segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Negócios privados com o dinheiro público, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Ficou assim: a sua turma é mais corrupta que a minha. Nessa disputa de quem tem o mais corrupto, os pecados se anulam

A corrupção é tão antiga quanto a administração pública. Mas não se dá sempre da mesma maneira. Há momentos em que prevalece o sentimento de respeito ao bem público. Forma-se um ambiente de honestidade entre os que participam ou se relacionam com os governos e a população em geral. Daí derivam a indignação com o roubo e a vergonha de ser apanhado.

Há momentos em que a roubalheira desanda. Os episódios se multiplicam no noticiário e, pior, o público parece não se importar com isso. Quem é apanhado não se arrepende de seus atos. Ao contrário, mostra-se indignado por ser acusado e responde com desculpas as mais esfarrapadas.

O Brasil vive um desses momentos. Acontece à direita, à esquerda e nesse ajuntamento chamado de Centrão. Tudo diante de um público que ou não se incomoda — “política é assim mesmo” — ou simplesmente perdeu o ânimo de protestar.

Tome-se o caso do senador Flávio Bolsonaro. Depois de ter negado qualquer envolvimento com o tóxico Daniel Vorcaro, foi surpreendido pelo vazamento de um áudio em que pede milhões de reais ao então banqueiro. “Qual o problema?” — respondeu mais ou menos assim. Disse que se tratava de uma transação privada — o financiamento para o filme “Dark Horse”, que santifica seu pai.

Mas, se era algo tão banal, por que o dinheiro precisou dar tantas voltas entre empresas e fundos de investimento até chegar ao destino? Aliás, que destino? O dinheiro foi todo para os Estados Unidos? Voltou em parte ao Brasil? Como foi distribuído? Tem recibo?

Uma transação privada não precisa ser explicada publicamente. Mas, quando um candidato a presidente da República pede dinheiro a um banqueiro que comprou, digo, financiou tanta gente em Brasília, aí já não é um negócio particular. Por isso precisava ficar escondido. Continua assim, mal explicado, enquanto o senador já se ocupa de outros enroscos, como aqueles em que aparece seu companheiro de chapa, o deputado Alfredo Gaspar.

Tome-se, do outro lado, o caso de Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do presidente Lula. Foi apanhado recebendo dinheiro da lobista Roberta Luchsinger, ativa na promoção de negócios junto ao governo federal. Ela pagou boletos de um funcionário de que dependia para marcar alguns encontros com integrantes da administração. A resposta foi a mesma de Flávio. Tratava-se de negócio particular, um empréstimo pessoal feito por Luchsinger. Lula confirmou:

— Quem aqui nunca pediu empréstimo para um amigo?

Não pode, presidente. Não nesse caso. Mesmo que Luchsinger e Marcola sejam as pessoas mais honestas do mundo, um funcionário público que abre portas da Presidência não pode receber um tostão de quem precisa passar por aquelas portas. Se fosse tão simples quanto alega o presidente, não teria sido preciso afastar Marcola do governo e de sua campanha.

Flávio manteve-se competitivo nas pesquisas eleitorais que saíram depois de conhecidas suas relações com Vorcaro. Terá perdido alguns poucos pontos, mas continua aí, na cola de Lula. O presidente também passou batido pelos problemas envolvendo seu pessoal. Como o caso do senador Jaques Wagner, apanhado pedindo um favorzinho a um sócio de Vorcaro, o também banqueiro Augusto Lima. Um negócio de R$ 2,5 milhões. Lima compraria um apartamento em Salvador, com diversas manobras contábeis, e passaria o imóvel ao senador. E este pagaria quando pudesse. De novo, uma pequena transação privada.

Um dos filhos do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, amigo de Roberta Luchsinger, é alvo de três inquéritos no STF, investigado por tráfico de influência. Nesse caso, nem Lulinha, nem Luchsinger deram explicações públicas. Por ora, vão levando.

Em toda campanha eleitoral no Brasil há denúncias de corrupção. Desta vez ficou assim: a sua turma é mais corrupta que a minha. Nessa disputa de quem tem o mais corrupto, os pecados se anulam. O eleitor parece deixar passar, ou por tolerância ou por desânimo.

 

2 comentários:

laurindo junqueira disse...

cARLINHOS

laurindo junqueira disse...

cARLINHOS: teu artigo faz parecer q a corrupção só existe entre os agentes públicos. Ignora que ela é uma via de mão dupla. E se esquece de dizer q a corrupção em empresas e negócios privados grassa à solta...