O Globo
Palanques capengas do petista em Minas e do
filho de Bolsonaro no Rio indicam problemas na região mais disputada da eleição
A eleição de 2026 será um teste para a
validade de vários axiomas tradicionais da política, como a importância da
propaganda em rádio e TV, os efeitos da inteligência artificial e, no plano
mais concreto, a centralidade da montagem de palanques regionais para
fortalecer candidaturas presidenciais e, no limite, decidir uma disputa que
tende a ser apertada.
Nesse quesito, o Sudeste brasileiro é o
cenário em que as candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro concentram as fichas.
Mas, a menos de um mês do início formal da corrida eleitoral, ambos enfrentam
problemas bastante sérios para largar com um time promissor e um discurso
condizente em colégios importantes da região.
Os desdobramentos consecutivos da Operação Unha e Carne — que atingiu fortemente o grupo do ex-governador Cláudio Castro no Rio de Janeiro — jogam uma dose enorme de imprevisibilidade para o comando bolsonarista “em casa”.
O grupo contava, na montagem da estratégia
para a disputa no Rio, que, a esta altura, já estivesse no comando do governo
por meio de uma eleição indireta. O atraso na definição dessa novela por parte
do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral coincide com as
graves revelações trazidas em capítulos pela Polícia Federal, que desnudam
aspectos perturbadores da imbricação da política com o crime organizado no
estado.
A campanha do até aqui favorito Eduardo Paes
— que já teria o foco na pregação pela necessidade de sanear a estrutura do
estado dessa infiltração — se fortalece a partir de indícios da proximidade que
se mostra cada vez maior da gestão de Castro com diferentes modalidades da
estrutura criminosa do Rio.
Para Flávio, o ex-governador e seu grupo se
tornam aliados para lá de incômodos, levando para a campanha presidencial temas
que ele gostaria de afastar e colocando em perspectiva a pregação cara à
direita de que tem a solução para a segurança pública, problema apontado como
mais grave pelos brasileiros em quase todas as pesquisas.
Para Lula, a dor de cabeça em termos de
palanque capenga se localiza em Minas Gerais. Todas as tentativas de construir
uma candidatura minimamente competitiva ao governo do estado que responde pelo
segundo maior eleitorado do Brasil se revelaram tiros n’água.
Agora, o presidente passa pelo
constrangimento de ver o presidente nacional do PT, Edinho Silva, e a
ex-prefeita de Contagem Marília Campos lavarem roupa suja em público diante da
tentativa do partido de praticamente obrigá-la a abrir mão da candidatura ao
Senado para ir para o sacrifício e disputar o governo.
Isso tudo depois que Rodrigo Pacheco deu de
ombros aos apelos de Lula para que topasse a missão para lá de inglória diante
da guinada política que fez nos últimos oito anos, resultando na desconfiança
geral dos mineiros a respeito de que apito ideológico o ex-presidente do Senado
toca, afinal.
Não que o time da direita esteja arrumadinho
em Minas, longe disso. A indefinição do senador Cleitinho (Republicanos) — um
estranhíssimo caso de favorito nas pesquisas que não decide logo se será
candidato — e a dificuldade do governador Mateus Simões (PSD), substituto de
Romeu Zema, de decolar tornam ainda nebuloso quem será o puxador de votos para
Flávio e quanto ele terá de dividir espaço com os demais presidenciáveis da
centro-direita (o próprio Zema e Ronaldo Caiado, que vem a ser do partido do
governador).
Só São Paulo, o mais nevrálgico dos
territórios do Sudeste, está com o roteiro da disputa bem definido entre
Tarcísio de Freitas, favorito à reeleição, e Fernando Haddad, recebedor da tão
crucial quanto difícil incumbência de repetir a perfomance razoável de 2022,
que assegurou a Lula um número de votos fundamental para vencer por pouco no
país.

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