domingo, 6 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Rejeição de Lula para de subir, mas não dissipa incerteza

Folha de S. Paulo

Presidente fica na frente em intenções de voto, mas sem a larga vantagem de antes; eleição será plebiscito sobre mandato

Foi estancada a queda da popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que havia sido detectada pelo Datafolha no início de fevereiro. Mas, de acordo com a pesquisa do instituto que foi a campo nesta primeira semana de abril, não há motivo para comemoração nas hostes situacionistas.

A cada 100 entrevistados, 38 consideram que Lula faz um governo ruim ou péssimo (ante 41 na rodada anterior), 29 avaliam como ótima ou boa a sua administração (24 em fevereiro) e os mesmos 32 entendem que o seu desempenho é regular. O quadro pouco variou, considerada a margem de dois pontos de erro.

Questionados diretamente sobre se aprovam ou desaprovam a gestão petista, os brasileiros se dividem em duas metades iguais. A expectativa em relação ao restante do mandato presidencial é menos otimista e mais pessimista do que há um ano.

Lula venceria Bolsonaro e demais nomes da direita se eleição fosse hoje

Bruno Ribeiro / Folha de S. Paulo / Datafolha

Petista lidera cenários para 2026 e tem menor folga se disputa fosse contra ex-presidente, que está inelegível

Com sinais de freio na queda de popularidade e diante da indefinição de seus adversários, o presidente Lula (PT) venceria todos os nomes apoiados por Jair Bolsonaro (PL) se as eleições de 2026 fossem hoje, indica pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (5).

O levantamento mostra que, mesmo se Bolsonaro recuperasse seus direitos políticos e entrasse na disputa, também seria derrotado pelo petista. O ex-presidente está inelegível até 2030 por decisão da Justiça Eleitoral e é réu sob a acusação de liderar uma trama golpista em 2022.

Faltando 18 meses para a eleição, o Datafolha testou cinco cenários de primeiro turno com o atual presidente. No confronto direto contra Bolsonaro, Lula tem 36% das intenções de voto, e Bolsonaro, 30%.

O instituto ouviu 3.054 pessoas com 16 anos ou mais em 172 municípios de terça (1º) até quinta-feira (3). A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.

Trump aposta no “efeito elefante” para manter hegemonia dos EUA - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O tarifaço levou o banco JP Morgan Chase a elevar de 40% para 60% a probabilidade de recessão nos EUA e, por consequência, na economia mundial

Os mercados globais encerraram a semana com previsões de nova recessão mundial, devido ao tarifaço anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ao adotar a reciprocidade tarifária, a reação da China à sobretaxa, que começou a valer para 185 países, fez as bolsas desabarem e o preço das commodities caíram. O cenário global lembra a teoria do caos, um ramo da matemática e da física que estuda sistemas dinâmicos que são extremamente sensíveis às condições iniciais.

Essa sensibilidade significa que pequenas variações no ponto de partida podem levar a resultados drasticamente diferentes. É daí que vem a ideia do “efeito borboleta” – o conceito de que o bater de asas de uma borboleta em um lugar pode, eventualmente, causar um furacão do outro lado do mundo. Entretanto, estamos diante de uma espécie de “efeito elefante”, desculpe-me a analogia com o símbolo dos republicanos, mas tem tudo a ver com Trump na Casa Branca.

Destruição - Merval Pereira

O Globo

A base da atuação do presidente Donald Trump é a mesma que regeu o governo de Jair Bolsonaro: desmontar o sistema em vigor, e fundar um outro, supostamente mais vantajoso para seus objetivos

A base da atuação do presidente Donald Trump no governo dos Estados Unidos é a mesma que regeu o governo de Jair Bolsonaro: desmontar o sistema em vigor, e fundar um outro, supostamente mais vantajoso para seus objetivos. Das palavras às ações, Trump quer eliminar todas as influências que considera malignas sobre a sociedade americana: globalismo, como chamam ironicamente a globalização; política identitária, que nasceu na esquerda americana e se espalhou pelo mundo; e assim por diante.

Bolsonaro dizia que precisava destruir antes de reconstruir, e os alvos eram os mesmos de Trump: universidades, grupos de think-tanks, corporações influentes, como a advocacia e o Judiciário, jornalismo, toda e qualquer atividade que possa contestar suas determinações. No Brasil, Bolsonaro foi atrás também da classe cultural, com as mesmas alegações que Trump usa para cassar o financiamento de universidades: são dominadas pela esquerda, disseminando pensamentos divergentes nocivos à sociedade.

Aposta na vassalagem - Bernardo Mello Franco

O Globo

Ao vestir boné do MAGA, Tarcísio se associou a políticas que causarão prejuízo a SP

Em 20 de janeiro, Donald Trump tomou posse como 47º presidente dos Estados Unidos. No estado mais rico do Brasil, o governador vestiu o boné vermelho do republicano e festejou ao som do Village People: “Grande dia!”.

Tarcísio de Freitas não foi o único político brasileiro a comemorar a volta do bilionário à Casa Branca. Em Santa Catarina, o governador Jorginho Mello celebrou o retorno de Trump como “um alento para o mundo democrático”, que traria “novos horizontes para a economia global”. No Rio, Cláudio Castro trombeteou o início de uma gestão épica, “inspirada pelos princípios de liberdade, progresso e prosperidade”.

Os três imitavam Jair Bolsonaro, que vibrou com um convite para a posse dizendo que se sentia “criança de novo”. “Estou animado. Não vou nem tomar mais Viagra”, acrescentou o capitão. A excitação não comoveu o Supremo, que manteve seu passaporte retido para evitar uma tentativa de fuga.

A muralha americana - Míriam Leitão

O Globo

O extremismo protecionista de Donald Trump destrói a arquitetura do comércio global construída desde o fim da Segunda Guerra

Os países construíram desde o fim da Segunda Guerra, por décadas, um mundo em que foram sendo derrubados muros tarifários, desfeitas barreiras não tarifárias, unificados critérios, construídos acordos, cooperação e integração econômica. Várias rodadas de negociações comerciais multilaterais foram permitindo concessões de todos os países para aumentar o comércio global. Houve acordos regionais e a consagração de princípios e regras universais que nos trouxeram a um tempo de comércio exuberante. O presidente Donald Trump bombardeou esse edifício com armas de destruição em massa. A China reagiu aumentando as tarifas. A União Europeia promete responder na mesma moeda. O passado de fortalezas fechadas voltou.

O pesadelo do banco Master- Elio Gaspari

O Globo

Astuciosa engenharia da compra pelo BRB tirará a instituição do colo do fundo dos banqueiros, levando-o para o colo da Viúva, já que ele é estatal

Depois da crise bancária do final do século passado, o Brasil pareceu ter dado um salto na direção da racionalidade do capitalismo financeiro. Pedro Malan, Gustavo Franco e Armínio Fraga arrumaram o Banco Central e, sob o comando de Fernando Henrique Cardoso, limparam boa parte do mercado. Foram à garra bancos de ex-ministros (Econômico e Bamerindus) e até mesmo o Nacional, pertencente à família da nora de FH.

Em 1995 criou-se o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), uma entidade privada que garantiria investimentos financeiros. Hoje, o FGC garante papéis até o valor de R$ 250 mil.

Passou o tempo e o pesadelo voltou. Com jeito de quem não queria nada, anunciou-se numa sexta-feira que o Banco Regional de Brasília, BRB, instituição do governo do Distrito Federal, comprará por R$ 2 bilhões uma fatia do Master. O controlador do Master, Daniel Vorcaro, continuará na cadeira e presidirá o conselho de administração da nova instituição.

Protocolo Mosquito – Dorrit Harazim


 Globo

Se o local estiver minado, o ‘escudo’ civil explode primeiro. Caso contrário, ele tem a promessa de ser libertado uma vez cumprida a missão

Na semana passada, mais que em qualquer momento anterior, nosso planeta viu-se forçado a mudar de órbita e girar em torno de Donald Trump, autoproclamado rei-sol do desvario tarifário em curso. Consequências e reverberações da medida têm sido dissecadas em todos os quadrantes, exceto na estreita faixa de terra, sangue e história chamada Gaza. Ali não há o que taxar. Ali uma vida humana vale menos que a de um cachorro.

A maré montante da autocracia - Sergio Fausto

O Estado de S. Paulo

A ruptura interna e externa dos Estados Unidos com a chamada ordem liberal se dá num momento em que ela já se encontrava gravemente enfraquecida

A prisão em 19 de março do prefeito de Istambul, Ekrem Imamoglu, principal líder da oposição e candidato à presidência da Turquia, mostra que o regime de Recep Tayyip Erdogan dá mais um passo no sentido de se tornar uma autocracia plena. Membro fundador da Otan, a Turquia tem papel importante na geopolítica global, pela região em que se situa e pelo papel ambivalente que joga entre as grandes potências.

A decisão de Erdogan de dar um passo decisivo na direção da autocracia é parte do novo contexto global que se vai delineando com rapidez desde a posse de Donald Trump. Mais um sinal claro de que as transformações das políticas interna e externa dos Estados Unidos terão graves consequências para a democracia no plano internacional. A erosão deliberada dos pilares da democracia norte-americana caminha de mãos dadas com o completo abandono pelos Estados Unidos da ordem liberal cuja construção o país liderou após a Segunda Guerra Mundial.

Exemplos de boa política – Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

STF dribla Lula e fortalece pacote da Segurança; Congresso dribla Bolsonaro e enfraquece anistia

Enquanto Donald Trump desmorona o sistema internacional de comércio e implode os princípios e interesses mais basilares dos Estados Unidos, aqui no Brasil o Supremo mais uma vez preenche lacunas dos dois outros Poderes e o Congresso confirma que, apesar de todos os gritantes pesares, não ultrapassa limites em questões cruciais. Nos dois casos, por decisões solidamente debatidas.

Ao aprovar a chamada “ADPF das favelas”, o STF modulou o voto do relator Edson Fachin e fez o que o seu ex-presidente Ricardo Lewandowski, agora ministro da Justiça, tenta e é barrado tanto por governadores de oposição quanto pelo presidente Lula e seus “personal influencers”: atribuiu à Polícia Federal investigações de crimes de repercussão interestadual e internacional cometidos no Rio.

Tarifas reforçarão o autoritarismo - Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Políticos competirão entre si para provar quem protege melhor seu povo de um mundo hostil

A guerra comercial lançada por Donald Trump empobrecerá os EUA e o restante do mundo. Ela cria oportunidades para a China e o Brasil. Mas será um incentivo ao nacionalismo, populismo e autoritarismo. As tarifas são o instrumento para Trump concentrar poder. A sobrevivência das empresas depende agora do poder imperial de Trump, que pode cobrar o que quiser delas para restaurar sua viabilidade.

A imposição das tarifas a mais de 60 países parte de premissas e parâmetros falsos. Ao anunciá-las, Trump disse que “os EUA foram proporcionalmente mais ricos do que em qualquer outra época” entre 1789 e 1913, quando as tarifas eram mais altas e não havia imposto de renda. Em valores ajustados pela inflação, o PIB americano é hoje 23 vezes maior do que em 1913 e a renda per capita se multiplicou por 6.

Brasil e China na guerra de Trump - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Ascensão chinesa mudou política e economia por aqui; guerra trumpiana será outro choque

Desde 2023, a China tem 26,4% do total da corrente de comércio de bens do Brasil, na média. Corrente de comércio: a soma da exportações e importações. O comércio com os Estados Unidos equivale a 13,4% do total. Com a União Europeia, 15,9%. Somados, EUA e UE são 29,3%, pois. América do Sul, 11,9%.

Depois da guerra econômica de Donald Trump, pode ser que China venha a ter mais peso no comércio do Brasil do que americanos e europeus. E daí?

A ascensão da economia e do comércio da China no século 21 contribuiu para mudanças na produção, em contas econômicas fundamentais, na política e nas relações exteriores do Brasil. Basta pensar no mais óbvio. Na estagnação ou na decadência da indústria ao menos desde 2011. Na entrada de recursos que ajudou a dar cabo das crises de endividamento externo, tormento de dois séculos. Na ascensão econômica, política e cultural do agro. No enfraquecimento das relações com Mercosul e EUA.

Trump estabelece nova forma de governo: a extorsocracia - Cláudio Couto

Folha de S. Paulo

Valendo-se da capacidade coercitiva e do poderio financeiro, acrescenta outra dimensão aos processos de erosão democrática promovidos por populistas

Cientista político, professor da FGV-Eaesp, pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público (Cepesp-FGV) e bolsista de produtividade do CNPq

O segundo governo de Donald Trump trata de forma peculiar atores políticos e sociais, como governos locais, universidades e escritórios de advocacia: submete-os à extorsão sistemática.

Se não se curvarem a seus caprichos e diretrizes, pune-os severamente, abusando dos poderes presidenciais, algo certamente inconstitucional. Porém, a estratégia de não ceder à extorsão, enfrentando o presidente nas cortes, é demasiado custosa. Leva muito tempo, com prejuízos imediatos irrecuperáveis e ameaças à própria sobrevivência.

No Trump day - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Os economistas não têm a menor ideia de onde o presidente dos Estados Unidos tirou a fórmula de seu tarifaço

O Reino Unido tem muito o que comemorar. Afinal, desde que Donald Trump anunciou seu tarifaço na quarta-feira (2), o brexit deixou de ser o suicídio geopolítico mais idiota de um país rico nas últimas décadas.

Trump falou segurando uma tabela de boteco que listava, em uma coluna, o quanto cada país cobrava de tarifas dos produtos americanos; na outra, que tarifas os Estados Unidos, de agora em diante, passariam a cobrar deles.

Logo ficou claro que os números na tabela de Trump não haviam sido calculados por economistas, mas sim extraídos por proctologistas.

Os números não eram as tarifas que cada país cobrava, mas o resultado de uma fórmula matemática que não está em livros de economia pelo mesmo motivo que a frase "Blagabuuuu!" não está em "Hamlet": é uma conta que não faz sentido. É só uma sobreposição aleatória de números relacionados a comércio internacional sem qualquer sentido econômico.

Uma economia para o Antropoceno - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro sustenta que o impacto de atividades humanas sobre a biosfera entre nas contas dos economistas

José Eli da Veiga é um economista que gosta e entende de ciências —as de verdade (desculpem-me não resisti à provocação). É também um dos sujeitos mais eruditos que conheço. Quando Zé Eli se dispõe a escrever sobre um assunto, já leu quase tudo de relevante que foi publicado sobre a matéria. E ele é metódico ao explicitar suas fontes.

Daí que seus livros são sempre um ótimo mapa do caminho para quem quer assenhorar-se de um tema. Quem quiser se aprofundar pode ir às obras citadas; quem não quiser pode fiar-se em seu resumo do panorama das discussões. "O Antropoceno e o Pensamento Econômico", terceiro livro de sua trilogia sobre o impacto da humanidade na biosfera, não foge a esse padrão.

O vicioso círculo do espelho no celular - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

O aparelho banaliza a imagem por sua instantaneidade, de maneira irresistível para a maioria, jovens em especial

Muitos anos atrás, uma pesquisa sobre televisão indagava a adolescentes cariocas o que mais gostariam de ver na telinha. "Eu", respondeu um deles. Na mesma época, parecia divertida a anedota da mãe zelosa que, passeando no parque com o bebê, escuta de uma outra o elogio: "que lindo, o seu filho". E ela responde: "Você ainda não viu a foto".

Um paliativo para ansiedade que cerca Lula - Catia Seabra

Folha de S. Paulo

Números apontam freio na queda da popularidade, mas resultado não é suficiente para aplacar inquietação de aliados do presidente

Datafolha mitigou angústias que rondam o Palácio do Planalto. Os números coincidem com pesquisas do governo que já apontavam para um freio na queda na popularidade do presidente Lula.

Embora encarado como uma tendência de recuperação, esse paliativo não tem sido suficiente para aplacar certa inquietação entre aliados de Lula, especialmente com sinais contraditórios emitidos pelo presidente.

Poesia O analfabeto político, de Bertolt Brecht

p> 

Música | Carlos Lyra - Marcha da quarta-feira de cinzas

 

sábado, 5 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Regras para ações policiais em favelas do Rio são razoáveis

O Globo

Decisão do STF equilibra necessidade de enfrentar criminosos e proteger inocentes dos tiros da polícia

Diante da situação crítica na segurança no Rio de Janeiro, fez bem o Supremo Tribunal Federal (STF) em flexibilizar as normas para operações policiais nas favelas, impostas em 2020, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 635, a ADPF das Favelas. Embora elas não proibissem as incursões, na prática engessavam o trabalho da polícia. Foram alvo de críticas do governo do estado e da prefeitura carioca. Em decisão consensual, a Corte retirou a exigência de excepcionalidade para as ações. Caberá à própria polícia avaliar quando são necessárias. É mais sensato.

Foi acertada também a decisão de acabar com restrições a helicópteros. Evidentemente, eles devem ser usados com cautela, mas a polícia não pode abrir mão de um recurso essencial no enfrentamento a criminosos cada vez mais bem armados. O poder de fogo dos bandidos ficou claro no mês passado, quando o copiloto de um helicóptero da polícia levou um tiro na cabeça ao sobrevoar uma comunidade.

Polarização e democracia - Marcus Pestana

A democracia é invenção humana. Portanto, não é perfeita. É experiência coletiva. Aprendizado social permanente. Tentativa e erro. Avanços e retrocessos. Envolve cidadãos, partidos políticos, organizações da sociedade civil e instituições de governo. Três poderes independentes. Embute sempre, diferente das longevas ditaduras, a possibilidade de autocorreção a partir das legítimas pressões e críticas da oposição, da imprensa, dos líderes sociais e através da alternância no poder. Dispõem de freios e contrapesos contra toda e qualquer tentativa autoritária. Pressupõe o respeito aos adversários políticos, o reconhecimento de sua legitimidade. A Constituição e as leis estão acima de todos. Pressupõem a contenção no exercício do poder.

A democracia parecia a grande ideia vitoriosa ao final do século XX. Experiências totalitárias à direita e à esquerda foram derrotadas. O nazifascismo e o stalinismo foram amplamente repudiados. Remanesceram governos autoritários na China, Coréia do Norte, Vietnã, Cuba, Venezuela, Rússia e em diversos países africanos e do Oriente Médio. Mas a democracia estava consolidada na maioria e nos principais países do Mundo, exceto China e Rússia.

É a segurança, estúpido! - Oscar Vilhena Vieira

Folha de S. Paulo

É fundamental que todos compreendam que a questão se tornou uma prioridade absoluta para a população

Os altos índices de criminalidade constituem o principal problema do país, conforme os dados da última pesquisa de opinião realizada pela Genial/Quest. Pela primeira vez, na série histórica, o tema da violência superou questões como desempregosaúde ou a economia. O dado não surpreende. Milhões de brasileiros são expostos diariamente ao medo e à brutalidade da violência. Apesar da gravidade e persistência desse problema, os esforços para conter a criminalidade ao longo das últimas décadas foram insuficientes.

A responsabilidade pela violência endêmica que nos afeta deve ser atribuída a boa parte dos políticos, em especial aos governadores. Salvo louváveis exceções, pouco se fez para enfrentar os interesses corporativos e modernizar o sistema de segurança e justiça no Brasil. Governos de centro, de direita e de esquerda foram, no mínimo, omissos na promoção das necessárias reformas.

‘Adolescência’ cria pânico moral nos progressistas – Pablo Ortellado

O Globo

Estamos mesmo diante de uma epidemia de misoginia adolescente? Não há evidência disso

A minissérie “Adolescência”, na Netflix, tornou-se um dos assuntos mais comentados nas últimas semanas. Ela conta a história (fictícia) da prisão de um menino inglês de 13 anos, acusado de assassinar uma colega, aparentemente movido por um impulso misógino. A trama investiga como a escola, a família e a cultura da internet podem ter colaborado para a tragédia.

A minissérie não apenas emocionou espectadores — também disparou um alarme. Mas será que esse alarme está baseado em fatos ou é apenas um pânico moral, alimentado por setores progressistas da sociedade?

Trump contra a globalização – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Com o preço mais alto, certamente haverá menos consumidores em condição de pagar. Isso é desaceleração, desemprego

Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), definiu assim a situação econômica após o tarifaço de Trump: "Altamente incerta".

As possíveis consequências da guerra tarifária confirmam. A coisa toda pode resultar em inflação nos Estados Unidos (e nos países que também elevarem suas tarifas) e desaceleração da economia americana e mundial, dada a queda inevitável no comércio global. Alguns analistas já falam em possível recessão. Daí a incerteza nas expectativas: inflação subindo exige que os bancos centrais aumentem ou mantenham taxas de juros elevadas. Se o problema principal for a recessão, a receita é invertida: juros para baixo. Que fazer se as duas coisas acontecerem juntas?

Hermínio, o timoneiro - Eduardo Affonso

O Globo

Decorrido um século, se ainda houver civilização, haveremos de falar de Hermínio Bello de Carvalho

A coluna da semana passada seria sobre Hermínio Bello de Carvalho, que, na véspera (28/3), completara 90 anos. Na última hora, a política atropelou a música, e o assunto acabou sendo Débora Rodrigues e Alexandre de Moraes. Foi mal. Sei que mais cedo ou mais tarde/ Vai ter um covarde pedindo perdão, lembra Hermínio, ao som de Jacob do Bandolim.

Em cinco anos, não nos lembraremos mais da patriota do batom. Daqui a 50, o superministro deve estar tão esquecido quanto os que esvoaçavam suas togas no plenário 50 anos atrás. Mas, decorrido um século, se ainda houver civilização (com Trump, Putin, Xi e Kim à solta, nunca se sabe), haveremos de falar de Hermínio Bello de Carvalho. Porque a arte é longa — breve é a vida.

Onde foi que erramos? - Bolívar Lamounier

O Estado de S. Paulo

A força de sentimentos de discórdia ou de concórdia como balizadores do comportamento social declinam de forma acelerada

Diversos países têm um livro de referência ao qual os cidadãos, de tempos em tempos, recorrem para retemperar seu entendimento da sociedade em que vivem.

O exemplo hors-concours é, com certeza, a França, que compartilha com os Estados Unidos a obra-prima de Alexis de Tocqueville A Democracia na América (1835). O Brasil é um caso especial. Para identificar o “nosso” livro, devemos, primeiro, descartar a geração dos críticos da Constituição Republicana de 1891, quase todos medíocres e propensos a ouvir o canto de sereia de Mussolini. Depois da Segunda Guerra, sim, passamos a contar com autores do quilate de Victor Nunes Leal, Raymundo Faoro, Simon Schwartzman e José Murilo de Carvalho. Mas, sem demérito para nenhum desses, penso que o status de “clássico” cabe ainda a Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1936 e diversas vezes reeditado.

O correto enquadramento dos fatos - Miguel Reale Júnior

O Estado de S. Paulo

O exame dos fatos deve ser a fonte indicativa da tipificação precisa, a produzir, então, reprimenda justa e proporcional

Hoje, conhecida a trama que redundou na tentativa de golpe, percebe-se que atos desatinados de Bolsonaro, desde abril de 2020, constituíam plano bem urdido visando a anular eleição eventualmente perdida.

Para a denúncia, “especificamente em relação ao sistema eletrônico de votação e aos ministros do Supremo Tribunal Federal/Tribunal Superior Eleitoral, as ações da célula de contrainteligência intensificaram-se a partir da radicalização dos discursos públicos de Jair Bolsonaro, em meados de 2021, caracterizando o início coordenado da execução do plano maior de ruptura com a ordem democrática”. Destaque-se que Bolsonaro chegou a impor às Forças Armadas para não concluírem pela regularidade das urnas eletrônicas.

O plano previa intervir no Tribunal Superior Eleitoral, anular o resultado das eleições e convocar novas, sendo Bolsonaro consagrado em farsa eleitoral “auditável”.

Trump pode levar os EUA a papel secundário - Fareed Zakaria

O Estado de S. Paulo

Presidente americano evoca o fim do século 19 para conduzir política econômica, mas esquece que país não tinha protagonismo

Desde 2017, EUA pararam os esforços para expandir o comércio, mas outros países fizeram o oposto

O Dia da Libertação é um nome oportuno para a política do presidente Donald Trump de impor novas tarifas massivas sobre produtos de todo o mundo. Ele considera os EUA uma colônia vitimizada, explorada por outros países que lhes roubaram empregos, indústrias e dinheiro. “Nosso país e seus contribuintes foram enganados por mais de 50 anos”, disse ele ao anunciar seus planos, na quarta-feira.

Seus asseclas, como o vicepresidente J.D. Vance e o secretário de Comércio Howard Lutnick, repetem essa percepção como papagaios, definindo a imagem de um país destituído, com fábricas esvaziadas, trabalhadores desempregados e salários estagnados.

A realidade é o oposto. E somente porque é o oposto – em outras palavras, por causa do poder econômico inigualável dos EUA – Trump é capaz de tentar sua política tarifária. O peso econômico dos EUA lhe permite tentar forçar o restante do mundo a se curvar à sua vontade. Mas Trump está usando o poder americano de uma forma tão arbitrária, destrutiva e burra que isso quase certamente resultará em um desfecho “perde-perde” para todos.

Espaço vital - André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Os Estados Unidos querem retomar seu protagonismo, decidiram se fechar para demonstrar sua capacidade de influir nos destinos da humanidade

A minha geração entendia que a época de um governante invadir outro país já tinha passado. Hitler justificava a necessidade de expandir a área do território alemão como "espaço vital". Esse argumento permitiu que ele anexasse a Áustria, parte da Tchecoslováquia e depois invadisse a Polônia e a União Soviética. Mas o que Putin faz hoje é algo semelhante: ele precisa anexar a Ucrânia — que, segundo a versão oficial russa, sequer existe — para criar um cordão sanitário ao redor de seu território. Ele pretende recriar o território da extinta União Soviética.

Trump, protecionismo e a história como farsa - Leonardo Weller*

Folha de S. Paulo

É bem capaz que o presidente americano pague um preço amargo pela barafunda saudosista em que está se metendo

Donald Trump chocou o mundo com o surpreendente pacote protecionista anunciado no dia 2 de abril, data por ele batizada de "Dia da Libertação". Segundo a revista britânica The Economist, a tarifa média dos EUA deve se elevar dos atuais 2% para nada menos do que 24%, patamar inconcebível há décadas. O presidente apresenta seu violento tarifaço como um retorno ao passado. Reiteradamente Trump afirma que altas tarifas servirão para reindustrializar seu país, fazendo a América "great again".

Há um fundo de verdade no saudosismo protecionista de Trump. No entanto, como é de praxe com idealizações da história que tentam trazer o passado para o presente, também há muito de engodo e cilada nesta tentativa de guinada autárquica.

O dilema de Lula - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Diante da deterioração da popularidade, presidente precisa decidir logo se será ou não candidato à reeleição

Pesquisa Quaest mostrou que a perda de popularidade do governo Lula continua em curso. A desaprovação bateu nos 56%, contra 41% de avaliações positivas. Em janeiro, essas taxas eram de 49% e 47%.

Daria para organizar uma série de seminários acadêmicos para tentar entender o que está acontecendo. É um fenômeno complexo. Mas parece seguro dizer que não estamos apenas diante de um problema de comunicação, de um governo que produz ótimos indicadores macroeconômicos e tem bons programas sociais, mas não consegue informar a população de suas realizações. A gestão Lula trabalha com esse diagnóstico há meses, vem atuando em conformidade com ele, e os índices de popularidade só pioraram.

Quem chora por último - Demétrio Magnoli

Folha de S. Paulo

Trump vê o déficit comercial como sinal de fraqueza e prova de que o resto do mundo extorque seu país, mas a verdade é o oposto disso

Big Bang: no "Dia da Libertação" de Trump, os EUA saltaram da condição de economia mais aberta à de uma das mais protegidas do planeta. À nova tarifa universal de 10% somam-se "tarifas recíprocas" definidas por critérios mercantilistas contra seis dezenas de parceiros comerciais. É uma "bomba nuclear no sistema global de comércio", na definição de Ken Roggoff, ex-FMI.

No mundo real, baseado na regra de "nação mais favorecida" estabelecida pelo GATT em 1947, cada país fixa tarifas universais por grupos de produtos (as exceções positivas são os acordos de comércio e as negativas, os regimes de sanções comerciais). Contudo, no universo paralelo trumpiano, expresso numa tabelinha de percentuais emanada da Casa Branca, existiriam tarifas aplicadas por cada país "sobre os EUA". As tais "tarifas recíprocas" são a réplica de Trump não a barreiras tarifárias mas a superávits comerciais de seus parceiros.

A COP da educação - Cristovam Buarque

O caminho para o zelo ambiental precisa vir das escolas

As sucessivas reuniões e acordos internacionais ambientais desde 1972 foram insuficientes para reorientar a humanidade na direção do desenvolvimento sustentável. O futuro da Terra pede uma mudança de mentalidade aos cidadãos. Os cientistas alertam que, apesar de termos atravessado 29 cúpulas, hoje chamadas de COP, Conferência das Partes, é possível estarmos próximo ao ponto de não retorno nas mudanças climáticas, na devastação da biodiversidade e na elevação da temperatura do planeta, com consequências catastróficas. A COP30, em Belém do Pará, poderá ser mais um evento mundial de boas intenções.

As duas anistias do bolsonarismo - Cláudio Couto

O perdão judicial é incerto, mas o perdão político está em curso com a normalização da extrema-direita e do golpismo

A medida que avança no STF o julgamento dos golpistas do bolsonarismo, cresce no Congresso e nas ruas a mobilização em torno de uma possível anistia. Buscando legitimar o perdão aos golpistas, a ultradireita foca seus esforços nos condenados pela intentona do 8 de Janeiro, estejam presos ou foragidos da justiça. É mais fácil tentar justificar o perdão a um bando de palermas manipulados pelos artífices do golpe do que isentá-los de responsabilidade.

Os palermas, contudo, não são meros inocentes úteis. São gente que, antes de invadir e destruir as sedes dos Três Poderes, acampou por semanas diante de instalações militares, clamando pelo cometimento do maior dos crimes, o golpe de Estado. Este é o maior dos crimes porque não se limita à transgressão pontual de alguma lei. Em vez disso, busca derrubar o próprio Estado de Direito, sem o qual nenhuma lei legítima vigora. Se tanto, após um golpe passa a viger uma pretensa legalidade, imposta por usurpadores que alegam legitimar a si mesmos graças a terem sido vitoriosos no emprego da violência para derrocar a ordem legal sob o pretexto de uma ilusória “causa justa”.

O Estado como coisa - Aldo Fornazieri

Subjugar o Legislativo e entrar em guerra contra o Judiciário estão no âmago da estratégia de governos autoritários

Se há uma palavra para caracterizar o início do segundo mandato de Donald Trump, essa é ­“caos”. Ninguém consegue perceber claramente, nem mesmo trumpistas próximos do presidente, qual o sentido e o rumo que ele pretende imprimir ao governo e ao país. As decisões ora parecem ter sentido, ora parecem ter sentido nenhum. Não só os norte-americanos em geral estão açodados pelo medo, mas até republicanos e gente próxima do presidente se sente amedrontada em agir e em relação ao futuro.

Alguns cientistas políticos afirmam que Trump se move como se não tivesse a menor noção de Estado de Direito. Outros dizem que ele ignora peremptoriamente a Constituição. Exemplos não faltam: a Constituição garante a cidadania para quem nasce no solo dos EUA, mesmo se filho de estrangeiro e, nesse caso, ele a suspendeu. A Carta Magna proíbe mais de dois mandados a presidentes e ele afirma a intenção de buscar um terceiro.

Trump ataca as universidades - Luiz Gonzaga Belluzzo

A investida da Casa Branca foi recebida com temor e passividade

O New York Times registrou as agressões de Donald Trump às universidades norte-americanas: “O governo (…) transformou promessas de campanha de atacar universidades em ações devastadoras, retirando centenas de milhões em fundos federais da Universidade Columbia e da Universidade da Pensilvânia.”

Essa investida do Doido Trump foi recebida com temor e passividade balbuciante pelos gestores das universidades atacadas. A reportagem do Times assinala que, nos últimos meses, Harvard se moveu cautelosamente, buscando um acordo e reprimindo a liberdade de expressão. A passividade adaptativa “irritou alguns que temiam que Harvard estivesse capitulando em um momento de autoritarismo crescente”.

Poesia | Poema da Velhice, de José Saramago

 

Música | Bossa Nova Sinfônico - Mais que nada (Jorge Benjor)

 

sexta-feira, 4 de abril de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil pode se beneficiar de tarifaço de Trump

O Globo

Mundo todo perde com guerra comercial, mas país perderá menos se aproveitar oportunidades

Apesar dos inevitáveis efeitos nocivos, o tarifaço de Donald Trump também poderá criar oportunidades aos exportadores brasileiros. Elas estão em vendas tanto ao próprio mercado americano quanto a outros países que deixarão de comprar produtos dos Estados Unidos. Não é coincidência que a Bolsa brasileira tenha se mantido estável diante do derretimento de outras mundo afora.

Usando uma fórmula bizarra, Trump determinou as tarifas adicionais que cobrará com base no saldo comercial. Como os Estados Unidos têm superávit no comércio com o Brasil, impuseram a tarifa adicional mínima a produtos brasileiros: 10%. A União Europeia ficou com 20%, Índia com 26%, China com 34% e Vietnã com 46%. Dada a magnitude das diferenças, mercadorias brasileiras ficarão mais competitivas no mercado americano. Outro efeito positivo tende a vir das retaliações dos países afetados pelo tarifaço. Exportações americanas para esses mercados ficarão mais caras, e produtos do Brasil poderão ganhar espaço.

Lula mantém favoritismo apesar da perda de popularidade - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Num cenário em que a popularidade de Lula está em queda, a pesquisa preserva uma expectativa de poder sem a qual o líder petista seria um “pato manco”

O filósofo e general chinês Sun Tzu (544-496 a.C.) foi um estrategista militar do Rei Hu Lu, que escreveu A Arte da Guerra, um tratado militar no século IV a.C. O primeiro imperador da China unificada, Qin Shi Huang, inspirou-se na obra para pôr fim ao Período dos Reinos Combatentes. O livro foi introduzido no Japão por volta do ano de 760, sendo adotado pelos daimyos (senhores feudais) Oda Nobunaga (1534-1532) e Toyotomi Hideyoshi (1537-1598) e pelo shogun Tokugawa Ieyasu (1543-1516).

O famoso almirante Togo Heihachiro, que liderou a vitória do Japão na Guerra contra a Rússia, de 1904 e 1905, era ávido leitor de Sun Tzu. Mao Tsé-Tung atribuiu parte da sua vitória sobre Chiang Kai-shek e o Kuomintang em 1949 à Arte da Guerra. O livro também foi adotado por Vo Nguyen Giap na Guerra do Vietnã, depois de traduzido por Ho Chi Min. Não por acaso os generais Norman Schwarzkopf e Colin Powell puseram em prática os princípios de Sun Tzu na Guerra do Golfo: engano, velocidade e ataque aos pontos fracos do inimigo. O livro é estudado nas academias militares norte-americanas.