quarta-feira, 25 de maio de 2022

Vera Magalhães: O futuro não é mais como era antigamente

O Globo

Um dos livros que mais me impactaram nos últimos tempos, pela forma cirúrgica com que aponta como o contrato social firmado pelo mundo democrático depois das duas guerras mundiais não é mais válido para os desafios do presente e de um futuro que chega a galope todos os dias, foi escrito pela economista Minouche Shafik, diretora da London School of Economics. No Brasil, ganhou o título “Cuidar uns dos outros —Um novo contrato social”.

Tive a oportunidade de entrevistar a autora a respeito dos temas que ela reuniu para demonstrar como os arranjos institucionais, econômicos, educacionais, de proteção social e ambientais, entre outros, ficaram rapidamente obsoletos diante de uma realidade que já vinha em rápida mudança graças a fatores como tecnologia, avanço da emergência climática e novo perfil demográfico dos países, e como isso foi potencializado de forma dramática pela pandemia de Covid-19.

Ela mostra com dados por que é inadiável que o mundo democrático rediscuta o atual contrato social, sob pena de, muito rapidamente, mais nações se verem diante do apelo sedutor de líderes com discurso de radicalização populista e tendência autocrática, que seduzem crescentes contingentes de eleitores ao propor soluções falsamente simples para problemas complexos.

O que fez com que o livro continuasse martelando na minha cabeça, meses depois da leitura e da entrevista, é a inquietante constatação de que nem um único dos temas que Shafik aborda está sequer sendo esboçado na campanha presidencial brasileira.

Bernardo Mello Franco: A matança no palanque

O Globo

No início do mês, a Polícia Civil foi ao Jacarezinho e destruiu um monumento que lembrava os 28 mortos da operação mais letal da história do Rio. Dias depois, o governador Cláudio Castro visitou a favela e festejou o ato de truculência. Declarou que o memorial, erguido por ativistas de direitos humanos, fazia “apologia ao crime”.

Castro era vice de Wilson Witzel, um governador que fazia apologia da matança policial. O ex-juiz se elegeu na onda bolsonarista de 2018. A pretexto de combater o tráfico, lançou a doutrina do “tiro na cabecinha”.

O atual governador não se fantasia de Rambo, mas também confunde política de segurança com incentivo ao bangue-bangue. Seu chefe de polícia, Allan Turnowski, disse que gostaria de ocupar as favelas com tanques de guerra. O discurso tinha fins eleitoreiros: o delegado acaba de deixar o cargo para se candidatar a deputado pelo partido de Castro e Bolsonaro.

Luiz Carlos Azedo: Dragão da inflação contra mito guerreiro

Correio Braziliense

A Guerra da Ucrânia será uma desculpa para medidas que visam segurar os preços, reduzir impostos e mitigar o impacto da inflação no orçamento doméstico, principalmente na cesta básica de alimentos

Com perdão para o trocadilho — Glauber Rocha que nos perdoe —, o presidente Jair Bolsonaro está convencido de que seu maior adversário nas eleições é a inflação. Os números corroboram esse temor, pois a alta dos preços, principalmente dos combustíveis e dos alimentos, pode levar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva à vitória no primeiro turno. O que se discute no governo é a adoção de medidas de contingenciamento dos preços, seja pelo congelamento puro e simples, seja pela via de incentivos fiscais. A nova mudança na direção da Petrobras tem esse objetivo.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), que é considerado uma prévia da inflação oficial do país, está em 0,59% em maio, após ter registrado taxa de 1,73% em abril, somando 12,20% em 12 meses, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diante disso, Bolsonaro resolveu demonizar a Petrobras, que seria o grande dragão da inflação. Vestiu a armadura de mito guerreiro e defenestrou mais um presidente da empresa, o terceiro. José Mauro Ferreira Coelho durou 40 dias do cargo, sendo demitido por telefone pelo novo ministro de Minas e Energia, Adolfo Saschida. Para o seu lugar, Bolsonaro indicou Caio Mario Paes de Andrade, atual secretário especial de Desburocratização, Gestão e Governo Digital do Ministério da Economia.

Marcelo Godoy: A austeridade dos bolsonaristas

O Estado de S. Paulo.

‘Projeto de Nação’ dos generais contou com a estrutura dos ministérios para ser elaborado

O País se deu conta nesta semana de que o projeto dos militares que apoiam o governo de Jair Bolsonaro prevê a manutenção do poder até 2035. Até lá, eles terão avançado na tarefa de remodelar o Estado, vencendo uma nova guerra. Na falta do Movimento Comunista Internacional, identificam o “globalismo” como a doutrina inimiga que pretende subjugar a Pátria.

São os banqueiros internacionais, a alta finança, que ocupa o lugar que um dia foi dos bolcheviques, criando uma situação interessante. O discurso contra a plutocracia, tão em moda entre os radicais da direita dos anos 1920, orgulha-se em dividir a mesa com Elon Musk, mas é refratário ao dinheiro de George Soros.

O plano dos generais Eduardo Villas Bôas e Hamilton Mourão defende a austeridade pública. Quer cobrar o atendimento no SUS de quem ganha mais de três salários mínimos. Pretende impor mensalidades aos alunos das universidades federais enquanto os cadetes das Forças Armadas e das polícias recebem soldo nas suas escolas porque o estudo ali é visto como serviço.

Paul Krugman*: Os perigos da sordidez plutocrática

O Estado de S. Paulo.

Bilionários da tecnologia têm se voltado contra os democratas por interesses econômicos e egos frágeis

Os sultões do Vale do Silício passam por uma irritação política, em que alguns bilionários têm se voltado contra os democratas. Não apenas Elon Musk. Outros nomes proeminentes, incluindo Jeff Bezos, atacaram Joe Biden, e nós sabemos que Larry Ellison, da Oracle, participou de uma chamada com Sean Hannity e Lindsey Graham sobre reverter a eleição de 2020.

O momento dessa mudança para a direita linha-dura por parte de alguns aristocratas da tecnologia é marcante em face do que está ocorrendo na política. É difícil imaginar o tipo de bolha em que Musk vive para ele apontar o Partido Democrata como “o partido da divisão e do ódio”, no momento em que Tucker Carlson, que não é político, mas é uma das figuras mais influentes do Partido Republicano, dedica programa após programa à “teoria da substituição”, alegação de que a elite progressista traz imigrantes para os EUA para substituir eleitores brancos. Pesquisas mostram que metade dos republicanos concorda com essa teoria.

Alvaro Gribel: A Petrobras sob nova intervenção

O Globo

O nome de Caio Paes de Andrade para a presidência da Petrobras representa a mais forte tentativa de intervenção na companhia desde a aprovação da Lei de Responsabilidade das Estatais, de junho de 2016. A indicação tem um propósito claro: mudar a política de preços dos combustíveis para segurar a inflação e beneficiar o presidente Jair Bolsonaro em sua tentativa de reeleição.

 No mercado, há cálculos de que o projeto do ICMS, que tramita no Congresso, somado a um congelamento do diesel e da gasolina, poderia diminuir em até dois pontos percentuais o IPCA deste ano. Paes de Andrade não tem currículo para o posto, mas o governo aposta em uma brecha na Lei para que ele assuma o cargo.

Fontes da Petrobras contaram à coluna que, mesmo com a mudança no Ministério de Minas e Energia, havia a expectativa de que José Mauro Coelho pudesse continuar à frente da empresa. Para evitar uma nova mudança brusca na gestão da maior companhia do país, eles acreditavam em algum tipo de “acomodação” do executivo no cargo e lembravam evento na última semana, no Jardim Botânico, no Rio, em que Bolsonaro esteve presente mas não fez ataques à diretoria.

Vinicius Torres Freire: Conta da eleição de Bolsonaro aumenta

Folha de S. Paulo

Conta vai aparecer em algum lugar, como no descrédito financeiro do país

Câmara dos Deputados está para aprovar um subsídio federal para o consumo de combustíveis, energia elétrica, comunicações e transporte. Isto é, quer fazer o governo federal bancar parte do custo do consumo desses bens e serviços.

Como? Obrigando o governo federal bancar parte das perdas que estados e municípios terão com a redução do ICMS sobre esses bens e serviços (segundo projeto que tramita na Câmara).

E daí?

A inflação não está altíssima? Sim.

O governo federal tem dinheiro para bancar esse subsídio? Não. Caso não corte outras despesas (o que não vai fazer), será obrigado a tomar mais empréstimos para bancar essa conta, essa perda de receita dos estados. Isto é, vai fazer mais dívida, ao custo de mais de juros de mais de 13% ao ano.

A conta vai aparecer em algum lugar, na dívida e no descrédito financeiro do país. Assim como vai aparecer, mais cedo ou mais tarde, nas finanças de estados e municípios.

Bruno Boghossian: O dia depois da eleição

Folha de S. Paulo

Fórmula para evitar reajustes agora pode tornar mega-aumento inevitável após a campanha

Jair Bolsonaro percebeu que esbravejar no cercadinho do Palácio da Alvorada não resolveria seu problema. Depois de trocar o comando da Petrobras pela terceira vez, o presidente começou a discutir com auxiliares uma fórmula para segurar os preços dos combustíveis. A ideia é evitar reajustes por 100 dias, mas alguns aliados trabalham para que um aumento só ocorra depois da eleição.

O represamento já existe na prática. Pela política atual, a Petrobras deve acompanhar os preços do mercado internacional, mas a pressão de Bolsonaro já fez com que a empresa segurasse por dois meses o valor cobrado pelo diesel. A gasolina está sem reajuste há 75 dias.

Hélio Schwartsman: Tudo pela Câmara é nova lógica dos partidos

Folha de S. Paulo

Com a desistência de Doria, vemos redução da competição eleitoral, o que é um retrocesso democrático

O tucano João Doria viu que, por sabotagens internas, não teria a menor condição de disputar a Presidência e desistiu de concorrer. Simone Tebet, do MDB, pode ser a próxima. A candidatura do pedetista Ciro Gomes parece mais sólida. Mas, se também ele pular fora, ficam grandes as chances de vermos a contenda entre Lula e Bolsonaro resolver-se em turno único.

Não é, porém, o segundo turno que eu gostaria de discutir hoje, mas a redução do apetite dos partidos por lançar postulantes ao cargo máximo. Até 2014, a sabedoria convencional sugeria que legendas que não estivessem numa coligação com chances reais de chegar ao poder deveriam, sim, lançar um cabeça de chapa. Os custos de fazê-lo não eram tão elevados e a propaganda eleitoral gratuita funcionava como uma vitrine para lançar/popularizar quadros e aumentar a visibilidade da sigla.

Tebet sofre pressão em prova de fogo para erguer terceira via

Senadora tenta tornar candidatura viável em meio a fragilidades suas e disputas partidárias

Joelmir Tavares / Folha de S. Paulo

SÃO PAULO -  Com a desistência do ex-governador João Doria (PSDB-SP), a senadora Simone Tebet (MDB-MS) passa a concentrar por ora as expectativas da chamada terceira via, com os prós e contras que o afunilamento desse campo impõe à sua pré-candidatura, hoje na casa de 1% das intenções de voto.

O tucano, que pontuava em torno de 3% (empatado tecnicamente com ela), deixou a pista livre para a então rival no consórcio PSDB, MDB e Cidadania, que tenta fabricar uma alternativa competitiva a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL). Juntos, os dois detêm cerca de 70% nas pesquisas.

Aliados e auxiliares de Tebet enxergam na saída de Doria uma oportunidade ímpar para ela, com vantagens e riscos implícitos. A ordem é turbinar a pré-campanha a ponto de sustentá-la como opção viável e neutralizar a ala do PSDB que ainda quer lançar um nome como cabeça de chapa.

Ungida pela direção dos três partidos como a melhor opção na disputa com Doria, sobretudo pelo índice de rejeição menor, a senadora foi diplomática ao comentar nesta segunda-feira (23) o recuo do tucano (a quem se referiu como colega e amigo), sem deixar de explicitar seu otimismo.

No momento do anúncio, a presidenciável estava em Cuiabá, cumprindo parte da agenda de viagens traçada para aumentar sua exposição e apresentá-la aos eleitores. O desconhecimento é justamente um de seus principais pontos fracos, principalmente quando se dava a comparação com Doria.

Tebet batizou a jornada de incursões como Caminhada da Esperança e vem buscando responder a uma das demandas reveladas pela pesquisa que a trinca de partidos contratou para embasar a escolha do candidato com mais chances. A sondagem contribuiu para o descarte do tucano pelo grupo.

Obstáculos da via Tebet

Senadora recebe apoio do MDB, mas precisa crescer nas pesquisas e conter dissidências

Por Bianca Gomes e Gustavo Schmitt / O Globo

Embora ainda precise confirmar a consolidação da terceira via, crescer nas pesquisas e driblar eventuais traições dentro do próprio partido, a senadora Simone Tebet (MS) teve sua pré-candidatura à Presidência referendada na terça-feira por emedebistas dos principais estados do país.

Presidentes de pelo menos 22 dos 27 diretórios do partido manifestaram apoio à senadora, confirmando cenário favorável para homologação da pré-candidatura nas convenções do meio do ano. Além disso, Tebet teve seu nome aprovado ontem, por unanimidade, pelo Cidadania.

Com 1% das intenções de voto e sem nunca ter disputado uma eleição presidencial, Tebet aposta em uma coligação com o PSDB para ampliar o tempo de televisão e tentar ser mais conhecida nacionalmente nos próximos meses.

Apesar de ser a representante virtual da terceira via, há obstáculos para garantir o apoio dos tucanos, uma vez que uma ala do partido faz pressão interna por uma candidatura própria. Soma-se a isso o fato de que PSDB e MDB se enfrentam nas eleições aos governos em pelo menos dois estados: Paraíba e Distrito Federal.

Os defensores de uma aliança entre emedebistas e tucanos alegam que a eventual chapa poderia destravar negociações entre as legendas nos estados do Rio Grande do Sul, onde o deputado Gabriel Souza (MDB) é apontado como possível vice de Eduardo Leite (PSDB) ou do atual governador Ranolfo Vieira Júnior; Pará, onde os tucanos querem indicar a vice da chapa do governador Helder Barbalho (MDB); e São Paulo, onde o emedebista Edson Aparecido é o mais cotado para ser vice do governador Rodrigo Garcia (PSDB), que concorre à reeleição.

Mesmo com a chancela formal da maior parte da cúpula emedebista, Tebet terá de fazer campanha ao lado de correligionários que vão pedir votos para Lula e Bolsonaro, os dois mais bem colocados nas pesquisas.

Graziella Testa*: Terceira via é ressentida e não consegue se diferenciar de Lula e Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Candidaturas são resultado de personalismos e mágoas, não de demanda real do país

Na semana passada, Ciro Gomes (PDT) e Gregorio Duvivier protagonizaram um longo bate-boca, erroneamente chamado de debate, que bem exemplificou a principal característica dos candidatos que se apresentam como terceira via nas eleições de 2022: o ressentimento.

Apesar das aparentes diferenças, Sergio Moro (União Brasil) e Ciro Gomes, os nomes desse grupo mais bem-colocados em pesquisas de intenção de voto, têm em comum um grande desencanto com os projetos políticos que um dia abraçaram. Ciro foi, por três anos, ministro da Integração Nacional de Lula (PT), e Moro foi ministro da Justiça e Segurança Pública de Jair Bolsonaro (PL), a quem também apoiou eleitoralmente.

Aqui cabe fazer uma diferenciação importante: há o apoio ainda no primeiro turno das eleições e há o papel de composição da coalizão de governo. A distinção importa porque nosso sistema político tem incentivos contraditórios nas arenas eleitoral e legislativa.

Por um lado, o sistema eleitoral proporcional de lista aberta incentiva a competição entre candidatos da mesma legenda e, por consequência, o comportamento personalista. Por outro, toda a estrutura de distribuição de cargos e participação no processo decisório se dá pelo critério partidário.

A chamada terceira via é composta sobretudo por uma longa lista de ex-apoiadores de Bolsonaro. O projeto de candidatura à Presidência de quase todos eles ficou pelo caminho. Ministro da Saúde no início da pandemia, Luiz Henrique Mandetta (União Brasil) agora ensaia uma aproximação com outro ex-aliado de Bolsonaro, Luciano Bivar, para talvez disputar o Senado por seu estado, o Mato Grosso do Sul

Fundador do PSL, Bivar articulou a candidatura de Bolsonaro pelo partido em 2018. Com a saída de Bolsonaro do PSL e a posterior fusão do partido com o Democratas, formando o União Brasil, Bivar, presidente da nova sigla, ocupa o papel da viúva dona do cofre e também tenta uma candidatura pouco animada, visando colher um papel relevante no futuro governo eleito.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Além da Petrobras

Folha de S. Paulo

Com nova troca, Bolsonaro mostra que projeto eleitoral ignora lógica e escrúpulo

Jair Bolsonaro (PL) e seus adeptos lançaram nova ofensiva da campanha para conter —ou parecer que tenta conter— os preços dos combustíveis e da energia elétrica.

O governismo abriu mão de impostos, com aumento da dívida pública; quer impor cortes de tributos a estados e municípios, suspender no Congresso reajustes de energia elétrica e ensaia promover um tabelamento de preços ao menos temporário na Petrobras.

Não foi por outro motivo que o candidato a reocupar o Planalto demitiu o terceiro presidente da petroleira em menos de quatro anos, no cargo havia meros 40 dias. Bolsonaro cria instabilidade a fim de obrigar a direção da estatal a segurar a alta dos combustíveis. Os reajustes já têm sido espaçados.

O mandatário e sua trupe populista querem financiar a aquisição de alguns pontos nas pesquisas de voto por meio da apropriação de receitas de governos estaduais e municipais, da redução forçada do faturamento da Petrobras e da instabilidade do setor elétrico.

É incerto se a frente vai alcançar integralmente seus objetivos. Seja como for, terá conseguido ao menos difundir ainda mais a percepção de que estabilidade administrativa, contratos, estatutos, leis e normas de responsabilidade orçamentária correm risco no país sob a atual administração.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade: Ser Mineiro

 

Música: Alaíde Costa - Travessia (Milton Nascimento e Fernando Brandt)

 

terça-feira, 24 de maio de 2022

Merval Pereira: Rumo ao precipício

O Globo

O ex-governador de São Paulo João Doria tomou uma atitude que já estava madura ao renunciar à candidatura à Presidência da República, mas deveria ter se antecipado à cúpula do PSDB, que agora está às voltas com a pressão interna para que o partido tenha um candidato próprio. Não se trata mais de disputar a Presidência com Lula, Bolsonaro, Ciro Gomes. Trata-se, isso sim, de tentar salvar a própria sigla do desastre anunciado.

Os tucanos, que governaram o país por oito anos e estiveram no segundo turno em todas as eleições, exceto as de 2018, foram devastados pelo fenômeno eleitoral chamado Bolsonaro e não souberam reagir a esse ataque hostil. A saída de Geraldo Alckmim do partido que ajudou a fundar só fortaleceu a percepção dos eleitores que trocaram o PSDB por Bolsonaro de que a social-democracia tucana tem mais a ver com o petismo do que com o liberalismo que eles buscaram nesses anos todos em que a sigla era a única alternativa viável ao PT. Assim como a adesão do ex-juiz Sergio Moro ao governo Bolsonaro reforçou a tese petista de que Moro condenou Lula para facilitar a vitória de Bolsonaro.

Os eleitores do Sul, do Sudeste, do Centro-Oeste que abandonaram Alckmin em 2018 para aderir a Bolsonaro não encontraram motivos para voltar ao ninho tucano, pois o partido, além de criticar e atacar o presidente eleito, teria de ter apresentado uma proposta de governo que atendesse a esse eleitorado, que quer derrotar o PT porque considera Lula e seus camaradas socialistas enrustidos que usam a democracia para destruí-la.

Míriam Leitão: Os satélites do bolsonarismo

O Globo

A crise do PSDB vem da perda dos seus valores fundantes. Vem de muito tempo. Não foi deflagrada pelo episódio da candidatura fracassada de João Dória. Na semana passada, só três deputados da bancada tucana votaram contra a proposta absurda do homescholling, um projeto bolsonarista raiz. Pior do que ser parte do bolsonarismo é ser linha auxiliar da extrema-direita com seu projeto deletério para o Brasil. E é o que muitos integrantes do PSDB passaram a ser nos últimos anos. O que leva o parlamentar de um partido que criou o movimento “Toda criança na escola” a votar numa proposta dessas? É desconhecer a própria origem.

Agora, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, que inventou que na grave crise da educação brasileira a urgência mesmo é a escola domiciliar, quer de novo ajudar a campanha de Bolsonaro. Tentará com um golpe tributário baixar a inflação na marra. Lira usará todos os truques, todas as manobras, todo o seu mandonismo para socorrer Bolsonaro, que lhe entregou parte do Orçamento para fazerem juntos as lambanças diárias que os jornais revelam. De que lado ficarão os deputados do partido que entregou ao Brasil a mais sólida e duradoura política anti-inflacionária? Nem importa, porque não são tantos assim, e eles já não votam com os seus valores reais.

Carlos Andreazza: Operação beco sem saída

O Globo

Análise do discurso. Contexto: o presidente que, pranteando por ter de bloquear porções do Orçamento concebido com os associados do consórcio Ciro Nogueira/Arthur Lira/Valdemar Costa Neto, chora a dificuldade para dar reajuste salarial aos servidores.

Falou Bolsonaro, na quinta:

— Apareceu despesa extra essa semana, entre precatórios, Plano Safra e abono. Mais R$ 10 bilhões. De onde virá esse dinheiro? Desse Orçamento. Temos que chegar nos ministérios e cortar R$ 10 bilhões.

Gosto do “apareceu”. Que susto, né? Apareceu, ué. Talvez tenha assumido o cargo ontem, o pobre, herdeiro de uma falência cujos esqueletos na gaveta descobre, tadinho. Só que não — diriam os (mais) jovens.

Aboletado no trono há quase três anos e meio, ao menos sabe que os dinheiros terão de sair do Orçamento. O lance é: que Orçamento? O Orçamento de mentira forjado e operado por gente de verdade. O Orçamento que subestimou — deliberadamente — gastos obrigatórios. Os gestores do Orçamento ficcional sendo os mesmos que administram o realíssimo orçamento secreto — imexível.

Luiz Carlos Azedo: Doria desiste, mas PSDB continua dividido

Correio Braziliense

O grupo paulista não quer uma candidatura própria, para assim poder abrir o palanque de Rodrigo Garcia em São Paulo, numa tentativa desesperada de viabilizar a reeleição do atual gestor do estado

O ex-governador de São Paulo João Doria jogou a toalha e desistiu da candidatura à Presidência da República, após ser comunicado pela cúpula da legenda que seria candidato de si mesmo. Doria perdeu o apoio do grupo liderado pelo governador Rodrigo Garcia, que o sucedeu, e pelo presidente do PSDB, Bruno Araújo, aliados aos presidentes do Cidadania, Roberto Freire, e do MDB, Baleia Rossi. Se depender dos presidentes dos três partidos, a candidata da chamada terceira via será a senadora Simone Tebet (MS), do MDB.

Doria foi vítima dele mesmo. Rompeu com seu padrinho político, Geraldo Alckmin, que hoje é o vice na chapa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A aliança de segundo turno que havia feito com o presidente Jair Bolsonaro, em 2018, rompeu-se no começo da pandemia da covid-19, por causa da política de distanciamento social adotada pelo governo paulista para restringir a propagação da doença. Quando o Instituto Butantan, pioneiramente, começou a produzir a vacina chinesa CoronaVac, Doria se tornou o principal adversário de Bolsonaro, cujo negacionismo combateu em entrevistas diárias pela tevê.

Maria Cristina Fernandes: Tucano foi ungido e derrotado por São Paulo

Valor Econômico

Rejeição a Doria no Estado que governou é fenômeno de difícil compreensão

A ascensão vertiginosa de João Doria no PSDB, partido pelo qual passou de prefeito da maior cidade do país a governador do maior Estado em apenas dois anos, iludiu o ex-governador sobre o alcance de suas ambições. Foi derrotado pelo mesmo poder paulista que o consagrou.

A senadora Simone Tebet (MDB-MS) pode vir a ser a grande vitoriosa da desistência, mas ainda precisa passar pela convenção de um partido rachado ao meio que tem na inexistência de uma candidatura uma saída de conciliação.

Duas postulações presidenciais já foram moídas em convenções do MDB, Itamar Franco (1998) e Anthony Garotinho (2006).

Aquele que, desde já, é o maior vitorioso da desistência de Doria é o governador de São Paulo e candidato à reeleição. Rodrigo Garcia foi tornou-se vice de Doria na esteira da aliança com o DEM, partido ao qual o governador era filiado. Com esta aliança, Doria esperava pavimentar sua candidatura presidencial e Garcia, seu caminho para a titularidade no Palácio dos Bandeirantes em 2022.

A rejeição a Doria, resultante de uma liderança que sempre se colocou, ostensivamente, como o principal mentor e beneficiário de sua gestão, era tóxica. Pesquisas internas do PSDB mostravam que, mesmo entre os que aprovavam a gestão, 46% rejeitavam o apoio.

César Felício: Gesto lembra mais capitulação do que estratégia

Valor Econômico

Doria busca não deixar herdeiros com sua retirada

O ex-governador João Doria, do PSDB, se retirou da disputa com um "até breve", o que sinaliza que não pretende se retirar propriamente da política. Deixou claro, entretanto, que está fora da campanha presidencial deste ano, ou seja, não será candidato a vice e nem se propõe a ser um apoiador de ninguém. Irá se contentar, em suas palavras, em seguir como um "observador sereno". Diz que o Brasil precisa de uma alternativa aos extremos- ou seja, é contra um apoio a Lula e Bolsonaro- mas que "o PSDB saberá tomar a melhor decisão".

Não há nenhuma palavra, salvo as protocolares, em apoio ao atual governador de São Paulo e seu sucessor, Rodrigo Garcia. E muito menos qualquer indicação, aí nem mesmo protocolar, em favor da senadora Simone Tebet (MDB-MS). Ele não quer creditar mais ganhos aos maiores ganhadores de sua retirada.

Tanto Simone quanto Garcia são os maiores beneficiários naturais da saída de Doria da disputa. Garcia porque quer ficar desatrelado na disputa nacional, uma vez que não tem possibilidade de se aproximar nem de Lula e nem de Bolsonaro, cada qual com seu afilhado na disputa paulista. Simone porque acredita em uma possibilidade de receber um apoio do PSDB e do Cidadania por gravidade, por WO, na infinita novela das negociações da terceira via.

Igor Gielow: Desistência do tucano abre corrida pelo espólio do PSDB

Folha de S. Paulo

Partido deverá ser linha auxiliar de aliados e focar na disputa em SP neste ano

A implosão da candidatura do ex-governador João Doria (SP) encerra uma era no PSDB, que assistirá agora a uma luta entre seus caciques remanescentes pelo espólio daquele que já foi o partido mais importante do país.

A natureza do embate será central para o futuro da sigla, que nesta eleição tenderá a ver seu papel federal reduzido ao de linha auxiliar de aliados. Se quiser sobreviver, terá de apostar todas as fichas na manutenção de sua fortaleza paulista, que comanda desde 1995 —incluindo dois breves interregnos com vices aliados que assumiram o governo.

Símbolo do estado das coisas é o fato que essa disputa será tocada por Rodrigo Garcia, que construiu toda sua carreira no DEM, antigo PFL, e só entrou no tucanato dentro de um esquema de conveniência após o seu partido entrar em colapso no começo do ano passado.

José Álvaro Moisés*: Desistência de Doria resume colapso da terceira via e crise do sistema partidário

O Estado de S. Paulo

A desistência do ex-governador João Doria de disputar a Presidência da República, mesmo tendo vencido as prévias do PSDB, sugere uma reflexão sobre três questões importantes para a qualidade da democracia brasileira.

A primeira dialoga com o colapso da chamada “terceira via”. Ela não se constituiu em alternativa capaz de confrontar as duas candidaturas vistas como expressão de polarização negativa. Sem se desvencilhar de divisões internas, lutas de facções e de traições, os líderes da terceira via perderam um tempo precioso sem definir os seus objetivos e sem explicar a ideia de que, comprometidos com a reconstrução do País, defendem a democracia das ameaças de um dos polos em disputa. O mote de que se movem por um “bem maior” ficou devendo esforço de persuasão para convencer o eleitor mediano de que estão em jogo não interesses pessoais ou de facções, mas uma coalizão capaz de conectar a democracia com a luta pela retomada da economia, com o enfrentamento das desigualdades e, principalmente, da fome e da miséria que assolam parcelas da população. O debate ficou restrito às cúpulas dos partidos.

Carlos Pereira*: Desistência é potencial desbloqueio para a terceira via

O Estado de S. Paulo.

A desistência do ex-governador João Doria (PSDB) de concorrer à Presidência representa, antes de qualquer coisa, um potencial de desbloqueio para que os partidos da terceira via possam finalmente viabilizar uma candidatura única e alternativa à polarização entre Lula e Bolsonaro.

A despeito de seu governo virtuoso no Estado de São Paulo, a candidatura de Doria paradoxalmente não decolou eleitoralmente, perdendo viabilidade política dentro do seu próprio partido, mesmo tendo sido o legítimo vencedor de inédito processo de primárias para escolha de seu candidato à Presidência. Esta decisão traz dilemas não desprezíveis ao PSDB, que, pela primeira vez desde sua criação, pode vir a deixar de oferecer um candidato à Presidência. Isso significa abrir mão do protagonismo e dos ganhos conferidos pela trajetória majoritária. A partir de agora terá de trilhar trajetória essencialmente legislativa, como um potencial coadjuvante de um majoritário vencedor.

Eliane Cantanhêde: Fim da linha

O Estado de S. Paulo

Depois de implodirem Doria, PSDB e MDB vão queimar Simone Tebet. Em favor de quem?

Fim da candidatura João Doria, fim da candidatura Simone Tebet, fim da terceira via, fim do PSDB, fim do MDB, fim do Cidadania. Fim de uma era. O horizonte é sombrio, enquanto a esquerda faz DR (discute a relação), o centro sofre uma diáspora e setores militares extremistas projetam manter o poder até 2035 – pelo menos.

As cúpulas do PSDB e do MDB terão o mesmo discurso após a renúncia de Doria: não é o fim, é o começo de uma candidatura para valer. Mais um engodo, com o centro pulando ou no barco do ex-presidente Lula ou no colo do presidente Jair Bolsonaro.

Depois de explodir Doria, o grupo tucano que mandou as prévias às favas parte para dinamitar Simone Tebet, do MDB, alegando que ao PSDB não interessa apoiar o nome do MDB, a prioridade é ter um candidato próprio. O gaúcho Eduardo Leite vai se prestar a esse papel?

Rubens Barbosa*: As Forças Armadas e o momento político nacional

O Estado de S. Paulo

Não tenho dúvida de que, se houver qualquer quebra das regras democráticas com o apoio das FA, a reação vinda de fora será imediata.

Um ano após o ataque de apoiadores trumpistas ao Congresso dos EUA, contestando o resultado da eleição que, estimulados pelo então presidente, julgavam fraudada, um general norte-americano publicou artigo no Washington Post manifestando preocupação com o dia seguinte das eleições presidenciais em 2024 e a ameaça de divisão entre os militares, o que poderia pôr em risco a democracia no país.

Não afastando a possibilidade de contestação dos resultados da eleição e de um golpe de Estado, o militar apontou para o risco de confrontação no interior das Forças Armadas (FA) e a eventual quebra da hierarquia para respaldar essa diferente visão. Todos os militares juram respeitar a Constituição, mas numa eleição contestada, com lealdades divididas, alguns poderão seguir as ordens do comandante-em-chefe e outros, o comando trumpista. Como exemplo, mencionou a recusa da Guarda Nacional em acatar pedido do presidente Biden para que todos os seus membros se vacinassem. Com o país muito dividido, as FA e o Congresso deveriam tomar medidas para prevenir qualquer tentativa de insurreição e adotar providências cautelares, observou.

O alerta do militar norte-americano sobre a ameaça à quebra dos valores democráticos nos EUA, a partir de uma ação política das FA, não poderia ser mais atual para o cenário político brasileiro. A descrição feita pelo militar muito se assemelha a uma série de atitudes que colocam as FA brasileiras no centro do debate político nacional.

Antonio Cláudio Mariz de Oliveira*: Liberdade em risco

O Estado de S. Paulo

Contra a ruína da nossa democracia e a destruição das nossas instituições, precisamos resistir aos atentados já em marcha.

Paulo Bomfim, poeta maior, afirmou que amava tanto a liberdade que “gostaria de ter filhos com ela”. Todos nós a amamos, não sabemos bem como defini-la, mas ardorosamente a queremos. Como disse Cecília Meireles: “Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há quem explique e ninguém que não entenda”.

Pois é, a liberdade individual é um sentimento, é um estado de espírito antes de ser um conceito. A sua exteriorização se dá pela conduta pessoal, pelas variadas escolhas que surgem no curso da vida, pela manifestação do pensamento, pelo exercício de direitos, pelas opções nos relacionamentos e em tantas outras situações com as quais nos defrontamos. A liberdade, no entanto, é regrada e limitada pela lei, tendo sempre a liberdade alheia como freio para o exercício da liberdade própria.

Hélio Schwartsman: O golpe de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Ele não tem apoio popular para um golpe 'new style'

Bolsonaro vai tentar dar um golpe? Pergunta errada. O presidente já está fazendo o que pode para conturbar e eventualmente desconsiderar o processo eleitoral, o que configuraria uma ruptura constitucional, a mais simples e incontroversa definição de golpe. A indagação cabível, portanto, não é sobre se haverá ou não tentativa, mas sobre as chances de sucesso da empreitada, que me parecem baixas, mas não nulas.

Ao menos nos países mais relevantes, golpes clássicos, daqueles em que generais põem os tanques nas ruas e entronizam alguém próximo à caserna, saíram de moda. Foram substituídos pelos golpes "new style", em que um líder populista chega legitimamente ao poder e, lá instalado, passa a carcomer a democracia de dentro, debilitando as instituições encarregadas de controlá-lo e ampliando a sua capacidade de mando.

Joel Pinheiro da Fonseca: A democracia depende de Lula?

Folha de S. Paulo

Votar no petista no primeiro turno em nada diminuiria as chances de um golpe

Com a desistência de João Doria, as opções vão se afunilando. Não é um bom momento para ser de "terceira via". Ridicularizados por todos os lados, apoiadores de candidatos sem voto. O único motivo para continuar nesse campo é a crença num Brasil melhor. E, mesmo assim, não falta quem tente nos assediar a optar por um dos dois líderes das pesquisas.

Vozes imperativas vêm do lado petista, decretando que esta eleição é um plebiscito sobre a democracia. "Quem não votar em Lula já no primeiro turno não liga para a democracia". E não são só militantes do PT ecoando esse discurso. Há pessoas de centro e até liberais.

O argumento dos que defendem voto em Lula "pela democracia" é o seguinte: Bolsonaro é um autoritário disposto a dar um golpe se perder. Lula é o favorito para vencer nas urnas. No entanto, se essa vitória se der em segundo turno, aumentam as chances de Bolsonaro conseguir arregimentar sua base e as Forças Armadas para dar o golpe.

Cristina Serra: Milícias invadem a floresta

Folha de S. Paulo

Não há o que celebrar diante da violência que os yanomamis voltam a enfrentar

Este 25 de maio assinala os 30 anos da homologação da Terra Indígena Yanomami, em Roraima. Sob forte pressão internacional e às vésperas da realização da Conferência da ONU sobre Meio Ambiente, a Eco-92, no Rio de Janeiro, o então presidente Collor garantiu o território aos yanomamis, acossados por uma "corrida do ouro", nos anos 1980, que quase os levou ao extermínio.

A data deveria ser motivo de comemoração porque foi também um marco na mudança da relação do Estado brasileiro com os povos indígenas, a partir da Constituição de 1988. Mas não há o que celebrar diante da violência que a etnia volta a enfrentar, em inédita intensidade.

Andrea Jubé: Space-X lança satélites brasileiros ao espaço

Valor Econômico

Satélite é sistema de “inteligência”, não de “vigilância”

Cinco dias após a reunião de Elon Musk, homem mais rico do mundo, com o presidente Jair Bolsonaro, ministros, autoridades militares, e empresários brasileiros, a Space-X -- empresa de desenvolvimento e lançamento de foguetes do bilionário -- lançará ao espaço dois satélites-radar de sensoriamento remoto (SRR), que integram o Projeto Lessônia, da Força Aérea Brasileira (FAB).

O acontecimento não tem ligação direta com o “início de namoro” do governo brasileiro com o bilionário, na expressão utilizada por Bolsonaro, porque a escolha de um foguete da Space-X para o lançamento partiu da fabricante dos satélites, a finlandesa Iceye.

Em contrapartida, não se pode minimizar o esforço conjunto de autoridades militares e civis dos governos brasileiro e finlandês para viabilizar o lançamento já nesta quarta-feira.

Daniela Chiaretti: Biodiversidade: o tema que pode implodir tudo

Valor Econômico

Os impasses na negociação internacional sobre biodiversidade parecem longe de serem dissolvidos

Há cheiro de Copenhague no ar. Com o perdão aos dinamarqueses, a expressão é usada em negociações ambientais internacionais quando o caldo está com jeito de querer entornar. A referência é o fiasco da COP15, a conferência climática das Nações Unidas que ocorreu em Copenhague, em 2009, e onde se tinha a expectativa de o mundo conseguir fechar um acordo de proteção ao clima. Deu tudo errado e a história daquele inverno é conhecida - por sorte e com muito trabalho, o Acordo de Paris surgiu na França, seis anos depois. Pois as rodadas internacionais que preparam a conferência de Kunming, na China, só exibiram até agora desacordo entre as delegações das mais de 190 nações que tentam se acertar em torno a uma agenda global de proteção à biodiversidade. Não está dando certo.

A pandemia não ajudou, claro. A última reunião de negociação presencial sobre este tema foi em fevereiro de 2020, em Roma. Depois se tentou avançar com reuniões virtuais, mas só quem conseguia ouvir algo eram os delegados de países ricos com computadores e internet decentes - os dos países pobres e megadiversos participavam em modo randômico. As negociações retomaram fisicamente em Genebra, em março. Avançaram milimetricamente.