domingo, 28 de junho de 2026

O dito pelo não dito, por Merval Pereira

O Globo

A estratégia de trabalhar com um mundo falsamente compartilhado está na base das fake News.

Outro dia, em palestra da Academia Brasileira de Letras (ABL), o filólogo acadêmico Ricardo Cavaliere dissertou sobre a filosofia da linguagem que, no final do século XIX, na chamada “virada linguística”, definiu que nosso saber não está restrito aos domínios da mente, “pois o conteúdo cognitivo que acumulamos no decorrer da vida é moldado pela linguagem”. Os estudos da filosofia da linguagem destacam dois tipos de linguagem, baseados na “pressuposição” e na “implicatura”.

A primeira, parte do princípio de que os interlocutores têm o mesmo conhecimento. Se na argumentação você usa um pressuposto equivocado para defender uma tese, pode fazê-lo de má-fé, só para ganhar a discussão, ou por ignorância. Se seu interlocutor conhece o assunto, verá logo que você está errado. Mas, se, ao contrário, ele não tiver essa informação, você pode ganhar uma discussão com base num equívoco, por má-fé ou ignorância. Não pude evitar lembrar de discussões políticas em que o ardil geralmente está presente.

O mais famoso deles é a disputa entre o General Dutra e o Brigadeiro Eduardo Gomes pela presidência em 1954. O Brigadeiro, em um comício, disse que não precisava dos votos “desta malta de desocupados que apoia o ditador”. Segundo relato da historiadora Alzira Alves de Abreu, o getulista Hugo Borghi descobriu no dicionário que “malta”, além de significar “bando ou súcia”, o que já era ofensivo, também denominava trabalhadores que levavam suas marmitas nas linhas férreas, o que atingia mais diretamente os eleitores pobres. Daí a pressuposição de que o brigadeiro, um candidato da elite, estava menosprezando os marmiteiros, os pobres, foi um passo, e o general Dutra venceu uma eleição perdida.

Essa estratégia de trabalhar com um mundo falsamente compartilhado está também na base das fake News. “Assim, o mundo em que vivo é o mundo que a linguagem torna factível”, ressalta Cavaliere. Ao lado da noção de pressuposição, vige no âmbito da filosofia da linguagem a noção de implicatura, lembra o filólogo, “uma formulação linguística não dita, ou, mais especificamente, dita pelo não dito”. A implicatura recorre a referentes que devem estar na órbita dos dialogantes e, se não existirem no plano cognitivo do outro, conduz a um drama discursivo que se denomina “mal-entendido”. Por isso a filosofia da linguagem é uma das ciências mais estudadas, e utilizadas, no mundo jurídico, onde cada vez mais as interpretações das leis são mais importantes do que o texto legal em si.

A Operação Lava-Jato, por exemplo, vem sendo muito usada atualmente pelos que estão sendo investigados no escândalo do Banco Master. O senador Jaques Wagner disse que a foto dos dólares da Polícia Federal foi “escandalosa”, e comparou-a a outras, da Lava Jato. A foto é escandalosa, não o volume de dólares achado em sua casa. Defesa tão frágil passa pelo pressuposto de que muita gente não sabe o que foi a maior operação de combate à corrupção do país, e que foi aniquilada por decisão de ministros do STF, os mesmos que agora querem acabar com as investigações do Master.

No debate entre os ministros do Supremo Gilmar Mendes e André Mendonça no julgamento da prisão de Daniel Vorcaro, as acusações de má conduta são recíprocas, mas a referência de um a outro magistrado não ocorre na realidade factual, senão no plano da linguagem, já que nenhum dos dois se refere diretamente ao outro. A referência se faz por implicaturas:

Gilmar: “Devemos combater a criminalidade, mas é preciso que haja métodos constitucionais para fazer isto. É fundamental que haja”.

Implicatura: André Mendonça descumpriu a constituição para manter Vorcaro preso.

André Mendonça: “O que eu não vou admitir é tentativa de desacreditar a atuação seja minha, como relator, seja dos investigadores”.

Implicatura: Gilmar Mendes deseja taxar de inconstitucional minha decisão pela prisão de Vorcaro.

 

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

Implicatura lembra implicância,na grafia e na semântica.