sábado, 22 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nossas escolhas

Por CartaCapita

CartaCapital aponta suas preferências eleitorais

Desde 1994, quando a edição número 1 chegou às bancas, esta publicação tem por hábito indicar os candidatos que considera mais habilitados a conduzir os rumos do País. CartaCapital fia-se, em primeiro lugar, na tradição das mais prestigiosas publicações do mundo. Há 174 anos, em todo ciclo eleitoral, The New York Times informa aos leitores as razões de seu “voto”. A partir dos anos 1960, o principal jornal dos Estados Unidos passou a apoiar de forma sistemática os presidenciáveis do Partido Democrata. O costume havia se solidificado na mídia norte-americana ao longo do século XX, mas sofreu um revés na última eleição, quando alguns novos magnatas dos meios de comunicação, oriundos do Vale do Silício, decidiram trocar a opinião dos editoriais pela fila do gargarejo na posse de Donald Trump. Qualquer semelhança com repúblicas de banana não é mera coincidência.

Na Europa, o britânico The Guardian nasceu alinhado aos trabalhistas, enquanto The Daily Telegraph integra as fileiras dos conservadores. Os liberais da revista The Economist ultrapassam fronteiras: escolhem seus preferidos não só no Reino Unido, dão pitacos nas disputas em países considerados fundamentais para o triunfo dos valores capitalistas defendidos pela redação.

Ao declarar suas posições, ­CartaCapital também se escora em um princípio basilar nestes 32 anos de existência: o respeito à inteligência do leitor. Em vez de um simulacro de neutralidade de fazer corar os mascarados da lucha libre e os encantadores de serpentes, preferimos a transparência, convictos de que a clareza de posições fortalece o exercício do jornalismo.

Tão importante quanto reeleger Lula é melhorar a composição do Congresso

No domingo 16, começou oficialmente a campanha. Daqui a menos de dois meses, os brasileiros irão às urnas e o resultado, determinante, vai reverberar por um período bem mais longo do que os próximos quatro anos de mandato do vencedor. A conspiração segue à espreita, tonificada pelo assédio da, ainda, maior potência militar e econômica do planeta, empenhada em retomar, à força, se necessário, o controle do seu quintal. Os eleitores vão escolher não só um presidente, mas entre a soberania e a subserviência a interesses estrangeiros. Entre a autonomia e o servilismo. Por essas e outras, o presidente Lula, em busca do quarto mandato, é a única opção diante dos desafios da geopolítica internacional e das pretensões de um país que, embora favorecido pela natureza, não consegue se libertar dos grilhões da desigualdade e do atraso. O atual presidente tem não só o passado a oferecer ao Brasil. Tem um futuro, principalmente se, nos últimos quatro anos no poder, se dedicar a coroar sua excepcional trajetória com um legado que o eleve ao mesmo panteão de Getúlio Vargas como construtor de um país. Lula encarna um projeto nacional, seu principal oponente é o despachante de um empreendimento miliciano-familiar apegado a um plano particular, a anistia aos golpistas.

Sem apoio nos estados e no Congresso, a margem de manobra do presidente Lula permanecerá, no entanto, limitada. Eleger deputados e senadores comprometidos com um programa de desenvolvimento é o caminho para devolver às mãos do povo o Parlamento, transformado, na última década, em um covil de punguistas, um bazar de influencers, uma quermesse e uma trincheira de traidores da pátria. Equilibrar, ainda que pontualmente, a correlação de forças no Legislativo é restabelecer a imprescindível harmonia entre os poderes.

No Rio de Janeiro, Eduardo Paes reúne as condições para enfrentar os maiores flagelos locais, as milícias e as facções criminosas. Se eleito, o candidato precisará, porém, ter a humildade de pedir socorro à União. Só uma força-tarefa nacional arregimentará os recursos humanos, financeiros e logísticos necessários para coibir a criminalidade e livrar os cidadãos fluminenses do jugo da violência. Juliana Brizola representa o frescor da renovação no Rio Grande do Sul, cuja população, dois anos depois das enchentes, ainda se sente abandonada. Elmano Freitas, no Ceará, Jerônimo Rodrigues, na Bahia, e Rafael Fonteles, no Piauí, garantem a continuidade de governos bem-sucedidos. Eficiente ministro dos Transportes, Renan Filho tem tudo para dinamizar a economia de Alagoas. Em Minas Gerais, a experiência e o irretocável histórico de Patrus Ananias servem de antídoto à instabilidade e ao despreparo dos principais adversários.

E São Paulo?, talvez pergunte o leitor. O ex-ministro Fernando Haddad cumpriria com desenvoltura a função. Uma dobradinha com o governo federal, em uma eventual reeleição do presidente Lula, seria a chance de o estado recuperar o protagonismo perdido. De qualquer maneira, dadas as suas excepcionais qualidades intelectuais, que Haddad nunca permite aos interlocutores ignorar, o professor está habilitado a prestar serviços em diferentes instâncias. Entre as opções, voltar ao comando das finanças do País ou assumir o leme da Casa Civil. Se tudo der errado, Haddad seria um inesquecível coordenador de um curso avançado sobre a filosofia de Hegel e Heidegger. 

Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital, em 26 de agosto de 2026.

A conta chegou

Por Veja

Impacto das escolhas econômicas erradas exige um debate público responsável e realista, sobretudo em um ano eleitoral

Desemprego em queda, salário mínimo valorizado, PIB crescendo a um ritmo acima das previsões de bancos privados e de instituições como o FMI. Aparentemente, não há nuvens negras no horizonte da economia nacional. Ocorre que os fatos são teimosos, como lembra a famosa frase cunhada pelo segundo presidente dos Estados Unidos, John Adams (1735-1826). Conforme vêm alertando há algum tempo diversos especialistas, esses indicadores são frutos diretos de uma tentativa do governo federal de repetir a receita do PT de gerar progresso a qualquer custo, à base de incentivos ao consumo — uma receita que já levou o país ao abismo na gestão de Dilma Rousseff. A estratégia pode até criar alguma ilusão de prosperidade, mas é incapaz de produzir um crescimento sadio e sustentável a médio e longo prazo. Assim, o Brasil não deslancha como deveria e sofre com o efeito bola de neve: a inflação força o BC a manter os juros nas alturas, o que eleva ainda mais o custo do refinanciamento da dívida pública e, por consequência, o tamanho do endividamento total do país.

No ambiente empresarial, um dos alertas do momento crítico se dá no número recorde de pedidos de recuperação judicial. No sábado 15, a Marabraz entrou para essa lista, com uma dívida de 140 milhões de reais. No dia seguinte, foi a vez de outra rede varejista, a Casas Bahia, procurar o mesmo caminho. Nesse caso, o passivo supera a casa dos 17 bilhões de reais. Grandes grupos ficaram pelo caminho no passado por incapacidade de se adaptar aos novos tempos, sendo o Mappin um desses exemplos. Marabraz e Casas Bahia também sofreram muito com a concorrência do e-commerce e até com o dinheiro sugado pelas bets, mas isso explica apenas uma parte do problema.

Estimulada a consumir, a população começou a se endividar em níveis altíssimos, algo que pode ser fatal em tempos de juros salgados. As companhias que tentam socorro à custa de financiamentos, pagando as taxas atuais, raramente conseguem sobreviver por muito tempo, independentemente da força de suas marcas, produtos e serviços. Se não bastasse, o buraco financeiro de um grupo como a Casas Bahia obriga a cortes brutais no negócio, com o fechamento de lojas e demissões em massa. A conta das escolhas econômicas erradas definitivamente chegou e exige um debate público responsável e realista, sobretudo em um ano eleitoral. Novas promessas e bravatas de palanque não vão recolocar o Brasil no trilho certo.

Publicado em VEJA de 21 de agosto de 2026, edição nº 3009

Governo errou na proposta para mercado de carbono

Por O Globo

Prazo estipulado é longo demais, e teto a projetos de mitigação limita capacidade de atrair capital

O Ministério do Meio Ambiente (MMA) lançou em 7 de julho uma consulta pública sobre sua proposta de regulamentação das transferências internacionais no mercado de carbono, conhecidas como ITMOs (sigla em inglês para Resultados de Mitigação Transferidos Internacionalmente). O Brasil tem vantagens comparativas substanciais para entrar nesse mercado: vasta extensão territorial, clima propício ao reflorestamento, tecnologia para reduzir emissões na agricultura e experiência em bioenergia. O elo mais frágil na cadeia é o capital — sem atrair investimento estrangeiro de longo prazo, a expansão do mercado ficará restrita. Infelizmente, a proposta do MMA falha justamente nesse ponto crítico.

A proposta comete equívocos graves. Primeiro, estabelece 2031 como ano para o país começar a vender créditos no mercado internacional. É tarde demais. Com a demora, o Brasil perderá inúmeras oportunidades de negócios na economia verde. Se entrar na competição depois da largada, será forçado a fazer uma corrida de recuperação. “Temos o clima, a terra, a ciência e a capacidade de desenvolver tecnologia, mas a última palavra no desenvolvimento do setor é do mercado. Sem um mercado de exportação, veremos outros países dominarem a remoção de CO2 da atmosfera”, disse o economista Arminio Fraga, investidor na reflorestadora re. green, ao jornal Valor Econômico.

O segundo equívoco é ainda mais grave. Num mercado de carbono, quem tem dificuldades para cumprir suas metas de redução de emissões — empresas ou países — compra o direito de poluir de quem desenvolve projetos de captura de gases da atmosfera (em geral, plantio de florestas). Pelo Acordo de Paris, nenhuma mitigação de emissões pode ser contada duas vezes. Se um país vende a outro parcela de sua redução, não poderá incluí-la no cálculo do cumprimento dos compromissos que assumiu como signatário do tratado.

Para lidar com isso, a proposta do MMA estabelece limites aos projetos de mitigação que poderão ser vendidos como créditos no mercado internacional — 50 milhões de toneladas de CO2 entre 2031e 2035. E somente metade dos resultados gerados por um projeto receberá autorização de exportação. Com isso, o MMA acredita preservar o cumprimento das metas nacionais. Mas o efeito adverso dessas regras é evidente: quem investirá em reflorestamento, se depois não sabe se poderá vender créditos no mercado internacional?

A justificativa para o teto nacional não faz sentido. Dada a condição privilegiada do Brasil, a exportação de créditos não criará nenhum empecilho para o país atingir as próprias metas ambientais — ao contrário. Com exceção de capital, há excesso de recursos. E mais: a área em que o Brasil tem mais a avançar é no combate às emissões. A consulta pública sobre a proposta de regulamentação acabou neste mês. O governo deveria rever a proposta do MMA, para o Brasil se tornar referência no mercado. Nos últimos três anos e meio, o ministério fez trabalho exemplar na redução do desmatamento em vários biomas. Precisa fazer o mesmo na regulação do mercado de carbono.

Linchamento hediondo de ciclista em Copacabana exige punição exemplar

Por O Globo

Não existe ‘justiça com as próprias mãos’. Apenas ao Judiciário cabe fazer justiça e zelar pelo cumprimento da lei

A polícia, o Ministério Público e a Justiça do Rio precisam dar resposta exemplar à barbárie perpetrada na semana passada em Copacabana contra Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, espancado e morto por um segurança clandestino e dois entregadores que o confundiram com um ladrão de bicicleta (ha ainda um terceiro suspeito). Cláudio, que não estava armado e não tinha antecedentes criminais, usava uma bicicleta da irmã num passeio pelo bairro. Segundo a família, tinha transtornos mentais. Não se trata apenas de crime, mas de uma afronta aos mais básicos valores civilizatórios. Linchamentos não podem ser tolerados numa sociedade democrática.

Como revelaram câmeras de segurança, em apenas seis minutos sucederam-se 57 pauladas e um sem-número de socos, chutes e golpes na cabeça. São cenas abomináveis, injustificáveis sob qualquer circunstância. Se havia suspeita, o certo seria chamar um policial ou guarda para verificar. A violência gratuita e desmedida fica patente no laudo da polícia técnica, que apontou traumatismo no crânio, hemorragia interna e lesões no baço e no rim esquerdo. Cláudio foi levado a um hospital, mas não resistiu à gravidade dos ferimentos. “Ao analisar as imagens, todos aqui na delegacia ficaram estarrecidos”, disse o delegado Ângelo Lages, da 12ª DP.

Estão presos temporariamente os seguranças David Santos Machado (acusado de espancar Cláudio), Jorge Luiz Ricardo Dias (por atuação indireta) e os entregadores Felipe Eduardo dos Santos Silva e Ailton José da Silva. A polícia ainda procura um outro agressor. Os suspeitos devem responder por homicídio triplamente qualificado — motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima. Infelizmente, o episódio de Copacabana não é caso isolado. No ano passado, houve no estado 1.609 ocorrências semelhantes, 40% delas na capital.

A chaga dos linchamentos não acontece só no Rio. Ao longo dos anos, inúmeros crimes do tipo foram registrados no país. Um dos mais conhecidos vitimou em 2014 a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, no Guarujá, litoral paulista. Ela foi espancada até a morte por moradores de um bairro da periferia ao ser confundida com uma sequestradora de crianças, depois que um retrato falado se disseminou pelas redes sociais. Pelos boatos, o sequestro era para rituais macabros. Não passava de fake news. Fabiane deixou duas crianças.

Polícia e guarda municipal é que têm a missão de cuidar da segurança pública, sempre respeitando as leis, e não cidadãos que se acham no direito de agredir com base em suposições ou desinformação. Não existe “justiça com as próprias mãos”. Quem faz justiça é apenas a própria Justiça. Fora dela, o que existe é milícia ilegal, que deve ser reprimida. Cidadãos que espancam e matam, sob qualquer pretexto, são tão bandidos quanto os bandidos que fingem combater. Devem ser identificados, julgados e condenados sob o rigor das mesmas leis que tanto desprezam.

Presença de militares em cargos civis deveria acabar

Por Folha de S. Paulo

Ex-comandante da FAB relembra risco iminente de golpe; democracia não pode depender de sensatez individual

Flávio finge ignorar que, em quase 40 anos, o sistema de eleições livres só foi ameaçado quando seu pai fez de tudo para ficar no poder

A Polícia Federal conduziu investigações; o Supremo Tribunal Federal processou o caso à luz do Estado de Direito; o próprio Jair Bolsonaro (PL) admitiu, a seu modo, ter participado de articulações para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ainda assim, há quem insista em negar a tentativa de golpe após a eleição de 2022.

Muito pior, às vésperas de mais uma disputa presidencial no Brasil, há quem repita as mesmas suspeitas infundadas quanto à lisura do pleito, como se a vitória de Lula representasse, por si só, prova incontestável de manipulação das urnas eletrônicas.

Foi o que sinalizou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em março, meses antes de oficializar a candidatura à Presidência: "Se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós venceremos".

O herdeiro político de Jair finge ignorar que o Brasil soma quase 40 anos seguidos de eleições diretas, livres e justas. Nesse período, nossa democracia esteve sob ameaça uma única vez: justamente quando Bolsonaro fez de tudo para se manter no poder.

Conforme concluiu a Polícia Federal em inquérito sobre a trama golpista, o ex-presidente só não atingiu seu objetivo "em razão de circunstâncias alheias à sua vontade". A saber, o vigor das instituições e a resistência de parte relevante das Forças Armadas.

Dois militares, em particular, se destacaram na contenção do pendor antidemocrático de Bolsonaro: o general Marco Antônio Freire Gomes, então comandante do Exército, e o brigadeiro Carlos Baptista Junior, à época comandante da Força Aérea Brasileira.

Ambos se deram conta de que o tempo das quarteladas ficou para trás. O Brasil que viveu sob tutela das Forças Armadas já não existe mais; a sociedade se modernizou, e a parcela da população que aceita o conluio com os fardados é, felizmente, minoritária.

A despeito disso, houve risco iminente de golpe, como relembra o ex-comandante da FAB em entrevista à Folha. De acordo com ele, "as pressões foram muito grandes em cima de todos os comandantes militares".

De forma clara, o brigadeiro diz: "Foram diversas e cansativas reuniões tentando estudar uma maneira de um estado de exceção para não dar posse ao presidente eleito, sem que estivessem presentes os pressupostos básicos, seja para uma GLO [Garantia da Lei e da Ordem], para o estado de defesa, para o estado de sítio".

Daí a importância de a Justiça ter determinado punições para os envolvidos, incluindo militares da mais alta patente. Mas é forçoso reconhecer que, até por lógica, as sanções não teriam lugar em caso de sucesso dos golpistas.

O Brasil não pode depender da sensatez de fardados como Freire Gomes e Baptista Junior. É crucial adotar soluções institucionais, como uma lei para impedir que militares da ativa assumam cargos civis. Tal medida evitaria, por exemplo, a ampla contaminação que existiu sob Bolsonaro.

Civis encurralados entre a guerra e o ebola

Por Folha de S. Paulo

Conflitos armados minam acesso à informação e à ajuda humanitária na República Democrática do Congo

Campanhas oficiais sobre a doença não alcançam comunidades controladas por milícias, enquanto instalações e equipes médicas sofrem ataques

Conflitos armados entre o Exército e milícias rebeldes há anos transformaram o leste e o nordeste da República Democrática do Congo num pesadelo humanitário. Agora, civis presos na linha de fogo tornaram-se alvo da mais grave epidemia de ebola do país —e a segunda mais devastadora do mundo.

Desde o fim das guerras congolesas, em 2003, a paz nunca se estabeleceu no leste do país, onde há mineração predatória e, não à toa, forte atuação de milícias.

Tal cenário gera fluxo intenso de pessoas e mercadorias e restrições de mobilidade por falta de segurança, o que contribui para a propagação do vírus e dificulta o acesso à saúde. Foi nessa região que se originou o atual surto da doença, assim como o de 2019.

Na segunda (17), a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou sobre a rapidez do contágio desta que é a 17ª epidemia do vírus no país; estima-se a morte de uma pessoa a cada 30 minutos.

Até então, havia 4.945 casos e 2.325 óbitos aferidos desde 15 de maio, quando o governo do presidente Félix Tshisekedi declarou emergência com notável atraso.

A Organização Mundial da Saúde antevê o controle da contaminação em três meses. Mas ressalva que isso está longe de significar o fim da crise sanitária causada pelo vírus Bundibugyo, para o qual não há vacina.

A recomendação da entidade para a vacina Ervebo, contra outro tipo de vírus, revela a gravidade da situação —a rigor, seria um teste com a população local.

O conflito é o principal obstáculo à OMS e a iniciativas do governo e de órgãos humanitários. Desde seu reinício, em 2022, a guerra agravou uma crise que gerou o deslocamento doméstico de 7 milhões de pessoas e levou 1 milhão ao exterior.

Os confrontos envolvem o grupo Movimento 23 de Março (M23) e outras milícias que, segundo o governo, seriam financiados por Ruanda. O interesse da nação vizinha em jazidas de minerais, conforme tal versão, evidencia-se na presença de tropas ruandesas dentro do território congolês.

Os rebeldes instalam governos locais, atualmente inertes diante da epidemia. Campanhas oficiais sobre contaminação e prevenção não alcançam as comunidades, enquanto instalações e equipes médicas são alvos de ataques.

O aeroporto de Goma, acesso de ajuda humanitária, foi fechado pelo M23 em janeiro de 2025. A atuação há 16 anos da Monusco, missão da ONU atualmente sob comando de um general brasileiro, não tem sido suficiente para proteger os civis, também expostos a outras doenças e à fome.

A tragédia na RDC, um dos cinco países mais pobres do mundo, afeta ainda o seu projeto de desenvolvimento a partir da exploração e do beneficiamento local de cobalto, cobre e coltan.

Os EUA insistem em uma negociação de paz, focados no seu acesso às jazidas; a China mobiliza equipes médicas ao país para preservar os investimentos já realizados. É o que move as duas potências mundiais.

A dor e a delícia de ser Lula da Silva

Por O Estado de S. Paulo

Advogado de Lulinha diz que, se seu cliente não fosse filho de Lula, o caso já teria sido arquivado. Pode ser. Mas Lulinha não seria um sucesso nos negócios se não fosse filho de quem é

O advogado Marco Aurélio de Carvalho, que defende Fábio Luís Lula da Silva, vulgo Lulinha, disse em entrevista à GloboNews que os três inquéritos que tramitam contra seu cliente no Supremo Tribunal Federal (STF), por suposto tráfico de influência, seriam arquivados se o empresário não fosse filho do presidente da República. “Ele (Lulinha) carrega o peso de um sobrenome”, resmungou o defensor.

Pode ser que o causídico tenha razão. É provável que um cidadão qualquer, sem parentesco com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, jamais tivesse chamado a atenção da Polícia Federal (PF) por, supostamente, negociar contratos com a administração pública federal – sobretudo considerando que os negócios, até onde se sabe, nem sequer se concretizaram. Mas o contrário também é verdadeiro: o sobrenome que agora joga os holofotes sobre Fábio Luís é exatamente o mesmo que catapultou Lulinha da irrelevância para uma bem-sucedida carreira empresarial. Mais bem dito: Fábio Luís só é quem é na vida nacional – e só enriqueceu – por ser o primogênito de Lula.

Formado em Biologia, Lulinha começou a vida profissional como monitor do Zoológico de São Paulo. Sua trajetória no mundo dos negócios começou – e prosperou de forma espetacular – durante o primeiro mandato presidencial do pai. Em 2004, um ano após a posse de Lula, Lulinha, então aos 29 anos, criou a empresa de produção de programas dedicados a jogos eletrônicos que viria a se chamar Gamecorp. No início de 2005, a empresa, cujo capital inicial era de singelos R$ 10 mil, recebeu um aporte de R$ 5 milhões (cerca de R$ 17 milhões em dinheiro de hoje) da Telemar, depois Oi – uma das empresas tratadas como “campeãs nacionais” pelos governos petistas.

Questionado à época sobre o sucesso repentino de Lulinha, o presidente saiu-se com esta: “Que culpa tenho eu se meu filho é o ‘Ronaldinho’ dos negócios?”. Não se tem notícia de outro caso semelhante, donde se conclui que, ou Lulinha é realmente um craque da multiplicação do capital, ou, por ser filho de quem é, recebeu uma dinheirama de uma grande empresa de telecomunicações agraciada com vultosos e camaradas financiamentos do BNDES para expandir seus negócios a partir de 2006.

Aqui não nos interessa perscrutar o mérito dos inquéritos que ora pesam sobre Lulinha, que, ao fim e ao cabo, poderão ou não ensejar a apresentação de denúncia contra ele. Entretanto, se é verdade que Lulinha nunca foi condenado por nenhuma das suspeitas que o rondam há duas décadas, não se pode ignorar que seu sobrenome jamais deixou de abrir portas em todo esse tempo e, principalmente, atrair lobistas. Ser Lula da Silva, por óbvio, garante acesso irrestrito ao presidente da República, marca audiências com autoridades de diferentes escalões e, no limite, pode gerar bons negócios. Não é preciso provar crime algum para reconhecer esse fato. E quem se beneficia de seu laço de sangue com o presidente da República não pode, quando o sobrenome lhe é inconveniente, exigir tratamento de cidadão comum. O advogado de Lulinha, ao pugnar por isso, tratou-nos a todos como idiotas.

Dificilmente uma amizade como a que há entre Lulinha e a tal lobista Roberta Luchsinger, outra investigada naqueles inquéritos que tramitam no STF, despertaria tanto interesse da PF se não envolvesse um dos filhos de Lula, alguém com trânsito reconhecidamente livre em Brasília. A amizade que hoje os une como investigados até pouco tempo atrás os unia como sócios, impondo uma singela pergunta: a sra. Luchsinger teria se aproximado de Fábio Luís não fosse ele o Lulinha?

Nenhum democrata pode defender que Fábio Luís seja investigado, julgado ou eventualmente punido com mais rigor do que outro cidadão na mesma situação apenas por ser quem é. Sob esse prisma, Lula está correto ao dizer que, “se meu filho tiver culpa, ele pagará”. O problema é tentar fazer o Brasil acreditar que Lulinha é mera vítima de um sobrenome, como tentou seu advogado. Não se pode desfrutar da delícia de ser Lula da Silva e tentar dissipar a dor de sê-lo quando convém. Aí a vida é fácil.

A explosiva dívida global

Por O Estado de S. Paulo

Investidores cobram cada vez mais caro para financiar a dívida de países desenvolvidos, que têm ampliado seus gastos. Esse movimento pode prejudicar o Brasil

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou que o valor para recompra de títulos americanos de 10 e 30 anos dobrará de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões por operação entre 9 de setembro e 4 de novembro – as eleições legislativas no país, que podem complicar a vida do presidente Donald Trump no Congresso, ocorrem em 3 de novembro, um dia antes do fim do prazo.

Trata-se de uma tentativa de diminuir a pressão sobre os yields (rendimentos) dos T-bonds, como são chamados os títulos de longo prazo da dívida do país, que nas últimas semanas atingiram os níveis mais altos em quase duas décadas.

Yields elevados têm influência direta sobre os juros do financiamento imobiliário nos EUA, ou seja, atingem a classe média eleitora cada vez mais insatisfeita com ações de Trump, como o tarifaço e a ofensiva no Irã, que aumentam sensivelmente o custo de vida do americano médio.

Em um primeiro momento, o anúncio feito por Bessent foi o suficiente para que o rendimento do T-bond com vencimento em 30 anos abandonasse o patamar de 5,3%, o maior desde 2007. Mas o alívio durou pouco, e Bessent já cogita ampliar ainda mais o montante da recompra.

Recorde-se ainda que, semanas antes, Bessent atuou diretamente com autoridades japonesas para fortalecer o iene, ação entendida como uma manobra para impedir que o Japão, grande detentor de títulos da dívida dos EUA, despejasse T-bonds no mercado, pressionando os yields.

No longo prazo, porém, a capacidade das ações de Bessent para sanear a dívida dos EUA é bastante questionada. Os efeitos da intervenção conjunta com o Japão sobre o iene, por exemplo, já se dissiparam – e a moeda japonesa voltou a se desvalorizar.

Já a efetividade do programa ampliado de recompra de títulos teria fôlego igualmente curto e consequências potencialmente perigosas sobre o câmbio.

“Os efeitos desta reengenharia financeira são de curto prazo, a menos que acompanhada de ajustes em fundamentos”, escreveu no X o economista Mohamed el-Erian, para quem a ação do Tesouro sob o comando de Bessent está longe de ser um “almoço grátis”.

Em relatório, a consultoria Eurasia, por sua vez, afirmou que o Tesouro terá dificuldade para segurar os yields, uma vez que não existe apetite por consolidação fiscal no Congresso dos EUA.

Além disso, a menos que o novo presidente do Federal Reserve (o banco central dos EUA), Kevin Warsh, sucumba à pressão de Trump e corte os juros na marra, o que é sempre uma possibilidade, a tendência natural é de que a política monetária torne-se mais restritiva nos EUA em cenário de inflação persistentemente alta.

A verdade é que a razão para a escalada dos yields é estrutural. A dívida dos EUA acaba de superar a astronômica cifra de US$ 40 trilhões. E apesar de o déficit fiscal americano ser de aproximadamente 6% do PIB, não há por parte da gestão Trump nem do atual Legislativo nenhum interesse em melhorar a delicada situação fiscal do país.

Trump não inaugurou o apego americano à emissão de dívida, que vem de décadas. Mas medidas simbólicas de sua segunda gestão, como a aprovação, no ano passado, do pacote de aumento de gastos e corte de impostos chamado de One Big Beautiful Bill (um grande e belo projeto), agravam o déficit fiscal do país e a disposição dos investidores para financiá-lo.

Como se não bastasse, em meio a tudo isso, o forte aumento da dívida corporativa associada a investimentos em inteligência artificial disputa com os T-bonds a preferência do investidor.

Em outras nações ricas, questões como o envelhecimento da população e a necessidade de ampliar gastos com defesa também têm resultado em aumento das dívidas e dos yields. Outrora famosa por sua “austeridade”, a Alemanha é exemplo disso.

Tudo isso só reforça a necessidade de que o Brasil, país com dívida pública extremamente elevada para o seu nível de desenvolvimento, torne-se fiscalmente responsável o quanto antes.

Quanto mais os países desenvolvidos pagarem para rolar suas dívidas monumentais, maior o risco de que os ativos de nações como o Brasil passem a sofrer rejeição dos investidores globais.

A tortuosa linha do Metrô

Por O Estado de S. Paulo

Metrô alega economia para reduzir de cinco para duas as estações previstas para a Faria Lima

Em nome de uma economia praticamente irrelevante, o Metrô de São Paulo vai construir apenas duas das cinco estações inicialmente previstas na Linha 20-Rosa para a Avenida Brigadeiro Faria Lima, privando de transporte metroviário uma das regiões da cidade com maior circulação de pessoas. Por outro lado, os bairros da Vila Madalena e de Pinheiros, já bem servidos de Metrô, ganharão mais estações, como a Girassol e a Cardeal Arcoverde. Tal planejamento não parece fazer nenhum sentido, salvo se considerarmos os ganhos para o setor imobiliário, que certamente se beneficiará do potencial construtivo nesses eixos de transporte.

Diante dos números, é difícil encontrar justificativa para essa decisão. Segundo o Metrô, a redução do número de estações na Faria Lima, além de encurtar o tempo de execução da obra, reduzirá o custo total de R$ 26,1 bilhões para R$ 24,9 bilhões – e o número de passageiros por dia útil cairá de 1,291 milhão para 1,266 milhão. Na prática, o gasto por usuário na versão maior da obra seria de R$ 20.220, enquanto no traçado final ficou em R$ 19.660, uma economia de 3% per capita ou de 4,5% no custo total.

Na remotíssima hipótese de que as obras não tenham de receber aditivos vultosos, como costuma acontecer, e de que não haja os já proverbiais atrasos no cronograma de entrega, a economia anunciada é muito pequena diante do prejuízo evidente para a cidade com a supressão das Estações Pedroso de Morais, Faria Lima e Rebouças.

Na Faria Lima, haverá um deserto de metrô: o usuário embarcará na Estação Fradique Coutinho, em Pinheiros, e cruzará os Jardins até descer na Estação Tabapuã, no Itaim Bibi, 2,5 quilômetros depois.

Associações dos bairros afetados pelo trajeto escolhido pelo Metrô, lideradas pela AME Jardins, contestaram a decisão. Segundo a AME, o percurso afetará o perímetro tombado do bairro: haverá canteiros de obra e poços de ventilação na região do Jardim Europa.

As entidades contrataram a consultoria do ex-presidente do Metrô Sergio Avelleda para realizar um estudo técnico sobre o traçado adequado para a Linha 20-Rosa. E o percurso recomendado é o da Faria Lima, onde há maior concentração de postos de trabalho e fluxo de usuários.

As associações de moradores foram para a briga, acionando o Ministério Público de São Paulo (MPSP), que já pediu esclarecimentos do Metrô. A estatal empilha argumentos para justificar a sua decisão, como a baldeação com a Linha 4-Amarela e a futura Linha 22-Marrom, a realização de estudos de impacto ambiental, a demanda de passageiros, a viabilidade construtiva e os riscos geológicos e de engenharia.

Mas tanta contestação deveria indicar à companhia que o diálogo precisa ser retomado, e o interesse público, priorizado. Pois, se tudo ficar como está, a linha que vai ligar a zona oeste ao ABC paulista e tinha tudo para ficar conhecida como “o metrô da Faria Lima” deixará de atravessar a avenida de ponta a ponta, como ocorre com a Linha 2-Verde na Avenida Paulista. Eis uma grande oportunidade perdida.

Mais diversidade de gênero e étnica nos tribunais

Por Correio Braziliense

O Judiciário brasileiro não precisa reproduzir matematicamente a sociedade, porém, não pode permanecer como uma ilha social, muito mais masculina e branca do que o país sobre o qual exerce sua autoridade

O discurso da ministra Cármen Lúcia no 1º Encontro de Juízas no Supremo Tribunal Federal (STF), realizado nesta quinta-feira, recolocou em evidência uma contradição do Judiciário brasileiro: embora seja responsável por assegurar constitucionalmente a igualdade, sua própria composição está longe de refletir a diversidade da sociedade. A ministra criticou o machismo nas instituições e a distância entre a igualdade proclamada e a igualdade praticada. "No verbo, todo mundo é a favor da igualdade", ironizou.

Os números lhe dão razão. Segundo o Censo de 2022, as mulheres representam 51,5% da população brasileira — 104,5 milhões de pessoas —, enquanto os homens são 48,5%. Pretos e pardos, por sua vez, correspondem a 55,5% dos brasileiros. Ou seja, o Brasil é majoritariamente feminino e negro. Portas das varas e principalmente dos tribunais adentro, porém, há, outra composição social.

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que a distância é grande. Em fevereiro de 2025, havia 18.911 magistrados no país. Os homens representavam 59,5% desse contingente, e apenas 13,2% dos juízes e juízas eram negros. Havia somente 38 magistrados declarados indígenas. É um retrato muito diferente daquele revelado pelo IBGE nas ruas, escolas, locais de trabalho e transportes públicos brasileiros. (CNJ)

A desigualdade se acentua à medida que sobe a hierarquia. O Justiça em Números já havia mostrado que as mulheres eram 39% entre juízes, mas somente 23,9% entre desembargadores e 18,8% entre ministros. Na questão racial, a situação é semelhante: na Justiça Estadual, por exemplo, negros eram 14% dos magistrados de primeiro grau, mas somente 8,7% no segundo grau. Na Justiça Federal, os percentuais eram, respectivamente, 11,8% e 9,3%. (CNJ)

O próprio Supremo Tribunal Federal (STF) é a expressão máxima desse desequilíbrio. Cármen Lúcia é hoje a única mulher entre seus 11 integrantes. Desde a criação da Corte, apenas mais duas mulheres chegaram ao STF: Ellen Gracie e Rosa Weber. Nunca houve uma ministra negra entre seus pares.

Não se resume a uma fotografia estatística nem que cada tribunal reproduza mecanicamente as proporções do Censo. Magistrados devem ser selecionados pela qualificação, pelo conhecimento jurídico e pelas regras constitucionais da carreira. Entretanto, quando determinados grupos permanecem sistematicamente sub-representados, principalmente nos postos superiores, é legítimo perguntar se não existe desigualdade de oportunidades para chegar à magistratura.

É exatamente esse o ponto levantado por Cármen Lúcia. Usou uma expressão particularmente forte ao lembrar que as mulheres não participam do "clube do charuto", metáfora para os espaços informais onde relações pessoais historicamente influenciaram escolhas e carreiras. Os números reforçam seu argumento. Levantamento da organização Justa sobre 25 tribunais estaduais mostrou que, entre 2024 e 2025, magistradas receberam menos do que magistrados em 86% das cortes analisadas. As mulheres representavam apenas 32% da magistratura estadual.

O CNJ até que procura corrigir gradualmente essas distorções. A Resolução 525, de 2023, estabeleceu mecanismos para ampliar o acesso das mulheres aos tribunais de segundo grau quando a presença feminina estiver abaixo de 40%. Outra norma, a Resolução 540, determinou a busca de participação equilibrada de homens e mulheres em funções administrativas, cargos de chefia, comissões e outras atividades, incorporando também critérios de raça e etnia.

No campo racial, também houve avanços, como as cotas nos concursos da magistratura e a adoção do Protocolo para Julgamento com Perspectiva Racial. O Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero procura levar magistrados a considerar desigualdades estruturais que podem interferir concretamente nos conflitos submetidos à Justiça.

Não se trata de substituir a imparcialidade pela identidade do julgador. Uma mulher não necessariamente julgará uma mulher de determinada maneira, assim como um magistrado negro não representa juridicamente os negros que chegam aos tribunais. Juiz não é representante de grupo social. Sua obrigação é aplicar a Constituição. O Judiciário brasileiro não precisa reproduzir matematicamente a sociedade, porém, não pode permanecer como uma ilha social, muito mais masculina e branca do que o país sobre o qual exerce sua autoridade.

 


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