de amor

 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Debate sobre dominância fiscal serve de alerta

O Globo

Brasil está longe do ponto em que alta de juros é ineficaz contra inflação, mas economistas já cogitam tal cenário

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), aumentou a taxa básica de juros de 11,25% ao ano para 12,25%. Diante das expectativas de inflação acima do teto da meta em 2025, não havia outra alternativa senão aumentar o custo do crédito, para deter o crescimento da demanda e a alta dos preços. Foi o maior aumento nos juros desde fevereiro de 2022 e o maior do atual governo. A medida — necessária para deter a escalada inflacionária — ocorre num momento de intenso debate entre economistas sobre o risco de o Brasil chegar a um ponto em que subir os juros não adiantará mais para deter a inflação, situação conhecida tecnicamente como “dominância fiscal”.

Essa anomalia acontece quando a dívida pública sai de controle, e o aumento dos juros acaba contribuindo para aumentá-la ainda mais, deteriora a percepção de risco, alimenta a alta do dólar e repercute negativamente na própria inflação. Quando um país chega a tal ponto, a alta dos juros pode até surtir o efeito oposto ao desejado. É consenso que o Brasil ainda está muito longe dele, mas o simples fato de que a questão seja debatida revela até que ponto se deteriorou a credibilidade do governo para manter as contas públicas sob controle.

A ausência de Lula - Merval Pereira

O Globo

A ausência forçada de Lula mostra mais que nunca a fragilidade do governo do PT, sem solidez para negociar; não tem ninguém que seja identificado como poderoso a ponto de fechar um acordo

A ausência prolongada do presidente Lula, devido a uma nova intervenção cirúrgica, mostra mais uma vez que o governo não está preparado para atuar sem ele. A coincidência da doença com o momento delicado de votar as reformas tributária e fiscal, além da negociação com o Congresso sobre as emendas parlamentares, demonstra que o governo não está aparelhado para atuar sem a presença de Lula.

Os ministros Alexandre Padilha, de Relações Institucionais, e Rui Costa, chefe da Casa Civil, estão negociando com o Congresso, mas nenhum dos dois tem credibilidade junto ao Centrão; nenhum deles tem habilidade para levar adiante uma votação difícil como as que se prenunciam. A oposição desdenha a capacidade política dos dois. Por isso Lula tem de entrar em campo sempre.

Lula, o mercado e um choque de realidade - Malu Gaspar

O Globo

Ninguém que acompanhe o xadrez de Brasília ignora que o Congresso Nacional é movido a dinheiro de emendas e toma lá dá cá. Mas o impasse no Parlamento em torno do pacote fiscal do ministro Fernando Haddad levou essa máxima ao paroxismo — e trouxe ao governo Lula um choque de realidade.

Na campanha eleitoral, Lula bateu sem dó no orçamento secreto. Não aceitava as emendas impositivas — a fatia do orçamento enviada de forma automática por deputados e senadores a seus estados e municípios, sem precisar de autorização do Executivo.

Mesmo assim, o presidente conseguiu aprovar a PEC da Transição ainda antes de tomar posse. Recebeu do Congresso autorização para gastar mais R$ 168 bilhões em programas sociais e investimentos. Depois disso, passou o arcabouço fiscal, que mudou a regra de contenção das despesas públicas, e a reforma tributária, que vinha sendo negociada havia décadas.

Choque de juros à vista e a prazo - Míriam Leitão

O Globo

Momento é difícil, mas não apocalíptico. O déficit primário, por exemplo, será metade do projetado pelo mercado

Banco Central não apenas deu um choque de juros ao subir a Selic em 1 ponto percentual, como trouxe de volta o forward guidance, ou seja, o aviso do que fará nas próximas reuniões. E serão outras duas altas de 1 ponto percentual a cada reunião. Isso significa que, em 19 de março, os juros brasileiros irão para 14,25%. O fim do mundo está próximo? Não. Olhando com objetividade, os dados da economia e da política, o Brasil tem sim problemas —e já volto a eles—, mas este ano está sendo bom também nos indicadores fiscais.

Para se ter uma ideia, o país no ano passado terminou com 2,4% do PIB de déficit primário, em parte pela herança do governo anterior. Para este ano, o mercado previa um déficit de R$ 90 bilhões a R$ 100 bilhões, e o país deve terminar o ano com um déficit de R$ 48 bilhões de reais, 0,4% do PIB. Um número muito melhor do que o esperado. A receita está crescendo 10% real no acumulado até novembro.

A democracia pode travar a barbárie - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Em São Paulo, força bruta tem carta branca no combate ao crime

As consequências sempre vêm depois, dizia o Conselheiro Acácio, criação do escritor Eça de Queiroz, que o fez autor de pomposas platitudes. O dito se aplica ao governador Tarcísio de Freitas: ele contratou o desastre quando, por indicação de Jair Bolsonaro, nomeou para a chefia da Segurança Pública em São Paulo um ex-PM matador confesso e deputado da bancada da bala chamado Guilherme Derrite. Tarcísio deu firme apoio às medidas tomadas pelo apadrinhado do ex-presidente que provocaram importante retrocesso nas políticas públicas para o setor e produziram a atual situação de descontrole da ação policial.

O governo volta a piscar para o centrão – Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

A malandragem arquitetada para destravar o pagamento de emendas parlamentares representa mais do que um dia comum na relação entre Planalto e Congresso. Ao definir regras que garantem a liberação do dinheiro no apagar das luzes de 2024, o governo Lula fecha um acordo generoso com o centrão para a segunda metade deste mandato.

O bloqueio imposto por Flávio Dino à farra das emendas colocava detonadores na estrutura de escoamento de verba montada pelo Congresso nos últimos tempos. O governo não escondia que enxergava a decisão como uma oportunidade para recuperar o poder sobre a distribuição de recursos em troca de apoio em votações na Câmara e no Senado.

Balas na cabeça e tiro no bolso de cidadão e governo - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

No Natal parlamentar, tem projeto aprovado às pressas para aumentar poluição e custo da conta de luz

As festas de final de ano no Congresso são aqueles dias em que se pagam contas —se fazem favores para lobbies. São dias de cobrança de contas —esfolar o governo da vez de modo a conseguir o pagamento de atrasados, como dinheiros em geral, de emendas em particular, e cargos, o óbvio.

Há dinheiro para empresas amigas, mais conta para o consumidor pagar, mais dívida para o governo federal. Mais armas liberadas para mais gente neste país de massacres.

O trator legislativo pode passar por cima da lei que regula as usinas eólicas de energia elétrica em alto-mar, uma corrente submarina de oportunidades para amigos da poluição e seus produtores. A lei dá longa sobrevida a produtores de carvão e a usina termelétricas a carvão (até 2050, ano em que nossos filhos estarão vivendo em um planeta que torra).

Morrer pelo Brasil —até certo ponto – Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Acontece nos melhores quartéis: a coragem dentro da farda esvai-se numa fralda

Pelo que se leu e se ouviu das mensagens trocada pelos golpistas de Bolsonaro, reveladas há pouco pela Polícia Federal, uma coisa pareceu clara: aqueles generais podiam ser tudo, menos cínicos. Acreditavam de verdade que as eleições tinham sido fraudadas e que, se o comunista Lula subisse a rampa, a liberdade iria para o beleléu. O grau de desespero em suas falas indicava uma urgência, uma premência, uma emergência de, literalmente, dar a vida para salvar o Brasil. Pois era a vida que eles estavam botando em jogo ao calcular, entre as probabilidades do desfecho, a possibilidade de o golpe fracassar —e, mesmo assim, valeria a pena.

A sutura que apontará os rumos de 2026- Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Saúde fragilizada do presidente coincide com oposição encurralada para 2026 e mostra que as saídas para a crise sinalizarão o rumo da sucessão

Até Roberto Kalil descer para a portaria do Sírio-Libanês para falar com os jornalistas sobre o novo procedimento a que o presidente da República será submetido, os únicos sobressaltos do ambiente eram as provocações dos pacientes e visitantes que, no entra e sai, soltavam provocações sobre a saúde do paciente mais ilustre.

Uma senhora aparentando mais de 80 anos, impecavelmente vestida, maquiada e penteada, abordou um fotógrafo para saber da saúde de Lula. Ao ser informada, soltou: “Tomara que morra logo”. Indagada se era cristã, dobrou a aposta: “Ele é um demônio que fez mal ao país”. Além dos transeuntes, motoristas que passam pela rua do hospital abaixam o vidro dos carros para gritar seus votos pela piora da saúde do presidente.

A hostilidade não é novidade na família Lula da Silva. Quando dona Marisa foi internada no Sírio para tratar o AVC que acabaria por matá-la, em 2017, a República baixou no Sírio para prestar solidariedade a Lula - do então presidente Michel Temer ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Chegavam e saíam sob vaias de manifestantes que torciam pela morte da ex-primeira-dama.

52% votariam em Lula e 37%, em Bolsonaro, mostra pesquisa Genial/Quaest - Lilian Venturini

Valor Econômico

Potencial de voto do atual presidente é o maior entre dez nomes testados; Marçal supera governadores bolsonaristas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é o político com maior potencial de voto entre dez nomes testados pela Quaest, de acordo com pesquisa divulgada nesta quinta-feira (12). Em segundo lugar está o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), inelegível até 2030.

No levantamento, o instituto não perguntou diretamente em quem o eleitor votaria em 2026, mas se os entrevistados conheciam os nomes apresentados e se votariam ou não neles. Ao todo, 52% afirmaram que conhecem e votariam em Lula, atualmente em seu terceiro mandato. Bolsonaro atinge 37%, mas a rejeição do ex-presidente (57%) supera a do atual mandatário (45%).

O instituto entrevistou presencialmente 8.598 pessoas, com idade a partir de 16 anos, em 120 municípios, entre os dias 4 e 9 de dezembro. A margem de erro é de 1 ponto percentual, para mais ou para menos. A pesquisa é financiada pela corretora Genial Investimentos.

Avaliação de Lula é copo quase pela metade – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Não se sabe quando o presidente da República reassumirá o comando pleno do país. Nesse vácuo de poder, quem tem esse papel?

O trabalho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é aprovado por pouco mais da metade dos eleitores brasileiros, segundo pesquisa realizada pela Quaest, divulgada ontem. Sua gestão é apoiada por 52% e reprovada por 47%. Não sabe ou não respondeu representam 1%.

Esse índice de aprovação aumentou ligeiramente em relação a outubro, quando era de 51%, mas a rejeição subiu o dobro: era de 45%. Esses números podem ser impactados pela solidariedade em relação ao calvário de Lula, que, hoje, deve passar por uma segunda cirurgia na cabeça, para estancar o sangramento intracraniano provocado por uma queda no banheiro do Palácio do Alvorada, em meados de outubro.

Sem eles - William Waack

O Estado de S. Paulo

Qual a capacidade de Bolsonaro e Lula de decidirem as eleições se não forem candidatos?

Mesmo antes do indiciamento de Jair Bolsonaro pela PF e das cirurgias recentes do presidente Lula, já era evidente que a rota para as próximas eleições presidenciais seria um cenário aberto. É para ele que se caminha. Bolsonaro mantém viva a esperança de que algo como um canetaço o tornaria elegível. Todos os operadores políticos, inclusive bolsonaristas, sabem que as chances são das mais remotas, para dizer o mínimo. Uma boa parte do que é a direita usa Bolsonaro como grife, até como franchising, perfeitamente consciente de que ele não será candidato.

Lula mantém-se na típica dubiedade de “estar pronto” para ser mais uma vez candidato, mas sem pronunciá-lo claramente. Todos os operadores políticos, inclusive dentro do PT, sabem que a saúde do presidente, a avançada idade e, especialmente, seu evidente cansaço são obstáculos portentosos a uma candidatura, para dizer o mínimo.

Choque forte de juros - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Na última reunião do Copom comandada por Roberto Campos Neto, o Banco Central (BC) deu início a novo choque de juros, destinado a conter a inflação que vai escapando para perto dos 5% ao ano.

Por unanimidade foi decidida a pancada de 1,0 ponto porcentual, que empurra os juros básicos (Selic) aos 12,25% ao ano. E ficou avisado que, se nada mudar, vêm mais dois avanços de 1 ponto porcentual em cada uma das duas próximas reuniões, agendadas para 29 de janeiro e 19 de março, quando o Copom terá sete diretores indicados pelo presidente Lula entre os nove de sua composição. Isso empurraria a Selic em março para os 14,25% ao ano.

Agora com câmera corporal - Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

No meio de tantas atrocidades, o lance do jovem ejetado como se fosse uma cusparada se converteu numa síntese imagética, virou o símbolo da insegurança pública

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, mudou de ideia sobre a segurança pública. De uma hora para outra, passou a apoiar o uso da câmera dita “corporal” pela Polícia Militar (PM). Foi um cavalo de pau na postura do Palácio dos Bandeirantes.

Mas, fora a mise-en-scène, isso fará alguma diferença? Em parte, sim. Se o governador cumprir sua (nova) palavra, a tropa terá de lidar com mais fiscalização. No fundamental, porém, a resposta é não. A vida e a morte seguirão como dantes no quartel de Abrantes, e fora do quartel também. A polícia não vai acordar boazinha na segunda-feira só porque traz um aparelho ótico na indumentária.

As coisas mudam, mas não mudam. Parece contraditório? Nem tanto. O discurso político tem esta prerrogativa curiosíssima: pode desdizer espetacularmente o que dizia ontem e não modificar patavinas, num paradoxo já bastante conhecido. “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude”, lemos no romance O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa. Trata-se de ceder os anéis para não ter que ceder os dedos, ou, voltando à perspectiva do governo, trata-se de ceder sobre as câmeras para não ter que ceder sobre as armas.

Na sanha por recursos, a desmontagem fiscal - José Serra

O Estado de S. Paulo

A sensação é de que a institucionalidade fiscal vai se desfazendo na sanha por recursos, cujos contendores não entendem nenhum limite

Na Constituição de 1988, relatei o Capítulo das Finanças Públicas, na condição de deputado constituinte. Toda confusão fiscal da década de 1980 impunha que o redesenho do aparato de planejamento, orçamento e gasto fosse solidamente delineado pela nova Carta.

Na verdade, a ditadura militar nos brindou com uma bagunça institucionalizada nas contas governamentais. Com a arrogância própria daqueles que se julgam portadores das verdades econômicas assim como os golpistas de 2022, o governo militar executava um orçamento alternativo, muitas vezes maior do que as minguadas dotações do Orçamento que era votado no Congresso. Este último não poderia alterar nada, devendo aprovar a proposta do Executivo tal como enviada ao Legislativo.

Alta da Selic é incompreensível e totalmente injustificada, avalia CNI

Agencias de Noticias

Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central aumentou a taxa básica de juros em 1 ponto percentual nesta quarta-feira (11)

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) considera incompreensível e totalmente injustificada a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de elevar em 1 ponto percentual a taxa básica de juros da economia, a Selic, após reunião nesta quarta-feira (11). Trata-se da terceira alta consecutiva da taxa, agora em 12,25% ao ano. 

Para a CNI, manter o ciclo de alta da Selic iniciado em setembro já configuraria um erro do Banco Central. Intensificar esse ritmo, como a autoridade monetária escolheu, portanto, não faz sentido no atual contexto econômico, marcado pela desaceleração da inflação em novembro e pelo pacote efetivo de corte de gastos apresentado pelo governo federal. 

Além disso, a decisão do Banco Central ignora a desaceleração da atividade econômica, já observada no PIB do terceiro trimestre, e a tendência de redução de juros nas principais economias globais, como os Estados Unidos, que partem para o terceiro corte seguido nos juros na próxima semana.

Poesia | O Amor, de Vladimir Maiakovski

 

Música | Mônica Salmaso - O velho Francisco

 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso deve aprovar pacote fiscal com urgência

O Globo

Parlamentares precisam deixar de lado interesses paroquiais e agir em nome das necessidades do país

Ao priorizar os próprios interesses e postergar a votação das medidas de ajuste fiscal, os parlamentares viram as costas às necessidades urgentes do Brasil. É verdade que as medidas apresentadas pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, são insuficientes para alcançar o equilíbrio desejável das contas públicas e resgatar a credibilidade do governo. Mas isso não significa que não sejam necessárias. É preciso que o Congresso aprove logo o pacote, a tempo de que ele surta efeito já no Orçamento de 2025. É desejável até que aprimore as medidas anunciadas, de modo a impor mais rigor ao controle de gastos. Do contrário, o Legislativo se tornará tão responsável quanto o Executivo pela incúria fiscal que alimenta a inflação, os juros e mina o crescimento da economia.

Vera Magalhães - Governo para nos boxes

O Globo

Além da votação do pacote de gastos, emergência de saúde do presidente compromete reforma ministerial e recomposição para 2026

A emergência médica por que passou Lula contribuiu para trazer ainda mais complexidade a um cenário de fim de ano já bastante desafiador para o governo. Por um lado, a preocupação com a saúde do presidente produz uma espécie de espírito de colaboração, mesmo por parte dos parlamentares até então dispostos a colocar a faca no pescoço do Planalto para votar alguma coisa. Por outro, a ausência do presidente do comando da articulação política faz com que esses mesmos atores desconfiem ainda mais da capacidade dos que assumiram a linha de frente de entregar o que é preciso para que as votações deslanchem: a execução das famosas emendas parlamentares.

No varejo, é essa a ambivalência que reina numa Brasília ainda preocupada em entender a extensão da gravidade do quadro clínico do presidente. A arriscada operação para removê-lo às pressas para se submeter a uma cirurgia na cabeça em plena madrugada não foi nada trivial e suscitou uma série de dúvidas a respeito da maneira como foi conduzido o pós-operatório da queda que Lula sofreu em outubro.

Quem se trumbica não se comunica – Elio Gaspari

O Globo

Sempre que o governo reconhece que tem um problema de comunicação, ele tem um problema, mas não é de comunicação. O velho Chacrinha dizia que “quem não se comunica se trumbica”. Certo, mas quem se trumbica não se comunica, e é esse o problema.

A ekipekonômica e o Planalto fizeram um pacote mal-ajambrado, tentando embrulhar uma vassoura, bananas e uma gaiola, o dólar passou os R$ 6, e o problema estaria na comunicação.

Paulo Pimenta, ministro-chefe da Secom, não é nenhum Washington Olivetto, mas não é dele a responsabilidade pela encrenca. Indo aos fatos.

A ekipekonômika começou a divulgar o pacote plantando notícias de uma tunga sobre o salário-desemprego dos trabalhadores demitidos sem justa causa. Começaram a soprar essa tunga sem ao menos conversar com o ministro do Trabalho, coisa de onipotentes mal-educados. 

Bernardo Mello Franco – Viúvas do talvez

O Globo

País ainda precisa retificar certidões de óbito de 404 vítimas da ditadura

Numa das cenas mais fortes de “Ainda estou aqui”, Eunice Paiva ergue uma certidão de óbito como se fosse um troféu. A ditadura havia matado seu marido em 1971. Ela só conseguiu o documento em 1996, depois de 25 anos de espera.

“O não reconhecimento da morte de Rubens Paiva foi a forma de tortura mais violenta a que eles poderiam submeter nossa família”, disse Eunice, interpretada no filme por Fernanda Torres. Até hoje, centenas de famílias vivem uma angústia parecida.

Ontem o Conselho Nacional de Justiça aprovou resolução que obriga os cartórios a retificarem certidões de óbito de vítimas do regime militar. “Embora nunca tenha havido um pedido formal de desculpas, como deveria ter havido, pelo menos estamos tomando as providências possíveis de reparação moral”, disse o ministro Luís Roberto Barroso.