quarta-feira, 1 de julho de 2026

Todo mundo tem sua pauta-bomba, por Vera Magalhães

O Globo

Congresso concentra projetos que aumentam gastos, mas governo e STF não ficam atrás ao promover benesses com dinheiro público

Os olhos da imprensa e da sociedade estão, com razão, postos sobre a pauta-bomba que se avoluma no Congresso. Mas senadores e deputados estão longe de ser os únicos que resolveram abrir a torneira do gasto público como se não houvesse o dia de amanhã depois das eleições de outubro.

O governo pode se fazer de alarmado com os projetos recém-aprovados ou na pauta do Senado e da Câmara, mas foi Lula quem primeiro lançou mão de medidas eleitoreiras (e custosas) para aumentar suas chances eleitorais no momento em que as pesquisas lhe eram mais desfavoráveis, no ano passado e neste semestre. Também pisou no acelerador no volume e nos valores da propaganda oficial, principalmente nestes últimos dias antes do defeso, período em que a lei eleitoral veda esse tipo de gasto indiscriminado.

Mais: nesse quesito, a Secom mandou às favas um dos princípios constitucionais da administração pública, o da impessoalidade, ao adotar um tom descaradamente partidário para o slogan federal, dizendo que o governo está “do lado do povo brasileiro”, e ao listar medidas que serão levadas por Lula ao palanque.

Por fim, o Supremo Tribunal Federal, que parecia ter encontrado na contenção dos penduricalhos salariais uma bandeira capaz de melhorar sua imagem junto à sociedade, não aguentou a pressão corporativa do próprio Judiciário e do Ministério Público e resolveu afrouxar um pouco o torniquete liberando alguns pagamentos de adicionais.

Como o quadro é este em que ninguém pode encher a boca para se arvorar em defensor da responsabilidade fiscal, fica difícil para o governo atuar para dissuadir Davi Alcolumbre da ideia de levar a cabo a votação da Proposta de Emenda à Constituição que concederá aposentadoria especial a agentes comunitários de saúde e espetar mais R$ 96 bilhões na conta dos sistemas previdenciários — isso quando especialistas já apontam o esgotamento do efeito da tímida reforma de 2019. Os afagos feitos no embalo populista de junho pelo Legislativo a setores com lobbies poderosos, como os ruralistas, já somam mais de R$ 260 bilhões.

O adiamento da PEC dos agentes de saúde nesta terça-feira não parece representar nem o sucesso da recém-alterada liderança de Lula no Senado nem súbita tomada de consciência de Davi Alcolumbre. Trata-se só de uma pausa que deverá ser sucedida pela aprovação da medida quando a sociedade estiver distraída com a Copa, sem prestar atenção na movimentação eleitoreira de seus parlamentares.

O primeiro ano de Lula foi marcado pela crítica ferrenha, entoada sobretudo pelo então ministro Fernando Haddad, de que Jair Bolsonaro e Paulo Guedes haviam feito de tudo para aumentar a competitividade eleitoral do ex-capitão, entregando um rombo fiscal. A PEC Kamikaze e a tunga no ICMS dos combustíveis eram os exemplos acabados dessa ação.

Três anos depois, Lula enveredou pelo mesmo caminho, com uma lista de medidas que começou ainda no ano passado — na reforma do Imposto de Renda e nos programas de luz e gás do povo — e foi crescendo exponencialmente nos últimos meses, com programas como Desenrola 2, mudanças no Minha Casa, Minha Vida e diversos subsídios ao preço dos combustíveis.

Para tentar aplicar uma vacina contra críticas ao método e contra os alarmes, que soam em várias projeções, sobre a dificuldade de cumprir a meta fiscal neste ano e em 2027, mesmo com as inúmeras exceções ao arcabouço, o governo incluiu no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias um anexo de gastos que serão revistos a partir do ano que vem e poderiam resultar em economia de até R$ 80 bilhões.

Parece pouco diante do crescimento vertiginoso dos gastos obrigatórios, debate a que Lula fez ouvidos moucos em seu terceiro mandato, mas que será inescapável durante a campanha eleitoral. O petista só vai querer falar das bondades para o “povo”, mas a conta já chegou, e é preciso dizer o que fará para pagá-la.

  

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