Como possível explicação – ou ao menos interpretação – dessa inflexão nas condutas políticas de atores relevantes (que não vem de hoje, mas se intensificou e “normalizou” a partir das eleições de 2018), aparece o deslocamento das garantias de governabilidade do país de um circuito de relação institucional antes coordenado pelo Presidente da República para outro, controlado por maiorias parlamentares formadas com grande autonomia política perante governos. Enquanto a governabilidade (especialmente econômica) depende cada vez mais dessa coesão legislativa do que de uma interação fluente entre os poderes, as estratégias eleitorais de lideranças e partidos, ao se tornarem atividades permanentes e crescentemente prioritárias, para esses atores, passam a demandar recursos políticos e materiais provenientes de decisões de ambos os poderes, exigindo práticas de cooperação entre eles. O orçamento público é o melhor exemplar dos laços que os atam.
Política e cultura, segundo uma opção democrática, constitucionalista, reformista, plural.
domingo, 30 de julho de 2023
Paulo Fábio Dantas Neto* - Dois protagonistas e um vácuo político
Luiz Carlos Azedo - Acordo com Centrão ressuscita política de conciliação
Correio Braziliense
Agenda de direitos humanos e pautas
identitárias não terão vez na base governista ampliada. Nesses quesitos, o
governo só poderá avançar administrativamente
Com o fim do recesso do Congresso e do
Judiciário, a política nacional retoma seu curso com dois fatos relevantes na
largada. Primeiro, a conclusão do processo de aprovação do novo arcabouço
fiscal e da reforma tributária, que ainda dependem de votações na Câmara e no
Senado, respectivamente. Segundo, a retomada dos trabalhos do Judiciário, que
tem na ordem do dia a conclusão do chamado inquérito das fake news, que
investiga os responsáveis pela tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro, a
cargo do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
É neste contexto que o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva negocia a incorporação do Centrão ao governo, o que
provocará um realinhamento de forças na Esplanada, sob a égide da velha
“política de conciliação”. Também é neste cenário que o novo ministro do
Supremo, Cristiano Zanin, tomará posse, na quinta-feira. Será o principal
interlocutor de Lula nos bastidores da Corte. Em outubro, o ministro Luiz
Roberto Barroso assumirá a presidência do STF, no lugar da ministra Rosa Weber,
que se aposentará. É adversário figadal do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Voltemos às mudanças na Esplanada. Lula finge desconhecer o Centrão, mas a tese de que não existe é apenas um subterfúgio de narrativa. O acordo com o PP, de Ciro Nogueira (PI), e o Republicanos, do deputado Marcos Pereira (SP), sob a liderança do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), é uma aliança com um partido conservador e oligárquico, de um lado, e os setores evangélicos ligados ao bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus.
Merval Pereira - Políticos de toga?
O Globo
Professor do Insper analisa o STF e diz que
o problema é que juízes ajam e sejam vistos como se fossem iguais aos
políticos, com idêntica lógica de atuação, que atuem e sejam percebidos como
políticos de toga”.
Muitos tribunais constitucionais no mundo
vêm sofrendo ataques crescentes, como o que acontece nos Estados Unidos, em
Israel e no México. No caso do Brasil, a política nacional se moveu para a
direita na última década, com uma guinada conservadora sobre várias questões
que invariavelmente chegarão ao Supremo Tribunal Federal (STF). Mas, como
analisa o livro do professor do Insper e especialista no judiciário Diego
Werneck Arguelles “O Supremo, entre o Direito e a Política”, a ser lançado pelo
selo História Real de Roberto Feith na editora Intrínseca, além desse fenômeno
internacional, “temos um desenho injustificável, em que se comportar
politicamente ou não depende basicamente da virtude individual dos(as)
ministros(as)”.
No Supremo Tribunal Federal (STF), relata Diego Arguelles, ministros têm amplo poder para decidir se, quando e como casos serão julgados. Para decidir ou obstruir casos sozinhos, seguindo suas solitárias crenças, suas preferências político-partidárias e até mesmo seus interesses estritamente pessoais (que podem ser nada republicanos). Para muitas vezes decidir o destino não só de quaisquer políticas públicas, de qualquer governo, mas sobre a pessoa física dos governantes e políticos — para decidir, por exemplo, se atores que foram decisivos para sua própria chegada ao tribunal devem ser presos ou podem concorrer a eleições.
Elio Gaspari - Tebet escolhe suas batalhas
O Globo
O economista Marcio Pochmann foi escolhido
para a presidência do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística numa
cavalgada típica do comissariado petista. O IBGE está na jurisdição do
Ministério do Planejamento, de Simone Tebet, e, de certa forma, sob o
guarda-chuva da Fazenda, de Fernando Haddad. Na quarta-feira, o titular da
Comunicação, Paulo Pimenta, anunciou:
“Marcio Pochmann será o novo presidente do
IBGE e não tem nenhum ruído quanto a isso.”
Ilusão de palaciano. Horas antes, a
ministra Tebet havia dito à repórter Miriam Leitão que não conhecia Pochmann e
que a escolha do novo presidente do IBGE seria tratada na hora certa. Tebet e,
de certa forma, Fernando Haddad foram atropelados pelo comissariado petista.
Pimenta fez o anúncio a mando de Lula. Pochmann é um veterano militante da
constelação de economistas do PT, tentou um voo como candidato à prefeitura de
Campinas e perdeu.
O ruído que Pimenta garantiu não existir, aconteceu, mas difere dos demais. Simone Tebet tem as boas maneiras de seu pai, Ramez, que presidiu o Senado. Como ela mesma disse, escolhe suas batalhas. Quem a viu na CPI da Covid, sabe como as trava.
Míriam Leitão - A celeuma e o debate real
O Globo
Economia é como cristal, mesmo que seja uma ingerência sutil, pode levar à quebra de confiança
Eles se definem como desenvolvimentistas,
mas suas ideias, quando aplicadas, levaram o país a uma queda de 3,5% do PIB em
2015, inflação de
dois dígitos, enorme prejuízo na Petrobras,
quebra do setor elétrico e juros de 14,25%. Era esse o quadro ao final do
governo Dilma.
Eles se definem como liberais, mas abriram
os cofres públicos por razões eleitoreiras, atropelaram a governança da
Petrobras, derrubando quatro presidentes, e não pagaram dívidas judiciais
vencidas, deixando uma bola de neve que ainda ameaça o Brasil. Esse era o
quadro ao final do governo Bolsonaro.
O debate que reavivou essa semana não é sobre correntes econômico-ideológicas, mas sobre estar atualizado em economia e ser eficiente na política econômica. A celeuma estourou no mesmo dia em que as manchetes dos jornais on-line davam a melhora da nota de crédito do Brasil.
Dorrit Harazim – Experimentos
O Globo
Reparações históricas e desculpas oficiais
costumam vir na rabeira da própria História. E com frequência nada reparam
Na terça-feira, o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou a criação de um Monumento Nacional em memória do menino negro Emmett Till e de sua mãe, Mamie Till-Mobley. Na verdade, serão três os monumentos que evocarão o assassinato de Emmett, com requintes de selvageria, por supremacistas brancos nos idos de 1955. O primeiro será erguido na igreja de Chicago onde o garoto fora velado; o segundo, na ravina do Rio Tallahatchie, no Mississippi, onde encontraram seu corpo brutalizado; e um terceiro, certamente o mais significativo, na entrada do tribunal onde os matadores confessos, dois irmãos graúdos, foram rapidamente absolvidos por um júri branco.
Eliane Cantanhêde - UTI da Esplanada
O Estado de S. Paulo
Flávio Dino e PF estão em todas e ‘dão
Ibope’. Por que Dino iria para o Supremo?
Quando surge algum problema no governo,
gritase: “Chama o Dino!” Quando aparece uma suspeita, clama-se: “Chama a PF!” E
é assim que o Ministério da Justiça foi se transformando na “UTI da Esplanada”
e a Polícia Federal, com Andrei Passos, há muito tempo não é tão ativa.
Ministério e PF estão em todas.
É improvável a ida de Flávio Dino para o Supremo. O que ele lucraria com isso? E Lula e o governo? Ok, pode-se dizer que o PT tiraria um adversário da frente em 2026, mas ir para o STF não significa evaporar e o mais provável é Dino concorrer à Presidência em 2030, aos 62 anos.
Renata Cafardo - IA, uma ameaça ao aprender a pensar
O Estado de S. Paulo
‘Ferramentas podem exercer um impacto negativo na motivação do estudante’, diz Unesco
Com pouco destaque em um relatório de 200
páginas sobre tecnologia, a Unesco evidenciou na semana passada o que pode ser
um impacto amedrontador da inteligência artificial (IA) na educação. Por dar
respostas rápidas em um tempo em que rapidez é entendida como sinônimo de
eficiência, ferramentas como Chat GPT podem retirar do estudante um dos grandes
propósitos pelo qual vamos à escola ou à universidade: aprender a pensar.
Pode parecer catastrófico demais para algo
ainda sem muitas evidências, mas a Unesco dá o tom: “essas ferramentas poderiam
exercer um impacto negativo na motivação do estudante de conduzir pesquisas
independentes e achar soluções”.
E não é só porque as soluções do Chat GPT podem ser piores, ter vieses e informação de fontes não confiáveis, é porque o importante é o processo. A IA em breve vai dar respostas perfeitas. Mas na educação o que vale não é nota 10. É, sim, a construção do conhecimento.
Cristovam Buarque* - O racismo tolerado
Blog do Noblat / Metrópoles
A desigualdade na qualidade das escolas conforme a raça do aluno é um racismo invisível
Até recentemente, muitas manifestações
racistas ficavam imperceptíveis, tão aceitas que eram invisíveis. Felizmente,
qualquer gesto racista por uma pessoa passou a ser imediatamente visto e
combatido. Mas continua aceito o racismo considerado desigualdade na estrutura
como vivem, estudam, moram os afrodescendentes brasileiros. É como se as ideias
racistas fossem visíveis, mas a desigualdade conforme a cor do usuário não
fosse também uma manifestação de racismo.
Esta semana percebeu-se o descuido nas escolas com a oferta de aulas de conscientização contra o racismo, mas não se percebe o racismo embutido na desigual qualidade entre as escolas dos brancos e negros que poderem pagar, em relação às escolas dos negros e brancos por serem pobres. O racismo é visto apenas na falta de aula sobre o assunto, não na falta de escola para todos os assuntos que as crianças precisam aprender. Não se vê como racismo o fato de o sistema escolar separar os brasileiros em “escolas senzala” e “escolas casa grande”, conforme a renda e o endereço, em consequência, conforme a raça porque no Brasil a pobreza tem cor.
Celso Rocha de Barros* - Pochmann no IBGE
Folha de S. Paulo
Tese de ‘virada à esquerda’ está errada
Lula nomeou Marcio
Pochmann presidente do IBGE, órgão ligado ao Ministério do
Planejamento de Simone Tebet.
Alguns observadores viram na nomeação um esvaziamento dos poderes da ministra
e/ou uma tentativa de virar o governo à esquerda.
A tese da "virada à esquerda"
está errada. Se Pochmann tivesse sido indicado para mudar a política econômica,
o enfraquecido teria sido Haddad,
não Tebet. O PT até
pode sabotar a presidenciável dos outros, mas não teria por que sabotar o
próprio.
Na verdade, o episódio ganhou destaque
porque Tebet e
Alckmin são os grandes fiadores da adesão de setores do centro
liberal ao governo.
Com a imposição de
Pochmann a Tebet, surgiu a suspeita de que o PT já estivesse
antecipando a briga eleitoral de 2026 e rompendo com a "Frente
Ampla".
Parece mais provável que Lula tenha apenas recompensado um aliado de longa data com um cargo importante. Não era fácil encaixá-lo no governo: dar a Pochmann um cargo no Ministério da Fazenda teria, aí sim, criado um boato plausível de mudança na orientação geral do terceiro governo Lula.
Bruno Boghossian - A mentira como negócio
Folha de S. Paulo
Ex-presidente escondeu gravidade da
pandemia, posou de vítima e foi premiado com Pix
Depois de perder a eleição, Donald Trump arrecadou
US$ 255 milhões em oito semanas. O presidente derrotado pedia doações enquanto
espalhava alegações de fraude e prometia usar o dinheiro para contestar o
resultado das urnas.
A vaquinha enganava os eleitores duas
vezes. A primeira lorota era a finalidade das doações. Nem 4% do dinheiro foi
gasto com a tentativa de virada de mesa. Uma parte foi usada em propaganda e o
resto (cerca de US$ 175 milhões) ficou guardado para uma nova campanha de
Trump.
A outra falcatrua era o discurso da eleição roubada. Na última semana, Rudy Giuliani admitiu que, como advogado de Trump, fez acusações falsas de fraude na contagem de votos.
Ruy Castro - Finalmente, fora do limbo
Folha de S. Paulo
Julia Lopes de Almeida, Carmen Dolores,
Chrysanthème, Gilka Machado e Adalgisa Nery renascem nas livrarias
Quando se pensa que a história de uma
literatura já está escrita, protagonizada pelos suspeitos de sempre, surpresas
acontecem. Autores popularíssimos há 100 anos e desde então sepultados voltam
de repente à vida, graças a pequenas e bravas editoras. Com isso, renascem em
letra de forma e nos fazem perguntar por onde andavam. No limbo, claro,
silenciados por cânones literários totalitários.
No caso, são cinco mulheres: as romancistas Julia Lopes de Almeida (1862-1934), Carmen Dolores (1852-1910, pseudônimo de Emilia Bandeira de Mello) e Chrysanthème (1869-1948, pseudônimo de Cecília Bandeira de Mello e filha de Emilia), a poeta Gilka Machado (1893-1980) e a romancista e poeta Adalgisa Nery (1905-80). Exceto Adalgisa, contemporânea delas, mas que só se revelou mais tarde, todas foram ativas e altivas no Rio de 1900 a 1930. E, ao contrário do que se pensa, não sofreram por serem mulheres e escritoras. Não dariam essa confiança aos homens.
Muniz Sodré* - Dinastias iliberais
Folha de S. Paulo
Uma razão acima de provas, eis o elo entre
o rei e o autocrata
Vale cotejar no streaming o sul-coreano
"A Fortaleza" com um fenômeno político atual: o sumiço de oligarcas e
líderes militares na Rússia.
O filme encena a monarquia coreana às voltas com a temível invasão da dinastia chinesa Qing. O rei pondera os conselhos, em geral
divergentes, de seus ministros. Erros são corrigidos por protocolo elementar: o
monarca oferece a si próprio a cabeça cortada do mau conselheiro, militar ou
civil.
Tudo isso transcorre no século 17, mas o feroz absolutismo real fornece
material presente para uma analogia com o autocratismo homicida de Putin. O importante Sergei Surovikin, notório pelo sinistro epíteto de
"General Armagedon", não é visto desde o fim da rebelião dos
mercenários. Somem comandantes, milionários despencam de edifícios. O Kremlin
opera a todo vapor no modo delete.
IEPfD | A Representação Democrática e suas dificuldades – Seminário 4
Dando continuidade ao *Curso Política e Democracia - reflexões sobre seus desafios para o século XXI* , realizamos ontem nosso quarto seminário.
O tema abordado foi *“A Representação
Democrática e suas Dificuldades”.* Marco Aurélio Nogueira e Luiz Sérgio
Henriques apresentaram diferentes enfoques que nos ajudam a entender os
desafios da representavidade política para as democracias modernas.
Segue o vídeo completo
Bom final de semana.
João Rego – presidente
O que a mídia pensa: Editoriais /Opiniões
Ampla reforma administrativa não pode ser adiada
O Globo
É um equívoco autorizar novos concursos
antes de promover reformulação do setor público
O anúncio feito pela ministra da Gestão e
da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck,
de que já há concursos autorizados para contratar até 8.200 novos servidores
neste ano e que pretende antecipar mais 10 mil contratações previstas para o
ano que vem significa que o governo Lula dará prioridade a apenas ampliar a
máquina burocrática da União, não a torná-la mais eficiente. Melhor faria se
antes aprovasse no Congresso uma reforma
administrativa para tornar o funcionalismo muito mais
produtivo. Assim, proporcionaria ao país a chance de dar um salto qualitativo e
fazer uma enorme economia.
Somente uma ampla reforma administrativa conseguirá desvencilhar o Brasil de um de seus maiores problemas: a ineficiência crônica do setor público, que impede o cidadão de ter acesso a serviços de qualidade. Para piorar, a nossa burocracia é cara. As despesas com servidores públicos equivalem a 13% do PIB, percentual maior que os registrados em Portugal e França, segundo levantamento do Banco Mundial. Dados compilados pelo instituto República.org mostram que a mediana dos salários da União é de nada menos que R$ 10 mil mensais. Nos estados, é metade disso.
sábado, 29 de julho de 2023
João Gabriel de Lima* - Um crime que envergonha o Brasil
O Estado de S. Paulo
Além do assassinato de Marielle em si, a falta de solução para o crime enlameia a reputação do País
No prédio de número 64 na rua Gitschiner,
em Berlim, há um mural para homenagear a vereadora brasileira Marielle Franco e
lembrar seu assassinato em março de 2018. De lá, caminha-se 20 minutos pelo
bairro boêmio de Kreuzberg e se chega à Marielle-Franco-Platz. Há espaços
públicos com o nome de Marielle em Paris, Florença, Amsterdam e Buenos Aires.
Em Lisboa, onde moro, há um mural em homenagem a Marielle no Monsanto, o maior
parque da cidade.
A repercussão internacional do assassinato de Marielle foi um dos pretextos jurídicos para que a investigação saísse do Rio de Janeiro e passasse à alçada federal, no início deste ano. Nesta semana, em delação premiada, o ex-policial Élcio de Queiroz confirmou que o crime havia sido planejado, acusou o miliciano Ronnie Lessa de ser o executor e revelou detalhes fundamentais para que a Polícia Federal chegue ao mandante.
Bolívar Lamounier* - Onde começa o começo?
O Estado de S. Paulo
A tríade latifúndio, escravidão e monocultura de exportação e a gosma cultural da contrarreforma nos legaram um zero à esquerda em termos de tecnologia
David Fromkin, um dos principais
historiadores contemporâneos, professor da Universidade de Boston, certa vez
concebeu uma anedota ao mesmo tempo deliciosa e cientificamente importante.
Ao começar seu curso semestral, fez a seus
50 alunos uma proposta deveras inusitada. Distribuiu-lhes pequenos envelopes
identificados pelos respectivos nomes, cada um contendo meia folha de caderno.
Cada aluno deveria responder em um parágrafo – não mais que um parágrafo – qual
foi ou quais foram as causas da Primeira Guerra Mundial. Finda a operação, que
foi breve, o professor começou a abrir os envelopes e ler as respostas para a
turma. A primeira, por coincidência, foi o lugar-comum mais conhecido: “Um
estudante sérvio matou a tiros o Arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro
presuntivo do trono austro-húngaro”.
Nos outros 49 envelopes, os estudantes
deram rédea solta à imaginação. O segundo apontou uma causa distante no
passado: o fato de Júlio César, violando as leis de Roma, ter cruzado o Rubicão
e entrado na cidade com seu exército.
Rica e divertida, a experiência certamente mostrou aos jovens que determinar com exatidão onde um processo histórico começa, e por que começa, não é uma matéria tão simples como possa parecer. Essa história veio-me à mente outro dia, no programa apresentado por William Waack na TV CNN, quando tive o privilégio de participar de uma troca de ideias com o ex-deputado Roberto Brant, que ocupou uma cadeira na Câmara durante cinco mandatos consecutivos, e o jovem cientista político Carlos Melo, professor do Insper. O mote sugerido por William Waack foi “por que o Brasil não sai do lugar”. Por que nosso sistema político está há décadas afundado neste paradeiro, incapaz de aprimorar sua organização institucional e menos capaz ainda de levar à prática nossos ideais de crescimento econômico e bem-estar social.
Pocchmann no IBGE é escolha pessoal de Lula, que se irritou com críticas
Catia Seabra e Julia Chaib / Folha de S. Paulo
Auxiliares atribuem ao entorno de Tebet
restrições à indicação do economista do PT Marcio Pochmann
BRASÍLIA - O presidente Lula (PT) tem
manifestado contrariedade com as críticas à sua escolha para a presidência
do IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística). Segundo interlocutores, o petista está
particularmente incomodado com as suspeitas de manipulação de dados levantadas
contra o economista Marcio Pochmann, por quem tem apreço pessoal.
Nas palavras de aliados, Lula classifica
como uma descortesia supor que, na presidência do IBGE, Pochmann venha a
adulterar dados.
Ainda de acordo com esses colaboradores,
foi após consultar o presidente que o ministro Paulo Pimenta,
da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social), confirmou o nome do
economista na noite da última quarta-feira (26), à saída do Palácio do
Alvorada.
A intenção ali foi colocar um ponto final
na controvérsia, "estancar a sangria", evitando que Pochmann seja
exposto a ataques até 15 de agosto, quando deverá assumir a função.
Para outra ala de integrantes do Palácio do
Planalto, porém, Pimenta foi voluntarioso. Em reunião do Palácio da Alvorada, o
ministro questionou Lula sobre as especulações a respeito de Pochmann. Ouviu do
presidente que a decisão estava tomada.
O ministro teria interpretado essa resposta como uma orientação para que a tornasse pública. Mas, na avaliação de seus pares, Pimenta se antecipou e, ao divulgar a decisão sem antes conversar com Tebet, constrangeu a ministra. Na noite desta quinta-feira (27), Pimenta telefonou para ela na tentativa de dissipar esse mal-estar.
Dora Kramer - Um equilibrista no Planalto
Folha de S. Paulo
Lula busca compensar aliança com centrão
com acenos nem sempre sensatos à esquerda
Os preparativos para a entrada oficial do
centrão no governo exibem movimentos interessantes. A negativa do
presidente Luiz Inácio
da Silva, por exemplo, sobre a inexistência do bloco. "O
centrão não existe", pontificou.
Ora, não apenas existe como detém a maioria
dos votos no Congresso,
matéria-prima de interesse do Planalto. Trata-se, no entanto, de uma aquisição
que demanda compensações à esquerda pela perda de um antagonista de estimação.
Na falta dele, há sempre à disposição Jair Bolsonaro para trocas de insultos (a mais recente acerca de jumentos) com Lula ou um Roberto Campos Neto a quem se pode chamar de "capacho" e "lacaio" do capital sem maiores consequências.
Carlos Alberto Sardenberg - Estragar o IBGE, não vai. Mas pegou mal
O Globo
A ideia foi colocar um companheiro numa boa
posição, mesmo ele não tendo o currículo e a expertise para o cargo
Numa boa: se era para colocar o economista
Marcio Pochmann no governo, a presidência do IBGE foi
uma saída de pouco dano. Lá, o potencial de estragos é menor, quase nada.
Com todo o respeito que o IBGE merece, o
fato é que lá não se formula nem se pratica política econômica. Trata-se de um
órgão que pesquisa e elabora dados. Mede e calcula população, inflação,
emprego, desemprego e renda, o Produto Interno Bruto, contas nacionais.
Mais: o IBGE tem tradição e estruturas
consolidadas, além de um corpo técnico profissional e gabaritado.
Algumas pessoas levantaram hipóteses de manipulação dos dados, de modo a criar uma imagem mais favorável do país, beneficiando a propaganda do governo.
Eduardo Affonso - Provocação nada homeopática
O Globo
‘Que bobagem!’ não é uma bobagem. É bem
fundamentado. Mas opta por matar a vaca para acabar com o carrapato
Uma das fórmulas mais elementares do humor
é a “regra de três”: estabeleça, reforce, subverta. Em outras palavras, crie
uma expectativa e a quebre. Algo como dizer que há coisas que não se devem
engolir de jeito nenhum, tipo bala Soft, caroço de jabuticaba e Marcio Pochmann
no IBGE.
Da mesma forma, existem receitas infalíveis para causar polêmica. Misture galhos com bagulhos, junte uma pitada de argumento de autoridade e polvilhe provocação a gosto. Se for uma obra, dê-lhe um título lacrador — como “Que bobagem!”, o recém-lançado livro de Natalia Pasternak e Carlos Orsi, que trata de “pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério”.
Pablo Ortellado - Trabalho por plataforma segue ruim
O Globo
Não há ainda mecanismos legais que garantam
o salário mínimo
Nesta semana foi lançada uma nova edição
do relatório Fairwork Brasil, que avalia a qualidade do trabalho
por plataformas, como Uber, iFood e
Parafuzo. Pouca coisa mudou desde a edição anterior, lançada em 2021, que
mostrava trabalhos mal pagos, sem equipamento de proteção, com contratos e
práticas gerenciais opacas e pouco respeito à liberdade de associação dos
trabalhadores.
Numa escala de zero a dez, a maior nota, do aplicativo AppJusto, foi de apenas três. iFood fez dois pontos. Parafuzo fez um. Americanas, 99, GetNinjas, Lalamove, Loggi, Rappi e Uber não pontuaram. A situação destoa de outros países da América Latina, como Colômbia ou Equador, que tiveram aplicativos, avaliados com os mesmos critérios, fazendo até oito pontos.
Alvaro Costa e Silva - Caso Marielle enlouquece Bolsonaro
Folha de S. Paulo
Novo relatório da PF põe em xeque as
instituições que antes investigavam o assassinato
Na noite em que executou Marielle Franco e Anderson Gomes, o matador de
aluguel Ronnie Lessa foi beber com amigos num badalado bar da
Barra da Tijuca, sem ao menos se preocupar em esconder a arma do crime. Com
ele, estava o comparsa Élcio Queiroz, que durante a farra vomitou três vezes, segundo
declarou em sua delação premiada. Os dois encheram a caveira para celebrar a
morte e o esquema de proteção de que desfrutavam para matar.
Os cinco anos que se passaram desde o início das investigações dos assassinatos
—ligados a uma rede estruturada de tráfico de drogas e de armas, clubes de
matadores, lavagem de dinheiro e formação de milícias paramilitares— impuseram,
de acordo com a Polícia Federal, "limites intransponíveis" para a
resolução do caso.
Oscar Vilhena Vieira* - A rua não é lugar para se viver
Folha de S. Paulo
Decisão de Alexandre de Moraes é bem-vinda
ao estabelecer prazo e processo para que as autoridades cumpram suas obrigações
A invisibilidade e a indiferença são
estratégias que muitas vezes empregamos, ainda que inconscientemente, para
lidar com situações dramáticas, como a das populações em
situação de rua. Com o tempo, vamos nos tornando moralmente
insensíveis em relação aos sofrimentos desse grupo heterogêneo de pessoas que
passam a viver em pobreza extrema, destituídas de moradia, de vínculos
familiares, de trabalho estável, entre outras formas de privação e negligência.
A invisibilidade e a indiferença podem, no entanto, se transformar em estigmatização e hostilidade. Com o aumento das pessoas em situação de rua, esse grupo passa a ser visto cada vez mais como ameaça, gerando demandas e ações políticas, administrativas e "zeladoria" mais violentas, discriminatórias e excludentes.
Demétrio Magnoli - A corte suprema de Israel —e a nossa
Folha de S. Paulo
STF prolonga as exceções jurídicas para
além do período de excepcionalidade política
Em Israel, o poder político avança sobre as
prerrogativas e a independência da Suprema Corte. A sociedade israelense reage,
em defesa da democracia ameaçada. No Brasil, temos um problema quase oposto com
o STF, que opera há tempos como protagonista político. Contudo, desviamos o
debate substancial para a esfera das guerrilhas identitárias. A sucessão de
Rosa Weber é uma oportunidade para enfrentá-lo.
"In Fux we trust", replicou
Sergio Moro a uma mensagem de seu fiel escudeiro Dallagnol, em abril de 2016.
Não era só Luiz Fux: o juiz político podia confiar na maioria do STF. Ao longo
daqueles anos, o tribunal superior funcionou como câmara de eco do partido
clandestino da Lava Jato.
O STF militava. Embriagado pelos aplausos da opinião pública, fabricava leis implícitas de exceção. Então, suspendeu mandatos parlamentares, legalizou a prisão em segunda instância e referendou os acordos espúrios de delação premiada firmados pelo Ministério Público. A inflação do poder do tribunal refletia a desmoralização do Executivo e do Congresso.
Marcus Pestana* - A Espanha, o Brasil e a raiz de nossos problemas
Na Espanha, meses atrás, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), do presidente do governo Pedro Sánchez, perdeu importantes eleições regionais, num sintoma claro de insatisfação popular. Evidenciando a superioridade do sistema parlamentarista em relação ao presidencialismo, foi captado o sentimento da sociedade e dada uma resposta política. Usando a flexibilidade dos mandatos – no presidencialismo os mandatos são rígidos, faça chuva, faça sol - Pedro Sánchez antecipou as eleições gerais para consultar a população sobre os rumos que desejava dar ao país.
O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões
Lula erra ao escolher novo chefe do IBGE
O Globo
Economista apontado tem histórico de
radicalismo e já chamou Pix de decisão ‘neocolonial’ do Banco Central
O ritmo de produção do IBGE é
alucinado. Na média, são quatro anúncios por semana. Juntos, formam um retrato
fidedigno do Brasil. São dados sobre inflação, desemprego, distribuição de
renda, pobreza, mortalidade infantil, expectativa de vida ou produção na
economia. O Censo, divulgado a cada dez anos, é o que exige mais recenseadores.
Mas levantamentos permanentes também têm estrutura monumental. Os pesquisadores
da Pnad Contínua visitam 210 mil domicílios em 3.500 municípios a cada três
meses.
O anúncio nesta semana de que o economista Marcio Pochmann assumirá o comando do IBGE a pedido expresso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva coloca em risco a credibilidade desse trabalho conquistado em mais de oito décadas. Lula ainda fez a grosseria de passar por cima da ministra do Planejamento, Simone Tebet, que o apoiou no segundo turno da eleição de 2022.
sexta-feira, 28 de julho de 2023
Vera Magalhães – Qual o caminho na economia?
O Globo
Opção por revisitar o governo Dilma não
combina com festejar a decisão de uma agência de elevar a nota de crédito do
país
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad,
celebrou de maneira elegante a decisão da agência Fitch de elevar a nota de
crédito do Brasil: dividiu os louros com os demais Poderes, fez uma aposta na
institucionalidade e na previsibilidade e deixou claro que o objetivo é que o
país retome o grau de investimento que perdeu em 2018.
O relatório da agência, por sua vez, é reticente.
Enxerga boas práticas do governo justamente no que advém da agenda Haddad: o
arcabouço fiscal, a aprovação parcial da reforma tributária e uma aposta no que
chamou de “pragmatismo”. Faz ressalvas, no entanto, à pregação de uma agenda
não liberal e à defesa, aqui e ali, da revogação do que considera pautas
reformistas, como a autonomia do Banco Central, o marco regulatório do
saneamento básico e as mudanças nas leis trabalhistas.
No texto, existe quase uma torcida para que essa tentação de rever o que foi aprovado tenha ficado para trás e o pragmatismo prevaleça. Parece ser esse o empenho de Haddad, que tem contado, para isso, com o apoio do Congresso, a ajuda de decisões judiciais, uma nova boa vontade do mercado e uma parceria leal com o Planejamento sob o comando de Simone Tebet.
Luiz Carlos Azedo - Governabilidade de Lula depende de um bom acordo com o Centrão
Correio Braziliense
A oposição de extrema direita está sendo
isolada, com o ex-presidente Jair Bolsonaro fora da disputa eleitoral de 2026.
Lula tenta evitar o surgimento de uma oposição de centro-direita robusta
Um velho jargão da política diz que um bom
acordo, para ser duradouro, precisa ser ruim para todos os envolvidos, mas não
tanto que possa ser rompido. No caso da reforma ministerial à vista, porém,
precisa ser bom o suficiente para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva formar
uma maioria absoluta na Câmara, ou seja, garantir ao menos o apoio de 257
deputados, o quórum mínimo para aprovação de leis ordinárias. A aprovação de
emendas constitucionais, por quórum qualificado, ou seja, por mais de três
quintos dos deputados, exige o apoio de 308 deputados. Dificilmente a reforma
chegará a isso.
Por essa razão, a decisão de incorporar o PP e o Republicanos ao governo Lula pressupõe saber se realmente esses partidos entregarão os votos de suas bancadas na Câmara, que foram eleitas majoritariamente na base eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro. Não se trata apenas da lealdade dos novos ministros, mas da sua capacidade de amarrar os votos de suas legendas. Essa questão está posta principalmente por causa do União Brasil, cuja bancada majoritariamente votava contra o governo, porque não se sentia representada pela deputada Daniela Carneiro (RJ) no Ministério do Turismo.
Flávia Oliveira - Verdades inconvenientes
O Globo
Polícia Civil e MP-RJ empacaram na
investigação sobre mandante e motivação do assassinato de Marielle
Nesta semana, quase cinco anos e meio
depois da execução da vereadora carioca Marielle
Franco e do motorista Anderson Gomes, o Brasil foi levado de
volta à noite de 14 de março de 2018, às horas que antecederam o crime, aos
dias seguintes. A entrada da Polícia Federal no caso, que deu na delação
premiada do ex-policial Élcio Queiroz, confirmou a autoria do duplo assassinato
e, sobretudo, descortinou a dinâmica de operação e a cadeia de conexões dos
assassinos de aluguel no Rio de Janeiro. Só muita cumplicidade de autoridades e
agentes da lei manteria atividade tão macabra quanto numerosa por tanto tempo
oculta, disfarçada, livre.
Élcio Queiroz contou que Marielle estava jurada de morte muitos meses antes da quarta-feira em que foi emboscada minutos depois de sair de uma reunião com jovens negras na Casa das Pretas, no Centro da capital fluminense. Teria ouvido de Ronnie Lessa, o PM reformado que puxou o gatilho de dentro do carro que o cúmplice dirigia, sobre uma tentativa frustrada em fins de 2017.
Maria Cristina Fernandes - Haddad ocupa espaço da moderação e obriga Simone Tebet a se reinventar
Valor Econômico
Ministra do Planejamento perdeu duas
oportunidades para fazer o presidente do IBGE
A ministra Simone Tebet é sócia dos bons
resultados da economia deste governo, mas tardou a perceber como estes,
paradoxalmente, lhe estreitaram os caminhos. A aceitação, pelo mercado, de uma
política econômica que começa a dar resultados foi o trampolim para Marcio
Pochmann no IBGE. Um semestre se passou até que o governo se desse ao luxo de
esnobar as restrições da ministra a um nome como o de Pochmann. Houve duas
oportunidades para Simone Tebet evitá-lo, mas nenhuma delas foi aproveitada.
A primeira foi na posse. Sua nomeação para Planejamento simbolizava a cota de respeito a um resultado eleitoral apertado num ministério mais petista do que o eleitorado chancelara. Mas a Pasta estava aquém de suas pretensões de comandar uma área social do governo, foco das melhores propostas de sua campanha presidencial. Por isso, pareceria natural que a ministra tivesse garantida, no mínimo, a nomeação da principal autarquia sob seu comando.
César Felício - Marielle influi no cenário político
Valor Econômico
Levar a discussão sobre a reeleição das
presidências do Legislativo para o Supremo, mesmo existindo norma
constitucional sobre o tema, corrói democracia
Há pouco mais de um ano o ex-presidente
Jair Bolsonaro comentou que “ninguém conhecia ou se lembrava de Marielle até
sua morte”.
A frase, desrespeitosa à memória da
vereadora Marielle Franco, como aliás têm sido praticamente todas as
referências feitas por ele à política carioca assassinada em 2018, incute
apesar disso um fundo de verdade.
Marielle de fato ganhou uma dimensão que não tinha em vida, ao ser vítima, ao que tudo indica, da milicianização do Rio de Janeiro. Os vivos por vezes são governados pelos mortos, para lembrar o filósofo positivista Auguste Comte, e Marielle morta influi no debate político brasileiro. Esta influência subiu um degrau desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a delação premiada de um dos seus executores sugere que ela crescerá.

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