Revista Veja
Tensão institucional e polarização elevam a
temperatura do pleito
Finalmente, a campanha de verdade vai começar. Até agora foi o ensaio de um espetáculo desafinado, com protagonistas desastrados e enrolados nos cadarços dos próprios sapatos. A plateia se divide entre odiar um ou outro dos ponteiros — e torcer por uma terceira via que não consegue entrar em cena.
Como toda eleição presidencial, temos dramas em curso. Teme-se a transição; outros temem o continuísmo. Nesta eleição, porém, há camadas adicionais: tensão institucional, incerteza econômica, polarização, escândalos graves, questões geopolíticas e uma disputa intensa pelas narrativas.
O eleitor observa tudo com desconfiança. A
rejeição aos principais nomes é elevada e amplia o contingente dos que
decidirão por exclusão, não por adesão, e, provavelmente, na reta final de uma
eleição que, salvo fatos novos, tende a ser muito disputada.
Porém, o quadro dado pode sofrer alterações.
O improvável pode acontecer e ameaçar os favoritos, que já sofrem com elevada
rejeição. Não é a tendência, mas é uma possibilidade.
As redes sociais, turbinadas pela
inteligência artificial, ampliam sua influência sobre uma audiência fragmentada
e cada vez menos leal a partidos. Os algoritmos viraram cabos eleitorais mais
poderosos. A imprensa, que detinha o poder de agendamento e enquadramento, tem
sua influência ofuscada.
Há também um componente singular. Flávio
Bolsonaro concorre sob a sombra de um pai preso e inelegível e em meio a conflitos
internos. Lula,
do outro lado, enfrenta seu próprio teste de sucessão: pilota um governo sem
marca, de rejeição elevada e com palanques estaduais pouco consistentes.
“O improvável pode acontecer e ameaçar os
favoritos, que já sofrem com elevada rejeição”
O Judiciário ocupa posição incomum. STF e TSE
seguem como árbitros, mas suas decisões integram o ambiente político que
procuram regular. Somem-se os escândalos que alcançam os Três Poderes — Banco
Master, emendas parlamentares e a tragédia do INSS. Em um quadro
onde as crises se sobrepõe, os eleitores têm dificuldade de separar o
estrutural do episódico.
Mas quem vencer, seja quem for, herdará um
país onde os Poderes não se reconhecem. Disputas institucionais prosseguirão,
já que o relacionamento harmônico entre os Poderes da União está seriamente
ferido. A governabilidade de 2027 pode se revelar mais difícil do que a disputa
eleitoral de 2026.
Finalmente, temos o drama maior. Os dois
passados em disputa não são equivalentes, mas se alimentam mutuamente. O
lulismo evoca um ciclo de inclusão social cuja repetição parece improvável — e
cujos vícios fiscais nunca foram enfrentados. O bolsonarismo evoca uma ruptura
conservadora que terminou em erosão democrática, mas cuja base identitária
permanece intacta.
Cada campo precisa do fantasma do outro para
existir: sem o retrospecto lulista, o bolsonarismo perde inimigo; sem o
retrospecto bolsonarista, o lulismo perde urgência. A polarização não é
acidente — é a arquitetura que sustenta ambos.
O Brasil discute a eleição como se escolhesse
entre dois futuros, quando a disputa continua organizada em torno de dois
passados que se recusam a passar. Em outubro, o país escolherá um presidente.
Mas estará decidindo, sobretudo, o que fazer com o próprio passado — e ainda
não sabe como.
Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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