terça-feira, 14 de abril de 2015

De março a abril – Editorial / Folha de S. Paulo

• Manifestações perdem força no intervalo de um mês, mas, com reprovação ainda muito alta, governo não se livra da pressão das ruas

Para usar dois termos em voga, a questão terá sido de "timing" e de "foco". A menor adesão às manifestações de domingo (12), comparada ao vasto protesto realizado em 15 de março, não reflete um diagnóstico mais benigno a respeito do governo Dilma Rousseff (PT) por parte da população.

No mesmo em dia em que se registravam 100 mil pessoas na avenida Paulista (metade da multidão do mês passado, mas ainda assim mobilização notável sob qualquer ponto de vista), pesquisa Datafolha mostrava que 60% dos brasileiros reprovam a gestão da presidente, enquanto somente 13% a consideram ótima ou boa.

O fato é que, de março a abril, pouco aconteceu. Se as manifestações anteriores se beneficiaram de longa preparação, o intervalo de um mês entre um grande sucesso e o evento de agora não propiciou avanços de entusiasmo, revolta ou vigor reivindicativo.

O "Fora, Dilma" pode ser entendido como um desabafo antipetista. Traduzido, em termos institucionalmente graves, no lema do impeachment, encontra apoio em 63% da população --note-se que praticamente a mesma proporção ignora que Michel Temer (PMDB) é o vice-presidente do país.

Até agora, nada nas investigações tem incriminado a petista. A figura de Dilma surge quase como metáfora de um estado de corrupção sistêmica que a operação Lava Jato escancara.

Configura-se, portanto, um problema de foco nas manifestações. Se a questão é derrubar a presidente, o fato específico não surge de modo dramático e identificável. Se a questão é outra --a luta contra a corrupção, contra as distorções do esquerdismo--, há muito a fazer.

Paradoxalmente, a conjuntura tem retirado do PT o papel de condutor do país. Nas mãos de Eduardo Cunha, a Câmara dos Deputados assume seu próprio poder.

Bem ou mal, a linha conservadora do peemedebista fluminense significa um aumento de pluralidade e de disputa, num panorama político não faz muito tempo curvado ao triunfalismo petista.

Somem-se a isso os novos poderes adquiridos por Temer, menos afeito ao conflito que seu correligionário audacioso e evangélico.

Tudo se modera, em suma. A pressão das ruas continua, e é bom que seja assim. A pressão das ruas se alivia, e não é ruim que isso aconteça. Oposição não é histeria, e justiça não é tumulto.

Há disciplina nas coisas, diziam os romanos. "Modus in rebus", sentem os brasileiros: na festa da revolta, na expectativa da justiça, no tortuoso jogo do Congresso Nacional. As instituições aprendem; espera-se que isso inclua os Poderes Executivo e Legislativo.

O país, a despeito do pessimismo moral e econômico, não caminha para trás. Dilma Rousseff, Michel Temer e Eduardo Cunha valem o que valem nesse quadro, não radioso, mas desencantado, do real.

O não a Dilma persiste – Editorial / O Estado de S. Paulo

Embora as manifestações do último domingo contra a corrupção e a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff tenham demonstrado, como era previsto, mobilização popular inferior à do evento de 15 de março, 6 em cada 10 brasileiros continuam a repudiar o governo petista e um número maior ainda, 63%, deseja o impeachment da chefe do governo, de acordo com pesquisa Datafolha divulgada no mesmo dia. O teor dessas manifestações de desagrado em relação ao desempenho da presidente, que, como as de março, se estenderam às principais cidades do País, sugere algumas reflexões importantes sobre a crise política em que o País está mergulhado.

A questão do impeachment ganha relevância quando se verifica que dois em cada três brasileiros desejam o "fora Dilma". Uma sociedade democraticamente organizada obedece a princípios definidos no arcabouço legal que disciplina o convívio social. O impeachment do presidente da República está previsto na Constituição, que no art. 85 define os crimes de responsabilidade nos quais pode haver enquadramento. O item V desse artigo, por exemplo, prevê o atentado à "probidade na administração".

Não basta, porém, a vontade da maioria da população para que o presidente da República seja acusado, julgado e condenado a perder o cargo. É necessária uma base legal cuja existência tem de ser aprovada por dois terços da Câmara dos Deputados. O passo seguinte, no caso do crime de responsabilidade, é o julgamento pelo Senado Federal. Condenado, o presidente da República é destituído e assume em seu lugar o vice-presidente. Esse é o procedimento legal, democrático, para o impeachment do presidente da República. A deposição por qualquer outra via é golpe, que a consciência democrática repudia.

Por se tratar, no entanto, de uma medida inquestionavelmente traumática, mesmo que rigorosamente enquadrada nos preceitos e ritos legais, o impeachment do presidente da República exige também, para garantia da estabilidade institucional, claro apoio popular. O que significa que nem sempre a existência de base legal é suficiente para que um processo de impeachment progrida, já que o respaldo popular é complemento indispensável para legitimar de fato a medida.

O apoio popular ao impeachment de Dilma Rousseff existe, por ampla maioria, como comprovam as pesquisas de opinião pública. Mais difícil, embora não impossível, é caracterizar a base legal para levar a presidente da República a julgamento. Para tanto seria necessário, por exemplo, comprovar que ela é responsável, no exercício de suas funções constitucionais, por atentado à "probidade na administração". Não é uma questão que se resolva nas ruas. Como prevê a Constituição, exige que os deputados federais aceitem as provas apresentadas e os senadores levem a presidente a julgamento. Trata-se, portanto, de uma questão eminentemente política.

É aí que deveria entrar a oposição ao governo, no trabalho de levantar e organizar as provas e evidências e de convencer a maioria dos parlamentares nas duas Casas do Congresso de que o afastamento da presidente é uma imposição da realidade política, econômica e social. Seria uma tarefa facilitada tanto pela extrema fragilidade política de um governo sem rumo como pelo apoio que pode ser obtido dos movimentos não partidários envolvidos na organização das manifestações populares contra o governo. A Operação Lava Jato e os julgamentos que dela decorrerem certamente são as fontes mais promissoras das provas de irregularidades e ilegalidades que comprometem, no mínimo por omissão, a cúpula do governo com a pilhagem e o desmonte da maior estatal brasileira.

Dessa perspectiva, faz todo sentido a decisão anunciada por representantes dos vários movimentos responsáveis pela organização dos protestos populares de dar um tempo nas manifestações de rua e concentrar a atenção agora na busca de apoio para suas reivindicações no Congresso Nacional. É esse o caminho, desde que possa haver entendimento entre esses movimentos não partidários e a oposição institucional, como opina em termos mais amplos o historiador José Murilo de Carvalho em entrevista publicada na edição de domingo do Estado.

Sob pressão das ruas, uma chance para negociar – Editorial / O Globo

• Manifestações e índices de reprovação mostram que insatisfação com o modelo petista permanece alta, mas o Planalto precisa tocar agenda do país

O número de manifestantes que voltaram às ruas anteontem, em nova rodada de protestos no Brasil, não é o único termômetro para se medir o clima de insatisfação geral da população com o governo. Com centenas de milhares de pessoas, os atos públicos do fim de semana tiveram adesão inferior à das manifestações de 15 de março, que mobilizaram milhões contra os descaminhos de uma política econômica que imobiliza o país e contra as incessantes denúncias de corrupção envolvendo a base parlamentar governista. Mas, ainda assim, foi uma afluência expressiva. Ademais, é sintomática a frequência de demonstrações de desagrado com a administração pública.

Governo e oposição concordam que a insatisfação não está atenuada. Como continua imutável a paisagem em Brasília em relação aos eventos de 15 de março, nada indica que os que foram às ruas na primeira manifestação, mas não participaram dos atos deste domingo, tenham passado a apoiar Dilma e o projeto do PT. Pelo contrário. A base petista continua acusando o duro golpe da queda de popularidade da presidente, que navega em mar revolto com um índice de reprovação em torno de 60%. Também é forte sintoma de mau humor da população a exdrúxula pressão pelo seu afastamento, refletida em pesquisa que indica o apoio de 63% à abertura de processo de impeachment contra a inquilina do Planalto, mesmo sem causa jurídica.

Mas, se tais indicadores evidenciam que o projeto petista permanece sob forte contestação, as últimas semanas mostraram que o governo aparenta alguma disposição para passar da letargia para ações inadiáveis. O quadro político ainda é nebuloso. As revelações da Lava-Jato avançam cada vez mais na direção da cúpula do PT, cujo tesoureiro, João Vaccari, teve de se explicar na CPI da Petrobras. E os presidentes da Câmara e do Senado, líderes do PMDB, estão sob investigação.

Em meio a esse quadro gelatinoso, a presidente acertou ao entregar a coordenação política do governo ao vice, Michel Temer. Ao defenestrar o PT do comando das negociações com o Congresso, delegando-as ao PMDB, abriu-se uma janela de oportunidade para que situação e oposição conversem, se entendam e negociem acordos básicos para tirar o país do impasse, a partir de uma pauta básica que contemple temas relevantes.

Parte dessa agenda já está no Congresso — à frente o ajuste fiscal, cuja aprovação é essencial para esconjurar o fantasma da paralisia econômica. Da parte do Legislativo, o sinal verde para a aprovação da Lei das Terceirizações é demonstração de que o Congresso quer enfrentar sem hipocrisias o desafio da modernização das relações trabalhistas, um nó que começa a ser desfeito para acabar com o anacrônico engessamento consagrado na legislação. O vácuo político pode desaparecer com entendimentos eentre governo e oposição. Todos ganham.

Vinicius Torres Freire - A Petrobras, de joelhos

• Presidente diz que a empresa está 'de pé' e ações sobem, mas petroleira faz dieta de doente crítico

- Folha de S. Paulo

A presidente deu de discursar, animada, sobre a Petrobras. A empresa estaria "de pé", fez uma limpa, agora é bola para a frente, coisas assim. Até parece.

No entanto, investidores em ações da empresa até parecem concordar com a presidente Dilma Rousseff --apenas parece. Mas algo se move, algo mudou no que diz respeito à estatal petroleira, mesmo que temporariamente. O que houve?

Desde o fundo do poço onde jaziam no final de janeiro, os preços das ações da Petrobras subiram algo mais que 50%. Os papéis da empresa pareciam baratos até em reais. Entraram de vez na xepa, em baciadas, devido à desvalorização do real.

No entanto, a imagem da empresa ainda se arrasta na vala do descrédito. "Imagem", aqui, não reflete abstrações emocionais: trata-se do custo do dinheiro, das taxas de juros que investidores exigiriam para emprestar à empresa, caso a Petrobras tivesse a coragem de dar as caras no mercado. A depender dos prazos dos empréstimos, o nível das taxas de juros subiu de uns 15% até 40%.

Além de baratinhas em dólar, houve motivos de sobra de especulação com ações da Petrobras, em todos os sentidos da palavra, dos melhores aos piores, alguns dos quais ainda merecem investigação da Comissão de Valores Mobiliários (ou, se a CVM os investiga, de publicidade do que foi apurado).

Vaza um dilúvio de notícias importantes a respeito da empresa.

Vaza o nome de um possível presidente do Conselho de Administração; da composição futura do Conselho.

Vaza que a empresa vai vender tal ou qual ativo (empresas do grupo ou participações em negócios gigantescos e complexos como a sociedade na Braskem, com a Odebrecht).

Vaza que a empresa conseguiu enfim a chancela dos órgãos reguladores para um modo de apresentar os prejuízos no balanço. Ontem, depois de fechado o mercado, que passou o dia a especular, a empresa informou oficialmente que sua direção discute no dia 22 o balanço de perdas com as bandalhas da corrupção e dos investimentos lunáticos.

Pode ser até tudo verdade. Caso algumas notícias se confirmem, haveria perspectiva de recuperação da empresa, arruinada pelo endividamento irresponsável e pelos prejuízos, impostos pelas políticas do governo, e pelo esbulho criminoso de seus recursos.

Mas a Petrobras estaria de "pé", pronta para caminhar? Talvez se reerga, mas sendo obrigada a cortar o peso de um braço, de uma orelha (ainda assim, haverá problema de sobra, mas passemos, por hoje).

A Petrobras vai tentar sair do chão vendendo ativos valiosos a preços de liquidação, pois a economia do país e a do setor de petróleo vão mal --a Petrobras vai vender anéis porque tem dívida demais e pouco crédito. Além do mais, terá de fazer dieta de doente grave, cortando investimentos. Especula-se ainda que o governo talvez relaxe a política de "conteúdo nacional" (a reserva de mercado para produtos com certo grau de nacionalização, que elevou os custos da petroleira).

Ou seja, a Petrobras vai ter de fazer uma reestruturação na marra, em um momento ruim, reestruturação que até seria recomendável, mas não desse jeito, não agora, o que será inevitável devido à política ruinosa do governo para a maior empresa do país.

Míriam Leitão - O risco latino

- O Globo

Nos últimos 15 anos, a América Latina foi beneficiada pelo forte crescimento chinês e pela valorização das matérias-primas. Soja, minério de ferro, cobre, petróleo, tudo subiu de preço, aumentando exportações, gerando superávits no balanço de pagamentos e fortalecendo a arrecadação dos governos. Agora, a região terá que se adaptar a um cenário mundial menos favorável.

Pareceu fácil durante muito tempo, porque inverteram-se os termos de troca, como dizem os economistas. O que a região exporta aumentou de preço. O boom das commodities ajudou Venezuela e Colômbia, que exportam petróleo; Brasil, que exporta minério de ferro e alimentos; Argentina, que exporta um pouco de tudo; Chile, que vende cobre. Tudo isso, em grande parte, subiu puxado pelo crescimento chinês. Depois da crise de 2008, as emissões monetárias dos países ricos e o esforço da China para evitar a queda abrupta mantiveram as matérias-primas em alta.

O crescimento chinês, que chegou a 14% no melhor momento, em 2007, está em torno de 7% este ano e deve diminuir nos próximos. Isso significa menor consumo de commodities, principalmente as metálicas, o que é um problema para vários países da região. A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, avisou em entrevista a um jornal peruano que o tempo de vagas gordas acabou e que a hora é de reformas.

O Brasil já está sendo afetado pela forte queda do minério ferro. Somente este ano, há redução de 30% nos preços internacionais da matéria-prima. Em 12 meses, o tombo chega a 60%. Depois de passar de US$ 180 em 2011, a tonelada está sendo negociada na casa de US$ 48. Ontem, o Citigroup escreveu em relatório que os preços podem cair para US$ 30 até 2020. Por esse cenário adverso, a agência de classificação de riscos Standard & Poor"s (S&P) avisou que pode colocar sob revisão negativa o rating da Vale e de outras sete mineradoras pelo mundo.

A S&P revisou de 2,1% para 0,8% a previsão de crescimento do PIB da América Latina este ano. Praticamente todos os países tiveram números reduzidos, desde a estimativa feita há três meses. A Venezuela teve um corte de seis pontos percentuais, de alta de 1% para queda de 5%. A trapalhada política e econômica do governo Nicolás Maduro ficará mais grave com a forte queda do preço do petróleo. O Brasil teve a segunda maior revisão negativa, de 0,8% de alta para retração de 1%, enquanto a Argentina teve um corte de 1% para 0,5%. Esses são os três países latino-americanos com piores perspectivas para 2015.

Mas até as economias que cresceram fortemente nos últimos anos estão sendo afetados pela conjuntura internacional. A Colômbia, que cresceu 4,8% em 2014, deve ter seu ritmo reduzido para 3,5%, segundo a S&P. O principal produto de exportação da Colômbia é o petróleo. O Chile e o Peru reduziram o ritmo no ano passado, com altas de 1,6% e 2,6%, respectivamente, e este ano devem melhorar um pouco, para 2,5% e 3,6%. O México, que tem uma relação mais forte com a economia americana, deve crescer mais em 2015, 3%, do que os de 2,1% de 2014.

O Brasil se tornou um problema, porque é o maior PIB da região e está estagnado. Isso afeta a maioria das economias da área. A ameaça de alta dos juros americanos também torna o crédito mais caro e mais restrito para todos os países. Num efeito circular, a desaceleração na América Latina é também um problema para a indústria brasileira porque a maior parte das nossas exportações de manufaturados tem como destino países do Mercosul, principalmente a Argentina.

O Brasil deveria ter aproveitado o bom momento para estabelecer mais mercados para os mais variados produtos brasileiros. Foram muitos os avisos de que a dependência da China e de alguns produtos estava grande demais. O comércio com os Estados Unidos encolheu. O Brasil não fechou acordos comerciais com nenhum país relevante. E precisa mais do comércio exterior para financiar seu déficit e reduzir a pressão cambial. Os governantes acharam que o ciclo duraria para sempre.

Mesmo estando com todas essas dificuldades, a América do Sul perdeu a oportunidade da reunião de cúpula das Américas. A maior parte do tempo foi gasta por presidentes como Rafael Correa, do Equador, ou Nicolás Maduro, em diatribes ideológicas contra os Estados Unidos. A mesma briga que Cuba encerrava por ser obsoleta.

Celso Ming - O que é isso, companheiro?

• Governo das esquerdas que distribuiu renda e o que conseguiu foi a estagnação da renda nacional por meio de uma sucessão de pibinhos, que agora desembocam na retração da atividade econômica

- O Estado de S. Paulo

Em artigo publicado no Estadão do dia 10, o ex-guerrilheiro e hoje simplesmente jornalista Fernando Gabeira faz importante advertência à esquerda brasileira, que confundiu tudo quando arrebatou o governo ao longo das administrações Lula e Dilma.

Ele conclui seu texto com uma afirmação síntese: “Não há espaço para uma esquerda monocrática que confunde suas ideias com o interesse nacional, que julga aproximar-se do socialismo, mas avança para o colapso econômico”. É outro jeito de convidar as esquerdas para a autocrítica, feita com tanta relutância quando feita ou, para tantos efeitos, ignorada.

As confusões da administração de esquerda ao longo destes três mandatos são enormes e devastadoras.

Tentaram adotar uma política anticíclica, mas produziram um keynesianismo tosco, sem equilíbrio fiscal – como advertiu na semana passada o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Mangabeira Unger. A consequência da que foi chamada Nova Matriz Macroeconômica foram desastres em cascata.

Pretenderam aumentar o emprego com instrumentos de política econômica que desembocaram no esvaziamento sistemático da indústria. Para compensar a falta de competitividade produzida pelo desequilíbrio macroeconômico, inventaram uma política industrial voluntarista e insustentável. Para supostamente reduzir a carga tributária da indústria, baixaram a desoneração dos encargos trabalhistas que o ministro da Fazenda Joaquim Levy chamou de “grosseira” e que aumentou em R$ 20 bilhões as despesas anuais do Tesouro.

A ligação direta entre Tesouro e BNDES sugou R$ 400 bilhões, uma dinheirama cuja destinação e condições permanecem nebulosas. Trata-se de um orçamento paralelo que foge ao controle tanto do Congresso quanto do Tribunal de Contas da União.
Em nome do princípio da economicidade tarifária (preço mais baixo ao consumidor), o governo Dilma desestruturou o setor de energia elétrica, com resultados que obrigaram agora a descarregar tarifaços ao consumidor.

Também para evitar o galope da inflação, as tarifas dos combustíveis permaneceram represadas desde 2010. Com isso, o caixa da Petrobrás foi sangrado em R$ 20 bilhões, prática predatória que asfixiou seu investimento.

A política fiscal da segunda administração Lula e da primeira administração Dilma baseou-se na expansão do consumo sem contrapartida de investimentos e de aumento da produção. Para fingir austeridade, os administradores recorreram a truques contábeis, pedaladas e ocultamento de esqueletos fiscais.

O resultado foi a disparada da inflação. Para evitar estouro ainda maior dos preços, a equipe econômica do governo represou o câmbio e achatou cerca de 25% dos preços da cesta de consumo. Agora a nova administração foi obrigada a conceder reajustes realistas de preços que puxaram a inflação para perto dos 9% em 12 meses.

Em vez de concentrar esforços e recursos para melhorar as condições de vida da sociedade, com melhora da educação, da saúde e dos transportes, o governo das esquerdas optou por propiciar o paraíso para a classe operária com subsídios a compras de bens de consumo, como veículos e aparelhos domésticos.

Alardearam que distribuiriam renda e o que conseguiram foi a estagnação da renda nacional por meio de uma sucessão de pibinhos, que agora desembocam na retração da atividade econômica.

Afinal, o que é isso, companheiro?

Yoshiaki Nakano – Desafios de crescimento no longo prazo

• É preciso distribuir competências para aproximar o Estado do mercado e dos empresários

- Valor Econômico

Para acessá-la basta clicar no link abaixo:

Nelson Paes Leme - Parlamentarismo já!

• Agora temos o ‘gabinete do PMDB’ completo em substituição ao ‘gabinete do PT’

- O Globo

Há uma dinâmica permanente na vida das coletividades, obviamente refletida na vida dos indivíduos, decorrente da própria dinâmica do universo. Essa dinâmica social é a responsável pela mudança sistemática e contínua nos destinos das coletividades e das individualidades. Mudar permanentemente é nosso destino cósmico. Afinal, somos todos parte desse grande todo universal harmônico, muito anterior às nossas ideias. O holos grego que inspirou Hegel, no Ocidente, ou o Tao que inspira o comportamento das coletividades e dos indivíduos, ainda hoje, nas grandes civilizações do Oriente, são dados claríssimos dessa preponderância do todo sobre as partes e do geral sobre o particular nessa dinâmica eterna.

Na política e na economia, portanto, não haveria de ser diferente. Assim, em economia política, trata-se de erro primário não separar o todo das partes ou as causas das consequências para mudar ou reformar. Ou ainda, a estrutura da conjuntura. As causas e a estrutura fazem parte da visão global, taoísta, holista e hegeliana. As consequências e a conjuntura é que podem ser objeto de visão mais particularizada, embora cartesiana e reducionista. Mas se a estrutura está contaminada, dificilmente a conjuntura adversa será controlada. Ou, numa linguagem mais direta e simples: se o todo está podre, obviamente suas partes também estarão deterioradas. E a mudança da conjuntura há de se dar através de corajosas mudanças nas estruturas. As coletividades se movem, assim, como esse todo harmônico, independentemente do comportamento individual.

Basta a observação da movimentação simultânea e imediata de um cardume ou de um bando de pássaros em formação geométrica e instantânea, sem qualquer comando aparente senão a determinante coletiva, para entendermos ser essa submissão do individual ao coletivo nas demais espécies tão emblemática quanto as grandes migrações, guerras, movimentações demográficas e movimentos políticos de massa, no caso humano. As cidades, os estados soberanos e os organismos multilaterais hodiernos, independentemente da administração individual de gestores mais ou menos capazes, líderes políticos, diplomatas ou legisladores, dispõem de autonomia própria grupal ou colegiada precedente e inconsciente. A democracia, nesse sentido, é uma ferramenta organizacional para esse retorno racional e reverente às origens mais remotas da vida biológica e grupal organizada.

Dentro dessa linha de raciocínio científico o parlamentarismo, por se tratar de governo de colegiado, ou coletivo, está muito mais próximo da democracia efetiva e da própria organização racional da sociedade, desde os primórdios da vida política, com os hititas da Anatólia, dois mil anos a.C., ou com o Parlamento de Cromwell muitos séculos mais tarde como contrapeso ao absolutismo inglês. É uma evolução do indivíduo como ser coletivo e plural, do ponto de vista histórico e científico. O sistema presidencialista brasileiro de cooptação (ou coalizão, segundo o cientista político Sérgio Abranches) está esgotado por ser um retrocesso histórico perverso. A Nova República presidencialista de reeleição também faliu. 

A saída democrática e realista está exclusivamente nas mãos do poder constituinte e da iniciativa popular das massas cada vez mais perigosamente inconformadas no Brasil. Os superpoderes hoje atribuídos ao Executivo e o calamitoso estado de coisas em que nos encontramos, fruto da teimosia quase doentia e incorrigível de sua ocupante, agravam-se por dois dados históricos singelos, mas maquiavelicamente absurdos. O primeiro foi termos retrocedido, através de plebiscito induzido por gigantesca publicidade à época, em 1962, ao atraso do presidencialismo, quando já tínhamos galgado ao estágio superior do parlamentarismo, tendo tido os nomes de Tancredo Neves, Hermes Lima e Brochado da Rocha como primeiros -ministros. Deu no Golpe de 64. O segundo erro foi a emenda parlamentarista de 1993, por decorrência de ditame constitucional de 1988, ter sido colocada novamente em plebiscito junto com a opção pela monarquia. Claro que não passaria. O resultado desses dois movimentos aí está: um presidente deposto por golpe militar, outro morrendo antes de assumir e deixando um vácuo de legitimidade nas mãos de um vice egresso do autoritarismo. Outro deposto nas ruas com um processo de impeachment.

E a atual, desmoralizada, com o povo pedindo a renúncia ou, novamente, o impeachment. Ou agimos com vigor no sentido da mudança estrutural ou seremos eternamente vítimas das situações conjunturais como a que estamos suportando. Em vez de impeachment, portanto, parlamentarismo.

Será que precisaremos de um novo Raul Pilla para solução tão óbvia? Já vivemos um parlamentarismo “de facto”, principalmente depois da transferência da Secretaria de Relações Institucionais com o Parlamento para o âmbito da Vice-Presidência da República, ele mesmo um egresso desse mesmo Parlamento. Agora temos o “gabinete do PMDB” completo em substituição ao “gabinete do PT”. Por que não oficializá-lo de uma vez? Parlamentarismo já!

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Nelson Paes Leme é cientista político

Arnaldo Jabor - A forma das coisas invisíveis

• Picasso me dá vontade de viver! Pintava a vida, comidas, amores

- O Globo

Tirei férias e fui correndo para Paris. Essa vida de comentarista pode envenenar a alma. Além dos processos que tenho enfrentado, minha profissão é prestar atenção nos “malfeitos” políticos, eufemismo do governo para roubalheiras e cinismo. É como trabalhar no Instituto Butantan — um dia a cobra te morde. Por isso, de repente começa a pintar a depressão não apenas pelas coisas que acontecem no país, mas, pior, pelas coisas que “não” acontecem. Vejam nos jornais como as notícias são sobre fracassos: a meta não atingida, a obra inacabada, a lei que não pegou, o assassino que foi solto; em suma, nosso problema principal é a paralisia secular, descrita uma vez por Mário Henrique Simonsen brilhantemente: “O Brasil é um país sob anestesia, mas sem cirurgia”. E a ideologia do partido no Poder é manter essa paralisia em nome do Estado e de seus comedores. É deprimente o que o Brasil “não” faz.

Por isso, saí de ferias, em busca de um pouco de beleza e civilização. E fui direto para o Museu Picasso. Na saída, extasiado, tive a certeza súbita: “Picasso me dá vontade de viver!” É isso mesmo. Ele não tinha uma “mensagem” para passar ao mundo ou besteiras assim. Ele pintava a própria mudança, seu viver, suas comidas e seus amores, até os maravilhosos quadros de velhos apalhaçados e de mosqueteiros loucos nos últimos meses de seus 92 anos. Picasso pintava a forma das coisas desconhecidas, como escreveu Herbert Read: “The form of things unknown”.

Picasso mudou o olho humano. Cézanne já tinha pintado a geometria da natureza, declarando: “Eu sou a consciência da paisagem que se pensa em mim”. Cézanne recortou o espaço, e Van Gogh pintou o tempo. Olhem um Van Gogh e vejam o tempo passando sobre as coisas. Nada para em Van Gogh: a igreja se move, os lilases ventam, a matéria fervilha em cada pincelada, as cadeiras, as camas; parece que vemos os átomos girando, os girassóis rodando, vemos a morte passando no rosto do doutor Gachet.

Depois, Picasso chega e pinta os dois: o espaço-tempo. Uma de suas viúvas disse que Picasso não podia ficar com a mão parada. Mexia em tudo: de um peixe comido ele tirava a espinha e fazia uma cerâmica, de um selim de bicicleta ele esculpia uma cara de boi, o regador em um homem, um automóvel em macaco, um beijo na praia — virava mulher em flor e flor em mulher.

Fez milhares de quadros, além de esculturas, tudo. No museu, vemos que ele se recusava a ser “importante”, a ser “metafísico”, a ser um pintor “acima” da vida. Em sua arte, há uma permanente luz até de caricatura. Picasso é um pintor popular. Por isso, as filas se formam para ver seus quadros. Picasso era um rude espanhol, um torcedor de futebol, um comedor de mulheres, um sacana aficionado por touradas e que não queria humilhar ninguém. Picasso era um espantoso retratista da realidade, só que a “realidade” para ele não era essa série de arestas e volumes verossímeis, pousados no horizonte da perspectiva — a realidade era transiente, mutante, incessante. Por outro lado, Picasso nunca acreditou na babaquice do abstracionismo metafisico, que busca uma “essência” de algo finalmente flagrado, “para longe”, “mais além” da aparência suja do mundo. Os grandes artistas almejam a realidade, pois, como disse Woody Allen, “ninguém sabe o que é a realidade, mas ainda é o único lugar onde se come um bom bife”.

Picasso sempre amou justamente essa face “suja” do mundo; sempre viveu em busca da figura, sim, da figura, mas que, para ele, era muito mais complexa que as chatas realidades que o burguês chama de “naturais”. Para ele, nada existia além do olho que, esse sim, pode ser ampliado como um telescópio ou caleidoscópio, se não estiver domesticado por ideologias ou narcisismo de “gênios”. Picasso nunca precisou do Dada ou do surrealismo para sair “fora” da aparência. Picasso não deformava nada, como costumam dizer — seu olho negro profundo que nos fita sem parar parece dizer: “Eu vejo todos os lados das caras, dos corpos, eu vejo as figuras dentro das outras, eu vejo o espaço entre as pessoas, as linhas invisíveis que as ligam, os vazios dentro delas, eu vejo também o ridículo da beleza como algo ‘sublime’ a se chegar. Não há nada a se atingir, por isso a minha frase ‘Não procuro; acho’ é tão mal interpretada. Ela não quer dizer que eu tenho talento milagreiro ou algo assim. Não. Essa frase quer dizer que eu não sei, antes, para onde estou indo; eu só chego ao quadro ao final”. Raramente sabe o que fazer a priori; por isso, Picasso era um grafiteiro. Não buscava “auras”. Seus quadros são até mal acabados, nas coxas. Não foi por acaso que Jean-Michel Basquiat, o gênio-pichador, comprou um Picasso com o primeiro milhão que ganhou. Basquiat também, do fundo do desespero em que viveu quando era um mendigo desconhecido, nunca desprezou a vida, com seus quadros espantosos e sofridos. Picasso nunca teve a romântica amarelidão do sofrimento em busca do “sentido” ou do “belo”.

Pintava a própria experiência, felicíssimo, de bermudas, comendo, trepando e fumando, nunca acreditou que o “artista só é grande se sofrer”.

Nós não vemos Picasso; ele é que nos vê. Por isso, faz tanto sucesso. Ele nos explica. Ele é uma lição de sabedoria para a arte contemporânea, frequentemente caída nas agruras de uma distopia “bodeada”, que faz do futuro um cemitério deprimente. Como Picasso mostrou, a “obra de arte deve ser exaltante”, frase de Stravinsky que ele provou em sua obra. Apesar disso saí do museu, em meu vício, pensando no PMDB e PT, porém com mais vontade de viver.

Gal Costa - Vapor Barato

João Cabral de Melo Neto - A palo seco

(Trechos)

Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;
se diz a palo seco
a esse canto despido
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino

O cante a palo seco
é cantar num deserto
é o cante mais só:
devassado de sol;
é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.

O cante a palo seco
é um cante desarmado:
só a lâmina da voz
sem a arma do braço;
que o cante a palo seco
sem o tempero ou ajuda
tem de abrir o silêncio
com sua chama nua

A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos
desenho de arquiteto,
as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.

Eis uns poucos exemplos
de ser a palo seco,
dos quais se retirar
higiene ou conselho:
não o de aceitar o seco
por resignadamente,
mas de empregar o seco
porque é mais contundente.

Quaderna (1959), João Cabral de Melo

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Opinião do dia – Roberto Freire

Acho que há, também, uma melhor avaliação do papel que o PMDB possa vir a desempenhar se estiver independente ou se se aliar à oposição, mesmo com a nomeação do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP) para a coordenação política do governo.

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Roberto Freire é deputado federal (SP) e presidente nacional do PPS

Nova onda de protestos contra Dilma se espalham por 24 Estados e DF

• Números foram inferiores aos cerca de 1,9 milhão de pessoas que foram às ruas no dia 15 de março; maior concentração ocorreu na Avenida Paulista

O Estado de S. Paulo

Em nova onda de protestos contra o governo federal em um mês, cerca de 640 mil pessoas, segundo a Polícia Militar foram as ruas em 24 Estados e no Distrito Federal. A maior concentração ocorreu na capital paulista, onde a PM registrou 275 mil pessoas na Avenida Paulista, número bem inferior ao divulgado no dia 15 de março, quando a PM registrou mais de 1 milhão de pessoas. Segundo o Instituto Datafolha, a manifestação registrou 100 mil pessoas, também inferior aos 210 mil registrados no dia 15 de março.

Organizado pelos movimentos "Vem Pra Rua", "Revoltados Online" e "Movimento Brasil Livre", os atos estavam previstos para ocorrer em 400 cidades, mas segundo levantamento do Estado ocorreram em 152 municípios pelo País.

Em Brasília, a manifestação começou às 9h30 e a principal bandeira era de críticas contra o governo da presidente Dilma Rousseff e do partido dela, o PT. Algumas faixas elogiavam o papel da Polícia Federal nas investigações da Operação Lava Jato, que apura esquema de corrupção na Petrobras. Os organizadores terminaram a manifestação com a palavra de ordem: "Dilma vá para Cuba"

Em Belo Horizonte, o ato começou na Praça da Liberdade, às 10 horas, e seguiu para a Praça da Estação, no centro da cidade. Conforme a Polícia Militar, na praça da Estação, o pico de pessoas presentes chegou a 6 mil, um pouco a mais do que no local de concentração, que foi estimado em 5 mil. Lideranças dos movimentos organizadores, porém, contabilizaram 20 mil pessoas na Praça da Estação e umas 15 mil na Praça da Liberdade. Mesmo com números diferentes, eles estão bem distantes do ato do dia 15 de março, quando, segundo a PM, 24 mil pessoas participaram. Havia a expectativa da presença do senador e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, o que não ocorreu.

Divisão. No Rio de Janeiro, o ato pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), em Copacabana (zona sul), foi menor do que aquele promovido em 15 de março, especialmente em razão de uma cisão entre os grupos organizadores, que trocaram acusações e defendem soluções diferentes para a crise política brasileira. Cada qual com seu carro de som, eles ocuparam uma pista da avenida Atlântica ao longo de um quilômetro, entre os postos 5 e 6.

Os grupos Vem pra Rua e Revoltados On Line iniciaram seus atos às 11h, enquanto os grupos União Contra a Corrupção (UCC), Movimento Brasil Livre, Extermínio e O Pesadelo dos Políticos, que dividiram o terceiro carro de som, partiram às 14 horas. O grupo Vem Pra Rua, que estimou em 100 mil o público de março, desta vez calculou ter atraído 110 mil, mas o ato foi visivelmente menor. A PM não calculou o público.

O principal motivo para a cisão entre os grupos é uma troca de acusações sobre financiamento por partidos políticos. O Vem pra Rua é acusado pelos demais de ser bancado pelo PSDB, mas nega. "Não recebemos dinheiro de nenhum partido, justamente para poder criticar. Isso só divide os movimentos", diz a dentista Rizzia Arrieiro, porta-voz do Vem pra Rua.

Novos protestos contra governo têm adesão menor

• PM calcula 700 mil nas manifestações. Organização fala em 1,5 milhão

• Mobilização chegou a 252 cidades de 24 estados e do Distrito Federal, mas ficou aquém da que reuniu 2 milhões de pessoas em 15 de março

Pela segunda vez em menos de um mês, brasileiros saíram às ruas de todo o país para protestar contra a presidente Dilma Rousseff e contra os escândalos de corrupção. Desta vez, as manifestações tiveram adesão menor e mobilizaram cerca de 700 mil pessoas, de acordo com a Polícia Militar, contra 2 milhões que foram às ruas em 15 de março. Mas os organizadores dos protestos comemoraram o aumento de 147 para 252 no número de cidades que fizeram atos, o que, para eles, indica uma disseminação do sentimento de insatisfação com o governo. Como em 15 de março, os políticos de oposição preferiram não participar, e foram criticados pelos organizadores. Muitos manifestantes pediram o impeachment de Dilma e pequenos grupos voltaram a pedir intervenção militar. Desta vez, o governo não deu entrevistas para comentar a mobilização, mas a presidente usou uma página nas redes sociais, administrada pelo PT, para afirmar que o combate à corrupção é uma "ação permanente da sua gestão".

Menos pessoas, mais cidades

  • Menores que as de 15 de março, manifestações reuniram 700 mil em 218 municípios

Cássio Bruno, Letícia Fernandes, Lauro Neto, Renato Onofre, Sérgio Roxo, André de Souza, Renata Mariz e Washington Luiz - O Globo

RIO, SÃO PAULO E BRASLIA- Menos de um mês após as grandes manifestações de 15 de março, os brasileiros voltaram às ruas ontem em 24 estados e no Distrito Federal para protestar contra a presidente Dilma Rousseff e contra os escândalos de corrupção no país. Desta vez, os protestos foram menores e mobilizaram cerca de 700 mil pessoas, contra as 2 milhões que foram às ruas mês passado. Mas o número de cidades com atos aumentou de 147 para 218, indicando que as demonstrações de insatisfação com o governo estão mais pulverizadas.

Como em 15 de março, os atos tiveram como mote central as críticas ao governo Dilma. Muitos manifestantes pediram o impeachment da presidente, inclusive em faixas e cartazes, mas esta não era a reivindicação de todos os que estavam nas ruas. O PT e o governo foram responsabilizados por escândalos de corrupção como o revelado pela Operação Lava-Jato. Pequenos grupos pediram a intervenção militar, e houve outros protestos pelos motivos mais variados.

Assim como em março, os políticos ficaram em segundo plano ontem. Nenhum deles se arriscou a discursar em cima de carro de som. Os poucos que foram, como o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) e o deputado federal Paulo Pereira da Silva, o Paulinho da Força (SD-SP), ficaram no chão. Os maiores líderes da oposição acompanharam tudo de casa.

Desta vez, o governo não se pronunciou. Mas, no Facebook, em perfil de Dilma administrado pelo PT, a presidente afirmou: "A guerra contra a corrupção deve ser, simultaneamente, uma tarefa de todas as instituições, uma ação permanente do governo e também um momento de reflexão da sociedade de afirmação de valores éticos".

Em SP, o protesto reuniu 275 mil pessoas na Avenida Paulista, segundo a PM. O número ficou bem abaixo daquele do ato do dia 15, quando um milhão de pessoas esteve na rua, também segundo a PM. Embora com adesão menor, os organizadores dos grupos Vem Pra Rua e Brasil Livre, que estimaram o público em 800 mil pessoas, comemoravam a pulverização do movimento pelo país.

— O nosso objetivo era mesmo ter número maior de cidades. E chegamos ao triplo (em relação ao dia 15). É mais importante para a gente estar em mais cidades do que ter um grupo grande, mas localizado — afirmou Kim Kataguari, um dos líderes do Movimento Brasil Livre (MBL).

Ontem, novamente, a bandeira e os gritos de "fora, Dilma" e "fora, PT" dominaram o ato na capital paulista. A manifestação foi pacífica. Segundo a PM, apenas uma mulher foi detida por tirar a roupa. Chamou a atenção uma enorme bandeira verde e amarela com a palavra "impeachment" em preto, estendida na Avenida Paulista.

Em minoria, grupos que defendem intervenção militar no país também marcaram presença. Paralelamente ao ato da Paulista, um grupo de caminhoneiros que protestava contra o governo Dilma percorreu ruas da capital paulista. O Solidariedade, partido de Paulinho, foi a única legenda a levar bandeiras para a avenida e recolheu assinaturas em favor do impeachment.

Sobrou até para políticos de oposição no protesto na Avenida Paulista. Kim Kataguiri, do MBL, disse no carro de som que o PSDB faz uma oposição passiva. Outro coordenador do grupo, Renan Santos, foi ainda mais incisivo:

— Vamos ter de perder tempo para construir uma oposição. Ninguém está aqui para fazer fotografia. Estamos aqui para derrubar a presidente.

Havia dois carros de som pedindo intervenção militar. Num deles, os oradores vestiam roupas de camuflagem. Um deles usava capacete de combate. O veículo tocava uma paródia da música "Pra não dizer que não falei das flores", de Geraldo Vandré. Noutro carro, com faixas em inglês, um orador falava em inglês e era traduzido por um jovem.

No Rio, vestidos de verde-amarelo e com faixas pedindo o impeachment de Dilma e, em menor número, a intervenção militar, milhares de pessoas ocuparam a orla de Copacabana. A PM, que colocou na rua cerca de 800 policiais, recusou-se a dar estimativa oficial de público, mas o comando do Batalhão de Grandes Eventos da PM disse de manhã ao site G1 que cerca de 10 mil pessoas estiveram no ato. Já os organizadores divergiram: para Maria Fernanda Gomes, coordenadora municipal do Movimento Brasil Livre, a estimativa ficou em 20 mil, mas Rizzia Arrieiro, porta-voz do Vem Pra Rua, falou em 110 mil participantes.

Por três horas, manifestantes cantaram o Hino Nacional, puxado por dois carros de som. Uma das críticas nos cartazes era ao presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Dias Toffoli. Ele vai se transferir para a Segunda Turma do STF, onde deve presidir e julgar parte dos inquéritos da Operação Lava-Jato. Toffoli foi advogado do PT e indicado ao STF pelo ex-presidente Lula. Aliado de Dilma, o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), também foi alvo do ato. Houve vaias ao ex-presidente e aplausos ao juiz Sérgio Moro e à PM.
O humorista Marcelo Madureira fez um discurso pedindo a saída de Dilma e a prisão de Lula, e chamou o PT de "câncer do Brasil". Já dom João de Orleans e Bragança, da família real brasileira, também no protesto do Rio, disse ser contra o impeachment.

O ato foi pacífico na maior parte do tempo, mas houve casos isolados de confusão. Em três momentos, a PM interveio para que pessoas contrárias ao protesto não fossem agredidas. Um homem chegou a sair escoltado por policiais após provocar os manifestantes. Em Niterói, pelo menos 600 pessoas participaram de protesto pacífico contra o governo.

Em Brasília, cerca de 25 mil manifestantes, segundo a PM, saíram pela Esplanada dos Ministérios. Os organizadores estimaram em 70 mil a 80 mil pessoas. Muitos pediam que os militares tirassem Dilma do poder, mas negavam apoiar uma ditadura, defendendo uma "intervenção militar constitucional".

Mesmo com número menor no ato de ontem, o representante do MBL, Paulo Pagini, considera que a marcha mobilizará o governo:

— Foi um sucesso, acho que eles (os políticos) ouviram agora. Estamos pedindo a moralização. Mudar a política, mudar a situação de reeleição.

Quando volume considerável de manifestantes se concentrou na Esplanada, um militante ao microfone, em um dos cinco carros de som do ato, atribuiu a participação à ajuda divina, dizendo que "mais cedo tinha pouca gente, Deus pôs um dedo e encheu". Em seguida, ele puxou um Pai-Nosso. A maioria dos manifestantes próximos ao carro de som acompanhou a oração de mãos dadas.

A área do Congresso, ponto final do ato, foi cercada por cordões de isolamento atrás do espelho d"água. Mesmo assim, um grupo conseguiu entrar no espelho d"água com a bandeira do Brasil. Os prédios do Itamaraty e do Ministério da Justiça também foram protegidos. No fim da manhã, duas pessoas foram detidas: uma portava um facão quando se envolveu numa briga de trânsito, nas imediações do ato; a outra tinha sinais de embriaguez.

Em duas capitais — Fortaleza e Campo Grande — o número de manifestantes aumentou ontem em comparação com 15 de março.

Grupos antigoverno exibem menos força na volta às ruas


  • Manifestações atraem milhares nas principais cidades * Adesão foi maior em março * Líderes pressionam oposição

Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Grupos de oposição ao governo voltaram às ruas neste domingo (12) para protestar contra a corrupção na política, a presidente Dilma Rousseff e o PT. As manifestações atraíram milhares de pessoas nas principais cidades do país, mas tiveram alcance menor que os protestos do dia 15 de março.

A maior concentração foi registrada mais uma vez em São Paulo. Cem mil pessoas foram à avenida Paulista, segundo cálculos feitos pelo Datafolha. O número representa metade do público reunido pela manifestação de março, quando 210 mil pessoas foram à Paulista, segundo o instituto.

Houve protestos em pelo menos 111 cidades, incluindo as capitais de 24 Estados e Brasília. As manifestações foram organizadas por vários grupos nas redes sociais. Estimativas da Polícia Militar e de organizadores, com critérios menos confiáveis que os do Datafolha, sugerem que as manifestações atraíram 275 mil pessoas em São Paulo e cerca de 268 mil nas outras capitais.

Segundo o Datafolha, a principal motivação das pessoas que foram à avenida Paulista neste domingo foi a indignação com a corrupção, apontada por 33% dos manifestantes. O impeachment de Dilma, principal bandeira dos grupos que organizaram o protesto, tinha o apoio de 77%, mas apenas 13% o citaram como motivo para ir à rua.

Impedidos de falar nas manifestações de março, os políticos mantiveram distância desta vez. Líderes dos grupos à frente do protesto cobraram dos partidos de oposição empenho pelo impeachment de Dilma. O governo reconheceu que o descontentamento da população é grande, mas expressou alívio com a menor adesão aos protestos.

Irritação com corrupção foi motivação para maioria

• Só 13% dizem ter ido à Paulista pelo impeachment, mas 77% são a favor

• Maioria dos que foram protestar em São Paulo no domingo também diz que esteve no protesto de março na capital

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - O impeachment da presidente Dilma Rousseff conta com o apoio de 77% das 100 mil pessoas que estiveram neste domingo (12) na avenida Paulista, mas nem metade delas acha que ela será afastada. É o que mostra a pesquisa Datafolha realizada durante a manifestação.

Ainda assim, só 13% dos manifestantes saíram de casa com a intenção de pedir o impeachment da presidente. O motivo mais citado por eles para ir à Paulista foi a indignação com a corrupção, apontado por 33% dos entrevistados. Uma em cada dez pessoas estava lá para protestar contra o PT.

Mais de 60% dos manifestantes disseram que estavam repetindo a dose, já que participaram também do protesto do dia 15 de março. O perfil do público que foi aos dois eventos é muito parecido, a não ser pela grande presença de pessoas mais velhas no ato deste domingo.

De acordo com o Datafolha, 41% do público presente tinha mais de 51 anos. É o dobro do que se viu na manifestação de março. Maria Luiza Lima, 77 anos, esteve nas duas acompanhada pela filha e disse que voltará se houver uma terceira.

Moradoras da Vila Carrão, na zona leste, elas pegaram ônibus e metrô para participar do protesto. "Sou eleitora, quero continuar votando e, para isso, é preciso limpar a política", diz Maria Luiza.

Boa parte dos manifestantes neste domingo apareceu em família. Havia também muitos casais. Grande parte das pessoas vestia camisetas da seleção brasileira de futebol ou outras peças de roupas amarelas.

Vários exibiam faixas amarelas na cabeça com a inscrição "Fora Dilma", que podiam ser compradas por R$ 5 dos camelôs. Questionados pelo Datafolha, 96% deles consideram o governo Dilma ruim ou péssimo.

A presença de pessoas que vieram de outras cidades também aumentou, de 13% em março para 17% neste domingo. Foi o caso da psicóloga Sueli Santos, 56, que veio de Vinhedo para participar da manifestação.

"A revolta está nessa corrupção, nesse desgoverno do PT. Chegou a hora de dar um grito", afirmou.

Quase 80% dos manifestantes têm ensino superior, 35% trabalham com carteira assinada e 41% ganham acima de dez salários mínimos. No segundo turno da última eleição presidencial, 83% declaram ter votado no candidato Aécio Neves (PSDB) e apenas 3% em Dilma.

Apesar disso, 95% afirmaram não serem filiados a nenhum partido.

Dos manifestantes, 74% sabem que o vice-presidente assumiria o governo em caso de um afastamento de Dilma, sendo que 90% têm conhecimento de que o vice é Michel Temer (PMDB).

A avaliação do Congresso Nacional também não é boa: 77% o consideram ruim ou péssimo, 19% acham que é regular e apenas 3% avaliam o trabalho de deputados e senadores como ótimo ou bom.

A grande maioria, 86%, prefere a democracia a uma ditadura, regime que é apoiado por apenas 9% dos que estiveram na avenida Paulista. Para 3%, tanto faz --democracia ou ditadura.

A esquerda era minoria entre os manifestantes da Paulista; apenas 7% das pessoas se diziam dessa corrente. A maioria, 34%, disse ser de centro, 20% de centro-direita e 26% de direita.

O Datafolha entrevistou 1.320 pessoas na Paulista, das 12h às 18h. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

Moratória da crise está longe de ser decretada

• O domingo trouxe algum respiro ao Planalto e mostrou a oposição reticente para empunhar bandeiras ainda incertas

Igor Gielow (Diretor da Sucursal de Brasília) – Folha de S. Paulo

A batida charada existencial do "copo meio cheio ou meio vazio" se aplica bem ao que ocorreu neste domingo, 12 de abril, segunda etapa das manifestações de rua contra o governo Dilma Rousseff.

Certamente há motivos para comemoração no Palácio do Planalto, mesmo com a propaganda interna informando a inevitabilidade de um "grande fracasso".

Afinal de contas, o movimento do 15 de março poderia ter mantido ou aumentado sua intensidade --embora em São Paulo, bastião mais vistoso do antipetismo hoje no país, as cenas ainda fossem algo impressionantes.

Esta é a visão "copo cheio", do ponto de vista governista. Foi trombeteada por seus apoiadores em redes sociais e, especialmente, por um certo jornalismo on-line financiado por verbas oficiais.

Na mão contrária, Dilma assistiu a 25 mil pessoas (segundo a PM local) irem à rua em seu quintal brasiliense. Público formado por funcionários públicos usualmente amáveis ao governo, qualquer que seja. Não foram os 45 mil de um mês atrás, mas longe da inexpressividade.

Em São Paulo, se insinua um cenário no qual os atos tendem a se consolidar ao estilo das "manifs" parisienses, um elemento perene do ambiente urbano.

Mais do que isso, o número que realmente importa neste fim de semana para o governo não é o de contagens feitas nas ruas. É o do Datafolha que mostrou uma estabilização da rejeição ao governo, além de comprovar que muito mais gente do que foi visto na avenida Paulista no domingo está a defender o impeachment de Dilma.

Novamente a lógica do copo se impõe para fins de discurso. Um otimista governista dirá que a popularidade de Dilma parou de cair e que o Planalto tem, a partir da reformulação de sua articulação política com o vice Michel Temer, espaço para tentar melhorar sua agenda pública.

Para o pessimista governista (ou um otimista oposicionista), qualquer governo com níveis de rejeição registrados pelo de Dilma não tem motivos para dormir bem à noite.

No registro do real, é notável que, se alcançar algum nível de governabilidade no Congresso, isso não resolve o problema da paralisia econômica do país ou dos investimentos engessados.

No meio do caminho, onde geralmente a realidade se encontra, o domingo trouxe algum respiro ao Planalto e mostrou uma oposição reticente para empunhar de fato bandeiras ainda incertas, dadas as condições políticas objetivas: estamos hoje mais num parlamentarismo branco comandado pelo PMDB do que à beira do impeachment de Dilma --e consequente unção da oposição.

Mas o alívio está longe de ser profundo o suficiente para ser decretada a moratória da crise.

Aécio e Marina não vão aos atos, mas apoiam as manifestações

• Adversários de Dilma na campanha eleitoral se pronunciaram por nota e reiteraram críticas ao governo federal

Elizabeth Lopes e Isadora Peron - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO e BRASÍLIA - A exemplo do que ocorreu em 15 de março, os dois principais adversários da presidente Dilma Rousseff na eleição do ano passado, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e a ex-ministra Marina Silva (PSB), não participaram dos protestos deste domingo, 12.

Eles, porém, voltaram a divulgar notas sobre os eventos. Presidente nacional do PSDB, Aécio destacou que seu partido se solidariza com os brasileiros que voltaram às ruas e ocuparam as redes sociais.

Segundo o tucano, esses brasileiros, “mais uma vez, manifestaram, legitimamente, repúdio e indignação contra a corrupção sistêmica que envergonha o País e cobraram saídas para o agravamento da crise econômica”.

Na nota, o senador mineiro diz que “o governo do PT impõe à sociedade a pior equação: recessão com inflação alta, juros altos e corte de investimentos nas áreas essenciais da educação e saúde”. De acordo com ele, após 100 dias do 2º mandato, “as famílias brasileiras sofrem agora os efeitos da crise sobre os principais setores produtivos. Empresas em diversos segmentos deram início a cortes ainda mais severos, transformando o que antes eram preocupações com o aumento do desemprego em realidade concreta”.

Aécio, que passou o fim de semana em Belo Horizonte, anunciou que não compareceria à manifestação na capital mineira por volta do meio dia de ontem. Segundo sua assessoria, o objetivo seria o de evitar dar tom partidário ao protesto.

Marina, que permanece no PSB até a formalização de seu futuro partido, a Rede Sustentabilidade, relativizou o fato de as manifestações reunirem um número menor de pessoas em comparação com as do dia 15 de março.

“Menos gente nas ruas não significa menor insatisfação; ao contrário, pode até significar um aumento da desesperança, o represamento de uma revolta que pode retornar mais forte depois de algum tempo”, escreveu Marina no Facebook.

Freire: reivindicação nos protestos foi mais objetiva quando maioria da sociedade quer impeachment de Dilma

Por: Assessoria do PPS

O presidente nacional do PPS, deputado Roberto Freire (SP), disse que as manifestações contra o governo neste domingo (12) foram mais focadas em um objetivo: o impeachment da presidente Dilma Rousseff. O parlamentar observou que as ruas refletiram o que a pesquisa Datafolha apontou: “a sociedade (63% dos entrevistados) está amplamente a favor da abertura de um processo de impeachment”.

“Em 15 de março, eram várias reivindicações, e o que unificava o movimento era ser contra o governo e o PT”, lembrou. Neste domingo, houve uma diminuição no número de participantes dos protestos, “mas uma maior definição dos seus objetivos”. O deputado frisou também que desta vez o número de estados e municípios foi bem maior do que em março (21 estados e o Distrito Federal).

Freire participou da manifestação na avenida Paulista, onde se reuniram 275 mil pessoas, segundo a Polícia Militar. “O clima era de alegria e confraternização, mas as pessoas estavam, evidentemente, indignadas com o governo e com o PT”.

Para Roberto Freire, as pessoas estão compreendendo melhor o papel da política e dos políticos no momento que o país vive. Ele lembrou que o Datafolha mostrou uma melhora na avaliação do Congresso Nacional. “Acho que há, também, uma melhor avaliação do papel que o PMDB possa vir a desempenhar se estiver independente ou se se aliar à oposição, mesmo com a nomeação do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP) para a coordenação política do governo”.

Demonstrando expectativa com relação ao PMDB Rogério Chequer, do Vem pra Rua, disse ao jornal Folha de São Paulo que a aliança do partido "não deve ser com o PT, mas com a rua”, afirmou. Chequer informou que na próxima quarta (15) representantes de 50 movimentos virão a Brasília para oferecer uma pauta de reivindicações da sociedade ao Congresso Nacional.

Para políticos, mau humor continua

• Tanto o governo quanto a oposição avaliam que a diminuição do número de manifestantes não significa que a insatisfação com a presidente Dilma está menor. Um assessor do Planalto lembrou que o Datafolha não mostrou mudança no mau humor com o governo. Para líderes da oposição, o sentimento de indignação é o mesmo.

Insatisfação com Dilma não caiu, concordam governo e oposição

• Planalto se preocupa com alta reprovação mostrada no Datafolha; para líder do DEM, indignação continua

Fernanda Krakovics, Isabel Braga e Geralda Doca – O Globo

BRASÍLIA - Tanto o Palácio do Planalto quanto a oposição avaliaram que o número menor de manifestantes nas ruas ontem, comparado a 15 de março, não significou uma mudança no cenário de insatisfação com a presidente Dilma Rousseff. Apesar de aliviados com a menor adesão, integrantes do governo admitiram que não há motivo para comemorar. A preocupação maior é com a alta reprovação do governo mostrada na pesquisa Datafolha. Líderes da oposição lembraram que, mesmo com menos gente nas ruas, o sentimento de indignação da população com o governo continua muito alto.

— O Datafolha mostra que não há mudança de humor em relação ao governo. O fato de as manifestações estarem menores não é sinal de que a crise passou — afirmou um assessor do Planalto.

A pesquisa mostra que 60% dos brasileiros acham o governo ruim ou péssimo, e 63% apoiam a abertura do processo de impeachment de Dilma.

Sem reunião de avaliação, nem coletiva
Diferentemente do que aconteceu em 15 de março, quando dois milhões de pessoas foram às ruas, de acordo com a PM, ontem o Palácio do Planalto tentou tratar com naturalidade as manifestações. Desta vez, Dilma não convocou ministros para reunião de avaliação nem houve entrevista coletiva de ministros, o que em 15 de março deu margem a um panelaço pelo país. A presidente, que chegou do Panamá na madrugada de ontem, monitorou os protestos do Palácio da Alvorada e falou com ministros pelo telefone.

Para alguns integrantes da oposição, a redução do número de participantes pode estar relacionada com a proximidade dos dois atos e ao fato de ter sido realizado após a Semana Santa, o que prejudicou a mobilização. Para o líder do DEM da Câmara, Mendonça Filho, o sentimento contra o governo continua muito forte:

— O sentimento não mudou, a indignação permanece, e desta vez o movimento se espalhou por cidades menores. A impopularidade dela está estacionada em patamar absurdo, com a rejeição batendo 60%. Isso se agrava porque são apenas cem dias de governo. Um governo pode até perder a popularidade, isso até se recupera, mas ela e o PT perderam a credibilidade.

O líder do PSDB no Senado, Cássio Cunha Lima, também afirmou que a diminuição do número de manifestantes não reflete a redução da desaprovação ao governo Dilma.

— Essa leitura de que foi menos gente é uma leitura muito pobre. Os que não foram às ruas ontem não passaram a apoiar o governo. E, para mim, a volta dos manifestantes às ruas é um recado claro de que a oposição precisa encontrar um canal de diálogo com essa insatisfação, com esse movimento todo — disse o líder tucano.

O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), estava em Belo Horizonte e optou por não participar do movimento de rua. Segundo sua assessoria, o tucano entende que esse é um movimento espontâneo e não tem que ser partidário, mesma postura adotada em 15 de março. Para Aécio, sua participação poderia dar um tom de partidarização do ato, o que não é conveniente.

Em nota que assinou como presidente do PSDB, Aécio mostrou seu apoio e solidariedade ao movimento. Na nota, Aécio afirmou que as famílias brasileiras sentem os efeitos da crise econômica sobre os principais setores produtivos do país, e Dilma se mantém imobilizada, tentando terceirizar "responsabilidades intransferíveis".

"Além da crise ética e moral, o governo do PT impõe à sociedade a pior equação: recessão com inflação alta, juros altos e corte de investimentos nas áreas essenciais da Educação e da Saúde", diz um trecho da nota.

União de correntes em torno do "Fora, Dilma"
Para Mendonça Filho, os organizadores precisam ficar atentos para não banalizar os protestos:

— Faço uma alerta para quem está mobilizando: não banalizar, não fazer um ato a cada três semanas, pode enfraquecer, independentemente da indignação. Achei muito perto (os dois atos), mas como cidadão fui aos dois.

Para o líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO) — que participou do protesto em SP —, o ato de ontem teve um significado maior, porque uniu correntes em torno do "Fora, Dilma":

— Ficou provado que o desejo de ver Dilma e o PT fora do governo não se limita a uma região só. Mais de 400 cidades protestaram contra o PT, algo jamais visto, nem nas Diretas Já, nem nas manifestações que derrubaram Collor.

Integrantes do governo afirmaram ontem que o governo tem que reagir às manifestações com uma agenda positiva, e não com declarações. A dificuldade, na avaliação desses ministros e assessores da presidente, é que este ano é de "arrumar a casa" com o ajuste fiscal. Segundo um ministro, a pesquisa Datafolha revela que as pessoas continuam pessimistas em relação ao futuro, com medo de perder emprego, renda e conquistas obtidas.

Ministros do núcleo político tentaram minimizar o cenário negativo afirmando que há uma insatisfação geral com a classe política, e que a presidente Dilma acaba sendo a catalisadora das insatisfações. Um ministro que integra a coordenação política afirma:

— Há uma crise de funcionamento do Estado. A presidente é a mais atingida porque é a personagem política central. Mas por que a oposição não pode ir para a rua discursar? Há uma insatisfação geral com a classe política desde as manifestações de 2013.

Líderes de ato cobram mais firmeza da oposição

• Manifestantes reclamam que partidos não endossam a tese do impeachment

• Vem pra Rua anuncia que movimentos antipetistas farão ato em Brasília no dia 15; MBL anunciou marcha

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO Os movimentos que foram às ruas em São Paulo neste domingo (12) contra o governo da presidente Dilma Rousseff (PT) também fizeram críticas à oposição, principalmente ao PSDB e ao senador Aécio Neves (MG), segundo colocado na disputa pelo Palácio do Planalto em 2014.

A cobrança central do MBL (Movimento Brasil Livre) e do Vem Pra Rua, organizadores dos atos, é por uma postura mais atuante em favor do impeachment da presidente.

Os senadores tucanos Aloysio Nunes (SP) e José Serra (SP) também foram cobrados para que seja instaurado no Congresso um processo de impeachment contra a presidente, assim como os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e o do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Todos eles se declaram contra o processo.

Kim Kataguiri, coordenador nacional do MBL, disse que a oposição não pode continuar com "uma postura frouxa". Já Renan Santos, também do MBL, criticou Aécio e disse que o tucano "sumiu" nas últimas semanas. Líder do Vem Pra Rua, Rogério Chequer cobrou em seu discurso "mais oposição, investigação e punição".

Aécio tem divulgado vídeos nas redes sociais para fazer convocação aos protestos, mas não compareceu a nenhuma das manifestações. Neste domingo, ele disse, em nota, que Dilma está "imobilizada". O PSDB se solidarizou com os brasileiros que voltaram a manifestar "repúdio e indignação" contra a "corrupção sistêmica".

O DEM ponderou que o tom dos protestos de hoje indicou que, agora, há um "objetivo comum: a saída de Dilma". O Solidariedade disse que irá procurar outros partidos para cobrar a defesa do impeachment.

Neste domingo, os deputados Paulinho da Força (SDD-SP), Roberto Freire (PPS-SP), Jair Bolsonaro (PP-RJ) e seu filho, Eduardo Bolsonaro (PSC-SP), eram os únicos políticos presentes no ato em SP.

Segundo Bolsonaro, os políticos "têm medo de estar nesse movimento".

"Sou bem tratado pelo meu passado, mas Aécio deveria estar aqui. Político tem que estar com o povo", disse.

O protesto deste domingo levou à avenida Paulista 14 carros de som. Três deles faziam defesa da intervenção militar. "Mudança não é Aécio, mudança é intervenção", diziam os apoiadores do SOS Forças Armadas.

Além deles, estavam presentes o Revoltados Online, o Movimento Liberal Acorda Brasil, o Movimento Civil XV de Março e o Solidariedade, entre outros.

O MBL anunciou a organização de uma marcha a Brasília que terá início na próxima sexta (17), com saída da zona oeste de São Paulo. A meta é chegar à capital federal em 20 de maio.

O líder do Vem Pra Rua diz que representantes de 50 movimentos anti-PT vão a Brasília na quarta-feira (15). "A aliança do PMDB não tem que ser com o PT, mas com a rua", defendeu Chequer.

Movimentos vão a Brasília pressionar parlamentares

• Organizadores planejam ida ao Congresso para pedir processo de impeachment e buscar ‘elo político’ após as duas manifestações

Ricardo Galhardo e Valmar Hupsel Filho - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - Divididos e com o poder de mobilização em queda, os principais movimentos que organizaram os protestos deste domingo, 12, decidiram deixar as mobilizações de rua em segundo plano e buscar apoio no Congresso Nacional para suas reivindicações, a principal delas o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

“Já fizemos duas manifestações grandiosas mas isso não gerou um elo político”, disse o microempresário Renan Santos, um dos líderes do Movimento Brasil Livre. Ele anunciou que na sexta-feira um grupo de integrantes do MBL vai iniciar uma marcha saindo de São Paulo até Brasília, onde pretende se encontrar com líderes do Congresso e encaminhar a pauta do movimento.

O foco do MBL a partir de agora é fazer ações pontuais. Segundo Santos, os demais movimentos que foram às ruas neste domingo e até políticos de oposição ao governo que apoiaram as manifestações também mudaram de estratégia. “Os outros grupos pediram para não ter mais manifestações. Sentimos uma pressão de vários setores, principalmente de políticos e do mercado financeiro. Antes do ato do dia 15 de março, falei com mais de uma dezena de líderes do Congresso e todos apoiaram. Agora foi diferente”, afirmou.

O empresário Rogério Chequer, porta-voz do Vem Pra Rua, grupo que ao lado do MBL foi um dos que atraíram mais gente na tarde deste domingo na Avenida Paulista, anunciou a criação da Aliança dos Movimentos Democráticos do Brasil, formada por 50 grupos que vão à Brasília na quarta-feira também para encontrar lideranças do Congresso dispostas a encaminhar formalmente os pleitos dos movimentos.

O Vem Pra Rua aderiu há cerca de duas semanas aos grupos que pedem o impeachment de Dilma. Em seu discurso, ontem na Paulista, Chequer centrou fogo no PMDB, partido que tem a maior bancada na Câmara. “PMDB, não adianta você conquistar mais poder. O acordo agora não é com o PT, é com o povo brasileiro.”

Divisões. Chequer tentou dar um tom de unidade aos movimentos ao afirmar que o objetivo do Vem Pra Rua é “aglutinador” e não o de ter o protagonismo dos protestos. Mas o discurso esbarra na fala de outras lideranças. “Soube que o Chequer disse que eu estou nesta aliança. Estou mesmo?”, ironizou Renan Santos. Segundo ele, o MBL foi procurado mas não aceitou fazer parte da aliança.

No Rio, as divisões entre os grupos ficou escancarada com críticas e acusações abertas entre as lideranças. O principal motivo para a cisão é uma troca de acusações sobre financiamento por partidos. O Vem Pra Rua é acusado pelos demais de ser bancado pelo PSDB, mas nega. “Não recebemos dinheiro de nenhum partido, justamente para poder criticar. Isso só divide os movimentos”, afirmou a dentista Rizzia Arrieiro, porta-voz do Vem Pra Rua.

Ela alega diferenças ideológicas em relação ao bloco composto por União Contra a Corrupção (UCC), Movimento Brasil Livre (MBL), Extermínio e O Pesadelo dos Políticos, favoráveis à intervenção militar. “O pessoal do MBL não está alinhado com que a gente pensa. A gente respeita as instituições, não passa por cima delas”, disse Rizzia.

O empresário Rodrigo Brasil, um dos líderes do Revoltados On Line no Rio, concorda com o Vem Pra Rua, mas criticou o MBL e seus parceiros. “O pessoal lá está metido com político e a gente está fora disso”, disse.

“O racha vem do pessoal do Vem pra Rua, que é ligado ao PSDB”, acusou o técnico em segurança do trabalho Maicon Freitas, um dos líderes do UCC. “A gente faz vaquinha para pagar o carro de som.” / Colaboraram Carina Bacelar e Fábio Grellet

Planalto diz estar atento ao 'alerta' das ruas

• Temer prometeu diálogo e presidente utilizou Facebook para destacar combate à corrupção

Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Após avaliar que usou uma estratégia errada ao lidar com as manifestações de 15 de março, levando o problema para dentro do Palácio do Planalto, o governo preferiu evitar se expor, numa tentativa de preservar a presidente Dilma Rousseff. Ao contrário das seguidas entrevistas de ministros convocadas no mês passado, desta vez a reação oficial coube ao vice-presidente Michel Temer.

"O fato de ter menos gente nas ruas não diminui a importância do alerta que está sendo dado pela população, mostrando que é fundamental que o governo compreenda que há necessidade de dialogar e ouvir mais", disse Temer, novo articulador político do Planalto, via assessoria. Mais tarde, na cremação do jurista e ex-ministro Paulo Brossard (mais informações na pág. A12), em Porto Alegre, afirmou: "O governo precisa identificar quais são estas reivindicações e atender estas reivindicações. É isso que o governo está fazendo".

A página do Facebook administrada pelo PT em nome de Dilma postou mensagem afirmando que "o combate à corrupção é uma meta constante" do governo da presidente. O texto destaca que, no mês passado, Dilma encaminhou ao Congresso "um conjunto de medidas que vão permitir maior atuação contra diferentes frentes da corrupção".

O post cita frase de Dilma segundo quem "a guerra contra a corrupção deve ser, simultaneamente, uma tarefa de todas as instituições, uma ação permanente do governo e também, um momento de reflexão da sociedade, de afirmação de valores éticos".

Reunião. A decisão de que caberia a Temer falar pelo governo foi decidida em reunião entre Dilma e os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e José Eduardo Cardozo (Justiça), na noite de ontem. Hoje, uma nova avaliação das manifestações está prevista, com participação de Temer.

O ministro da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, endossou a fala do vice-presidente dizendo que o governo "está atento" à pauta das manifestações. "Eu penso que, independentemente do seu tamanho, as manifestações devem ser consideradas e reconhecidas", afirmou. Para Edinho, o governo "capitaliza o descontentamento com a forma como foi organizado o sistema político", embora considere os protestos "naturais" e "legítimos".

O Palácio do Planalto continua preocupado com o tamanho e o alcance das manifestações em todo o País. A preocupação aumentou com a mais recente pesquisa Datafolha, que mostra estabilização da perda de popularidade de Dilma - cujo governo é aprovado por só 13% da população -, mas apoio de 63% ao impeachment.

No 15 de março, Cardozo e o ministro Miguel Rossetto (Secretaria-Geral) deram entrevista para avaliar as manifestações. As declarações, exibidas ao vivo na TV, foram recebidas com panelaços em diversas capitais. / Colaborou Vera Rosa