O Globo
O nó fiscal brasileiro é complexo e nenhum
candidato falou ainda como enfrentá-lo de forma convincente
O ministro Dario Durigan disse que as taxas
de juros pagas pelo Tesouro para rolar a dívida pública são altas demais e
definiu a situação como “inaceitável”. De fato estão altas, mas reduzi-las é um
processo que passa pelo controle dos gastos públicos. Há fatos específicos
sobre a dívida brasileira. Os investidores querem comprar apenas papel
pós-fixado e de período curto, ou seja, LFT atrelada à Selic. Em meio ao
calendário eleitoral, os candidatos não fizeram propostas críveis de ajuste nas
contas públicas, e a dívida é alta, cara e curta.
O Tesouro precisa rolar de R$ 140 bilhões a R$ 150 bilhões por mês. O problema é que os investidores e os gestores dos investimentos estão pedindo cada vez mais juros para comprar um pré-fixado como uma NTN-B. O Tesouro só consegue vender se aceitar pagar taxas de 8% acima do IPCA.
Isso reforça uma peculiaridade da dívida
brasileira, que está 65% em títulos pós-fixados como a Letra Financeira do
Tesouro (LFT), que foi criada na época da alta inflação e a partir de então sempre
dominou a dívida brasileira. Ela acompanha diariamente a taxa Selic. Em
momentos de dúvida é para lá que vão os investimentos, fazendo com que a dívida
cresça conforme os juros. Como as taxas têm estado muito altas, ela cresceu,
ajudando a consolidar a ideia de que o governo atual é gastador e, por isso,
tudo está ficando fora de controle.
O governo fez um ajuste durante um período,
em 2024 e 2025. O mercado chegou a aceitar juros mais baixos para rolar a
dívida. Este ano, o governo ampliou suas despesas e criou muito gasto
financeiro, pouco visível, mas que impacta a dívida pública. A atual
administração reduziu o déficit primário, só que manteve o mesmo defeito que
derrubou o teto de gastos: pôr despesas fora da estatística oficial, que não
contam para efeito do cumprimento da meta. O Legislativo também tem criado
despesas com essa distorção de ficar fora da contabilidade. Isso engana a meta,
mas não ilude a dívida, que continua crescendo.
Uma fonte que eu ouvi sobre esse dilema do
endividamento público explicou assim:
– Com uma taxa de juros cobrada pelo mercado
de 8% acima da inflação e um endividamento de 80%, a dívida crescerá a 6,4%. O
país cresce a 2%. Seria necessário um superávit primário de 4,5% para
estabilizar a dívida, algo que ninguém acha factível. Então se fala: “não vai
estabilizar”. É preciso uma taxa de juros menor, maior crescimento e superávits
primários.
Como isso é difícil, o mercado conclui que o
Tesouro continuará emitindo. Se a oferta de títulos sobe, cai o preço, então é
preciso cobrar mais para financiar o Tesouro.
– Ninguém está topando correr o risco pré. Se
fosse traduzir de maneira simples, diria que ninguém está topando correr o
risco do futuro do Brasil — explica a fonte.
Esse é um dos imbróglios da economia
brasileira. Engana-se quem explica ideologicamente, ou seja, com a visão de que
a direita é austera e a esquerda gastadora. A extrema direita não fez o ajuste
que prometeu e gastou demais em época eleitoral. Para entender o dilema da
dívida brasileira é preciso evitar o simplismo.
A ideia que vem de Ronald Reagan de que basta
reduzir os impostos para a economia crescer e o mercado sozinho resolver o
problema é um equívoco. Porém, é um erro também a aposta da esquerda de que
basta impulsionar a demanda que todo o resto acontece.
O Brasil tem R$ 550 bilhões de renúncia
fiscal. Todos prometem cortar esse gasto. E governo após governo as isenções de
impostos para setores aumentam. O Congresso recepciona os lobbies e cria novos
subsídios. Fez isso na semana passada com o etanol. O país terá que desindexar
e desvincular despesas. O aposentado não pode ter o mesmo aumento do
trabalhador da ativa, como se na inatividade ele tivesse ganhos de
produtividade. A rigidez do Orçamento tem tornado o país ingovernável. As
emendas sequestraram o papel do Executivo. Quem culpa apenas o atual governo ou
imagina haver alguma conspiração no mercado está simplificando o nó fiscal
brasileiro. Ele é complexo e nenhum candidato falou ainda como enfrentá-lo de
forma convincente. É fundamental que o debate enfrente esse problema porque o
país precisa que os investidores voltem a apostar no futuro do Brasil.

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