segunda-feira, 27 de março de 2023

Fernando Gabeira - Segurança no topo da agenda

O Globo

Não acredito no fim do tráfico de drogas. Mas creio que chegou o momento de uma política nacional mais articulada

O Rio é uma cidade parcialmente ocupada pelo crime. Isso acontece há tanto tempo que às vezes se transforma num fato natural. Não se percebe a evolução do problema, muito menos sua tendência a se espalhar pelo país.

Tive a oportunidade de mostrar como o Nordeste está vivendo um processo semelhante. Fiz documentários em algumas de suas capitais. O caso que me pareceu mais grave, na época, foi o Ceará.

As coisas não aconteceram de forma espontânea. Passa pela região uma nova rota do tráfico de cocaína, vinda de Colômbia e Bolívia e, ao que tudo indica, seguindo para Cabo Verde, de onde se irradia para outros pontos do mundo.

As grandes facções do Sudeste se instalaram lá. Como a droga é abundante, houve espaço também para organizações locais, tanto no Norte (Família do Norte) como no Ceará (Defensores do Estado) e no Rio Grande do Norte (Sindicato).

Miguel de Almeida - As dissimuladas flores do mal

O Globo

Ao final da ditadura militar brasileira, os colaboradores civis do regime se fizeram de democratas, sem nenhuma autocrítica, e foram perdoados em nome da conciliação

Com os meus botões, me pergunto: será que eu compraria um carro usado do general Hamilton Mourão? Ou do ex-juiz Sergio Moro? Como vice-presidente, Mourão não deu um pio sequer sobre as investidas de Bolsonaro contra as vacinas e as urnas eletrônicas. Pelo contrário. Calou-se. Vai ver receava virar jacaré. Ou tatupeba. Sergio Moro, escorraçado do cargo de ministro, ensaiou ser oposição, mas logo voltou a ser ventríloquo bolsonarista. Nunca titubeou em ganhar um cargo e ficar de joelhos.

Ambos, agora no papel de senadores, ensaiam um discurso civilizatório, como se não tivessem sujado as mãos para alcançar seus postos. Confiam na falta de memória da política brasileira. Sobre as joias das arábias, nada; sobre o assassinato dos ianomâmis, quase um esgar de desconfiança. E o 8 de Janeiro? Só formalidades protocolares, qual um sujeito que limpa a boca na toalha da mesa. Escarnecem.

Foi assim logo depois da derrubada da ditadura. Acossados por uma inflação monstruosa e uma carestia desumana, com o país à beira da guerra civil (o general Figueiredo quase tomou uns tapas em Florianópolis), os militares saíram pela porta dos fundos. Ao menos tiveram a dignidade de simular uma retirada. Mas não os civis que colaboraram com o regime de tortura e de falta de liberdades. Apoiados pela máquina do governo em ocaso e por um eleitorado de ocasião — o gado de sempre —, conseguiram mandatos de senadores, deputados e até governadores. Como agora.

Irapuã Santana - O desafio da reconstrução

O Globo

Estamos nos colocando para discutir sem ao menos definir o quê. Falamos para nós mesmos, xingamos e excluímos quem está de fora

Ninguém se entende, seja no grupo de zap, seja no Facebook ou noutra rede. Por sorte, ainda resta alguma zona segura nos barzinhos pelas ruas país afora.

Mas algumas coisas chamam a atenção em todas essas discussões, como a ausência de presunção de boa-fé da pessoa com quem a gente conversa, bem como uma delimitação rígida e evidente do tema em questão. Por fim, mas não menos importante, nem sequer existe um consenso sobre o significado do assunto. Os exemplos podem ser muitos: desde se a Terra é redonda, passando pelos elementos sociais que geram discriminação, até se é possível contestar a ciência.

Quando falamos de política, então, ninguém se entende. O estudo “Realities of Socialism”, do Fraser Institute — produzido em conjunto com think tanks nos Estados Unidos, na Austrália e no Reino Unido — mostrou que em torno de metade dos jovens desses países entre 18 e 24 anos se declara socialista. Mas, quando se pergunta o que entendem por socialismo, o índice despenca. Apenas 25% desse grupo define como o modelo classicamente estabelecido. Todo o restante acha que socialismo é o governo oferecer mais serviços à população mais carente e garantir renda mínima a quem precisa. O interessante é que, por esse entendimento, até o liberalismo tem similaridades com esse modelo de atuação do Estado.

Ricardo Henriques - Gasto social de qualidade é investimento

O Globo

Democracias precisam entregar serviços públicos de qualidade, economias sustentáveis e condições para mobilidade social

 “Investimento social não pode ser considerado gasto”. Essa têm sido uma afirmação frequente do presidente Lula, quando confrontado com o discurso de que determinada política fundamental para o bem-estar da população poderia gerar descontrole nas contas públicas.

De fato, o investimento em áreas como saúde, educação e combate à pobreza precisa ser considerado prioritário, tanto pelo retorno de longo prazo quanto pela garantia imediata de direitos básicos, especialmente dos mais vulneráveis.

Por vezes esta fala é interpretada como defesa de uma irresponsabilidade fiscal, mas os sinais dados pelos ministérios das áreas econômica e de planejamento mostram que há um compromisso do governo federal em preservar a saúde financeira, mantendo espaço para os investimentos tão necessários na área social.

Angela Alonso* - Política e violência

Folha de S. Paulo

Facções usam estratégias típicas de movimentos sociais para contestar governos

Fogo em montanhas de lixo, carros virados, vitrines quebradas, barricadas. Sem contar pichações, saques e incêndios. O Le Monde resumiu a quinta como dia de cólera, que escorreu semana afora. A ignição foi a reforma da Previdência. Mas mobilizações similares vêm se sucedendo na terra de Macron, basta lembrar os coletes amarelos. O assunto era outro, o formato, o mesmo: um coquetel de violência e política.

A mistura é frequente, a nomeação, variável. Os eventos franceses, nos quais correram soltos a tática black bloc e a repressão policial, foram classificados como protestos. Ninguém morreu. Se tivesse havido letalidades, mudaria o nome? Na França, a política violenta nem seria novidade, lá se inventou a guilhotina.

Marcus André Melo* - Tiranias imaginárias

Folha de S. Paulo

Reformas institucionais nas democracias focaram na governabilidade

Macron tem sido acusado de aprovar a reforma da Previdência à margem do Parlamento recorrendo a um dispositivo tirânico. A despeito da diferença de regime, os objetivos que levaram a França a introduzir tal dispositivo —artigo 49.3 da Constituição— são similares aos que levaram o Brasil a fazer o mesmo em 1988, quando foram adotadas as medidas provisórias.

Ele faz parte das inovações que "racionalizaram" o parlamentarismo francês, para roubar o título do clássico de John Huber sobre o tema. A Constituição francesa de 1958 foi a resposta de De Gaulle à ingovernabilidade da 4ª República, na qual a duração média dos gabinetes no período foi de seis meses —foram 24 gabinetes distintos sob 16 primeiros-ministros. E isso quando o país enfrentava a crise da Argélia.

Ana Cristina Rosa - Ignorância e crueldade juntas

Folha de S. Paulo

Por aqui, não é de hoje que a história vem sendo contada sob a perspectiva do agressor

– Peço desculpas por ligar para isso, mas gostaria de sugerir que você escreva sobre a perda de perspectiva das pessoas. O que está acontecendo é desumano, disse o jornalista Jorge Duarte.

– Nada a desculpar. Pode falar.

Em tom de desabafo, ele apresentou seu ponto de vista sobre o quanto a sociedade brasileira tem se valido de "rótulos formais" para mascarar situações gravíssimas. E como a ignorância a respeito de fatos históricos pode ser danosa à democracia.

Lembrei do livro da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, "O perigo de uma história única", onde ela destaca que contar histórias envolve poder, ou seja, habilidade para fazer com que a sua versão seja a definitiva.

Ricardo Mendonça - Eleição de 2024 retarda federação PDT-PSB-SD

Valor Econômico

Dirigentes partidários não demonstram pressa para acordo

As eleições para prefeito no ano que vem devem impedir a formação imediata de uma federação entre PDT, PSB e Solidariedade (SD) - partidos com bancadas declinantes na Câmara dos Deputados. O caminho mais provável é o da consolidação de um bloco para atuação no Congresso, com a montagem da federação só após as eleições municipais.

É difícil encontrar representante de alguma das três agremiações que se oponha frontalmente ao acordo. Mas para os potenciais futuros federados, a ordem é não dar urgência ao tema.

Lideranças das siglas envolvidas nas conversas afirmam que ambições conflitantes em diversas localidades concorrem para impedir a consumação da federação antes de 2025.

Felipe Moura Brasil - O monopólio da condição de vítima

O Estado de S. Paulo

Lula acusou Moro daquilo que ele próprio sempre fez

“O político Lula, depois que se tornou presidente, sempre que esteve em situação de vítima saiu lucrando.”

Foi o que declarou o então marqueteiro dele, João Santana, em 2006, à Folha de S.Paulo, ao explicar a conquista do segundo mandato do petista com a teoria da figura dupla que ele encarna: o “fortão” humilde que virou poderoso e o “fraquinho” sob ataque das elites: “Quando Lula é atacado, o povão pensa que é um ato das elites para derrubar o homem do povo que está lá. ‘Só porque ele é pobre’, pensam. Nesse caso, vira o bom e frágil ‘fraquinho’ que precisa ser amparado e protegido”.

Denis Lerrer Rosenfield* - A questão democrática

O Estado de S. Paulo

O PT e o presidente Lula deveriam escolher entre o que entendem por autodeterminação dos povos e o princípio dos direitos humanos

Uma atitude ou concepção democrática não se caracteriza apenas pela negação de um caso particular de autoritarismo, como ocorreu com a frente democrática apoiada pelo então candidato Lula e o PT. O fato de o hoje presidente e de seu partido criticarem – com razão, aliás – as posições de Bolsonaro, que claramente afrontou o regime democrático com a contestação das urnas eletrônicas, o enfrentamento com o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e as tentativas golpistas não os torna democratas por si sós. Razões eleitorais são insuficientes, se não vierem acompanhadas de esclarecimentos necessários sobre o que bem entendem por democracia.

O presidente Lula e parte de seu partido, pois há outras que começam a se demarcar, sempre tiveram uma afinidade eletiva com ditaduras de esquerda, compactuando com seu desrespeito aos direitos humanos, às regras democráticas e o uso sistemático da violência. Condenações, se as há, são sempre fracas, se não coniventes, como se observa recentemente com o ditador Ortega, da Nicarágua, cujo poder é exercido sem nenhuma limitação. Nem a Igreja Católica é mais respeitada, e é objeto de perseguição. A Venezuela de Maduro e, antes, de Chávez, levada por eles à miséria, à emigração e à riqueza de poucos, foi e é sempre tratada com tolerância e compreensão. Isso para não falar da já longeva ditadura cubana. O que isso significa? O direito de a esquerda no poder oprimir seu próprio povo em nome do socialismo ou do comunismo?

Bruno Carazza* - A lenda do Rei Arthur

Valor Econômico

Nunca confrontado, não se sabe se poder de Arthur Lira é real ou fantasia

Reza a lenda que Arthur governou a Grã-Bretanha na passagem dos séculos V e VI, após herdar o reinado de seu pai, Uther Pendragon, o “cabeça de dragão”. Naquela época viviam-se os estertores do Império Romano, a ilha estava dividida entre diversas tribos e ameaçada por invasões estrangeiras.

Há muitas histórias envolvendo o rei Arthur. Protegeu os ingleses de ataques de povos sanguinários e derrotou forças sobrenaturais, como gigantes, monstros e bruxas, graças à sua coragem e também a poderes fantásticos.

Ao cumprir a profecia e retirar da pedra a lendária espada Excalibur, Arthur foi reconhecido como legítimo rei da Inglaterra e tornou-se imbatível. Famoso por sua sabedoria, o soberano também contava com os conselhos de Merlin, um misterioso mago que tinha ligações com o além.

Acompanhado dos Cavaleiros da Távola Redonda, um grupo de guerreiros que se destacavam pela bravura e pela honra, Arthur teria conquistado o Santo Graal, cálice sagrado usado por Jesus na Santa Ceia e que concedia a juventude eterna, a abundância e até mesmo a imortalidade.

A mística do rei Arthur alimenta inúmeras versões que atravessam os tempos, desde a Idade Média. Nos últimos anos, contudo, uma nova fábula vem sendo escrita na política brasileira: a mística dos superpoderes de um outro Arthur, o novo rei do Congresso Nacional.

Alex Ribeiro - Galípolo faz indicações para a diretoria do BC

Valor Econômico

A informação de que vários nomes cogitados têm vínculo próximo com o secretário criou preocupações entre analistas do mercado

Quase todos os nomes que apareceram ultimamente como fortes candidatos a sucessor do diretor de política Monetária do Banco Central, Bruno Serra, têm algo comum: são próximos, ou até amigos, do secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Gabriel Galípolo. A escolha, a ser feita nos próximos dias, poderá moldar as relações entre a Fazenda e o BC. É vista, também, como uma peça no xadrez na escolha do substituto do presidente do BC, Roberto Campos Neto, cujo mandato termina no fim de 2024.

Rodolfo Fróes foi diretor da corretora do Fator, cujo conglomerado financeiro era presidido por Galípolo. Foi por indicação do atual secretário-executivo da Fazenda que se tornou membro do conselho do Fator. Na semana passada, chegou a ser considerado o favorito, e sua indicação foi tornada pública. Sua vantagem na disputa era justamente ter alguma experiência no mercado financeiro, ainda que não tenha comandado uma grande tesouraria nem tenha construído uma reputação de grande operador no mercado. Mas perdeu força depois de ficar exposto ao sereno, recebendo ataques de setores petistas por ter criticado a ex-presidente Dilma nas mídias sociais, por ter dado declarações e apoiado candidato do Partido Novo e por suas relações com a JBS.

Marcello Negro, que comandou a tesouraria do Fator e, mais recentemente, era diretor da administradora de recursos do banco, é outro cotado com experiência no mercado financeiro. Apesar de comentários de que ele não está mais no páreo, depois de assumir o cargo de assessor especial de Galípolo, algumas fontes insistem em dizer que ele é uma hipótese na mesa.

Gustavo Loyola* - As muitas razões do Banco Central

Valor Econômico

Críticas vazias do presidente Lula e seus auxiliares politizam uma decisão que deve ser orientada pela técnica

Em meio a um forte tiroteio, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu corretamente manter a taxa Selic em 13,75% em sua última reunião. A decisão tem sido bastante criticada, principalmente nos meios políticos e empresariais, mas a cautela da autoridade monetária me parece ancorada em sólidas razões técnicas.

Inicialmente, é necessário lembrar que as decisões de política econômica não se baseiam em certezas matemáticas como, por exemplo, na engenharia, se bem que esta também está sujeita a erros de execução, muitas vezes com trágicas consequências. Questões de política monetária não são resolvidas com régua e compasso e, por isso, alguns analistas a consideram ao mesmo tempo ciência e arte. Mesmo se a considerássemos como ciência absoluta, ainda assim estaria sujeita a controvérsias, pois a literatura econômica costuma oferecer várias soluções para um mesmo problema.

Maria Cristina Fernandes - Adiamento da viagem trouxe mais prejuízos políticos que diplomáticos

Valor Econômico

Lula apostava no eventual sucesso da viagem para destravar impasses internos

O adiamento da viagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva lhe trouxe mais prejuízos políticos que diplomáticos. O Itamaraty agora aguarda que a China sinalize com uma data mais conveniente, mas não se duvida do interesse do presidente Xi Jinping em remarcar o encontro com brevidade. No novo formato, será uma visita de Estado sem comitiva empresarial, que, em grande parte, já havia viajado para o seminário desta segunda-feira em Pequim. Em abril, Lula já tem visitas a Portugal e Espanha marcadas, o que torna mais provável uma data a partir de maio.

Antes da posse, diplomatas chineses disseram ao assessor especial da Presidência, Celso Amorim, que gostariam que o país fosse o primeiro a ser visitado por Lula. Ante o argumento de que isso feria a tradição de uma visita inaugural à Argentina, insistiram para que fosse o primeiro fora da América. Ante as evidências de que a visita aos Estados Unidos já estava prevista desde o fim do segundo turno, marcou-se, então, a data que acabaria por ser adiada em função da pneumonia de Lula.

Bolsa Família deve elevar o PIB em 2023 e tirar três milhões da miséria

Economistas projetam aumento da renda total das famílias de 3,5% neste ano, principalmente devido ao programa social, que a partir deste mês paga R$ 150 por crianças de até seis anos

Por Fernanda Trisotto e Vitor da Costa / O Globo

Depois de 15 anos trabalhando com carteira assinada, Edivânia de Jesus dos Anjos, de 38 anos, perdeu o emprego no começo da pandemia, em 2020. Como a empresa demorou a dar baixa no seu registro profissional, ela ficou sem a renda do trabalho e sem acesso ao Cadastro Único, porta de entrada para benefícios sociais do governo. Há seis meses, conseguiu regularizar a situação e começou a receber o Auxílio Brasil de R$ 600.

No governo Lula, o benefício voltou a ter o nome de Bolsa Família e foi acrescido de novos valores de acordo com a composição familiar. Com ele, Edivânia sustenta a casa com dois filhos enquanto tenta empreender em Santa Luzia, região de ocupação irregular em Brasília, onde mora. Neste mês, passou a receber mais R$ 150 por causa do filho de 10 meses, Roni:

— Esse dinheiro extra ajuda, mas é para fralda. Meu sonho é não precisar mais (do Bolsa Família). Nunca recebi nada, mas quando me vi sem opções, fui atrás da assistência social — conta.

É por esse adicional de R$ 150 pago a famílias com crianças de até seis anos que economistas projetam um forte impacto positivo do Bolsa Família sobre uma das principais bandeiras de campanha do presidente Lula, a redução da pobreza. E também estimam um aumento maior que o anteriormente previsto na renda, elevando o consumo e evitando uma desaceleração maior da economia em 2023.

O economista Daniel Duque, do Ibre/FGV, explica que, no terceiro trimestre de 2022, último dado disponível pelo IBGE, o Brasil tinha 12,47 milhões de brasileiros na pobreza extrema (renda de até R$ 208 mensais por pessoa do domicílio).

Se o novo o Bolsa Família já estivesse em vigor, pelas suas contas, haveria 3 milhões a menos nessa condição. Por isso, ele estima que, neste ano, esse contingente vai recuar para 9,46 milhões de pessoas.

— Com o desenho atual, de R$ 600 por família e R$ 150 por criança, dá para esperar bastante melhora (na redução da pobreza) — diz.

A XP estima que o Bolsa Família terá uma forte influência sobre a massa de renda disponível às famílias. Em relatório da corretora antecipado ao GLOBO com exclusividade, os economistas Rodolfo Margato e Tiago Sbardelotto projetam crescimento de 3,5% do indicador neste ano. Desses 3,5%, 1,4 ponto percentual corresponde à ampliação das transferências com proteção social, no caso o Bolsa Família.

Marco Antonio Villa - O presidente e a China

IstoÉ (24/03/2023)

Como já aconteceu antes, deverá haver um período de transição até que os EUA criem consciência de que o seu tempo como “mandão mundial” já passou

Um dos grandes desafios diplomáticos do Brasil é se reposicionar na nova ordem mundial que, especialmente, está sendo criada após o início da guerra da Ucrânia, em 24 de fevereiro de 2022.

A configuração geopolítica edificada após a final da Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria, terminou quando da queda do Muro de Berlim (nove de novembro de 1989) ou, se preferir, com o fim da União Soviética (Natal de 1991). Desde então, os Estados Unidos ocuparam a cena política mundial de forma inconteste; fez e desfez como se a autoridade mundial tivesse sido concedida ao governo de Washington. E os outros países e as organizações internacionais não passassem de meras representações coadjuvantes das vontades da superpotência norte-americana. Caberia ao restante do mundo sempre dizer sim ou, no máximo, emitir algum protesto sem resultado prático.

O que a mídia pensa - Editoriais / Opiniões

Integração nacional de polícias é crucial para conter facções

O Globo

Bases unificadas de inteligência são essenciais para impedir criminosos de encontrar refúgio noutros estados

A Polícia Federal foi informada em janeiro sobre a existência de um plano para promover atentados contra autoridades, entre elas o ex-juiz e atual senador Sergio Moro (União-PR). Na última quarta-feira, a PF prendeu em vários estados nove suspeitos do grupo que planejava os crimes. No dia seguinte, agentes das polícias Civil e Militar fluminenses, em cooperação com policiais do Pará e com apoio de blindados e helicópteros, realizaram ações contra líderes do narcotráfico. No Complexo do Salgueiro, Região Metropolitana do Rio, a operação resultou na morte de Leonardo Costa Araújo, o Leo 41, chefe do tráfico no Pará, além de 12 outras pessoas. Pouco antes fora preso na favela Nova Holanda, Complexo da Maré, Breno Vinícius Garção Martins, o Matuto, líder do tráfico em Sergipe.

Tanto Matuto como Leo 41 estavam no Rio há tempos. Matuto deixou a cadeia em 2020. Leo 41 era foragido da Justiça paraense desde 2019. Puderam retomar o ofício de traficante no Rio, onde Leo 41 comandou à distância ataques que provocaram a morte de 40 agentes de segurança do Pará e ainda participou do assalto a uma joalheria em que foi assassinado um vigilante.

A rapidez com que a PF agiu na prisão dos acusados de tramar contra autoridades contrasta com o tempo que os traficantes do Norte e do Nordeste tiveram para se articular com a criminalidade carioca. Tal contraste demonstra a necessidade urgente de um sistema nacional ágil para troca de informações entre as 27 secretarias estaduais de Segurança. A falta de informações e de um trabalho mais eficaz de inteligência leva a mais violência.

Poesia | Eterno (Carlos Drummond de Andrade)

 

Música - Roberta Sá - Água da minha sede(Zeca Pagodinho)

 

domingo, 26 de março de 2023

Celso Rocha de Barros - Esquece o Moro, Lula

Ex-juiz jogou reputação fora quando apoiou Bolsonaro

Lula, se eu fosse você, esqueceria o Moro.

Você já ganhou dele. Moro jogou fora o que lhe havia sobrado de dignidade, reputação, respeitabilidade profissional e direito de não ser tratado como militante de extrema-direita quando apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno. O apoio foi uma confissão de que seu julgamento em 2018 foi mutretado.

Moro já havia denunciado Bolsonaro como corrupto, já havia declarado que havia mais aparelhamento no governo do Jair do que no seu, e mesmo assim topou fazer papel de Padre Kelmon no debate do segundo turno. Ali, ele já não precisava do apoio do Jair para se eleger senador. Ali, ele já sabia do horror que foi o governo Bolsonaro. Já tinha tentado ser candidato da terceira via denunciando esses horrores.

Sergio Moro topou se humilhar daquele jeito por ódio a você, Lula.

Perdeu.

Vinicius Torres Freire - Como é o orçamento de Lula

Folha de S. Paulo

Os números básicos para entender o que o governo pode fazer para ajustar suas contas

Luiz Inácio Lula da Silva mandou o Ministério da Fazenda refazer seu plano para gastos e dívida porque quer aumentar a despesa em saúde e educação. Talvez tenha pedido outras mudanças.

A Fazenda não dá informações sobre o "novo arcabouço fiscal", o novo método de conter gastos e dívida. A esse respeito, o pouco que vaza de outros ministérios é confuso, irrelevante ou errado.

O assunto é motivo de controvérsia grande e raivosa. A discussão ficaria melhor se a gente tivesse noção de como andam as contas do governo.

Nos anos de Lula 2, a receita do governo federal foi em média de 19,2% do PIB. Ou seja, de toda a renda (ou produção) da economia em um ano, o governo federal ficava com essa fatia para gastar.

Foi o período de melhor ritmo de crescimento da economia e da maior arrecadação nas últimas quatro décadas. Sem criar novos impostos, é difícil que a receita federal vá além da média de Lula 2.

Atualmente, a receita disponível é de 18,9% do PIB. Não é muito menor. A diferença relevante é que, nos anos de Lula 2, a despesa média foi bem menor, de 17,3% do PIB. Ou seja, depois de pagas todas as contas, ainda sobrava o equivalente a 1,9% por ano, em média ("para pagar juros"). É o que se chama de superávit primário. Essas contas todas não incluem as despesas juros da dívida pública.

Bruno Boghossian - Lula quer a classe média

Folha de S. Paulo

Longo processo de aumento da rejeição ao PT produz fixação do presidente pelo segmento

Lula está de olho na classe média. Depois de retomar programas voltados para a população mais pobre, o presidente estabeleceu como meta recuperar terreno para o PT nas faixas seguintes de renda.

O petista anunciou em entrevista na última quarta-feira (22) que, depois do marco de 100 dias de governo, vai trabalhar para resgatar "o poder aquisitivo da classe média brasileira". Segundo um auxiliar, Lula demonstra uma fixação por essa fatia do eleitorado. Em fevereiro, ele disse que "a classe média não é contemplada em quase nada das políticas públicas do Estado".

Lula reforçou que pretende isentar do Imposto de Renda os contribuintes que ganham até R$ 5.000 (a um custo de dezenas de bilhões de reais) e elaborar um novo programa de crédito habitacional (em fase preliminar de discussão) para quem ganha mais de R$ 8 mil e está fora do Minha Casa, Minha Vida. A renegociação de dívidas do Desenrola e a operação da Petrobras para baratear os combustíveis também podem ter impacto nesses grupos.

Muniz Sodré* - Uma jihad tabajara

Folha de S. Paulo

governo paulista oficializou a Marcha para Jesus como patrimônio imaterial, a Frente Evangélica articula-se no Congresso para ampliar benefícios fiscais. Ou seja, a ultradireita se reforça. Mas há inquietações no campo teocrático. Fala-se de queda na sacrossanta arrecadação. Depois, "Brasil Partido", um podcast da BBC Brasil, foca um racha, pós-vitória de Lula. Uma ala vestiu a fantasia golpista de retorno do inominável. São igrejas pequenas, mas com grandes números nas redes. Como suas contrapartes islâmicas, pregam jihad ou guerra santa.

Em histórias de vida transparece a formação de muitos desses guias. Numa, de observação próxima, um advogado, com experiência sindical e frequentador de academia esportiva, aparece um dia com "Jesus salva" na camiseta. Sem passado evangélico, falava emocionado sobre recente "encontro com Jesus", empreendia nova franquia templária e dispunha do local: ele seria o pastor, assessorado por um contador. As últimas notícias lhe dão como abençoado proprietário em Miami.

Hélio Schwartsman - A cidade de Hitler

Folha de S. Paulo

Uma dificuldade para quem liga nível educacional a progresso moral sempre foi explicar como os alemães da primeira metade do século 20, um dos povos mais instruídos da Europa, perpetraram o Holocausto. Um problema relacionado é explicar como Munique, uma das cidades mais sofisticadas e cosmopolitas da Alemanha, se converteu, nas palavras de Thomas Mann, um de seus moradores, na "cidade de Hitler". Esse quebra-cabeças é o tema de "In Hitler's Munich", de Michael Brenner.

Uma das explicações padrão para o fenômeno está na República Soviética da Baviera, o governo revolucionário de curta duração que se instalou na região após a derrota da Alemanha na 1ª Guerra. Quase todos os líderes desse movimento eram judeus, como Kurt Eisner, Ernst Toller, Gustav Landauer, Erich Mühsam e Eugen Levine. Essa experiência teria atiçado o antissemitismo na Baviera, favorecendo uma reação contra a figura do "judeu-bolchevique" que catapultou grupos de extrema direita como os nazistas.

Celso Ming - Tiro ao Roberto

O Estado de S. Paulo

Desde que o mundo é mundo, tem sido mais fácil encontrar um culpado do que uma solução. Adão lançou a culpa sobre Eva; e Eva, sobre a serpente.

Em 1961, quando decretou a brutal desvalorização do cruzeiro, a moeda na época, o então presidente Jânio Quadros espinafrou os Estados Unidos. Quando alguém o alertou que os Estados Unidos não tinham nada a ver com o valor da moeda nacional, Jânio se limitou a dizer: “Mas é preciso arranjar um culpado...”.

O presidente Lula enfrenta graves encrencas na área econômica. O PIB se encaminha para a estagnação; a quebra da Americanas e a crise bancária global provocaram retração do crédito que, por sua vez, aponta para a recessão; a inadimplência cresce entre as empresas e as famílias; pelo terceiro ano seguido, a inflação deverá ultrapassar a meta; o rombo fiscal não para de subir; já embicando para o quarto mês depois da posse, o governo Lula não consegue desembuchar o tal arcabouço fiscal; a indústria continua se desidratando; a confiança que já era débil ameaça se esvair; o Congresso não ajuda e de todo lado aparecem reivindicações, exigências e pedidos de verba.

Eliane Cantanhêde - Decisão acertada

O Estado de S. Paulo

Que Lula fique bom logo e volte revigorado para uma guerra que está só começando!

O presidente Lula tem 77 anos, está com pneumonia e, se um voo de 36 ou 25 horas já é pesado para qualquer um, imagine-se para uma pessoa nessas condições. Logo, foi uma decisão difícil, aflitiva, mas correta, cancelar a viagem à China e esperar uma total recuperação, além de nova brecha na agenda de Xi Jinping, para remarcar a data.

É uma pena, porém, porque Lula seria o primeiro presidente recebido por Xi Jinping após a recondução ao cargo e a viagem, que envolvia pesados interesses bilaterais, regionais e multilaterais, era vista como a mais importante do início do mandato e decisiva para alavancar a volta do Brasil e de Lula ao mundo.

Idade, saúde e condições psicológicas de um presidente são questões muito delicadas, mas é importante para o governo, a sociedade, o País e seus parceiros, no campo diplomático, econômico e comercial, que as decisões e informações sejam transparentes, realísticas, sem margem para rumores e insegurança institucional.

Rolf Kuntz - Lula, o BC e o padrão Dilma

O Estado de S. Paulo

Ainda sem explicar como cuidará das contas públicas, o presidente retoma o padrão da companheira Rousseff ao pretender dar ordens ao BC

Uma nova etapa de crescimento, emprego e prosperidade vai começar depois de cem dias de mandato, prometeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, até agora mais ocupado em falar, reacender conflitos e tentar recompor programas abandonados ou degradados, como o Mais Médicos e o Bolsa Família. Declarou superados os livros de Economia e defendeu a criação de “uma nova mentalidade sobre a razão de a gente governar”, mas sem apresentar um plano de governo e um esquema de sustentação das contas públicas. Além disso, o presidente nem sequer explicou essa “nova mentalidade”, contentando-se com a defesa de alguns tipos de gastos, como aqueles destinados à área da saúde. Mas foi adiante e, confirmando o desprezo aos livros de Economia, propôs uma estranha reforma conceitual – excluir esse dispêndio da categoria de gasto. Nesses manuais, custeio e investimento são diferentes tipos de despesas – ou de gastos. A pregação reformista se completou com ataques ao presidente do Banco Central (BC), à política de juros e à autonomia da instituição, uma característica observada nas maiores economias capitalistas.

Apesar do apoio de alguns ministros, de líderes do PT, de pelegos sindicais e também de uma parte do empresariado, o presidente foi derrotado no primeiro grande confronto com o BC. O Copom, Comitê de Política Monetária, anunciou na quarta-feira, dia 22, a manutenção da taxa básica de juros em 13,75% e, além disso, declarou a disposição de voltar a elevá-la se piorarem as perspectivas de inflação.

Míriam Leitão - A semana difícil de Lula

O Globo

Presidente teve que lidar com diagnóstico de pneumonia e adiamento da viagem à China. E com as consequência da declaração lamentável sobre plano do crime organizado

A sensata decisão do presidente Lula de adiar a viagem à China não tira a força da diplomacia presidencial que ele tem comandado desde que voltou ao governo. É impressionante como mudou o nível das relações internacionais, depois de encerrado o projeto país pária. A agenda de visitantes no Brasil e de viagens do presidente ao exterior em três meses é mais movimentada do que em qualquer ano do governo Bolsonaro. A China é o nosso maior parceiro comercial, houve preparações dos dois lados para uma visita com resultados concretos, e tudo isso será retomado assim que for possível.

A semana em que terminou diagnosticado com pneumonia, e com viagem cancelada, não foi boa para Lula. E é bom que a cúpula do governo entenda que ajudam os que alertam para os erros e não os que dão tapinhas nas costas, como o presidente alertou.

Luiz Carlos Azedo - Parceria com a China pode estressar relação com os EUA

Correio Braziliense

Quando Lula se propõe à formação de um clube de países para negociar a paz entre a Rússia e a Ucrânia, põe em risco suas boas relações com Joe Biden

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva adiou a viagem para a China, que faria com uma comitiva de 200 empresários e uma delegação parlamentar da qual fazia parte o presidente do Congresso, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Na lógica geopolítica do chamado “Sul global”, as relações com presidente Xi Jinping são as mais importantes para a diplomacia brasileira, porém, qualquer aproximação que possa ser interpretada como uma aliança principal podem estremecer as relações do Brasil com os Estados Unidos, cujo apoio foi decisivo para respaldar a eleição de Lula, garantir sua posse e frustrar a tentativa de golpe de estado de 8 de janeiro. O adiamento é uma oportunidade de refletir sobre seus objetivos.

O Brasil está entre dois polos de atração da geopolítica global. A China hoje é o nosso principal parceiro comercial, para o qual exportamos algo em torno de US$ 88 bilhões, enquanto importamos US$ 47 bilhões, com um superávit da balança comercial de US$ 41 bilhões. Em contrapartida, importamos US$ 39 bilhões dos Estados Unidos, para os quais exportamos US$ 31 bilhões, um déficit comercial de US$ 8 bilhões. Ocorre que o valor agregado de nossas exportações para a China é muito baixo, enquanto os produtos chineses estão matando a indústria nacional, que perdeu também seu mercado para os chineses na América do Sul.

Merval Pereira - Dois perdidos

O Globo

Lula cada vez mais se comporta como Bolsonaro, que via conspiração em todas as ações do governo que não lhe favoreciam

Desde a campanha presidencial ficou explícito que Lula e Bolsonaro queriam se enfrentar, cada qual considerando que o outro era o melhor adversário para derrotar. Ambos tinham razão, pois a polarização levou a um esvaziamento do centro político, e o país se dividiu. A vitória de Lula pela menor margem de diferença da historia recente do país deixou para trás uma oposição que, mesmo abandonada por Bolsonaro em seu exílio voluntário, tem força política no Congresso e nas redes sociais.

Maior prova disso foi a reação das redes à estultícia de Lula insinuando uma farsa na operação da Polícia Federal que desmontou um esquema criminoso que visava o senador Sérgio Moro por suas ações contra o PCC quando ministro da Justiça, e outros membros do sistema judiciário. Moro cresceu e Lula murchou nas redes sociais, embora os petistas e seus satélites insistam em levantar falsas armações policiais para favorecer Moro.

Lula não apenas ofendeu a Polícia Federal como seu ministro da Justiça Flávio Dino, que elogiou a ação e exaltou a atuação “republicana” em relação a um adversário do presidente Lula. Em vez de aproveitar a ocasião para exaltar as qualidades da Polícia Federal, órgão do Estado que atua acima dos governos da ocasião, Lula comportou-se como Bolsonaro, que via conspiração em todas as ações do governo que não lhe favoreciam, e queria que a Polícia Federal trabalhasse a seu favor.

Dorrit Harazim - Leilão tortuoso

O Globo

Difícil compreender o que leva alguém a pôr à venda um registro de tamanha carga afetiva para a família de Stuart Angel

Quase passaram despercebidas as duas páginas datilografadas e velhuscas, datadas de 29 de março de 1976, que compunham o lote número 350 do leilão Postais, Documentos, Publicações e Afins, marcado para a terça-feira 5 de abril, no Rio de Janeiro. As folhas em questão formavam uma “Declaração” na primeira pessoa de um oficial da Aeronáutica brasileira. No documento, ele atesta ter participado da prisão, interrogatórios, torturas e assassinato do preso político Stuart Angel, em 1971. O oficial declarante se identifica como Marco Aurélio Carvalho, não declina sua patente à época, mas relata em dez parágrafos secos a sequência de desumanização a que Stuart, de 25 anos, foi submetido no centro de tortura da Base Aérea do Galeão.

“De acordo com a prática naquela unidade militar”, atesta o declarante no documento, o jovem sofreu afogamentos, choques eletromagnéticos, pau de arara. Como ainda assim se recusasse a dar a informação exigida, “o civil foi amarrado ao para-choque de um jipe. Ali ele foi arrastado por várias horas, sempre lhe sendo perguntado o endereço do referido subversivo, que ele se negava a dar (...) Depois de horas nessa situação, foi levado de novo para a cela (...)”. O médico que, segundo o declarante, trabalhava em parceria com os torturadores garantira que Stuart continuava em “boas condições” (leia-se, em condições de ser novamente interrogado e torturado). Errou feio. Stuart Angel morreu naquela madrugada de maio de 1971. Uma noite que, para a família Angel, dura até hoje.

A primeira das perguntas sem resposta levantadas pelo episódio é o que teria levado o oficial Marco Aurélio a redigir essa declaração de culpa e registrá-la em cartório no dia seguinte. Sentimento de remorso acumulado? Ainda faltavam três anos para a anistia de 1979 que permitiu o retorno dos exilados políticos e isentou para sempre os militares de prestar contas de seus crimes. Medo de ser “descoberto”? O declarante sequer existe? O texto, se apócrifo, foi criado com que intenções? Que caminhos percorreu até se tornar o lote 350 de um leilão em 2023? Em linhas gerais, o documento confirma a dolorosa carta de 1972 que Alex Polari, vizinho de cela de Stuart , endereçara a Zuzu Angel, mãe do companheiro morto. Em seis páginas manuscritas com letra miúda, Polari fizera um testemunho detalhado da prisão (que presenciou, sob escolta militar), da tortura (a que assistiu) e da morte do companheiro. “À noite, alguém foi colocado numa cela ao lado da minha. Esse alguém estava em estado precário e pude ver pelo pórtico da porta tratar-se de Stuart. Tossia a mesma tosse angustiante que ouvira toda a tarde. Distingui e também o reconheci pela voz. Três frases dele se repetiam: ‘Água’, ‘Vou morrer’, ‘Estou ficando louco’ (...)” , narrou Polari, acrescentando que dois coronéis e um enfermeiro ainda passaram pelas celas à noite. “A tosse aumentou, as frases se tornaram ininteligíveis, e depois cessaram por completo.” Stuart morrera. A História, não.

Elio Gaspari - Lula está encantado com Lula

O Globo

Chegando à marca dos cem dias de governo, presidente tem um pé no passado e outro no futuro

Com 187 mil carros nos pátios e grandes montadoras dando férias coletivas a milhares de trabalhadores, Lula deu uma entrevista de quase duas horas aos jornalistas Helena Chagas, Tereza Cruvinel, Luís Costa Pinto e Leonardo Attuch. Repetiu várias vezes que “este país vai voltar a crescer”. Quando surgiu o assunto da virtual paralisação da indústria automobilística, disse que “fiquei surpreso”, reclamou das empresas que importam veículos e, tratando do mundo real, prometeu: “Eu quero chamar a indústria automobilística para conversar, O que é que está acontecendo com vocês?”

Ex-metalúrgico e sindicalista, Lula sabe o que está acontecendo: falta demanda. Foram poucos os minutos dedicados a esse assunto específico. Mais tempo foi dedicado às suas experiências com a Lava-Jato e a uma batalha inglória com o Banco Central por causa da taxa de juros.

Por mais de uma hora Lula prometeu um Brasil que volte a sorrir. Como? Acreditando em Lula, como ele acredita. Chegando à marca dos cem dias de governo, ele tem um pé no passado e outro no futuro. Quanto ao presente, surpreendeu-se com as férias coletivas. Enquanto isso, seu chefe da Casa Civil dava um chá de cadeira de 45 minutos ao ministro da Fazenda.

Por cá, a falta de demanda e o início de uma crise no crédito ameaça a saúde de grandes varejistas. Quando o problema aparecer, Lula não deverá dizer que foi surpreendido.

Coisa dos americanos

Na mesma entrevista, Lula voltou a culpar o governo americano pela operação Lava-Jato. Seria coisa para destruir as empreiteiras nacionais.

Ele retomou um bordão de 2021, quando acabava de deixar a prisão. À época, elaborou a ideia:

“É por isso que teve o golpe contra a Dilma, porque é preciso não ter petróleo aqui no Brasil na mão dos brasileiros. É preciso que esteja na mão dos americanos porque eles têm que ter o estoque para a guerra.

Depois da 2ª Guerra Mundial, eles aprenderam que só ganha guerra quem tem muito estoque de combustível, porque eles sabem que a Alemanha perdeu a guerra porque não chegou em Baku, na Rússia, para ter acesso à gasolina.”

Ganha um fim de semana num garimpo ilegal quem formular dois parágrafos com tantos enganos. A Alemanha não chegou aos campos de Baku porque foi detida em Stalingrado no início de 1943. A essa altura o Reich já havia sido barrado às portas de Moscou e os Estados Unidos já tinham quebrado a perna do Japão na batalha naval do Midway, em junho de 1942.

Se os alemães chegassem a Baku, ainda assim teriam perdido a guerra.

Em crise, PSDB teme novo esvaziamento nas eleições municipais

Por Bernardo Mello / O Globo

No Rio, partido está acéfalo e, em SP, tucanos são assediados por Republicanos e PSD. Novo presidente tentará reanimar bases

Com desempenho eleitoral em queda nas suas últimas três disputas e dificuldade para forjar novas lideranças em capitais e grandes cidades, o PSDB teme um novo esvaziamento nas eleições municipais de 2024. Já antevendo o possível baque no número de prefeituras, mas de olho em estancar a sangria, o partido antecipou a passagem do comando nacional para o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e aguarda o início de viagens do novo presidente da sigla pelo país na tentativa de reanimar as bases.

Um dos motivos da apreensão para 2024 é o impacto da perda do governo de São Paulo, estado que foi pilotado por tucanos nas últimas três décadas. Em 2020, na gestão de João Doria (PSDB), o partido elegeu 172 prefeitos no estado, o equivalente a um terço de todas as prefeituras tucanas no país e mantendo o patamar de eleições anteriores, em contraste com o recuo nacional. Agora, sem a máquina administrativa , o PSDB vê partidos como o Republicanos, do governador Tarcísio de Freitas, e o PSD, do secretário de Governo Gilberto Kassab, tentarem atrair prefeitos tucanos.

Lideranças do PSDB em diferentes estados consideram natural a movimentação da gestão Tarcísio pelo espólio tucano, e lembram que o partido perdeu de forma inesperada sua principal figura política em São Paulo: o ex-prefeito Bruno Covas, que morreu em 2021. Doria se desfiliou do PSDB meses após desistir de concorrer à Presidência em 2022, e seu sucessor, Rodrigo Garcia, derrotado no primeiro turno, está em temporada sabática nos Estados Unidos.

Sem uma liderança clara em seu principal reduto eleitoral, o PSDB paulista aposta na capacidade de Leite de mobilizar bases municipais — as mesmas usadas por Doria para prevalecer nas prévias tucanas em 2022 contra o governador.