O Globo
A colaboração do banqueiro quer embaralhar os
celulares
A delação premiada é uma prerrogativa da Viúva. Em dezembro de 2008, o FBI prendeu o financista Bernie Madoff, que brilhava sentado numa pirâmide de US$ 65 bilhões. Comparado às conexões de Madoff, Daniel Vorcaro com seu banco Master era um flanelinha. Madoff tinha o que contar, um de seus fundos juntava boa parte da grã-finagem internacional (com alguns brasileiros). Não se conhecem os detalhes de suas conversas com o Ministério Público, mas nem o governo nem ele puseram a carta da delação na mesa.
Madoff reconheceu-se culpado e viu-se
condenado a 150 anos de prisão. A Viúva depenou-o, leiloando suas casas, seus
40 relógios, faqueiros e cuecas. O finório morreu na cadeia em 2021, aos 82
anos.
Desde sua prisão, Vorcaro mudou o eixo de seu
caso. Fala-se mais de sua delação do que de sua fraude. Teve rejeitadas duas
propostas de colaboração e trocou de advogados, juntando mais um há poucas
semanas.
Com as provas, grampos e contratos já
reunidos pela Polícia Federal, o futuro de Vorcaro, como o de Madoff, está
escrito nas estrelas. Se ele quer falar, ótimo. Se não, paciência.
Há um risco real de o caso acabar como o
desfecho de um hipotético crime da pensão da Rua Bento Lisboa.
Na madrugada de 24 de agosto de 1954, um
sujeito sai de um quarto com uma faca ensanguentada e, na cama, está o corpo de
uma marafona esfaqueada. Chegam a polícia e o advogado do sujeito. Às 8h45, o
rádio da pensão anuncia o suicídio de Getúlio Vargas. O advogado vai ao
delegado e informa:
— Doutor, os dois casos são conexos.
Se colasse, embaralhava-se o assassinato da
marafona. Na vida real, 60 anos depois, foi o que aconteceu com a Operação
Lava-Jato. A escalafobética delação do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci,
também rejeitada duas vezes, serviu para tudo, inclusive para colocar o juiz
Sergio Moro no ministério de Jair Bolsonaro. Só não serviu para avançar com a
investigação.
Já a colaboração do tenente-coronel Mauro
Cid, chefe da ajudância de ordens de Bolsonaro, teve efeito inverso.
O futuro de Vorcaro, como o de Madoff, está
nos autos, e o curso das investigações pode puxar os muitos fios dessa meada. O
sonho do banqueiro, bem como de suas milícias políticas, financeiras e
noturnas, é a anulação do processo. Ela resolve o problema do andar de cima da
fraude, sem incriminar vivalma.
Se o banqueiro Vorcaro quiser colaborar com a
Viúva e se a Boa Senhora quiser ouvi-lo, a conversa pode começar com a listagem
dos esconderijos onde ele colocou seu patrimônio. No lance seguinte, Vorcaro
pode ser convidado a revelar suas conexões com cidadãos acima de quaisquer
suspeitas, a respeito dos quais a Polícia Federal já coletou dados que mantém
no sigilo do inquérito.
Começando pelo patrimônio, o caso do Master volta ao ponto de partida. Afinal, foi para amealhá-lo que Vorcaro teceu sua rede de amizades. Livre do patrimônio, resta-lhe sua sinceridade nas amizades que pretende proteger. Se o doutor não quiser, mandem-no de volta para a cela.

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