quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Rosângela Bittar - O novo anormal

- O Estado de S.Paulo

Uma crise engole a outra e o governo Bolsonaro para todos não começa

Parece até de propósito, para manter a sociedade em choque permanente. O anômalo, de exceção, tornou-se regra, e a sequência vertiginosa de esquisitices tem sido de tirar o fôlego. Nada a ver com um grande governo de ideias estapafúrdias, mas com uma carnavalesca forma da gestão.

A demissão do secretário da Cultura, da motivação à efetivação, desenvolveu-se de forma não apenas patética, mas sem emoção. Jair Bolsonaro reafirmou, no episódio, como gosta de agir na gestão, admissão, demissão e comando: é o império do aleatório, do errático, do vazio; o novo anormal.

Minutos antes de baixar a forca, o presidente elogia o condenado. Nenhum dos dois, porém, sabe exatamente por que estão naquela situação. O presidente não disse o que era para fazer e o ajudante não contou o que faria. Uma vez feito, se vier a pressão, afasta o indigitado.

As demissões que fez até agora seguiram o rito. De pressões, já há uma tipologia: internacional, família, corporação. Os filhos têm uma arma: exploram as síndromes de perseguição e de traição que acometem o pai.

Vera Magalhães - 'Cadeia de comando'

- O Estado de S.Paulo

Desafios postos diante de Moro vão além da disciplina e da hierarquia: são políticos, éticos e institucionais

“Eu não contrario publicamente o presidente. Existe aí, evidentemente, uma cadeia de comando.” A frase, dita por Sérgio Moro já no primeiro bloco do programa Roda Viva, foi a tônica da entrevista do ministro da Justiça. É claro que num regime presidencialista os ministros seguem o presidente da República. Mas os desafios postos diante de Moro vão além da disciplina e da hierarquia. São políticos, éticos e institucionais.

Os políticos são óbvios, estão na mesa e tanto ele quanto o presidente os compreendem muito bem. Moro é o único a ombrear com Bolsonaro nas pesquisas hoje. O chefe não pode demiti-lo, sob pena de criar um adversário. E ele não pode sair do governo agora, sem antes traçar um caminho. O jogo de ver quem pisca primeiro continuará, e Moro parece ainda ter apetite para engolir alguns sapos.
Os conflitos éticos dizem respeito aos quase diários ataques às liberdades e às minorias por parte de Bolsonaro e de seus auxiliares.

Até quando será possível ao ex-juiz calar sobre assuntos como o atentado à produtora Porta dos Fundos e falar apenas em privado sobre absurdos como a performance nazista de Roberto Alvim? Ou silenciar quanto aos ataques à liberdade de imprensa? Não se trata, como diz ele, de ser um “comentarista-geral” da República. Mas de cumprir o papel de ministro da Justiça: o de guardião da democracia e da Constituição.

Por fim, os dilemas institucionais são os decorrentes do fato de que Moro convive no governo com acusados de irregularidades que, como juiz, não hesitaria em investigar. Isso afeta a imagem de “herói do Brasil”, hashtag que liderou o Twitter mundial durante o programa.

O ministro tem o maior cacife político do Brasil hoje. Ganha de Bolsonaro e eclipsou Lula. Resta saber o quanto desse patrimônio está disposto a queimar enquanto aguarda saber se vai para o STF ou se parte para uma candidatura. Pode parecer que há muito tempo até 2022, mas a corrosão que a exposição ao bolsonarismo é capaz de operar é incerta.

Fernando Exman - As próximas fases da crise na Venezuela

- Valor Econômico

Bancada de Roraima quer mais recursos do FPE e do FPM

A evolução da crise venezuelana foi objeto, em Brasília, de reuniões de análise de conjuntura e articulações políticas durante o normalmente pacato período de recesso parlamentar.

O tema ganhou evidência na semana passada, quando no último dia 16 o presidente Jair Bolsonaro levou para o Palácio do Planalto a cerimônia de passagem do comando da Operação Acolhida. Símbolo de prestígio e reconhecimento às atividades executadas, principalmente pelo Exército, no acolhimento e na interiorização dos migrantes e refugiados venezuelanos.

Nos bastidores, contudo, autoridades do Palácio do Planalto, ministros e parlamentares de Roraima também trataram de outras questões. Há uma preocupação em relação ao possível aumento da violência dentro da Venezuela e o fluxo populacional que pode resultar desse fenômeno, assim como com a capacidade do Estado brasileiro de atender essa população sem reduzir a qualidade dos serviços públicos na região.

Algumas estatísticas da Operação Acolhida ajudam a explicar as razões da movimentação política. Segundo estimativa do governo federal, cerca de 264 mil venezuelanos entraram e permaneceram no Brasil de 2018. Foram “interiorizadas” aproximadamente 27,2 mil pessoas, ou seja, transferidas para cerca de 375 cidades em 24 unidades da federação.

Dentre esses venezuelanos estão os cinco militares que foram detidos na fronteira no fim de dezembro do ano passado. Apesar das críticas do governo de Nicolás Maduro, que os considera terroristas, eles devem receber refúgio após passarem por período de quarentena. O que mais preocupa as autoridades de Roraima, contudo, são os civis que por lá se instalam.

Cristiano Romero - O grande risco

- Valor Econômico

Espera-se que Bolsonaro não ameace cumprimento da agenda econômica defendida hoje pela maioria dos brasileiros

Em julho de 2015, o economista Nilson Teixeira fez uma profecia terrível: a recessão que atingira o país no segundo trimestre do ano anterior seria a mais longa da história e a recuperação, a mais lenta. Infelizmente, acertou. A “Grande Recessão” durou três anos (2014/16) e registrou contração do PIB de 6,2%. A recuperação tem sido medíocre: entre 2017 e 2019, o crescimento acumulado pode ter sido de apenas 3,8%, muito inferior, portanto, à queda ocorrida no triênio anterior.

Economista-chefe do Credit Suisse quando fez o vaticínio, Nilson, hoje sócio da gestora Macro Capital, e sua equipe projetaram números menos pessimistas que os revelados mais tarde pela realidade. Ainda assim, a previsão contrariava a tradição da economia brasileira, de recuperação rápida de crises. A severa crise fiscal, um governo fraco e sem nenhuma intenção de promover reformas e corrigir os erros que provocaram a “Grande Recessão” compunham um quadro tão desolador que a superação levaria tempo.

Ninguém esperava, porém, que o PIB fosse recuar 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016. Nos últimos três anos, o crescimento foi desanimador, contrariando as expectativas da maioria dos analistas - de 1,3% em 2017 e 2018 e de 1,16% em 2019, considerando para o ano passado a mediana das expectativas do mercado captadas pelo Banco Central.

Hélio Schwartsman - Bolsonaro e os judeus

- Folha de S. Paulo

Que meus correligionários atentem para o autoritarismo encabeçado por Bolsonaro

Num mundo em que versões prevalecem sobre fatos, criou-se a ideia de que a comunidade judaica brasileira em bloco apoia Jair Bolsonaro. A tese não procede. Como qualquer grupo razoavelmente heterogêneo, os judeus se dividiram em relação à candidatura do capitão reformado. Não existem pesquisas que permitam estimar números, mas é certo que a cisão foi acrimoniosa. Para dar uma medida do grau de polarização, basta lembrar que a direção da Confederação Israelita do Brasil praticamente entrou em guerra com o embaixador de Israel, que se tornou recentemente "amigo de infância" de Bolsonaro.

A ideia de que judeus estão com o presidente não surgiu, porém, do nada. Em sua origem está o apoio de primeira hora de alguns empresários judeus como Meyer Nigri (Tecnisa) e Elie Horn (Cyrella). O fato de Bolsonaro ter escolhido o hospital da comunidade, o Albert Einstein, para se tratar da facada que levou ajudou a criar a imagem de afinidade, que foi consolidada pela aproximação do já presidente com o premiê israelense, Binyamin Netanyahu, e pela indicação de nomes com ascendência judaica para compor o primeiro escalão do governo.

Bruno Boghossian - Manipular e perseguir

- Folha de S. Paulo

Procurador distorce diálogo gravado para defender interesse de colegas da Lava Jato

A Polícia Federal ouviu as 1.285 palavras trocadas entre Glenn Greenwald e um dos hackers de Araraquara no último dia 7 de junho. O delegado não viu provas contra o jornalista e anotou que ele manteve na conversa “uma postura cuidadosa e distante”. Já o procurador Wellington Oliveira realizou a façanha de analisar o mesmíssimo diálogo e denunciar o repórter por três crimes.

O contorcionismo do Ministério Público Federal para alvejar Glenn mostra como uma corporação é capaz de manipular o sentido das leis para proteger seus próprios integrantes e perseguir quem incomoda.

O procurador ignorou o fato de que o jornalista não era sequer investigado pelo hackeamento de autoridades como Sergio Moro e a força-tarefa da Lava Jato. Preferiu distorcer diálogos que, na verdade, desmontam sua própria tese.

O responsável pela denúncia argumentou que Glenn recebeu material de sua fonte enquanto o grupo continuava acessando ilegalmente conversas de outros personagens. A investigação, porém, aponta que as mensagens utilizadas pelo jornalista haviam sido obtidas anteriormente.

Ruy Castro* - Pátria amada

- Folha de S. Paulo

Será suficiente lavar com sabão a bandeira no vídeo de Roberto Alvim?

Sou despertado todos os dias pelo rádio de cabeceira. Os locutores têm fixação por engarrafamentos, as vinhetas musicais são longas e repetitivas e o Brasil parece sempre pior do que na véspera. É bastante para fazer o cidadão pular da cama e ir à vida, em vez de tentar mais dez minutos de cochilo. E, mesmo que não fosse, há os anúncios da propaganda oficial com as façanhas dos ministérios, todos terminando com a assinatura: "Ministério tal. Governo Federal. Pátria amada, Brasil".

É de embrulhar os mais rijos estômagos, tão desprevenidos de manhã. A mim, soam particularmente ofensivos, porque não gosto que me pespeguem a pátria amada sem minha autorização. Não por ter algo contra a dita pátria —perdi a conta das vezes em que, nos anos 60, saí às ruas do Rio por ela, levei borrachadas no lombo e passei algumas horas numa cela da rua da Relação. É que não sei se estamos falando da mesma pátria. Se for a atual, dedicada a destruir a educação, o ambiente, as relações exteriores, os direitos humanos e a cultura, pode ser a mesma, mas não será amada.

Luiz Carlos Azedo - Os intocáveis

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

”O jornalista Glenn Greenwald é acusado de associação criminosa e crime de interceptação telefônica, informática ou telemática, com objetivos não autorizados em lei”

A denúncia apresentada, ontem, pelo Ministério Público Federal (MPF) contra o jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept, representa uma blindagem para a força-tarefa da Lava-Jato e o ministro da Justiça, Sérgio Moro, contra acusações da oposição de abuso de autoridade na condução das investigações. O relatório da Polícia Federal sobre o caso não constatou evidências da participação do jornalista nos crimes investigados, mesmo assim, Glenn foi denunciado na Operação Spoofing, que apura invasões de celulares de autoridades. É acusado de associação criminosa e crime de interceptação telefônica, informática ou telemática, sem autorização judicial ou com objetivos não autorizados em lei.

O Intercept, em 2019, publicou conversas atribuídas ao ministro Moro, então juiz federal, e a procuradores da Operação Lava-Jato. Glenn revelou que Moro orientou ações e cobrou novas operações dos procuradores; para o jornalista do Intercept, demonstrou parcialidade em sua atuação como juiz. Agora, o Ministério Público afirma que Glenn “auxiliou, orientou e incentivou” o grupo de hackers suspeito de ter invadido os celulares de autoridades durante o período em que os delitos foram cometidos, apesar de o relatório da Polícia Federal, em dezembro passado, concluir que “não é possível identificar a participação moral e material” do jornalista nos crimes.

O delegado da Polícia Federal Luís Flávio Zampronha, responsável pelo inquérito, fez seu relatório com base nos diálogos interceptados. Glenn é citado e participa de algumas conversas, mas não houve base para indiciá-lo: “Não é possível identificar a participação moral e material do jornalista Glenn Greenwald nos crimes”. O delegado explicou também que a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, para a configuração do tipo penal, exige que o objeto material do crime deve possuir valor econômico intrínseco, o que não foi o caso.

Ricardo Noblat - Denúncia contra Greenwald irá para a lata do lixo

- Blog do Noblat | Veja

Abuso de autoridade
Está com os dias contados a decisão do procurador Wellington Divino Marques de Oliveira de denunciar o jornalista Glenn Greenwald como “partícipe” nos crimes de invasão de dispositivos informáticos, monitoramento ilegal de comunicações de dados e associação criminosa no caso das conversas entre os procuradores da Lava Jato e o ex-juiz Sérgio Moro publicadas pelo site The Intercept Brasil, VEJA, Folha de S. Paulo e o jornal El País.

Cabe ao Supremo Tribunal Federal, tão logo chegue ali uma reclamação da defesa do jornalista, manter ou mandar arquivar a denúncia. Se a reclamação for apresentada de imediato, o ministro Luiz Fux, de plantão durante as férias de fim de ano dos seus colegas, arquivará a denúncia contra Greenwald. Se a reclamação só der entrada no tribunal em fevereiro, o ministro Gilmar Mendes procederá da mesma forma.

Mesmo que Fux rejeitasse a reclamação da defesa, a última palavra seria de Gilmar. Porque em agosto último, o ministro decidiu que as autoridades públicas e seus órgãos de apuração se abstivessem de “praticar atos que visem à responsabilização do jornalista Glenn Greenwald pela recepção, obtenção ou transmissão de informações publicadas em veículos de mídia, ante a proteção do sigilo constitucional da fonte jornalística”.

O indiciamento de Greenwald pelo procurador Marques de Oliveira afronta a decisão de Gilmar, como o próprio ministro admitiu, ontem, em conversa com um amigo por telefone. Gilmar está em Lisboa, onde tem um apartamento. Voltará a Brasília daqui a uma semana. Afronta também decisões tomadas pelo Supremo Tribunal que garantem o sigilo das fontes jornalísticas de informação. Sem o sigilo, não haveria liberdade de imprensa.

De resto, a Polícia Federal investigou o hackeamento das conversas entre autoridades da Lava Jato e não encontrou evidências que possam incriminar Greenwald. Por qualquer ângulo que se examine, a peça do procurador Marques de Oliveira simplesmente não se sustenta. Seu destino será o lixo da História.

Entrevista de Moro no Roda Viva desagradou a Bolsonaro

Pisadas na bola
É difícil agradar ao presidente Jair Bolsonaro. Por mais que tenha se esforçado para isso, o ministro Sérgio Moro, da Justiça, não conseguiu completamente ao longo de uma hora e meia de entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura.

Marina rebate declaração de Guedes e diz que degradação ambiental é culpa do governo

Levantamento mostra que 35% do desmatamento entre 2018 e 2019 ocorreu em processo de grilagem

Fabiano Maisonnave | Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) criticou a declaração do ministro Paulo Guedes (Economia) em Davos (Suíça) que vinculou a degradação ambiental à pobreza. Para ela, são políticas públicas do governo Bolsonaro, como a regularização de áreas griladas, que incentivam o desmatamento na Amazônia.

“O que gera maior critica o maior desmatamento e crime ambiental são os governos”, disse Marina, em entrevista por telefone. “Eles desmontam a governança ambiental, apoiam formas predatórias de uso da floresta e dos recursos naturais, negam o problema das mudanças climáticas, cortam o orçamento do Ministério do Ambiente e ainda têm a falta de noção de dizer que o maior inimigo são os pobres.”

Filha de seringueiros e natural do Acre, Marina foi ministra de 2003 a 2008, no governo Lula. Na pasta, promoveu a criação de unidades de conservação na Amazônia e conseguiu reduzir o desmatamento por meio do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), extinto pelo governo Bolsonaro.

“É muito cômodo culpar a pobreza pela degradação do meio ambiente. Eles enfraquecem o Ibama, o ICMBio e o Inpe, propõem uma medida provisória pra quem roubou terra pública e aí dizem que os pobres são os inimigos do meio ambiente?”, questionou.

Vinicius Torres Freire - Burrice autoritária é o pior inimigo do meio ambiente

- Folha de S. Paulo

Economia padrão e ideias liberais tem ideias ambientais ignoradas por Bolsonaro

O crescimento econômico é o pior inimigo do ambiente, insinuou Paulo Guedes em debate em Davos. Na verdade, o ministro da Economia falou que a pobreza, pessoas que "precisam comer", destroem o ambiente, como o fizeram povos que têm outras "preocupações" porque já "destruíram suas florestas" e já lidaram com "suas minorias étnicas" (oi?).

Suponha-se então que o ministro tenha recorrido a uma metonímia (superação da pobreza etc.) para se referir ao fato de que o crescimento esteve associado à destruição da natureza, pelo menos até faz bem pouco tempo.

Que não estivesse se referindo a dano ambiental causado por indivíduos pobres ou ao genocídio de indígenas, o que já foi motivo de elogio de Jair Bolsonaro.

Ainda assim, não dá pé. É verdade que, mesmo no melhor dos mundos, de onde estamos cada vez mais distantes, crescimento provoca dano ambiental, embora cada vez mais o dano ambiental solape a possibilidade de crescimento econômico ou da vida. Além do mais, há alternativas para atenuar ou mesmo eliminar alguns desses problemas.

Para ficar apenas no universo da economia-padrão ou de ideias liberais, há destruição ambiental por falhas de mercado, falhas de coordenação e ineficiências em geral.

Carlos Góes* - Economia sem democracia não resiste por muito tempo

- Folha de S. Paulo

Efeito da democracia e das instituições sobre a economia se dá no longo prazo

O governo Bolsonaro convive com uma contradição fundamental. O paradoxo consiste na forma como o Presidente vê a relação entre Estado e sociedade e como a equipe do Ministério da Economia vê essa simbiose.

Para Bolsonaro, o modelo ideal seria aquele delineado pela ditadura militar: nacionalista e controlador da vida social e econômica do país. Já a equipe de Paulo Guedes tem planos de reformas liberalizantes que se chocam diretamente com o modelo de País vislumbrado pelos militares. Resta a pergunta: até que ponto os benefícios das reformas econômicas podem conviver com a agenda cultural nacionalista e o ataque às instituições?

No curto prazo, a economia parece estar descolada da agenda cultural. Muitos se surpreenderam com o fato de o Ibovespa não reagir negativamente ao discurso de contornos nazistas do demissionário Secretário de Cultura de Bolsonaro. Mas não deveria ser surpreendente: preços de ações refletem expectativas de lucros futuros das empresas listadas em Bolsa, dando maior peso para o futuro próximo. Efetivamente, o impacto imediato da agenda cultural sobre o lucro das empresas ali representadas é próximo de zero.

O efeito da democracia e das instituições sobre a economia se dá no longo prazo. Bens públicos de responsabilidade do governo (como saúde primária, educação de base, controle de epidemias e resposta a desastres naturais) tendem a ser mais responsivos aos desejos da população em governos democráticos. Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia, assinala em seu livro Desenvolvimento como Liberdade que, como governos democráticos precisam ganhar eleições e manter sua popularidade, mesmo países muito pobres como a Índia, sob democracia, foram capazes de evitar a penúria alimentar.

Elio Gaspari - Weintraub fez um Enem infernal

- O Globo / Folha de S. Paulo

O que aconteceu foi inédito: erraram nas notas

É a mesma história, a quitanda abre tarde, sem berinjelas para vender, nem troco para a freguesa. Não bastassem as filas do INSS, o governo conseguiu azucrinar a vida da garotada que fez o exame no Enem e viu-se tungada nas notas. Aos aposentados disseram que fila é “estoque” e atraso é “empoçamento”. Aos estudantes dizem que erro nas notas é “inconsistência” e que o Inep “imediatamente adotou medidas”. A primeira afirmativa é empulhação, a segunda, mentira.

O vestibular sempre foi uma crueldade imposta aos jovens brasileiros. Em duas manhãs eles são obrigados a jogar um ano de vida, bem como suas expectativas pessoais e de seus familiares. Desde 2009 acontecem desgraças nesse exame. Num ano houve o furto de provas na gráfica, em três outros comprovaram-se vazamentos de questões. O que aconteceu com o exame de 2019 foi coisa inédita: erraram nas notas dadas a estudantes e em dois dias foram da onipotência à mistificação.

Aos fatos:

Vitor Brumano, 19 anos, candidato a uma vaga num curso de Engenharia, viu que sua nota não conferia. Tentou se queixar, mas não havia onde. Ligou para um 0800, e a atendente lhe disse que era isso mesmo. Registrou sua reclamação junto à Ouvidoria do Inep e recebeu a seguinte resposta:

“O edital que regulamenta o exame não prevê a possibilidade de recorrer da nota, pois o desempenho do participante na prova objetiva é calculado com base na TRI, a prova do Enem tem 180 questões objetivas. Portanto, a média não é exatamente proporcional à quantidade de acertos porque as perguntas têm grau de dificuldade diferente”. Conversa de educateca.

Vitor criou um grupo no WhatsApp. Começou com sete jovens tungados e em poucos dias teve dois mil comentários.

Zuenir Ventura - Novo e difícil papel

- O Globo

Ela corre o risco de desagradar a quem torce a favor e a quem torce contra

Desde que começou sua carreira, aos 14 anos, Regina Duarte tem diante de si agora, aos 72, o papel mais difícil de sua vida. Tudo indica — escrevo de véspera — que ela vai aceitar o cargo para o qual foi convidada pelo presidente Jair Bolsonaro. Ficou de dar a resposta oficial hoje e, por via das dúvidas, os dois recorreram à velha metáfora do casamento: estão noivos.

Independentemente do desempenho, ela corre o risco de desagradar aos que torcem a seu favor e aos que torcem contra. A tarefa que terá pela frente é conciliar os dois lados, e ela, supostamente em sua missão de paz, saiu do encontro falando maravilhas do interlocutor, e já chegou ao ponto de classificá-lo como um “cara doce”. Só com muita boa vontade pode se chamar de “doce” quem se caracteriza pela incontinência verbal e é capaz de xingar a mãe do repórter que lhe faça uma pergunta incômoda.

Mas a grande questão é saber o que será feito da herança maldita do ex-secretário, que confessou ter escolhido para dirigentes de entidades culturais “profissionais conservadores para criar uma máquina de guerra cultural”. O indicado para a presidência da Funarte, por exemplo, declarou que o rock “leva ao aborto e ao satanismo”.

Bernardo Mello Franco - A era da denúncia sem investigação

- O Globo

Campeão de ataques à imprensa, Jair Bolsonaro já havia ameaçado Glenn Greenwald de prisão. Agora a ameaça ao jornalista vem do Ministério Público Federal

Depois da denúncia sem provas, surgiu a denúncia sem investigação. Glenn Greenwald não era alvo do inquérito que apura a quebra de sigilo de mensagens de autoridades da Lava-Jato. Mesmo assim, o procurador Wellington Divino de Oliveira resolveu acusá-lo de associação criminosa.

Há sete meses, o jornalista do Intercept Brasil revela diálogos incômodos para o ex-juiz Sergio Moro e a força-tarefa de Curitiba. As reportagens o transformaram em alvo do governo e de suas milícias virtuais. O presidente Jair Bolsonaro, campeão de ataques à imprensa, chegou a ameaçá-lo de prisão.

Agora a ameaça vem do Ministério Público Federal. O procurador Oliveira pediu à Justiça que o repórter seja condenado pelo antigo crime de quadrilha. Para isso, ignorou uma decisão do Supremo e um relatório da Polícia Federal, subordinada a Moro.

Em dezembro, o delegado Luís Flávio Zampronha concluiu que “não é possível identificar a participação moral e material do jornalista Glenn Greenwald nos crimes investigados”. Ele indiciou os hackers que violaram as mensagens, não o jornalista que recebeu e divulgou as informações.

Merval Pereira - Industrializar a Biodiversidade

- O Globo

O ministro da Economia, Paulo Guedes, com a sua retórica estimulante, poderia estar hoje em Davos anunciando novos projetos industriais na Amazônia

A polêmica frase do ministro da Economia Paulo Guedes, representante do Brasil no Fórum Econômico Mundial, afirmando que as queimadas da Amazônia são provocadas pela necessidade de se alimentar dos brasileiros que vivem na região, é uma derivação do que já disse o presidente Jair Bolsonaro: “As queimadas são uma questão cultural”.

Assim se resume a política ambiental do novo governo brasileiro: a prioridade é o milhão de pessoas que moram na região amazônica. Não há o que discordar, as pessoas em primeiro lugar. O problema é que o governo considera que a devastação da Amazônia é justificável pela questão social, sem nem mesmo admitir que a exploração econômica descontrolada serve apenas aos interesses dos grileiros, que ao mesmo tempo devastam vidas humanas que exploram e o meio ambiente que degradam em busca de vantagens econômicas.

O mais angustiante é que a exploração econômica da Amazônia baseada na nossa biodiversidade é um grande projeto nacional que poderia ser levado adiante para reforçar nossa soberania na região, que tanto preocupa os militares.

Os projetos para a Amazônia sempre foram paralisados pelos disputa politica, mesmo no governo Lula, quando a então ministra do Meio-Ambiente Marina Silva propôs programa nacional de Amazônia Sustentável, citado pelo ex-presidente do Inpe Ricardo Galvão como uma boa proposta no caminho do desenvolvimento da região.

Míriam Leitão - A economia do desmatamento

- O Globo

Para grilar e desmatar é preciso um grande volume de capital. O governo tem que entender melhor quais são os vetores do desmatamento

Quanto custa uma motosserra? E várias delas? Quanto custam tratores, correntões, caminhões? Tudo isso é necessário para desmatar. Um método primitivo, mas muito usado, é o correntão. Ele vai arrastando as árvores, mas não funciona sem tratores. São necessários dois, um de cada lado. Quanto custam dois tratores? Depois, é preciso ter caminhões para transportar as toras até o consumo. Mas, antes, é necessário ter uma escavadeira hidráulica com garra de metal para empilhar as toras nos caminhões. Capangas armados ocupam a terra que está sendo grilada. Fazem isso a soldo. De quem? Documentos são esquentados, como as guias de transportes. São comprados títulos falsos de propriedade. O ministro Paulo Guedes disse em Davos que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza” e que “as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”. Não é a pobreza que desmata. Para grilar e desmatar é preciso capital. Muito capital.

O ministro estava num debate sobre outro assunto. Era um painel sobre indústria avançada e o uso de recursos naturais. Paulo Guedes, segundo explicou depois, defendia a tese de que os países de economia avançada derrubaram florestas para escapar da pobreza. Mas essa ideia de que, como disse, “as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer” já foi dita algumas vezes pelo ministro do Meio Ambiente. É uma avaliação errada dos vetores reais do desmatamento.

No ano passado foram desmatados quase 10 mil km2 só na Amazônia, numa alta de 30%, segundo o Prodes, do Inpe. E aumentaram as queimadas. Há muitos estudos provando a correlação direta entre o aumento do desmatamento e o das queimadas. Não houve um surto de alta da pobreza que explicasse o que aconteceu em 2019. O que houve foram sinais do governo de que o crime não seria combatido. E qualquer economia, até a do crime, é estimulada por sinais e expectativas.

O que a mídia pensa – Editoriais

A 'noiva' da Cultura – Editorial | Folha de S. Paulo

Em área dominada pelo caos, escolha de Regina Duarte pode trazer previsibilidade

Desde a campanha eleitoral de 2018, os apoiadores de Jair Bolsonaro elegeram a cultura como um campo de batalha. Na visão de ideólogos ligados ao atual presidente, tratava-se de território dominado pela doutrinação de esquerda, uma espécie de grande trincheira internacional de ideias derivadas do marxismo a ser combatida.

Paralelamente, a militância do então candidato empenhava-se em ataques nas redes sociais com o intuito de desmoralizar artistas consagrados, que se aproveitariam de “mamatas”, como a Lei Rouanet, para enriquecer e —em alguns casos— entregar-se à devassidão.

Eleito, Bolsonaro passou da teoria à prática e desmontou o que sempre viu como uma estrutura a serviço de projetos esquerdistas. As ações do presidente, em nada familiarizado com o setor, revelaram-se caóticas e ineficazes. Em um ano, a secretaria que substituiu a antiga pasta foi alocada em dois ministérios e teve três titulares.

O último deles, como se sabe, foi demitido sob intensas pressões sobre o presidente depois de ter estrelado um vídeo no qual parodiava Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda de Adolf Hitler.

Música | Toquinho - A Noite (part. Tiê)

Poesia | Charles Baudelaire - O inimigo

Minha juventude não foi senão um tenebroso furacão,
Salpicado aqui e ali por alguns sóis dourados;
Torrentes de chuva fizeram tanta e tal destruição,
Que restam em meu pomar poucos frutos sazonados.

Eis que cheguei ao outono do pensamento,
E foi preciso usar pás e picaretas
Para renovar as terras em desalento,
Onde a água fura tumbas, buracos e valetas.

E quem sabe se neste solo, lavado e arenoso,
As novas flores com que sonho encontrarão
O místico alimento que o fará vigoroso?

- Que dor! oh que dor! O Tempo, a vida devora
E o obscuro inimigo que nos corrói o coração
Do sangue que perdemos, cresce e se revigora.

Tradução
L’Ennemi, Les Fleurs du Mal - Charles Baudelaire (1821-1867).

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Opinião do dia – Luiz Werneck Vianna *

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo?

Luiz Werneck Vianna – Estou preparando um curso sobre a teoria política de Hannah Arendt e estou sendo obrigado a viver nos anos 1920, 30, com o avanço do totalitarismo, do imperialismo, que são os temas da autora. Vivo isso também na minha realidade cotidiana, e vivo imerso nessas cogitações. E comparando o momento de hoje com o que foi o advento do totalitarismo, principalmente do nazifascismo dos anos 1930, a nossa situação é completamente diferente. Inclusive, vivemos um tempo em que a hegemonia americana não é mais o que era. Qual é a data disso? O desfecho da crise com o Irã no Oriente Médio e o avanço da China na economia – um avanço dotado de movimentos de irreversibilidade.

A Rota da Seda passa pelo Irã. A influência da política externa no Brasil no que se refere à logística da produção brasileira é apenas o começo da investida da China no nosso mundo. A Rússia está assentada no arsenal atômico monumental, inabalável. O que pode, nesta altura, o exercício do império americano? Ele está cheio de limitações internas.

A questão ambiental pega gregos e troianos, e não há como fugir dela. Ela tem, por natureza, um elemento de correção do capitalismo na sua fisionomia atual. O capitalismo precisa de limites ambientais, sociais e políticos. Acabou-se o tempo do exercício do poder discricionário da economia nas coisas do mundo. É isso que o Guedes não entende. Florações como Guedes, Araújo, Salles, são florações de uma primavera; não resistem à mudança de estação.

*Luiz Werneck Vianna, sociólogo, PUC-Rio, Em entrevista 13/1/2020

Merval Pereira - Do espírito à realidade

- O Globo

Guedes em Davos terá a mesma receptividade que encontrou em Stanford, mas precisará enfrentar perguntas difíceis

O ministro da Economia Paulo Guedes começou bem seu périplo internacional para vender a imagem do governo brasileiro, com uma palestra magna num jantar no Instituto Hoover, da Universidade Stanford, organizado pela Mont Pelerin Society, grupo que reúne economistas e intelectuais liberais de diversas partes do mundo.

De Palo Alto, na Califórnia, Guedes viajou para Davos, na Suíça, onde participa do Fórum Econômico Mundial desde segunda-feira. Como principal representante do governo brasileiro, tem como missão mostrar para os investidores internacionais um país pronto para crescer economicamente. O que se confirma com o aumento da previsão de crescimento do PIB brasileiro feito pelo FMI e pelo Fórum Econômico.

Do espírito de Mont Pelerin, na Suíça, onde aconteceu a primeira reunião do grupo em 1947, até a realidade de Davos, a Montanha Mágica do livro de Thomas Mann.

O encontro deste ano da Mont Pelerin Society teve como base o tema “Do Passado ao Futuro: Idéias e Ações para uma Sociedade Livre”. A Sociedade teve sua reunião inaugural em 1947, em Mont Pelerin, Suíça, fundada por historiadores, economistas e filósofos como Friederich Hayek, seu primeiro Presidente, Ludwig Von Mises, Frank Knight, George Stigler, Karl Popper e Milton Fiedman, da Escola de Chicago, alma mater de Paulo Guedes.

Historicamente, seu quadro de membros vai desde Ludwig Erhard, ex-chanceler alemão, até pelo escritor peruano Prêmio Nobel de Literatura Mário Vargas Llosa, passando por muitos outros líderes das esferas governamental, acadêmica e jornalística, vários deles agraciados com o Nobel e o Pulitzer.

Míriam Leitão - Davos mudou com o clima

- O Globo

O mundo das finanças quer investir em sustentabilidade, e o Brasil nada tem de bom a contar na área ambiental nos últimos tempos

O Brasil chega à Montanha Mágica de Thomas Mann, neste aniversário de 50 anos do Fórum Econômico Mundial, distante da questão central que o mundo quer discutir. O ministro Paulo Guedes tem boas novas: a reforma da Previdência foi aprovada e a trajetória da dívida pública tem uma curva mais sustentável. Mas a palavra “sustentável” tem outra amplitude hoje para quem decide para onde vai o dinheiro do mundo. O Brasil nada tem a contar de bom sobre a questão ambiental desde a última visita de Guedes a Davos.

A montanha que foi cenário do belo livro de Mann — publicado no tempo de definições e escolhas do pós-guerra — recebe de novo o mundo das altas finanças, como faz anualmente desde 1970. Neste tempo muita coisa mudou, principalmente a noção de risco e lucro. O banco suíço UBS preparou um estudo com o título “Tornando-se consciente do clima”. O objetivo é ajudar os clientes a construir um portfólio de investimentos para atingir suas metas de redução das emissões. Segundo o banco, citando estudos da OCDE, há um gap financeiro de US$ 90 trilhões para investimento em infraestrutura para que o mundo atinja as metas do Acordo de Paris. “Os investidores precisam de ferramentas e técnicas para guiar a alocação de capital e o UBS desenvolveu esse Guia de Conscientização Climática para ajudá-los a alcançar suas metas”, diz o longo texto de 60 páginas.

Na semana passada, a carta anual de Larry Fink aos principais executivos globais deixou claro que o dinheiro está procurando novos destinos. Ele é o executivo da BlackRock, a maior gestora de recursos do mundo, com US$ 7 trilhões, e mostrou que está de olho nas ruas. “A mudança climática se tornou um fator definidor das perspectivas de longo prazo das companhias. No último setembro, quando milhões de pessoas tomaram as ruas exigindo ação contra a mudança climática, muitas delas enfatizaram o impacto significativo e duradouro que ela terá no crescimento econômico e na prosperidade.” Segundo Larry, este é um risco que os mercados têm demorado a responder, mas “a consciência está mudando rapidamente e eu acredito que nós estamos à beira de uma reformatação fundamental das finanças”.

Carlos Andreazza - Alvim é Bolsonaro

- O Globo

Impulsos extremistas do presidente autorizam vídeos como o do ex-secretário de Cultura

‘Não queira estar no meu lugar” — vitimizou-se Jair Bolsonaro. Não quero — respondo. Por isso não me candidatei à Presidência nem fiz campanha — ilegalmente — por quase quatro anos. Há método, porém, na falsa incoerência. O líder que, eleito como consequência do próprio empenho, projeto de uma vida, reclama do fardo como se cumprisse missão divina é aquele que — síntese do populista autoritário — pede, cobra, adesão incondicional. Ele se sacrificou por nós. Não é isso?

Bolsonaro, o que se martiriza pelo Brasil, pede — cobra — adesão incondicional tanto quanto não hesita em se livrar dos que instrumentalizou.

Investido de poder pelo presidente e estimulado por ele (“secretário de Cultura de verdade”), Roberto Alvim cumpriu seu papel. Mais um kamikaze disparado para desfiar o tecido social de um país há muito em profunda depressão política; um país cujo liberalismo, por exemplo, dá-se à luxúria de se crer somente econômico — a própria expressão da doença — e capaz de prosperar servindo ao ressentimento reacionário (a própria definição de suicídio).

Como todo fusível, Alvim queimou. Há vários assim, peões de baixo alcance, à mão do projeto bolsonarista de afrouxamento da democracia liberal. Sim, as instituições mobilizaram-se para mostrar que o vídeo do então secretário de Cultura, aquele com referência a texto nazista, violava valores inegociáveis. Não havia dúvida de que a reação viria; tampouco de que Alvim seria lançado ao mar. O problema está na frequência com que as instituições ora são provocadas no Brasil — o que significa que os freios de nosso sistema, por enérgicos que sejam, submetem-se ao desgaste de um uso excepcional, não sendo improvável que, tão esticados, cedam algum terreno a cada vez que acionados. Alvim vai. A ideia fica.

Alvim morto é Alvim posto. Um provocador que veio para trombar, para testar linguagem, averiguar reações e avançar algumas peças retóricas extremadas — que equivalem a iscas para demonstração de fidelidade, de submissão. A ideia fica e circula. Considerada a relativização do discurso do sujeito por influentes pensadores do bolsonarismo, a questão agora consiste somente em medir como o arreganho fascista chegará ao guarda da esquina. Sempre chega.

Luiz Carlos Azedo - A namoradinha

- Nas entrelinhas | Correio Braziliense

“Regina Duarte na Secretaria de Cultura pode representar o fim da ofensiva obscurantista e reacionária contra a classe artística, e não o contrário. Em miúdos, pode ser pior sem ela”

O presidente Jair Bolsonaro está em vias de transformar um limão em limonada, com a nomeação da atriz Regina Duarte para o cargo de secretária de Cultura, no lugar do neonazista enrustido Roberto Alvim. Ontem, o Palácio do Planalto confirmou que a protagonista da série Malu Mulher e das novelas Minha Doce Namorada, na qual era a jovem Patrícia, e Roque Santeiro, em que interpretou a Viúva Porcina, entre outros papéis de destaque, virá a Brasília amanhã para conhecer a Secretaria Especial da Cultura. Foi convidada por Bolsonaro para assumir o órgão. Os dois tiveram uma reunião no Rio de Janeiro, onde foi convidada. Depois da conversa, ela escreveu que está “noivando” com o governo.

Bolsonaro resumiu os entendimentos no Twitter: “Tivemos uma excelente conversa sobre o futuro da cultura no Brasil. Iniciamos um ‘noivado’ que possivelmente trará frutos ao país”, escreveu o presidente. Conservadora assumida, antipetista de primeira hora, Regina Duarte participou das campanhas das Diretas, Já!, de Tancredo Neves (1985) e José Serra (2002). Reconhecidamente, é uma grande atriz e tem o respeito da maioria de seus colegas, mas nunca teve unanimidade. Agora, sofrerá uma campanha de feroz oposição, porque assume o cargo em circunstâncias muito desfavoráveis, uma vez que seu antecessor desnudou um projeto reacionário de cultura, cuja inspiração estava na máquina de propaganda nazista. A questão é: fará uma inflexão nos rumos da pasta ou seguirá a mesma orientação?

No governo Bolsonaro, a fronteira entre o conservadorismo e o reacionarismo é muito sinuosa, porém, já foi atravessada nas áreas da educação, cultura, direitos humanos e meio ambiente. Agora, o que foi barrado pela forte reação da opinião pública, do mundo artístico-cultural, da imprensa e até mesmo de setores militares no governo foi a narrativa fascista, que orienta a deriva contra a democracia de setores do governo. A crise provocada por Ricardo Alvim, ao reproduzir em vídeo trechos de um discurso de Joseph Goebbels, o ministro da Cultura e Propaganda de Adolf Hitler, levou-o à demissão, a contragosto do presidente. Pouco antes do “sincericídio”, numa live, Bolsonaro havia elogiado o seu então secretário de Cultura, que estava ao seu lado.

José Casado - A sedução do autoritarismo

- O Globo

O senador do PT e o deputado do PSL se encontraram

Eles pertencem a mundos distintos. Humberto Costa, de 62 anos, é psiquiatra e senador pelo PT de Pernambuco. Eduardo Bolsonaro, de 35 anos, é policial e deputado pelo PSL de São Paulo. Na aparência, não têm muito em comum, além do hábito de abusar dos gritos nos ataques aos adversários em plenário. Mas acabaram se encontrando em peculiares interpretações sobre a palavra “liberdade”.

Costa propôs ao Senado a criação de um “órgão independente” para controlar a internet. Pretende liquidar “mídias sociais” que “destroem reputações e disseminam o ódio”.

O senador se esqueceu de definir “mídias sociais” no projeto (PRS nº 56). Nem citou nomes. Só não deixou de lembrar a criação de 24 cargos nessa “instituição” (5) e no seu “conselho multissetorial” (19).

Costa quer impor ordem na “desordem informacional” da rede mundial, que tem 209 milhões de usuários brasileiros. Não é difícil imaginá-lo à frente da brigada de catalogação infinita de sites e mensagens, para intimar provedores à “remoção de conteúdos”, como prevê no seu projeto.

Bernardo Mello Franco - A última do Seu Creysson

- O Globo

Weintraub anunciou o “melhor Enem de todos os tempos”. Horas depois, foi desmentido pelos alunos. A nova lambança expôs o despreparo do ministro

É “imprecionante”. Na sexta-feira, o ministro Abraham Weintraub disse ter comandado o “melhor Enem de todos os tempos”. Horas depois, foi desmentido por quem fez o exame. Pelas redes sociais, estudantes denunciaram erros na correção e no lançamento das notas.

“O aluno respondeu a prova cinza e veio o gabarito da prova amarela”, resumiu o presidente do Inep. Alexandre Lopes é o quarto burocrata a ocupar o cargo em apenas um ano. A alta rotatividade expõe a falta de rumos do MEC no governo Bolsonaro.

A lambança no Enem é a cara de Weintraub. Ao atacar as universidades públicas, o ministro ofendeu professores e mostrou desprezo pelo ensino superior. Ao escrever coisas como “imprecionante”, 

“paralização” e “suspenção”, agrediu o idioma e virou piada entre alunos do ensino fundamental.
Weintraub se tornou uma espécie de Seu Creysson do bolsonarismo. O personagem do Casseta & Planeta também combinava o ar pretensioso com os erros de português. A diferença entre os dois é que o ministro não tem a menor graça. A cada aparição circense, com ou sem guarda-chuva, só deixa claro que não tem condições para exercer o cargo.

O economista não foi escolhido por sua capacidade de gestão. Chegou lá porque jurou lealdade à cartilha olavista. Até a semana passada, ele competia em sectarismo e agressividade com Roberto Alvim. Só não cometeu o erro de plagiar o ideólogo da turma.

Arnaldo Bloch - Regina Duarte tem um nome a zelar

- O Globo

Espanta que a atriz não sinta medo de entrar na máquina bolsonarista. Terá que conviver com ideias torpes contra as quais, um dia, teria lutado

Segunda-feira, 16hs. Regina Duarte diz que está noivando com Bolsonaro, indicando que aceitará o convite para suceder a Roberto Alvim. Comparo as fotos em que ela posa com o nosso atual presidente nacional-populista de extrema-direita a uma outra, dos anos 1970, em Havana, ao lado do ditador cubano Fidel Castro. O sorriso nas duas imagens é o mesmo, se bem que o atual parece um pouco amarelo.

No tempo em que esteve em cuba, Regina lutou contra a censura no Brasil. Será que, empossada, pactuará com a versão de que o regime militar não foi uma ditadura, propalada por Jair Bolsonaro e grande elenco, em meio a loas a torturadores?

Semana passada, num post no Instagram, Regina disse, em referência ao documentário "Democracia em vertigem" (que é apenas um filme, não uma política de governo, e não teve nenhum incentivo) que "nenhum Oscar vai reescrever a nossa História". Para provar que está engajada na lisura da nossa história será agora preciso que ela diga não aos tais "filtros" (um dos fetiches do governo) nos critérios de fomento a obras que discorram sobre os anos de chumbo, ou sobre qualquer assunto, sejam elas de que coloração forem. E que, como artista, saiba que História se escreve com base em uma pluralidade de análises, cruzadas com a factualidade dos eventos.

Por estes dias, ventilou-se que Regina só aceitaria o cargo se tivesse autonomia. É preciso que alguém lembre a ela que, no governo Bolsonaro, só tem autonomia quem reza (no sentido literal, inclusive) pela sua cartilha, como era o caso de Alvim, que tinha carta branca para purificar a cultura nacional. Deu no que deu.

Ricardo Noblat - Regina Duarte entra no governo bem devagarinho

- Blog do Noblat | Veja

Cultura não se dirige, apoia-se

Nunca se viu um convidado para qualquer cargo de governo pedir para fazer antes um teste ou reservar-se ao direito de só entrar aos poucos, podendo desistir na última hora. Bem, mas o Brasil também nunca viu um governo como o de Jair Bolsonaro.

Ministros dão como certo que a atriz Regina Duarte aceitará o convite para substituir o filonazista Roberto Alvim na Secretaria de Cultura. Se isso acontecer, o que significa? Até que ela comece a mostrar serviço, apenas que o governo preencheu uma vaga aberta.

Regina terá autonomia para demitir quem Alvim nomeou? Terá autonomia para escolher quem bem quiser para pôr no lugar? Com sua aquisição, Bolsonaro estará disposto a rever sua estreita, marcadamente ideológica política cultural?

Em um Estado democrático, Cultura não se dirige, apoia-se, estimula-se, incentiva-se e respeita-se sua diversidade. É isso o que ele pretende fazer doravante? Já o disse a Regina ou ela já perguntou a respeito?

Moro cala sobre os ataques de Bolsonaro à imprensa

Ministro da Justiça do Brasil ou ministro do governo?
O ex-juiz Sérgio Moro foi aprovado em mais um teste de fidelidade irrestrita ao presidente Jair Bolsonaro. Foi capaz de afirmar que seu patrão “dá ampla liberdade à imprensa” apesar dos ataques que ele faz rotineiramente a jornalistas e a veículos de comunicação desde que tomou posse em janeiro do ano passado.

Entrevista |70 anos sem George Orwell: 'nunca houve tanto desprezo pela verdade', diz especialista no escritor

Jornalista britânico Dorian Lynskey fala sobre a recepção do clássico distópico '1984', tema de seu novo livro

Ruan de Sousa Gabriel – O Globo / Segundo Caderno

SÃO PAULO – "Não é um livro em que eu apostaria como sucesso de vendas”, escreveu George Orwell a seu editor, Fred Warburg, em dezembro de 1948. Orwell se referia a “1984”, distopia publicada em meados do ano seguinte — e sete meses antes de sua morte, em 21 de janeiro de 1950, há exatos 70 anos. Ao contrário do que suspeitava seu autor, “1984” frequenta até hoje as listas de mais vendidos.

Orwell já vendeu mais de 100 milhões de livros em cerca de 50 idiomas. Historicamente, a procura por seus livros tende a aumentar em tempos de turbulência política, e ano passado, no Brasil, “A revolução dos bichos” e “1984” foram o sétimo e o décimo livros de ficção mais vendidos, segundo o site “Publishnews”. Lançada em dezembro pela Companhia das Letras, a edição de luxo de “1984” já vendeu 3 mil exemplares.

E vem mais por aí. Nos próximos meses, a Companhia lança uma edição de luxo de “A revolução dos bichos”, “1984” em quadrinhos e “O Ministério da Verdade: uma biografia de ‘1984’”. Neste livro, o jornalista britânico Dorian Lynskey investiga a recepção do livro que popularizou a expressão “Big Brother” e como a passagem de Orwell nas trincheiras da Guerra Civil Espanhola (1936-1939) ajudou a transformá-lo em um militante da verdade. (O Ministério da Verdade, aliás, é a instituição responsável pela propaganda e pelo revisionismo histórico em Oceânia, onde se passa “1984”).

Em entrevista por e-mail ao GLOBO, Lynskey disse que a principal lição de Orwell é o compromisso com a honestidade.

• Por que escrever uma biografia de “1984” e não do próprio autor do livro, George Orwell?

Em 2016, comecei a me interessar pela trajetória deste gênero literário específico, a ficção distópica. Foi quando me dei conta de que, ao contar uma biografia de “1984”, eu podia, de uma vez só, lançar um novo olhar sobre a vida de Orwell e o contexto histórico em que ele viveu e ainda examinar por que o livro continua a ser relevante. Quando estava escrevendo o projeto do livro, Donald Trump foi eleito. O aumento das vendas de “1984” depois da posse dele confirmou que valia a pena escrever esse livro.

• Muito se discutiu se “1984” era uma denúncia do nazifascismo, do comunismo soviético ou das tendências autoritárias do capitalismo americano. Você remonta as origens do livro à Guerra Civil Espanhola, na qual Orwell lutou contra as forças de Franco. Por quê?

Orwell foi para a Espanha acreditando que o fascismo era a principal ameaça à liberdade, enquanto o comunismo soviético, que ele nunca apoiou fervorosamente, era um contrapeso necessário. Ficou horrorizado ao ver republicanos perseguirem a esquerda que não seguia as diretrizes de Moscou, como o POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), do qual ele fazia parte. Concluiu que o stalinismo e o nazismo eram duas faces do mesmo monstro totalitário. Para ele, foi estarrecedor ver intelectuais de esquerda pró-Stalin repetirem as mentiras que tinham condenado seus camaradas na guerra civil e se recusarem a publicar seu relato da guerra, “Lutando na Espanha”. Foi quando experimentou o que seria o tema central de “1984”: o pesadelo criado pelo desaparecimento da verdade objetiva.

Hélio Schwartsman - O buraco é mais embaixo

- Folha de S. Paulo

A indisposição de Bolsonaro com os fatos é gritante.

Já se tornou um lugar-comum classificar o governo de Jair Bolsonaro como anticientífico. Eu receio, porém, que o buraco seja mais embaixo. A administração Bolsonaro é não apenas anti-intelectual mas também pré-lógica e antifactual.

Um exemplo recente da incongruência de Bolsonaro foi o episódio do não veto ao Fundo Eleitoral de R$ 2 bilhões, que frustrou as expectativas de parte de sua base eleitoral. O capitão reformado tentou justificar sua atitude afirmando que não tinha alternativa que não a de sancionar o projeto, pois é um “escravo da lei” e que até correria o risco de sofrer impeachment caso vetasse a proposta.

Concordo que autoridades devem cumprir a lei, mas é importante notar que, num mundo onde vigora a lógica, um projeto só se torna lei após sanção ou promulgação pelo presidente. Antes disso, não cria nenhum tipo de obrigação. No mais, embora a lei nº 1.079, que regulamenta o impeachment, seja suficientemente aberta para permitir que quase qualquer estripulia seja classificada como crime de responsabilidade, ela em nenhum momento afirma, nem mesmo insinua, que um presidente não pode vetar uma proposta legislativa que lhe pareça caminhar contra o interesse público.

Ranier Bragon - A malinha de Wajngarten

- Folha de S. Paulo

Caso do chefe da Secom é teste para autonomia de Ministério Público e órgãos de controle

Na única vez em que se manifestou pessoalmente sobre suas relações público-privadas, o chefe da comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, afirmou não ter apego mesquinho ao cargo. "Quando o Fabio tiver errado, eu pego a minha malinha e vou embora", afirmou. Disse ainda estar no governo por ter se apaixonado por um então deputado que se destacava pela ética, sinceridade e humildade. Como não revelou o nome, ficamos sem saber quem diabos era esse ser sublime.

Afetados por essa lacuna, nos confortamos, porém, ao ouvir que Wajngarten diz tratar a coisa pública com o máximo de "ética, transparência e modernidade". Se se manter dono de uma empresa com clientes que se beneficiam de verba liberada por ele insere-se nesse esforço ético e moderno, estamos mesmo lascados.

Pablo Ortellado* - Indignação impassível

- Folha de S. Paulo

Vídeo de ex-secretário gera reações de júbilo que nos distraem da missão política de desarmar o bolsonarismo

Vivemos uma espécie de paradoxo. Crise após crise ficamos apavorados com o futuro da democracia no Brasil. Mas não estamos propriamente reagindo. É verdade que nos indignamos, mas é uma mistura de indignação com inação. Assistimos a tudo chocados, revoltados, porém, apáticos.

Em artigo na revista Piauí, Marcos Nobre descreveu assim o paradoxo: “Mesmo quem considera que a situação é gravíssima age como se estivéssemos diante de um governo normal. Há um descolamento flagrante entre repetir à exaustão que a democracia está em risco e a ausência do sentido de urgência que deveria acompanhar essa constatação”.

Por que estamos desorientados, sem qualquer capacidade de reação efetiva? Nossa única reação parece ser a de nos indignar e culpar a parcela de eleitores que elegeu e agora apoia Bolsonaro. É como se o reforço de nossa identidade funcionasse como substituto da ação política. Somos, ao que parece, reféns de identidades políticas hipertrofiadas.

Muitos não esconderam o júbilo quando as referências conceituais e estéticas do vídeo de Alvim emergiram. É nazismo! E, se é nazismo, somos antinazistas, e se somos antinazistas, estamos, mais do que nunca, do lado certo da história.

Joel Pinheiro da Fonseca* - O mercado não se importa com a democracia?

- Folha de S. Paulo

Não existe incoerência entre PIB em crescimento e repressão em alta; é só ver a China

Um medidor da qualidade da água de um rio mede apenas a água que passa por ele e, se o faz com precisão, cumpre bem sua função. Ninguém esperaria que seus números refletissem também o nível de desemprego no país, a desnutrição infantil ou a chance de o país entrar em guerra.

Indicadores econômicos e números do mercado financeiro seguem a mesma lógica: nos informam acerca de um recorte da realidade, e só. Se a bolsa bate novos recordes, significa que os investidores estão otimistas com o desempenho futuro das empresas ali negociadas, não da seleção de futebol ou da democracia brasileira.

Em última análise, o desempenho das empresas depende do comportamento dos consumidores e outros participantes do mercado. Você vai mudar seu consumo, deixar de comprar leite ou carne, por causa do discurso nazista do ex-secretário da Cultura? Vai pedir demissão do seu emprego? O governo também não mudará seus gastos e nem sua arrecadação. Assim, por mais que a agenda cultural aponte para um retrocesso das artes, não há motivo evidente para que isso devesse gerar queda na bolsa ou alta da taxa de câmbio.

Entrevista | Leandro Karnal: ‘Moro e Dallagnol são dotados de um certo tenentismo’

Historiador diz que atuação do ex-juiz e atual ministro e do procurador da República se compara ao movimento de oficiais do Exército na década de 1920 que buscava reformar o País ‘para o bem e para o mal’; segundo ele, ‘papel messiânico do Estado’ une Bolsonaro e Lula

Vinícius Passarelli e Eduardo Kattah – O Estado de S. Paulo

Quase três anos após apagar das redes sociais uma foto na qual aparecia jantando com o ex-juiz Sérgio Moro, o que lhe rendeu críticas e muitas ameaças, o historiador Leandro Karnal afirma que personalidades como Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol trazem elementos de um “certo tenentismo” à política brasileira. Trata-se de uma referência ao movimento oposicionista de oficiais do Exército na década de 1920.

“Esse tenentismo é reformador do País. Seja na década de 1920, com tenentes conservadores ou de esquerda, seja depois quando esses tenentes se tornam generais em 1964. Esses tenentes continuam querendo transformar o Brasil, para o bem e para o mal”, compara.

Em entrevista ao Estado, Karnal também diz que a crença em um “papel messiânico” do Estado une o presidente Jair Bolsonaro ao ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva. “(É a crença de que) O Estado vai salvar a família, o Estado vai tirar os pobres da miséria, o Estado vai dar emprego, o Estado vai impedir o comunismo, o Estado vai implantar o socialismo: o Estado tem papel messiânico.”

Karnal recebeu a equipe do Estado na manhã da quinta-feira passada em seu confortável apartamento nos bairro dos Jardins, em São Paulo. Uma entrevista em que se comprometeu e estava disposto a falar de política.

Leia os principais trechos:

• Como avalia o primeiro ano do governo Bolsonaro? Durante as eleições de 2018, em entrevista ao ‘Estado’, o senhor identificou um sentimento de “vingança” na sociedade brasileira. Esse sentimento permanece?

Quando Bolsonaro assumiu, houve esse sentimento. Eu sou ligado à universidade e muitos diziam: “Acabou, é o fim, não vai existir mais vida civilizada depois disso”. Acho que a grande surpresa para todos é que o Bolsonaro é um homem que na prática vem cumprindo o que prometia (risos. Nós achávamos que era um pouco discurso de campanha, que era para o eleitorado, que como todo político ia fazer um discurso e depois uma prática mais conciliadora, como o fizeram Lula e Fernando Henrique. O Bolsonaro de fato cumpriu (as promessas). Ele fez uma conversão pessoal porque ele não era um liberal há 30 anos, ele não era adepto de um Estado mínimo, não era um leitor da Adam Smith, com certeza. Ele era um militar com perfil talvez até do desafeto dele, o (Ernesto) Geisel: desenvolvimentista nacionalista estatizante. Agora, o governo é feito por muitas tendências políticas e existe uma coisa completamente diferente, por exemplo, entre o ministério do Guedes e talvez outros elementos do governo Bolsonaro. Mas o mundo não acabou, as coisas seguem.

• Bolsonaro na Presidência colocou ou coloca em risco a democracia? Em artigo recente, o cientista político Carlos Pereira afirma que “é possível que as reações da sociedade às transgressões de Bolsonaro às normas de civilidade democrática possam fortalecer ainda mais a democracia”. O sr. concorda com essa ideia?

O Brasil enfrentou um doloroso processo de impeachment do Collor e um doloroso processo de impeachment da Dilma e chega ao governo Bolsonaro, que tem feito declarações que não são as clássicas que se espera de um governo no sentido da defesa do Estado Democrático de Direito. Uma coisa é o discurso, outra coisa é a prática. A democracia, arranhada nos discursos e em algumas práticas, sobrevive. Nós temos instituições. O presidente do Supremo está lá exercendo seu poder por indicação de um partido de oposição a Bolsonaro. A liberdade do Executivo no Brasil é um pouco menor do que as pessoas imaginam, apesar de ter uma quantidade gigantesca de cargos a indicar. A democracia está sempre em risco pela própria existência do Estado, o grande risco democrático é a existência do Estado. Acho que tanto a esquerda tradicional quanto o governo Bolsonaro, mais conservador e de direita, acreditam no papel messiânico do Estado. O Estado vai salvar a família, o Estado vai tirar os pobres da miséria, o Estado vai dar emprego, o Estado vai impedir o comunismo, o Estado vai implantar o socialismo: o Estado tem papel messiânico, vai redimir a sociedade e vai apontar o caminho. Na verdade, o que une Bolsonaro e Lula, entre tantas coisas diferentes, é a crença no Estado.

• O presidente não poupa ataques à imprensa e, mais recentemente, tem adotado um discurso vitimizante, dizendo que recebe “pancada” de todos os lados. É uma espécie de “coitadismo” do chefe da Nação?

Eu acho que Bolsonaro erra ao atacar a imprensa. Acho que culpar o termômetro pela febre é sempre uma estratégia ruim. Você deve lembrar que o Estadão era atacado pelo governo Lula por ser conservador, ou por ser antipetista, agora é atacado pelo governo Bolsonaro por ser de esquerda ou antibolsonarista. O principal sintoma que a democracia vai bem é uma imprensa atacada, no sentido de que se a imprensa começar a ser louvada, se os governos começarem a dizer que a imprensa está agindo corretamente e de forma patriótica, aí a democracia terminou. A liberdade de imprensa é algo extraordinariamente basilar, fundamental, estruturante do Estado Democrático de Direito. Eu sinto o governo Bolsonaro e seu primeiro escalão pouco acostumados ao fato de que o exercício de cargo na democracia pressupõe ataques. Se ele sentasse para ler as opiniões dos jornais londrinos sobre o primeiro ministro, um conservador, ele diria que o Estadão, a Folha e a Globo têm filiais em Londres, porque eu achei o tom da imprensa britânica menos respeitoso do que a grande imprensa brasileira. E em nenhum momento o primeiro ministro inglês (Boris Johnson) foi à TV dizer que há um plano orquestrado para acabar com o seu governo. Enquanto houver críticas do governo Bolsonaro à imprensa, eu fecho meu jornal pela manhã feliz, esse Brasil ainda está funcionando.