O Estado de S. Paulo
O coronel de ontem distribuía favores e proteção; o neocoronel distribui recursos do Orçamento. Permanece a tentativa de construir vínculos duradouros de lealdade política
Em 1949, Victor Nunes Leal publicou uma obra
fundamental da ciência política brasileira: Coronelismo, enxada e voto.O livro
tornou-se referência para compreender o poder na República Velha e as relações
entre Estado, elites rurais e eleitorado. Passadas mais de sete décadas, sua
atualidade decorre da sobrevivência da lógica de apropriação do poder que
descreveu. A enxada perdeu protagonismo; as emendas parlamentares ganharam
posição estratégica. Viveria o Brasil um novo ciclo de neocoronelismo, emenda e
voto?
Victor Nunes Leal demonstrou que o coronelismo era uma rede de reciprocidades entre o poder local e o poder central. Os coronéis entregavam votos e sustentação política; em troca, recebiam prestígio, favores administrativos, influência e autonomia para controlar seus redutos. O eleitor, frequentemente dependente do chefe político, ocupava posição subordinada. O traço essencial daquele sistema era a confusão entre a res publica e a res privada.
A urbanização, o sufrágio e a Constituição de 1988 desmontaram esse universo rural. O velho coronel perdeu espaço, mas a intermediação política não desapareceu. Apenas se transformou.
O novo personagem já não precisa controlar
grandes fazendas. Seu domínio é predominantemente urbano, e seu poder decorre
da capacidade de influenciar a destinação de recursos públicos, organizar redes
políticas e distribuir benefícios por meio da máquina estatal. Se antes o
instrumento de poder era a propriedade da terra, hoje ele pode ser o controle
de parcelas expressivas do orçamento público.
As emendas parlamentares são instrumentos
legítimos do Legislativo. Em milhares de municípios, elas financiam hospitais,
ambulâncias, escolas, pavimentação e outras demandas. Podem fortalecer o
federalismo, reduzir desigualdades e aproximar o Estado da população. O
problema não está em sua existência, mas na forma como elas são utilizadas.
Quando a emenda deixa de obedecer a
prioridades públicas e se converte em mecanismo de construção de bases eleitorais,
instala-se uma nova relação de dependência. A obra deixa de ser percebida como
resultado dos impostos e da ação institucional do Estado, passando a ser
apresentada como dádiva do parlamentar. O Orçamento transforma-se em patrimônio
político: capital eleitoral financiado com dinheiro público.
Nesse ponto, a analogia com Victor Nunes Leal
ganha força. O coronel de ontem distribuía favores e proteção; o neocoronel
distribui recursos orçamentários. Mudam os instrumentos, mas permanece a
tentativa de construir vínculos duradouros de lealdade política.
Assim, a antiga fórmula Coronelismo, enxada e
voto encontra correspondência em neocoronelismo, emenda e voto. A enxada foi
substituída pelo Orçamento; a propriedade rural, pelo domínio sobre verbas
públicas. O velho curral eleitoral reaparece sob formas mais sofisticadas,
articulando parlamentares, prefeitos, vereadores, lideranças de bairros,
organizações sociais e estruturas partidárias. Forma-se uma cadeia de
reciprocidades na qual recursos descem e votos sobem.
Esse fenômeno revela uma constante da cultura
política brasileira: a tensão entre o interesse público e os interesses
privados. O Orçamento, que deveria refletir critérios técnicos, planejamento e
necessidades coletivas, pode converter-se em instrumento de fortalecimento de
projetos individuais. A obra necessária cede lugar à obra eleitoralmente
rentável.
A democracia brasileira é hoje muito mais
plural do que aquela estudada por Victor Nunes Leal. As eleições são
competitivas, a imprensa fiscaliza, os órgãos de controle ampliaram sua atuação
e a sociedade civil dispõe de novos instrumentos. Ainda assim, persistem
incentivos para transformar recursos públicos em ativos eleitorais.
Os coronéis da República Velha distinguiam-se
pelo domínio da terra. Os novos destacam-se pela capacidade de comandar fluxos
orçamentários, influenciar investimentos e consolidar redes de clientelismo. A
força da terra foi substituída pela força do Orçamento. O coronelismo não
acabou; metamorfoseouse e adaptou-se às cidades, à democracia e ao moderno
sistema orçamentário.
O grande desafio do Brasil é impedir que
instrumentos legítimos da representação política sejam capturados pela lógica
patrimonialista. Sempre que parcelas do Estado forem tratadas como propriedade
de grupos que temporariamente o controlam, renascerá a velha confusão entre o
interesse público e os interesses privados.
Victor Nunes Leal ensinou que o coronelismo
era menos uma figura histórica do que um modo de exercer o poder. A tarefa do
século 21 é impedir que novas formas de concentração política convertam
novamente a res publica em extensão da res privata. Neocoronelismo, emenda e
voto oferece uma chave para interpretar tensões da democracia brasileira e
reforça a necessidade de transparência, planejamento e compromisso com o
interesse coletivo.

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