sábado, 15 de agosto de 2026

Os sonhos não envelhecem, a esperança não se apagou, por Marcus Pestana

Não tenho dúvidas, o melhor ambiente para a condução dos destinos do mundo é a democracia. Mas ela, humana, carrega as contradições que são próprias de nossa natureza: virtudes e pecados, sentimentos generosos e perversos. Talvez, seja a política a atividade que melhor encarna a complexidade e os mistérios da existência humana. Há um lado nobre convivendo com traços abjetos. Solidariedade ao lado de ambições desmedidas. Fome de liberdade e justiça disputando espaço com a corrupção. Vontade de melhorar a vida de todos, lado a lado, ao egoísmo, ao patrimonialismo e à manipulação.

Quando aos 16 anos, em 1976, em plena ditadura, iniciei minha militância social e política, tudo era sonho. Não havia liberdade. As desigualdades eram alarmantes. A vontade de participar na vida pública surgia a partir de uma utopia, uma visão de mundo, um projeto de sociedade. A política só fazia sentido se abrisse porta para a mudança. Havia teoria, coração, projeto, sonho, esperança.

Minha geração estudantil conquistou todos os seus objetivos políticos: anistia ampla, constituinte livre e soberana, eleições diretas para presidente. Acabamos com a hiperinflação e o estrangulamento externo, construímos o SUS, universalizamos o ensino básico, consolidamos a democracia, tão testada. Mas, 41 anos depois da redemocratização, o Brasil continua um copo meio cheio, meio vazio. Fracassamos no combate à corrupção, na qualidade da educação, no saneamento, na moradia. Entregamos parcela do nosso território para o crime organizado. O Brasil continua absurdamente desigual e não saltou – como era nossa ideia – do time de países emergentes para padrões de nação desenvolvida. Não superamos a armadilha da renda média. O crescimento da economia, das últimas décadas, parece uma montanha russa. Picos exuberantes, recessões alarmantes.

A política mudou. Quando me elegi vereador, aos 22 anos, tudo era sonho e poesia. Minha campanha não tinha dinheiro, era estudante, só ideias e vontade de lutar. Fui depois deputado estadual e federal, secretário de planejamento e de saúde, ministro em exercício de dois ministérios. Tudo só fazia sentido em nome do projeto original. Em 2019, fui convocado a reassumir meu mandato federal.  Não quis. Não era mais meu mundo, polarização nas redes, radicalismo ao invés do diálogo, estrutura e dinheiro ao invés de utopias, demagogia e populismo no lugar de formulação e discussão sérias e profundas. Confesso, foi expressão de meu pessimismo, que conservo até hoje.

Vinte dias atrás, marquei um almoço com um grande amigo em Brasília. Não acreditei. Do alto de seus 82 nos e a partir de uma trajetória marcante e reconhecida, o Cristovam me falou que era candidato a deputado federal. Seus olhos brilhavam de esperança. Sonhando com a radicalização da democracia e uma educação universalizada de qualidade, a partir de um sistema nacional de educação. Minha primeira reação: você é louco, o ambiente é hostil para pessoas como nós. E ele, ex-reitor da UNB, ex-governador e ex-senador, ex-ministro da Educação, que tanto fez, só me falava dos sonhos futuros. Aí vi que ali, em um octogenário, estava encarnado aquele menino de 16 anos em Juiz de Fora.

O que Cristovam Buarque estava me dizendo essencialmente é que os sonhos não envelhecem – Ave, Márcio Borges! – e que a esperança ainda está no ar.

2 comentários:

Anônimo disse...

Belíssimo texto, querido amigo Marcus Pestana. Vivo esses mesmos dilemas hoje. Bom saber que não estou só! Abs Raul Christiano

Anônimo disse...

Emocionante sua escrita! Sonhos que estao ecoando em mim . Abs Gisele Bahia