Valor Econômico
O risco maior do escrutínio que o ministro Bruno Dantas quer fazer dos dados é o boletim perder a credibilidade que conquistou
O ex-presidente do Tribunal de Contas da
União (TCU) Bruno Dantas está preocupado com o formato e a governança do
boletim Focus, a pesquisa feita pelo Banco Central para captar as expectativas
dos agentes privados sobre temas como taxa de juros e inflação.
O risco é o TCU quebrar um termômetro que
funciona bem, embora sempre possa ser aperfeiçoado, em vez de atacar as causas
que levam a juros e inflação muito altos, que estão relacionadas à má qualidade
da política fiscal.
Num voto no processo de contas do governo Lula de 2025, Dantas colocou o Focus entre as prioridades que, no seu entendimento, deveriam merecer um escrutínio. Segundo ele, as expectativas divulgadas, que são colhidas majoritariamente junto a participantes do mercado financeiro, repercutem no custo de financiamento de longo prazo da dívida pública.
Cabe destacar uma questão conceitual. O que
repercute no custo de financiamento do governo não é o boletim Focus em si, mas
as expectativas que ele procura medir sobre variáveis que afetam a dinâmica da
dívida pública.
Não é de hoje que existe uma teoria
conspiratória de que os mercados manipulam o Banco Central por meio das
projeções econômicas informadas ao boletim Focus, forçando, assim, o Comitê de
Política Monetária (Copom) a manter as taxas básicas em patamar elevado.
Não é verdade, porém, que o mercado prefira
juros altos. Os bancos, por exemplo, podem ganhar dinheiro com juros altos,
mas, com a Selic baixa, também são favorecidos pela expansão do crédito e pela
redução da inadimplência. As plataformas de investimento ganham quando o juro
baixa e os clientes diversificam a carteira. Esses interesses de longo prazo
convivem com a posição assumida pelos investidores em cada momento, mas as
operações costumam ter dois lados: os comprados e os vendidos.
Também não é verdade que as decisões do BC
avalizem as expectativas do mercado. No curto prazo, não deveria haver muita
divergência entre o que o mercado espera para a Selic e o que o Copom faz, já
que as expectativas são determinadas justamente pelo que o mercado acha que o
comitê fará.
Em janelas de tempo mais longas, o Banco
Central tem divergido do que o mercado espera. Desde que Gabriel Galípolo
assumiu o BC, há um ano e meio, a Selic efetivamente implementada, por exemplo,
ficou, em média, 5 pontos percentuais acima do que o mercado previa um ano
antes.
Isso não quer dizer que as expectativas, e o
Focus em particular, não sejam consideradas no processo de decisão do Copom.
Entram, mas não são as determinantes. São um dos insumos que alimentam o modelo
de projeção de inflação do Banco Central, ao lado de vários outros, como a
inércia inflacionária e o grau de aquecimento da economia. O modelo, porém, não
determina mecanicamente as decisões do Copom sobre o juro.
O Banco Central olha também outras medidas
além do Focus, como a inflação implícita nos títulos públicos. Num evento
recente da XP Investimentos, Galípolo destacou o Firmus, que é uma nova
pesquisa feita junto a representantes de empresas não financeiras. Em grande
medida, o Firmus segue as tendências do Focus, o que mostra que não está alheio
ao que acontece na economia real e não representa o pensamento de uma bolha da
Faria Lima.
Há também sondagens que capturam a percepção
de consumidores e empresas, como as feitas pela FGV Ibre. Esses tipos de
levantamento, em geral, apontam inflação bem mais alta do que o Focus.
O voto de Dantas destacou alguns pontos sobre
a governança do Focus, como o fato de o BC ser quem produz e consome a
estatística. Sempre pode melhorar, mas a experiência brasileira não está muito
longe da de pesquisas semelhantes feitas por bancos centrais como o Europeu e
os do Chile, Japão, Canadá e México.
No caso do Fed e do Banco da Inglaterra, há
uma regra de governança segundo a qual os membros do comitê de política
monetária não podem se envolver na elaboração do questionário feito junto ao
mercado. No Brasil, essa regra não existe, mas o BC não faz um questionário
novo a cada reunião. Os participantes do mercado alimentam um banco de dados
com previsões para um conjunto de estatísticas muito estável, que pouco mudou
em 27 anos desse sistema.
Outra queixa do ministro é que o Focus
divulga a projeção pontual, sem informar a dispersão das expectativas nem
revelar as probabilidades. Ele diz que as projeções do Firmus são mais
dispersas. O BC, na verdade, divulga dados diários com mediana, média e grau de
dispersão medido por desvios-padrão. Mensalmente, são divulgados também
histogramas e distribuições das projeções dos participantes.
O risco maior do escrutínio que o ministro
quer fazer dos dados é o Focus perder a credibilidade que conquistou.
Há 30 anos, o então diretor de Política
Econômica do BC, Francisco Lopes, mandou o Departamento Econômico do Banco
Central deixar de divulgar o déficit público acumulado em 12 meses. Ele queria
dar visibilidade ao resultado acumulado no ano.
Os jornalistas, então, passaram a procurar
economistas do mercado para estimar o dado que deixou de ser divulgado. O
resultado pior seguiu ganhando visibilidade nas manchetes, com o agravante de
que o BC parecia querer esconder algo.

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