domingo, 28 de junho de 2026

Inflação desafia trunfo do emprego, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Governo entra na campanha com emprego alto, mas inflação elevada

O governo fechou o primeiro semestre com uma notícia animadora – desemprego menor do que o de um ano antes – e uma preocupante, embora positiva – prévia da inflação mensal em queda, mas com taxa anual, 4,8%, ainda acima do teto da meta. Se a produção continuar em alta, mesmo com a expansão econômica perto de 2%, uma taxa medíocre para um país emergente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá lucrar na busca pela reeleição. Falta saber como o governo reagirá se a alta de preços continuar superando com folga a meta oficial, 3% em 12 meses com tolerância de até 4,5%.

Se a inflação seguir corroendo o orçamento familiar, distorcendo o gasto público e engordando a dívida federal, uma resposta convencional poderá incluir um aperto nas finanças do governo. É difícil, no entanto, apostar numa reação desse tipo, quando o presidente da República está buscando mais uma reeleição.

Do lado oficial, a ação mais provável no rumo do ajuste continua sendo cautela maior na política monetária, com o Banco Central (BC) mantendo juros elevados e limitando, portanto, os empréstimos e o investimento privado em obras, máquinas e equipamentos. O presidente da República poderá fazer cara feia, mas tem procurado aceitar sem muita reclamação a prudência do BC. No entanto, será uma surpresa se entrar de fato no jogo da austeridade, especialmente quando está empenhado na caça aos votos.

O custo da austeridade poderá ser tanto maior para o governo, politicamente, quanto pior for seu efeito no mercado de trabalho. A desocupação no trimestre encerrado em maio ficou em 5,6%; foi ligeiramente inferior ao do período de março a abril (5,8%) e bem menor do que o de um ano antes, 6,2%. Além disso, foi o melhor resultado para esse período na série iniciada em 2012.

A população desocupada, 6,1 milhões de pessoas, também foi quase igual à do trimestre dezembro-fevereiro, 6,2 milhões, e 9,3% menor do que a de um ano antes. A população ocupada, 102,7 milhões, aumentou 0,5% no trimestre e 0,8% em um ano. O nível de ocupação, 58,6% das pessoas em idade de trabalhar, aumentou 0,2 ponto porcentual no trimestre.

A relativa estabilidade em relação aos primeiros meses do ano pode ser sazonal, mas a mínima histórica talvez indique uma tendência estrutural de “aquecimento e expansão”, observou o analista William Kratochwill, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Isso dependerá principalmente do ritmo da atividade econômica, embora outros fatores, como alterações na legislação do trabalho, também possam afetar o emprego no curto prazo. Quanto aos negócios, deverão continuar avançando, mas algumas projeções indicam perda de ritmo. Segundo o boletim Focus divulgado na segunda-feira passada, o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 1,98% em 2026 e 1,70% em 2027. O governo tem estimado um avanço em torno de 2%, muito próximo da mediana estimada no setor financeiro. O PIB aumentou 1,1% no primeiro trimestre e 2% em 12 meses. A produção da agropecuária cresceu 7,5% no período de um ano, a da indústria expandiu-se 1,3% e a dos serviços avançou 1,8%.

Não há, por enquanto, perspectiva de crescimento muito diferente da média registrada nos últimos anos. O aumento da capacidade produtiva depende do investimento de capital em recursos físicos, como instrumentos produtivos, infraestrutura e outras construções. O capital humano – mão de obra disponível e qualificada para as atividades necessárias – também é fundamental e depende, naturalmente, das somas aplicadas em educação e treinamento.

O valor investido em capital físico no trimestre inicial deste ano equivaleu a 16,5% do PIB, segundo o IBGE. Ficou abaixo do registrado um ano antes, 17,6%, e continuou muito inferior ao observado em outras economias emergentes, frequentemente iguais e até superiores a 18%. Até em alguns países desenvolvidos a taxa do investimento em relação ao PIB tem superado a do Brasil, segundo estatísticas do Fundo Monetário

Internacional (FMI).

Juros altos dificultam e desestimulam o investimento privado em meios de produção. Mesmo com o recente corte de 0,25 ponto porcentual, os juros básicos, agora fixados em 14,25%, permanecem elevados e o Banco Central terá dificuldade para decidir novos cortes enquanto houver muita insegurança quanto a um ajuste sustentável das finanças públicas. Crédito mais barato poderia ser um grande facilitador do crescimento da atividade e do emprego produtivo. Mas crédito e investimento dependem, para crescer, do capital disponível, de seu custo, das condições políticas e das perspectivas econômicas de médio e, se possível, de longo prazo.

As condições políticas têm sido estáveis no País, e sem risco aparente de retrocesso e de contaminação externa. A decisão de mobilizar e aplicar capitais depende basicamente do custo do dinheiro e do cenário de médio e, se possível, de longo prazo. O dinheiro continua caro, com juros básicos de 14,25%, e taxa real – descontada a inflação prevista – acima dos padrões internacionais e dependente de uma gestão mais prudente, e por enquanto imprevista, das finanças do governo.

 

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