CartaCapital
Desde a Constituinte, elas servem ao
liberalismo, por ideologia ou fisiologia
O Centrão se inventou como força política em 1987, assim que a Constituinte iniciou seus trabalhos. Nesse período ocorreu o primeiro movimento de reacomodação de parlamentares antes filiados ao PDS, o partido da ditadura, que criaram uma dissidência capaz de dar a vitória ao candidato do PMDB, Tancredo Neves, no Colégio Eleitoral, formada por aqueles que aderiram ao peemedebista quando ele emergiu como o candidato indiscutivelmente favorito nas eleições indiretas e pelo grupo que estreava na política como nomes defensores dos interesses de associações de classe empresariais. Serviram, todos eles, à ditadura e a abandonaram nos seus estertores para continuar no poder.
A mobilização popular contra os governos
militares, que tomou o País durante a campanha pelas eleições diretas, foi
canalizada para a eleição de Tancredo Neves tão logo derrotada, pelo Congresso,
a Emenda Dante de Oliveira, que reinstituía o voto popular para a escolha do
presidente. Tancredo era candidato ao Colégio Eleitoral da ditadura, mas levou
das ruas um forte apoio popular.
A posse do governo civil de José Sarney em
15 de março de 1985, após a morte de Tancredo, e a convocação da Assembleia
Nacional Constituinte, cujos trabalhos foram iniciados em fevereiro de 1987,
aconteceram ainda sob o êxtase popular de derrubada da ditadura. A sociedade
civil inverteu, por completo, as regras políticas de antes. Nos governos
militares, nenhum político poderia se declarar de esquerda sem correr o risco
de ter o seu mandato cassado pelo governante de plantão. Após a vitória de
Tancredo, definir-se como direita era autodenunciar apoio pretérito a uma
ditadura que fora embora sem deixar saudades.
Na Constituinte, as diferenças fatalmente
seriam expostas. A Assembleia tornara-se o palco de uma luta de classes
encoberta no regime militar e onde os atores sociais disputavam palmo a palmo
com os egressos da ditadura o seu espaço social. Em vez de se autodefinirem
como conservadores, estes se nomearam como “centro democrático”. Foram
apelidados de “Centrão”. Eram a base de apoio parlamentar de José Sarney,
oriundo do PDS, inequivocamente conservador e um líder regional afeito à
política de clientela. Era também um político conservador. E andava na
contramão do deputado Ulysses Guimarães, líder inconteste do PMDB durante boa
parte da vida do partido de oposição criado pela ditadura, no bipartidarismo,
que havia se aproximado dos movimentos populares no período marcado pela
campanha das diretas e tendia claramente ao apoio da pauta progressista na
Constituinte. Ulysses presidia a Assembleia.
O Centrão tinha um papel duplo. Era o bloco
de apoio a um presidente que dominava as técnicas do clientelismo e premiava a
sua bancada parlamentar com emendas e favores para obter maiorias em matérias
de seu interesse. Mas existiam, nessa articulação, integrantes que, embora não
recusassem as benesses do fisiologismo, assumiam suas posições de classe. Entre
eles constam os primeiros políticos brasileiros a proclamarem uma adesão
ideológica clara ao neoliberalismo que grassava pelo mundo.
Ao longo dos governos Fernando Henrique
Cardoso, embora o fisiologismo fizesse parte de uma vitoriosa ação de governo
para conseguir maiorias a propostas que conseguiram derrubar no Congresso
medidas de caráter fortemente nacionalista de uma Constituinte recente, houve
uma articulação ideológica paralela que conquistou parlamentares do antigo
centro-esquerda e de boa parcela da opinião pública. O Consenso Neoliberal, nos
governos tucanos, entrou pela porta da frente do Congresso e desqualificou
adversários. A esquerda que, durante a ditadura, era sinônimo de subversão, no
consenso liberal tornou-se obsoleta, “jurássica”. Dizer-se de esquerda
tornou-se motivo de piada.
Entre os governos Lula e os de Dilma, até o
impeachment da presidenta, o centro da discordância política era entre
“atrasados” – a esquerda que mantinha suas posições políticas – e os “modernos”
(os tucanos que entenderam que o liberalismo era o fim da história).
O impeachment de Dilma foi o momento em que o
jogo mudou. Seu afastamento não foi apenas uma disputa ideológica entre
neoliberais e uma proposta de Estado de Bem-Estar Social, mas uma tomada de
poder. As forças democráticas demoraram a perceber que era um golpe não apenas
contra Dilma, mas contra forças progressistas que resistiram à ascensão do
Consenso Neoliberal. O golpe de 2016 e a tentativa de golpe contra o presidente
Lula em 2023, logo depois da sua posse a um terceiro mandato presidencial, são
contra o país que resistiu à sanha autoritária do ultraliberalismo sucedâneo do
neoliberalismo. É isso que está em jogo nestas eleições. •
Publicado na edição n° 1427 de CartaCapital,
em 26 de agosto de 2026.

Nenhum comentário:
Postar um comentário