terça-feira, 14 de setembro de 2021

Merval Pereira - Nem, nem

O Globo

Não vai ter golpe, nem impeachment. E talvez nem candidato único como terceira via. Assim como as multidões que estiveram nas ruas no 7 de Setembro apoiando Bolsonaro não impediram que ele fosse derrotado — tanto que teve de recuar —, a falta de pessoas em número expressivo nas manifestações do fim de semana não quer dizer que ele tenha maioria, como insinuou.

Bolsonaro teve uma máquina de organização muito afiada — parecia o PT nos áureos tempos, com o sindicalismo mobilizando as massas. Mas as próximas pesquisas de opinião provavelmente mostrarão Bolsonaro caindo para o que pode ser seu chão, cerca de 20% de apoiadores.

As manifestações não foram um fracasso, mas sinal de que não há condições políticas para o impeachment. Também foi um erro convocá-las pouco tempo depois do êxito das em favor de Bolsonaro. A carta que o ex-presidente Michel Temer negociou e essa demonstração fraca de apoio ao impeachment mostram que Bolsonaro ainda tem algum fôlego para seguir adiante.

Se ele não fizer alguma grande loucura, poderá chegar ao final do governo em campanha, com as vantagens que a estrutura do governo oferece na reeleição. Mas sua situação eleitoralmente continua frágil, embora esteja difícil conseguir um nome que una todos os lados na terceira via, o que poderá acontecer durante a campanha, que irá descartando candidaturas que não tenham força popular.

Carlos Andreazza - O tamanho do impeachment

O Globo

As manifestações de 12 de setembro foram pequenas. Expressaram o tamanho atual da mobilização pelo impeachment de Jair Bolsonaro. Atenção para o recorte: expressaram o tamanho não do “Fora Bolsonaro”, que tem uma dimensão eleitoral influente, mas das possibilidades de impeachment hoje.

Claro que é uma fotografia. Sabe-se que o ritmo do que se pretende capturar é dinâmico. Há também a memória de como se iniciou, com volume modesto de gentes nas ruas, o movimento que resultaria na queda de Dilma Rousseff. A leitura do retrato de domingo, porém, não deixa dúvida: o espaço é pequeno e vai encaixotado.

Se os atos golpistas de 7 de Setembro tiveram o tamanho de Bolsonaro, os do último domingo expressaram a dimensão das chances correntes de o impedimento do presidente prosperar. Será intelectualmente desonesto, contudo, comparar os dois eventos. Um era o populista por inteiro, com seus limites, mas empurrado pelo espírito personalista do tempo. O outro, uma ideia — com sua impessoalidade e outros limites. O maior deles: a véspera do ano eleitoral — corrida já deflagrada.

A manifestação bolsonarista foi produto de longa jornada de divulgação, com coordenação profissional, centralizada em Bolsonaro e difundida por ele desde o Planalto, alçada mesmo à condição de agenda de governo, e com muito dinheiro. Parte de um programa desdobrado desde 2019, considerado que o presidente nunca teve outra atividade, uma vez empossado, senão operar, à margem da política, por continuar na cadeira. Um conjunto — incluídos os atos golpistas — que compõe a campanha por ficar no poder, não necessariamente por meio de eleição, tocada sob a linguagem do populismo autoritário, a do 7 de Setembro permanente, e dedicada ao culto do mito.

Entrevista | Carlos Melo, cientista político: 'Protestos vazios cobram preço político'

Para analista, contradições na convocação e carta de Bolsonaro com aceno ao STF esfriaram manifestações contra o governo

Guilherme Caetano / O Globo

SÃO PAULO — As imagens da Avenida Paulista com uma presença modesta de manifestantes contra Jair Bolsonaro rodaram as redes, utilizadas à esquerda e à direita como mostra do insucesso do protesto. Para o cientista político Carlos Melo, do Insper, os organizadores cometeram um erro ao realizar um ato com baixa adesão — e isso pode cobrar um preço. Mas isso, diz ele, não representa o potencial eleitoral dos grupos políticos. Melo diz que o esvaziamento do protesto começou em contradições na própria convocação e que a carta elaborada por Michel Temer, publicada via Palácio do Planalto, arrefeceu o sentimento de que seria preciso uma resposta rápida a um iminente golpe por parte de Bolsonaro. Para o cientista político, a centro-direita precisa se "fulanizar" em torno de um nome antes de buscar uma união com a esquerda: "enquanto a chamada terceira via não tiver um rosto, a dispersão é natural".

A reprovação ao governo federal é aproximadamente o dobro da aprovação, de acordo com as últimas pesquisas. Mas o ato do domingo, convocado por MBL, Vem Pra Rua e Livres contra Bolsonaro, não conseguiu encher mais de duas quadras da Avenida Paulista. Por que essa dificuldade?

Me parece ter um problema com a convocação do ato, que desde o princípio foi convocado para ser "nem Lula nem Bolsonaro". Depois de quarta-feira (pós 7 de Setembro), ele muda sua natureza, então já tem um problema aí. Estamos falando de apenas quatro dias (até o domingo da manifestação). Além disso, existiram vetos cruzados em todo esse antibolsonarismo. Vimos pessoas do PT dizendo que não participariam de atos junto do MBL, Vem Pra Rua, mas também houve pessoas como o (deputado federal) Marcel van Hattem (Novo-RS) dizendo que "o ato que era para ser 'nem Lula nem Bolsonaro' se transformou em 'fora, Bolsonaro' e daqui a pouco vira 'volta, Lula'". Por fim, houve acordos que não foram cumpridos. O sujeito de esquerda que se prepara para sair de casa (e ir ao ato) e vê aquele pixuleco enorme (boneco inflável de Bolsonaro equiparado a Lula), ele não vai mais. Esse foi um ponto de divergência entre os organizadores.

O protagonismo do MBL, que tem histórico de ataques à esquerda e engajamento no impeachment de Dilma, também interferiu na baixa adesão?

Ressentimentos políticos existem e são marcantes, mas eles fazem parte. A superação desses ressentimentos se dá ao longo do tempo e precisa ser operado politicamente. Não é do dia 7 para o dia 12 que esse negócio vai ser feito. Esse processo foi atropelado pelo que decorreu do discurso do Bolsonaro (no 7 de Setembro).

Luiz Carlos Azedo - Oposição é forte, mas dividida

Correio Braziliense

O PT não facilitará a vida de nenhum candidato de oposição. Pelo contrário, tentará mostrar nas próximas manifestações que é a única força capaz de derrotar Bolsonaro

Convocados por dois grandes movimentos cívicos que emergiram a partir das manifestações de junho de 2013, no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, o MBL (Movimento Brasil Livre) e o VPR ( Vem Pra Rua), os protestos de domingo passado receberam a adesão dos partidos de oposição moderada e alguns pré-candidatos a presidente da República, como o ex-governador cearense Ciro Gomes (PDT), o governador paulista João Doria (PSDB), a senadora Simone Tebet (MDB), o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e o ex-candidato a presidente da República João Amoedo (Novo). O PT, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e o PSol boicotaram os atos, que nem de muito longe tiveram a força das mani- festações realizadas em apoio ao presidente Jair Bolsonaro, no Dia da Independência, 7 de setembro. Por quê?

Não existe um motivo apenas. Sem hierarquizar, podemos enumerar alguns, a começar pelo fato de que os organizadores do evento fizeram tudo o que podiam para restringir a presença dos partidos de esquerda, inclusive proibindo bandeiras vermelhas. De outra parte, não havia também nenhuma grande motivação por parte desses partidos para partici- par de um evento no qual a palavra de ordem “Nem Bolsonaro nem Lula” era, literalmente, o pano de fundo. Mas essa foi uma disputa de bastidores da organização do evento. Com a ressalva de que toda manifestação em defesa da democracia deve ser saudada, uma avaliação serena leva à inevitável conclusão de que as ambições de seus organizadores foram frustradas. Não por acaso, o presidente Jair Bolsonaro disse que seus opositores “são dignos de dó, de pena”, na manhã de ontem, à saída do Palácio da Alvorada.

Joel Pinheiro da Fonseca - No mercado das ideias, as melhores vencem?

Folha de S. Paulo

Notícia que confirma visão de mundo do leitor é aceita de pronto, enquanto a que a contradiz irrita

Para que um debate público minimamente realista e produtivo ocorra, é preciso que as pessoas sejam alimentadas com informações corretas.

No passado, uma estrutura cara —e imperfeita— composta de checagem, treinamento profissional, códigos de conduta e reputação dava uma garantia de qualidade mínima à informação veiculada pela imprensa. As grandes empresas que dominavam o mercado faziam um trabalho de filtragem do que chegava ou não chegava ao grande público.

Hoje, os meios de divulgação, antes caros, se tornaram triviais. Qualquer pessoa com acesso à internet pode fazer perfis gratuitos nas redes sociais e veicular suas ideias. Qualquer um com conhecimento básico de edição de texto e imagem pode criar suas “notícias”, verdadeiras ou falsas, e difundi-las. O poder de filtragem da imprensa —cuja estrutura continua cara— caiu por terra.

O mercado é excelente para entregar às pessoas o que elas querem, sem juízos de valor, de comida a notícias. Num mercado de livre concorrência, os milhares ou milhões de fornecedores competirão para entregar notícias, opiniões e ideias que melhor satisfaçam o desejo dos consumidores. Isso significa que as melhores ideias vencerão? Será o mercado de ideias, por si mesmo, o melhor filtro para separar o verdadeiro do falso?

Hélio Schwartsman - Bolsonaro é macho?

Folha de S. Paulo

Sua atitude covarde de culpar terceiros não combina com o ideal de virilidade

O assunto é delicado, mas não vejo como possamos furtar-nos a ele. A pergunta se impõe: Bolsonaro é macho? E vão se acumulando indícios de que não é. Antes de prosseguir, gostaria de dizer que, pessoalmente, não penso que a virilidade seja uma característica desejável na política. Pelo contrário, creio que ganharíamos se as decisões que mais afetam a sociedade fossem tomadas com base não em testosterona, mas em ponderações racionais.

O presidente, porém, parece ter uma visão diferente da minha. Ele já deu várias declarações sugestivas de que erige confusas idealizações em torno da hombridade em ponto central tanto para sua ética pessoal como para a própria autoimagem. Para não nos alongarmos muito, lembro apenas que Bolsonaro já disse preferir ver um filho seu morrer a aparecer "com um bigodudo por aí" e que qualificou como "fraquejada" o fato de ter gerado uma filha em seu último ciclo reprodutivo.

Eliane Cantanhêde – ‘Dignos de dó’

O Estado de S. Paulo

Oposições deram vexame no domingo e ainda têm de engolir a ironia de Jair Bolsonaro

O grande vitorioso dos atos de protesto do domingo, 12 de setembro, assim como do Dia da Pátria, 7 de setembro, foi o mesmo: o presidente e candidato à reeleição Jair Bolsonaro. Além de mobilizar as suas tropas a seu favor, ele é beneficiado pela incapacidade de os comandos adversários se unirem e atraírem as próprias tropas às ruas.

O grande troféu de Bolsonaro circula freneticamente nas redes sociais: as imagens comparando as manifestações a favor, gigantescas, e os atos contrários, minguados, desenxabidos. E ele não se fez de rogado, ao ironizar seus opositores como “dignos de dó”.

Doze partidos tentam articular uma frente ampla, um resgate do espírito das Diretas-Já, de 1984, para enfrentar o inimigo comum: Jair Bolsonaro, que traz com ele ameaça de golpe e à harmonia entre os Poderes e ao equilíbrio federativo. O efeito mais visível é na economia. O mais dramático é a miséria crescente.

Felipe Salto* - Cordeiro em pele de cordeiro

O Estado de S. Paulo

No ambiente criado por Bolsonaro, não há a menor possibilidade de avançar com as reformas.

Winston Churchill costumava referir-se a Clement Attlee, líder trabalhista, por meio dessa versão modificada da conhecida expressão “lobo em pele de cordeiro”. A alcunha ajeita-se perfeitamente ao perfil do presidente Jair Bolsonaro. Ele não governa a partir de um ideário e de um plano construído com o Congresso Nacional, como se espera no modelo presidencialista vigente. Planta o caos, cria canais diretos com seus seguidores mais radicais, ignora a importância do equilíbrio institucional e, quando julga ter passado do tom, volta atrás. Neste ambiente, não há a menor possibilidade de o País avançar na agenda de reformas. A direção simetricamente oposta é a mais provável: retroceder nas áreas tributária, social, econômica e fiscal.

A famigerada carta veiculada após as manifestações do 7 de setembro não é senão um recuo, mas com prazo de validade. Enquanto isso, o País padece em meio à inflação de 10%, ao desemprego e à ausência de rumo em todas as áreas. Perde-se tempo e vidas continuam sendo ceifadas pela pandemia e pela crise econômica e social. Entretanto, o que importa ao chefe do Poder Executivo e a seus auxiliares é plantar tempestades para, então, acenar com uma aparente diástole. Ocorre que essa instabilidade não passa incólume. A economia vai crescer abaixo de 2% no ano que vem. No segundo semestre de 2021, deve ficar estacionada, no melhor dos cenários – isto é, se não houver uma crise energética e hídrica, como muitos já preveem.

Andrea Jubé - A eleição-unicórnio

Valor Econômico

Reviravolta sobre Lula em 1994 anima a terceira via

A articulação por uma alternativa de fôlego à polarização entre o presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sucessão presidencial aguçou a criatividade dos estrategistas políticos.

A novidade é a apropriação de um termo da economia, da mitologia grega - e, por que não, da literatura brasileira - para designar a próxima eleição presidencial, caso o postulante da terceira via ultrapasse Lula e Bolsonaro, e numa espécie de duplo twist carpado, vença o pleito, ou pelo menos, garanta uma vaga no segundo turno.

Essa possibilidade, considerada ainda remota entre raposas políticas e analistas experientes, passou a ser chamada em algumas rodas em Brasília de “eleição-unicórnio”.

Na economia, o termo foi criado pela investidora do Vale do Silício Aileen Lee para batizar as startups que atingem a marca de US$ 1 bilhão em valor de mercado.

Luiz Gonzaga Belluzzo* - Os bárbaros ameaçam a República

Valor Econômico

Talvez estejamos numa empreitada verdadeiramente subversiva em seu paradoxo: a construção da República dos Bárbaros

Em entrevista concedida a Bob Woodward na Casa Branca, Donald Trump confessou: “Eu boto a raiva para fora. Eu boto a raiva para fora. Sempre gostei. Eu não sei se isso é um ativo ou um passivo, mas seja o que for, eu faço”. Trump exprime o declínio dos valores e das ideias que inspiraram os Estados Unidos na construção da chamada ordem mundial do pós-Guerra. Terminado o conflito, as forças vitoriosas, democráticas e antifascistas trataram de criar instituições destinadas a impedir a repetição da desordem destrutiva que nascera da rivalidade entre as potências e da economia destravada.

Nos idos de 2018, Martin Wolf, editor do Financial Times, denunciou as manobras de Donald Trump para implodir a ordem mundial. “São características destacadas do comportamento de Trump suas invenções, sua autocomiseração e sua prática da intimidação: os outros, inclusive os aliados históricos, estão “zombando de nós” em relação ao clima ou “nos enganando” em relação ao comércio exterior. A União Europeia, argumenta ele, “foi implantada para tirar proveito dos EUA, certo? Não mais... Esse tempo acabou”.

O filósofo Fredric Jameson, no livro “A Cultura do Dinheiro”, advertia no início do milênio: “Os quatro pilares ideológicos, jurídicos e morais do alto capitalismo - constituições, contratos, cidadania e sociedade civil - são, hoje, vadios maltrapilhos, mas sempre lavados, barbeados e vestidos com roupas novas para esconder sua verdadeira situação de penúria”.

O magnífico projeto iluminista-burguês da liberdade, igualdade e fraternidade, avaliado em seus próprios termos e objetivos, está fazendo água diante da alucinante e alucinada competição entre as sociedades e suas lideranças para mergulhar o planeta nos esgotos da barbárie.

Edu Lyra - Favela, uma nova Amazônia

O Globo

O mundo se comove com a situação da Amazônia. Com razão: a floresta é uma das mais ricas em biodiversidade, serve de morada a vários povos originários e desempenha papel fundamental na regulação do clima. Se a Amazônia está em perigo, o planeta está em perigo.

Como os países já entenderam essa lição, há engajamento em escala global. O mundo desenvolvido faz aportes milionários para garantir a preservação da floresta e implementa sanções econômicas a quem insiste em lucrar com a destruição do bioma. A Amazônia é percebida como um desafio para a humanidade, e isso une lideranças políticas e empresariais dos quatro cantos do mundo.

A favela precisa se tornar uma nova Amazônia. A comunidade global precisa aprender que a miséria em qualquer parte é uma ameaça concreta à estabilidade do mundo. Logo, a situação da favela é também problema de todos nós.

Míriam Leitão - Os muitos riscos dos indígenas do Brasil

O Globo

Os indígenas brasileiros vivem várias aflições e emergências, enquanto o Brasil, mergulhado em crises, mal tem tempo para refletir. No Supremo, o debate do marco temporal afetará todos os povos. Para o bem ou para o mal. O julgamento será retomado amanhã. Na Funai estão vencendo portarias que protegem áreas onde estão índios isolados. O tempo corre para populações que nem têm entendimento do que se passa neste Brasil conflagrado. Sábado que vem expira a portaria que protegeu uma área em Mato Grosso, onde estão remanescentes dos Piripkura. Há outras. Renová-las é questão de vida ou morte.

— Nós estamos num momento de muito perigo para os índios isolados com a questão das portarias. Nós temos os Piripkura, Katawixi, Pirititi, Ituna Itatá. Se as portarias que protegem as áreas não forem renovadas — e a Funai não parece preocupada — isso vai deixar nossos parentes isolados ainda mais vulneráveis — diz Beto Marubo, representante da União dos Povos do Vale do Javari (Unijava), região onde há mais indígenas isolados no mundo e membro do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados (OPI).

Cláudio de Oliveira* - Só com unidade os democratas prevalecerão sobre o golpismo

Um dos possíveis motivos pelos quais as manifestações convocadas pelo MBL e o VPR não tenham sido massivas talvez seja o fato de que elas não foram efetivamente unitárias. Em muitos desses atos pelo Brasil havia cartazes e bandeiras contra Lula e o PT e houve registros de incidentes com partidários do candidato do PDT, Ciro Gomes. 

Para que os protestos contra Bolsonaro sejam unitários é necessário que os atos contem com o consenso de todas as forças políticas democráticas. Candidaturas ou propostas de terceira via devem ser colocadas em espaços próprios, evitando a instrumentalização das manifestações.

A primeira tarefa dos democratas seria que movimentos sociais e partidos políticos democráticos se sentassem à mesa para eleger uma coordenação conjunta que estabelecesse algumas questões.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - Cenário de desvarios

Vota-se num corrupto para se livrar de um louco, ou em um louco para se livrar de um corrupto.

Transita-se neste momento no Brasil por um ambiente de asilo machadiano, com “casa verde” para internação dos loucos e “revoltas de canjicas”. Semana passada, chegou-se ao ponto de querer tomar as terras centenárias de mais de 100 etnias indígenas. O tema continua em pauta. As ruas parecem legitimar o cenário de desvarios.

Longe de qualquer autocrítica, quando o Presidente da República agride os pares ou vacila na tomada de decisões – arrouba-se a ir à frente ou caminhar para trás -  dá-se a impressão de que ele gera os elementos de que precisam os doutores Barcamartes para interná-lo.   

Os cidadãos vão às ruas sem conseguir enxergar que o Produto Interno (PIB) está caindo, a inflação e os juros subindo, as taxas de desemprego aumentando e o descrédito do Brasil se espalhando pelo mundo.  Os problemas internos vem se acumulando há anos, não apenas por desvios históricos de conduta, mas também, e sobretudo, pela falta de soluções e competência para gerir a coisa pública.

Desapareceu a tecnocracia de Estado. O País vem sendo governado por quem não consegue distinguir o patrimônio e o interesse público. O governo Bolsonaro não fica atrás.  As equipes que tem assumido as rédeas do Poder tem dificuldade de compreender os dilemas e as prioridades nacionais, bem como de avaliar as repercussões dos desafios que vão se acumulando.  O atual Presidente, se sabe disso, procura contornar, ganhando tempo com divagações no campo da política, e assim cavalga sobre os dilemas cotidianos da população.

  As agressões e provocações repetidas insanas e sistematicamente são vistas pelo educador Rudolf Steiner, no seu estudo sobre o comportamentos humanos, como “bases anímicas e enigmáticas”, cuja culpa pode ser atribuída à flácida legislação eleitoral brasileira. Comportamentos estranhos podem    desembocar mesmo em um estado de loucura e, pragmático, até mesmo em um impeachment. Seria um outro longo sofrimento para os brasileiros, pois o País para de vez. O da Dilma demorou seis meses.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

A democracia não é uma foto

O Estado de S. Paulo

O dia 12 de setembro mostrou que o caminho não está deserto e pessoas de diferentes correntes ideológicas decidiram trilhá-lo

O presidente Jair Bolsonaro queria uma foto no dia 7 de setembro. Sua expectativa era de que uma imagem pudesse contradizer as pesquisas de opinião, que vêm constatando o crescimento da rejeição e da desaprovação de seu governo. Bolsonaro obteve a foto com seus apoiadores na Avenida Paulista, mas a indesmentível realidade permanece. O presidente nunca teve tão pouco apoio popular e, principalmente, continua a negligenciar os gravíssimos problemas do País.

Já as manifestações do domingo passado talvez tenham frustrado quem queria obter com elas uma foto da oposição a Jair Bolsonaro. A rejeição aos abusos, negacionismos e irresponsabilidades do governo federal é inequivocamente maior do que a imagem obtida com os eventos do dia 12 de setembro. De toda forma, o que ocorreu no último domingo revela dois importantes fatos para o futuro da democracia brasileira.

Houve uma inédita reunião de forças políticas, bastante divergentes entre si, em torno de uma causa comum. Deixando de lado evidentes diferenças ideológicas, lideranças da sociedade se uniram em defesa da democracia. Um mesmo palanque recebeu pessoas muito diferentes, que estavam ali por um único motivo: expressar sua insatisfação com o autoritarismo de Jair Bolsonaro.

Se o número de manifestantes pode dar margem a que bolsonaristas desdenhem dos atos de 12 de setembro, a reunião inédita na história recente do País de pessoas com propostas políticas tão diferentes revela uma novidade que não convém desprezar. A comparação meramente quantitativa entre os eventos de terça-feira e de domingo não é apenas injusta pela disparidade de recursos empregados e pela diferença entre o apoio a um político e a defesa de uma causa cívica. Ela é incapaz de captar a dimensão social e política do que ocorreu no domingo passado: um efetivo pluralismo de ideias e propostas em torno de uma causa comum.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Música | Casuarina. - Dissimulata + Minha Filosofia

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Marcus André Melo* - Ditadura do Judiciário?

Folha de S. Paulo

A hipérbole de abuso judicial sistêmico é ideia fora de lugar

Atribuída à Rui Barbosa, a afirmação de que a pior forma de ditadura é aquela exercida pelo poder Judiciário é repetida sem que, aparentemente, ele a tenha proferido. E mais: sem que ela seja consistente com sua visão das instituições. A expressão não faz sentido histórica ou conceitualmente; salvo como hipérbole para algum ativismo judicial e desacertos.

O agente do abuso do poder nos sistemas políticos modernos é o ocupante do Executivo, e em algumas raras situações, os corpos legislativos. Nos sistemas políticos pré-modernos —regimes sultanísticos e autocracias dinásticas— há uma indiferenciação de poderes; neles “ditadura togada” sequer faria sentido. Nas democracias, o abuso —quando ocorreu e produziu degeneração— deveu-se invariavelmente à usurpação pelo Executivo de funções judiciárias e legislativas.

Celso Rocha de Barros - Temer pode minar o impeachment

Folha de S. Paulo

Se acordão prosperar, não teremos de volta democracia saudável

Max Weber diria que “instituições são coisas que mandam Bolsonaro pra cadeia quando ele é pego em flagrante tentando golpe de Estado”. Ainda segundo o autor de “Economia e Sociedade”, “o resto são aqueles velhos puteiros de Copacabana em que policial corrupto negociava suborno com o tráfico”.

Douglass North, fundador do paradigma institucionalista na economia, celebremente teria dito, em seu discurso de aceitação do Nobel de 1993, que “se não prender o Jair em flagrante não é instituição, é coisa de corno”.

No final da noite de terça-feira, o Brasil inteiro tinha visto Bolsonaro tentando o golpe. Ninguém na imprensa se referiu ao golpismo como qualquer outra coisa. A esquerda, o centro e a direita, o mercado financeiro e o PSTU, a maioria que torcia contra e a minoria que torcia a favor, todos reconheceram facilmente o que viam com seus próprios olhos. Os caminhoneiros desolados diziam abertamente que foram chamados ali para dar um golpe e o golpe não veio.

Gaudêncio Torquato* - Como andará o humor do homem das ruas em 2022?

Folha de S. Paulo

Prevalecerão os melancólicos, cuja inibição se sobrepõe à excitação?

Uma simples interpretação sobre o comportamento dos instintos básicos do ser humano no campo da política induz à conclusão: a reeleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República dependerá do sucesso do eleitor em sua luta pela sobrevivência.

Implica, portanto, considerar os dois fatores básicos responsáveis pela conservação do indivíduo; o impulso combativo, que leva a pessoa a batalhar pela vida, enfrentando ameaças e buscando os meios mais adequados para resistir às intempéries, e o impulso nutritivo.

Este último responde pelas necessidades fisiológicas de alimentação, sem a qual o ser humano é condenado à inanição. Pois bem, postas as duas alavancas de sobrevivência, puxemos as duas frentes que balizam a situação do governo Bolsonaro: a pandemia, que exibe um rastro da má gestão, com quase 600 mil pessoas mortas no país e mais de 20 milhões de contaminados pelo coronavírus; e a economia, cuja fraqueza envolve o eleitor na seguinte equação: “bo+ba+co+ca” —ou seja, “bolso cheio”, “barriga satisfeita”, “coração agradecido” e “cabeça” propensa a votar em quem proporcionou a equação. A recíproca, barriga roncando de fome, levará ao desastre político do protagonista.

Denis Lerrer Rosenfield* - Temer e Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Qual será a lealdade do atual presidente: ao País ou aos seus seguidores mais empedernidos?

O surpreendente convite do presidente Bolsonaro ao ex-presidente Michel Temer para uma reunião no Palácio do Planalto, da qual resultou um documento da maior importância, pode tanto configurar uma inflexão do atual governo como uma trégua momentânea para reduzir os perigos de uma crise institucional. Inflexão no caso de o presidente Bolsonaro optar por governar, afastando o fantasma, cada vez mais presente, do impeachment, ou trégua visando a agrupar as suas forças para um novo assalto.

Tudo distingue o atual presidente do anterior. O atual é uma pessoa belicosa à procura incessante de conflitos. É como se fosse uma criança que, ao se levantar, se pergunta com quem vai brigar naquele dia. Seus dois anos e meio de governo foram caracterizados por embates sucessivos, sempre procurando criar um problema e potencializar um conflito. O anterior é uma pessoa calma, fidalgal, que se caracteriza pelo diálogo e pelo espírito de conciliação. Em seu governo, se via um problema, sempre procurava equacioná-lo num clima de pacificação. Nada os aproxima em termos de caráter, porém é aqui significativo que o presidente Bolsonaro tenha procurado o diálogo precisamente com ele. Foi uma atitude corajosa.

Carlos Melo* - Manifestações ficam aquém do potencial

O Estado de S. Paulo

A manifestação marca o descontentamento de boa parte da população, mas ficou aquém do potencial do antibolsonarismo. Sem ser gigante, não se configurou num marco na direção do impeachment. Vetos múltiplos, e a incompreensão de que se luta uma luta por vez, normalmente, somam zero.

A ausência de lideranças capazes de fechar feridas comprometeu o potencial do protesto e gerou desconfortos com o resultado. O grito retumbante do antibolsonarismo, hoje maior força política do País, ainda não foi dado.

Marcelo de Moraes - Palanque plural é boa notícia, mas faltou povo na rua

O Estado de S. Paulo

Abaixa mobilização popular nas manifestações feitas ontem pela oposição é um motivo de preocupação para seus participantes. Mesmo com as divergências amplamente conhecidas que afastaram partidos de esquerda, como PT e PSOL, do protesto, havia uma expectativa que os palanques da oposição pudessem estar bem mais cheios. Na prática, somente a manifestação de São Paulo teve presença razoável de apoiadores e, mesmo assim, ficou aquém do que se esperava.

Mas, na política, muitas vezes dá para se enxergar o meio copo vazio ou o meio copo cheio. E a boa notícia para a oposição neste fim de semana é o fato de terem reunido no mesmo palanque políticos tão diferentes – e importantes eleitoralmente – quanto Ciro Gomes, João Doria, Luiz Henrique Mandetta, Simone Tebet, Alessandro Vieira e João Amoêdo, entre outros. O palanque plural é um importante ponto de partida para que as forças que convergem na oposição ao presidente comecem a alinhar suas diferenças e afinar no que pode ser até uma candidatura presidencial única em 2022.

Mirtes Cordeiro* - Meia volta, volver!

 

Falou & Disse

Muitos apoiadores acham que o STF deve ser fechado porque querem prender os filhos do presidente; outros pensam que devem combater o comunismo, mas sequer sabem o significado da palavra.

“Insulto não é argumento. Ofensa não é Coragem. A incivilidade é uma derrota do espírito. A falta de compostura nos envergonha perante o mundo”, ressaltou Luís Roberto  Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“É crime de responsabilidade”, bradou o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Fux, contra o que poderia parecer mais uma arruaça.

Deu errado! Amanheceu o dia seguinte (08 de setembro) e Bolsonaro pediu novamente socorro ao ex-presidente Temer, que lá chegando – em Brasília – ‘arrolhou’, como diria o matuto. Com sua retórica de jurista e constitucionalista, Temer enquadrou Bolsonaro, que acabou assinando uma carta por muitos vista como de rendição, de recuo, como forma de tentar afastar a ameaça de impeachment que ganhou ainda mais força com os acontecimentos de 7 de Setembro.

Conta a história que em 1999 Bolsonaro já havia se socorrido da ajuda de Temer, então presidente da Câmara, para evitar sua cassação quando defendeu publicamente o fuzilamento do presidente Fernando Henrique Cardoso, o que revela a existência de um documento com retratação anterior a este, também escrito pelo próprio Temer.

“Nunca tive nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes. A harmonia entre eles não é vontade minha, mas determinação constitucional que todos, sem exceção, devem respeitar”, assinou Bolsonaro em sua Declaração à Nação.

Ninguém acreditou. Nem seus apoiadores, nem a maioria da população já cansada dos insultos diários. Pareceu mais uma crise de pânico… medo do impeachment…

Estamos na semana da ressaca… uma coisa parecida com o que deveria ser o que restou do juízo final. Afinal de contas, vivenciamos um mês de ameaças e convocação, pelo presidente da República, para o que seria o ajuste de contas com o STF e com o comunismo, mas são várias as interpretações diferentes, expressadas pelos convocados.

Muitos apoiadores acham que o STF deve ser fechado porque querem prender os filhos do presidente; outros pensam que devem combater o comunismo, mas sequer sabem o significado da palavra.

Bruno Carazza* - Dinheiro, política e democracia

Valor Econômico

Pesquisa revela o que o brasileiro pensa sobre o lobby

Existem diversas hipóteses para explicar a instabilidade política e o baixo crescimento econômico, fenômenos crônicos de nossa história, uma delas é nossa incrível capacidade de não extrair lições a cada crise que abala o país. Enquanto dissipamos nossa energia cívica em disputas ideológicas e eleitorais perdemos oportunidades de aperfeiçoar nossas instituições, até que um outro escândalo nos engolfa novamente.

Na última sexta-feira (10/09), o ministro da Justiça, Anderson Torres, reuniu-se em São Paulo com a diretoria da Federação Nacional dos Bancos, a Febraban. A justificativa oficial dada pela instituição foi que o objetivo era “iniciar tratativas para criação da Estratégia Nacional de Combate ao Crime Cibernético”. Difícil acreditar.

Anunciado poucas horas antes, o encontro se deu no dia seguinte às manobras de Michel Temer para acalmar o presidente (e o mercado) - e é bom lembrar que a Febraban havia rachado a respeito dos atos de Sete de Setembro insuflados por Bolsonaro. Contudo, provavelmente nunca saberemos o que exatamente foi tratado entre o ministro e os banqueiros, pois a reunião foi realizada a portas fechadas, sem a presença da imprensa.

Alex Ribeiro - A taxa Selic vai voltar para os dois dígitos?

Valor Econômico

Projeção de inflação do Copom vai dar parâmetro para juro

Os dois últimos índices mensais de inflação, mais salgados do que o esperado, provocaram uma boa puxada nos juros negociados no mercado financeiro. Alguns analistas econômicos já mencionam a hipótese de a taxa Selic voltar aos dois dígitos, algo que não acontece desde 2017. Seria um exagero?

Esse movimento foi alimentado pelo próprio Banco Central, para recompor o pedaço de sua credibilidade que havia perdido no começo do ciclo de aperto, quando sinalizou que iria retirar apenas parte dos estímulos monetários. O discurso do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC é que vai levar a taxa básica para o campo restritivo e que vai fazer o que for preciso para cumprir as metas de inflação.

Fernando Gabeira - Pintando o sete

O Globo

Escrevo com antecedência habitual num hotel da Bahia. É perigoso escrever com alguma antecedência no Brasil. Segunda-feira nunca se sabe o que será.

Bolsonaro sequestrou o 7 de Setembro, transformando uma data nacional num evento partidário. Confesso que hesitei sobre o tema da semana passada. Pensei em escrever algo sobre como escapar dos primeiros efeitos do golpe de Estado.

Infelizmente, é essa a minha experiência. Gostaria de transmitir algo sobre reaproveitamento de alimentos ou como fazer móveis em casa. Mas o que retive foi como escapar nos primeiros e confusos momentos de um golpe.

Optei por uma outra análise e escrevi que tudo acabaria na quarta-feira. Esqueci que, no carnaval, alguns blocos resilientes saem às ruas mesmo com as cinzas.

Foi assim que vi os caminhoneiros nos 20 bloqueios pelos quais passei até chegar aqui. Eles não sabiam que tudo acabou. No Sul da Bahia, vi dois deles sentados no para-choque e pensei naquele soldado japonês que passou anos sem saber que a guerra acabara.

De fato, não acabou totalmente. Mas era evidente que Bolsonaro não tinha nada de durável a propor. Quando anunciou que reuniria o Conselho da República para mostrar a foto da multidão, era evidente que estava perdido.

Miguel de Almeida - Bozo, o pé-frio

O Globo

A foto mais impressionante do 7 de Setembro golpista não foi a da mirrada multidão na Paulista — os 125 mil tiozinhos são um dízimo perto dos 3 milhões da Parada Gay de 2019. Longe dali, na Praia de Copacabana, o mais chocante registro trazia o inefável Fabrício Queiroz tirando selfies com fãs.

Selfies com Queiroz!

A degradação dos militantes forjados nas redes sociais aos poucos constitui seu panteão agônico, numa galeria com Sara Giromini, Roberto Jefferson e Daniel Silveira. E, agora, o acovardado Zé Trovão.

Em comum entre eles, as grades e as tornozeleiras. Com exceção do Queiroz, todos covardemente abandonados pelo Bozo no campo de batalha. Um general não deixa seus soldados ao léu. Para a turma alimentada via Pix (até Alexandre de Moraes interromper o fluxo), não ocorreu que acendem vela para um prosaico capitão reformado — antes um tenente que planejou ato terrorista.

Obnubilados pelos tuítes, assombrados pela sintaxe bozofrênica, mesmo sendo abatidos como moscas, ainda não se deram conta de ter amarrado seus burros a um tremendo pé-frio. Soubesse distinguir o dedo mindinho do polegar, ou mesmo altura de comprimento, uma dedicada militante como a zureta da Carla Zambelli logo identificaria o Capitão Urucubaca.

Irapuã Santana - Dois protestos, um país

O Globo

Como se já não tivesse muita coisa com que lidar no seu dia a dia, o brasileiro se vê no meio de um turbilhão político.

No dia 7 de setembro, muita gente saiu às ruas em apoio ao presidente Jair Bolsonaro e às suas pautas contra o STF e a esquerda.

De outro lado, foi organizada uma manifestação pedindo o impeachment do nosso chefe de Estado. Mano Ferreira, diretor de comunicação da associação Livres, afirma que Bolsonaro gabaritou a lei de crime de responsabilidade e que precisa sair do cargo para o bem do país.

É preciso deixar claro, neste primeiro momento, que os fundamentos sobre os quais foram construídos os dois movimentos estão cobertos pela liberdade de expressão. O próprio STF já se posicionou a esse respeito, quando do julgamento da Marcha da Maconha.

Antônio Gois - Estresse institucional

O Globo

A política do confronto permanente praticada pelo governo Bolsonaro vem testando nossas instituições democráticas à exaustão. Enquanto problemas reais se acumulam – desemprego, inflação, crise energética... -, nossas energias foram sugadas na semana passada para agendas que em nada dialogam com as prioridades urgentes do país. Esse modus operandi não se restringe apenas à política. Em maior ou menor grau, está em todas as áreas, inclusive na educação.

Um pequeno exemplo do desgaste que essa postura traz pôde ser visto no debate a respeito da isenção de taxa no Enem para candidatos que haviam faltado ao exame de 2020, ocorrido ainda em período intenso da pandemia. Apesar do pleito de secretários, parlamentares, estudantes e movimentos da sociedade civil, o ministro da Educação, Milton Ribeiro, vetou a possibilidade de gratuidade aos alunos que, segundo ele, “deram de ombro” ao Enem passado.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Senado tem de tirar excrescências do Código Eleitoral

O Globo

Não há como deixar de reconhecer os danos trazidos pela aprovação na Câmara do Novo Código Eleitoral. Na versão que passou pelo plenário, o projeto tem 898 artigos misturando dúzias de temas distintos. Passou por uma tramitação a jato, impedindo a discussão aprofundada que cada um mereceria. O motivo para a correria é a necessidade de aprovar tudo até outubro, para que as mudanças passem a valer já nas eleições de 2022.

Nas votações de destaques que ainda restam na Câmara e no trâmite pelo Senado será fundamental conter os danos, evitando que passem mudanças que resultem na piora evidente da qualidade da nossa democracia. As principais que os senadores deveriam barrar são: restrição a pesquisas, enfraquecimento da Lei da Ficha Limpa, limitações impostas à ação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), critérios mais frouxos para gastos com o fundo partidário, para a aprovação das contas de campanha e multas reduzidas em caso de reprovação.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - A Palavra

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.
Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.

Música | Casuarina - Jornal da Morte + Senhora Liberdade + Súplica Cearense