sábado, 17 de janeiro de 2009

Em busca do símbolo

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

Nova York - O presidente eleito Barack Obama prepara seu discurtso de posse literalmente assombrado por três de suas admirações: Abraham Lincoln, Franklin Roosevelt e John Kennedy. Descrito por seus íntimos como um político extremamente competitivo, e tendo exata noção das dificuldades que tem pela frente, Obama busca uma frase que possa se comparar às pronunciadas pelos três ex-presidentes e, ao mesmo tempo, te-nha o condão de estimular a sociedade americana no que pretende ser uma arrancada para a recuperação econômica.

O discurso de posse, em comemoração ao 200º aniversário de nascimento de Lincoln, será baseado no tema "O renascimento da liberdade" ("A New Birth of Freedom"), uma frase célebre do "discurso de Gettysburg", pronunciado em um cemitério em homenagem aos mortos na famosa batalha, decisiva na vitória das forces da União.

Obama admitiu que está "intimidado" depois de reler o discurso da segunda posse de Lincoln, que está gravado no Lincoln Memoral em Washington, juntamente com o de Get-tysburg.

"O mundo vai notar pouco, ou não vai se lembrar por muito tempo, o que nós dissemos aqui, mas não poderá nunca esquecer o que eles, os mortos honoráveis, fizeram aqui". (...) não morreram em vão, que esta Nação, protegida por Deus, terá um renascimento da liberdade e o governo do povo, para o povo e pelo povo não desaparecerá da face da terra".

No discurso de sua segunda posse, Lincoln emplacou mais uma frase célebre:

"Sem malícia contra ninguém, com caridade para com todos; com firmeza no correto que Deus nos permita ver, que nos seja possível lutar para concluirmos o trabalho que começamos, fechar as feridas da nação, cuidar daquele que enfrentou a batalha de sua viúva e órfão, e fazer tudo o que pode ser feito para se alcançar paz longa e justa entre nós e entre todas as nações".

Já a frase de Franklin Roosevelt em 1933 é difícil de ser batida:"A única coisa de que de-vemos ter medo é o próprio medo - indefinível, irracional, um terror injustificado que paralisa os esforços para passar do retrocesso ao progresso".
Também John Kennedy deixou para a História sua marca:

"Meus queridos compatriotas, não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês, perguntem o que vocês podem fazer por seu país. Cidadãos do mundo, não perguntem o que os Estados Unidos podem fazer por vocês, e sim o que podemos fazer jun-tos pela liberdade".

Mas Obama não está apenas em busca de uma frase de efeito que ajude a unir o povo americano. Está atrás de um plano econômico consistente que possa ser a base de uma recuperação econômica sustentada e que leve o país para o futuro.

E o grande debate por aqui é se uma repetição do New Deal, política adotada por Roosevelt para tirar o país da Grande Depressão, dará certo, ou mesmo se é o melhor caminho.

O Prêmio Nobel de Economia Paulo Krugman é um dos defensores da tese de que a era Roosevelt tem muito a ensinar, sobretudo uma orientação em que ele vem insistindo muito: a política de Roosevelt não deu certo mais cedo, e precisou da Segunda Grande Guerra para tirar o país da depressão, por que foi tímida, tinha que ser mais intervencionista ainda.

Krugman defende a tese de que o estímulo fiscal daquela época foi insuficiente e aconselha os assessores de Obama: "Imaginem quanto a economia precisa e coloquem mais 50% em cima". Para ele, os progressistas só podem desejar que o futuro presidente tenha "suficiente audácia" para ir fundo em um plano de recuperação econômica.

De fato, o editor do New York Times Adam Cohen, autor do livro "Nada a temer, o círculo íntimo de FDR e os cem dias que criaram a moderna América", um dos mais respeitados estudos da época, diz que se Roosevelt estivesse disposto a gastar mais, "ser mais keynesiano", teríamos melhorado a situação mais cedo."

Na sua análise, ele foi tímido, e a "famosa decisão entre 1937 e 38 de cortar despesas causou outra re-cessão".

Ao contrário, os conservadores fazem uma releitura do New Deal e acusam o intervencionismo do Estado como o impeditivo para uma recuperação rápida.

Entre os defensores dessa tese, o livro mais comentado, e que voltou à lista dos mais vendidos do New York Times, é "O Homem esquecido" (The Forgotten Man) da especialista em questões econômicas Amity Shlaes. Formada em Yale, uma das mais ativas autoras conservadoras dos Estados Unidos, Shlaesé pesquisadora do Council of Foreign Relations, uma entidade não-partidária com sede em Nova York, considerada a mais influente em matéria de relações interna-cionais nos Estados Unidos.

Ela considera que as medidas econômicas tomadas para debelar, em vez disso prolongaram a crise. Ela acha que o colapso de 1929 não foi tão profundo que precisasse levar 25 anos para uma recuperação. No livro, mostra dados do desemprego na época indicando que o índice permaneceu muito elevado até a Segunda Guerra, quando 12% da população entraram nas Forças Armadas e a indústria trabalhou a todo vapor na fabricação de ma-terial bélico.

Shlaes atribui à desconfiança de Roosevelt do setor privado o intervencionismo que impediu a recuperação mais rápida, e diz que o crescimento econômico dos anos 20, que terminaram abruptamente no crash da Bolsa em 1929, foi considerado por Roosevelt como fruto da especulação, e não como um desenvolvimento legítimo da economia real puxado pelo mercado.

Como hoje, a exigência de regulamentação do mercado financeiro assumiu um papel de destaque no receituário para debelar a crise, o que os analistas conservadores consideram um erro de enfoque. (Continua amanhã)

Degelo nos trópicos

Roberto Freire
DEU NO BLOG ALTERNATIVA BRASIL

Ao ler recentemente um artigo, de um conhecido jornalista muito comedido e ponderado, que tratava sobre a crise, que já se abate com força entre nós e o desempenho do governo Lula, tive a sensação de que ela já está provocando mudança de percepção e de posicionamento em muitas mentes. Penso que a crise é e será cada vez mais, pródiga em mudanças e não devemos nos espantar pela rapidez com que estas começam a aparecer na política brasileira. O articulista, ao qual me referi aguçou seu espírito critico, em relação ao governo e ao próprio Presidente, quando diz logo no início do texto que, acabaram-se as férias. Isto para mim é o inicio da compreensão, que todos teremos mais adiante, de que de férias o governo sempre esteve.

Um outro exemplo interessante, nos está sendo dado, pelo tratamento recebido pela última, de uma longa série de maus exemplos e de bobagens ditas e feitas, pelo presidente Lula. A perplexidade, indignação e até tristeza de alguns, foi a tônica na rejeição a declaração de Lula de que não lia jornais nem revistas e se informava pelo ouvido. A minha impressão – e peço, que reflitam se é verdadeira ou não - é de que antes da crise, já sofremos contrangimentos muito maiores, com outros ditos e feitos pelo nosso presidente, mas, nenhum daqueles episódios ( e não falo do item corrupção de tão pródigos exemplos desde o mensalão) teve tratamento tão duro e razoavelmente difuso, como o da aversão lulista da leitura.

Creio que com a continuidade da crise e seus efeitos cada vez mais dramáticos, na fase atual, quando ela se abate diretamente sobre os assalariados e trabalhadores em geral, particularmente, na tragédia do desemprego, veremos surgir com força o espírito crítico em relação ao governo Lula. Aí vai ficar claro o papel conservador do governo ao dar continuidade a uma política macroeconomica, que já dava claros sinais de esgotamento no seu ciclo e que se recuperou e só rendeu frutos pela magnífica performance da economia mundial. O governo pouco governou pois, política econômica nenhuma foi intentada e os resultados medíocres do nosso crescimento, quando comparados com outras economias emergentes, são a demonstração das oportunidades perdidas em razão da incapacidade do governo que temos.

Numa visão retrospectiva o que vai ressaltar e a desmedida euforia de Presidente Lula - do bordão "nunca antes neste País" - ao surfar na onda do crescimento da economia mundial, satisfazendo-se com o boom nos preços das matérias primas e grãos presentes em nossa pauta de exportações, vibrando com os graus de investimentos concedidos por agências financeiras de risco ao nosso excelente enquadramento nas finanças globalizadas refletidas no desempenho do cassino brasileiro, um ativo player na grande especulação financeira internacional e prazerosamente, um incentivador da farra dos lucros fáceis da banca nacional e internacional. Não devemos esquecer, por questão de justiça, que intervenções na questão salarial e de algumas políticas sociais publicas resultaram em ganhos reais para a população de menor renda no país. E por último para que o cenário neoliberal não fique incompleto, vai brilhar na tela, o bolsa-familia – política compensatória e assistencialista, de caráter essencialmente duvidoso, quanto a um futuro digno para os muitos atendidos e que ainda formam os milhões de deserdados do Brasil injusto e desigual.

A crise está provocando um degelo e possibilitando o recomeço, não tenho dúvida, de um novo tempo da política brasileira.

Roberto Freire é presidente nacional do PPS

Entre tapas e beijos

Kennedy Alencar
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


EDUCATIVA A civilidade entre dois potenciais candidatos à Presidência em 2010: o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT). Eles gostam um do outro. Respeitam-se.

Da relação de Serra com Lula, nem se fale. Gera ciúme de homem, aquele do pior tipo, no PT e no PSDB -esses primos da redemocratização brasileira que vivem entre tapas e beijos. Por conveniência, a fase agora é de beijos.

O presidente e a gerente enfrentam o seu maior desafio. A crise econômica apenas começou a dar as caras. Vem uma avalanche por aí que poderá minar a chance de êxito eleitoral de uma candidatura governista. A crise econômica respinga em Serra, mas é pior para Lula e Dilma. Na tempestade, é aconselhável sintonia fina entre o governo federal e o Estado com a economia mais forte.

Mas que ninguém se iluda. Em 2010, voltarão os tapas.

É verdade que Lula não acharia um desastre ser sucedido por Serra ou pelo governador de Minas, Aécio Neves. Acharia bem ruim.

O petista acredita que um governo tucano desconstruiria marcas de sua gestão. Alguém já ouviu falar em herança maldita? Se eleger a sucessora, o presidente imagina que seu governo e sua pessoa serão mais valorizados historicamente.

Lula diz que não entregará a rapadura de mão beijada.

Ouve-se no Palácio do Planalto que as regiões mais pobres do Brasil cresceram nos últimos anos e dificilmente aceitarão na Presidência um político tão paulista como Serra. Ninguém no PT dirá que ele era contra a política econômica de Fernando Henrique Cardoso. A provável aliança com o DEM (ex-PFL) será apontada como tentativa de volta aos anos FHC.

Se a gerência da crise deixar, Lula subirá nos palanques para dizer que a vida melhorou, que a oposição chamava o Bolsa Família de "Bolsa Esmola" e que Dilma seria a garantia de continuidade de um governo para os mais pobres.

No PSDB, ouve-se que seria um feito o Brasil eleger uma ex-guerrilheira. Aposta-se na inexperiência eleitoral de Dilma. Tucanos acham que seu gênio forte não resistirá ao corredor polonês de uma campanha presidencial. Falam que, se as palavras de Dilma nas reuniões reservadas viessem a público, sua candidatura se inviabilizaria.

Serra afia o discurso de que o Brasil aproveitou mal a mais recente fase de prosperidade mundial por erros da política econômica.

Amigos, amigos, política à parte.

Kennedy Alencar é repórter especial da Folha.

No modo empírico

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente Luiz Inácio da Silva já deu a resposta às autoridades italianas que manifestaram intenção de pedir a ele que reveja a extradição de Cesare Battisti: é não.

Segundo ele, trata-se de uma questão de soberania nacional. Lula pede respeito à decisão do ministro da Justiça, Tarso Genro, em mais uma demonstração da sua (de ambos) capacidade de escrever errado por linhas tortas.

A soberania do Estado brasileiro não esteve em destaque quando os pugilistas cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara deixaram a comitiva do Panamericano, no ano passado, em busca de asilo.

Ali se despacharam os esportistas para atender de pronto à ditadura amiga, desconsideraram-se as óbvias circunstâncias e montou-se uma ficção - com a gentil colaboração da miopia nacional - segundo a qual os atletas estavam desorientados, mas loucos para voltar a Havana. Onde os aguardavam as respectivas famílias, reféns do regime, e a interrupção das carreiras a título de punição exemplar.

Aqui, no caso do italiano, simplesmente se ignoraram as posições de instância consultiva do próprio Ministério da Justiça (o Conselho Nacional de Refugiados), do procurador-geral da República, do Itamaraty e se houve por bem interferir no processo judicial italiano.

O presidente da República põe a autonomia do Estado brasileiro na roda por causa de uma questão de cunho ideológico. Pede respeito à decisão de Tarso Genro, mas desrespeita as posições do procurador, do Conare e do Ministério das Relações Exteriores, quando menospreza o contraditório e diz que o ato foi uma “decisão do País”.

As instâncias contrárias, ao que se sabe, fazem parte do País. São todas constitucionalmente legítimas, não se pode acusá-las de intromissão indevida nem se deve deixar de considerar a hipótese de que tenham embasado suas posições no processo, na diplomacia, na legislação nacional e internacional e, sobretudo, no bom senso.

A extradição, portanto, não foi uma sentença decretada pelo “Brasil”. Foi uma atitude de caráter particular, produto de um modo de pensar. Respeitável, embora não representativo da soberania nacional, muito menos adequado do regime democrático, por autocrático.

A se aceitar a alegação do presidente, chega-se à conclusão de que o Ministério Público, a Chancelaria e o órgão auxiliar do Ministério da Justiça para assuntos afins não se aliam aos preceitos da autoridade moral do Brasil. E para raciocinar por hipótese, em situação de semelhante agressão à soberania estará o Supremo Tribunal Federal, se porventura vier a acatar o recurso do governo italiano.

Tal possibilidade, entretanto, por ora é mera suposição. De concreto, o que se tem é, de um lado, o peso de instituições abalizadas e desapaixonadas e, de outro, o presidente de novo exercendo o hábito de decidir de ouvido.

Segundo consta, Lula não sabia nada sobre o caso até o mês passado e foi convencido pelo ministro da Justiça e pelo jurista Dalmo de Abreu Dallari de que a extradição obedeceria à tradição brasileira.

Tal relato poderia não ser digno de confiança, mas não são boatos porque combinam perfeitamente com as declarações do presidente a respeito. De acordo com Lula, a decisão se justifica porque o “Brasil é um país generoso” e Cesare Battisti foi condenado “por um crime antigo”. Além disso, “passado tanto tempo ele é outra pessoa, é um escritor”.

Ademais, pondera, a França concedeu asilo a outro acusado “das mesmas coisas”.

O presidente Lula não tem, e expõe a evidência, nada mais que uma leve impressão sobre o assunto. Repete de forma superficial o que ouviu de um lado e se abstém de cotejar todas as informações ou ao menos de perguntar ao procurador-geral, ao ministro das Relações Exteriores a razão de seus votos contrários à extradição.

A intuição é um excelente atributo, o empirismo funciona, mas a ausência de conhecimento e de curiosidade em geral induz ao equívoco. Não necessariamente em relação ao conteúdo, mas no tocante à abordagem de um tema quando assume o caráter de polêmica.

É de se esperar que o presidente da República nessas ocasiões esteja preparado para debater em patamar mais elevado e condizente com a soberania nacional.

Quanto Pior

No discurso, o DEM e parte do PSDB apoiam a candidatura de José Sarney para a presidência do Senado por respeito ao princípio da proporcionalidade, já que o PMDB é a maior bancada da Casa.

À vera, porém, apoiam porque é o caminho mais curto para o atrito irremediável entre o PT e o PMDB. Experientes do tema, tucanos e ex-pefelistas, hoje democratas, sabem o custo presumido desse tipo de conflito.

Similar

Com o delegado Protógenes Queiroz na chefia de inquéritos, o advogado de defesa é quase um acessório dada sua inesgotável capacidade de abrir brechas para anulação de provas.

UGT sugere medidas para preservação do trabalho do brasileiro

DA REDAÇÃO
DEU NO PORTAL DO PPS

A União Geral dos Trabalhadores (UGT) elaborou uma série de sugestões que foram levadas à Direção Nacional do PPS que visam à defesa da economia e à preservação do direitos do trabalhador brasileiro.

A manifestação ocorre num momento em que o empresariado tenta, sem sucesso, conseguir a flexibilização da legislação trabalhista sob o argumento de que precisam enfrentar a crise.

Para a UGT, os trabalhadores não podem ser as vítimas da crise global que atinge também a economia brasileira. “Não são eles os (trabalhadores) que devem pagar o ônus através da perda dos seus direitos trabalhistas, seus empregos e seus salários. Neste sentido, a UGT repele toda e qualquer proposta que venha reduzir conquistas e salários”, alerta o presidente da entidade, Ricardo Patah.

Em nota, Patah diz que o atual momento exige ações imediatas e firmes em defesa do emprego, dos salários, da estabilidade monetária, do crescimento e do desenvolvimento sustentável.

As propostas divulgadas e que já foram recebidas pelo presidente nacional do PPS, Roberto Freire, são o resultado de um debate ocorrido em dezembro do ano passado durante reunião da Executiva Nacional da UGT.

Dentre as medidas sugeridas pela União Geral dos Trabalhadores estão: a ampliação das parcelas do seguro-desemprego, a extinção das horas-extras e a redução da jornada de trabalho sem redução dos salários.

A entidade também cobra do governo medidas para garantir a atividade econômica durante este período de crise. Segundo Ricardo Patah, é preciso redirecionar os gastos públicos para estimular setores com baixo coeficiente de importação, como é o caso da construção civil e do investimento em infraestrutura. Ainda na visão da direção da UGT, o Brasil precisa fortalecer a agricultura familiar, ampliar o crédito diferenciado, o acesso à tecnologia e aos mercados.

Dos bancos oficiais, se exige menos burocracia na concessão de financiamentos com juros mais baixos. E para o Banco Central, a cobrança mais direta: a redução de dois pontos percentuais na taxa Selic. A próxima reunião do Copom, o Comitê de Política Econômica, ocorre na semana que vem.

Veja abaixo a íntegra das propostas da União Geral dos Trabalhadores

a) ampliação das parcelas do seguro-desemprego;

b) extinção das horas-extras;

c) redução da jornada de trabalho sem redução dos salários, de modo apermitir a criação de novos empregos;

d) adoção de contrapartidas sociais e de manutenção de emprego (e não só do nível de emprego) de todas as empresas/setores econômicos em dificuldades que receberem recursos públicos; ao mesmo tempo, os empréstimos a estas empresas devem ter o acompanhamento dos respectivos sindicatos de trabalhadores de modo a garantir a manutenção do emprego;

e) ampliar os aportes financeiros ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) destinados à qualificação e requalificação profissional;

f) aumento da rentabilidade do FGTS;

g) autorização para que o trabalhador possa utilizar até 20% da sua conta de FGTS no Fundo de Infraestrutura do FGTS;

h) adoção da Convenção 158 da OIT;

i) manutenção da política de valorização salário-mínimo;

j) admissão de novos trabalhadores sempre com salário idêntico ao dos demitidos na sua função, de modo a reduzir a rotatividade;

k) negociar com as empresas em dificuldades para frear demissões;

l) redução de 2% (dois por cento) da taxa básica de juros, a Selic, já na próxima reunião do COPOM;

m) redução do superávit primário;

n) reconhecimento legal da existência da organização por local de trabalho;

Além dessas medidas de caráter emergencial, entendemos que é necessário o Brasil adotar medidas de caráter estrutural, de médio e longo prazos, para defender os trabalhadores, economia nacional, a estabilidade e o desenvolvimento sustentável.

E as razões para isso são já conhecidas, pois a crise de solvência do sistema financeiro internacional repercute de duas maneiras no Brasil:

1. Pela contração do fluxo externo de capital/crédito ao Brasil e pela indução de uma insegurança que leva os bancos internos a adotarem a mesma postura contracionista dos bancos internacionais;

2. Pela queda dos preços de nossos principais produtos de exportação, especialmente dos básicos, e pelo aumento da concorrência internacional na colocação dos produtos manufaturados de exportação cujo mercado encolheu nos países importadores de maior renda.

Esta situação, que tende a se desdobrar em cadeia aprofundando a contração dos gastos de investimentos e, conseqüentemente, de consumo, impõe que o governo brasileiro reaja de forma a estimular a demanda interna.

Esse estímulo, entretanto, precisa se dar de forma a não encarecer demais o dólar, sob pena de comprometer a importação de bens de capital e componentes que integram os investimentos que vem sendo feitos nos últimos anos.

Assim, o governo precisaria:

- redirecionar seus gastos para estimular setores com baixo coeficiente de importação, como é o caso da construção civil e do investimento em infraestrutura;

- fornecer condições para que o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica possam suplementar o volume de crédito, em compensação à retração dos bancos privados, sem maiores entraves nas avaliações do risco do tomador e, para que ele se interesse em contraí-lo, com juros de empréstimo equivalentes aos do mercado internacional;

- abrir espaço no gasto público para o governo ter mais recursos a investir. Esse espaço, ao contrário do que prega o liberalismo de plantão, não deveria vir da contração do gasto corrente do Estado, que sustenta demanda a seus fornecedores, mas sim do resgate daqueles gastos públicos que não geram circulação de bens e serviços, qual seja, dos gastos com amortização e juros da dívida pública;

- instituir imposto patrimonial sobre a carteira de títulos detidas pelos bancos que participam do sistema de pagamentos no Brasil, de tal forma a recapturar os recursos públicos que se esterilizam nessas carteiras por conta da taxa interna básica de juros ser mais alta que as congêneres internacionais. Tal imposto teria alíquota que ponderaria o quanto a União pagou de juros aos bancos pela diferença entre a taxa interna (Selic) e a média das taxas externas de juros verificáveis no mercado internacional. Os recursos liberados através da redução do compulsório bancário devem ser destinados ao capital de giro e empréstimos pessoais, de modo a impedir que eles sejam utilizados pelo sistema bancário a adquirir títulos públicos ou a comprar bancos;

- instituir o imposto sobre grandes fortunas;

- democratizar o Conselho Monetário Nacional (CMN) através da participação dos trabalhadores e do empresariado, de modo a permitir que os atores da produção definam a política monetária, creditícia, fiscal e cambial;

- aplicar integralmente os recursos destinados aos investimentos públicos previstos no Lei Orçamentária Anual (LOA);

- instituir dois fundos de fomento ao crédito, semelhantes aos já existentes ao desenvolvimento do Nordeste, do Centro Oeste e do Norte, com o objetivo de reativar o fluxo de crédito através dos bancos estatais. Seriam dois fundos compostos com recursos do Tesouro e que se destinariam, o primeiro, para:

a) servir de fundo de aval, propiciando garantias colaterais às que os tomadores pudessem oferecer, e o segundo para servir de fundo de equalização de taxas de juros, propiciando a redução da taxa dos empréstimos daqueles bancos ao nível dos juros internacionais. Seria uma socialização do risco de concessão desse maior volume de empréstimos que se faz necessário promover, de um lado, e, de outro, também uma socialização da redução das taxas de juros destinadas à produção, destinadas a compor demanda agregada mas com a contrapartida do produto a ser gerado;

b) incentivar vigorosamente um programa de substituição de importações que contemple a substituição por produção interna dos bens e componentes importados que integram a atual demanda por bens de capital, de um lado, e, de outro, um programa de qualificação e up grade de valor agregado às nossas exportações;

c) ampliar o crédito ao empresariado, especialmente às micro, pequenas e médias empresas voltadas seja ao mercado interno seja ao mercado externo, pois são grandes geradores de emprego;

d) adotar uma política de investimento em infraestrutura e legislação regulatória clara e segura que elimine as barreiras que impedem ao capital privado externo entrar – transferindo tecnologia - em áreas onde o Brasil não dispõe de capacidade de investimento neste setor;

e) fortalecer a agricultura familiar com ampliação ao crédito diferenciado, acesso à tecnologia e aos mercados.

CUT quer incentivos para emprego

Lino Rodrigues
DEU EM O GLOBO

Central se reuniu com sindicato da pequena indústria para fazer propostas

SÃO PAULO. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Sindicato da Micro e Pequena Indústria de São Paulo (Simpi) vão preparar ações conjuntas para evitar demissões no setor, que reúne cerca de 250 mil empresas e mais de um milhão de trabalhadores. Em reunião ontem entre os presidentes da CUT, Arthur Henrique, e do Simpi, Joseph Couri, ficou acertado que técnicos das duas entidades começam na próxima semana levantamento sobre a situação do emprego no setor.

A ideia é apresentar propostas concretas ao governo para a concessão de incentivos à produção no setor. Segundo Couri, qualquer medida que afete o mercado interno, como a proposta da Fiesp e da Força Sindical de reduzir jornada de trabalho e de salário em 25%, terá efeito imediato no emprego de médias e pequenas indústrias.

Redução de salário pode afetar produção

Ele avalia que redução de salários vai significar queda maior no consumo e na produção.

- Respeitamos a reunião dos empresários que representam 70% do PIB (na Fiesp, na terça-feira), mas representamos 70% dos empregos - afirmou Couri, destacando que qualquer plano para evitar demissões em massa deve buscar manter empregos e renda dos trabalhadores. Na próxima semana, os sindicatos dos metalúrgicos de São José dos Campos, Campinas, Limeira e Santos também pretendem definir um plano conjunto de lutas contra as demissões. Só em Campinas e São José dos Campos, as demissões ultrapassaram os dois mil funcionários.

- Vamos buscar unidade na luta contra patrões que estão querendo jogar a crise sobre trabalhadores - disse o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, Adilson dos Santos.


Linha tortuosa

OPINIÃO
DEU EM O GLOBO


NÃO É a primeira vez que Lula usa o argumento falacioso de que Chávez é um democrata exemplar porque usa e abusa de referendos e plebiscitos.

INSTRUMENTO ESSENCIAL numa democracia, o voto por si só não garante a lisura de um regime, principalmente quando à frente dele há quem manipule a população de forma demagógica.

NESTA LINHA de pensamento, o presidente ainda justificará a ascensão de Hitler na Alemanha e a legitimidade do regime militar que o colocou na cadeia. Ambos, em algum momento, foram populares.

SE URIBE , da Colômbia, acabasse com a alternância no poder, elemento-chave na democracia, por meio de uma consulta ao eleitor, seria um erro tão grave quanto o que Chávez quer cometer.

Não é bem assim

DEU EM O GLOBO

Ao afirmar que há um desequilíbrio nas análises sobre reeleições consecutivas do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e do colega da Colômbia, Álvaro Uribe, o presidente Lula ignorou que essa possibilidade está fora de pauta em Bogotá pelo menos até 2014. A Câmara dos Deputados colombiana rejeitou, em dezembro do ano passado, a segunda reeleição de Uribe em 2010. Diferentemente da Venezuela, o projeto de lei aprovado autoriza um referendo sobre reeleições seguidas, mas apenas a partir de 2014. Portanto, a questão está abandonada, por ora, no Congresso. O Senado ainda vai examinar a questão.

Quando volta a defender reeleições infinitas para o colega venezuelano, o presidente Lula também se equivoca ao citar casos de primeiros-ministros europeus que ficaram muitos anos no poder. No parlamentarismo, os primeiros-ministros não têm mandatos fixos. São escolhidos por maioria parlamentar e, geralmente, indicados pelo presidente da República do país. O primeiro-ministro pode perder o cargo a qualquer momento, desde que não tenha mais o apoio da maioria dos integrantes do Parlamento.

O presidente Lula, que agora defende a reeleição, foi contra a aprovação da emenda constitucional que instituiu o mecanismo em 1997 e permitiu o segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Lula, à época, cogitava até não disputar a eleição pela terceira vez, mas pretendia ter o caminho livre para emplacar outro nome petista na eleição de 1998. A mesma posição era defendida pela cúpula petista, que também esperava ter menos dificuldade para disputar a presidência com Fernando Henrique fora do páreo eleitoral. O tucano ganhou no primeiro turno.


O que Chávez quer, Lula deseja

EDITORIAL
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Em dezembro de 2007, a maioria dos eleitores venezuelanos infligiu ao coronel Hugo Chávez sua maior derrota política, rejeitando em referendo o projeto de uma constituição que, além de institucionalizar o “socialismo do século 21”, permitia ao caudilho transformar-se em ditador vitalício. Chávez nunca se conformou com a derrota. No dia 30 de novembro do ano passado, determinou aos deputados do Partido Socialista Unido da Venezuela que iniciassem a tramitação, na Assembleia Nacional, de uma emenda constitucional que permitisse a reeleição indefinida do presidente da República.

Hugo Chávez tinha pressa. Determinou que o projeto devia estar pronto em dezembro, aprovado pela Assembleia em janeiro e referendado em fevereiro. As duas primeiras etapas do plano continuísta foram cumpridas a tempo e a hora. Nessa quarta-feira, a Assembleia concluiu a votação em segundo turno, promulgou a emenda e remeteu-a ao Conselho Nacional Eleitoral, para que convoque o referendo para o dia 15 de fevereiro. Isso foi possível porque a Assembleia Nacional é controlada por Chávez. Dos 167 deputados, 6 votaram contra o projeto e 5 se abstiveram.

O caudilho tem motivos para tanta pressa. Seus índices de popularidade são altos - em torno de 60% -, mas os índices de aprovação de seu governo, caracterizado pelo descalabro administrativo e pelo descontrole financeiro, estão em franco declínio. Enquanto estava alto o preço do petróleo - produto responsável por quase 70% das receitas do país - era possível mascarar as deficiências do governo. Mas agora, com o petróleo valendo pouco mais da metade do necessário para cobrir as extravagâncias orçamentárias de Chávez, os problemas adquirem a sua exata dimensão - e o desemprego, a inflação e a escassez de produtos essenciais são fatores de crescente desprestígio do regime bolivariano, que se acrescentam ao descontentamento causado pelas restrições cada vez maiores das liberdades civis.

O caudilho trata de impregnar todos os aspectos da vida venezuelana com a abstrusa ideologia do socialismo bolivariano, mas ele mesmo é, antes de tudo, um pragmático. Sabe que seu projeto político não resistirá a uma prolongada crise econômica e social e por isso adota estratégias de sobrevivência.

Até meados do ano passado, desenvolveu um amplo programa de estatização das principais atividades produtivas. Nacionalizou, por exemplo, as operações petrolíferas da faixa do Orenoco, deixando as empresas privadas que trabalhavam na área com participações minoritárias - oneradas, além disso, por pesados impostos e royalties - e passando o seu controle para a estatal PDVSA. A PDVSA, por sua vez, foi transformada numa enorme holding - que controla supermercados, fábricas de cimento, estaleiros e empresas de construção civil - que também financia os projetos sociais e as aventuras da política externa bolivariana. O resultado disso foi a queda da produção de petróleo: quando Chávez assumiu o poder, há dez anos, o país produzia 3,4 milhões de barris/dia; hoje, produz 2,3 milhões.

No plano político, Chávez descobriu nos últimos tempos que não é imbatível nas urnas. Perdeu o referendo de dezembro de 2007 e, nas eleições regionais do ano passado, a oposição elegeu os governadores dos Estados e das cidades mais ricas do país.

Da soma de todos esses fatores resultou a pressa de Chávez. Acredita que, quanto mais cedo submeter a emenda da presidência vitalícia a referendo, maiores serão suas chances de vitória. Recusa-se a entender a mensagem clara e explícita das duas últimas eleições: os venezuelanos não querem apeá-lo do poder antes do término de seu mandato, mas não admitem que ele se perenize no Palácio Miraflores.

Para a realização de seu projeto, Chávez conta com o apoio entusiasmado do presidente Lula - que diz não querer para si um terceiro mandato, mas encontra justificativas ridículas para a reeleição indefinida do caudilho. Nos últimos dias, Lula travestiu-se de cabo eleitoral dos caciques bolivarianos. Foi à Bolívia dar um alento à campanha de Evo Morales para aprovar a sua constituição. E completou o giro na Venezuela, onde declarou que “Chávez é jovem e aguenta um novo mandato”.

Não é o que os venezuelanos pensam. As últimas pesquisas mostram que 56,8% dos entrevistados não querem Chávez no poder depois de 2013.

FH: PSDB deve ganhar as eleições de 2010

Rodrigo Vizeu
DEU EM O GLOBO


Ex-presidente diz a jornal espanhol que Serra hoje tem vantagem sobre Aécio no partido

BRASÍLIA. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso diz estar confiante de que seu partido, o PSDB, voltará ao comando do país a partir de 2011. Em entrevista publicada ontem no jornal espanhol "El País", ele disse que "o mais provável" é que um candidato do PSDB seja eleito sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2010. E que o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), larga em vantagem porque lidera as pesquisas, seguido do também tucano Aécio Neves, governador de Minas Gerais.

- O mais provável é que ganhe um candidato do PSDB, do meu partido. As pesquisas dão uma clara vantagem ao governador de São Paulo, e, em segundo lugar, ao governador de Minas Gerais.

Ao avaliar o revezamento dos partidos no poder, o tucano disse que o peso das instituições tem evitado mudanças drásticas nas trocas de governo no país. Segundo ele, assim como não teria havido grande mudança macroeconômica após Lula sucedê-lo, o mesmo não ocorrerá na próxima troca de presidentes. Ele condenou, porém, o que chamou de crescimento do clientelismo no atual governo. Mas evitou críticas ao carro-chefe de Lula na área social, o Bolsa Família:

- Talvez seja necessário corrigir o clientelismo, que cresceu durante os oito anos do governo Lula. Mas não se vai mudar a política social, que começou inclusive antes de mim. O Brasil chegou a um ponto de maturidade em que as mudanças não produzem quebras - disse.

O ex-presidente concordou com a avaliação de que o Brasil está melhor hoje do que quando ele deixou o poder, mas ressaltou que isso "é natural", uma vez que Lula viveu "uma conjuntura econômica positiva de 2003 em diante" e teve "a sabedoria de não mudar". Para Fernando Henrique, o desenvolvimento do país é fruto de um processo cumulativo:

- O país progride há muito tempo, e o progresso é cumulativo. De igual modo que o próximo presidente melhorará mais, porque se beneficiará do que eu fiz e do que fez Lula.

Fernando Henrique descartou influência de líderes como Hugo Chávez e Evo Morales no governo brasileiro. O ex-presidente disse que no PT há gente que compartilha as visões do venezuelano e do boliviano, mas o mesmo não ocorreria dentro do governo:

- O Brasil é muito grande, muito complexo, não é provável que os brasileiros venham a aderir ao modelo de Chávez. Lula tem retórica populista, é popular, mas seu governo não.


Aécio faz defesa enfática das prévias e percorrerá o país

Gerson Camarotti
DEU EM O GLOBO

Mineiro não admite ser vice na chapa de Serra

BRASÍLIA. Ser mais novo que o governador paulista, José Serra, e estar atrás dele nas pesquisas sobre 2010 não abalam a disposição do governador mineiro, Aécio Neves, de disputar as prévias do PSDB, prometidas para o fim deste ano. Ele já prepara a estratégia para dar visibilidade nacional a seu nome. A avaliação de Aécio e seu grupo político é que o governador não terá outra opção diante das pesquisas indicando que mais de 80% dos mineiros votariam nele para presidente. Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país, com 12,4 milhões de eleitores.

Aécio tem dito que nada tem a perder com as prévias. Pelo contrário, uma pré-campanha nacional o deixaria conhecido em todo o país. Na pior das hipóteses, a derrota nas prévias até lhe daria discurso para apoiar Serra e justificar ao eleitorado de Minas sua posição.

Mas repete que em nenhuma hipótese aceitaria ser o vice na chapa encabeçada por Serra, como defende o ex-presidente Fernando Henrique e parte da cúpula tucana. Não quer atrelar seu futuro político à sorte de Serra. Ao GLOBO, Aécio foi enfático na defesa das prévias:

- O argumento de que não posso ser candidato porque essa é a última chance de alguém não pode ser utilizado. Ninguém pode temer as prévias, que vão legitimar todo o processo. Seja quem for o escolhido, esse processo dará condições para que um se engaje na campanha do outro. Estou preparado para ser ou não candidato. O que pode deixar sequelas não é a disputa das prévias, mas um processo que não seja democrático.

O governador mineiro vai percorrer o país e participar de debates em sindicatos de trabalhadores, federações empresariais e universidades este ano. A ideia é pôr em debate a gestão pública para apresentar os dados dos seis anos de administração tucana em Minas Gerais.

O principal trunfo que começa a ser apresentado pelo grupo de Aécio, no partido, é a sua possibilidade de crescimento. O argumento é que, enquanto Serra já estaria no teto do seu conhecimento, o governador mineiro ainda é desconhecido de um grande percentual de eleitores
- o que significa que ele ainda tem espaço para crescer nas pesquisas.


Oposição critica Lula por apoio a projeto de Chávez

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A oposição criticou as declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o direito à reeleição indefinida na Venezuela.

O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, disse que as declarações acabam por estimular os defensores da tese do terceiro mandato no Brasil.

"Isso não é bom para ninguém. Toda vez que Lula fala estas coisas estranhas preocupa a todos os democratas."

Líder do DEM no Senado, José Agripino (DEM-RN) afirmou que Lula é contraditório ao se apresentar como democrata e defender o continuísmo de Hugo Chávez.

"Ele foi oportunista. Esse tipo de declaração mostra bem qual é a qualidade de democracia que o presidente Lula tem convicção", disse. "A democracia dele tem duas faces", completou Agripino.

'Se o povo quiser, vai acontecer'

Chico de Góis
DEU EM O GLOBO

Lula defende reeleições indefinidas para Chávez, mas diz que não pretende disputar 3º mandato

Opresidente Lula, que já foi contra a reeleição, defendeu ontem a possibilidade de Hugo Chávez se candidatar indefinidamente à Presidência da Venezuela e ainda disse que, no Brasil, com a consolidação da democracia, se um partido ou deputado quiser propor o mesmo mecanismo, isso poderá acontecer. Reafirmou, porém, que não pretende disputar um terceiro mandato e que vai trabalhar para eleger seu sucessor.

Lula ressalvou, ainda, que não se pode comparar Venezuela e Bolívia ao Brasil porque os países têm culturas políticas diferentes.

- Em mais de um século, este período de 20 anos é o mais longo período de democracia contínua no país. Acho que estamos num processo de construção, de fortalecimento das instituições no Brasil. Isso não impede que, daqui a um tempo, apareça um partido, uma maioria de deputados, que proponha mudar a lei que proíbe ter apenas uma reeleição (para) poder ter três ou quatro. Isso pode acontecer. Na hora em que você tiver instituições consolidadas, liberdade política e o povo quiser, isso vai acontecer - disse Lula, ao lado de Chávez.

Lula afirmou que, se no segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1999-2002), a economia estivesse bem, alguém da base aliada do tucano teria pedido a possibilidade de mais uma reeleição.

- Pela discussão que se deu na época da reeleição, certamente se a economia brasileira estivesse bem de 98 a 2002, e se o presidente Cardoso tivesse feito as "encuestas" (pesquisas, em espanhol) de opinião pública, teria havido um deputado que teria proposto uma emenda para que Cardoso tivesse mais um mandato. No Brasil é assim. Só não é assim no meu governo - afirmou o presidente, sem se referir ao deputado petista Devanir Ribeiro (SP), que propõe o terceiro mandato para Lula.

"Agora já estou velho. Vou me retirar"

O petista queixou-se que perguntas sobre terceiro mandato são dirigidas apenas a presidentes de "esquerda" e disse que não se fala, por exemplo, na hipótese de mais um mandato para Álvaro Uribe, da Colômbia. Voltou a citar, como comparação, regimes parlamentaristas, em que primeiros-ministros ficam no poder por muito tempo:

- Precisamos aprender a respeitar a cultura de cada país, a vontade de cada povo - disse, afirmando que é necessário permitir que o processo democrático não exclua a possibilidade de um cidadão poder concorrer mais. E acrescentou: - É você garantir a todos o direito de participar. E se todos participam nas mesmas condições, tendo acesso aos programas, uma pessoa pode se candidatar mais uma vez ou não, vai depender da cultura do país.

As declarações de Lula foram feitas no estado de Zulia, onde Chávez foi derrotado. Nas eleições municipais da Venezuela, ano passado, quem não era aliado dos chavistas tinha recursos retidos pelo governo. O Conselho Nacional Eleitoral marcou para 15 de fevereiro referendo no qual a população dirá se aprova ou não permitir, na Constituição, a reeleição infinita.

Mesmo tendo defendido a reeleição de Chávez, Lula afirmou que não pretende se candidatar mais:

- Chávez é novo ainda. Ele aguenta um novo mandato. Agora eu já estou velho. Vou me retirar.

O presidente brasileiro contou, na Venezuela, que pretende assistir a um dia de desfile das escolas de samba do Rio e que quer ver, sobretudo a Beija-Flor, sua escola de coração. Chávez disse que torce pela Mangueira, a única que conhece. No entanto, a Vila Isabel ganhou o carnaval carioca, em 2006, com um desfile sobre a América Latina com patrocínio do governo Chávez.

COLABOROU Gerson Camarotti

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Longa vida dos jornais

Fernando Gabeira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

RIO DE JANEIRO - O presidente Lula não gosta de ler jornais. Foi uma decepção para a imprensa, pois através dela foi escolhido um dos homens mais influentes do planeta. Trabalho em jornal desde adolescente. Tempo em que os linotipistas tinham de tomar leite para evitar a intoxicação por chumbo.

Como o meu negócio é tornar os jornais mais atraentes, não brigo com quem não os lê; pergunto sempre como podemos melhorar.

Um dos argumentos mais esgrimidos nessas polêmicas é que a internet está matando os jornais. Na semana em que se discute isso no Brasil, o "Los Angeles Times" anuncia que sua receita na internet superou a do jornal impresso e hoje é a sustentação principal da empresa.

Isso significa, ao contrário, que a internet está salvando os jornais? Também é um exagero. O que a internet vai fazer é obrigar os jornais a grandes mudanças.

Pessoas para quem a leitura é uma das razões de viver às vezes são impacientes com outras formas de comunicar. Por exemplo: a fotografia ganhou espaço nos jornais brasileiros graças também à competência de nossos fotógrafos. Muitos editores a viam como uma forma secundária.

Agora o desafio é outro. Dezenas de novos programas de visualização disputam espaço. Num mundo complicado, ver mapas e gráficos nos dá a impressão de controlar a realidade. Podemos desenhá-la em camadas que aprofundam o conhecimento do tema.

Um dos criadores desses programas, para ilustrar a diferença genética entre homem e macaco, desenhou, num fundo negro, com minúsculas letras brancas, a cabeça do macaco. Havia raros pontos vermelhos -eram a marca da diferença.

Não se trata mais só de absorver a fotografia. Mas de explorar maneiras de visualização. Evoluir para sobreviver é a tarefa que a indiferença nos provoca.

O espectro que não ronda o Brasil

César Felício
DEU NO VALOR ECONÔMICO


A se julgar pelo comportamento dos agentes políticos nas últimas semanas, pode-se arriscar a dizer que o Brasil vive uma situação paradoxal em relação à descrita por Karl Marx na famosa abertura do "Manifesto Comunista". Há um espectro que pode rondar a Europa, ou todo o restante do mundo, mas que não ronda o Brasil: o da crise financeira global. Ou ao menos não ronda as arenas onde se travam os primeiros movimentos em relação à eleição presidencial.

Retrações na produção industrial, demissões já contadas de mil em mil e empresários pressionando pela perda de eficácia das leis trabalhistas passam ao largo da disputa pelo controle do poder Legislativo e do significado oculto de bioplásticas de rejuvenescimento.

Como comenta o sociólogo mineiro Rudá Ricci, observador atento das intersecções entre as esferas política e econômica, no âmbito do poder público, apenas o poder municipal já reagiu às nuvens de chumbo. Quase R$ 5 bilhões em transferências já foram cortadas para as novas prefeituras, retirando toda a margem de manobra sobretudo dos menores municípios. Será mais uma ocasião para aprofundar a dependência do poder municipal em relação ao governo estadual ou federal de plantão, a fazer com que mesmo os oposicionistas mais aguerridas no comando de máquinas municipais falem muito macio em 2010.

Uma boa ocasião para se medir a perda de autonomia política dos municípios poderá ser vista no próximo mês, no grande encontro que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva irá promover em Brasília, reunindo toda a equipe ministerial com os novos prefeitos, em uma oferta de mão dupla: os novos administradores recebem o fluido vital em suas veias, desde que ajustem seus programas ao planejamento de ações federais.

Com mais de um instrumento para administrar ou retardar a crise, Lula será apresentado nos próximos meses pela propaganda oficial como o gerente de um governo que não deixa o Brasil parar, que investe e garante o funcionamento do motor da economia. Será um contrapeso importante à previsível explosão do desemprego que virá pela frente, quando os prejuízos consolidados das empresas começarem a aparecer.

Para o PT e a esquerda em si, o desafio de tentar elaborar alguma idéia sobre o que se passa no mundo ocorrerá já neste fim de mês, no fórum social de Belém. Há um painel de debates, patrocinado pela Fundação Perseu Abramo - um órgão do PT mas não necessariamente alinhado com a ortodoxia do Palácio do Planalto- que terá a crise econômica como seu tema primeiro. Presidente da Fundação Perseu Abramo, o ex-deputado Nilmário Miranda aposta que do encontro sairá um roteiro, sensivelmente diferente do prevalecente em certos meios da esplanada: diminuição do superávit primário, para a manutenção dos gastos de custeio, entendidos como a chave para a política social.

Para as oposições, o momento chave será março, com a megaconcentração organizada pelo PSDB, DEM e PPS em Brasília, para colocar os presidenciáveis José Serra (governador de São Paulo) e Aécio Neves (governador de Minas Gerais), falando sobre a crise internacional para os prefeitos, vereadores e dirigentes municipais dos três partidos.


"Lula está armando uma armadilha fiscal, uma bomba relógio que mais tarde eclodirá em uma crise de solvência generalizada. A oposição precisa se preparar para mostrar na campanha em 2010 a existência desta verdade", disse um dos organizadores do evento, o presidente do Instituto Teotônio Vilela, a fundação de estudos tucana, deputado Luiz Paulo Vellozo Lucas (ES). Perguntado se eleitoralmente não é contraproducente acenar com a ameaça do caos no horizonte, o parlamentar insistiu. "Gabeira no Rio adotou a tática de basear sua campanha municipal na verdade e quase venceu. E Obama também fez isso nos Estados Unidos e venceu", disse.

No momento, a oposição permanece longe tanto de traçar diagnósticos de crise quanto de soluções. Serra e Aécio mimetizam Lula e agem como motores da economia. O primeiro anunciou que irá antecipar a entrega das obras do trecho sul do Rodoanel e ontem mesmo divulgou um pacote para recuperar 7.395 quilômetros em estradas municipais. Distância suficiente para ir de São Paulo a Buenos Aires três vezes. Aécio anunciou no começo do ano o contingenciamento zero de seu Orçamento. E o cumprimento de uma meta anual de R$ 10 bilhões de investimento, na íntegra.

Em crises passadas, de gravidade não subestimável em relação à atual, o debate sobre o modelo econômico esteve no centro da discussão. Foi assim na reta final do regime militar, quando o PMDB levou a frente sobre a viabilidade ou não de um modelo que gerava superávits comerciais e arrocho salarial para o pagamento de uma dívida externa que crescia em razão exponencial. Foi novamente o caso na eleição de 1989, em uma eleição onde soluções mirabolantes para a inflação estiveram no centro da pauta. Não deixou de ser em 2002, quando Lula assumiu um compromisso com a estabilidade. Na tempestade do momento, ainda não há no meio político a discussão das melhores rotas de fuga.

César Felício é repórter de Política.

Elos da economia

Mírian Leitão
DEU EM O GLOBO

O empresário Carlos Mariani ligou para vários setores das indústrias química e petroquímica antes de me conceder uma entrevista, e perguntou como seria 2009. "Todos disseram que, diante da crise, não podiam fazer previsões." No setor de distribuição de aço há uma certa esperança de que neste primeiro trimestre eles consigam reduzir o estoque, segundo Christiano da Cunha Freire.

Entrevistei os dois na Globonews, para saber como estava a situação econômica dentro da cadeia produtiva. Mariani é presidente da Abiquim, onde estão agregados tanto os produtos químicos para uso industrial, quanto os produtos químicos de uso final, como medicamentos, material de limpeza e defensivos agrícolas. Christiano preside o Instituto Nacional de Distribuidores de Aço.

Eles disseram que enfrentam o mesmo e complexo problema: carregam estoques que foram produzidos e comprados a um preço muito mais alto do que o atual. As empresas têm que reduzir os estoques, mas terão que absorver prejuízos com as vendas a preços menores. Esta é uma das imensas incertezas do ano. Mariani acha que no seu setor há um problema adicional:

- As empresas dos extremos - a grande indústria de produto final e a produtora de matéria-prima - conseguem se financiar, mas as empresas menores, que estão no meio do setor, não conseguem financiamento, e, quando conseguem, os juros são altos.

Christiano disse que quem tem financiado os setores intermediários de aço são as próprias empresas, e não os bancos.

Tanto a indústria química quanto a siderúrgica estão passando por um duro primeiro trimestre neste ano, como conta Mariani.

- Nós tivemos em 2008 uma excelente performance. Apesar da crise do último trimestre, o ano foi excepcional. A partir de outubro os sinais da crise ficaram claros. Em novembro a indústria teve que se adaptar, em função da redução de demanda desses setores consumidores de ponta. Um sinal mais claro dessa redução veio em dezembro, com queda nas vendas de 25% sobre dezembro do ano anterior e sobre novembro também. As empresas imediatamente ajustaram os seus níveis de produção. Estamos, agora, nos adaptando a um novo nível de demanda e a novos parâmetros de preços. A nafta, que chegou a ser vendida a US$1.300 a tonelada, hoje custa US$220 a tonelada. Isso vai significar plástico a outro preço, defensivo agrícola a outro preço - disse ele.

Mariani acha que a transição para a redução de estoques e mudança de níveis de preços vai durar todo o primeiro trimestre, pelo menos. De qualquer maneira, todos os segmentos têm dificuldade de fazer previsões para este ano.

Christiano disse que na distribuição de aço, a melhora pode vir logo no começo do segundo trimestre de 2009.

- O ano de 2008 fechou muito bem, mas o último trimestre foi muito feio. Dezembro foi na ordem de 35% menor que o dezembro do ano anterior. No setor siderúrgico, os altos-fornos estão sendo abafados, um movimento que começou nos Estados Unidos, em outubro, e foi muito brusco, mas que ao fim vai ajustar o volume de aço produzido. Alguns movimentos foram exagerados. Nos EUA chegaram a abafar 50% dos fornos. O Brasil começou a fazer esse ajuste em dezembro, quando ficou claro que a crise chegaria aqui. O último trimestre de 2008 foi difícil, o primeiro deste ano está sendo de ajuste. Mas agora estamos começando a ver o segundo trimestre de 2009 de maneira positiva. Janeiro, na verdade, está mais positivo do que o esperado para o setor de distribuição de aço, com um aumento de 6% em relação ao último trimestre do ano - disse Christiano.

Ele disse que o setor siderúrgico terá uma queda de 40% neste começo de ano, mas a distribuição não irá tão mal, porque conseguirá entregar à indústria final os seus estoques - o setor estava com 900 mil toneladas de estoque. Mas Christiano admite que a indústria siderúrgica pagará um preço alto por este ajuste brusco.

- Quando uma empresa abafa um forno não é brincadeira. Isso não é ligar na tomada e tirar da tomada. A indústria fica três meses fora do ar. O custo é muito alto.

O setor petroquímico vem de anos fantásticos. No ano passado houve um crescimento de 19%. De 2002 para 2008 o faturamento de todos os segmentos juntos saiu de US$38 bilhões para US$123 bilhões, um salto espetacular. Eu perguntei a Mariani se o setor não aproveitou este momento para acumular gorduras e enfrentar o tempo das vacas magras.

- Sim, claro, isso foi feito. Mais do que isso, o setor aproveitou um bom momento para fazer uma grande reestruturação, que era necessária. Agora temos duas grandes centrais petroquímicas, nas quais ocorreram uma reorganização societária, e a Petrobras voltou à petroquímica. Tudo isso era necessário - disse ele.

Seja como for, são tempos difíceis. As empresas enfrentam uma revolução nos parâmetros de preços, um encolhimento do mercado interno e externo, um acúmulo de estoques formado pela queda brusca de movimento. E tudo isso num país com os mais altos juros do planeta.

Na presença da adversidade

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Enquanto o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, com seu linguajar pitoresco e raciocínio manhoso, estiver na linha de frente da “defesa do trabalhador” e do ataque aos “patrões”, a cena fica entendida como simples performance sindicaliza.

Ruim, mas sem maior consequência. Demagógica, oca, mas em conformidade com o perfil do personagem escalado, na condição de presidente do PDT, para representar o partido na coalizão de apoio ao presidente Luiz Inácio da Silva.

Partido fundado por Leonel Brizola, o PDT é também a legenda de origem do senador Cristovam Buarque, que retornou a ela depois de anos no PT, de onde saiu por divergência de procedimentos e depois de uma passagem pelo Ministério da Educação.

O que faz Cristovam Buarque nessa história que começa com as bravatas de Carlos Lupi e logo concluirá pela inadequação de o presidente da República abrir espaço ao sindicalista nele mais ou menos adormecido?

Nos idos dos 90, ainda governador petista do Distrito Federal, Cristovam era das poucas vozes do PT a alertar para a necessidade de o partido abandonar a lógica da reivindicação, deixar de lado a defesa corporativista impressa em seu DNA sindicalista e abraçar causas que dissessem respeito à sociedade inteira.

Só dessa forma, argumentava Cristovam, o partido poderia se preparar para um dia realmente disputar a sério o poder e, no caso de vitória, administrar o País com todos os seus desafios.

Enquanto olhasse apenas para a “mesa de negociações” entre patrões e empregados onde Lula forjara suas habilidades políticas, seria parte sem a indispensável noção do todo.

Carlos Lupi, presidente licenciado do PDT, não ouviria as ponderações do filiado. A prepotência adquirida no cargo não lhe permitiria enxergar que não é ministro dos sindicatos.

É ministro do País que não precisa de ameaças vãs de punição ao setor produtivo, mas daquela visão ampla que desde há muito prega o hoje senador Cristovam Buarque, para enfrentar a crise, encarar as agruras da impossibilidade de atender a todos os interesses quando o cobertor encurta e a situação requer espírito público. No sentido coletivo do termo.

Querer e poder

No caso das disputas dentro do Congresso, as querências dos presidentes da República não necessariamente correspondem às poderências.

Lula “tranquilizou” Michel Temer dizendo que o melhor cenário para ele é o PMDB na presidência da Câmara e o PT, com Tião Viana, na do Senado.

Nessa altura do segundo mandato de Fernando Henrique ele também tranquilizava sua base dizendo que o quadro mais confortável para o Planalto seria Jader Barbalho na presidência do Senado e Inocêncio Oliveira na da Câmara.

Jader foi eleito, renunciou em meio a denúncias. Inocêncio foi abalroado pela candidatura (vitoriosa) do tucano Aécio Neves.

A partir daí, as relações entre os três principais partidos da aliança - PSDB, PFL e PMDB - nunca mais foram as mesmas, com consequência direta sobre a eleição presidencial de 2002.

Mal comparado

O ministro da Justiça, Tarso Genro, não enxerga por que não quer a diferença entre asilos políticos concedidos pelo Brasil a chefes de Estado apeados do poder e a recusa de extradição ao italiano Cesare Battisti.

Battisti foi condenado por homicídio pela Justiça de um País cujas instituições funcionam à normalidade. O ministro tem a prerrogativa de tomar a decisão que tomou, mas não dispõe de salvo-conduto para distorcer os fatos sem contestação.

Os atletas cubanos entregues a Havana quando tentaram refúgio no Brasil logo após os jogos panamericanos para atender ao governo de Cuba também foram, ao inverso, objeto dessa adaptação autocrática da realidade à posição ideológica de determinado grupo.

Naquele caso a conta foi paga pelos atletas, banidos do esporte, pois o Estado atendido deu-se por satisfeito e a reação no Brasil diluiu-se na geleia da benevolência geral para com a ditadura de Fidel Castro.

Nesse episódio de Battisti, ao se imiscuir em decisão do Judiciário italiano, o Brasil pode ter contratado um grave atrito diplomático sem dispor da estatura política e da sustentação legal suficientes para enfrentar.
Tratou uma ditadura como democracia, agora atuou no modo vice-versa e terá necessariamente de se valer do nem sempre prestigiado Itamaraty para desatar o poderoso nó.

Os pedidos de recuo, feitos diretamente ao presidente Lula, tendem a ser inúteis, pois Tarso Genro submeteu a decisão a ele antes de divulgá-la certamente garantindo que não haveria obstáculos. Ou Lula teria medido as consequências.

É um bom exemplo de como nem sempre é bom o governante agir na confiança da avaliação alheia e formar juízo a partir do próprio discernimento. Obtido mediante o conhecimento dos fatos por meio, entre outros meios, da leitura dos dados em jogo.

Serra ataca Lula ao anunciar obras

Silvia Amorim
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Governador prometeu investir R$ 3,9 bilhões em estradas

Em evento para anunciar um programa bilionário para recuperação das estradas paulistas, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), fez ontem duras críticas ao governo Lula e não descartou a sua candidatura à Presidência da República. Favorito nas pesquisas para a corrida ao Palácio do Planalto, o tucano fez ainda um pedido público à sua equipe: que as obras apresentadas sejam entregues até março de 2010. Em abril, seis meses antes da eleição, vence o prazo para as desincompatibilizações.

Até 2010, a gestão Serra promete recuperar mais de 7 mil km de rodovias e pavimentar 3 mil km de estradas de terra ao custo de R$ 3,9 bilhões. Isso é mais que o triplo do investido na primeira metade do governo no programa Pró-Vicinais. O plano é vitrine da administração Serra e promessa de campanha do governador.

Para uma plateia de mais de 400 prefeitos, o governador, ao negar o caráter eleitoreiro na ampliação do programa nos próximos dois anos, pela primeira vez, mencionou a possibilidade de se lançar candidato à Presidência em 2010. “É um programa de governo, que estaríamos fazendo em qualquer situação: se eu fosse largar a vida pública, se fosse me candidatar à reeleição ou me candidatar a presidente”, disse. À frase de Serra seguiram-se aplausos e manifestações a favor da postulação.

Um pedido feito pelo governador durante o discurso, de quase 52 minutos, alimentou as especulações sobre o seu futuro político. “A Secretaria dos Transportes diz que vai ser em abril (a conclusão das obras). Eu não vou me comprometer. Será em 2010. Mas vamos perseguir para que seja até antes, em março, pelo menos”, sugeriu.

Serra enumerou uma lista de realizações da sua gestão e não economizou nos contrapontos e críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “O custo dessa reforma é metade de uma vicinal nova. Não é brincadeira. Não é um programa de tapa-buraco. É fazer a estrada de novo”, alfinetou, referindo-se ao plano emergencial feito pelo governo federal para a recuperação de estradas.

Pouco antes, o presidente estadual do PSDB em São Paulo, Mendes Thame, foi mais contundente nas críticas à gestão petista. “Há aqueles que se alienam, não leem jornais, têm azia. E há outros que enfrentam a crise. O que assistimos aqui hoje é um exemplo da extraordinária capacidade do governo de São Paulo de enfrentar momentos difíceis.”

No quesito elogios ao próprio governo, Serra afirmou: “Não governamos segundo a cor partidária e, modéstia à parte, temos sido exemplo na área de gestão”.

EMPREGOS

Prosseguindo nas comparações, o tucano mudou o foco para a crise mundial. “Essas vicinais novas vão permitir gerar em São Paulo 36.400 empregos diretos e 108 mil indiretos. Isso não é brincadeira num momento de crise.” E provocou: “Estamos dando uma contribuição importante, mas restrita. O governo de São Paulo não tem política monetária, cambial ou fiscal”.

Foi a senha para disparar mais uma vez contra Lula. “Agora mesmo estava olhando umas tabelas. Todos os países do mundo reduziram juros, menos o Brasil e a Rússia, esta por uma situação peculiar”, destacou. “Sem dúvida, é o fator que está mais contribuindo para que o Brasil não adquira confiança necessária para sair da crise.”

Serra também requereu a paternidade de um dos maiores feitos do governo Lula. “Dos 3,7 milhões de empregos criados no Brasil desde janeiro de 2007, 1,4 milhão, ou quase 40%, foi em São Paulo, que tem 23% da população. Isso não está separado dos nossos investimentos no Estado”, comentou.

Para 2009, o governo paulista prevê investimentos de R$ 19 bilhões. É quase o total do que foi investido em 2007 e 2008, R$ 22 bilhões.

Obama e a finança no bico do corvo

Vinicius Torres Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Democratas e assessores de Obama divulgam projetos de reforma; Armínio Fraga ajudou a elaborar propostas

OS DEMOCRATAS e os assessores econômicos de Barack Obama deram ontem mais sinais de que o sistema financeiro terá de dançar miudinho sob novas leis. Sugeriram ainda que dinheiro do pacotão Paulson-Bush será usado na recompra de dívida imobiliária, ora na mão de investidores e instituições financeiras, a fim de renegociá-las e reduzir o nível de calotes.Ontem, Obama conseguiu liberar no Congresso a outra metade do pacote de US$ 700 bilhões.

As diretrizes do plano de reforma financeira foram divulgadas ontem pelo lendário ex-presidente do Fed Paul Volcker, que comandou o "Grupo dos 30" economistas, executivos e ex-banqueiros centrais que as discutiram (entre eles Armínio Fraga). Recomendaram a separação entre atividade bancária mais tradicional e negócios mais arriscados, numa reedição das leis dos anos 1930 (revogadas desde os 90), não se sabe se reedição ampliada, mas bem revista. Pediram rédea mais curta sobre seguradoras e corretoras.

Querem conter a promiscuidade entre agências de avaliação de risco e emissores de dívida. Outra ideia é enquadrar os "quase-bancos" no sistema de supervisão bancária (por exemplo os fundos de aplicação financeira, "mutual funds").

Volcker acha bom reduzir o tamanho dos conglomerados financeiros.

Disse que "sistema financeiro não passou na prova do mercado". Chamou o sistema bancário de "uma bagunça" ("a mess"). No Senado, tramita projeto de lei que permitiria a juízes de concordatas alterar contratos imobiliários.

Objetivo: evitar mais inadimplência e despejos. Mas tal medida coloca os bancos em pânico: se não puderem prever seu fluxo de renda futuro, vão emprestar apenas para pessoas com risco menos zero de crédito, contraindo ainda mais a economia.

Enquanto isso, Citigroup e Bank of America lutam pela vida -o governo vai ter de socorrer a turma de novo. E ativos financeiros que ficaram famosos na crise voltam a apodrecer, após a enésima onda do "pior já passou". Trata-se de títulos atrelados a hipotecas de segunda linha, as notórias "subprime", a imóveis comerciais e também a financiamentos para aquisições de empresas. A desvalorização desses e outros ativos come o capital das instituições financeiras que os detêm.

Tal degradação ocorre mesmo depois de o governo dos EUA ter tomado as seguintes medidas: 1) trocar títulos públicos por títulos podres dos bancos. Como alguns desses ativos jamais voltarão a valer um tostão, na prática o público americano doa dinheiro aos bancos; 2) comprar títulos privados, evitando derrocada ainda maior de parte do papelório e, por conseguinte, do capital dos bancos; 3) tornar-se o segurador de fusões & aquisições de instituições financeiras; 4) emprestar dinheiro a juro camarada aos bancos, com garantias para inglês ver; 5) estatizar instituições financeiras; 6) comprar parte do capital de outras.

A recessão tritura empregos e empresas. Caiu a ficha de que mais pessoas e firmas não pagarão as contas.

Mais títulos atrelados a tais pagamentos perderão valor, o que provoca mais liquidação de ativos, dando novo impulso ao ciclo vicioso. A inadimplência maior, de resto, afeta diretamente o balanço dos bancos.

O governo precisa ter juízo

Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Se enfrentar as empresas for a escolha do governo, os resultados serão desastrosos, e o ajuste, muito mais difícil

A CRISE econômica chegou ao mercado de trabalho no Brasil antes do esperado pelos analistas. A provável eliminação de mais de 600 mil postos formais em dezembro jogou um balde de água fria no otimismo do governo Lula e surpreendeu o mercado.

Muito divertida a expressão facial do ministro José Múcio Monteiro (Relações Institucionais) diante das câmeras de televisão ao anunciar que, apesar do tombo, o governo mantém sua previsão de crescimento do PIB de 4% para este ano.

Já outro ministro -o do Trabalho, Carlos Lupi-, comentando os dados de emprego em dezembro, mostrava claramente sua decepção com esse número. Gaguejando, disse que os empresários são os verdadeiros responsáveis pelas demissões e reviveu a marolinha de Lula na imagem da "espuma". Seguia o padrão petista de sempre arranjar, fora do governo, um responsável pelos problemas.

Essas duas reações, se mantidas, podem ser muito perigosas para o governo ao longo deste ano. A primeira reflete claramente a forma irresponsável com que Brasília vem tratando a crise econômica que atinge hoje todas as economias do mundo. Em vez de enfrentá-la de forma consistente, reconhecendo que o Brasil também será afetado, Lula e seus liderados optaram por um discurso ufanista e irrealista.

A deterioração do emprego no Brasil estava contratada a partir do agravamento da crise dos Estados Unidos, em setembro último. O que surpreendeu foi a rapidez e a intensidade do impacto. Para mim, esse é um sinal evidente de que as empresas brasileiras compreenderam muito bem a virada do cenário econômico e se anteciparam.

A segunda reação, explicitada pelo ministro do Trabalho, mostra que o governo ainda não entendeu a complexidade do ajuste que vamos viver neste ano. É preciso aceitar que haverá uma redução importante na taxa de crescimento da economia, independentemente das medidas anticíclicas tomadas pelo governo. Essas medidas são importantes para diluir no tempo a desaceleração e permitir certa dose de racionalidade no ajuste que as empresas e os consumidores terão de realizar. Ações com método e inteligência podem minimizar os efeitos negativos da crise e restaurar as possibilidades de crescimento, talvez para algo próximo de 3% ao ano já no quarto trimestre. Mesmo assim, o crescimento médio do ano será baixo, provavelmente inferior a 2%. Durante alguns meses, o governo terá de conviver com estatísticas econômicas menos favoráveis, mas os frutos serão colhidos um pouco mais à frente, e o Brasil poderá terminar 2009 em um restrito grupo de economias com desempenho ainda positivo.

Mas se o caminho escolhido for o de tentar chegar a um crescimento de 4% ao ano a qualquer custo, inclusive via confronto com as empresas, os resultados serão desastrosos e o ajuste, muito mais difícil. Para o governo, é preferível voltar atrás o quanto antes em uma posição que se mostra errada do que transformá-la em um problema que terá de ser enfrentado por um tempo mais longo. Por falar em juízo, espero que os membros do Copom decidam, na próxima semana, por uma redução agressiva -pelo menos 0,75 ponto percentual- da taxa Selic. Os últimos números da inflação mostram que o fantasma do aumento dos preços por conta da desvalorização do real não passou de uma alucinação de uns poucos analistas. E a queda da atividade já contratada abre um espaço de ociosidade na economia suficientemente grande para permitir a redução de 3% na taxa de juros até o final do primeiro semestre.

Luiz Carlos Mendonça De Barros , 66, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Lula admite demissão mais alta desde 1999

RODRIGO VARGAS
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Lula admite demissão recorde em dezembro

Presidente afirma que corte de vagas formais no mês passado pode ter chegado a 600 mil, o pior resultado desde 1999

Durante entrevista, ele chegou a mencionar 800 mil dispensas, mas número foi corrigido por sua assessoria; ministério não confirma dado

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu ontem, durante entrevista em Ladário (428 km de Campo Grande), que o número de demissões em dezembro pode ter batido recorde. Ele citou a possibilidade de o número de cortes ter atingido 800 mil, mas sua assessoria, em seguida, corrigiu o dado e informou que a intenção era mencionar 600 mil demissões.

Esse número é quase o dobro da média histórica para o período, segundo estimativa apontada pelo próprio presidente.

"Tivemos uma anormalidade no mês de dezembro, e é importante lembrar que, na série histórica, dezembro é sempre anormal", disse. "Ainda não temos os dados oficiais, mas nós vamos ter para o mês de dezembro, que na série histórica é por volta de 300 mil a 400 mil demissões, um pouco mais, talvez cheguemos a 800 mil demissões [número corrigido pela assessoria do Planalto]."

Com a confirmação da perda de aproximadamente 600 mil postos em dezembro, esse será o pior resultado desde 1999, quando foi adotada a atual metodologia para a pesquisa de emprego com registro em carteira. Embora dezembro seja um mês tradicionalmente marcado pela retração do mercado, os números flutuavam em torno de 300 mil vagas fechadas. Em 2007, o dado ficou negativo em 319.414 postos de trabalho.

Na gestão petista, o pior resultado havia sido verificado em 2004, quando o mercado perdeu 352.093 empregos com carteira assinada.

Desde o início da semana, o Ministério do Trabalho tem evitado confirmar o número de 600 mil demissões no mercado de trabalho formal em dezembro, apesar de a notícia ter surgido em entrevista concedida pelo próprio ministro Carlos Lupi no final de semana ao jornal "O Globo".

Nos dias seguintes, Lupi e sua assessoria vinham dizendo que os números não estavam fechados, pois só seriam fornecidos integralmente pelas unidades estaduais do ministério ontem.

Na terça, após reunião com Lula, Lupi chegou a antecipar a divulgação dos dados para a próxima segunda -a data inicial era o dia 21. Procurado ontem, o ministério não se manifestou.

Preocupado com a situação, o governo já adotou algumas medidas para estimular o crescimento econômico e deve anunciar outras até o final do mês (veja quadro ao lado).

Segundo Lula, é "importante" lembrar que o crescimento da geração de empregos no ano de 2008 foi "anormal para os padrões brasileiros". "Chegamos até outubro a 2,1 milhões de trabalhadores contratados e vamos fechar o ano com um saldo positivo de quase 1,5 milhão de empregos novos criados nesses 12 meses."

Questionado sobre o impasse nas negociações entre a Força Sindical e a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que vinham discutindo acordo de flexibilização trabalhista, Lula disse que se reunirá na próxima segunda-feira com representantes das centrais sindicais.

"Quero saber o que eles estão pensando, para saber o que o governo, centrais e sindicatos podem fazer conjuntamente para evitar que uma crise financeira nos EUA traga prejuízos ao povo brasileiro."

Crise "sem precedentes"

Horas antes, em discurso na Bolívia, Lula avaliou a crise internacional como algo "sem precedentes na história da humanidade" e disse que a turbulência ameaça a produção e os empregos em todos os países.

Para ele, uma saída é o investimento em infraestrutura. "Logo deverão aparecer especialistas dizendo que devemos conter custos. Mas não podemos voltar à política da década de 80, quando Bolívia e Brasil ficaram mais pobres."

Colaborou a Sucursal de Brasília

Crise chega ao Vale do São Francisco

Carolina Mandl e Bettina Barros, do Recife e de São Paulo
DEU NO VALOR ECONÔMICO

A crise econômica mundial chegou às cidades sertanejas de Petrolina, em Pernambuco, e Juazeiro, na Bahia. Com a demanda externa por frutas em queda, os produtores do pólo agrícola do Vale do São Francisco, maior exportador brasileiro de uvas e mangas, começam a demitir funcionários, reduzir a escala das culturas ou substituí-las por outras.

A uva é a cultura mais atingida. Segundo estimativas da Câmara de Fruticultura de Juazeiro, cerca de 10 mil pessoas envolvidas com as plantações foram demitidas na região desde novembro - quase um terço da força de trabalho fixa.

Os efeitos da crise econômica mundial na mesa das famílias americanas e européias já chegaram às cidades sertanejas de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA). Maior exportador brasileiro de uvas e mangas, o pólo agrícola do Vale do São Francisco sente os reflexos da menor demanda internacional por frutas. Produtores começam a demitir funcionários e até a fechar, temporariamente, as porteiras das fazendas.

A uva é a cultura que mais está sendo atingida. Segundo estimativas da Câmara de Fruticultura de Juazeiro, cerca de 10 mil pessoas envolvidas com as plantações de uva foram demitidas na região desde novembro. Isso representa quase um terço da força de trabalho fixa das fazendas de uva, que era de 30 mil funcionários até outubro passado.

Apesar de a atividade empregar 240 mil funcionários com as mais diversas culturas, a preocupação é que os cortes, atualmente concentrados na uva, possam se alastrar. "Sem vislumbrar melhoras, os empresários estão preferindo ser cautelosos e demitindo", explica José Gualberto, presidente da Valexport, associação de exportadores do Vale.

Por conta da queda de preço obtido nas exportações, que vem sendo superior à desvalorização do real, alguns produtores já desistem dos parreirais. Segundo o Valor apurou, uma das maiores fazendas da região, a Copa Fruit, estuda não mais plantar uva e dedicar-se apenas ao cultivo de manga. As terras, hoje ocupadas pelos parreirais, podem ser arrendadas. Questionado, o gerente comercial da empresa, Artur Cisneiros, negou a informação.

Na fazenda Terra do Sol, que só se dedica à uva, a opção foi por não mais produzir em áreas de baixa produtividade. "Os preços de hoje não sustentam mais isso", diz Antônio Pereira de Lucena, diretor da empresa. Segundo ele, os compradores dos EUA estão pagando em janeiro US$ 10 por caixa de uva (6 quilos), enquanto no mesmo mês de 2008 desembolsavam US$ 30. Na média, Lucena calcula que o preço este ano fique 30% inferior ao de 2008.

O Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf) admite que a situação é difícil no Vale do São Francisco e requer estratégias. "Estamos verificando o que podemos fazer em medidas emergenciais", disse Moacyr Saraiva Fernandes, diretor-presidente do instituto, sem ainda ter uma resposta à mão.

De acordo com o Ibraf, além da crise econômica mundial, a queda nos preços da uva e manga também foi resultado de um volume exportado maior que o projetado. Segundo dados divulgados nesta semana pelo instituto, o volume de uvas embarcadas pelo Brasil subiu de 79 mil toneladas em 2007 para 82 mil toneladas no ano passado, uma alta de 4%. No caso das mangas, o volume subiu de 116 mil toneladas para 133 mil toneladas, um aumento de 15%. Detalhe: Bahia e Pernambuco representam nada menos que 99% dos embarques totais de uva do país e 87% dos de manga.

Para Fernandes, a superprodução de uvas este ano na Califórnia também veio de encontro com a oferta brasileira e pode ter ajudado a complicar a situação para os produtores de Juazeiro e Petrolina. "É como ocorre com o suco de laranja. O Brasil não vende mais porque eles estão abastecidos".

Produtores que atendem o mercado interno não estão sentindo problemas. "Mas não dá para direcionar toda a uva e manga do Vale para o consumo local. Os preços também desabariam. Além disso, são frutas sofisticadas, que poucos brasileiros conseguem pagar o que ela vale", avalia Gualberto, da Valexport.

O problema já acendeu a luz vermelha nos gabinetes dos governadores da Bahia e de Pernambuco, que, juntamente com os agricultores, buscam soluções com Banco do Nordeste, Banco do Brasil e Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). O Valor teve acesso a uma carta enviada pelo governador pernambucano Eduardo Campos à Sudene, na qual propõe que as dívidas dos agricultores com o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste, vencidas em 2008 e neste ano, sejam renegociadas. Igual medida é sugerida pelos governos aos bancos. Pede-se ainda a concessão de novos empréstimos.

A interpretação do governo é que a crise é grave, mas que poderia ter sido amenizada se os exportadores tivessem diversificado um pouco mais a pauta, bastante concentrada em uva e manga. "Há diversas outras frutas que não estão sofrendo porque são produzidas em menor escala", afirma Fernando Bezerra Coelho, secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco.

A Niagro, produtora de acerola para sucos de Petrolina, não viu nem a demanda, nem os preços caírem. "Quanto mais valor se agrega, mais difícil é a entrada de concorrentes. Fazer polpas para o mercado internacional não é algo simples", diz Hugo Torres, diretor da Niagro, que tem como clientes os japoneses. Porém, sabendo do bolso mais apertado do consumidor, a empresa está mudando a forma de comercialização. "Em vez da polpa, estamos fazendo concentrados, que têm custo de transporte menor".

Montadoras do Rio dão férias coletivas

DEU NO JORNAL DO BRASIL

Com o setor automobilístico retraído pela crise, as montadoras instaladas no Rio têm optado pelas férias coletivas para não demitirem. É o caso da Volkswagen Caminhões e Ônibus, em Resende, e a Peugeot-Citröen, em Porto Real. Em São Paulo, as centrais sindicais suspenderem as negociações com empresários. Querem a presença da CUT, que não aceita reduzir os salários

Governo estuda tributar quem demitir sem aviso prévio

O cenário de retração de de- manda, provocado pela crise financeira internacional, que diminuiu o crédito nos mais variados setores, tem afetado de forma significativa o setor automobilístico. Diante disso, as montadoras de automóveis instaladas no estado do Rio de Janeiro têm optado pelas férias coletivas para não demitir funcionários.

A Volkswagen Caminhões e Ônibus informou que, até o momento, não houve demissões. Os funcionários ligados à produção, que estavam de férias desde o dia 17 de dezembro, retornaram ao trabalho segunda-feira. Os da área administrativa já haviam voltado no dia 5 deste mês. ­

-Por enquanto, esse é o status da empresa ­ afirmou a assessoria de imprensa da fábrica, que se localiza em Resende e tem cerca de 5 mil empregados.

Na Peugeot-Citroën, instalada no município de Porto Real, o nível dos estoques está acima do normal. Diante disso, a montadora optou por antecipar as férias coletivas de 2009 para manter seu efetivo. O período de férias será de 26 de janeiro a 24 de fevereiro. A empresa já havia concedido férias coletivas entre 8 de dezembro e 5 de janeiro.

A assessoria de imprensa da Peugeot-Citroën do Brasil informou que, embora o mercado de veículos tenha tido resultado positivo no acumulado do ano passado, a companhia enfrentou no Brasil queda de 25% nas vendas, em novembro, e de 20% em dezembro, em comparação com os mesmos meses de 2007.

De acordo com a assessoria, a empresa considera que as medidas de apoio ao setor automotivo, como a redução temporária do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), poderão vir a amenizar o cenário desfavorável. A montadora ressaltou, no entanto, que mesmo com as medidas o mercado doméstico permanece com desempenho inferior às expectativas. A Peugeot-Citroën tem atualmente 4 mil empregados.

Punição

Em meio ao aumento no número de demissões no país, o governo decidiu que vai cobrar contribuição previdenciária sobre os valores pagos na forma de aviso prévio indenizado aos trabalhadores que perderem o emprego. A medida vai aumentar o custo de demissão para os empregadores e reduzir a indenização paga aos trabalhadores.

Essa verba se refere aos 30 dias que são pagos pelo empregador em caso de demissão sem justa causa, quando o trabalhador é dispensado de cumprir o aviso prévio.

A mudança na regra passou a valer na última terça-feira, quando foi publicado o decreto presidencial 6.727.

Agora, ao receber a indenização, o trabalhador será descontado em relação aos valores devidos ao INSS, de 8% a 11% do salário, com um teto de R$ 334,29. A mudança também afeta os empregadores, que terão aumento de encargos, pois esse valor passará a fazer parte da folha de salários, tributada entre 20%.

A Receita ainda avalia possibilidade de fazer a cobrança retroativa do tributo, que pode atingir os benefícios pagos nos últimos cinco anos. O órgão afirmou que não faria uma avaliação política sobre o assunto e informou apenas que a mudança faz parte dos trabalhos de fusão da Receita Federal com a Receita Previdenciária.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais&portal=#

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Líderes, gerentes ou chefes

RENATO JANINE RIBEIRO
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


FHC e Lula definiram um alto padrão para a função presidencial: o de líder. É o que torna difícil imaginar Dilma na Presidência

QUATRO MANDATOS sucessivos de governantes do calibre de Fernando Henrique e Lula foram definindo um alto padrão para a função presidencial: o de líder. Esse papel é referência e modelo para quem quiser o cargo em 2010. É o que torna difícil imaginar Dilma Rousseff na Presidência. Pode ser uma boa gerente de projetos, mas não é uma líder que mobilize as pessoas. Sabe ser dura e mandar. Mas a qualidade dos dois últimos presidentes é outra: persuadir, unir, em suma, liderar.

Vamos distinguir gerente, chefe e líder. Um jornalista econômico lamentava a falta de apetite gerencial de FHC. Não concordo. Gerente pode ser o governador de São Paulo, presidenciável constante, mas a quem talvez falte a fagulha da liderança.

Um presidente tem de ir além do seu partido, e não só porque vai costurar uma coalizão, mas porque precisa lidar com um país complexo e liderar, em última análise, o próprio Brasil.

Assim foi que FHC emplacou o Plano Real, as privatizações e a posse tranquila de Lula, e Lula viabilizou uma política social mais audaz e a inclusão da esquerda entre os atores políticos aceitos no país. Fossem gerentes...

Dilma presidenta seria, apesar de seus méritos, um enorme problema para o PT. Pouco do que ela diz ou faz corresponde aos valores históricos centrais do partido. Parece mais empenhada em aumentar a produção, em articular governo e empresários.

Isso deixa um vazio de valores. É como se o meio -o crescimento econômico- se tornasse fim. E os fins -múltiplos, mesmo contraditórios- que o PT propunha? Eles somem.

Imaginemos, em seu lugar, um chefe. Fernando Haddad disputa esse papel. É o único ministro importante que tem mídia constante e favorável, graças em parte a uma ótima assessoria.

Defende uma causa nobre (educação), enquanto Dilma se dispõe, para ter energia no rio Madeira, a sacrificar bagres. Melhor educar que eliminar peixes. O plano de Haddad para a educação é bem concebido, embora reste ver se e quando será executado.

Mas um chefe não é um líder. Um chefe dá ordens, nomeia, demite. Um presidente, não. O único ministro que Lula demitiu diretamente -Cristovam Buarque, por celular- lhe custou caro.

Melhor mandar um emissário pedir o cargo. Presidentes, se forem líderes, não mandam. Falam.

Seduzem. Quem chefia um ministério pode querer que ele seja homogêneo. Já um presidente administra ministros em conflito e, além disso, precisa de pontes com a oposição.

Ouvi um político francês definir um líder: "Sua melhor qualidade é que ele descobre muito rapidamente o que as pessoas querem". Esse é um dom: o líder dá menos do que as pessoas pedem, mas isso porque elas mesmas não sabem o que desejam. Tal capacidade de escutar nada tem a ver com gerenciar ou mandar. É estratégia, não tática; é persuasão, não ordem.

Não é disciplina, é conciliação.

O Brasil não terá governos de um partido só. Estamos fadados a ter maiorias de coalizão no Congresso. O presidente da República, embora poderoso (ainda bem, senão viraria refém dos parlamentares), precisa unir da esquerda do PT até Delfim Netto.

Daí que seja tão importante ele falar.

Delega a gestão a primeiros-ministros de fato, gerentes como Sérgio Motta, Dirceu, Dilma. Eles podem dizer grosserias: "masturbação mental" (Motta), "tiro no pé" (Dilma). O presidente deve se poupar.

O PT tem um líder a propor para 2010? Difícil. Uma hipótese é viabilizar Patrus Ananias, que vive uma espantosa discrição: afinal, ele tem a pasta do Bolsa Família; mas, mineiramente calado, não se queima. Porém, a prioridade um do PT é: se este é o governo mais popular em várias décadas, por que dar a sucessão a outro partido? O PT proporá um nome de dentro, mas seu estoque é pequeno.

Por outro lado, como a prioridade dois -não do PT, mas de Lula- parece ser eleger o próprio Lula em 2014, poderia ser alguém que se contentasse com um mandato. Pois, hoje, elegemos governantes por oito anos, com um "recall" no meio. Talvez Dilma tope ficar um mandato só.

Haddad, não.

Para ele, é melhor esperar do que se queimar como Medvedev brasileiro.

A alternativa é eleger alguém de oposição. O PT sairia do governo, recuperaria as raízes, Lula seria candidato natural em 2014. Mas quem a oposição tem? Serra, seu nome óbvio, lembra Dilma. Gerente, chefe, seu forte não é a persuasão. E como FHC era bom nisso! Ele e Lula, depois e ao contrário de Collor, souberam ir além de suas identidades imediatas. Mais uma vez: esse é o papel de um líder.

Por isso, Alckmin não servia. Estava longe desse perfil elevado. Serra, com esforço, talvez se torne líder.

Haddad tem tempo para isso, mas ainda não o é. Na oposição, quem hoje parece mais talhado para líder é Aécio -que tem seu primeiro-ministro, um ótimo vice, Antonio Anastasia.

Em suma, o Brasil colocou a política acima da gerência. Acho isso bom. Custa alguma coisa deixar a gestão em segundo plano, mas custaria ainda mais gerir sem apoio político. Técnicos no poder funcionaram na ditadura. Na democracia, não bastam.

Renato Janine Ribeiro, 59, é professor titular de ética e filosofia política na USP. Foi professor visitante na Universidade Columbia e diretor da Capes (2004-2008).