Vamos pegar o caso do vocábulo ouricuri para entender o porquê de os palmarinos terem se refugiado em uma região coberta por palmeirais: o ouricuri se reproduzia facilmente, proporcionando alimento a uma comunidade em constante deslocamento, acossada quase o tempo todo, sem contar que da palmeira se aproveita praticamente tudo. Foi o estudioso da língua tupi, José Geraldo da Cunha, quem me explicou a respeito do ouricuri, o licuri da minha infância no quintal dos meus avós em Carangola, Zona da Mata de Minas Gerais. Eu fiquei intrigado com a semelhança entre os dois termos e com o fato de o licuri crescer rapidamente e em abundância no quintal. Daí ter decidido conversar com o José Geraldo da Cunha. Eu não o conhecia pessoalmente e o procurei na sede da Editora Nova Fronteira. Ele me recebeu muito bem, transmitindo a mim que ouricuri, em tupi, queria dizer justamente "fruto que cresce rápido". Fazia todo sentido.
Outro termo que me auxiliou no entendimento da situação dos palmarinos foi quilombola, um híbrido do tupi canhambora, relativo a pessoas que fugiam para os matos, com o quimbundo kilombo, aldeia. Eis o que configurou, no plano linguístico, a união dos deserdados da Colônia.
E há outros exemplos, igualmente ligados à questão social brasileira.O verbo sofrer, por exemplo, vem do latim sufferre, quando alguém está “sob ferros”, prisioneiro ou escravizado. A palavra trabalho surge do latim tripallium, três paus, usados para castigar os escravos e os condenados, e também sinônimo de tortura...
O que me chamou a atenção para a etimologia foi a leitura que fiz, certa vez, de uma carta do psicanalista austríaco Sigmund Freud, onde ele indicava que a palavra nachen, que, em alemão, significava barquinho, tem origem em nekros, cadáver em grego. Conforme os estudiosos apuraram, em tempos bem remotos os homens colocavam os seus mortos em pequenas embarcações, lançadas ao mar. Eis a explicação.
Ou seja: palavras encerram tesouros históricos, revelam verdadeiras preciosidades para o entendimento do passado e do presente. E, de quebra, é uma ferramenta poderosa para o historiador entender o objeto do seu estudo.
*Ivan Alves Filho, historiador

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