domingo, 12 de janeiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

É tarefa urgente combater aumento de casos da dengue

O Globo

O ano de 2025 começa com previsões alarmantes sobre proliferação de doença letal e evitável

É preocupante o alerta feito pelo Ministério da Saúde a estados e municípios sobre o possível aumento de casos de dengue nos primeiros meses deste ano. Significa que uma situação que já é dramática pode se tornar ainda pior se as medidas necessárias não forem tomadas a tempo. Em 2024, diante de ações tíbias das autoridades sanitárias dos três níveis de governo, a doença se espalhou, batendo todos os recordes. Pelos números oficiais, foram 6.644.336 casos registrados — quase quatro vezes mais que no ano anterior — e 6.041 mortes (outras 875 estão sob investigação).

Projeções do Ministério para a temporada 2024-2025 estimam que os estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Tocantins, Mato Grosso do Sul e Paraná poderão apresentar incidência maior do que no ano passado. Outra preocupação é que, apesar de os sorotipos predominantes ainda serem o DENV1 (73,4%) e o DENV2 (25,9%), o DENV3, para o qual a maior parte da população brasileira não tem imunidade, já circula em estados como Amapá, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Roraima e Pará.

Os donos da verdade - Merval Pereira

O Globo

Lula assumiu o controle da História nos seus domínios provisórios querendo reescrevê-la do seu ponto de vista

"No Brasil, até o passado é incerto”, definiu o economista Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda do Plano Real e um pensador do país dos mais consistentes. Mais incerto ainda porque, como já disse o grande escritor George Orwell, “a história é escrita pelos vencedores”. Com o advento da internet, as fake news substituíram com vigor insuperável os boatos, que já tiveram seu papel na nossa história, como a acusação de que o brigadeiro Eduardo Gomes teria desprezado os votos dos “marmiteiros” na eleição presidencial de 1945 contra Eurico Gaspar Dutra, que acabou vencendo por larga margem.

O uso das redes sociais nas campanhas políticas, agravado agora pela Inteligência Artificial (IA) está em discussão há algum tempo no mundo, e agora mais do que nunca com a decisão de Mark Zuckberg de retirar de suas plataformas digitais (Facebook, Instagram, WhatsApp) as checagens sobre a veracidade do que é publicado. A vontade de distorcer os fatos dos vencedores do momento em benefício próprio não é novidade. Em 1924, após a morte de Lênin, principal líder da Revolução Bolchevique de 1917, Leon Trotsky e Josef Stalin passaram a dividir a influência sobre o partido comunista que, na prática, governava a União Soviética.

Trump e a volta do “imperialismo yankee” - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Agora, às vésperas de tomar posse, Trump choca o mundo com uma visão geopolítica expansionista que vai muito além da “guerra comercial” com a China

Por definição, o imperialismo ocorre quando uma nação promove uma expansão territorial, econômica e/ou cultural sobre outra nação pela força. A colonização da África, da Ásia e da Oceania, que se iniciou na segunda metade do século XIX, representou o auge do imperialismo. Em termos atuais, pode ser empregada no caso da invasão da Ucrânia pela Rússia, por exemplo. Segundo o historiador Eric Hobsbawm, essa forma de neocolonialismo representou a ocupação de 25% das terras do planeta.

O revolucionário russo Vladimir Lênin, que liderou a Revolução de 1917 e fundou a antiga União Soviética, porém, associava o imperialismo ao estágio monopolista do capitalismo. “Essa definição compreenderia o principal, pois, por um lado, o capital financeiro é o capital bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido com o capital das associações monopolistas de industriais e, por outro, a partilha do mundo é a transição de uma política colonial que se estendeu sem obstáculos às regiões não apropriadas por nenhuma potência capitalista para uma política colonial de posse monopolista dos territórios da Terra, já inteiramente repartida.”

Com o fim da antiga União Soviética, que havia se transformado de uma força anticolonialista, sobretudo na Ásia e na África, numa potência imperialista na Europa Oriental, essa visão perdeu relevância. Com o fim do colonialismo, a integração das diversas regiões do globo por meio do desenvolvimento dos transportes e das comunicações ultrapassou os modelos nacional-desenvolvimentistas que nela se baseavam, sobretudo a partir de a China adotar o capitalismo de estado e emergir como nova potência econômica mundial.

Foi lindo – Dorrit Harazim

O Globo

Assunto para desesperança não falta, daí a importância de relembrar a felicidade coletiva pelo prêmio de Fernanda Torres

A terra arde na Califórnia, falta ar respirável na Venezuela de Nicolás Maduro, Mark Zuckerberg assume sua covardia cívica, e o mundo gira aparvalhado às vésperas de uma nova era — a era Trump II. Assunto para desesperança não falta, daí a importância de relembrar também aqui, e sempre que necessário, a felicidade coletiva que inundou o Brasil nas últimas horas do domingo passado.

Dada a excepcional safra de concorrentes ao Globo de Ouro de Melhor Atriz, poucos ousavam esperar que Fernanda Torres saísse premiada pela atuação em “Ainda estou aqui”, o precioso filme de Walter Salles baseado no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva. O filme já havia corrigido uma lacuna colossal na História do país (e da ditadura militar) dando voz, corpo e alma à figura de Eunice Paiva. Já havia sensibilizado mais de 3 milhões de brasileiros e devolvido vida a salas de cinema. Já havia gerado análises fluviais e pertinentes em todas as mídias nacionais. Mas foi o anúncio surpresa transmitido ao vivo de Beverly Hills que fez com que o Brasil (ou boa parte dele) acordasse na manhã seguinte em estado de euforia coletiva. Uma alegria não estridente nem impositiva, de mera felicidade impregnada pela arte. Como foi gostoso sentir orgulho compartilhado e sem soberba. De repente, o amanhã fugidio e incerto foi substituído por um presente generoso, marcante, esperançoso.

O projeto das big techs - Bernardo Mello Franco

O Globo

Deu no Financial Times: o homem mais rico do mundo quer derrubar o governo britânico. Elon Musk está conspirando contra o primeiro-ministro Keir Starmer. Pretende forçar sua queda antes das próximas eleições, previstas para 2029.

O dono do X, da Tesla e da Starlink gastou mais de R$ 1,5 bilhão para ajudar Donald Trump a voltar ao poder nos Estados Unidos. Agora busca expandir sua influência política na Europa. Nos últimos meses, aproximou-se de diversos líderes de extrema direita. Prometeu conselhos e dinheiro, não necessariamente nesta ordem.

Eduardo Paes contra a máfia - Elio Gaspari

O Globo

O ano começou com uma grande notícia. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, atacou o cartel dos transportes públicos da cidade:

— Estamos enfrentando uma turma que é uma máfia. (...) Mafiosos que fazem essa caixa-preta há muito tempo no Rio. Eles não vão nos deter. Vamos dar transparência a esse sistema e pagar um preço justo.

Na raiz da zanga do prefeito está sua tentativa de integração dos transportes com um novo sistema de bilhetagem. No quarto mandato, Paes conhece de cor e salteado as operações do que agora, felizmente, chama de máfia.

Revisitar as proezas desse cartel é um passeio pela ruína da política e dos serviços públicos da cidade.

Em 2004, a prefeita Marta Suplicy instituiu o Bilhete Único em São Paulo. Incomodou as empresas e os transportes que defendiam seus interesses. No Rio, fez-se de conta que a inovação era coisa de outra galáxia. Só em 2007 a Fetranspor, alma do cartel, criou um pastel de vento chamado RioCard Expresso, sem desconto.

O Rio só instituiu o Bilhete Único em 2010. Custava mais caro que o de São Paulo e tinha serventia menor. A Assembleia Legislativa criou uma CPI para abrir a caixa-preta da Fetranspor. Acabou em CPIzza.

São Sidônio não faz milagre - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Marketing faz bem, mas não resolve inflação, dengue, falta de gestão nem Congresso guloso

Demorou, mas aconteceu o que Brasília inteira previa: o petista gaúcho Paulo Pimenta sai e o baiano Sidônio Palmeira entra na Secretaria de Comunicação, com “carta-branca” para montar a própria equipe e dar ordem de comando para que ministros e altos funcionários defendam Lula, o governo e eles próprios de ataques e fake news. Daqui pra frente, tudo será diferente? Bem… marketing não faz milagre.

Nenhum gênio da comunicação e do marketing tem poderes extraordinários para esconder, ou apagar, dados objetivos e oficiais. Dois exemplos fresquinhos, de 2024: a inflação fechou em 4,83%, muito acima do centro da meta, 3%, e até do teto, 4,5%, e mortes por dengue dispararam para 6.041, 400% a mais do que no ano anterior e ultrapassando a soma de 2015 a 2023.

Trump, o Brasil e o mundo pós-2025 - Pedro Malan

O Estado de S. Paulo

Protagonismo do País é afetado pela percepção do mundo sobre como estamos equacionando nossos inúmeros problemas domésticos

O futuro, que tem por ofício ser incerto, está a se tornar ainda mais incerto, imprevisível e perigoso. São momentosas as razões para que seja assim. A relação cada vez mais conflituosa entre os EUA e a China nas áreas econômica, tecnológica e militar; o agravamento dos conflitos no Oriente Médio; a belicosidade da Rússia em relação à Europa; o desenvolvimento vertiginoso da inteligência artificial e seu potencial de uso no desenvolvimento de armas mais letais como também em campanhas de propaganda política e desinformação. Tudo sob o dramático pano de fundo da mudança climática, do risco de aumento de endemias e de grandes fluxos migratórios que com grande frequência causam virulentas reações.

A avassaladora vitória eleitoral de Donald Trump deve a seus olhos constituir um claro mandato para intensificar seu peculiar modus operandi e sua visão sobre o que significa fazer a América “great again”. Anos atrás, a revista The Economist sugeriu que as ações de Trump seguiam um roteiro padrão, composto de três atos: fazer ameaças, alcançar acordos (propiciados pelas ameaças) e declarar vitória sempre (“make threats, strike deals, always declare victory”).

Consertado o relógio, resta cuidar do País - Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Lula pode contabilizar crescimento acumulado superior a 6,5%, mas deve reconhecer insegurança das contas públicas, desconfiança do mercado e persistência do risco inflacionário

Quando ouço a palavra cultura, pego minha arma. Citação imprecisa de uma peça do alemão Hanns Jost, essa frase poderia ter sido lembrada na terça-feira, em Brasília, quando foram reintegradas ao acervo do governo 21 peças vandalizadas em 8 de janeiro de 2023. O horror dos golpistas à arte, à cultura e a outras manifestações da civilização manifestou-se mais uma vez, naquele dia, quando vândalos depredaram as sedes dos Três Poderes e emporcalharam com sua presença a capital da República. Agora restauradas, ânforas de porcelana haviam sido reduzidas a cacos pelos invasores do Palácio do Planalto. Também foi reconstituído o relógio trazido ao Brasil em 1808 pelo regente João VI e arrebentado por um dos manifestantes.

Inflação, a febre da economia - Celso Ming

Estado de S. Paulo

Não é febre alta, mas há meses começou a preocupar. A temperatura do organismo econômico aumentou, tende a aumentar mais e a criar mais incertezas. A inflação de 2024, medida pelo IPCA, não chegou aos 5%, mas ficou perto, ficou nos 4,83%. Em dezembro ficou dentro do esperado, nos 0,52%.

Como a meta é de 3% em 12 meses, com 1,5 ponto porcentual de escape tolerado, os juros crescentes, agora nos 12,25% ao ano, não foram suficientes para dar conta da obrigação. E empurraram um arrasto inflacionário também para dentro de 2025.

Como parte desta inflação é consequência da alta do dólar, que teve forte impacto sobre os preços dos alimentos, alguns empresários e políticos alegam que essa inflação não é de demanda e que, portanto, não pode ser atacada com alta de juros. É um equívoco.

Uma despedida - Bruno Boghossian

Folha de S. Paulo

Esta é a última das quase 1.400 colunas de um período de 7 anos por aqui

Em certos momentos da história, analisar a política e o comportamento da sociedade é como escrever um manual de instruções de um aparelho que vemos pela primeira vez. É preciso desaprender a detectar mecanismos que seguem padrões já conhecidos e descobrir como giram as novas engrenagens.

Os últimos anos representaram um desafio dessa natureza. Quando publiquei minhas primeiras colunas na Folha, de 2017 para 2018Lula estava à beira de uma condenação que o levaria à prisão. Jair Bolsonaro era um agitador com popularidade ímpar nas redes e dois dígitos nas pesquisas. O barulho feito por Donald Trump mal transmitia a resiliência de um movimento político que se espalharia pelo planeta.

Responsabilidade compartilhada - Marcos Lisboa

Folha de S. Paulo

Desequilíbrio fiscal é obra de muitas mãos

Tornou-se lugar-comum criticar o governo federal pelo desequilíbrio fiscal.

O Executivo tem a sua parcela de responsabilidade, mas o problema é bem mais complexo, e distinto, do que afirma o contraponto "a direita que não quer pagar imposto, e a esquerda não quer cortar despesa".

Existem muitas regras que tornam a despesa do Estado brasileiro mais rígida do que em outros países, assim como diversos privilégios tributários. Elas contam com amplo apoio da esquerda e da direita, e refletem o sucesso de diversos grupos de pressão da sociedade.

reforma tributária foi abalroada por diversos setores, cada um justificando que seu caso era particular, e que não poderia pagar a alíquota padrão a ser cobrada do restante da sociedade.

Empresas de profissionais liberais, como médicos, economistas e advogados, faturando milhões de reais por ano, conseguiram alíquotas reduzidas.

Vale mencionar que já existe um benefício tributário para empresas que faturam até R$ 78 milhões por ano. Os regimes especiais permitem pagar uma alíquota menor de imposto sobre o lucro do que as empresas no regime geral.

Zuckerberg: corrupto ou covarde? - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Bilionário do Facebook mudou de posição para puxar saco de Trump

Mark Zuckerberg decidiu cancelar o fact checking no Facebook e disponibilizar a rede social como plataforma para a extrema direita.

Há duas explicações possíveis para a mudança: ou Zuckerberg está com medo ou é corrupto. Elas podem ser verdade ao mesmo tempo.

Na primeira hipótese, Zuckerberg e outros bilionários temem sofrer retaliações de Trump se não doarem dinheiro, ou se não fizerem a vontade do governo. Na segunda hipótese, o Vale do Silício percebeu que Elon Musk vai ganhar dinheiro (com regulação das redes, ou das criptomoedas, ou com protecionismo contra a concorrência chinesa) por ter se aliado a Trump, e resolveu correr atrás de boquinha semelhante.

A manchete é uma dessas duas: Zuckerberg acha Trump um ditador ou Zuckerberg acha Trump corrupto. Liberdade de expressão não é o assunto aqui.

Como pensar igual a um filósofo - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro cheio de surpresas traz biografias e principais ideias de 30 pensadores

"How to Think Like a Philosopher" (Como Pensar Igual a Um Filósofo), de Peter Cave, é um livro estranho. E utilizo aqui o termo estranho num sentido positivo. A reflexão filosófica, afinal, surge com o "thaumázein", o verbo grego para designar o estranhamento.

Em princípio, "How to Think..." é mais uma introdução à filosofia. São 30 pequenos ensaios que traçam o perfil e procuram explicar as ideias de 30 pensadores. Os motivos para o estranhamento começam já na lista dos escolhidos.

Ainda estamos aqui – Márcio Macêdo*

Correio Brazililense

O filme é uma obra prima: roteiro preciso, retrato fiel de um momento histórico. Uma riqueza de detalhes e sutilezas que muitas vezes os filmes não conseguem alcançar

Demorei para assistir ao filme de Walter Salles — Ainda estou aqui, inspirado no livro de Marcelo Rubens Paiva. Estava esperando uma noite, depois do expediente, em que estivesse descansado ou um fim de semana sem trabalho e com o espírito preparado. Mas resolvemos eu e a Karina, minha esposa, irmos na noite chuvosa de 8/1, dia marcado pela tentativa de golpe de Estado no nosso país há dois anos. Dia em que o governo do presidente Lula organizou duas solenidades em defesa da democracia e dos movimentos sociais e os partidos democráticos fizeram o abraço à democracia na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

O filme é uma obra prima: roteiro preciso, retrato fiel de um momento histórico. Uma riqueza de detalhes e sutilezas que muitas vezes os filmes não conseguem alcançar. Uma plástica irreparável, belas imagens, atuações espetaculares dos atores, com destaque para Fernanda Torres e Selton Mello. 

Poesia | Vinicius de Moraes - Mensagem à Poesia

 

Música | Geraldo Azevedo - Lembrando Carlos Fernando

 

sábado, 11 de janeiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Posse ilegítima de Maduro exige mais pressão do Brasil

O Globo

Em conjunto com a comunidade internacional, país precisa reforçar a defesa da democracia no continente

A posse de Nicolás Maduro como presidente da Venezuela nesta sexta-feira confirma seu desprezo pela vontade popular. Diante de derrota humilhante no pleito presidencial de julho do ano passado, escondeu os boletins de urnas, se declarou vencedor e assumiu, sem disfarces, ser um ditador. Não satisfeito em roubar as eleições, mandou a Justiça prender Edmundo González, o oposicionista consagrado pelo voto que acabou saindo do país. De lá para cá, a repressão sistemática se manteve intacta. Apoiado pelas Forças Armadas, Maduro desistiu de parecer legítimo.

Como lidar com um vizinho desse tipo é um dos maiores problemas da política externa. A embaixadora brasileira em Caracas, Glivânia Oliveira, esteve na cerimônia de posse na presença de diplomatas de México, Colômbia e representantes de ditaduras como Cuba, Rússia e Nicarágua. Estados Unidos e União Europeia não compareceram. Se a participação da embaixadora representar a volta da fracassada política de apaziguamento, o Itamaraty estará cometendo um erro enorme. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recusou o convite, mas comitivas do PT viajaram para a Venezuela. Dois dias depois da defesa da democracia nos eventos do 8 de Janeiro, integrantes do partido festejaram a posse de um tirano.

Duas armadilhas - Cristovam Buarque

Revista Veja

Os desencontros: renda média baixa e renda mínima permanente

Por décadas, perdurou a ideia de que a renda do crescimento econômico se espalharia do topo para a base da pirâmide social em quantidade suficiente para abolir a pobreza. A história mostra que essa distribuição não ocorreu e sabe-se que a renda chegada aos pobres não seria suficiente para comprar no mercado os bens e serviços essenciais: educação, saúde, segurança. Dessa constatação surgiu a ideia do “keynesianismo social e produtivo”: renda mínima condicionada à produção para atender às necessidades, sobretudo educação. O Bolsa-Escola foi o mais reconhecido desses incentivos: pagar à mãe para que assegure a frequência dos filhos à escola. Previa-se que em poucas décadas a pobreza seria superada, não pela pequena renda, mas pelas consequências da educação, desde que a frequência ocorresse com aprendizado em escolas de qualidade. E que, paralelamente, fossem feitas as reformas adequadas para livrar o país da armadilha da baixa renda média.

Compromisso com a segurança - Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

O país tem criado políticas ineficientes e muitas vezes contraproducentes, mas que têm mais apelo eleitoral

A negligência com a segurança pública levou à morte de cerca de 1 milhão de pessoas nas últimas duas décadas no Brasil. Essa é a face mais dramática de um fenômeno mais amplo, que dilacera famílias, esgarça o tecido social, compromete nosso desenvolvimento, além de brutalizar o cotidiano de milhões de pessoas, submetidas ao domínio arbitrário e violento do tráfico, de milícias e mesmo de agentes do Estado que, por definição, teriam a função de proteger os cidadãos.

A incapacidade do Estado brasileiro de assegurar o direito à segurança aos seus cidadãos gera ainda um outro efeito adverso que é ampliar a desconfiança da população nas suas instituições, abrindo espaço para discursos de lideranças populistas e descomprometidas com o Estado de direito.

Apesar de a criminalidade se encontrar entre as principais preocupações dos brasileiros, desde a década de 1990, as respostas oferecidas pelos sucessivos governos, sejam eles de direita, centro ou esquerda, tanto no âmbito dos estados, como no plano federal, não apenas se demonstraram insuficientes para conter o crescimento da criminalidade, em especial a criminalidade organizada, como em muitos aspectos têm contribuído para sua expansão.

Incertezas reais - Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O produto que começa a ser fabricado hoje chegará ao mercado dentro de algum tempo. Qual será a inflação?

Eis um assunto diário: as incertezas em relação a juros altos, dólar caro e inflação subindo. Pode parecer que se trata de um problema restrito ao mercado financeiro. Mas como isso se manifesta na vida das empresas e das pessoas?

Eis alguns casos.

Imaginem uma empresa que vende produtos importados — carros, eletrônicos etc. — e precisa repor os estoques. Essa empresa tem de fechar os contratos de importação, em dólares. É melhor fechar o câmbio agora, temendo alta maior da moeda americana? Ou esperar um pouco, na expectativa de que a cotação se acomode num nível mais baixo?

Oscar? Não, obrigado - Eduardo Affonso

O Globo

O belo, comovente, primoroso ‘Ainda estou aqui’ ficou no meio do fogo cruzado entre os nossos radicais e os extremistas deles

De quem terá sido a infeliz ideia de dividir o país entre “nós” e “eles”? (A pergunta é retórica: todo mundo sabe de quem foi; é só um desabafo, antes de começar o texto.) Essa proposição pode ter rendido votos e mobilizado as torcidas organizadas — mas nos fez (e ainda faz) um mal danado.

O conceito até que tem lá seu apelo: evoca o Gênesis, quando Deus viu que “nós” (a luz) éramos bons e nos separou “deles” (as trevas) — sem dar um pio sobre a penumbra. Retoma a doutrina bíblica de que “quem não está comigo está contra mim” — sem possibilidade de seguir o voto do eminente relator, divergindo só na dosimetria da pena. Tampouco é questão de múltipla escolha — que, eventualmente, admite “nenhuma das alternativas anteriores”: só tem “falso ou verdadeiro”. É, como no poema infantil da Cecília Meireles, ou isso ou aquilo. Mais rudimentar, impossível. E, talvez por isso, tão eficiente.

Zuckerberg é oportunista – Pablo Ortellado

O Globo

O recente anúncio de Mark Zuckerberg, presidente da Meta, sobre mudanças nas políticas de moderação de conteúdo gerou mais polêmica por suas implicações políticas — um alinhamento com Donald Trump e setores conservadores — do que por suas implicações práticas. Em sua defesa, Zuckerberg argumenta que as plataformas digitais não deveriam proibir debates que estão em curso na sociedade. Mas será que a Meta está realmente aplicando esse princípio?

No anúncio, Zuckerberg disse que, a partir de agora, a Meta “abandonaria um monte de restrições em temas como imigração e gênero que estão em descompasso com o discurso dominante”. Avaliou também que “o que começou como um movimento para ser mais inclusivo foi usado cada vez mais para calar opiniões e calar pessoas com ideias diferentes”. Em paralelo, o diretor de assuntos globais da Meta, Joel Kaplan, explicou, numa publicação, que a Meta estava “se livrando de um monte de restrições em assuntos como imigração e identidade de gênero, que são objeto de intenso debate político”. E, completou:

— Não é certo que certas coisas possam ser ditas na TV ou na tribuna do Congresso, mas não nas nossas plataformas.

De que democracia falamos? - Dora Kramer

Folha de S. Paulo

PT vai à posse de Maduro três dias depois de reger ato em defesa da legalidade

É difícil compreender o que quis dizer o presidente da República em sua nova estratégia de comunicação ao patrocinar um ato estreito na praça dos Três Poderes para marcar a passagem dos idos de 8 de janeiro de 2023.

Bandeiras vermelhas, convocação dos movimentos da base social do governo, um abraço na democracia escrita em flores, com as ausências significativas dos que não foram à cerimônia de pouco antes no palácio e outros que lá estavam, mas não desceram a rampa porque o ritual tinha um lado marcado.

Era uma festa da esquerda, assim foi dito e assim foi feito numa apropriação indevida do que ali deveria se assinalar: a celebração da resistência democrático/institucional, valor pertencente a todos os brasileiros.

Big techs na corrida presidencial - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Redes no modo terra de ninguém deixam mais indefinida disputa entre Lula, governadores e influencers

Os principais governadores de oposição – Tarcísio de FreitasRonaldo Caiado, Ratinho Júnior, Eduardo LeiteRomeu Zema – só pensam naquilo: chegar à Presidência. Caiado é declaradamente candidato. Fazendo cena e cera, Tarcísio rechaça a ideia.

Não se pode esquecer os representantes do clã. Eduardo Bolsonaro, o filho 03, está louco para entrar no páreo, estribado na extrema direita internacional e na suposta amizade com Trump. A ex-primeira-dama Michelle aguarda a distribuição das peças, orando.

Dois Pravdas para Trump - Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Zuckerberg e Musk buscam hegemonia da Casa Branca na arena do debate público

Zuckerberg decidiu imitar o X e, como Musk, eliminou as ferramentas de checagem factual externa do Facebook e do Instagram, plataformas da Meta. Antes do anúncio oficial, ajoelhou-se diante do rei, oferecendo a informação a Trump. Fora dos círculos extremistas, a notícia provocou algum escândalo, pelas razões menores. A novidade relevante quase passou desapercebida: os dois veículos de mídia global baseados nos EUA pretendem ser agências semi-oficiais.

Ideologia dissolve-se no ar. A conexão de Musk com Trump é sólida como aço: os negócios multibilionários da SpaceX com a Nasa e a proteção estatal da Tesla diante da concorrência chinesa. A elevação do magnata a assessor do presidente eleito e a chefe de um poderoso departamento governamental desenha os contornos de um capitalismo de Estado pós-moderno.

Quando a violência veste farda - José Natal

Correio Braziliense

Quem usa uma farda deve saber fazer uso dela e não utilizá-la como escudo que o credencie a bater ou humilhar pessoas

A estatística não falha, é precisa e verdadeira. Nunca na história de São Paulo e do Brasil, um índice tão alto de registro de casos de violência policial contra pessoas de todas as classes foi comprovado. Predominam chutes, pontapés, socos no estômago e nas costas de gays, pobres e pessoas negras. Entre as vítimas, também muitos marginais e desocupados que perturbam a comunidade e devem ser punidos, sim. Mas não espancados e tratados como sacos de batatas. Nos últimos dias, as imagens de câmeras de rua e de celulares mostraram ao Brasil o comportamento absurdo e inaceitável de um elemento da PM paulista atirando uma pessoa do alto de uma ponte. O policial foi preso, diz a PM.

Destino manifestoou imperialismo - André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Quando Trump, num acesso de sinceridade, manifesta seu objetivo de comprar a Groenlândia, anexar o Canadá e retomar o Canal do Panamá, ele apenas dá sequência ao que os pioneiros pensaram

Donald Trump ainda não iniciou seu mandato, que promete ser movimentado, e já retrocedeu mais de 100 anos na história de seu país. Ele retomou o discurso que justifica o chamado destino manifesto (manifest destiny) como uma benção de Deus e entrega aos norte-americanos brancos a missão de expandir seu país para garantir território capaz de prover suas necessidades. Não é retórica. Os Estados Unidos, no seu início, resumiam-se às 13 colônias situadas na costa do Atlântico. Após sucessivas expansões, o país chegou ao Pacífico e ao golfo do México, que pode mudar de nome para Golfo da América. 

Futuro próximo - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Lula escolheu o marqueteiro para ministro da Secretaria de Comunicação. Não viria o homem, nesta altura, com a intenção de explicar por que o governo precisará cortar gastos. Lula escolheu o cara da propaganda de campanha eleitoral para lhe tocar a comunicação.

É como a imposição do mundo real tenta prevenir o emocionado do mercado financeiro que já quer se enamorar novamente do “futuro próximo” prometido por Haddad.

O fantasma da dominância fiscal - Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Temos ainda na memória as consequências do descontrole fiscal dos anos 80 e 90

Todo início de ano é de renovação de esperanças e somos tomados pelo otimismo. Mas o fechamento do ano passado nos trouxe alguns dados pouco estimulantes – a inflação subiu mais que o esperado, as ações caíram, o dólar subiu e a Bolsa perdeu mais de R$ 30 bilhões em investimentos estrangeiros.

As projeções iniciais para 2025 mostram recrudescimento da inflação, menor crescimento do PIB e, aparentemente, o dólar em um novo patamar de preços. Enfim, os cenários interno e externo para o ano não mostram que a vida será fácil. No ambiente externo, as preocupações são várias, mas por obviedade não estão sob nosso controle. Assim, resta-nos fazer a lição de casa internamente.

Donald Trump, um imperialista do século 19 - Fareed Zakaria

Washington Post / O Estado de S. Paulo

Retórica imperialista afasta aliados dos EUA, prejudica interesses americanos no mundo e ajuda Rússia e China

O que Trump diz sobre o Canadá é o mesmo que Putin diz sobre fronteira entre Rússia e Ucrânia

Depois de fazer campanha com a política de acabar com as guerras, estabelecer a paz, colocar os EUA em primeiro lugar e isolar o país do mundo, Donald Trump decidiu esta semana ressuscitar o imperialismo do século 19. Em coletiva de imprensa, ele ponderou sobre a possibilidade de tornar o Canadá um Estado e tomar a Groenlândia e o Canal do Panamá, sem descartar o uso de força militar.

Os líderes republicanos, que Trump treinou apenas recentemente para denunciar a antiga política externa de expansionismo e internacionalismo de seu partido, rapidamente mudaram de opinião e adotaram a nova linha, e agora estão elogiando a visão grandiosa e o pensamento de Trump. Onde isso vai parar?

Alguns dizem que estamos de volta à “teoria do louco” da política externa, que postula que é bom para o presidente, às vezes, parecer imprevisível, até mesmo irracional, porque isso deixa os adversários desprevenidos. Vale a pena lembrar que Trump tentou essa jogada em seu primeiro mandato, mais obviamente com Kim Jong-un, da Coreia do Norte.

Ele começou ameaçando-o com uma guerra nuclear (“fogo e fúria como este mundo nunca viu antes”) e depois mudou abruptamente para um romance com cartas de amor. Nada disso funcionou. A Coreia do Norte continuou a construir seu arsenal nuclear, a realizar testes de mísseis (após uma breve pausa) e a ameaçar seu vizinho do sul.

Liberdade e tolerância - Marcus Pestana

Ao final do século XX, com a dissolução da União Soviética, a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, parecia que as ideias vitoriosas eram a da liberdade e da democracia, como valores universais e permanentes. Alguns chegaram a decretar o “fim da História” (Fukuyama), com o domínio absoluto da sociedade liberal. A fatura política e ideológica estaria liquidada. Estaria instalada a “Pax Democrática”.

Mas o mundo dá voltas e a vida apronta as suas. O capitalismo perdeu boa parte de sua capacidade de distribuir bem-estar. As desigualdades sociais se agravaram. Os efeitos da globalização e da revolução tecnológica geraram um espiral nacionalista e xenófoba. As frustrações com o sistema se avolumaram. Como descreveu Fernando Henrique Cardoso (Um intelectual na política, 2021):

“A democracia representativa é cada vez mais percebida como um sistema elitista, disfuncional, minado pela corrupção, insensível às necessidades e demandas das pessoas comuns. Quanto mais distante a pessoa está dos centros do poder, mais desconfia deles”.

Um réquiem à luz de uma democracia desafiada - Pacelli Lopes

Voto Positivo

À luz de uma democracia desafiada¹ vimos uma frente democrática vencer as últimas eleições presidenciais, por conta disso, há dois anos vimos regressistas e extremistas se sublevarem contra o sistema democrático, para subverter a dinâmica da democracia. Por meio de instituições fortes e de uma cultura cívica que se tem aprendido dia após dia, demonstramos a força do nosso ordenamento democrático.

Discutir os desafios da nossa democracia, destacando que a falta de política programática pode aprofundar o declínio gradual de partidos e governos. Isso é demonstrado aqui e alhures pela falta de programas e projetos, estratégias econômicas inadequadas e a ausência de uma coordenação política que contemple a frente democrática vitoriosa.

Esse fator advém da ausência de leitura correta do último processo eleitoral. Resultados eleitorais não devem ser lidos como válvulas de escape, aos quais não se deve gerar concorrência, mas quiçá sejam capazes de prevenir a boa governança. Nos períodos eleitorais, vemos nascer ciclos de esperança e desilusão, que dão voz a um nós coletivo. Esse processo deixa claro o caráter fluido da democracia, sempre mutável.

A ausência de política, muitas vezes confundida com falha de comunicação, atrai os spins doctors – profissionais que moldam narrativas (campo da ficção) para influenciar a opinião pública. Confrontar esses profissionais e os especialistas em Big Data requer um forte compromisso com a democracia e a república na ação política.

Poesia | Tenho fome da tua boca, de Pablo Neruda

 

Música | Martinho da Vila - Roda Ciranda / Quem É Do Mar Não Enjoa / Canta, Cant...

 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ameaças de Trump indicam mandato mais turbulento

O Globo

Antes mesmo de assumir, republicano não descartou uso da força para pressionar aliados históricos

Logo após o republicano Donald Trump vencer com folga as eleições presidenciais e ver seu partido conquistar maioria no Congresso, líderes de países em diferentes partes do mundo passaram a traçar novos cenários sobre o que aconteceria com sua volta à Casa Branca. Trump não os fez esperar tanto. A menos de duas semanas da posse, deu o tom do segundo mandato. Em entrevista nesta semana, declarou ser possível o uso da força para desafiar a soberania de países aliados. Trump quer o controle do Canal do Panamá e que a Dinamarca venda a Groenlândia. Na mesma ocasião, fez provocações e ameaças de pressão econômica para que o Canadá se torne um estado americano. Pode ser tudo parte de estratégia para obter concessões. Com exceção de Trump e seus assessores, ninguém sabe. Daí a impressão de que o segundo mandato será ainda mais imprevisível que o primeiro.

Nos últimos dias como secretário de Estado, Antony Blinken tem aconselhado seus pares “a não perder tempo” com a ameaça à Groenlândia. Jean-Noël Barrot, ministro de Relações Internacionais da França, também acha improvável um ataque à Dinamarca, membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Expressando o sentimento de muitos, Barrot disse que estamos entrando num período “da lei do mais forte”.

Governo de minoria - Vera Magalhães

O Globo

Aliados admitem que Lula precisará colaborar, na retórica, com o esforço do ministro da Fazenda

Um diagnóstico curioso parece ter se consolidado em diferentes gabinetes de Brasília, nos três Poderes, no raiar deste 2025 que abre o segundo biênio de Lula 3: trata-se de um governo de minoria, e assim terá de navegar até a eleição.

A lógica que conduzirá a reforma ministerial será a de tentar virar esse jogo, mas os mais realistas com quem se conversa não acreditam que isso acontecerá, por vários motivos.

O principal deles é o que os mais experimentados nos meandros do poder chamam de parlamentarismo de fato — que teria sido implementado com a captura de um naco substancial do Orçamento pelo Congresso.

Nem Rosa Weber nem Flávio Dino conseguiram, com suas sucessivas decisões tentando disciplinar as emendas parlamentares, fazer o gênio voltar para a lâmpada.

Diante disso, ministros de Lula e do STF coincidem no receituário realista que deveria ser adotado pelo presidente para seguir nos dois próximos anos: tentar encontrar um mínimo de equilíbrio para o futuro e deixar que a Polícia Federal cuide dos escândalos sobre o que foi derramado em estados e municípios sem nenhum controle até agora.

40 anos de democracia - José Sarney*

Correio Braziliense

Eu creio na democracia. É o melhor regime porque é capaz de defender-se e vencer os que contra ela investem cometendo crimes, como ocorreu nos episódios de 8 de janeiro

Tenho a sensação de que o tempo está passando por uma compressão nos últimos anos. Se fosse físico, fascinado como sou pelas partículas de altas energias, iria estudar esse fenômeno que sinto. O tempo, como tenho dito, é uma criação do homem. Principalmente as datas redondas. Fui surpreendido quando verifiquei que, no dia 15 de janeiro, daqui a cinco dias, completamos 40 anos da minha eleição com Tancredo Neves para a Presidência da República. Assim, encerramos o período dos governos militares, quando tivemos leis e procedimentos autoritários, o que, para uns, era uma ditadura e, para outros, um regime de exceção, em que de quatro em quatro anos era eleito um general, por um Colégio Eleitoral composto de deputados e senadores. Durante esse tempo, estava em vigor o Ato Institucional nº 5, que suspendia os direitos individuais e civis, possibilitando um regime autoritário de abandono da Democracia — em 1978, no governo Geisel, fui relator no Congresso da Emenda Constitucional nº 11 extinguindo o AI-5.

Enfrentamento à desinformação como ato de defesa da democracia - Rozana Reigota Naves*

Correio Braziliense

O lançamento do Comitê UnB de Enfrentamento à Desinformação representa um ato de resistência e compromisso da UnB com a democracia e com a ciência

A data de 8 de janeiro entrou para a história brasileira como a culminância da tentativa violenta e golpista de subtrair a democracia. O discurso de ódio se converteu em palavras de ordem e força bruta, que destruiu os principais símbolos da República: os palácios dos Três Poderes, incluídas as obras de arte e as peças históricas que deles faziam parte e que foram restauradas e devolvidas, dois anos depois, em ato simbólico, aos espaços de onde nunca deveriam ter saído, ou, ainda, onde nunca deveriam ter sido tocadas.

Discurso, palavras... o campo da linguagem e da comunicação tem sido utilizado intensivamente para os ataques à democracia e aos avanços civilizatórios da nossa sociedade. Cria-se a dúvida — sobre a eficácia das vacinas, sobre a segurança das urnas, sobre a importância da arte e cultura nacional etc. Planta-se a suspeição — sobre as instituições, sobre os agentes públicos. Difunde-se o medo e a mentira, que, no mundo conectado das redes sociais e no submundo da deep web, sob a tese da liberdade de expressão — também falseada —, alcança e subverte inclusive as mentes escolarizadas.