sábado, 16 de maio de 2026

O crepúsculo dos prefixos, por Eduardo Affonso

O Globo

Critique algum exagero progressista e prepare-se para ser catapultado, sem escalas, à ultradireita

Há dois prefixos de origem latina que, depois de séculos de excelentes serviços prestados ao idioma, encaram um fim melancólico.

Ultra era, na juventude, um exagerado, um extremista. Onde quer que se encostasse, passava do limite. Se “super” indicava algo acima do normal (vide supermercado, superlativo) e “hiper” levava tudo a um nível ainda mais elevado ou mais intenso (hipermercado, hipertensão), “ultra” era outro patamar — ao infinito e além (tanto que nunca existiram ultramercado nem ultratireoidismo).

A radiação com energia superior à da luz visível era a ultravioleta. As ondas sonoras com frequências superiores ao limite de audição humana eram o ultrassom. Enquanto o Super-Homem beirava 1,90 metro e, talvez, 100 quilos, o Ultraman tinha 40 metros de altura e 30 mil toneladas.

Ultra excedia o que quer que fosse. Tente pensar na distância que há entre secreto (aquele seu caso extraconjugal) e ultrassecreto (a cartela de vacinação do presidente antivax, a agenda da primeira-dama).

As definições de ultra nos dicionários, entretanto, estão ultrapassadas. Agora basta acreditar na biologia, seguir as regras gramaticais ou ficar com um pé atrás em relação a uma novidade e você é ultraconservador. Critique algum exagero progressista e prepare-se para ser catapultado, sem escalas, à ultradireita. E não é preciso se exceder: um reles questionamento já é considerado um ultraje. Se bobear, nec plus ultra não será mais o ápice de nada, só algo mediano — e olhe lá.

O mesmo aconteceu com trans. Desde uns 700 a.C. o prefixo significa “além de”, “através de”, “do outro lado”. A Gália além dos Alpes era a Gália Transalpina (a “do lado de cá”, do ponto de vista dos romanos, era a Cisalpina). Daí serem transexuais os que estavam “do lado de lá” de um sexo e cruzaram a fronteira.

Isso até resolverem que “mulher trans é mulher”. O que, convenhamos, é um oximoro: exceto na superposição quântica, não se pode estar lá e cá simultaneamente. Trans é quem nasceu com um sexo e fez uma transição (não necessariamente cirúrgica) para o sexo oposto. Mulheres trans têm, sem dúvida, os mesmos direitos das mulheres — mas, se fossem mulheres, não precisariam do prefixo que traduz mudança, travessia.

Ele serve para os transatlânticos — que, por um desses mistérios insondáveis, também cruzam o Pacífico, o Índico etc. Para a Transamazônica, aquele atoleiro que insiste em impedir que se atravesse a Amazônia. O próprio verbo transportar indica que se leva alguma coisa de um lugar a outro. E, se mulher trans é mulher, então não existe transfobia, só misoginia.

Tá legal, eu aceito o argumento de que a língua é dinâmica, mas um pouco de ortodoxia na semântica vai bem. Ou de agora em diante trânsfuga não precisa mudar de lado, transeunte pode estar parado, a transformação deixa igual e “transgênico é orgânico” pode vir a ser o novo mote do agro.

Se a tendência não for revertida a tempo, é provável que os Estados Unidos, ao ganharem sua primeira Copa do Mundo, neste ano, já se possam declarar pentacampeões, empatando conosco. E daqui a pouco os prefixos aparecerão no final das palavras. Como não reclamamos quando rebaixaram o ultra e neutralizaram o trans, ninguém poderá dizer nada.

 

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