segunda-feira, 10 de agosto de 2026

TCU busca no Focus culpa pelo custo alto da dívida, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

O risco maior do escrutínio que o ministro Bruno Dantas quer fazer dos dados é o boletim perder a credibilidade que conquistou

O ex-presidente do Tribunal de Contas da União (TCU) Bruno Dantas está preocupado com o formato e a governança do boletim Focus, a pesquisa feita pelo Banco Central para captar as expectativas dos agentes privados sobre temas como taxa de juros e inflação.

O risco é o TCU quebrar um termômetro que funciona bem, embora sempre possa ser aperfeiçoado, em vez de atacar as causas que levam a juros e inflação muito altos, que estão relacionadas à má qualidade da política fiscal.

Num voto no processo de contas do governo Lula de 2025, Dantas colocou o Focus entre as prioridades que, no seu entendimento, deveriam merecer um escrutínio. Segundo ele, as expectativas divulgadas, que são colhidas majoritariamente junto a participantes do mercado financeiro, repercutem no custo de financiamento de longo prazo da dívida pública.

Cabe destacar uma questão conceitual. O que repercute no custo de financiamento do governo não é o boletim Focus em si, mas as expectativas que ele procura medir sobre variáveis que afetam a dinâmica da dívida pública.

Não é de hoje que existe uma teoria conspiratória de que os mercados manipulam o Banco Central por meio das projeções econômicas informadas ao boletim Focus, forçando, assim, o Comitê de Política Monetária (Copom) a manter as taxas básicas em patamar elevado.

Não é verdade, porém, que o mercado prefira juros altos. Os bancos, por exemplo, podem ganhar dinheiro com juros altos, mas, com a Selic baixa, também são favorecidos pela expansão do crédito e pela redução da inadimplência. As plataformas de investimento ganham quando o juro baixa e os clientes diversificam a carteira. Esses interesses de longo prazo convivem com a posição assumida pelos investidores em cada momento, mas as operações costumam ter dois lados: os comprados e os vendidos.

Também não é verdade que as decisões do BC avalizem as expectativas do mercado. No curto prazo, não deveria haver muita divergência entre o que o mercado espera para a Selic e o que o Copom faz, já que as expectativas são determinadas justamente pelo que o mercado acha que o comitê fará.

Em janelas de tempo mais longas, o Banco Central tem divergido do que o mercado espera. Desde que Gabriel Galípolo assumiu o BC, há um ano e meio, a Selic efetivamente implementada, por exemplo, ficou, em média, 5 pontos percentuais acima do que o mercado previa um ano antes.

Isso não quer dizer que as expectativas, e o Focus em particular, não sejam consideradas no processo de decisão do Copom. Entram, mas não são as determinantes. São um dos insumos que alimentam o modelo de projeção de inflação do Banco Central, ao lado de vários outros, como a inércia inflacionária e o grau de aquecimento da economia. O modelo, porém, não determina mecanicamente as decisões do Copom sobre o juro.

O Banco Central olha também outras medidas além do Focus, como a inflação implícita nos títulos públicos. Num evento recente da XP Investimentos, Galípolo destacou o Firmus, que é uma nova pesquisa feita junto a representantes de empresas não financeiras. Em grande medida, o Firmus segue as tendências do Focus, o que mostra que não está alheio ao que acontece na economia real e não representa o pensamento de uma bolha da Faria Lima.

Há também sondagens que capturam a percepção de consumidores e empresas, como as feitas pela FGV Ibre. Esses tipos de levantamento, em geral, apontam inflação bem mais alta do que o Focus.

O voto de Dantas destacou alguns pontos sobre a governança do Focus, como o fato de o BC ser quem produz e consome a estatística. Sempre pode melhorar, mas a experiência brasileira não está muito longe da de pesquisas semelhantes feitas por bancos centrais como o Europeu e os do Chile, Japão, Canadá e México.

No caso do Fed e do Banco da Inglaterra, há uma regra de governança segundo a qual os membros do comitê de política monetária não podem se envolver na elaboração do questionário feito junto ao mercado. No Brasil, essa regra não existe, mas o BC não faz um questionário novo a cada reunião. Os participantes do mercado alimentam um banco de dados com previsões para um conjunto de estatísticas muito estável, que pouco mudou em 27 anos desse sistema.

Outra queixa do ministro é que o Focus divulga a projeção pontual, sem informar a dispersão das expectativas nem revelar as probabilidades. Ele diz que as projeções do Firmus são mais dispersas. O BC, na verdade, divulga dados diários com mediana, média e grau de dispersão medido por desvios-padrão. Mensalmente, são divulgados também histogramas e distribuições das projeções dos participantes.

O risco maior do escrutínio que o ministro quer fazer dos dados é o Focus perder a credibilidade que conquistou.

Há 30 anos, o então diretor de Política Econômica do BC, Francisco Lopes, mandou o Departamento Econômico do Banco Central deixar de divulgar o déficit público acumulado em 12 meses. Ele queria dar visibilidade ao resultado acumulado no ano.

Os jornalistas, então, passaram a procurar economistas do mercado para estimar o dado que deixou de ser divulgado. O resultado pior seguiu ganhando visibilidade nas manchetes, com o agravante de que o BC parecia querer esconder algo.

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