segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Renato Janine Ribeiro - O PT chega ao quarto governo

• Que medidas econômicas Dilma tomará?

- Valor Econômico

Foi duro, exigiu nervos de aço, mas o PT ganhou sua quarta eleição presidencial. Mas fica o risco de ter sido uma vitória de Pirro, para lembrar o rei do Épiro que vencia os romanos, porém a tal custo que alguém lhe disse: "Mais três vitórias como esta, e estamos perdidos"... Examinemos o que pode acontecer de agora em diante. Não será fácil para a vitoriosa.

Sua primeira dificuldade é com a mídia e a opinião pública. Uma comentarista de televisão teria dito há um tempo que a população (ou o povo) vai de um lado, e a opinião pública de outro. A "opinião pública" é contrária ao PT, mas o povo deu vitória a este partido em seguidas eleições. A mídia, o empresariado, a classe média sobretudo paulista, mas não só, destoam do que a maioria de pobres quer. A sociedade está dividida, com os mais vocais na oposição, os silenciosos (ou silenciados, como dizia Fernando Morais) a favor do governo. Não tivemos conflito dessa magnitude desde 1989, quando Collor venceu Lula com golpes baixos, mas na ocasião a mídia não fechou tanto assim com o vencedor. Pode Dilma vencer o ódio? A forma usual - que é chamar alguém da oposição para integrar o ministério - soa improvável.

Somem-se as dificuldades da presidenta com a política. Ela foi escolhida por Lula, dentre outros nomes possíveis, porque mostrou qualidades como gestora, além de ser a pessoa mais simpática no primeiro escalão à produção e aos empresários. Hoje é criticada pela gestão, a produção cresce pouco e o patronato não gosta dela. Um de seus problemas seria que não dialoga, manda.

Isso afeta as relações com os empresários, mas também com os políticos e com o próprio povo. São três dimensões autônomas nas quais é preciso fazer política, isto é, não dar ordens, mas escutar e dialogar. A dimensão dos empresários não é bem democrática, porque o peso econômico deles depende do capital - mas negociar com eles é uma imposição da realidade. Depois, temos os políticos eleitos que, por mais que se desconfie deles, representam o povo e nesta condição tomam parte nas decisões.

Já a conversa com o povo, que deixei em terceiro lugar, é a mais importante no plano democrático, mas foi desconsiderada pelo PT fora do período eleitoral. Aqui está o eixo das dificuldades de comunicação de Dilma. O problema não é gaguejar, não está na construção das frases. Está na capacidade de conquistar o povo. FHC ganhou a classe média, Lula arrasava no povão. Dilma ficou atrás de ambos. Para um governo popular, a comunicação não é mera técnica, é da essência das coisas. Mas o PT desistiu dela. Não tanto por falta de uma hipotética "lei de meios de comunicação", mas porque renunciou a disputar a hegemonia das consciências. Preferiu ganhar votos pelo aumento (necessário, justo) do consumo, em vez de dar nova vida ao ponto que fez sua glória na oposição: o do caráter ético da luta contra a miséria.

Dilma precisaria do beneplácito pelo menos do patronato e do Congresso, e de um apoio decidido - e organizado, senão orgânico - do eleitorado. Com nenhum deles, porém, priorizou o diálogo durante o primeiro mandato. Quererá mudar? Conseguirá?

Há também o ministério. Ao contrário da equipe de Lula, que brilhava, temos um grupo discreto, em que até as estrelas do governo precedente - como Celso Amorim - empalideceram. A presidente se disporá a delegar mais, a confiar mais? Parará de corrigir os auxiliares em público? Esta não é só uma questão de método. É essencial para que o governo funcione. Se os ministros não tiverem senso de iniciativa, pouco farão e isso repercutirá em todo o sistema.

Vamos ao espectro político.

Por um lado, temos uma oposição que, mesmo perdendo, sai das urnas reforçada. Nem que seja sobretudo pelo ódio. Cada lado armazena um estoque enorme de insultos ao outro. Parei de ver programas políticos porque me sentia diante de uma briga infantil. Os dois lados reclamavam do clima de ódio, mas cada um acusava o outro de ter começado. Parecia coisa de criança:

"Ele puxou o meu cabelo!"

"Mas ela deu primeiro um chute na canela!"

Foi um espetáculo triste - e infelizmente pode continuar.

Então, suponhamos que Dilma faça um gesto de grandeza na direção do outro lado. Será aceito? Em que consistirá? Hoje, a simples boa educação não basta. Não dá mais para desejar feliz aniversário a FHC ou levar todos os ex-presidentes no avião oficial para o enterro de Mandela. Será preciso efetuar concessões. Mas quais? O melhor seria comprar o que puder da agenda econômica da oposição. Não o aumento de juros, a redução de gastos públicos, com arrocho salarial e social - mas pelo menos uma desburocratização intensa, regras claras e estáveis para o investimento privado, fim de qualquer criatividade contábil. Mais que isso é difícil, porque seria renunciar aos fundamentos mesmos da divergência com o PSDB.

E há outro problema. Nossos governos de centro-esquerda se elegem com votos decisivos da esquerda, mas depois governam com os deputados necessários da direita. Em São Paulo, duas vezes o PT apoiou Mario Covas no segundo turno, para depois ele governar com o então PFL, que nas eleições apoiara a direita. Em sua campanha, Dilma contou com o apoio decidido de quem defende a liberdade gay - mas no primeiro mandato ela vetou o kit anti-homofobia. Para que lado irá? Uma possibilidade seria uma agenda avançada na questão dos costumes, abrindo-se para a esquerda, e um gesto de conciliação para a direita empresarial, que está mais interessada na economia do que em questões comportamentais. Mas isso exigirá mais habilidade e gosto políticos.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Demétrio Magnoli - Detritos de campanha

- O Globo

Aécio tem o direito de lamentar, mas não o de reclamar: Minas Gerais conferiu o triunfo a Dilma. Os 3,3 milhões de votos que separaram a presidente do desafiante correspondem à soma quase exata da vantagem que ela obteve em Minas com a diferença que, meses atrás, ele planejou alcançar em “seu” estado. Minas é um “Brasil em miniatura” num sentido bem preciso: sua porção norte exibe indicadores sociais similares aos do Nordeste, contrastantes com os da parte sul. A vitória da presidente candidata reflete a força esmagadora do aparelho de Estado. No Brasil, como em tantos outros países ainda marcados por carências e desigualdades sociais, o governo quase sempre tem os votos dos mais pobres.

Analistas superficiais apontam para um elemento de continuidade: a persistência da polarização entre PT e PSDB, um traço da política brasileira que completa duas décadas. Entretanto, a eleição de ontem
singulariza-se por um elemento de ruptura. O lulopetismo venceu três eleições sucessivas por larga maioria, mas, agora, triunfou quase no fio de cabelo. Mais : o PT perdeu por amplas margens no eleitorado urbano das grandes e médias cidades do Centro-Sul, uma tendência que observamos, em menor escala, nos pleitos de 2006 e 2010. A base política do governo deslocou-se para longe dos polos sociais e econômicos mais dinâmicos.

Para vencer, a campanha de Dilma desceu aos subterrâneos, bombardeando todos os adversários com insultos e calúnias. Eduardo Campos (“playboy mimado”), Marina Silva (“pretende tirar a comida da mesa dos pobres”) e Aécio (“alcoólatra, drogado e violento com as mulheres”) foram tratados como “inimigos do povo”. É um sinal assustador para a saúde das instituições democráticas. No fim, a própria Dilma insurgiu-se contra o mensageiro, para fugir da mensagem, acusando a revista ‘‘Veja’’ de promover um “processo golpístico”. O governo já deveria saber, 12 anos depois, que é missão da imprensa publicar sem dilação as informações que têm. O escândalo na Petrobras não desaparecerá por um arroubo de fúria do Planalto. Que o segundo mandato não seja envenenado, desde o início, por uma cruzada contra a liberdade de informar.

João Bosco Rabello - De frente para o espelho

- O Estado de S. Paulo

Fechada a contabilidade das urnas, a presidente reeleita tem pela frente um desafio que ao País parecia vencido desde o advento do Plano Real, que restabeleceu a estabilidade econômica e cuja consolidação sugeriu o fim de um ciclo de experimentalismos no setor, ressuscitados por Dilma Rousseff.

A presidente tem o mandato renovado sob a contestação de metade do País e receberá de si própria uma herança maldita, que não poderá terceirizar, como até aqui tem feito os governos do PT.

De volta à cadeira presidencial, após o hiato da campanha, precisará dizer ao País o que fará para restabelecer os índices positivos da economia que recebeu – algo que se recusou a fazer por toda a campanha. O País que deixou para si mesma cresce abaixo de 1%, tem a inflação fora da tolerância da meta, padece da ausência de investimentos, conduz uma política externa errática e perde credibilidade internacional.

Lidará ainda com uma crise institucional anunciada desde a judicialização do caso Petrobrás, de que é parte, uma sombra que deverá se manter sobre seu governo, no mínimo, por metade de seu mandato – sem que se saiba seu alcance sobre os governos do PT, apenas que os atinge.

Vai ter, portanto, mais dificuldades com menor apoio popular e mantendo a dependência do PT, a cujo líder, Lula, deve mais uma vez votos decisivos na reta final – tanto em Pernambuco, que não deu a Aécio Neves a mesma votação de Marina Silva e, mais tarde, ao governador Paulo Câmara, mas prestigiou o outro filho da terra, o ex-presidente Lula.

Também em São Paulo, Aécio não chegou aos 70% como se estimara segundo o resultado do primeiro turno, e viu, em contrapartida, Dilma ir aos 37%, quando se previa que, no máximo, chegasse aos 30%.

Mas o que derrubou o cálculo de Aécio Neves, desde o início da campanha, foi Minas Gerais, que não contribuiu para a conta geral do Sudeste feita pelo candidato do PSDB.

O Nordeste confirmou as previsões a favor de Dilma, que seriam insuficientes caso Aécio tivesse também confirmado as expectativas em relação ao Sudeste.

Essa constatação leva a outra: mesmo lhe faltando Minas, segundo maior colégio eleitoral, o candidato do PSDB perdeu no plano nacional por um margem que nas pesquisas se define por “empate técnico”.

A diferença eleitoral entre PT e PSDB maior nas últimas disputas, portanto, praticamente acabou tendo cada um, hoje, metade das preferências do País.

Pode-se concluir, portanto, que apesar do resultado, o sentimento antipetista no País aumentou , estabelecendo-se como um índice técnico a balizar eleições. Se considerada ainda a votação de cabresto do Bolsa Família, que deu ao PT a vantagem de largar com 34,6% da votação total obtida por Dilma – ou 15 milhões de votos no primeiro turno –, tem-se aí uma conta mais apertada ainda em desfavor da presidente reeleita.

O PT fez do Bolsa Família um programa assistencial do partido, embora seja irrigado com recursos públicos. Mas é usado para ameaçar seus beneficiários em caso de derrota dos candidatos do governo. Se já fosse programa de Estado, o PT teria perdido a eleição.

Aécio Neves fez o que seus antecessores como candidatos não conseguiram: esteve a pontos da vitória. Sai credenciado, pelo resultado, a comandar a oposição, o que se já tivesse feito há mais tempo, poderia tê-lo levado ao Planalto.

Simon Schwartzman - No escuro

• Há razões para algum otimismo. Apesar da polarização da campanha, existem alguns consensos

- Folha de S. Paulo

Escrevo na véspera do segundo turno, sem saber o resultado. As eleições deveriam ser uma oportunidade para que a sociedade se revigore, com uma liderança enriquecida pelo confronto de ideias e fortalecida pelo apoio da sociedade. Infelizmente, o que se viu neste final de campanha foi um país fraturado, em um momento em que a economia estagnou e as políticas sociais tradicionais parecem ter se esgotado, com a desigualdade persistindo, o desastre da educação que não melhora e o agravamento da violência urbana.

Expressei por diversas vezes minha convicção de que a oposição tem um melhor diagnóstico, melhores quadros e mais condições de construir consensos e avançar; seu grande problema no governo seria a perspectiva de uma oposição empedernida que levasse o país à paralisação.

Os exemplos do primeiro governo Lula, ao endossar o Plano Real, substituir o Fome Zero pelo Bolsa Família e manter os sistemas de avaliação da educação, assim como o do início do governo Dilma, ao parecer enfrentar a corrupção em seu ministério e assumir uma posição mais clara, internacionalmente, em defesa dos direitos humanos, e, mais recentemente, ao buscar a participação do setor privado nos investimentos, mostraram que o PT tem condições de atuar de forma pragmática e buscar sair das amarras ideológicas e das práticas políticas que predominaram até aqui, com a vantagem que teria o apoio da oposição se efetivamente procurar avançar.

Então, há razões para algum otimismo. Apesar da polarização da campanha, buscando dividir o país entre "nós" e "eles", existem alguns consensos sobre os quais se pode construir: as conquistas sociais precisam ser mantidas e aprofundadas, a corrupção na administração pública precisa ser contida, a economia precisa recuperar seu dinamismo, a educação precisa melhorar, a violência precisa ser enfrentada, as questões ambientais, climáticas e energéticas precisam tratadas seriamente, e o sistema representativo precisa ser repensado.

Não será possível continuar lidando com estas questões como quando o dinheiro fluía para o governo pelo aumento de impostos, pelos ventos favoráveis do comércio internacional ou pelo endividamento crescente, e as políticas públicas eram sinônimo de distribuir benefícios e garantir privilégios. Persiste ainda a ideia de os recursos públicos são infinitos, de que 2+2=5, quando corre o risco de ser 3 ou menos. Sair desta ilusão é difícil, porque requer contrariar interesses e expectativas de tantos que querem sempre mais, sem abrir mão de nada nem admitir que a mágica não existe, e que Deus não é brasileiro.

Existe sempre a tentação de tentar sair desta situação pela intolerância, dogmatismo e acirramento dos conflitos, substituindo o pragmatismo do possível pelo absolutismo das convicções, colocando o país em um plano inclinado de conflito, desorganização e decadência, que, olhando em volta, vemos que pode não ter fim. Existe espaço para se pensar novamente em um pacto social, em benefício do país?

Jaques Morelenbaum - Receita de samba (Jacob do Bandolim)

Konstantinos Kaváfis - À espera dos bárbaros

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

(Trecho de “À Espera dos Bárbaros”, de Konstantinos Kaváfis. Tradução de José Paulo Paes)

domingo, 26 de outubro de 2014

Opinião do dia – Aécio Neves

"Nós assistimos ontem um atentado contra a democracia e a liberdade de expressão. Essa é uma marca extremamente preocupante dos nossos adversários.

Ao tentar proibir a circulação desta revista, há uma demonstração clara do descompromisso do Partido dos Trabalhadores com a democracia. É um atentado que deve receber o repúdio da população.

Aécio Neves, senador (MG) e candidato a presidente da República, Entrevista em BH, 25 de outubro de 2014.

Aécio volta a subir e eleição está indefinida

• Ibope aponta vantagem para Dilma, e Datafolha mostra empate técnico no limite da margem de erro

- O Globo

RIO - As pesquisas divulgadas neste sábado pelo Ibope e pelo Datafolha mostram que a presidente e candidata à reeleição, Dilma Rousseff (PT), segue à frente do adversário, Aécio Neves (PSDB), nas intenções de voto. Para o Ibope, a diferença entre os dois candidatos está fora da margem de erro de dois pontos para mais ou para menos; o Datafolha aponta empate técnico.

Segundo o Ibope, Dilma tem 49% das intenções de voto, contra 43% de Aécio. A diferença, que era de oito pontos percentuais (49% a 41%) no levantamento anterior, caiu para seis pontos. Já o Datafolha mostra a presidente com 47%, e seu adversário, com 43% – a diferença, que era de seis pontos (48% a 42%) passou para quatro pontos percentuais.

Os eleitores que declararam ao Ibope que votariam nulo ou em branco somaram 5% do total – dois pontos percentuais a menos que na pesquisa anterior –, e 3% não souberam dizer ou não quiseram responder. A pesquisa do Datafolha trouxe números idênticos.

Considerando apenas os votos válidos – ou seja, excluindo os votos em branco e nulos, como é feito pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para divulgar os resultados oficiais das eleições – a petista tem 53% e o tucano, 47%, segundo o Ibope. O Datafolha mostra Dilma com 52%, novamente empatada no limite da margem de erro com Aécio, que tem 48%.

Pesquisas anteriores
Os levantamentos anteriores dos dois institutos, divulgados no último dia, apontavam vantagem maior para Dilma.

O Ibope ouviu eleitores em municípios, e o Datafolha, eleitores em municípios. Em ambos os casos, o nível de confiança – a probabilidade de que o resultado, considerando a margem de erro, reflita a realidade – é de 95%.

A pesquisa do Ibope foi registrada no TSE sob o protocolo BR-01221/2014; a do Datafolha, sob o protocolo BR- 01210/2014.

Dilma, com 52%, e Aécio, 48%, estão em empate técnico, aponta Datafolha

Ricardo Mendonça - Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Pesquisa Datafolha com entrevistas realizadas nesta sexta (24) e neste sábado (25) mostra que o segundo turno da eleição presidencial chega ao final com uma disputa bastante acirrada entre a presidente Dilma Rousseff (PT) e o senador Aécio Neves (PSDB).

Na conta dos votos válidos, que exclui brancos, nulos e indecisos, Dilma marcou 52%, Aécio alcançou 48%.

Trata-se de um empate técnico no limite máximo da margem de erro, que é de dois pontos para mais ou para menos.

A probabilidade maior que é Dilma esteja à frente. Isso porque a situação de empate efetivo só ocorre numa combinação que considera os máximos da margem de erro para cada um em sentidos opostos (Dilma para baixo, Aécio para cima).

Na pesquisa anterior do Datafolha, nos dias 22 e 23, Dilma tinha 53%, Aécio 47%, uma diferença fora da margem. A oscilação negativa da petista mostra agora que ela parou de abrir vantagem sobre o rival.

Em votos totais, o placar da última pesquisa do segundo turno é Dilma 47% ante 43% de Aécio. Brancos e nulos somam 5%. Outros 5% não sabem em quem votar.

Os números da atual pesquisa não podem ser confundidos com uma tentativa de previsão dos resultados da eleição deste domingo. O levantamento é um retrato da corrida eleitoral no período em que as entrevistas foram feitas. Com a maior das entrevistas foram realizadas nesta sexta, o levantamento não é capaz de captar com precisão eventuais mudanças de opinião no sábado. Nem tem como identificar eventuais alterações no próprio domingo.

O Datafolha também investigou as taxas de rejeição e convicção dos candidatos.

Aécio é rejeitado por 41% (eram 40% na pesquisa anterior). Acerca de Dilma, 38% dizem não votar nela "de jeito nenhum" (eram 39%). Sobre a certeza do voto, 46% responderam que "votariam com certeza" na petista, enquanto 41% "votariam com certeza" no tucano.

Por encomenda da Folha e da TV Globo, o Datafolha ouviu 19.318 eleitores em 400 municípios. O nível de confiança é 95%. O registro da pesquisa no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) é BR-1210/2014.

CNT/MDA: Aécio inverte queda, volta a subir e passa à frente de Dilma

• Considerando votos válidos, levantamento aponta que Aécio Neves tem 50,3% das intenções e Dilma Rousseff tem 49,7%.

Agência CNT de Notícias

Intenção de voto para presidente (espontânea)
Aécio Neves (44,4%), Dilma Rousseff (43,3%)

2º Turno - intenção de voto para presidente (estimulada)
Aécio Neves (PSDB) – 45,3%
Dilma Rousseff (PT) – 44,7%

Votos válidos
(percentual calculado excluindo os percentuais de branco, nulo e indecisos)
Aécio Neves (PSDB) – 50,3%
Dilma Rousseff (PT) – 49,7%

Limite de voto
Dilma Rousseff: é a única em que votaria (37,9%); é uma candidata em que poderia votar (17,3%); não votaria nela de jeito nenhum (43,3%); não conhece/não sabe quem é/ nunca ouviu falar (0,1%).

Aécio Neves: é o único em que votaria (38,4%); é um candidato em que poderia votar (16,3%); não votaria nele de jeito nenhum (42,8%); não conhece/não sabe quem é/ nunca ouviu falar (1,1%).

A 126ª Pesquisa CNT/MDA mostra que Aécio Neves está numericamente à frente de Dilma Rousseff. Importante ressaltar que Aécio inverteu a curva de queda e voltou a subir.

Provavelmente, o debate da Rede Globo definiu as eleições, com grandes possibilidades de Aécio ser eleito presidente da República neste domingo.

A Pesquisa realizada 23 e 24 de outubro de 2014 e divulgada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) foi registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o número BR - 01199/2014. Foram entrevistadas 2.002 pessoas de 137 municípios de 25 Unidades da Federação.

Campanha chega ao fim com resultado em aberto e disputa mais acirrada desde 1989

• Petista para de subir, mas mantém vantagem acima da margem de erro sobre tucano; Datafolha aponta empate técnico entre candidatos

José Roberto de Toledo – O Estado de S. Paulo

A presidente Dilma Rousseff (PT) chega à véspera da eleição com 53% das intenções de votos válidos, contra 47% de Aécio Neves (PSDB), segundo a última pesquisa Ibope/Estado/TV Globo da campanha presidencial. A diferença está fora da margem de erro, de 2 pontos, para mais ou para menos. No levantamento anterior, concluído na quarta-feira, Dilma tinha 54% e Aécio, 46%. As entrevistas da última pesquisa Ibope desta campanha foram feitas na sexta-feira e sábado.

Em votos totais, Dilma segue com 49% das intenções de voto, enquanto Aécio passou de 41% para 43%. Esses dois pontos a mais vieram dos brancos e nulos, que oscilaram negativamente de 7% para 5%. Os indecisos são 3%. Eles se decidirão praticamente no momento de votar.
A pesquisa mostra uma interrupção da tendência de crescimento que as intenções de voto em Dilma tiveram entre a semana passada e quarta-feira. Como é um ponto isolado na curva, não é possível saber se a diminuição da diferença entre ela e Aécio indica uma reversão da tendência em favor do tucano ou se é oscilação estatística.

Entre uma pesquisa e outra houve o debate na TV Globo, na noite de sexta-feira, que alcançou 30 pontos de audiência - média alta para o horário. O tucano questionou a petista sobre reportagem da revista Veja, segundo a qual o doleiro Alberto Youssef teria dito em depoimento à Justiça que Dilma sabia da corrupção na Petrobrás. A presidente refutou a acusação e disse que processaria a revista por injúria e calúnia.

A pesquisa Ibope foi contratada pelo Estado e pela TV Globo. Foram ouvidos 3.010 eleitores, em 206 municípios de todas as regiões, entre sexta-feira e ontem. A margem de erro é dois pontos porcentuais, para mais ou para menos, em um intervalo de confiança de 95% - se a mesma pesquisa fosse realizada ao mesmo tempo 100 vezes, em 95 delas o resultado esperado estaria dentro da margem de erro. A pesquisa foi registrada no TSE com o protocolo 01195/2014.

Empate. Pesquisa Datafolha divulgada no sábado mostra Dilma e Aécio em empate técnico, no limite da margem de erro. A presidente aparece com 52% das intenções de voto, ante 48% de Aécio, considerando-se os votos válidos. No levantamento anterior do instituto, de quinta-feira, Dilma tinha 53% e Aécio, 47%. Levando em conta os votos totais, Dilma tem agora 47% e Aécio, 43%. Os votos em branco e nulos somam 5%, o mesmo porcentual dos indecisos.

A pesquisa, encomendada pela TV Globo e pelo jornal Folha de S. Paulo, fez 19.318 entrevistas em 400 municípios sexta-feira e ontem. Com margem de erro de dois pontos porcentuais e intervalo de confiança de 95%, está registrada no TSE sob o número BR-01210/2014.

O momento é de conciliação – O Globo / Editorial

• Dividir o país prejudica todos, a começar pelo próximo presidente. Apesar da agressividade da campanha, tem de haver o convívio civilizado entre forças políticas

As eleições de 2014 têm características marcantes. Como no momento histórico da volta dos civis ao poder, em 1985, ainda pelo voto indireto, o país sofreu o baque de uma tragédia. Naquele tempo, foram a agonia e a morte de Tancredo Neves, eleito e não empossado, substituído pelo vice José Sarney. Quase 30 anos depois, enquanto os candidatos iniciavam a disputa, ocorreu o trágico acidente aéreo com Eduardo Campos, candidato pelo PSB, presidente do partido, ex-governador de Pernambuco.

O destino colocou Marina Silva, sua vice, na corrida presidencial — tudo o que o PT, há quase 12 anos no Planalto, não desejava, depois dos 20 milhões de votos que a ex-petista e ex-ministra de Lula obteve em 2010 sob a legenda do PV. Sem conseguir fundar o próprio partido, a Rede, Marina se aliou a Campos, e uma fatalidade ressuscitaria seu planos políticos para 2014.

A campanha recebeu uma overdose de emoções enquanto Marina, como temia o PT, era confirmada pelas pesquisas como grande e real ameaça ao projeto petista de manter Dilma Rousseff por mais quatro anos no Planalto e, assim, completar quatro mandatos consecutivos no controle do Executivo.

Neste ponto, a campanha começou a ganhar em agressividade, e passou a se aproximar do que foi o segundo turno das eleições de 1989, as primeiras com voto direto depois do fim da ditadura militar.

Naquele embate entre Fernando Collor e Lula , o PT foi vítima de golpes abaixo da linha de cintura, desfechados pela equipe do político alagoano, vencedor do pleito para vir a sofrer impeachment três anos depois.

A vítima de 1989 seria o algoz em 2014. Já na reeleição de Lula, em 2006, o PT dos aloprados aderira ao vale-tudo eleitoral. O modelo de campanha continuou o mesmo, mas se sofisticou nas técnicas de “desconstrução” dos adversários, sob o comando da marquetagem política, com a mobilização de ferramentas digitais à disposição na internet e fora dela.

A campanha de 2014 resvalou para a infâmia quando, por exemplo, explorou a relação política e pessoal entre Marina e Neca Setúbal, especialista em Educação, mas usada pelos petistas por ser herdeira do Itaú-Unibanco.
Ou ao transformar a aceitável veemência com que o tucano Aécio Neves debateu com Luciana Genro e Dilma, na TV, numa ameaça dele contra mulheres, assunto que passou a ser explorado, de forma sibilina pelo discurso petista. Há outros exemplos de vilanias.

Outro aspecto pernicioso das eleições de 2014 foi a exploração do perigoso e conhecido discurso de divisão do país entre “nós” e “eles”, entre Norte/Nordeste e o resto do país, entre ricos e pobres.

Trata-se de um viés que prejudica todos. O país e, em particular, o presidente que sai hoje das urnas, herdeiro de um extenso inventário de ressentimentos e que precisa governar no efetivo sentido da palavra.

A agressividade desmedida da campanha coloca a sociedade e, em especial, os políticos diante da imprescindível necessidade de desarmar espíritos e construir bases para um convívio civilizado.

Nada deve interessar a qualquer força política, vitoriosa ou derrotada, a não ser a conciliação, com o devido respeito às leis, às instituições. Independentemente do número de votos que tenha esta ou aquela corrente político-ideológica.

O Brasil completa 26 anos, um quarto de século, sob a vigência do estado democrático de direito. A sétima eleição geral consecutiva depois do fim da ditadura, com voto direto, solidifica esta marcha. Mas ela precisa ser sancionada no exercício cotidiano dos mandatos concedidos pelo voto popular, sem conflitos que não sejam aqueles normais em qualquer democracia, mediados pelas regras constitucionais aplicadas pelos poderes republicanos.

Um voto pela reconciliação nacional – O Estado de S. Paulo / Editorial

A responsabilidade que a eleição presidencial de hoje coloca sobre os ombros dos cidadãos brasileiros se estende para muito além dos quatro anos do novo mandato do chefe de governo. Ao cabo de 12 anos do PT no poder e de uma campanha eleitoral em que predominou o mais inescrupuloso marketing em prejuízo do embate de ideias, o Brasil se acha dividido. Por enquanto, apenas em termos eleitorais.

Mas o terreno está ameaçadoramente preparado para fazer germinar a cizânia social. Mais quatro anos de PT podem significar a transformação da cada vez mais aguda hostilidade da polarização "nós" versus "eles" num conflito social escancarado cuja primeira vítima será a democracia.

Essa perspectiva assustadora será a consequência natural da política de deliberada divisão da Nação sobre a qual o lulopetismo tenta consolidar seu projeto de poder. O PT, criado há 35 anos com a generosa ideia de promover o fim das injustiças sociais, perdeu-se ao longo da jornada. Seus melhores quadros, plenos de idealismo político, abandonaram a legenda ou foram dela descartados ao sabor das conveniências dos donos do partido.

O PT transformou-se numa enorme máquina que, para permanecer no poder, se aliou àqueles que antes combatia ferozmente como inimigos do povo. E, nessa linha, não tem o menor escrúpulo de focar sua ação, tanto na vida partidária como no exercício do poder, tão somente naquilo que rende votos. O discurso petista, do qual Lula é o principal mentor e melhor exemplo, tem três matrizes: dizer exclusivamente o que as pessoas desejam ouvir; quando na defensiva, assumir o papel de vítima; e, na ofensiva, tratar os adversários como inimigos a serem destruídos.

Em sua defesa, o PT não pode nem mais alegar que a mudança de rota em relação ao curso originalmente traçado ocorreu por imposição das circunstâncias e da necessidade de garantir com pragmatismo a governabilidade em benefício dos despossuídos. A tal história dos fins que justificam os meios.

Esse argumento desmorona quando todos os indicadores sociais e econômicos revelam que os últimos quatro anos de governo petista, sob o comando de Dilma Rousseff, significaram retrocesso. O Brasil está hoje muito pior do que quando a atual candidata à reeleição assumiu o poder.

Nessas circunstâncias, manipular importantes realizações petistas dos últimos 12 anos - pois é claro que existem, principalmente na área social - como se fossem obras do incompetente governo Dilma é um dos embustes a que o marketing eleitoral companheiro recorreu durante a atual campanha. Mas a peça de resistência da campanha eleitoral petista é aquela estocada no departamento dos recursos escusos. Primeiro, a tentativa - que contra Marina Silva deu certo no primeiro turno - de destruir a imagem do adversário com ataques infames e mentirosos. A tática foi insistentemente repetida agora contra Aécio Neves.

O mais infame da campanha lulopetista, no entanto, é o discurso em que os dirigentes do partido, imitando Lula, se especializaram: a instigação do conflito social, colocando "nós" contra "eles", e situando o PT como o último bastião de resistência do povo oprimido contra a ambição desmedida e a insensibilidade das "elites".

Qual o sentido de Lula declarar, desnudando sua natureza, que ao "agredir as mulheres" nos debates eleitorais Aécio Neves demonstrou que é capaz também de "pisar nos pobres"? Ou ao classificar o candidato tucano de "filhinho de papai"? E de equiparar seus adversários eleitorais a nazistas? É assim que se dissemina o ódio entre pessoas que deveriam, civilizadamente, apenas expor firmemente suas divergências programáticas com adversários políticos.
Quando a divergência se transforma em ódio, o caminho está aberto para o agravamento de tensões sociais e elas podem se tornar explosivas.

Hoje, cada brasileiro tem a oportunidade de conter essa ameaça, votando no candidato que se propõe - e está credenciado para a tarefa - a reconciliar o Brasil consigo mesmo: Aécio Neves.

Recomeço – Folha de S. Paulo / Editorial

• Reconciliação política, ajustes econômicos e conquista do apoio parlamentar são tarefas que esperam quem vencer a eleição de hoje

Encerra-se hoje uma disputa presidencial marcada, de forma inédita desde a redemocratização, pela imprevisibilidade e pela emoção.

Depois da morte trágica de Eduardo Campos (PSB), a 13 de agosto, três ondas sucessivas se registraram nas preferências do eleitorado, beneficiando inicialmente Marina Silva (PSB), levando Aécio Neves (PSDB) ao segundo turno e, agora, restituindo à presidente Dilma Rousseff (PT) leve favoritismo na reta final da campanha.

Fosse o conjunto dos eleitores uma só pessoa, é como se assistíssemos à busca, simultaneamente desesperada e repleta de esperança, de uma saída para problemas que não têm, por sua própria natureza, uma única resposta.

A persistência de sérias desigualdades sociais, a estagnação econômica, a ameaça de um recrudescimento inflacionário, a corrupção, a péssima qualidade dos serviços públicos e os desequilíbrios insustentáveis da vida rural e urbana não poderiam encontrar nas propostas de um único candidato a sua solução indubitável.

O que poderia haver de messiânico e de conciliador na ideia de uma "terceira via", tal como apresentada por Marina, soçobrou nas fragilidades da candidatura, exploradas de resto por uma impiedosa campanha de contrainformação.

Bastou começar o segundo turno para que a "terceira via" se esvanecesse. Ressurgiu, intensificada pela estreita diferença entre Dilma e Aécio nas pesquisas, a clássica polarização PT-PSDB. Não foram pequenos os reflexos na violência verbal da campanha e no lamentável desvio do debate público para o plano dos ataques pessoais.

A imagem do eleitorado como uma só pessoa, hesitando entre diversas saídas, revelou-se inadequada. Voltou a metáfora de um Brasil dividido, ilustrada nos mapas eleitorais em que o vermelho e o azul preenchiam as regiões mais ricas e mais pobres do país.

O lema dos "pobres" contra os "ricos", na enganosa propaganda do PT, ou dos "informados" contra os "desinformados", numa infeliz sugestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), tem valor quase nulo quando se contam em dezenas de milhões os simpatizantes de cada candidatura.

Nem seria possível haver tantos "ricos" apoiando Aécio nem se pode creditar à ignorância o respaldo que Dilma encontra em parte expressiva dos brasileiros.

Quem quer que vença hoje terá pela frente o desafio de reconciliar uma sociedade atualmente friccionada pelas paixões eleitorais.

Terá de reconciliar, ainda, as aspirações pela mudança com a necessidade de obter, espera-se que com mais limpidez, sua base de apoio num Congresso esfacelado.

O próximo ano virá com dificuldades na área econômica que o improviso não conseguirá contornar. Tanto Dilma Rousseff como Aécio Neves são dignos da tarefa; que um deles a empreenda, porém, é algo que nem mesmo seus apoiadores podem assegurar com confiança.

TSE censura 'Veja' e concede direito de resposta ao PT

• Ministro que já atuou para a sigla em 2010 proíbe publicidade da revista a pedido da campanha de Dilma; editora Abril recorre

• A presidente e Aécio repudiaram atos de vandalismo na editora por simpatizantes da candidatura petista

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O ministro do Tribunal Superior Eleitoral Admar Gonzaga decidiu censurar a revista "Veja", impedindo-a de veicular publicidade em rádio, TV, outdoor e internet de sua edição desta semana, e concedeu direito de resposta ao PT contra a publicação.

O veto à publicidade foi determinado na sexta-feira (24) a pedido da campanha da presidente Dilma Rousseff (PT). A concessão do direito de resposta foi decidida em sessão extraordinária na noite deste sábado (25).

A decisão é liminar e tem efeitos imediatos, mas ainda será julgada pela corte. Como a próxima sessão do TSE ocorre só após as eleições deste domingo (25), a resposta deve ser publicada "de imediato" no site da revista.

O ministro também ordena que o PT use o espaço da revista na próxima semana para esclarecimentos. A editora Abril, que publica a "Veja", recorrerá das decisões.

Para o ministro, a publicidade da revista transformou-se em "publicidade eleitoral" em favor de Aécio Neves (PSDB). Gonzaga foi advogado de Dilma durante a campanha de 2010 e nomeado por ela para o TSE em 2013.

Segundo apuração da "Veja", confirmada pela Folha, o doleiro Alberto Youssef disse à Polícia Federal e ao Ministério Público que Dilma e o ex-presidente Lula tinham conhecimento do esquema de corrução na Petrobras. Ambos negam e ameaçam ir à Justiça contra a revista.

O presidente da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), Domingos Meirelles, chamou de "inconstitucional" a decisão do TSE de vetar a publicidade da revista.

Para ele, a intervenção, além de extemporânea, "fere a liberdade de imprensa e agride o Estado de Direito". A "Veja" não se manifestou até a conclusão desta edição.

Ataques à Abril
Na noite de sexta, um grupo de aproximadamente 200 pessoas que foi protestar contra a revista espalhou lixo na entrada da empresa e fez pichações. Entre os manifestantes, estavam integrantes da UJS (União da Juventude Socialista), entidade que apoia o PT. Três pessoas foram detidas pela polícia para averiguações e, depois, liberadas.

A presidente Dilma e o candidato do PSDB, Aécio Neves, repudiaram neste sábado os atos na sede da Abril. "Isso é barbárie, deve ser coibido", disse Dilma, em Porto Alegre.

Em São João del-Rei (MG), Aécio disse que o país assistiu "um atentado à democracia" com as depredações e tentativa de "censura". Para ele, a intolerância é "marca de nossos adversários".

Sobre o ataque à sede da Abril, a ABI disse que são "condenáveis num regime democrático". "A História tem mostrado como manifestações de intolerância política dessa natureza costumam terminar. Nosso passado recente é rico de exemplos do que sempre acontece quando a imprensa é impedida de cumprir sua missão."

A Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) e a Aner (Associação Nacional de Editores de Revistas) divulgaram nota em que repudiaram os ataques.

A Folha apurou que a editora Abril imprimiu mais exemplares para repor a falta da "Veja" em algumas bancas do país. Militantes radicais teriam retirado cópias da revista de estabelecimentos e intimidado jornaleiros, o que prejudicou o fluxo normal das vendas do título

Associações de imprensa repudiam ataque a prédio da Editora Abril em São Paulo

• Sede da empresa, que publica "Veja", foi pichada na noite de sexta-feira

- O Globo

SÃO PAULO — O ataque à sede da editora Abril, que publica a revista "Veja", na noite desta sexta-feira, foi duramente criticado por jornalistas e associações de imprensa. A fachada do prédio, na Marginal Pinheiros, em São Paulo, foi pichada. A depredação seria uma resposta à reportagem de capa da revista, publicada na última quinta-feira, que afirma que o ex-presidente Lula e a presidente Dilma estariam cientes de atos de corrupção praticados na Petrobras, segundo depoimento do doleiro Alberto Youssef à Justiça do Paraná.

Em nota, o atual presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), José Roberto de Toledo afirmou que "defende a liberdade de expressão sem limitações. Essa liberdade só existe quando todos, sem exceção, expressam seus pontos de vista - concorde-se ou não com eles. A contrapartida dessa liberdade é a responsabilização perante a lei de quem expressou esses pontos de vista. Qualquer veículo de imprensa tem o direito de publicar o que apurou. Quem não concorda com o publicado tem o direito de protestar - respeitados os limites legais. Excessos de parte a parte devem ser julgados e, se for caso, punidos pela Justiça.".

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) afirmou em nota que “repudia veementemente os ataques”. “A Abert acompanha com preocupação episódios como o de sexta-feira, pois a entidade considera grave qualquer “ato de intimidação à liberdade de imprensa”. A Abert lembra que a Declaração de Chapultepec, da qual o Brasil é signatário, aponta uma imprensa livre “como uma condição fundamental para que as sociedades resolvam os seus conflitos, promovam o bem-estar e protejam sua liberdade”, disse a associação em nota.

Em nota, o diretor executivo da ANJ, Ricardo Pedreira, qualificou a ação como “uma lamentável tentativa de intimidação própria de quem não sabe conviver na democracia e num país com liberdade de imprensa”.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) também emitiu nota sobre o caso, qualificando como “inconstitucional” a decisão do TSE que impediu a veiculação de publicidade da edição. Assinada pelo presidente da entidade, Domingos Meirelles, o texto diz que a ação do TSE “além de extemporânea, fere a liberdade de imprensa, agride o Estado de Direito e conspurca os princípios que regem a atividade econômica em nosso país”. Ainda para a organização, o argumento do tribunal é “inconsistente e falacioso”. O ataque foi igualmente condenado pela organização.

Segundo um representante da editora que registrou boletim de ocorrência no 14º DP, cerca de 200 pessoas participaram do protesto,na sexta-feira. Um caminhão de som União da Juventude Socalista, ligada ao PCdoB, também estaria no local. Três pessoas foram detidas pela Polícia Militar, levadas para a delegacia e liberadas em seguida. Além de picharem os muros do prédio com dizeres como “Veja mente”, também rasgaram revistas e jogaram lixo na porta da editora.

Neste sábado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atendeu pedido de liminar da coligação da candidata Dilma Rousseff e proibiu a revista “Veja” de fazer publicidade da edição deste fim de semana. De acordo com a decisão do ministro do TSE, Admar Gonzaga, a revista Veja está proibida de utilizar rádio, televisão, outdoors e link patrocinado para divulgar a capa.

Em Minas, Aécio critica 'descompromisso' de Lula com democracia

• Antes de visitar o túmulo de Tancredo, tucano também afirma que petista cometeu 'atentado' e que pesquisas terão que 'se reciclar'

Elizabeth Lopes e Pedro Venceslau - O Estado de S. Paulo

SÃO JOÃO DEL REI - Em seu último evento oficial de campanha, neste sábado, 25, o candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves, voltou a criticar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, criticou os atos de vandalismo contra a sede da Editora Abril, que edita a revista Veja, e também reclamou dos institutos de pesquisas eleitorais.

O tucano classificou como um 'atentado contra a democracia' a reação do petista à reportagem de capa da publicação, divulgada nesta sexta-feira, 24, segundo a qual ele e a candidata Dilma Rousseff (PT) sabiam do esquema de corrupção envolvendo a Petrobrás, de acordo com depoimento do doleiro Alberto Youssef à Justiça Federal.

"Nós assistimos ontem um atentado contra a democracia e a liberdade de expressão. Essa é uma marca extremamente preocupante dos nossos adversários", afirmou o tucano em entrevista concedida dentro do Solar das Neves, como é conhecida a residência da família Neves em São João del Rei, no interior de Minas Gerais, onde Tancredo Neves começou sua carreira política.

"Ao tentar proibir a circulação desta revista, há uma demonstração clara do descompromisso do Partido dos Trabalhadores com a democracia. É um atentado que deve receber o repúdio da população", disse o tucano.

Aécio Neves, sua mãe, Inês Maria Neves da Cunha, sua esposa, Letícia Weber, e os filhos na Igreja de São Francisco de Assis, no centro histórico de São João del Rei, no interior de MG

Ainda sobre o ex-presidente Lula, Aécio voltou dizer que ele se "apequenou" na campanha. "O ex-presidente Lula se apequenou nesta campanha. Sai muito menor do que entrou. Como sou um homem generoso, vou buscar sempre na minha memória os rasgados elogios que ele fez a mim no nosso convívio."

O tucano creditou as críticas que vem recebendo de Lula, que chegou a chamá-lo de filhinho de papai em um comício, ao "desespero final da campanha". "Perceberam que, pela primeira vez em 12 anos, há uma possibilidade real de derrota" , afirmou Aécio.

O candidato falou sobre os números divergentes das pesquisas de opinião. "Todos os institutos terão que se reciclar. Os erros foram grosseiros no primeiro turno." No final desta semana, os institutos Ibope e Datafolha apontaram Dilma à frente do tucano.

Depois da entrevista, o presidenciável visitou o túmulo de Tancredo Neves ao lado da Igreja de São Francisco, cumprindo uma tradição de todas as eleições.

Zander Navarro - A tragédia petista

- O Estado de S. Paulo

Peço licença, inicialmente, para um breve relato pessoal. Nos anos 1980 contribuí mensalmente com parte do meu salário para o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Os depósitos duraram de dois a três anos, quando a campanha foi encerrada, por falta de adesão. Com sacrifício, cheguei a oferecer até 10% do meu ganho e ainda guardo os recibos. Por que fiz isso? Naqueles anos, saindo do ciclo militar e ansioso pela democracia, ingenuamente entendi ser o MST uma força que renovaria a oligárquica política rural. Como os seus militantes passaram a ameaçar as famílias em assentamentos, o sonho desmoronou e retornei à vida universitária.

Na época, quase todos nós apoiávamos o PT, mesmo não sendo filiados. Imaginávamos que o partido também forçaria transformações em alguma direção positiva. Ou a reforma social ou, ao menos, a democratização da sociedade. Vivíamos então um período febril de debates plurais e de experiências práticas. Lembram-se do "modo petista de governar"? Era simbolizado pelo orçamento participativo, que prometia a livre participação dos cidadãos em decisões públicas sobre os orçamentos municipais. Na campanha de 2002, contudo, o candidato petista mal falou do assunto e, no poder, o tema se esfumaçou.

O assombroso escândalo da Petrobrás, que nos deixa estupefatos, é apenas o efeito inevitável da história do Partido dos Trabalhadores. A causa original é um mecanismo que o diferencia das demais agremiações partidárias. Trata-se de um processo de mobilidade social ascendente, inédito em sua magnitude. Movimento que poderia ser virtuoso, se aberto a todos, pois seria a consequência do desenvolvimento social. Mas, na prática, vem sendo uma odiosa discriminação, pois é processo atado à filiação partidária.

O núcleo pioneiro do PT recrutou segmentos das classes baixas e mais pobres, mobilizados pelo campo sindical, pelos setores radicalizados das classes médias, incluindo parte da intelectualidade, e pela esquerda católica, ampliando nacionalmente o grupo petista inicial. À medida que o partido, já nos anos 90, foi conquistando nacos do aparato estatal, vieram os cargos para os militantes e, assim, a chance arrebatadora de ascender às vias do dinheiro, do poder, das influências e do mando pessoal. Esse foi o degenerativo fogo fundador que deu origem a tudo o que aconteceu posteriormente.

Inebriados, cada vez mais, pelo irresistível prazer do novo mundo aberto a essas camadas, até mesmo impensáveis formas de consumo, todos os sonhos fundacionais de mudança foram sendo estilhaçados ao longo do caminho, incluídos a razoabilidade e os limites éticos. O PT gerou dentro de si uma incontrolável ânsia de mobilidade, uma voragem autodestruidora inspirada na monstruosa desigualdade que sempre nos caracterizou. Conquistado o Planalto, não houve nem revolução nem reforma e o fato serviu, particularmente, para saciar a fome histórica dos que vieram de baixo.

Instalou-se, em consequência, o arrivismo e a selva do vale-tudo: foi morrendo o padrão Suplicy e entrou o modelo Delúbio-Erenice. Logo a seguir, ante a inépcia da ação governamental, também foi necessário impor a mentira como forma de governo. Por fim, o PT mudou de cabeça para baixo o seu próprio financiamento. Abandonou o apoio miúdo e generoso dos milhões que o sustentaram na primeira metade de sua história, pois se tornara mais cômodo usar o atacado para ancorar-se no poder. Primeiro, o mensalão e, agora, os cofres da Petrobrás.

Nessa espiral doentia de mudanças, a partir de meados dos anos 1990 o partido enterrou o seu passado. Sua capacidade de reflexão, por exemplo, deixou de existir e o imediatismo passou a prevalecer. Assim, um projeto de nação ou uma estratégia de futuro não interessavam mais. O pragmatismo tornou-se a máxima dessa nova elite e sob esse caminho o subgrupo sindical e seus militantes vêm pilhando o que for possível dentro do Estado. Examinados tantos escândalos, invariavelmente a maioria veio do campo sindical. E foi assim porque da tríade original dos anos 80, a classe média radicalizada e os religiosos abandonaram o partido.

Deixaram de reconhecê-lo como o vetor que faria a reforma, sobretudo moral, da política brasileira.

Entrando neste século, o PT não tinha nada mais para oferecer de distintivo em relação aos demais partidos. A aliança com o PMDB ou Lula abraçando Maluf foram decorrências naturais. Também por tudo isso, o campo petista reivindicar o monopólio da virtude é o mesmo que fazer de idiotas todos os cidadãos. No primeiro turno, a fúria das urnas demonstrou a reação indignada dos eleitores à falsidade.

O que vemos atualmente é a soma dessa descrição com as nossas incapacidades políticas de construção democrática em favor do bem comum. O PT é hoje uma neo-Arena que promove, sobretudo, o clientelismo nos grotões. Não aqueles definidos geograficamente, mas os existentes nos interstícios sociais, confundindo as pessoas por meio da mentira, do bolsismo e das mistificações de toda ordem. É uma trajetória vergonhosa para um partido que prometeu a lisura republicana, o aprofundamento democrático, a reforma de nossas muitas iniquidades e, especialmente, prometeu corrigir a principal deformação de nossa História, que é um padrão de desigualdade que nos infelicita desde sempre. É ação que igualmente vem abastardando o Estado, atualmente tornado disfuncional e semiparalisado em inúmeros setores.

Por todas essas razões, incluindo o benéfico aperfeiçoamento que, fora do poder, sofrerá o próprio PT, é preciso mudar. E com urgência, pois o Brasil se esfarinhará sob outros quatro anos dessa gigantesca manipulação política, o desprezo pela democracia, o primado da lealdade partidária sobre a meritocracia e a fulgurante incompetência técnico-administrativa do campo petista no poder.

Sociólogo, é professor aposentado da UFRGS

Ferreira Gullar - O futuro em jogo

• Não pretendo afirmar que o lulismo é a mesma coisa que o chavismo, uma vez que o Brasil não é a Venezuela

Neste domingo, quando cada um de nós depositará na urna o voto que elegerá ou não o seu candidato, sou levado a fazer algumas considerações a respeito desta eleição, cujo resultado, conforme creio, terá decisiva importância para o nosso futuro.

É verdade que em todas as eleições, particularmente nas presidenciais, interesses contraditórios estão sempre em jogo e o resultado do pleito sempre influirá no curso que a sociedade trilhará.

Creio, não obstante, que na disputa atual, a vitória ou a derrota deste ou daquele candidato terá consequências muito importantes para o futuro do país.

Isso se deve ao caráter que os governos do PT, nestes últimos 12 anos, imprimiram ao seu trato dos negócios públicos, seja no campo da economia, dos acordos partidários ou das relações internacionais.

Não há nenhum exagero em situar o governo petista como simpatizante do neopopulismo latino-americano, intitulado por Hugo Chávez de socialismo bolivariano.

De fato, com o desmoronamento do socialismo real, os partidários dessa ideologia viram-se diante da seguinte opção: ou aceitar o seu fim ou fazer de conta que ele continua vivo.

Sucede que, em consequência daquela derrocada, os partidos comunistas mais importantes, fora da URSS, como o francês e o italiano, a aceitaram.
Certamente, para outros partidos, sem a mesma consistência e sem o mesmo compromisso com aquela ideologia, foi mais difícil admitir que o sonho acabou. Optaram por um arremedo da opção marxista revolucionária, a que chamo de neopopulismo, ou seja, o populismo vindo da esquerda. O PT, sem outra alternativa, seguiu esse caminho.

Não pretendo afirmar que o lulismo é a mesma coisa que o chavismo, uma vez que o Brasil não é a Venezuela. E, por isso mesmo, não seria possível implantar aqui as mesmas medidas autoritárias que foram implantadas ali.

Em consequência disso, ao chegar ao poder, o lulismo teve que adotar as medidas básicas do Plano Real, do governo Fernando Henrique, que combatera ferozmente, como também a Lei de Responsabilidade Fiscal, o Bolsa Alimentação e o Bolsa Escola. Criou o Bolsa Família, que juntava aqueles programas, sob outro nome. Ao mesmo tempo, para viabilizar seu governo, financiava generosamente grandes empresas capitalistas.

Como tinha que jogar com um pau de dois bicos, obrigado a privatizar, por exemplo, os aeroportos, estabeleceu regras que inviabilizaram a transação. Por outro lado, para aparentar que não deixara de ser de esquerda, tomava atitudes, no plano internacional, sempre contrárias às dos norte-americanos.

Assim, o Brasil punha-se ao lado de regimes antidemocráticos, como o do Irã, da Líbia, da Síria. Para deixar clara sua posição antinorte-americana, chegou a convidar para visita oficial ao Brasil o iraniano Ahmadinejad, célebre por afirmar que não houve o Holocausto.

Nessa mesma linha, na última Assembleia Geral da ONU, Dilma Rousseff tomou posição em defesa do Estado Islâmico, ao propor, em vez da repressão militar, o diálogo com os fanáticos que degolam inocentes diante das câmeras de televisão.

Acrescente-se a isso as propostas que os governos petistas têm feito com o propósito de controlar a ação da Polícia Federal, do Ministério Público e das decisões judiciais.

A vitória da Dilma pode significar um fortalecimento desse esquerdismo populista e, consequentemente, a crescente restrição aos princípios democráticos que regem a vida brasileira atualmente.

A tentativa de coibir a liberdade de imprensa caracteriza esse tipo de regime, a exemplo do que acontece na Venezuela e na Argentina.

Por outro lado, se Aécio Neves vencer as atuais eleições, o projeto petista sofrerá um sério golpe, uma vez que o aparato montado pelo PT, aparelhando ministérios e empresas estatais, será inevitavelmente desmontado.

Se é verdade que o propósito petista é se eternizar no poder, a derrota de Dilma poderia significar o retorno do Brasil ao caminho sensato, sem ameaças à liberdade de imprensa e à autonomia dos órgãos do Estado, do que resultaria a entrega da máquina governamental a técnicos e funcionários competentes.

Poeta, ensaísta, critico de arte. Eleito para ABL

Merval Pereira - A boca está fechando

- O Globo

No jargão dos institutos de pesquisa, os gráficos de pontuação formam o desenho da boca de um jacaré. Quando os índices de um candidato são maiores que os do adversário, o desenho é de uma boca de jacaré se abrindo, e geralmente essa tendência se mantém ao longo da disputa. A boca do jacaré se abrindo é sinal de vitória.

Ao contrário, quando a boca do jacaré vai se fechando, devido à redução da diferença entre os dois candidatos, é sinal de que a eleição pode estar caminhando para uma vitória apertada de quem está na frente, ou para uma reviravolta, dependendo do tempo existente até as urnas e as circunstâncias da disputa.

As pesquisas apresentadas ontem pelo Datafolha e pelo Ibope mostram a boca do jacaré se fechando, embora os dois institutos indiquem que o mais provável é a vitória da presidente Dilma. O Ibope é mais ousado e afirma que a presidente está muito perto de ser reeleita. Já o Datafolha mostra um empate técnico no limite da margem de erro, e diz que o mais provável é que a presidente esteja na frente, sem, no entanto, cravar nada.

Os dois institutos mostram uma parada do crescimento da presidente Dilma e um movimento ascensional do candidato do PSDB Aécio Neves. Além dos erros que os dois mais conhecidos institutos de pesquisa cometeram no primeiro turno, há uma série de outros institutos menores ou menos conhecidos que apontam resultados distintos.

A Confederação Nacional dos Transportes (CNT) apresentou uma pesquisa do instituto MDA que mostra Aécio Neves na frente por uma pequena margem: 50,3%
49,7% A seu favor está o fato de que foi o primeiro instituto a registrar a virada da presidente Dilma no segundo turno, de 50,5% a 49,5%.

Já no Vox Populi, ligado ao PT, os números são 53,4% para Dilma e 46,5% para Aécio. O instituto Sensus, ligado ao PSDB, dá o contrário: Aécio 54,6% e Dilma 45,4%. Tudo indica, portanto, que a disputa está muito acirrada e chegaremos hoje nas urnas sem uma definição do resultado, como em eleições anteriores.

Fatores aleatórios poderão influenciar no resultado, como abstenção causada por chuvas ou dificuldade de condução em regiões mais distantes. Também há uma indefinição sobre votos nulos e em branco e ainda há um número de indecisos que podem mudar o resultado numa eleição tão apertada como aparenta ser esta.

Por região, na pesquisa do Ibope, temos alguns dados importantes. Dilma lidera com folga no Nordeste (68% a 27% dos votos totais), sem alterações na margem de erro em relação à última pesquisa, mas Aécio cresceu 3 no Sudeste, passando a vencer por 50% a 39%. Em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, ele parece estar recuperando a maior votação que chegou a ter, de 67%. Está no momento com 63% a 37%. Em Minas, tem 54% a 46%. No Rio, a diferença a favor de Dilma é grande: 51% a 37%.

Há empate técnico no Norte/Centro-Oeste (Dilma 48%, Aécio 45%) e no Sul Aécio subiu 2 pontos e a presidente perdeu 3, ficando com 43%, enquanto o candidato do PSDB tem 47%.

A mais recente polêmica da eleição é a da edição antecipada da revista Veja com uma reportagem que revela que o doleiro Alberto Yousseff disse aos promotores que o ouvem na delação premiada que o ex-presidente Lula e a presidente Dilma sabiam de todo o esquema de corrupção na Petrobras.

O PT denunciou a reportagem como golpista e membros da Juventude Socialista vandalizaram a sede da Editora Abril, que publica a revista, em São Paulo. O partido tentou ainda impedir a circulação da revista e conseguiu no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma proibição de divulgar a capa em qualquer mídia, o que foi denunciado pelos órgãos de defesa da liberdade de imprensa como um atentado à livre informação.

O PT mostrou nesse caso, além da habitual intolerância à imprensa independente, que tem dois pesos e duas medidas, pois no debate do SBT a presidente Dilma perguntou a Aécio sobre uma denúncia que acabara de ser publicada no site da Folha de S. Paulo, de que o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra, já falecido, havia recebido dinheiro do esquema da Petrobras para boicotar a CPI sobre a estatal.

A notícia foi negada dias depois pelo próprio Yousseff, mas já fora utilizada no debate sem que ninguém do PT achasse golpe sua publicação em meio à campanha eleitoral.

Dora Kramer - Foi ruim, mas foi bom

- O Estado de S. Paulo

Foi bom, mas foi ruim. Ou vice-versa. O lado bom: o interesse, engajamento, entusiasmo do eleitorado, volta de comícios, despertar de setores recolhidos ao silêncio nos últimos tempos e a competição acirrada que demonstra a inexistência de hegemonia de uma só força política no País. Há polarização, o que é bem melhor que unanimidade. Há vigor, o que é bem melhor que a apatia.

O lado ruim: a rudeza recorrente e crescente na maneira de as pessoas se relacionarem com os fatos, as ideias, as divergências; a vulgaridade na linguagem, a incapacidade de formular raciocínios, a substituição do argumento pela agressão, enfim, a completa ausência de compostura que chegou ao auge na eleição que hoje se encerra em clima de esgotamento e hostilidade.

Decorrente, a meu ver, da noção de que na política - notadamente quando o poder está em disputa - tudo é permitido. Inclusive a revogação da norma de que respeito é bom e todo mundo gosta. Política, assim, deixado de ser a arte de conciliar, influenciar e construir consensos mediante o convencimento para se transformar numa espécie de arena de leões onde a lógica do jogo é matar ou morrer.

Não se trata aqui de tecer considerações sobre a tão falada divisão do País e suas supostas consequências. A partir de amanhã, ganhe quem ganhar, nada de extraordinário vai acontecer em decorrência dessa exacerbação. O Brasil não entrará em guerra civil, a vida vai continuar.

Passado o estresse pós-eleitoral os ânimos vão se acomodar e o eleito, ou eleita, terá de dar conta do repuxo que vem pela frente.

Se quiser, o (a) presidente, poderá também tomar para si a tarefa de conduzir o País a um processo de reabilitação civilizatória no campo das relações políticas. Até para que não se perca esse momento de entusiasmo e que o esgotamento com o excesso de agressividade não se transforme em distanciamento e desinteresse da população.

Sem um bom pavimento social, não será possível chegar à tão desejada reforma política. Pelo simples e conhecido fato de que na mão de suas excelências, sem a participação da sociedade, a coisa não anda a contento. Agora, como falar em atuação política se as pessoas confundem isso com o exercício da hostilidade absolutamente gratuita?

O debate tanto foi estéril entre os candidatos quanto tem sido improdutivo entre os partidários de um e de outro. Hoje, qualquer auditório onde se reúnam plateias adversárias ninguém deixa ninguém falar e terminam todos reduzidos a “coxinhas” e “petralhas”.

Francamente, nós jovens quando começamos a nos dividir logo após o fim da ditadura fazíamos bem melhor. Mesmo no vazio da ausência do inimigo comum, as discussões não se limitavam às trocas de adjetivos nem se precisava recorrer aos palavrões para manifestar veemência. Para isso há muitas palavras à disposição na língua portuguesa.

Quando a coisa começou a degringolar? Nessa altura não muda nada lembrar quem começou a guerra, uma vez que o ambiente é de chumbo trocado. Apenas para retomar o fio da meada em nome da clareza dos fatos: aquele ensaio de “fora FHC”, em boa hora desestimulado pela direção do PT, foi o primeiro sinal.

Tudo pareceu se acalmar na vestimenta do “Lulinha paz e amor” e depois na transição civilizada do sociólogo para o governo do ex-operário. Praticamente no dia seguinte o novo presidente retomou o tom da prática sindicalista da vida inteira ao carimbar a gestão do antecessor como “herança maldita” e submeter o embate político ao conceito de que o lugar da oposição é o gueto e seu destino, o aniquilamento.

Todo contraditório deveria ser castigado com desaforos e desqualificações, enquanto os submissos eram agraciados com toda a proteção; por mais desqualificadas que fossem suas ações. Uma receita que não poderia dar certo. Até porque um dia haveria reação.

Eliane Cantanhêde - Eleição é paixão

- Folha de S. Paulo

A eleição de 2014 entra para a história com variados adjetivos: tensa, imprevisível, agressiva, surpreendente, polarizada. Apaixonante até os últimos minutos.

O debate invadiu a internet e transbordou para ônibus e periferias, chacoalhando a hora da sesta de pintores, pedreiros e marceneiros, esquentando os horários de dentistas e manicures, criando saias justas em prosaicas festas de família. Crianças e idosos tinham o que falar.

Todo mundo teve certezas, todo mundo teve dúvidas, todo mundo aprendeu, com igual virulência, tanto a atacar os candidatos como a condenar quem ataca os candidatos. Amigos de décadas quebraram o pau, conhecidos de dois minutos viraram amigos desde criancinha.

É a democracia em ação, com tudo o que ela promove de avanços e com tudo o que ela carrega de retrocesso. Nesse turbilhão, mais de 140 milhões de eleitores poderão votar hoje pelo continuísmo de políticas sociais que deram certo ou pela mudança da política econômica para um futuro melhor para todos.

A eleição, aliás, teve até o ineditismo de um morto-vivo na Fazenda. Mas quem apanhou foi o ex-quase-futuro ministro da oposição.

Numa montanha russa política e até emocional, Dilma foi disparada a favorita até junho de 2013, depois vieram um longo período de incertezas, a morte chocante de Eduardo Campos, o vendaval Marina, a reviravolta espetacular de Aécio e, enfim, a lógica da polarização PT-PSDB --que não vai passar tão cedo.

Dê Dilma ou dê Aécio, porém, a festa vai durar pouco. Com Dilma, o dólar vai disparar e as Bolsas vão despencar, pelo temor da estagflação. Com Aécio, MST, CUT, UNE vão acordar --e voltar a infernizar. E a investigação da Petrobras continua...

A eleição passa, mas a divisão do país, meio a meio, fica. E vá se preparando, porque 2015 será de amargar. Só não se esqueça da frase mestra dessa eleição tão fascinante:
"Não vamos desistir do Brasil!"

Luiz Carlos Azedo - A maioria silenciosa

• Hoje, o Brasil se orgulhará de escolher seu presidente da República pelo voto direto e secreto, de forma pacífica e ordeira

- Correio Braziliense

Com pesquisas desencontradas, que apontam tanto a vitória do candidato de oposição, Aécio Neves (PSDB), como a reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT), o Brasil vai às urnas num clima de grande incerteza. O país parece mergulhado naquele nevoeiro descrito por Fernando Pessoa em seu poema épico intitulado Mensagem: “Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem, nem o que é mal nem o que é bem. (Que ânsia distante perto chora?) Tudo é incerto e derradeiro.Tudo é disperso, nada é inteiro.”

É uma travessia que depende do voto do eleitor. Embora o debate eleitoral no segundo turno tenha sido pautado pelo retrovisor — a comparação dos dois mandados do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso com os dois do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva —, o que está em jogo é a continuidade do governo de Dilma Rousseff, que termina o primeiro mandato com crescimento zero e o país pior do que aquele que recebeu, ou a formação de um novo governo, das forças de oposição, sob o comando do senador Aécio Neves (PSDB), ex-governador de Minas.

Há que se considerar a crise mundial, sem dúvida, pois ela impõe limitações ao país, mas um olhar ao redor, para a própria América Latina, desnuda nossas vicissitudes: as escolhas feitas pelo atual governo não deram muito certo. São um rosário de erros: a recusa aos acordos bilaterais de comércio com nossos parceiros europeus; a submissão às chantagens dos nossos vizinhos do Mercosul; a desastrada redução dos juros sem o necessário ajuste nas contas públicas; a volta da inflação e a desindustrialização; as maquiagens e manipulações de dados estatísticos; a incapacidade de enfrentar os problemas de infraestrutura; a tentativa ingênua de estabelecer os lucros das empresas nas parcerias público-privadas; a má-qualidade dos serviços prestados na Saúde, na Educação, nos Transporte e na Segurança; e os escândalos na administração direta e nas estatais, particularmente na Petrobras.

Tudo isso foi varrido para debaixo do tapete durante a maior parte da campanha eleitoral, principalmente no primeiro turno, quando a enorme vantagem em termos de tempo de televisão permitiu ao PT e à presidente Dilma Rousseff mostrar o “outro lado”: os bem-sucedidos programas Bolsa Família; Minha Casa, Minha Vida; Pronatec; Prouni; Mais Médicos, principalmente. Eles “fidelizaram” parcelas expressivas do eleitorado. Desde a origem, miravam a disputa eleitoral, mas é inegável o impacto positivo na vida dos que deles se beneficiam. Não fosse isso, a eleição estaria decidida a favor da oposição.

Desde junho do ano passado, quando ocorreram as grandes manifestações de jovens nas principais cidades do país, há uma insatisfação difusa na sociedade e um forte desejo de mudança na relação entre o Estado e os contribuintes. Além da má-qualidade dos serviços, a degeneração das práticas políticas e a escalada da corrupção na administração pública revoltam os cidadãos. É iminente uma crise política na Praça dos Três Poderes, devido às denúncias contra autoridades e políticos envolvidos na Operação Lava-Jato. Em segredo de Justiça, as delações premiadas do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto da Costa e do doleiro Alberto Yousseff pautaram os últimos dias da campanha eleitoral. E podem, após as eleições, causar um strike no Congresso e na atual equipe de governo.

Há um senso comum entre os políticos de que o caixa dois de campanha eleitoral é uma prática inevitável e as urnas purgam os erros cometidos na disputa política. Para o Ministério Público e a Justiça não é bem assim; nem tudo o que é real na luta política é legal no Estado democrático, digamos assim. Muito provavelmente, após a eleição, a discussão sobre o fim do financiamento de empresas às campanhas eleitorais ressurgirá com força no Congresso, mas como uma espécie de anistia para a sujeira que emerge das relações entre órgãos e empresas públicas, grandes empreiteiras e políticos.

Por essas e outras, a eleição está indefinida. Em circunstâncias normais, a presidente Dilma seria reeleita. É bem-intencionada e dedicada à vida pública. Corre, porém, o risco de perder para o candidato de oposição, Aécio Neves (PSDB), devido aos erros que cometeu e ao envolvimento de seu partido, o PT, e dos principais aliados, o PMDB e o PP, com tantos malfeitos, para usar a palavra de sua preferência quando trata da roubalheira.

Os eleitores que ainda estão indecisos vão ponderar o que está certo e ao que está errado na vida nacional de acordo com a sua consciência. Sem o alarido dos militantes, a maioria silenciosa decidirá os destinos do Brasil nos próximos quatro anos. Apesar de tudo o que aconteceu durante a campanha, mais um vez o Brasil se orgulhará de escolher seu Presidente da República pelo voto direto e secreto, de forma pacífica e ordeira, em eleições à prova de fraudes eleitorais. Assim é a nossa democracia.