segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Adriana Calcanhotto - O sonho acabou

• O PT foi ficando cada vez mais dividido, pesado, paquidérmico, carregando alas divergentes que foram minando a força interior do partido e sua chama

- O Globo / Segundo Caderno

Aos 15 anos, estudante secundarista em Porto Alegre, interessada especialmente nas causas indígena e trabalhista, devorando qualquer texto dos irmãos Villas Boas ou de Darcy Ribeiro que encontrasse pela frente, me apaixonei pelo movimento de criação do Partido dos Trabalhadores. Era o ano de 1980, e eu vendia broches que eram estrelinhas vermelhas com “PT” escrito em branco. Era o que podia fazer como contribuição para a concretização do grande sonho, aquele trabalho de formiguinha que o militante secundarista pode fazer, dando tudo de si. Usava meu broche de estrelinha do lado esquerdo do peito, no duplo sentido. Tirava o broche antes de chegar em casa para não ter que confrontar a família, de direita, entre outras manobras anticonflito. Até que um dia nasceu finalmente o PT, o inacreditável aconteceu. Grande privilégio do ponto de vista histórico fazer parte daquilo. Meu herói era Olívio Dutra, e meu lema era “com o Olívio onde o Olívio estiver”.

Gostava do comunismo e gosto ainda hoje. Do lado bom, do lado utópico, do lado Ferreira Gullar, do lado Oscar Niemeyer do comunismo. Li “O capital”, mas repudio ditadores que não respeitam os direitos humanos. Revelou-se utópico, mas para mim antes utopia que acomodação ou o trabalho escravo do qual o capitalismo com tanta naturalidade lança mão.

Dada hora o PT trincou e acabou rachado. Começou a ter alas e facções demais e tornou-se, para meu gosto, excessivamente “partido”. Mesmo ligada à causa trabalhadora e filiada ao PT em Porto Alegre, sempre me senti mais ligada a quadros do que a agremiações. Já morando no Rio de Janeiro, fiz campanha voluntária à Presidência da República de Roberto Freire, pelo PCB, no primeiro turno nas eleições de 1989. Tinha 23 anos, liguei para o comitê e perguntei: “Posso ajudar?”. Seguia acreditando nas ideias do PT, votei em Lula no segundo turno e chorei dois dias de desgosto com a vitória de Fernando Collor. Passou o tempo, e o PT foi ficando cada vez mais dividido, pesado, paquidérmico, carregando alas divergentes que foram evidentemente minando a força interior do partido e sua chama. Tempos depois a ala radical do PT, de tão radical, chegou, por exemplo, a ser contra a candidatura pelo partido à Presidência da República de figuras migradas de outros partidos, caso da presidenta Dilma, oriunda do PDT. Não gosto de fanatismo. Fui deixando a cada dia de me sentir representada pelo PT. Não achei a escolha do cinismo boa opção. Não gostei de ver o Lula em palanques com Sarney e Paulo Maluf, que ele execrava nos mesmos palanques quando eles não estavam presentes, aquele PT não me representava mais.

O desmatamento aumentou. A nascente do Rio São Francisco secou. O governo não relaciona uma coisa à outra. O governo permanecerá no governo porque a cada eleição vai pagar carros com alto-falantes para circular pelas ruas das cidades mais pobres do Nordeste informando que a oposição, vencendo a eleição, vai acabar com o Bolsa Família. O povo tutelado, acuado. São inegáveis as boas coisas realizadas pelo PT, são transparentes, menos gente passa fome. Mas e essa confusão na Petrobras?

A Educação em cujo país o lema do governo agora é “Pátria educadora” tem o responsável pela pasta definido no balcão de loteamento de cargos, um deboche, uma ofensa à memória de Paulo Freire e ao esforço das pessoas comprometidas com a educação no país, considero inaceitável, mas e daí? Quem sou eu? Apenas uma cidadã, que paga impostos, que é muitas vezes bitributada, que gera empregos, que para no sinal vermelho, ou seja, uma otária, que acredita em princípios éticos. Se o governo despreza a ética por que o povo seria ético? Mas eu não caio nessa. O chanceler escolhido pela presidenta para assumir o posto em Washington, com habilidades conhecidas para amenizar bilateralmente os ânimos, botar as coisas nos eixos e ajudar a promover a visita da presidenta aos Estados Unidos em setembro, já começa com um problema a resolver. O ministro foi empossado sem o aval dos EUA, uma formalidade a ser cumprida, já descumprida pelo governo brasileiro na largada, obrigando o primeiro ato do novo chanceler a ser uma quebra de protocolo. As primeiras ações do novo governo contradizem em tudo o que foi dito na campanha, a massa de manobra, massinha de modelar. Ai, cansa.

Quando um dos maiores tesouros do PT, a então senadora Marina Silva, deixou a legenda, eu já estava no Partido Verde. Agora não estou em lugar nenhum. Ou melhor, mudei-me para a desesperança. Serei alienada ou apolítica, que é melhor para mim do que ser amoral. Semana passada, juntando em caixas roupas, livros e coisas que não uso mais para doar, atirei num caixote de bugigangas aquela minha estrelinha vermelha do PT, o sonho acabou. Pode a militância entupir à vontade minha caixa postal com deselegâncias, eu sou vocês ontem. Hoje eu sou Charlie.

Tancredo Neves: “Entrego-me ao serviço da Nação”


  • “Não vamos nos dispersar. Continuemos reunidos, como nas praças públicas, com a mesma emoção, a mesma dignidade e a mesma decisão. Se todos quisermos, dizia-nos, há quase duzentos anos, Tiradentes, aquele herói enlouquecido de esperança, poderemos fazer deste País uma grande Nação. Vamos fazê-la.”

Discurso do presidente Tancredo Neves, após sua eleição à Presidência da República no Colégio Eleitoral, no plenário da Câmara dos Deputados, Brasília (15/01/1985)

Brasileiros, neste momento, alto na História, orgulhamo-nos de pertencer a um povo que não se abate, que sabe afastar o medo e não aceita acolher o ódio. A Nação inteira comunga deste ato de esperança. Reencontramos, depois de ilusões perdidas e pesados sacrifícios, o bom e velho caminho democrático. Não há Pátria onde falta democracia.

A Pátria não é mera organização de homens em Estados, mas sentimento e consciência, em cada um deles, de que lhe pertencem o corpo e o espírito da Nação. Sentimento e consciência da intransferível responsabilidade por sua coesão e seu destino.

A Pátria é escolhida, feita na razão e na liberdade. Não basta a circunstância do nascimento para criar esta profunda ligação entre o indivíduo e sua comunidade.

Não teremos a Pátria que Deus nos destinou enquanto não formos capazes de fazer de cada brasileiro um cidadão, com plena consciência dessa dignidade.

Assim sendo, a Pátria não é o passado, mas o futuro que construímos com o presente. Não é a aposentadoria dos heróis, mas tarefa a cumprir; é a promoção da justiça, e a justiça se promove com liberdade. Na vida das nações, todos os dias são dias de história, e todos os dias são difíceis. A paz é sempre esquiva conquista da razão política. É para mantê-la, em sua perene precariedade, que o homem criou as instituições do Estado, e luta constantemente para aprimorá-las.

Não há desânimo nessa condição essencial do homem. Por mais pesadas que sejam as sombras totalitárias ou mais desatadas as paixões anárquicas, o instinto de liberdade e o apego à ordem justa trabalham para restabelecer o equilíbrio social.

No conceito que fazemos do Estado democrático, há saudável contradição: quanto mais democrática for uma sociedade, mais frágil será o Estado. Seu poder de coação só se entende no cumprimento da lei. Quanto mais fraterna for a sociedade, menor será a presença do Estado.
Brasileiros:

A primeira tarefa de meu governo é a de promover a organização institucional do Estado. Se, para isso, devemos recorrer à experiência histórica, cabe-nos também compreender que vamos criar um Estado moderno, apto a administrar a Nação no futuro dinâmico que está sendo construído.

Sem abandonar os deveres e preocupações de cada dia, temos de concentrar os nossos esforços na busca de consenso básico à nova Carta Política.

Convoco-vos ao grande debate constitucional. Deveis, nos próximos meses, discutir em todos os auditórios, na imprensa e nas ruas, nos partidos e nos parlamentos, nas universidades e nos sindicatos, os grandes problemas nacionais e os legítimos interesses de cada grupo social.

É nessa discussão ampla que ireis identificar os vossos delegados ao Poder Constituinte e lhes atribuir o mandato de redigir a Lei Fundamental do País. A Constituição não é assunto restrito aos juristas, aos sábios ou aos políticos. Não pode ser ato de algumas elites. É responsabilidade de todo o povo. Daí a preocupação de que ela não surja no açodamento, mas resulte de uma profunda reflexão nacional.

Os deputados constituintes, mandatários da soberania popular, saberão redigir uma Carta Política ajustada às circunstâncias históricas. Clara e imperativa em seus princípios, a Constituição deverá ser flexível quanto ao modo, para que as crises políticas conjunturais sejam contidas na inteligência da lei.

Presidente eleito do Brasil, busco no coração e na consciência as palavras de agradecimento profundo aos correligionários da Aliança Democrática, o valente e fiel PMDB, sob o comando do deputado Ulysses Guimarães, o recém-fundado Partido da Frente Liberal, sob a liderança de Aureliano Chaves, Marco Maciel e meu companheiro vice-presidente, José Sarney. Aos integrantes do PDT, PT, PTB, dissidentes do PDS que, por decisão partidária ou pessoal, me entregam a mais alta e difícil responsabilidade da minha vida pública.

Creio não poder fazê-lo de melhor forma do que, perante Deus e perante a Nação, nesta hora inicial de itinerário comum, reafirmar o compromisso de resgatar duas aspirações que, nos últimos vinte anos, sustentaram, como penosa obstinação, a esperança do povo:
• esta foi a última eleição indireta do País;
• venho para realizar urgentes e corajosas mudanças políticas, sociais e econômicas, indispensáveis ao bem-estar do povo.

Não foi fácil chegar até aqui. Nem mesmo a antecipação da certeza da vitória, nos últimos meses, apaga as cicatrizes e os sacrifícios que marcaram a história da luta que agora se encerra.

Não há por que negar que houve muitos momentos de desalento e cansaço, em que cada um de nós se indagava se valia a pena lutar. Mas, cada vez que essa tentação nos assaltava, a visão emocionante do povo resistindo e esperando, recriava em todos nós energias que supúnhamos extintas e recomeçávamos, no dia seguinte, como se nada houvesse sido perdido.

A história da Pátria, que se iluminou através dos séculos com o martírio da Inconfidência Mineira; que registra, com orgulho, a força do sentimento de unidade nacional sobre as insurreições libertárias durante o Império; que fixou, para admiração dos pósteros, a bravura de brasileiros que pegaram em armas na defesa de postulados cívicos contra os vícios da Primeira República, a História situará na eternidade o espetáculo inesquecível das grandes multidões que, em atos pacíficos de participação e de esperança, vieram para as ruas reivindicar a devolução do voto popular na escolha direta para a Presidência da República. Frustradas nos resultados imediatos dessa campanha memorável, as multidões não desesperaram, nem cruzaram os braços. Convocaram-nos a que viéssemos ao colégio eleitoral e fizéssemos dele o instrumento de sua própria perempção, criando, com as armas que não se rendiam, o governo que restaurasse a plenitude democrática.

Na análise desses dois grandes movimentos cívicos não sei avaliar quando o povo foi maior, se quando rompeu as barreiras da repressão e veio para as ruas gritar pelas eleições diretas, ou se quando, mesmo vencido, não se submeteu, e com extrema maturidade política exigiu que agíssemos dentro de regras impostas, exatamente para revogá-las e destruí-las.
É inegável que o processo de transição teve contribuições isoladas que não podem ser omitidas:
• a do Poder Legislativo, que, muitas vezes mutilado em sua constituição e nas suas faculdades, conservou acesa a chama votiva da representação popular como última sentinela do campo da batalha democrática;
• a do Poder Judiciário, que se manteve imune à influência dos casuísmos, para, na atual conjuntura, fazer prevalecer o espírito de reordenação democrática;
• a da Igreja, que, com sua autoridade exponencial no campo espiritual e na ação social e educativa, lutou na defesa dos perseguidos, e pregou a necessidade da opção preferencial pelos pobres, com base na democracia moderna;
• a do homens e mulheres do nosso povo, principalmente as mães de família, que arrostaram as duras dificuldades do desemprego e da carestia em seus lares e lutaram, com denodo, pela anistia, pelos direitos humanos e pelas liberdades políticas;
• a da imprensa – jornais, emissoras de rádio e televisão –, que, sob a censura policial, a coação política e econômica, ousou bravamente enfrentar o poder para servir à liberdade do povo;
• a da sociedade civil como um todo, em suas muitas instituições: a Ordem dos Advogados do Brasil, a Associação Brasileira de Imprensa, as entidades de classes patronais, de empregados, de profissionais liberais, as organizações estudantis, as universidades, e tantas outras, com sua participação, muitas vezes, sob pressões inqualificáveis, nesse mutirão cívico da reconstrução nacional;
• a das Forças Armadas, na sua decisão de se manterem alheias ao processo político, respeitando os seus desdobramentos até a alternativa do poder;
• a de Sua Excelência o presidente João Figueiredo, que, prosseguindo na tarefa iniciada com a revogação dos atos institucionais, ajudou, com a anistia política, a devolução da liberdade de imprensa, as eleições diretas de 1982, o desenvolvimento normal da sucessão presidencial.

Graças a toda essa imensa e inesquecível mobilização popular, chegamos, agora, ao limiar da Nova República.

Venho em nome da conciliação.

Não podemos, neste fim de século e de milênio, quando, crescendo em seu poder, o homem cresce em suas ambições e em suas angústias, permanecer divididos dentro de nossas fronteiras.

Se não vemos as outras nações como inimigas, e não as vemos assim, devemos ter a consciência de que o mundo se contrai diante da árdua competição internacional. Acentua-se a luta pelo domínio de mercados, pelo controle de matérias-primas, pela hegemonia política. As ideologias, tão fortes no século passado e na metade do século XX, empalidecem, frente a um novo nacionalismo.

Ao mesmo tempo, fenômeno típico do desenvolvimento industrial e da expansão do capitalismo, surge nova realidade supranacional nas grandes corporações empresariais. Aparentemente desvinculadas de suas pátrias de origem, tais organizações servem, fundamentalmente, a seus interesses.

Brasileiros:
Ao lado da ordem constitucional, que é tarefa prioritária, temos de cuidar da situação econômica. A inflação é a manifestação mais clara da desordem na economia nacional. Iremos enfrentá-la desde o primeiro dia.

Não cairemos no erro grosseiro de recorrer à recessão como instrumento inflacionário. Ao contrário, vamos promover a retomada do crescimento, estimulando o risco empresarial e eliminando, gradativamente, a hipertrofia do egoísmo e da ganância. O ritmo de nossa ação saneadora dependerá unicamente da colaboração que nos prestarem os setores interessados. Contamos, para isso, com o patriotismo de todos.

Retomar o crescimento é criar empregos. Toda a política econômica do meu governo estará subordinada a esse dever social. Enquanto houver, neste País, um só homem sem trabalho, sem pão, sem teto e sem letras, toda prosperidade será falsa.

Cabe acentuar que o desenvolvimento social não pode ser considerado mera decorrência do desenvolvimento econômico. A Nação é essencialmente constituída pelas pessoas que a integram, de modo que cada vida humana vale muito mais do que a elevação de um índice estatístico. Preservá-la constitui, portanto, um dever que transcende a recomendação de caráter econômico, tão declinável quanto a defesa das nossas fronteiras. Nessas condições, temos de reconhecer e admitir, como objetivo básico da segurança nacional, a garantia de alimento, saúde, habitação, educação e transporte para todos os brasileiros.

O bem-estar que pretendemos para a sociedade brasileira deve assentar-se sobre a livre iniciativa e a propriedade privada. Exatamente por isso, adotaremos medidas que venham a democratizar o acesso à propriedade, atitude que não pode ser confundida, como muitos o fazem, com a proteção aos privilégios de forças econômicas e financeiras. Defender a livre iniciativa e a propriedade privada é defendê-las dos monopólios e do latifúndio.

Brasileiros:
O entendimento nacional não exclui o confronto das ideias, a defesa de doutrinas políticas divergentes, a pluralidade de opiniões. Não pretendemos entendimento que signifique capitulação, nem um morno encontro dos antagonistas políticos em região de imobilismo e apatia. O entendimento se faz em torno de razões maiores, as da preservação da integridade e da soberania nacionais.

Dentro dessa ordem de ideias, a conciliação, instruindo o entendimento, deve ser vista como convênio destinado a administrar a transição rumo à nova e duradoura institucionalização do Estado.
Faz algumas semanas, eu anunciava, em Vitória, a construção de uma Nova República. Vejo, nesta fase da vida nacional, a grande oportunidade histórica de nosso povo.

As crises por que temos passado, desde a Independência, podem ser atribuídas às dificuldades normais em um processo de formação de nacionalidade. Hoje, no entanto, encontram-se vencidas as etapas mais duras. Mantivemos a integridade política da Nação, graças à habilidade do Segundo Reinado que soube exercer a tolerância nos momentos certos, evitando que das insurreições liberais vencidas ficassem cicatrizes históricas.
Com a ocupação da Amazônia e do Oeste, concluídas nos últimos decênios, chegamos ao fim da tarefa iniciada pelos bandeirantes e desenvolvida por pioneiros intrépidos e desbravadores audazes, pelo gênio político de Rio Branco e pela bravura nacionalista do marechal Rondon.

Deixamos, há muito, de ser, aos olhos estrangeiros, exótica nação dos trópicos; incluímo-nos entre os países economicamente mais desenvolvidos. Nossa cultura é admirada internacionalmente. Traduzem-se os nossos escritores em todas as línguas; a música brasileira é conhecida e o desempenho de nossos artistas de teatro, de cinema e de televisão recebem o aplauso de espectadores de inúmeros países.

Na pesquisa científica, apesar dos poucos recursos públicos, temos obtido excepcionais resultados. Nossos homens de ciência têm o seu trabalho admirado nos principais centros mundiais.
Brasileiros:

Sabeis que os homens públicos não se fazem de especial natureza. Eles se encontram sujeitos à fragilidade da condição humana. Quando um povo escolhe o chefe de Estado, não elege o mais sábio dos seus compatriotas, e é possível que não eleja o mais virtuoso deles. Tais qualidades, que só o juízo subjetivo consegue atribuir, não podem ser medidas.

Ao nomear, com o seu voto, o presidente da República, a Nação expressa a confiança de que ele saberá conduzi-la na busca do bem comum.

Consciente desta realidade, concito-vos ao grande mutirão nacional. Não há um só de vós que pode ser dispensado desta convocação. A cidadania não é atitude passiva, mas a ação permanente em favor da comunidade.

Faço meu apelo aos homens públicos. A política, tal como a entendemos, é a mais nobre e recompensadora das atividades humanas. Servir ao povo reclama dedicação incansável, noites indormidas, o peso abrasador das emoções. São muitos os que sucumbem em pleno combate, legando-nos o exemplo de seu sacrifício pela Pátria.

“Com o êxtase e o terror de haver sido o escolhido”, como diria Verlaine, entrego-me, hoje, ao serviço da Nação.

Nesta hora de forte exigência interior, recorro à memória de Minas, na inspiração familiar e na fé revelada na paz das igrejas de São João del-Rei. Tantas vezes renovada em minha vida, é a esta memória, com sua inspiração e sua fé, que recorrerei, se a tentação do desalento vier a assaltar-me.

Fui chamado na hora em que se realizava a grande aspiração política de minha vida, que era a honra de administrar o meu Estado, a grande e generosa terra de Minas Gerais, e procurava colocar a sua renascente força política a serviço da causa da Federação, hoje distorcida, esvaziada, humilhada.

Não deixaria ao meio o mandato que o povo mineiro me confiou, para assumir o Supremo Poder da Nação, apenas pelo gosto do poder, que nem sempre é glória ou alegria.

Vim para promover as mudanças, mudanças políticas, mudanças econômicas, mudanças reais, efetivas, corajosas, irreversíveis. Nunca o País dependeu tanto da atividade política. Dirijo-me, pois, a todos vós que a exerceis, aos que serviram ao meu governo com o seu apoio e aos que a ele prestaram a vigilância de opositores. Não aspiro à unanimidade, nem postulo a conciliação subalterna, que se manifesta no aplauso inconsequente do aulicismo. A conciliação se faz em torno de princípios, e ninguém poderá inquinar, na injustiça e na maledicência, os que nos reuniram nesta vitoriosa aliança de forças democráticas.

Quero a conciliação para a defesa da soberania do povo, para a restauração democrática, para o combate à inflação, para que haja trabalho e prosperidade em nossa Pátria. Vamos promover o entendimento entre o povo e o governo, a Nação e o Estado.

Rejeitaria, se houvesse quem a pretendesse, a conciliação entre elites, o ajuste que visasse à continuação dos privilégios, à manutenção da injustiça, ao enriquecimento sobre a fome.

Para a conciliação maior, sem prejuízo dos compromissos de partido e de doutrina, convoco os homens públicos brasileiros e todos os cidadãos de boa-fé. No serviço da Pátria há lugar para todos.

Tenho uma palavra especial para os trabalhadores. É às suas mãos que muito devemos e é em suas mãos que está o futuro do nosso País.

Desde o primeiro passo de minha vida pública, tenho contado com o apoio dos trabalhadores. Elegi-me vereador em São João del-Rei com os votos dos ferroviários e nunca deixei de lhes merecer a confiança política.

Uma Nação evolui na mesma medida em que cresce a sua participação na divisão de renda e na direção dos negócios públicos.

Ao prestar minha homenagem a esses brasileiros, que são a maioria de nosso povo, reafirmo-lhes o compromisso de dedicar todo o meu esforço para que se ampliem e se respeitem os seus direitos.

A reconstrução democrática do País significa o retorno, em toda a liberdade, dos trabalhadores à vida política. Sem seu apoio, nenhum governo poderá cumprir suas tarefas constitucionais.
Brasileiros:

Esta memorável campanha confirmou a ilimitada fé que tenho em nosso povo. Nunca, em nossa história, tivemos tanta gente nas ruas, para reclamar a recuperação dos direitos de cidadania e manifestar seu apoio a um candidato.

Em todo o País foi o mesmo entusiasmo. De Rio Branco a Natal, de Belém a Porto Alegre, as multidões se reuniram, em paz, cantando, para dizer que era preciso mudar, que a Nação, cansada do arbítrio, não admitia mais as manobras que protelassem o retorno das liberdades democráticas.

Não vamos nos dispersar. Continuemos reunidos, como nas praças públicas, com a mesma emoção, a mesma dignidade e a mesma decisão.

Se todos quisermos, dizia-nos, há quase duzentos anos, Tiradentes, aquele herói enlouquecido de esperança, poderemos fazer deste País uma grande Nação.

Vamos fazê-la.

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Fonte: Perfil Parlamentar: Tancredo Neves. Câmara dos Deputados. Centro de Documentação e Informação - Coordenação de Publicações. Brasília, 2001. p. 662-668

Vanessa da Mata - As Rosas não falam - (Cartola)

Carlos Drummond de Andrade – Menino chorando na noite

Na noite lenta e morna, morta noite sem ruído, um menino chora.
O choro atrás da parede, a luz atrás da vidraça
perdem-se na sombra dos passos abafados, das vozes extenuadas.
E no entanto se ouve até o rumor da gota de remédio caindo na colher.

Um menino chora na noite, atrás da parede, atrás da rua,
longe um menino chora, em outra cidade talvez,
talvez em outro mundo.

E vejo a mão que levanta a colher, enquanto a outra sustenta a cabeça
e vejo o fio oleoso que escorre pelo queixo do menino,
escorre pela rua, escorre pela cidade (um fio apenas).
E não há ninguém mais no mundo a não ser esse menino chorando.
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De Sentimento do mundo

domingo, 11 de janeiro de 2015

Opinião do dia – Je suis Charlie

Eu sou Charlie
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Frase adotada em todo mundo após o atentado terrorista ao jornal satírico “Charlie Hebdo”, em Paris que terminou com 12 mortos.

Petrobras gasta R$ 59 bi com empresas paralelas

• Estatal criou rede de empresas para executar obras sem se submeter a fiscalização mais rigorosa

Vinicius Sassine e Eduardo Bresciani – O Globo

BRASÍLIA - A Petrobras criou uma rede de empresas para executar obras de grande porte sem se submeter a fiscalização mais rigorosa de órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU). As chamadas sociedades de propósito específico (SPEs) são um instrumento legal, existente para captação de recursos no mercado por meio de empresas independentes da companhia. Auditoria do TCU, porém, alerta que o modelo adotado pela estatal pode criar precedentes e resultar numa “expansão descontrolada”.

Demonstrações contábeis a partir de 2005 mostram que a Petrobras já constituiu 24 SPEs, com investimentos de pelo menos US$ 21,9 bilhões, ou R$ 59 bilhões — muitos deles para obras como gasodutos, plataformas, refinarias e transporte de óleo. Auditoria sigilosa apontou que em uma das SPEs, para construir a rede de gasodutos Gasene, há indícios de superfaturamento de até 1.800%, como revelou O GLOBO.

Ao lançar mão de uma empresa privada a estatal se vê livre do escrutínio a que é submetido o restante do governo federal. Nos debates sobre a fiscalização dos gastos públicos, a Petrobras costuma argumentar que os seus negócios têm caráter privado e, por isso, não devem ser submetidos ao crivo de órgãos como o TCU e a Controladoria-Geral da União (CGU).

A Petrobras só começou a informar detalhes contábeis das SPEs em 2005, depois que a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), órgão que regula o mercado de capitais, editou uma norma com essa determinação para empresas SAs. Parte desses projetos da estatal foi estruturada no fim da década de 90 e no início dos anos 2000, nos governos de Fernando Henrique Cardoso. A prática prosseguiu nas gestões de Lula e Dilma Rousseff. Cinco SPEs permanecem independentes da estrutura formal da estatal e ainda não foram incorporadas a subsidiárias.

Investigações recentes em parte desses negócios, porém, mostram o total controle por parte da Petrobras e o emprego de recursos públicos nas obras. É o caso da rede de gasodutos Gasene, entre Rio de Janeiro e Bahia, construída a partir da constituição de uma SPE e incorporada por uma subsidiária da estatal — a Transportadora Associada de Gás (TAG) — em janeiro de 2012. O BNDES confirmou ao GLOBO que é a TAG quem paga o financiamento feito para a construção do gasoduto. Os recursos empregados são da ordem de R$ 4,5 bilhões.

A ofensiva da Petrobras sobre o TCU, no caso do Gasene, consistiu em reforçar o caráter privado do negócio. No curso da auditoria que mostrou uma série de irregularidades no empreendimento, o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli afirmou que “os recursos alocados para o investimento são exclusivamente privados, não havendo qualquer participação de recursos da Petrobras.”

O ex-presidente da empresa contratada para fazer o gasoduto, que já admitiu ter sido apenas um “preposto” na função, usou um argumento na mesma direção: “A transportadora não tem de se submeter aos regramentos legais da administração pública, por se tratar de entidade de direito privado”, afirmou, ao ser cobrado sobre a falta de informações sobre os preços usados nas obras. Ele também argumentou ao TCU, em relação à cobrança de explicações sobre um superfaturamento superior a 1.800% em determinados trechos da obra, que não havia a obrigação de apresentar as justificativas previstas na Lei Orçamentária de 2008. Todos os argumentos, até agora, foram rejeitados pela equipe técnica do tribunal.

No documento da Petrobras que subsidiou a decisão de se criar a SPE dos gasodutos, os gerentes de três áreas da estatal argumentam que o modelo é o mais apropriado “em razão das restrições de orçamento de investimentos” e devido às “metas de resultado primário”. A empresa criada tem por objetivo captar recursos para a obra, mas tem todas as garantias da Petrobras para o investimento, inclusive a obrigação de a estatal quitar empréstimos tomados em caso de insucesso no projeto.

Recurso contra fiscalização
Há poucos dias, a Petrobras também recorreu contra a determinação do TCU para que envie documentos básicos sobre a construção do Gasene. O tribunal deu 30 dias, contados a partir de 9 de dezembro, para que a presidente Graça Foster entregasse um detalhamento de cada serviço no trecho entre Cacimbas (ES) e Catu (BA), onde foi detectado o superfaturamento, e a identificação de todos os responsáveis por aprovar as propostas de preços. A estatal contestou, no recurso, o envio da auditoria para a força-tarefa da Operação Lava-Jato no Paraná. Os papéis já estão em poder da Polícia Federal.

A construção de outro gasoduto, o Urucu-Coari-Manaus, no Amazonas, seguiu um modelo muito parecido, com a constituição de uma SPE para investimentos de US$ 1,4 bilhão. O TCU apontou diversas irregularidades nas obras, como dispensas ilegais de licitação, pagamentos adiantados sem a execução dos serviços e falta de detalhamento dos preços. Também faltava autorização da Agência Nacional do Petróleo (ANP) para que a SPE constituída construísse o gasoduto. A autorização havia sido concedida à TAG, subsidiária da Petrobras. Mais uma vez, a defesa recorreu à falta de vínculo entre estatal e empresa privada criada.

No TCU, diversos acórdãos já trataram de obras públicas tocadas por SPEs de estatais. O entendimento prevalecente até agora é de que o tribunal tem atribuição para investigar SPEs ligadas a empresas públicas. Em entrevista ao GLOBO, o novo ministro-chefe da CGU, Valdir Simão, afirmou não ter opinião consolidada a respeito da fiscalização das SPEs:

— Não sei se a gente tem algo aqui na CGU sobre isso. Também não tenho convicção de que SPEs afastam nossa atuação. Na empresa, na SPE, de fato, você pode ter um afastamento. Mas ainda não tenho como emitir opinião sobre isso.

O GLOBO enviou perguntas à Petrobras sobre a estruturação das SPEs e as estratégias para evitar a fiscalização de órgãos de controle. Não houve resposta até a conclusão desta edição.

Empresa da Petrobras no exterior tem sede no paraíso fiscal das Ilhas Cayman

• Por meio da Cayman Cabiúnas Investiment, a Petrobras realizou investimentos de US$ 850 milhões

Um ex-gerente da área financeira da Petrobras disse ao GLOBO que a criação de sociedades de propósito específico (SPEs) tem como objetivo realizar operações longe do alcance de órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU), além da obtenção de benefícios tributários e “artifícios contábeis”.

O executivo disse que o modelo traz benefícios tributários à estatal, que muitas vezes opta por sediar SPEs no exterior para ter uma tributação menor do que teria no Brasil. A segregação do ativo no balanço também influencia na formação dessas empresas, porque isso evita comprometer limites de endividamento da estatal e facilita o acesso ao crédito.

Entre as SPEs da Petrobras no exterior, está uma sediada no paraíso fiscal das Ilhas Cayman. Por meio da Cayman Cabiúnas Investiment, a Petrobras realizou investimentos de US$ 850 milhões. No balanço, o projeto é descrito sendo como para “aumentar a capacidade de escoamento da produção de gás da Bacia de Campos”. Segundo nota enviada pela Petrobras na semana passada, o “Projeto Cabiúnas” teve início em 2000. Só em março de 2010 a estatal exerceu a opção de compra e incorporou a empresa, de acordo com os dados que constam nas demonstrações contábeis.

A Cayman Cabiúnas já chamou a atenção do TCU. Em um relatório de auditoria feito em 2011 sobre as obras da refinaria Duque de Caxias (Reduc), os técnicos estranharam o fato de a empresa ser, no papel, proprietária de ativos dentro da usina. Na ocasião, o tribunal determinou a uma de suas áreas técnicas que fizesse uma fiscalização específica sobre as SPEs no exterior.

“É de indagar-se como tal empresa alienígena tornou-se proprietária de ativos localizados dentro de uma refinaria da Petrobras” e, nas palavras dos gestores, “com uma característica fortemente estratégica, uma vez que objetiva assegurar o abastecimento de gás natural, especialmente térmico, sendo fundamental para a garantia do sistema Elétrico no Sul-Sudeste”.

PT está 'preocupadíssimo', diz empreiteiro

• Em anotações atribuídas a Ricardo Pessoa, da UTC, e divulgadas por 'Veja', executivo questiona rumos da Lava Jato

• Empresário preso pela Polícia Federal afirma que firmas investigadas fizeram doações à campanha de Dilma

- Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A revista "Veja" divulgou na sua edição deste sábado (10) anotações atribuídas ao empreiteiro Ricardo Ribeiro Pessoa, da UTC Engenharia, segundo as quais ele afirmou que Edinho Silva, tesoureiro da campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff, estaria "preocupadíssimo" com os desdobramentos da Operação Lava Jato.

Pessoa está preso em Curitiba (PR) desde novembro, acusado de coordenar o "clube" de empreiteiras que prestam serviços à Petrobras em forma de cartel, de acordo com as investigações.

Segundo as anotações, a preocupação de Edinho estaria vinculada ao fato de que as empreiteiras suspeitas de participar do esquema de desvio de recursos da estatal também fizeram doações à candidata petista.

"Todas as empreiteiras acusadas de esquema criminoso da Operação Lava Jato doaram para campanha de Dilma. Será se (sic) falarão sobre vinculações campanha x obras da Petrobras?", escreveu Pessoa. "Já pensou se há vinculações em algumas delas. O que dirá o nosso procurador-geral. O STF a se pronunciar", completou.

À Folha, Edinho Silva disse não ter "absolutamente nenhuma preocupação" com os desdobramentos das investigações. Segundo ele, a arrecadação foi legal e seguiu normas da Justiça Eleitoral, que aprovou as contas "por unanimidade".

Edinho disse que teve três encontros com Pessoa, entre agosto e setembro passados, para acertar as doações. Segundo ele, não houve referência a obras ou contratos da Petrobras e a UTC não fez repasses apenas ao PT.

No comando do PT, a manifestação do executivo foi interpretada como um recado ao governo de que há disposição para incomodar e, aos empresários, de que há força para tocar os negócios, que estariam sob dificuldades após a operação da Polícia Federal.

O advogado de Pessoa, Alberto Zacharias Toron, disse que as anotações citadas pela revista não passaram pelas suas mãos nem eram de seu conhecimento.

Sem ameaças
Toron afirmou que Ricardo Pessoa não fez ameaças e interpretou os trechos divulgados como "apenas uma reflexão de alguém que está preso e revoltado, injustiçado, enquanto outros acusados com envolvimento em corrupção, como [o ex-diretor de Serviços da Petrobras] Renato Duque, estão soltos".

Toron disse ter dificuldades para comentar sobre os bilhetes porque a revista "publicou apenas trechos". Procurado, o Planalto informou que não iria se manifestar.

PT está ‘preocupadíssimo’, diz empreito preso

• Revista Veja divulga anotações do presidente da UTC, que cita outras operações da Petrobrás e doação eleitoral à candidata a reeleição

- O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba desde 14 de novembro, o presidente da empreiteira UTC, Ricardo Pessoa, afirmou em anotações à mão que as irregularidades na Diretoria de Abastecimento da Petrobrás - da qual foi titular o ex-diretor Paulo Roberto Costa, delator do esquema alvo da Operação Lava Jato - são “fichinha” se levadas em conta outras áreas da estatal. O executivo, apontado como coordenador do cartel que atuou em contratos da petrolífera, também escreveu sobre as doações das empresas à campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff.

As anotações foram divulgadas pela revista Veja, que teve acesso a seis folhas de caderno manuscritas. A publicação confirmou que a caligrafia é de Pessoa por meio de um exame grafotécnico feito pelo perito Ricardo Molina, da Unicamp. OEstado procurou o advogado do executivo, Alberto Toron, mas não obteve retorno, até esta edição ser concluída.

Ao mencionar as doações de campanha, Pessoa escreveu que “as empreiteiras juntas doaram para a campanha de Dilma milhões”. “Já pensou se há vinculações em algumas delas. O que dirá o nosso procurador-geral da República. STF a se pronunciar”, anotou o presidente da UTC.

Segundo a revista, o trecho era antecedido por outro texto no qual Pessoa escreve que, embora parlamentares considerem que doações oficiais de campanha não configuram crime, pode haver delito se for provada relação direta entre a contribuição eleitoral e contratos públicos.

Na delação premiada de Augusto Mendonça, executivo da Toyo Setal, ele havia dito aos investigadores da Lava Jato que o ex-diretor de Serviços Renato Duque pediu doação ao PT como contrapartida aos contratos da empresa com a Petrobrás. Duque nega desvios.

Pessoa menciona também que o tesoureiro da campanha de Dilma, Edinho Silva, está “preocupadíssimo”. “Todas as empreiteiras acusadas de esquema criminoso na Operação Lava Jato doaram para campanha de Dilma. Será se (sic) falarão sobre vinculações campanha x obras da Petrobrás?”

O tesoureiro petista disse que conheceu Pessoa no período eleitoral e que, nas três ocasiões em que estiveram juntos, discutiu doações oficiais. “Acredito que todos os tesoureiros de campanha tiveram contato com ele, porque a empresa era uma grande doadora”, afirmou Edinho.

‘Fichinha’. O presidente da UTC ainda afirma que a diretoria de Costa era “fichinha” se fossem somados outras operações sob suspeita. “O que foi apresentado sobre a área de Abastecimento da Petrobrás é muito pequeno quando se junta tudo a Pasadena, SBM, Angola, esquema argentino, Transpetro, Petroquímica e outras mais. Ah, e o contrato de meio ambiente na Petrobrás Internacional? Se somarmos tudo, Abastecimento é fichinha”, escreveu.

Meio desabafo, meio ameaça

• O empreiteiro apontado como chefe do cartel da Petrobras liga os contratos sob suspeita ao caixa de campanha da presidente Dilma

Rodrigo Rangel – Veja

O engenheiro baiano Ricardo Ribeiro Pessoa entrou para o mundo das empreiteiras há mais de quarenta anos. No começo, como um modesto funcionário. Depois, como dono do próprio negócio. Nada, porém, que o colocasse em posição de destaque no competitivo mercado das construtoras. Foi a partir do primeiro governo Lula que a UTC Engenharia, a principal empresa de Pessoa, experimentou uma ascensão vertiginosa. O empreiteiro considera-se amigo do ex-presidente, com quem conversava regularmente até ser preso, no fim do ano passado, na sétima etapa da Operação Lava-Jato. Junto com ele, a Polícia Federal arrastou para a prisão outros vinte donos e altos executivos das maiores empreiteiras do país. Eles são acusados de integrar um cartel que dividia entre si os contratos bilionários da Petrobras em troca do pagamento de propinas para os políticos que lhes abriam caminho na estatal.

Na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, capital em que correm os processos da Lava-Jato, tem sido dura a rotina dos integrantes do chamado clube do bilhão, que até recentemente cruzavam os céus do país a bordo de jatos particulares. Pedidos de relaxamento de prisão formulados pelos advogados dos empreiteiros têm sido sistematicamente negados. Além da farta documentação que registra o funcionamento do maior esquema de corrupção já descoberto no país, os policiais contam com revelações contundentes feitas por antigos parceiros das empreiteiras que, pilhados, decidiram colaborar com as investigações para tentar diminuir suas penas. É o caso de Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobras que escolhia as empreiteiras e assinava os contratos, e do doleiro Alberto Youssef, que distribuía os dividendos.

Foi a partir das delações premiadas da Operação Lava-Jato que o papel de Ricardo Pessoa no esquema pôde ser esquadrinhado. Segundo as investigações, ele atuava como uma espécie de coordenador do cartel que reunia, ao redor da Petrobras, outros gigantes da empreita, como Camargo Corrêa, Mendes Júnior e OAS. Pessoa contesta o título de chefe do grupo. Ele afirma que apenas facilitava o diálogo entre as várias empreiteiras porque foi presidente da entidade que representa o setor. E o setor está inquieto. Os empreiteiros presos repetem aos visitantes que não estão dispostos a figurar como únicos vilões do megaesquema de corrupção.

Um bom resumo do que vai pela cabeça dos empreiteiros presos está em um manuscrito de seis folhas de caderno obtido por VEJA. Ele foi escrito por Ricardo Pessoa, da UTC. VEJA confirmou a autoria do documento por meio de um exame grafotécnico feito pelo perito Ricardo Molina, da Unicamp. É a primeira manifestação de um integrante do clube do bilhão desde a prisão. O documento contém queixas contra os antigos parceiros de negócios e ameaças veladas a políticos. Em um dos trechos, o empreiteiro liga os contratos sob suspeita assinados entre as empreiteiras e a Petrobras ao caixa de campanha eleitoral da presidente Dilma Rousseff.

Depois de se referir ao fato de que parlamentares estão — erradamente — considerando que as doações oficiais de campanha não configuram delito, ele afirma: "Vale para o Executivo também. As empreiteiras juntas doaram para a campanha de Dilma milhões. Já pensou se há vinculações em algumas delas", questiona. Em tom de desafio, ele pergunta se o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o Supremo Tribunal Federal (STF) aplicarão essa interpretação rigorosa também em relação à presidente, já que tudo indica que essa será a estratégia para incriminar os bagres e lambaris da base aliada do governo beneficiados pelo esquema de corrupção. Nas entrelinhas do manuscrito fica evidente o desconforto dos empreiteiros de estarem sendo, pelo menos até agora, os bodes expiatórios da complexa rede de corrupção armada na Petrobras. Eles têm razão. Nas denúncias oferecidas pelo Ministério Público Federal e aceitas pelo juiz Sergio Moro, o esquema de corrupção na Petrobras parece ser apenas o conluio de empreiteiros gananciosos com meia dúzia de diretores venais da Petrobras. Nada mais longe da verdade. Como Paulo Roberto Costa revelou com toda a clareza, tratava-se de um esquema de desvio de dinheiro para partidos e campanhas políticas organizado pelo partido no poder, o PT. Entende-se, portanto, a insistência de Ricardo Pessoa em lembrar que em sua concepção e funcionamento o esquema na Petrobras era político. As empreiteiras entraram como a solução para o problema de como entregar o dinheiro aos parlamentares e candidatos da base aliada do governo do PT.

Pessoa cita nominalmente o tesoureiro do comitê de Dilma Rousseff, o deputado petista Edinho Silva (SP): "Edinho Silva está preocupadíssimo. Todas as empreiteiras acusadas de esquema criminoso da Operação Lava-Jato doaram para a campanha de Dilma". Arremata com outra pergunta desafiadora, referindo-se ainda ao caixa do comitê eleitoral da presidente: "Será se (sic) falarão sobre vinculação campanha x obras da Petrobras?". O empreiteiro faz chiste com o que já foi descoberto até agora e afirma que o volume de dinheiro desviado na diretoria de Paulo Roberto Costa é "fichinha" perto de outros negócios da Petrobras que também teriam servido à coleta de propina.

Sem negar em nenhum momento as acusações de pagamento de propina em troca de favorecimento nas obras, o homem que as investigações apontam como "chefe do cartel" questiona por que motivo, até agora, só seis das dezesseis empreiteiras foram processadas pelo Ministério Público. E se revela magoado com os delatores do petrolão, antigos parceiros que, pilhados, resolveram contar o que sabem. "Por que somente seis das dezesseis?", indaga. "As outras empresas são santas e os delatores que se apressaram em apontar são santos." Sobre a acusação de cartel, o empreiteiro faz uma observação curiosa: "Quando se fala de cartel da Opep (a Organização dos Países Exportadores de Petróleo), ninguém vê nada de errado com isso. Qual a diferença do cartel da Opep para o cartel das empreiteiras?".

As queixas dirigidas aos antigos parceiros vão se repetindo ao longo das seis páginas de anotações do empreiteiro. Ao se referir ao Judiciário, Pessoa reclama de que "ninguém" está se empenhando o suficiente para que os empreiteiros presos sejam libertad" lembra que o presidente do STF, Ricardo Lewandowski, que encampou teses em favor dos réus no mensalão, agora age de maneira diferente. Lewandowski negou, recentemente, pedidos de relaxamento de prisão feitos pelos advogados dos empreiteiros. "Ele não quiz (sic) meter a mão na cumbuca", diz Pessoa. O tom de ameaça é onipresente: "Os onze presos vivem se perguntando. Estamos aqui por quê? Para delatar, para confessar ou para..." — as reticências são dele. Em mais de uma passagem, o empreiteiro pergunta: "Que que é isso, companheiro?". Ele não esclarece a que companheiro se refere.

"Com blá-blá-blá...

• ...sem bafafá, quem foi malandro é, sempre será", diz um antigo enredo da escola Império Serrano. Lula caiu nesse mesmo samba em 2008 ao dar ordens na Petrobras

Hugo Marques – Veja

Em 2009, quando o presidente Lula já estava decidido a tornar Dilma Rousseff sua sucessora, o governo jogou pesado para abafar uma CPI que investigaria irregularidades na Petrobras. Sob orientação do Planalto, empreiteiras que tinham contratos com a companhia disseram a parlamentares que, se a apuração fosse realizada, as doações para as campanhas de 2010 cairiam drasticamente. A ameaça funcionou. A CPI foi controlada e o PT disputou a eleição sem ter de explicar as falcatruas que já sangravam os cofres da estatal, mas que só foram devidamente mapeadas pela Polícia Federal no ano passado. Entre os alvos da CPI naquele período, estavam os desvios que ocorriam na área de liberação de verbas de patrocínio da empresa. Era um tema aparentemente menor se comparado ao dos orçamentos superfaturados de refinarias e oleodutos, mas, se esquadrinhado, poderia já ter lançado luz sobre o topo da cadeia de comando responsável pelo bafafá em que se meteu a Petrobras. No varejo e no atacado, a farra nos cofres da estatal já era grande — e um caso comezinho descoberto numa investigação interna aponta o gabinete do presidente da República como a origem de, ao menos, parte dessa festa.

O caso, revelado na semana passada pelo jornal Valor Econômico, engrossa a extensa lista de exemplos de como o PT se apoderou sem pudor da máquina pública para fortalecer seu projeto de poder. Em depoimento prestado em uma sindicância interna da estatal, Geovane de Morais, ex-gerente de comunicação da área de abastecimento da Petrobras, contou que partiu do então presidente Lula a determinação de que o departamento liberasse 12 milhões de reais para as escolas de samba do Rio de Janeiro às vésperas do Carnaval de 2008. Apesar de a área técnica da Petrobras ter se manifestado contra o repasse, que violava uma série de normas internas, o caso foi parar na mesa de Paulo Roberto Costa, então diretor da companhia. Chamado carinhosamente por Lula de Paulinho, o hoje delator do petrolão foi taxativo, segundo o ex-gerente: "Olha, o Lula disse que é para patrocinar o Carnaval carioca, que é para dar 1 milhão a cada escola". E assim foi feito. A Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom) reforçou a ordem. "O presidente quer porque quer", afirmou Paulo Roberto, segundo o depoimento de Morais. Lula queria porque queria liberar o dinheiro para satisfazer aliados como o então governador fluminense, Sérgio Cabral — e, segundo o ex-gerente, foi buscar a solução nos generosos cofres da Petrobras. A sindicância concluiu que o pagamento às escolas de samba foi irregular.

A área de Morais era mais um dos tantos sumidouros de dinheiro da Petrobras — e o esforço para atender a ordens como a de Lula resultou, só em 2008, num desfalque de 151 milhões, incluindo pagamentos por serviços nunca prestados. Há outros detalhes sórdidos no depoimento do ex-gerente. Embora ele tenha dado nome e sobrenome de quem estava pressionando a Petrobras a soltar dinheiro fora das normas, dentro da estatal tudo estava ajustado para que a lista de autoridades envolvidas nos desmandos descobertos na área nunca viesse a público. No relatório com a conclusão da sindicância, e também na transcrição do depoimento, o nome de Lula e o de outros políticos foram escandalosamente suprimidos. Se dependesse da Petrobras, tudo ficaria no blá-blá-blá. Só se descobriu que Lula foi citado (várias vezes) no caso das escolas de samba porque agora, quase seis anos depois, vazou a gravação do testemunho de Morais. O ex-funcionário foi demitido. A história ainda pode dar samba... "Pega um leva dois / Alô quem vai / Tô baseado na ideia do papai."

‘Nova República’ chega aos 30

• Nova República’ completa 30 anos na próxima quinta-feira, 15 de janeiro

• Eleição de Tancredo marca transição do país para a democracia, que ainda precisa consolidar direitos e diminuir desigualdades

Tatiana Farah e Thiago Herdy - O Globo

SÃO PAULO - Sorridente, Tancredo Neves ajeita a gravata enquanto o assessor Mauro Salles aguarda com o telefone na mão. Do outro lado da linha, o presidente João Figueiredo. Políticos, seguranças e jornalistas se acotovelam para ouvir o telefonema que marca o fim do regime militar. Era 15 de janeiro de 1985. Tancredo, do PMDB, havia acabado de ser eleito indiretamente presidente da República. Chove forte em Brasília; e o público se abriga sob uma bandeira nacional de 250 metros quadrados nos jardins do Congresso. Outros, mais animados, escalam a cúpula de concreto. É a festa da “Nova República”, termo cunhado pelo próprio Tancredo em seu discurso de vitória, e que completa 30 anos na quinta-feira.

— Que o senhor consiga dar ao povo brasileiro tudo aquilo que ele deseja e merece — diz o general ao presidente eleito, que nunca chegou a tomar posse.

Numa sessão que durou três horas e meia, o Colégio Eleitoral escolheu Tancredo por 480 votos, contra 180 do candidato Paulo Maluf, do PDS. Maluf vê 166 deputados de seu partido votarem no PMDB. Sob gritos de “traidor” por parte dos malufistas, o líder do governo, Nelson Marchezan, abstém-se.

“Transição sem sangue”
Maluf encara a derrota, ignora as vaias e, diante das câmeras, abraça Tancredo. Nas praças das capitais, o público delira com o resultado, que já era esperado. O voto que garante a maioria a Tancredo é o de número 344 e vem do deputado João Cunha, de São Paulo:

— Tenho a honra de dizer que o meu voto enterra a ditadura funesta que infelicitou a minha pátria.

Na bancada do PT, os oito deputados haviam rachado sobre a determinação da legenda de se abster da votação. Dos oito, três se rebelaram, um deles o deputado Ayrton Soares, líder da bancada na Câmara. Ele, Bete Mendes e José Eudes foram expulsos. Aquele voto rebelde custou a Ayrton sua carreira no Congresso. Fundador do PT, passou por diversos partidos, mas nunca mais se elegeu. 

Hoje advogado em São Paulo, diz que não se arrepende e não economiza em elogios ao falar do papel de Tancredo na reconstrução democrática. Para ele, não haveria na política outro nome que fosse capaz de fazer uma “transição sem sangue”.

Eleito, Tancredo mostra em seu discurso como agiu desde a campanha das “Diretas Já”, no ano anterior, para a transição pacífica. Sem alusões aos tempos sombrios do regime militar, Tancredo fala do futuro, de um pacto democrático e da importância da Constituinte que estava por vir. Elogia as Forças Armadas por “sua decisão de se manterem alheias ao processo político”. No discurso, que teria contado com a ajuda do escritor Mauro Santayanna, Tancredo diz também que a vitória era esperada sem surpresas.

— Ele sabia que tinha que fazer transição com os militares, e não contra eles. Se fosse contra, o resultado poderia ter sido outro. Só aceitou assumir a candidatura quando houve a dissidência no PDS, que nos deu a esperança objetiva de ganhar a eleição. Tancredo conhecia o Congresso tanto quanto seu próprio rosto. Ele dava para a gente o mapa da mina e não se poupou nesse trabalho de cooptação pela causa democrática — conta o historiador Ronaldo Costa Couto, que foi ministro do Interior e ministro-chefe do Gabinete Civil da Presidência da República durante o governo Sarney, e era uma figura próxima de Tancredo desde sua gestão à frente do governo de Minas.

Aos 30 anos, a democracia que nasceu naquela eleição indireta tem se consolidado, mas ainda carece de avanços, afirma o cientista político Cláudio Couto, da FGV-SP. Para ele, entre os avanços estão os mecanismos de controle e fiscalização, como Ministério Público e controladorias:

— O país só avançou. Não acho que tenha regredido em nenhum tipo de indicador, sejam sociais ou econômicos. Temos uma democracia que se consolidou, e não se corre risco hoje de uma regressão autoritária. Mas falta avançar em todas essas frentes, como no combate à corrupção e no sistema eleitoral.

O cientista político José Álvaro Moisés (USP) também destaca a importância da reforma política e eleitoral:

— O Brasil é uma democracia. A questão é a qualidade. Há situações muito desiguais, e não se estabeleceu plenamente o império da lei. E há o desequilíbrio, a assimetria nas relações entre o Executivo e o Legislativo, que transforma o presidente brasileiro em um dos mais poderosos do mundo.
Nas ruas. A Cinelândia lotada na comemoração pela eleição de Tancredo

Redemocratização completa três décadas

Edição de 16 de janeiro de 1985 do Estado com a eleição de Tancredo Neves
• Em 15 de janeiro de 1985, eleição de Tancredo no Colégio Eleitoral retorna o poder civil no País e encerra ciclo de 21 anos dos militares

Roldão Arruda - O Estado de S. Paulo

No Congresso Nacional, às 12h25 do dia 15 de janeiro de 1985, quando foi anunciado o resultado da eleição indireta para a Presidência da República, a multidão reunida na Esplanada dos Ministérios festejou. Celebrava-se a eleição do político mineiro Tancredo Neves e, mais do que isso, o fim do ciclo dos governos militares. Após 21 anos, a escolha de um civil para o cargo, mesmo que por meio de eleições indiretas, significava a retomada da supremacia civil nos destinos da República.

Às vésperas do aniversário de 30 anos daquela festa, que ocorre na quinta-feira, o senador Aécio Neves (PSDB-MG), diz que ela marcou o "reencontro do Brasil com a democracia". Ainda segundo o senador, que na época tinha 25 anos e era secretário particular de Tancredo, seu avô, foi o momento culminante da "mais bem-sucedida construção política da história contemporânea"

A candidatura de Tancredo começou a ser tecida após a derrota no Congresso, no dia 24 de abril de 1984, da emenda do deputado Dante de Oliveira (PMDB-GO) que propunha eleições diretas. Político experiente, conhecido sobretudo pela sua capacidade de conciliação, o então governador de Minas iria enfrentar no Colégio Eleitoral o ex-governador de São Paulo e deputado federal Paulo Maluf, do PDS, o partido que dava sustentação política ao regime.

Eleito presidente da República de forma indireta pelo Colégio Eleitoral,o político Tancredo Neves canta o Hino Nacional após a vitória, ao lado do vice, José Sarney e da esposa, Risoleta

Mesmo sem o apoio de parte da oposição, incluindo o PT e setores do PMDB, Tancredo costurou uma ampla aliança. Foi decisivo o surgimento de uma dissidência no PDS, capitaneada pelos ex-governadores José Sarney, do Maranhão, e Aureliano Chaves, de Minas. Em troca desse apoio, Sarney foi escolhido para o cargo de vice.

Tancredo teve 480 votos, contra 180 dados a Maluf, que saiu do plenário sob gritos de "fora corrupto". O mineiro não assumiria, no entanto, a Presidência. Internado na véspera da posse para uma cirurgia, nunca se recuperou. Morreu no dia 21 de abril.

Tancredo apostou na infidelidade partidária para romper barreira

• Político insistia na tese mesmo quando ainda se discutia a possibilidade de eleições diretas para presidente da República

Carlos Eduardo Entini - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Tancredo Neves apostou na infidelidade partidária para romper a barreira do Colégio Eleitoral. O colegiado, feito sob medida para homologar as candidaturas, já havia elegido dois presidentes: Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo.

Era composto pelos membros do Congresso e por delegados escolhidos pelas Assembleias Legislativas. As regras para escolha dos delegados mudavam conforme as conveniências. Em outubro de1984 a lei mudou a proporcionalidade dos delegados. A manobra privilegiou as unidades com menor população e o PDS, partido majoritário. Tancredo insistia na tese da não validade da fidelidade partidária mesmo quando ainda se discutia a possibilidade de eleições diretas.

Em novembro de 1983, ele explicou ao Jornal da Tarde que ela "transforma em autômatos os integrantes de qualquer partido (...) violenta a consciência dos correligionários".

Deixar livre a consciência dos 686 membros do Colégio Eleitoral era a brecha para a vitória. Em novembro de 1984 o TSE decidiu que parlamentares e correligionários não eram obrigados a obedecer as diretrizes partidárias.

A decisão garantiu os votos da Frente Liberal, formado por dissidentes do PDS em Tancredo Neves e os 480 votos que o elegeram.

Políticos de temperamento forte prometem mudança de perfil

• Grupo de parlamentares conhecidos por polêmicas querem fugir de brigas

Fernanda Krakovics e Júnia Gama – O Globo

BRASÍLIA - Políticos veteranos se preparam para assumir repaginados seus mandatos, no dia 1º de fevereiro. Alguns como Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Luizianne Lins (PT-CE), conhecidos por seu temperamento forte, prometem uma atuação mais light nos próximos anos — para o ceticismo de alguns colegas no Congresso.

Outros, como Heráclito Fortes, mudaram de orientação política. Ele concluiu seu mandato de senador pelo Piauí, em 2011, no DEM, partido à direita. Agora, foi eleito deputado federal pelo PSB, legenda socialista. Para ele, no entanto, não haverá diferença:

— Hoje eu converso com as amigas das minhas filhas e não existe mais ideologia. O pessoal vive em cima de computador. Ideologia é saudosismo.

Heráclito ingressou no PSB a convite do então presidente do partido Eduardo Campos, morto num acidente aéreo no ano passado. Na época, Campos disputava a Presidência da República.

— Fui do PMDB das Diretas Já, do Tancredo (Neves). Tive uma passagem pelo PFL (DEM) por problemas localizados, mas era um partido moderno, avançado, era o PFL de Luís Eduardo (Magalhães). Você não me viu metido com corrupção, fisiologismo. Sou político, quero o bem do meu estado — disse Heráclito.

Jarbas Vasconcelos diz estar cansado de brigar
Depois de oito anos isolado no Senado, Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) assume mandato na Câmara cansado de brigar com seu partido e disposto a se integrar na bancada peemedebista. Antes mesmo de assumir o mandato, que começa em 1º de fevereiro, tomou a primeira medida ao apoiar a candidatura do líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), para a presidência da Câmara.

— Tive uma experiência amarga no Senado nesses oito anos. Até retirado da Comissão de Constituição e Justiça eu fui por Renan (Calheiros) e (José) Sarney. Acabei ficando na Comissão de Relações Exteriores, mas nunca relatei um projeto. Quando fui à Câmara encontrei uma unidade muito grande em torno dele (Eduardo Cunha) no seio da bancada. Eu fui sondado para disputar (a presidência da Câmara), mas disse que não estava disposto a ir para lá ditar regras. Não quero cargos, só quero meu espaço, relatar projetos, participar de comissões, ter o horário do partido para falar no plenário.

Ex-prefeita tem ‘pavio curto’
Outra que quer fugir de confusão é a ex-prefeita de Fortaleza Luizianne Lins (PT-CE), conhecida pelo temperamento explosivo. Chegando para seu primeiro mandato de deputada federal, ela está pisando em ovos. Na Câmara, Luizianne quer se dedicar à defesa dos direitos humanos. De pavio curto, Luizianne terá um adversário na própria bancada: José Guimarães (PT-CE).

Único dos senadores da oposição que retorna depois da “limpa” comandada pelo ex-presidente Lula na eleição de 2010, Tasso Jereissati (PSDB-CE) ficou conhecido pela atuação dura contra senadores governistas e pelos embates internos com colegas de partido. Pessoas próximas ao tucano, no entanto, garantem que aos 66 anos ele está mais calmo depois de ter se tornado avô e ficado algum tempo afastado da linha de frente da política. A candidatura de Tasso ao Senado inclusive só ocorreu a pedido do candidato do PSDB à Presidência, senador Aécio Neves (MG), que insistiu para que o ex-governador cearense lhe desse um palanque em um dos principais estados do Nordeste.

A polêmica mais célebre na qual Tasso se envolveu foi um bate-boca com o então líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros, em 2009. O tucano foi chamado de “coronel de merda” e retrucou: definiu o hoje presidente do Senado de “cangaceiro de 3ª categoria”. Acusou Renan de andar em jatos de empreiteiros e gritou para que ele não lhe apontasse “o dedo sujo”.

Em nova ação para desidratar PMDB, Planalto entra na disputa pela Câmara

• Governo federal decide atuar diretamente para eleger o petista Arlindo Chinaglia contra o peemedebista Eduardo Cunha e escala ministros para a missão de convencer os deputados

João Domingos - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O Palácio do Planalto decidiu entrar na eleição para presidente da Câmara com o objetivo de eleger o petista Arlindo Chinaglia (SP) contra o candidato do PMDB, Eduardo Cunha (RJ). Ministros com gabinete no Planalto, como Pepe Vargas (Relações Institucionais) e Miguel Rossetto (Secretaria-Geral), além de Jaques Wagner (Defesa) e Cid Gomes (Educação), vêm procurando parlamentares de todos os partidos para pedir votos em Chinaglia no dia 1º de fevereiro.

O argumento usado é de que é preciso fortalecer os partidos menores, criando blocos que no futuro possam se tornar legendas grandes. É o caso do PSD, que procura aglutinar uma série de siglas para se transformar no Partido Liberal (PL), cujo sonho é alcançar mais de 70 deputados favoráveis ao Planalto, ultrapassando em tamanho tanto o PMDB quanto o PT.

A estratégia do governo traçada para esta eleição repete o modelo de distribuição de cargos de primeiro escalão neste segundo mandato da presidente Dilma Rousseff: diminuir o poder do principal aliado, o PMDB, e pulverizá-lo entre os outros partidos da base, a exemplo do grupo dos ministros Gilberto Kassab (Cidades), do PSD, e Cid Gomes (Educação), do PROS.

Emendas e cargos. Os ministros têm dito aos deputados com os quais conversam que o País vai atravessar um ano difícil e que o melhor seria ter um aliado do Planalto na presidência da Câmara. Em todos os contatos é dito também que um Legislativo sem confrontos torna mais fácil até a liberação do dinheiro das emendas parlamentares, visto que será menor o risco de aprovação por parte da Câmara de projetos que possam comprometer o Orçamento futuro.

Além disso, outro instrumento para influenciar a eleição são os cargos de segundo escalão. Dilma só começará a preencher os principais, como as presidências e diretorias de estatais, autarquias e delegacias regionais, a partir de fevereiro, depois da escolha do nome que vai presidir a Câmara pelos próximos dois anos. Se o vencedor for Chinaglia, como quer o Planalto, será preciso oferecer algo a mais para o PMDB, que tenderá tumultuar a gestão petista no início do semestre.

Por fora da polarização PT/PMDB, corre a única candidatura da oposição: a do líder do PSB na Câmara, deputado Júlio Delgado (MG). Ele tem apoio oficial do PSDB. O mineiro se apresenta como o único independente, pois seu partido não tem nenhuma indicação no governo para ocupação de ministérios ou de estatais. Segundo ele, Chinaglia é candidato "chapa branca" e Eduardo Cunha um "pseudoadversário". Pelos cálculos dos partidários de cada candidato, Cunha hoje teria de 260 a 270 votos, Chinaglia 170 a 180 e Júlio Delgado entre 80 e 100.

O petista afirmou que não é candidato do governo, e que o fato de ser do PT, o mesmo partido da presidente da República, é apenas uma coincidência. Ele chegou a dizer que se o Planalto o ajudar, será derrotado, visto que há um sentimento anti-PT dentro da Câmara. Mas reclamou do fato de Cunha ter, segundo ele, levado para a disputa à Câmara um clima de pós-eleição. Já o líder peemedebista recusa o rótulo de adversário do Planalto: "Não é nem contrária ao Planalto nem a favor. É uma candidatura de independência da Casa".

Citações. O PT avalia que ganhou um trunfo nesta semana com a revelação de que Cunha foi citado pelo doleiro Alberto Youssef como destinatário de recursos do esquema de corrupção na Petrobrás. De acordo com o doleiro, valores em espécie foram pagos a Cunha pelo lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB.

Cunha nega qualquer envolvimento com o esquema e defendeu durante a semana uma nova CPI da estatal no Congresso. O Ministério Público Federal, porém, poderá pedir ao Supremo Tribunal Federal que ele seja investigado.

Então líder do governo na Câmara, Chinaglia foi citado como beneficiário de R$ 40 mil em uma planilha datada de dezembro de 2011 do empreiteiro Olívio Scamati, nas investigações sobre a chamada Máfia do Asfalto. Na época, o petista classificou a denúncia de "vergonhosa mentira" e pediu à Polícia Federal e à Procuradoria-Geral da República que apurassem a citação de seu nome na apuração sobre de fraudes em licitações municipais no interior de São Paulo.

Marta critica Dilma, ataca colegas e afirma: 'Ou o PT muda ou acaba'

• De saída do partido, senadora se diz estarrecida com ‘desmandos’ da atual gestão

Eliane Cantanhêde – O Estado de S. Paulo

Para a senadora Marta Suplicy (SP), que foi deputada, prefeita e duas vezes ministra pelo PT, o partido chegou a uma encruzilhada: “Ou o PT muda, ou acaba”. Em entrevista ao Estado, Marta não assumiu explicitamente, mas deixou evidente que está a um passo de sair do PT: “Cada vez que abro um jornal, mais fico estarrecida com os desmandos. É esse o partido que ajudei a criar?”.

Articuladora assumida do “Volta, Lula” em 2014, ela também deixou suficientemente claro que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em alguns momentos, autorizou os movimentos nesse sentido. Quanto ao governo Dilma: “Os desafios são gigantescos. Se ela não respeitar a independência da equipe econômica, vai ser desastroso para o Brasil”.

A declaração mais irada foi contra o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que ela julga “inimigo do Lula” e “candidatíssimo” a presidente em 2018, mas “vai ter contra si a arrogância e o autoritarismo”. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Por que a senhora articulou o movimento “Volta, Lula”?

Em meados de 2013, os desmandos aconteciam e a economia ia de mal a pior. Foi aí que disse ao Lula: ‘Presidente, está acontecendo uma coisa muito séria. O que o senhor acha que está acontecendo?’ Conversamos a primeira, a segunda, a terceira, a quarta vez... E ele dizia: ‘É verdade, estou conversando com ela, mas não adianta, ela não ouve’. A coisa foi piorando e, um dia, ele disse: ‘Os empresários estão se desgarrando...’. E perguntou se eu podia ajudar e organizei um jantar na minha casa, já no início de 2014, com os 30 PIBs paulistas. Foi do Lázaro Brandão a quem você quiser imaginar. Eles fizeram muitas críticas à política econômica e ao jeito da presidente. E ele não se fez de rogado, entrou nas críticas, disse que era isso mesmo. Naquele jeito do Lula, né? Quando o jantar acabou, todos estavam satisfeitíssimos com ele.

E falaram nele como candidato?

Ninguém falou claramente, mas todo mundo saiu dali com a convicção de que ele era, sim, o candidato.

Ele admitia que queria ser?

Nunca admitiu, mas decepava (sic) ela: ‘Não ouve, não adianta falar.’

Ele estava incomodado com Dilma?

Extremamente incomodado. E isso é que foi levando ele a achar que tinha de ser o candidato e fui percebendo que a ação dele foi mudando. A verdade é que ele nunca disse, mas sempre quis ser candidato e achou que ia ser.

Por isso a senhora trabalhou pela candidatura do Lula?

Sim, providenciando os encontros para ele poder se colocar. Foi quando convidei políticos, artistas para um grande encontro político. Convidei a Dilma, o Mercadante e todos os ministros de São Paulo, avisando que o Lula estaria presente. Todos confirmaram, mas, na véspera, todos cancelaram. E ela, Dilma, também não foi. Nessa época, ainda estava confuso quem seria o candidato. Tinha uma disputa. E, depois, quando ela virou candidatésima, ele não falava mais com ela.

O Lula deixava uma porta aberta?

Quando o Lula escolheu o Fernando Haddad para disputar a Prefeitura, eu avisei a ele que eu ia sair do ministério, porque discordava da política econômica, da condução do País, e ia voltar para o Senado. ‘E vou dizer que o candidato é o senhor. A única que tem coragem de dizer isso publicamente sou eu e vou dizer’. E ele: ‘Não vai, não, de jeito nenhum’. Eu: ‘Por quê?’ Ele: ‘Porque não é hora’. Veja bem, ele não negou, ele disse que não era hora.

Depois, como evoluiu?

Um dia, eu fui direta: ‘Lula, tem de ir pro pau, tem de ter clareza nisso’. E listei pessoas com quem poderia conversar para dizer que ele tinha interesse, que estava disposto. Aí ele disse que não, que não era para falar com ninguém. O que eu ia fazer? Concordei. Só que, quando eu já estava saindo, perto da porta, ele disse: ‘Pode falar com o Rui (Falcão, presidente do PT)’. Dois dias depois, sentei duas horas e meia com o Rui e disse a ele: ‘A situação está muito difícil eleitoralmente para o PT, mas muito difícil para o País. Porque vai ser muito difícil a Dilma conduzir o País de outro jeito, você já conhece o jeito dela’. Mas ele disse que íamos ganhar e que eu estava falando de coisas que eu não entendia.

Acredita que o Lula queria ser (candidato em 2014)?

Ele é um grande estadista, mas não quis enfrentar a Dilma. Pode ser da personalidade dele não ir para um enfrentamento direto, ou porque achou que geraria uma tal disputa que os dois iriam perder.

E quando o próprio Lula encerrou de vez o assunto?

Foi quando ele disse: ‘Marta, acabou. Vamos trabalhar para a Dilma e pronto. Você vai enfiar a camisa e trabalhar de novo’.

E a senhora, nunca pensou em ser candidata?

A quê?

A presidente...

Pensei sim. Quando era neófita, tinha clareza de que poderia ser presidente. Depois, isso caiu por terra, até que um dia o Lula, no avião dele, quando era presidente, me disse: ‘Minha sucessora vai ser uma mulher’. E pensei que ou seria eu, ou Marina (Silva) ou Dilma. Logo vi aquela história de ‘mãe do PAC’ e que era a Dilma. Pensei: ‘O que faço?’ Bom, ou ficava contra e não fazia coisa nenhuma, ou ajudava. Mais uma vez, decidi ajudar. Sempre achei que ia acabar ficando meio de fora das coisas, talvez pela origem, talvez por ser loura de olho azul, não sei.

Como vê o governo Dilma?

Os desafios agora são gigantescos, porque não se engendraram as ações necessárias quando se percebeu o fracasso da política econômica liderada por ela. Em 2013, esse fracasso era mais do que evidente. Era preciso mudar a equipe econômica e o rumo da economia, e sabe por que ela não mudou? Porque isso fortaleceria a candidatura do Lula, o ‘Volta, Lula’.

E a nova equipe econômica?

É experiente, qualificada. Vai depender de a Dilma respeitar a independência da equipe. Se não respeitar, vai ser desastroso. Agora, é preciso ter humildade e a forma de reconhecer os erros a esta altura é deixar a equipe trabalhar. Mas ela não reconheceu na campanha, não reconheceu no discurso de posse. Como que ela pode fazer agora?

Se Dilma não deixar a equipe econômica trabalhar, os ministros Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento) podem correr para o Lula, pedindo apoio?

Você não está entendendo. O Lula está fora, está totalmente fora.

Tudo isso criou uma cisão indelével no PT, entre lulistas e dilmistas, como ficou claro na posse, quando o Lula foi frio com o Mercadante?

O Mercadante é inimigo, o Rui traiu o partido e o projeto do PT, e o partido se acovardou ao recusar um debate sobre quem era melhor para o País, mesmo sabendo as limitações da Dilma. Já no primeiro dia, vimos um ministério cujo critério foi a exclusão de todos que eram próximos do Lula. O Gilberto Carvalho é o mais óbvio.

Qual o efeito disso em 2018?

Mercadante mente quando diz que Lula será o candidato. Ele é candidatíssimo e está operando nessa direção desde a campanha, quando houve um complô dele com Rui e João Santana (marqueteiro de Dilma) para barrar Lula.

Quais as chances de vitória do PT com o Mercadante?

Ele vai ter contra si sua arrogância, seu autoritarismo, sua capacidade de promover trapalhadas. Mas ele já era o homem forte do governo. Logo, todas as trapalhadas que ocorreram antes ocorrem agora e ocorrerão depois terão a digital dele.

Afinal, quais são os desmandos da gestão do Juca Ferreira na Cultura?

Foi uma gestão muito ruim. Enviei para a CGU (Controladoria-Geral da União) tudo sobre desmandos e irregularidades da gestão dele.

O que aconteceu com a Petrobrás?

Para mim, todo o conselho e diretoria deveriam ter sido trocados. Respeito a Graça (Foster), até gosto dela. Não questiono sua seriedade e honradez. Mas, no momento, o mais importante é salvar a Petrobrás.

O PT foi criado com a aura de partido ético. Imaginava que pudesse chegar a esse ponto?

Cada vez que abro um jornal, fico mais estarrecida com os desmandos do que no dia anterior. É esse o partido que ajudei a criar e fundar? Hoje, é um partido que sinto que não tenho mais nada a ver com suas estruturas. É um partido cada vez mais isolado, que luta pela manutenção no poder. E, se for analisar friamente, é um partido no qual estou há muito tempo alijada e cerceada, impossibilitada de disputar e exercer cargos para os quais estou habilitada.

Então, a senhora vai sair do PT.

A decisão não está tomada ainda, mas passei um mês e meio, dois meses, chorando, com uma tristeza profunda, uma decepção enorme, me sentindo uma idiota. Não tomei a decisão nem de sair, nem para qual partido, mas tenho portas abertas e convites de praticamente todos, exceto do PSDB e do DEM.

Para concorrer à Prefeitura?

Não será uma decisão em função de uma possível disputa à Prefeitura, por isso é tão dura. É uma decisão duríssima de quem acreditou tanto, de quem engoliu tanto.

Tem uma gota d’água?

Não, mas na campanha da Dilma e do (Alexandre) Padilha em São Paulo, fui totalmente alijada. Quando Padilha me ligou pedindo para eu gravar, disse: ‘Ô Padilha, entenda. Eu não sou mais objeto utilitário, acabou essa minha função no PT’.

Por que Dilma e Padilha foram tão mal em São Paulo?

Não foi um voto pró-Aécio (Neves), foi um voto anti-PT, pelos desmandos que o PT tem perpetrado nesses anos todos.

O que vai ocorrer com o PT?

Ou o PT muda ou acaba.